CAPÍTULO 7: AINDA EM PONDEROSA

_ Não há nada errado com os seus rapazes, Ben – O Doutor Martin afirmou ao descer as escadas da grande sala da casa dos Cartwright _ Além de um leve rubor natural de um passeio sob o sol quente do deserto e que Joe poderia ter um pouco mais de carne sobre seus ossos, eles estão bem - velho médico parou diante da mesa pesada de carvalho e serviu-se de uma dose de conhaque.

_ Você tem certeza, Paul? – o homem estava visivelmente preocupado e um tanto incrédulo no diagnóstico _ Tem certeza de que não há nada de errado com eles?

_ Certeza absoluta, velho amigo _ Paul Martin acomodou-se na cadeira e saboreou outro gole de sua bebida _ Estão fortes como cavalos!

_ Mas não é isso o que me preocupa... – Benjamin levantou-se e contornou a mesa do escritório, parando diante do médico e encarando-o seriamente _ E sobre aquilo... Digo... aquela história maluca...

_ Sobre as moças do futuro? – Paul ergueu os olhos sorrindo _ Não se preocupe com isso, Ben.

_ Você falou com eles a respeito?

_ Sim, claro – Dr. Martin tomou outro gole antes de continuar _ Eles são jovens, Ben. Quando eu era jovem também teria dito qualquer sandice para evitar uma bronca ou uma bela surra, se é que me entende...

_ O que você quer dizer? – o patriarca ergueu as sobrancelhas escuras _ Meus filhos mentiram para mim? É isso?

_ Eu não diria que os rapazes mentiram, meu amigo – Doc levantou-se e circulou lentamente pela sala _ Eu diria que seus meninos apenas exageraram um pouco para evitar que você ficasse furioso com o fato deles terem trazido todas aquelas moças para casa sem o seu conhecimento.

_ Eles lhe disseram isso? – Benjamin Cartwright usava um tom rosado de fúria em seu rosto.

_ É óbvio que não – o velho médico depositou o copo vazio sobre a mesa pequena e levou as mãos aos bolsos das calças _ Eles repetiram a mesma história que disseram a você.

_ Então?

_ Depois que terminei meu exame sobre seus garotos, fui até os aposentos de suas recentes hóspedes – Ele riu e piscou para o amigo _ Devo dizer-lhe que seus filhos são verdadeiros cavalheiros e tem muito bom gosto no que diz respeito ao sexo frágil.

_ Paul... – Ben cruzou os braços sobre o peito largo e encarou o médico.

_ Se você prometer que não fará um tumulto sobre tudo...

_ Vá logo ao ponto.

_ Conversei com as senhoritas que me garantiram que seus rapazes as encontraram no deserto e as trouxeram aqui porque perderam seu transporte e estariam mortas a essa hora caso eles não as tivessem socorrido. Elas também afirmaram que os garotos estavam preocupados coma sua reação à presença delas, então, eles disseram-lhe algo tão chocante que o faria ficar sem ação, evitando assim, um confronto diante delas.

_ Meus filhos? Inventaram essa loucura de moças do futuro? É isso que está tentando me dizer?

_ Você entendeu.

_ Eles não estão com insolação ou tão desidratados que os tenha feito perder o juízo?

_ Não. Estão todos perfeitamente saudáveis e, posso garantir-lhe que as moças também, pelo que pude observar – depositou a mão sobre o braço direito do Cartwright e chegou mais perto _ Foi só uma brincadeira, Ben. E eu espero que você não castigue os rapazes. Eles tiveram boa intenção.

_ Você tem certeza?

_Sim, eu tenho certeza. Eu preciso ir agora. Fique tranquilo e isso – entregou um pequeno envelope de papel _ é para Hop Sing. As moças disseram que o pobre chinês está em suas calças por ter tantos hóspedes inesperados. Vai acalmá-lo e talvez ele não os envenene a todos no jantar.

_ Obrigado por vir, Paul – o homem alto acompanhou seu amigo até a porta e despediu-se.

Do alto da escada, o diálogo entre os dois homens mais velhos era observado pelo grupo ansioso. Tanto as moças como os jovens esperavam que o bom doutor pudesse aplacar a fúria de Ben Cartwright. Todos respiraram aliviados quando viram o patriarca sentar-se pesadamente sobre o sofá estampado e fitar o fogo que ardia na lareira. Sua expressão ainda incrédula não revelava qualquer rancor.

