Capítulo VII

Uma semana se passou antes que Bella conseguisse fazer com que o marido cochilasse na cama. Ela própria estava a ponto de des maiar de sono depois das loucuras de amor que eles haviam praticado.

Antes que se permitisse isso, porém, precisava fazer al guma coisa. Acabaria enlouquecendo se não descobrisse nada sobre o homem com quem havia se casado. Como se quisesse confundir a curiosidade dela, ele se tornava cada vez mais taciturno à medida que os dias iam passando.

Bella queria respostas.

Havia prometido que olharia apenas para o que lhe fosse mostrado, mas o enigmático marido dela não havia determinado como as coisas seriam reveladas. Assim sen do, o que ela conseguisse descobrir por iniciativa própria não quebraria a promessa.

Provavelmente ele fazia uma idéia bem diferente da situação, mas sem dúvida reagiria bem quando perce besse que ela só queria ajudá-lo. Mas como fazer alguma coisa para limpar o nome dele se ela nem sabia qual era nome?

Certamente ele estava apenas testando a engenhosidade dela ao estabelecer aquela condição.

Com dedos trêmulos Bella pegou a vela que havia escondido embaixo da cama. Por alguns instante hesitou, com sentimento de culpa, para logo depois sentir nas ancas a mão pesada do marido. Então ela conteve a respiração, achando que ele havia adivinhado tudo, mas o lorde apenas aproximou o corpo do dela, continuando a ressonar.

— Tânia — ele murmurou, com voz enrolada, ao mesmo tempo em que apertava a cintura dela.

Tânia? Tânia? Quem era Tânia? Teria ele feito amor com ela pensando em outra mulher?

Bella não precisou de nenhum outro incentivo para acionar a pedra-de-fogo. O pavio da vela se acendeu e, com a respiração contida, ela voltou os olhos para o ma rido ao mesmo tempo em que protegia a chama com a mão em concha.

Só foi possível ver de relance o semblante do lorde, porque no instante seguinte ele despertou e soltou um grito.

Bella sentiu o sangue gelar, só então percebendo o risco que havia corrido.

— Bella — ele vociferou, erguendo a mão. No mesmo instante ela fechou os olhos, esperando ser esbofeteada, mas ele apenas retirou a vela da mão dela. Apagou a chama com a ponta dos dedos antes de arre messar a vela contra a parede.

Agora ela seria castigada fisicamente. Na escuridão, sem poder ver o rosto dele. Bella ouviu a respiração descompassada do marido, que se movia na cama buscando ficar o mais longe pos sível dela. Sentindo as mãos úmidas, procurou associar o semblante que vira por um fugaz momento à voz alegre que se acostumara a ouvir.

Tarde demais Bella desejou ter resistido àquele impulso.

— Como ousou me enganar? — ele inquiriu, agora numa voz que parecia ser emitida com os lábios contor cidos. Bella encolheu-se, ciente do perigo que aquilo representava. — Como pôde descumprir a palavra em penhada? Você me prometeu solenemente!

Como Bella podia ter se esquecido do que repre sentava se expor à ira de um homem?

A pergunta do lorde ficou pairando entre eles dois, mas ela não conseguia encontrar uma desculpa para o próprio comportamento. Sabia que ele veria aquilo como uma falta muito grave, mas simplesmente não havia con seguido controlar a curiosidade.

Bella não respondeu e o marido dela se pôs de pé. Então ela conteve a respiração, sem saber como seria punida, mas percebeu que ele apenas recolhia as próprias roupas. Estava certa de que seria açoitada sem piedade, até ser finalmente deixada no chão, chorando.

Mas ele apenas caminhou para fora do quarto.

Bella ficou boquiaberta. Ele voltaria. Certamente. Só estava indo buscar a chibata com que a castigaria.

Mas o som daqueles passos logo sumiu, mostrando que ela estava enganada. Bella soltou a respiração, tremendo da cabeça aos pés.

Ele simplesmente fora embora. Usara apenas umas poucas palavras para castigá-la.

Com que tipo de homem ela havia se casado?

Com um homem que a deixava sozinha. Bella dei xou-se cair na cama. Sentia a pulsação acelerada e a garganta seca.

Ele não se encontrava mais ali e ela não sofreria fisicamente.

Enquanto os batimentos do coração iam voltando à normalidade, Bella procurou entender o que acabava de acontecer. Certamente aquele lorde era de um tipo de homem bem diferente do pai dela.

Mas era melhor pensar em outra coisa. Bella fechou os olhos e procurou se lembrar do que havia conseguido do marido. Na verdade a imagem dele parecia impressa na retina dela.

