Beta: Constantin Rousseau
*Capítulo Reescrito*
Capítulo 7: E Se Eu Só Tiver Uma Chance?
O que deve ser considerado real ou imaginário quando a simples imagem à sua frente faz com que sua mente se embaralhe e crie uma verdade alternativa que não se encaixa no contexto da realidade? O que fazer quando você sente que nada ao seu redor se encaixa com algo que já tenha visto ou presenciado, ao menos uma única vez? Sam não podia acreditar no que seus olhos viam; e nem tinha a certeza de desejá-lo. Não se lembrava de como chegara àquele lugar, muito menos de como conseguiu entrar no local, já que o mesmo não possuía nenhuma porta ou janela. Lembrava-se apenas de ter fechado os olhos, e, no instante em que os abriu, estava ali, preso e pendurado de cabeça para baixo, junto aos demais.
Por inúmeras vezes tentara encontrar alguma familiaridade nos orbes claros que o encaravam com fúria... Fome, talvez. Não podia dizer ao certo, embora a faceta da jovem fosse um tanto específica. A moça estava com as sobrancelhas unidas, a testa levemente franzida, como se houvesse sido desapontada por algum detalhe, de alguma maneira. Seus lábios, rosados e entreabertos, expressavam apenas uma vontade, um desejo; denotando claramente o quão difícil era manter o quase escasso autocontrole que possuía. Nunca vira aquela mulher de aparência sinistra, com seus cabelos longos e dourados que se moviam de forma etérea, como que movidos por uma força invisível. Nunca vira nenhum daqueles homens que estavam espalhados ao seu redor alguns se debatendo e gritando, enquanto outros já se encontravam imóveis, sem reação e banhados em sangue.
O moreno estava no centro de toda aquela confusão, com pernas e braços esticados, na mesma posição que deveria ficar uma cruz invertida. Os dentes permaneciam trincados enquanto tentava, a todo custo, encontrar uma maneira consideravelmente segura para despregar-se da avermelhada muralha de concreto. Porém, conforme exercia a força presente em seus músculos, a pele desprendia brutalmente da carne, deixando-a exposta, assim como o líquido escarlate e quente que aos poucos percorria seu corpo. Foi inevitável não soltar urros de agonia, e isso fez com que Ruby repuxasse os lábios em satisfação, deliciando-se com o sofrimento alheio.
— Por que está fazendo isso comigo? — foi o que Winchester perguntou à loira, mesmo não tendo total certeza de que era ela a responsável por aquele circo todo que o torturava aos poucos.
Mas Sam não era idiota; conseguia ver claramente a hostilidade estampada no rosto da jovem. Sabia que ela não estava ali à toa, assim como ele também não estava no local por nada. Sentia que a loira era o real perigo, mas por quê?
— Ela não consegue te ver, Samuel. Você nem mesmo está aqui, para início de conversa. — uma voz grave e máscula que o moreno, se não tivesse visto de quem viera, julgaria ser a de seu pai, rompeu o silêncio de seu ser, que ansiava desesperadamente por alguma luz, alguma resposta àquela loucura em que se encontrava. — Ela apenas sente seu cheiro, se é que me entende. Sua alma exala um perfume um tanto... Atraente.
Winchester respirava profundamente com um pouco de dificuldade, controlando ao máximo que podia os espasmos que a dor lhe causava, enquanto tentava encontrar algum significado nas palavras do homem negro que estava sentado em uma cadeira próxima ao balcão. Bem, aquela com certeza era apenas outra pessoa que Sam não fazia nem a menor ideia de quem era. E perguntar-se incansavelmente o que raios acontecia ali já havia se tornado um trabalho exaustivo.
— Quem é você? — o homem sorriu abertamente ao ouvir a mesma pergunta que sempre ecoava pelos aposentos nos quais era visto.
— Já faz um bom tempo desde que Ruby fez sua última festinha... — comentou, ignorando o questionamento e suspirando nostalgicamente logo em seguida. — Sabe, eu adorava ir de penetra... Como ela não tinha o costume de nos convidar, nós tínhamos sempre que dar um jeito. Acho que é por isso que ela me odeia tanto. — riu sonoramente. — Sempre foi muito gulosa.