Aos poucos, todas as moças desceram, em fila indiana, a escadaria de madeira, agora vestidas em calças compridas e com as camisas mais fechadas que puderam encontrar em sua bagagem reduzida. Não houve como evitar os tênis, mas ninguém acreditava que o homem grisalho fosse dar conta dos calçados estranhos, diante de tanta novidade.

Elas observaram a figura imponente que ainda não havia percebido a sua chegada. Permaneceram em silêncio, como um bando de crianças que espera resignadamente para levar uma bronca por suas travessuras. Ninguém falou até que Benjamin ergueu o olhar em sua direção.

_ Nós não pretendíamos causar-lhe nenhum transtorno, senhor – Maria falou primeiro.

_ Nem provocar este tumulto na sua casa... – Crica completou.

_ Seus filhos nos ajudaram quando poderiam apenas ter seguido o seu caminho – Virgínia veio para a conversa, assustada ainda.

_ Se não fosse por eles, poderíamos estar mortas lá fora – Ana declarou _ Ou pior...

_ Isso não desculpa o fato de meus filhos terem mentido para mim _ Ben ergueu-se e apanhou o cachimbo que estava sobre a mesa no canto, acendendo-o _ Eu não os ensinei assim.

_ Mas eles não mentiram! – Penny elevou o tom de voz, sem querer _ Me perdoe, eu não pretendia ser mal educada, mas os rapazes não mentiram. Eu penso que eles apenas interpretaram mal algo que dissemos.

As moças haviam combinado no andar de cima, numa reunião de emergência num dos quartos, enquanto aguardavam a chegada do médico, que mudariam a versão de sua origem no tempo para evitar maiores problemas para os rapazes.

_ E o que vocês, jovens, poderiam ter dito que levou meus filhos a crerem que vocês pertencem ao futuro?

_ Nós dissemos isso a elas _ Sílvia informou quase num sussurro _ Fomos nós que inventamos isso.

_ E estamos muito envergonhadas _ Bonanzer aproximou-se _ Nós pedimos desculpas, senhor Cartwright, pela nossa falta de juízo. Nós precisávamos de ajuda e seus filhos surgiram...

_ O senhor pode imaginar o que pensariam de nós, da forma como estávamos vestidas, sozinhas no deserto... – foi a vez de Ana apelar ao coração do ancião.

_ Meus filhos são homens de bem! – o velho pareceu irritado nessa hora _ Jamais as tratariam com desrespeito, não importa o que façam para ganhar a vida!

_ Nós podemos partir agora mesmo, senhor – Maria interveio.

_ Ninguém irá a lugar algum, senhorita! – Aquela voz poderosa poderia explodir os ouvidos de qualquer um _ Adam! Hoss! Joseph! Desçam aqui imediatamente!

Os três filhos quase caíram um sobre o outro ao grito poderoso do pai. Todos estavam à espreita, por trás da parede no alto da escada.

_ Pai... – Adam foi o primeiro a se manifestar, mas calou-se diante do gesto do pai.

_ As moças já explicaram o que aconteceu - silêncio- Eu espero que esse tipo de comportamento, no mínimo, infantil não se repita.

_ Sim, pai – foi o coro masculino que respondeu, soltando o ar que andou preso no meio da garganta.

_ Não quero mais ouvir essa loucura e não admitirei mais qualquer mentira aqui, estamos entendidos?

_ Sim, senhor...

_ Essas moças tem mais coragem em seu dedo mínimo do que todos vocês juntos – Benjamin apertou os olhos em reprimenda a seus filhos _ Não sou um homem preconceituoso. Vocês sabem disso! Eu jamais negaria abrigo a quem quer que estivesse em necessidade, mesmo... Mesmo moças... moças com...

_ Com o que pai? – Hoss quase rezou para que seu pai não concluísse seu pensamento.

_ Com um espírito tão livre!

_ Certamente, pai – O filho do meio sorriu aliviado_ Podemos jantar agora? Estou faminto!

_ Claro que sim – o pai indicou a mesa _ Não creio que haja espaço para todos à mesa, mas sempre poderemos nos ajeitar. Hop Sing!

O criado saiu correndo da cozinha com cara de poucos amigos, já trazendo duas travessas enormes, lotadas com legumes e um assado de bom tamanho. A comida, louça e talheres foram depositados na mesa de jantar e cada qual serviu-se, sentando-se onde era possível. Depois da refeição, algumas das moças se encarregaram da louça. Em sua estratégia, o auxílio ao cozinheiro com a limpeza poderia amenizar sua fúria e trazê-lo para o seu lado.