Embora enraivecido, tratava-se de um belo homem de cabelos de um ton de cobre e pele clara. As espessas sobrancelhas se juntavam numa expressão de raiva. O queixo era qua drado, denotando determinação, mas o nariz era perfei tamente afilado.

Apesar da raiva estampada naqueles olhos, Bella teve certeza de que não se tratava de um homem cruel. Na verdade ela não se lembrava de ninguém que a houvesse tratado com tanta ternura. Ela fora acolhida, alimentada, acarinhada, apresentada a uma forma de amor que nenhuma mulher poderia esperar de um desconhecido. E como havia retribuído a tanta ternura? Bella encolheu-se na cama, sentindo-se obrigada a encarar a dura realidade. Havia descumprido a promessa feita ao marido! Deliberadamente, desrespeitara o único pedido que ele fizera.

E agora ele não estava mais ali. Talvez nunca mais retornasse. E certamente isso se devia à impulsividade dela. Lágrimas de amargura começaram a rolar pelas faces de Bella. O que ela acabara de fazer? O que podia ter perdido? Quando aprenderia a controlar os próprios impulsos?

E que destino a aguardava agora?

Traição!

Edward estava enraivecido como nunca, embora a raiva se dirigisse mais a si próprio do que à esposa. Depois de ficar por algum tempo andando de um lado para outro na estrebaria ele se debruçou na baia de Mephistopheles.

— Dez vezes idiota — resmungou. — Como pude con fiar nela? Jamais devia ter confiado! Jamais devia confiar em alguém! Será que ainda não aprendi nada na vida?

Mephistopheles enfiou o focinho no saco de ração, apa rentemente alheio ao que ele dizia. Edward debruçou-se mais sobre o portão da baia, procurando chamar a atenção do animal. Precisava conversar com alguém para não enlouquecer, mas Mephistopheles parecia bem pouco interessado.

— Será que já não me basta a maldição de que fui vítima? — ele inquiriu. — Não, eu tinha que insultar uma djin e ter a maldição redobrada. Um homem pode não acreditar em sortilégios, mas nunca deve dizer isso a uma djin!

Edward sacudiu a cabeça, recriminando-se.

— Ah, mas isso não bastava! Eu tinha que confiar em Bella, por mais advertências que tenha ouvido sobre a possibilidade de ser traído!

Edward ergueu as mãos para o alto, desesperado, mas Mephistopheles continuava a mastigar pacientemente a ração.

Então ele dirigiu-se ao desinteressado alazão.

— Qualquer um diria que eu tinha um bom motivo para confiar nela. — Nesse ponto ele cruzou os braços e apertou os lábios. — Ah, sim, um motivo muito bom, e vou lhe dizer qual é! A lady é lindíssima e faz amor como nenhuma outra mulher!

Mal terminou de dizer aquilo, Edward girou nos calca nhares e pôs-se a andar de um lado para outro na es trebaria. Instantes mais tarde parou novamente diante da baia.

— Não acha que era um bom motivo para que eu deixasse o meu destino nas mãos dela?

O cavalo evidentemente não respondeu e ele abanou a mão.

— Ah, sim, eu me esqueci de que ela também gosta muito de guisado de veado.

Edward passou a mão pelos cabelos, angustiado com a constatação de que, naquela questão, ele próprio tinha sido o pior inimigo.

A triste verdade era que não sabia praticamente nada sobre Bella, mesmo já estando casado com ela há uma semana. Mesmo à noite ou de olhos vendados, encontraria sem dificuldade cada marca do corpo dela, saberia em que pontos tocar para fazê-la gemer de prazer, mas conhecia bem pouco sobre a história dela, quase nada além do nome.

Sem dúvida a lady possuía uma enorme paixão pela vida e uma agudeza de espírito que o cativavam. Edward gostava muito de ouvir o riso dela, alegrava-se com o fato de que finalmente havia encontrado uma mulher com quem podia conversar. Mas quem era ela, afinal?

Bella de Swan. Edward já ouvira falar em Swan, mas bem pouca coisa. No Oriente havia conhecido um cavaleiro daquela família, mas em nenhum momento o homem se referira a Bella.

E o que ela podia estar fazendo naquela floresta em pleno inverno? Edward não havia se lembrado de perguntar, tão atraído se sentira pelos encantos femininos da lady, tão convencido estivera de que conseguiria a libertação pelo ato de amor.

Mas agora estava provada a ineficácia daquilo. Embora ele ainda não houvesse encontrado uma explicação para o fato, continuava mudando de forma com implacável precisão sempre que o sol nascia ou se punha.