Não houve muita conversa depois do jantar. A família e suas hóspedes encontravam-se no limite de suas forças. Assim que tudo foi arranjado, recolheram-se e as luzes foram apagadas.

O dia seguinte passou sem maiores perturbações. Os rapazes saíram cedo, tomando seus afazeres e Ben ocupou-se das moças em casa. Ele as levou ao curral onde alguns peões quebravam cavalos bravos e caminharam pelos arredores da casa grande, ouvindo atentamente as explicações do rancheiro. Tudo era idêntico ao que sempre viram na TV.

Á tardinha, Adam retornou sozinho, antes dos irmãos e parou diante do cocho. O rapaz não tinha percebido os três pares de olhos que, silenciosos, o observavam da rede pendurada na varanda. Ele retirou o chapéu e, cuidadosamente, depositou-o sobre o travessão; soltou os botões da camisa preta num movimento lento e ritmado, como se estivesse em câmera lenta; expirou o ar com força, revelando o seu cansaço; puxou a fralda da camisa de dentro das calças e puxou as mangas para trás, exibindo o ombro torneado. Não tardou para que seu peito largo fosse exposto. Com as mãos em concha, apanhou um punhado de água que lavou o rosto e mais outro que varreu suas costas depois de molhar a nuca. As gotículas refletiam em sua pele clara, caminhando por entre os fios escuros do tórax e escorregando pelos contornos bem feitos dos músculos até desaparecerem na fronteira do cinto de couro.

As pobres moças, admiradoras do moreno alto, quase engasgaram com o ar. Sílvia e Ana tinham um brilho estranho no olhar. Um brilho quase predatório, enquanto Bonanzer não conseguia mais manter o ritmo da respiração. Ainda silenciosamente, elas observavam e registravam em sua memória cada movimento, cada sensação.

_ Senhoras... – Adam percebeu sua plateia e não perdeu o charme, jogando a camisa suada sobre o ombro e caminhando na direção da porta da frente naturalmente.

A pesada porta de carvalho bateu atrás do rapaz. Nenhuma das amigas ainda tinha conseguido mover um único músculo, até que Penny apareceu.

_ Meninas, "Pa" pediu para lembrá-las que o jantar será servido às seis, à francesa novamente – então a mocinha reparou no estado letárgico das outras _ Olá... Tem alguém aí? Ei! O que há com vocês? Viram um fantasma?

_ Vimos... – Sílvia não conseguia falar

_ Um fantasma? Onde, meu pai?

_ Um deus...

_ Que visão... – Ana pronunciou com um suspiro _ Acho que morri e fui pro céu...

_ Gente, eu estou ficando preocupada... – Penny colocou as costas da mão sobre a testa de Bonanzer _ Você está quente, amiga...

_ E não é para estar? Você não o viu?

_ Quem? – A jovem estava ficando nervosa

_ Aquele deus grego... – Sílvia sussurrou ainda atônita _ com aquele peito cabeludo e todos aqueles músculos... e toda aquela água escorrendo e...

_ Ah, saquei, Adam! – Penny sorriu matreira _ Ele passou por mim. Percebo agora o motivo de toda essa comoção... Um pedaço de mau caminho, mas ainda prefiro o meu ursão. – a pequena jovem morena enfiou as mãos nos bolsos traseiros de seu jeans e rodou sobre seus pés _ O recado está dado, garotas. Quando vocês se recuperarem, estaremos lá dentro. Só não demorem muito porque, quando vocês entrarem, pode não haver muito sobrando do jantar.

Depois da refeição, grupos se formaram na grande sala, onde algumas das moças rodeavam uma animada partida de damas entre Joe e Hoss e outras, ao pé de Adam que dedilhava seu violão habilmente. Da sua cadeira de couro, Ben observava a cena, admirado da animação que havia em sua casa. Desde que os meninos eram muito jovens não havia tanto movimento. O patriarca imaginava que aquela cena poderia muito ser semelhante ao dia em que seus filhos criassem juízo suficiente para encontrar boas moças e sossegar, enchendo aquela fazenda com pequenos Cartwright e ele puxou um sorriso no canto do lábio com esse pensamento.

Os rapazes combinaram que na manhã seguinte levariam todas as moças numa cavalgada pelas redondezas na casa grande. Eles pretendiam fazer um piquenique às margens do lago depois de uma boa pescaria. Um plano perfeito para um sábado perfeito, pensaram as moças. Afinal, o que mais poderia dar errado?

CONTINUA.