Aquilo não fazia sentido. Ele havia confiado que a se gunda djin seria capaz de salvá-lo daquela horrorosa rotina. Mulheres!

E agora, se a primeira maldição se cumprisse, Edward poderia pagar com a própria vida pela semana de paixão que vivera. Havia confiado em Bella, pelo menos o suficiente para dormir ao lado dela.

Nesse ponto ele balançou a cabeça, com pena de si próprio. Talvez merecesse mesmo morrer por ter sido tão estúpido.

Mas o pior era que não conseguia esquecer a dor que vira nos maravilhosos olhos castanhos de Bella ape nas momentos antes. Queria voltar ao quarto, consolá-la, fazê-la sorrir.

Mas que ridículo! A traiçoeira criatura simplesmente o deixara sem escapatória.

Exatamente como fizera Tânia.

Aquela lembrança não foi nada agradável. Alguém po deria até pensar que ele gostava de pensar na perfídia das mulheres, lembrar-se de que momentos antes Bella deliberadamente o enganara.

— Mas o que está acontecendo agora? — indagou Edward, falando consigo próprio. — Como foi exatamente aquela maldição maluca?

Parando de andar ele ficou olhando para o chão coberto de feno enquanto procurava se lembrar das palavras exatas.

— E façam com a pessoa de sua maior confiança leve um assassino até ele.

Quando o som daquelas palavras sumiu, Edward voltou para Mephistopheles os olhos angustiados.

— Pelas chagas de Cristo! Nenhum homem devia ser submetido a isso! É bem verdade que eu não revelei nada, mas agora ela já conhece o meu rosto e pode mandar um assassino no meu encalço!

Mephistopheles enfrentou o olhar fixo de Edward. Depois abanou as orelhas, como se também se esforçasse para entender aquela situação complicada. Finalmente voltou a mastigar, como se houvesse perdido o interesse no assunto.

A mente de Edward trabalhava freneticamente. E se Bella houvesse conhecido um dos familiares dele? Nesse caso, prontamente adivinharia quem ele era. Afinal de contas, não era uma tonta.

Edward conteve a respiração, alarmado.

— Um assassino, um assassino virá a mim — balbu ciou, franzindo a testa e voltando a andar. — Mas quem? E por quê? — Segundos mais tarde ele parou diante da baia e olhou novamente para o cavalo, tirando as mais angustiantes conclusões. — E se ela não quiser nada além deste palácio? Talvez tenha se separado de um amante na floresta a agora queira viver com ele aqui, em pleno conforto. Tânia não pensava em nada além dos próprios interesses. Por acaso Bella é diferente? Edward conhecia muito bem a resposta para aquelas perguntas. Com a mão esquerda ele apertou o punho direito cerrado.

— Idiota que sou, agora estou nas mãos dela! Um casamento do qual ninguém tomou conhecimento! Só ela sabe onde eu durmo todas as noites!

Apavorado, Edward segurou no portão da baia com as duas mãos. Àquela altura, não tinha mais dúvida de que a maldição se cumpriria.

A questão era como se proteger de um inimigo invisível.

— Preciso deixar este palácio — ele disse, olhando para trás. Mephistopheles simplesmente ignorou a agitação do dono, continuando a comer com toda calma. — É o único lugar em que o assassino esperaria me encontrar.

Edward estendeu a mão e cocou as orelhas do cavalo, sabendo que não podia perder tempo. Mas o que seria do cavalo quando ele mudasse de forma no dia seguinte?

— Adeus, amigo — ele disse. — Voltarei para buscá-lo, se for possível.

Mephistopheles, porém, continuava aparentando desinteresse pelo que o dono pudesse fazer ou deixar de fazer.

Edward correu para fora da estrebaria, um tanto temeroso de encontrar algum inimigo pelo caminho. Surpreen dendo a si próprio, parou diante do enorme portão e olhou para trás. O palácio repousava serenamente ao luar, a fraca luminosidade dando a impressão de que se tratava apenas de uma ilusão etérea.

Edward conteve a respiração quando ouviu o som fraco, mas claro, de soluços femininos. Sentiu o coração apertado, mas sabia que não tinha escolha. Bella o traíra, assim como fizera Tânia... Sem dúvida pensando apenas nos próprios objetivos. Ele devia ter se lembrado da advertência da djin.

Não o encorajava nada saber que se afastar daquele som lamentoso seria a coisa mais difícil que faria na vida.

O amanhecer trouxe um pouco de razão a uma insone Bella. A raiva do marido pareceu menos ameaçadora depois que a luz do sol invadiu o quarto.

Bella pensou no fato de que não fora maltratada pelo marido. Na noite anterior ele não havia erguido a mão para castigá-la, apesar da transgressão, e era pouco provável que viesse a fazer isso.

Com o medo afastado, a questão agora era encontrar uma forma de aplacar a ira dele. Bella sentou-se na cama e franziu a testa, pensativa.

Naturalmente não tinha feito uma coisa inespera da. Ele já devia saber o quanto ela era curiosa, devia ter adivinhado que procuraria um jeito de vê-lo ape sar da proibição.

Ora! Até um idiota perceberia que as intenções dela tinham sido as melhores possíveis!

E Bella já tivera provas de que o marido era um homem inteligente, além de ser possuidor de um agudo sendo de humor. Certamente uma noite de solidão seria suficiente para acalmá-lo, torná-lo disposto a ouvir as explicações dela. Afinal de contas, uma boa conversa en tre duas pessoas sempre servia para restabelecer a har monia. Bella tinha certeza de que ele aceitaria os argumentos dela.

Sentindo um arrepio causado pela brisa da manhã, ela rapidamente se vestiu. Como não achou muito apro priado ir à procura do marido usando as roupas novas que ganhara dele, preferiu vestir as velhas.

Depois de pôr o pesado manto sobre os ombros, saiu caminhando pelo corredor, reparando que naquela manhã as coisas pareciam um tanto diferentes. Ela não ouvia, por exemplo, o murmúrio da fonte.

Bella deu de ombros e resolveu não investigar aquilo. Estava ansiosa demais para reencontrar o marido. No instante em que pisou no jardim sentiu no nariz um floco de neve e parou. Então olhou em volta, espantada. Tudo ali havia se transformado. Os antes floridos can teiros haviam desaparecido por baixo de um tapete de neve. Uma lâmina de gelo havia se formado na superfície da piscina e as lindas flores vermelhas de que ela tanto gostava estavam murchas em função da mudança do tempo.

Era a primeira vez que fazia tanto frio desde a chegada dela. Na verdade, o tempo parecia estar exatamente igual ao que ela vira no lado de fora do palácio. O que significava aquilo?

Bella sentiu um nó na garganta. Só podia haver uma explicação. Ele fora embora.

O coração dela começou a bater de forma descompas sada por causa da certeza de que tinha sido abandonada pelo marido. Agora não tinha nem a chance de dar uma explicação!

Bella correu para a estrebaria. Quando viu que os dois animais continuavam em suas baias, sentiu os joe lhos trêmulos de alívio e pôs a mão no batente da porta para se equilibrar.

— Bom dia, Mephistopheles — ela disse, com a voz meio trêmula. — Já viu seu dono esta manhã?

Mephistopheles dirigiu a ela um olhar acusador, a res piração dele espalhando uma nuvem de vapor no ar ge lado. Bella viu alguns cobertores dobrados perto de onde estavam os equipamentos do marido e rapidamente cobriu o lombo dos dois animais.

Os equipamentos do marido dela. Bella examinou aquelas peças, desejando entender mais de equipamentos militares. Aparentemente não faltava nada.

Significaria aquilo que o marido não a havia abandonado?

Era impossível ter certeza, mas ela vasculharia cada canto do palácio para descobrir.

— Está na hora da nossa cavalgada diária, Mephis topheles — disse Bella, erguendo a sela do chão.

Se o lorde ainda estivesse ali, talvez ela o encontrasse em algum lugar do enorme quintal do palácio. Se ele não estivesse, ela arranjaria um jeito de abrir aquele portão para começar uma busca.

Nenhum marido a condenaria sem antes ouvir a ex plicação que ela tinha para dar!

Bella não demorou para confirmar o que havia sus peitado o tempo todo. Estava sozinha no palácio.

E aparentemente presa.

O jeito seria investir contra o portão. Se o marido havia partido, ela teria que sair para ir à procura dele. Do contrário não poderia se explicar.

Onde procurar seria uma questão a ser resolvida quan do ela estivesse no lado de fora. No momento era preciso descobrir como abrir aquele portão.

Em geral qualquer portão podia ser aberto. Aquele, porém, não tinha nada visível que permitisse abri-lo ou fechá-lo. Não havia trinco, ferrolho, fechadura... Nem mesmo dobradiças. O portão simplesmente se ajustava com perfeição à abertura no muro. Bella se lembrava de que ele se abrira no meio, as duas folhas se voltando na direção do jardim.

Ela se lembrava também de que, antes, apenas pala vras haviam servido para que aquele portão se abrisse. Então pôs as mãos na cintura e falou no tom mais autoritário que conseguiu.

— Exijo que esse portão seja aberto imediatamente.

A única resposta foi o silêncio. Bella repetiu a exi gência, mas sem resultado. Resolveu mudar de tom, fazendo o pedido em tom de súplica, mas nada parecia adiantar.

Finalmente pôs-se a esmurrar a porta do que parecia compartimento do porteiro.

— Eu quero sair — gritou. — Casei-me com o seu lorde, como lhe prometi, e agora quero sair!

A neve continuava a cair, transformando o antes primaveril jardim numa paisagem de inverno.

Bella chutou e golpeou o pesado portão com os pu nhos cerrados, amaldiçoando quem quer que houvesse construído aquela barreira aparentemente inexpugnável.

— Minha promessa foi cumprida! Exijo ser libertada!

Nenhuma voz respondeu aos gritos dela.

— Ele nem está aqui — ela argumentou, frustrada. — Não existe nenhum motivo para me manter sozinha neste lugar!

O portão continuou teimosamente imóvel. Bella recuou e limpou as mãos uma na outra. De pois ergueu a cabeça.

— Pois muito bem — ela resmungou. — Já que sou obrigada a usar a força, então que seja assim. — Fazendo uma pausa ela apontou o dedo para o inanimado portão.

— Depois não venha dizer que eu não avisei.

Já era meio-dia quando Bella conseguiu reunir tudo o que considerava útil para o que pretendia fazer. Jun tando todas aquelas coisas, levou-as para perto do portão. O sol estava obscurecido por uma barreira cinzenta de nuvens e ela tremia de frio por baixo do manto enquanto examinava o ajuntamento de instrumentos.

A primeira providência seria tentar arrebentar a fe chadura, resolveu Bella. Então ela pegou um punhal e se voltou rapidamente para o portão, como se pudesse surpreendê-lo.

Mas não havia sinal de fechadura, claro.

Bella fez uma careta e olhou com mais atenção para a linha onde as duas folhas do portão se encontra vam, de cima abaixo, esperando ver a lingüeta de uma fechadura embutida. Ou o espaço era muito apertado ou as duas folhas se encaixavam perfeitamente uma na ou tra, de forma que ela não conseguiu ver nada.

Bem, pela lógica a tal lingüeta devia estar na metade da altura do portão, mais ou menos no mesmo nível dos ombros dela. Bella enfiou ali o punhal, o mais profundamente que pôde.

A ponta da lâmina se partiu.

A parte quebrada nem ficou presa à apertada fresta do portão. Em vez disso caiu no chão coberto de neve, tão subitamente que Bella até pensou que o portão havia cuspido o pequeno pedaço de metal.

Mas não tinha importância. Ela havia levado uma lâ mina maior.

A opção seguinte foi a adaga do marido. Bella re cusou-se a se abater quando aconteceu com a adaga a mesma coisa que havia acontecido com o punhal.

Obviamente ela precisava de uma arma mais resistente.

Teve que fazer um certo esforço para erguer a pesada espada do marido mas conseguiu elevá-la até a altura dos ombros, apontada para a frente. Em seguida investiu contra o portão.

Para alegria dela, a lâmina cravou-se exatamente no minúsculo espaço entre as duas folhas de madeira. Bella jogou para frente todo o peso do corpo para que a lâmina penetrasse ainda mais. Saboreou um instante de satisfação, mas logo ouviu o estalo do aço se quebrando.

A lâmina se soltou do cabo e ela perdeu o equilíbrio, torcendo levemente o tornozelo. Então deu graças aos céus. Felizmente o lorde não estava presente para ver o estado em que ficara a espada dele.

A julgar pelas marcas na lâmina, aquela espada tinha sido uma arma muito útil para ele. Bella massageou o tornozelo enquanto pensava. Evidentemente aquele portão não era igual aos outros.

A força de Mephistopheles foi requisitada para ajudar na tentativa de escapar. Sendo uma criatura de compreensão limitada, porém, ele se recusou a participar com Bella de um último e direto assalto ao portão. A idéia dela era eles dois juntos partirem correndo de uma certa distância e jogarem contra as folhas de madeira o peso do próprio corpo. Talvez assim ele se abrisse. Em todas as tentativas, Mephistopheles parava a cerca de um metro do portão. Diante daquela teimosa recusa em colaborar, Bella se viu obrigada a adotar um outro método para escapar.

O animal foi posto para trabalhar arrastando móveis pela neve até o muro. Com certa dificuldade ela ia em pilhando caoticamente aquelas peças na tentativa de alcançar o topo do muro.

Quando achou que a pilha de móveis tinha uma altura suficiente, soltou as rédeas de Mephistopheles e começou a escalada. Um baú rangeu perigosamente, sem dúvida acusando excesso de peso, mas mesmo assim ela pros seguiu na subida.

Quando chegou no alto, abriu um sorriso triunfante.

— Quando estiver no outro lado, abrirei o portão para que você saia — ela prometeu, confiante, acenando para Mephistopheles.

Àquela altura o animal estava coberto por um manto branco de neve.

Bella ergueu o braço na tentativa de alcançar o topo do muro. Percebeu que faltavam apenas alguns centímetros e pôs-se na ponta dos pés, mas isso de nada adiantou. Não conseguia alcançar o topo.

Mas estava perto. Muito perto.

— Só mais um — ela gritou para o cavalo. — Só pre cisamos de mais um móvel para que esta pilha fique numa altura suficiente.

Bella desceu do amontoado de móveis e levou Me phistopheles de volta ao palácio.

Logo viu uma mesa de uma madeira rosada que parecia perfeita. Era um móvel razoavelmente alto e sem dúvida leve.

Bella arrastou a mesa até o jardim e amarrou-a com uma corda. Mephistopheles sacudiu as orelhas, mas obedientemente levou o móvel até o muro.

Depois de refazer a pilha, tomando o cuidado de pôr os móveis maiores por baixo, Bella iniciou uma nova escalada.

— Desta vez vai dar certo! — ela exclamou, com ale gria, comemorando antecipadamente a escapada.

Quando pisou na cadeira, o último dos móveis empi lhados, abriu ainda mais o sorriso. Estava quase livre!

Bella ficou de pé na cadeira e voltou-se para olhar mais uma vez para o palácio. Era um lugar bonito, mas mesmo assim uma prisão. Então ela se voltou para o muro.

Ergueu os braços, mas constatou que continuava com a ponta dos dedos a poucos centímetros do topo do muro. Outra vez ficou na ponta dos pés, mas de nada adiantou. Não conseguia alcançar o topo.

Como aquilo podia estar acontecendo?

A mesa acrescentada à pilha tinha pelo menos uns oitenta centímetros de altura. Como era possível ela con tinuar sem alcançar o topo? Bella fez nova tentativa e viu-se obrigada a confrontar a ilógica realidade.

Não estava mais perto do que quando havia subido na pilha sem a mesa. Como o topo do muro podia sempre estar a poucos centímetros dos dedos dela?

E como o portão se abrira sem a intervenção de um porteiro?

Se não existia porteiro, de onde saíra a voz que havia negociado a entrada dela? Se existia um porteiro, onde ele estaria escondido?

Bella sentou-se na cadeira e cruzou os braços. Flocos de neve caíam no rosto e nos ombros dela e emaranhavam-se nos cabelos. Por um bom tempo ela ficou olhando para o jardim, observando a neve que se precipitava do céu.

A propósito, como o tempo podia, de um dia para o outro, ter mudado de um intenso verão para um rigoroso inverno? Sem dúvida aquele era algum lugar enfeitiçado. E ela, por puro azar, estava presa lá dentro.

Outra vez Bella olhou para o topo do muro, espantando-se com a aparente proximidade. Depois respirou fundo e aprumou o corpo, determinada.

Talvez não houvesse calculado direito a distância. Tal vez mais alguma coisa naquela pilha de móveis fizesse toda a diferença.

Instantes mais tarde ela caminhava de volta ao palácio, seguida de perto pelo conformado Mephistopheles. Quan do eles chegaram à entrada do vestíbulo o animal não parou, entrando com ela.

Bella olhou em volta e dirigiu-se a um banquinho que havia perto da parede. Era uma peça leve e ela nem precisaria da ajuda do cavalo para levá-la até o muro.

Mas o banco parecia grudado no chão. Bella pu xou com força e subitamente ele se soltou, fazendo-a cair no chão.

Agora era demais.

— Lugar amaldiçoado — ela gritou, com os punhos cerrados no chão. — Que se danem os lobos, o portão, o meu marido e aquele ridículo muro! Que se dane tudo que existe aqui!

Mephistopheles relinchou. Bella virou-se a tempo de vê-lo erguer a cauda para se aliviar bem no meio do vestíbulo.

Ela juraria ter visto um brilho de malícia nos olhos do cavalo. Então riu com vontade, esquecendo-se da raiva para ver na ação animal apenas um reflexo do que ela própria gostaria de fazer.

Bella estava quase parando de rir quando Mephis topheles bufou e sacudiu a cabeça, como se estivesse in comodado por algum cheiro fétido. Em seguida o animal virou a cabeça e pareceu ofendido com o que viu por trás das próprias patas traseiras. No instante seguinte trotou para fora do palácio, com a cabeça orgulhosamente erguida.

Olhando para aquele monte de esterco no meio de tanto luxo, Bella passou a rir de uma forma quase histérica. Inesperadamente, pensou na expressão de horror que James faria se estivesse ali. Depois pensou em como Sam Uley apertaria os lábios e torceria o nariz.

Era impossível parar de rir.

E a tímida esposa de Sam, sempre pronta a agra dar, sempre disposta a remover qualquer coisa que pu desse ofender o marido. Provavelmente a mulherzinha procuraria esconder o esterco com a própria saia para que Sam Uley não visse aquilo.

Lágrimas de riso escorriam pelas faces de Bella. Ela ria tanto que até já sentia as costelas doendo.

E Aro Volturi? O suserano ficaria engraçadíssimo. Agora as gargalhadas dela se deviam à visão imaginária de uma cena semelhante em pleno salão do Castelo Aro Volturi! Com os olhos soltando chispas e o pescoço muito verme lho, o lorde apontaria o dedo trêmulo para o ofensivo monte de esterco. Perguntaria aos gritos quem era o res ponsável por aquilo, o que faria tremer tanto a criadagem quando a louça no armário.

Bella pensou no brilho de cumplicidade que veria nos olhos de Jacob e imediatamente parou de rir.

Jacob provavelmente estava morto.

Bella sentou-se no chão e abraçou as pernas do bradas, sentindo a dor da solidão.

Se não fosse por nada, ela e Jacob tinham tido um ao outro naqueles últimos dois anos. Agora estava outra vez sozinha, como tinha estado a maior parte da vida. Lágrimas de dor toldaram os olhos de Bella enquanto ela olhava em volta à procura do véu que havia tirado da cabeça.

Foi quando viu o livro.

Com capa verde-escura de couro e letras douradas na lombada, aquele livro parecia diferente de qualquer outro que ela já tivesse visto. Estava jogado no chão perto da parede, por baixo de uma cadeira.

Engatinhando até lá ela o apanhou.

Era um volume bem grosso e estava coberto de poeira. Bella virou-o, soprou o pó e tossiu quando uma nuvem cinzenta a cercou. Cautelosamente abriu o livro e fez uma careta de desgosto quando viu o conteúdo. A cali grafia era bonita, mas as palavras estavam escritas em caracteres que ela não conhecia.

Lamentando não poder ler aquele livro, Bella tocou com a ponta dos dedos na página aberta. As letras se embaralharam por alguns instantes, como se estivessem saindo de foco, depois se arrumaram para formar pala vras em latim, um idioma que ela dominava muito bem. Bella fechou e abriu os olhos, mas a escrita continuou legível. Então ela fechou o livro e voltou a abri-lo, apenas para constatar que as palavras ali contidas não haviam voltado à forma original.

Bem, nada mais a surpreenderia naquele lugar. Bella cuidadosamente virou a primeira página e começou a leitura.

"Era uma vez, há muito, muito tempo, duas irmãs gêmeas filhas de um djin e sua esposa. Esta é a história de Rachel e Rebecca, filhas gêmeas de Alice e Jasper. Elas eram muito parecidas no físico, mas não no temperamento."

Bella fez um ar de desapontamento. Aquela era uma fábula para crianças, sem dúvida uma história me losa de magia e feitiço.

Magia.

Bella franziu a testa ao pensar naquilo. Magia. Então ela fechou o livro e o pôs sobre a cadeira. Naquele momento não tinha tempo para ler, mas o livro a fizera ter uma idéia.

Se aquele era um palácio encantado, talvez algum tipo de magia fosse capaz de abrir o portão. A idéia parecia cada vez mais atraente.

Bella olhou para o céu nebuloso quando chegou correndo ao jardim. Mephistopheles pastava placidamente num dos canteiros, afastando com o focinho a neve que cobria as plantas.

Naquele dia ela teria um bom tempo para experimen tar alguns sortilégios, e mais tempo ainda à noite. Isso depois de limpar a sujeira que Mephistopheles havia deixado no vestíbulo e levar de volta ao castelo os móveis empilhados ao lado do muro.

Subitamente a vida antes vazia de Bella parecia cheia de tarefas. Ela precisava se apressar se pretendia pôr em prática suas habilidades de bruxa amadora.

Edward levou o dia inteiro para se convencer de que nenhum assassino o seguia. Aparentemente não estava fadado a morrer naquele dia.

Mesmo assim, certamente havia entrado em algum tipo de inferno. Saber que não tinha nenhuma culpa na quilo não servia em nada para reanimá-lo.

A solidão o atormentava como nunca. Na certa aquilo se devia ao frio da floresta, enquanto no interior do pa lácio fazia uma agradável temperatura de verão. No íntimo, porém, ele não estava muito certo disso.

Havia encontrado uma torre abandonada não muito longe do palácio. Imediatamente resolveu que passaria ali a noite, embora não estivesse disposto a dormir.

Em vez disso, ficou andando de um lado para outro. O barulho do vento o irritava como nunca, talvez até mais que a solidão da torre. O pior de tudo era não ter a com panhia de um humano, nem de dia nem de noite. O que ele mais queria era pelo menos por alguns segundos ouvir o riso de Bella, ou os passos dela subindo a escada.

Naturalmente a solidão dele não tinha nada a ver com Bella. Não, seria absurdo uma mulher afetá-lo tanto de pois de apenas uma semana de convivência. Não seria lógico. Assim como também não seria prudente. Edward lem brava-se muito bem das traiçoeiras carícias de Tânia. Será que ainda não havia aprendido o quanto as mulheres podiam ser cruéis?

Não, não era da companhia de uma mulher que ele precisava, nem mesmo da de Bella. Queria simples mente ter contato com alguma pessoa humana. E tinha certeza de que não era Bella o motivo daquela falta de sono.

Foi assim que ele ficou caminhando pela torre, noite após noite, tentando ver algum sentido nas mudanças que sofria. Talvez quando ficasse mais velho aquela necessidade de companhia se dirigisse às mulheres. Talvez chegasse a hora de deitar raízes, constituir uma família, ter um lar.

Na verdade ele só havia pensado em ter um lar ao levar aquele amaldiçoado presente para Emmet.

Mas Bella dera uma dimensão diferente ao as sunto e agora ele queria ter direito aos toques dela todos os dias.

Aos toques de uma mulher, corrigiu-se Edward, enraive cido consigo próprio.

Mesmo assim ele não parava de pensar nas vezes em que havia tocado na pele macia de Bella. Lembrava-se das sensuais curvas do corpo dela, tão diferente do dele. Revia o brilho daqueles olhos castanhos e ouvia mental mente o delicioso som do riso dela enquanto eles conver savam na cama.

Só precisava fechar os olhos para sentir o delicioso perfume da pele dela. O mais fácil de tudo era se lembrar do gosto do beijo e desejar experimentar novamente aque le gosto.

Sempre que conseguia dormir, Edward era atormentado por sonhos em que fazia amor com Bella, apenas para despertar em seguida com as mãos apalpando o vazio. O frio da torre e a certeza de que estava sozinho sempre o impediam de conciliar o sono.

Uma noite, talvez inconscientemente, aproximou-se do muro do palácio. Quando se viu parado, tentando ouvir algum barulho característico de Bella, sentiu o pescoço quente de embaraço.

Mas a verdade era que se sentia solitário como nunca. Edward encostou a testa no muro e silenciosamente reco nheceu que estava confuso.

O que a djin boa havia prometido a ele? Finalmente, por força de um poder superior, que esse feitiço seja que brado em nome do amor.

Amor. Pelo que Edward sabia, o amor era uma coisa puramente física. E incrivelmente deliciosa, principal mente para um homem que tivesse a sorte de passar uma noite com Bella.

Mas ela havia declarado que desejava se casar com um homem que a amasse. Parecera confusa quando Edward falara em confortos materiais. Por acaso não dava a mes ma importância às duas coisas?

Seria possível Bella ser diferente de Tânia?

Teria ele julgado erradamente a própria esposa?

Edward sentiu um arrepio e atribuiu aquilo ao frio que fazia. Mesmo assim, precisava reconhecer que talvez não houvesse entendido bem o significado da palavra "amor".

Pelo menos Bella parecia entender mais do assunto do que ele.

Ou seria aquilo uma simples desculpa para voltar a vê-la?

Edward franziu a testa e concluiu que o casamento era a melhor forma de encontrar o amor, fosse qual fosse aquele sentimento. A mãe dele havia declarado que amava o ma rido, embora ele sempre houvesse pensado que ela se re ferira ao ato de gerar filhos. Bem, talvez estivesse enganado.

Por outro lado, Bella parecia gostar muito dos toques dele. Talvez não fosse muito difícil convencê-la a amá-lo.

Edward sentiu o coração acelerado.

Sim, por que não? Ela ria das brincadeiras dele, assim como se mostrara emocionada por receber flores ofereci das por ele. Além disso eles estavam casados e ela havia insistido que o amor devia fazer parte do casamento.

Tudo parecia perfeito.

No mínimo valeria a pena tentar.