Só então, desviando seu olhar da nova figura desconhecida, e voltando a fitar o que acontecia ao seu redor, foi que Sam percebeu que todos haviam ficado imóveis, como se fosse a imagem de uma fotografia tirada subitamente; estava congelada, inclusive, a estonteante jovem a poucos metros de distância.
A interrogação no rosto do moreno chegava a ser visível, e não sabia exatamente por que, mas aquilo só instigou ainda mais o pânico que havia dentro de si, fazendo-o ficar mais tenso, os punhos cerrados com força demasiada, sentindo a pele dolorida.
— Legal, não acha? — o homem interrompeu sua linha de pensamentos, fingindo certo entusiasmo enquanto olhava para os lados. — Poder parar o tempo é uma habilidade muito rara. — soava orgulhoso.
— Você é a morte? — a pressão na cabeça do Winchester já começava a se tornar desconfortável, e falar com certeza tornaria sua situação ainda pior, mas, mesmo assim, perguntar seria a maneira mais viável para obter as respostas que tanto almejava: — Eu estou morrendo; é isso?
O homem negro virou-se de maneira deliberadamente lenta, ajeitou seu terno impecável e caminhou em direção ao moreno com passos resolutos; o outro o observava com os olhos incrivelmente arregalados, como se estivessem prestes a saltar das órbitas. Com certeza, Sam imaginara que aqueles seriam seus últimos momentos de vida, pois, após sentir a proximidade excessiva do homem, fechou seus olhos com força, movendo os lábios numa prece silenciosa.
— Nem tudo gira em torno de você, Samuel. Embora os outros indiquem que sim, você não chega a ser o centro do universo. — a acusação fez o jovem abrir seus olhos num rompante, e foi inevitável não encarar a escuridão presente nos orbes sombrios do negro, agora agachado, que possuía o semblante sereno.
— O que você quer de mim? — surpreendeu-se com a firmeza que foi utilizada nas palavras que pronunciou, quase como se o medo de outrora fosse apenas algo de sua cabeça; talvez pelo fato de o estranho não apresentar nenhum sinal de ameaça, pelo menos não ainda.
— Sua alma não me interessa, jovem Winchester. — disse enquanto, vagarosamente, levantava-se e ficava de frente a um homem ao lado de Sam. — E, mesmo que interessasse, eu não me daria ao luxo de entrar na fila para fazer parte dessa briga idiota. Estou aqui pelos outros.
O rapaz, então, sentiu uma brisa gélida acariciar sua pele, quase anestesiando a dor de seus ferimentos; sensação essa que logo se esvaiu após o homem terminar seja lá o que estivesse fazendo e caminhar para o lado direito do moreno, ficando de frente para outra pessoa.
— Ela é indomável; muito mais que um rosto bonito. Tome cuidado com ela, Sam. Quem quer que tenha te arrastado até aqui, queria que você tivesse uma morte lenta e dolorosa.
— Como é?! — as palavras do homem pegaram Winchester de surpresa, fazendo-o franzir o cenho numa expressão de pura confusão.
Até então, o moreno tinha total certeza de que aquele era apenas um simples pesadelo insuportável. Esquisito e diferente, mas ainda assim um sonho; acordaria no momento em que achasse ser possível, pois, desde que abrira os olhos estando naquele aposento, tentava desesperadamente voltar para o mundo real.
— Você não está sonhando, nem mesmo está aqui, como eu já havia dito. Infelizmente, não há nada que eu possa fazer para ajudá-lo a sair, sinto muito. — o negro falou sem um pingo de ressentimento em sua voz, causando arrepios no mais alto. — Preciso levar as almas, e meu serviço aqui estará concluído.
— Levar as almas? — foi o que balbuciou num sussurro tímido, apenas verbalizando seus receios.
— A vida é mais que um simples sonho patético onde você alcança a normalidade, Sam. Você, mais que ninguém, deveria saber disso. — pausa. — É o mais inteligente.
O homem limpou as mãos uma na outra, então voltou a se agachar.
— Talvez aconteça de nos encontrarmos novamente... — riu de forma aberta, dando de ombros. — Pelo menos, tudo indica que sim. — levemente acariciou, com as pontas dos dedos, o ferimento exposto no braço direito do jovem, que, após sentir o toque gélido e repentino, contraiu-se abruptamente, o que causou certo desconforto.
Sam não pôde argumentar mais nada, pois, no momento em que algo lhe veio em mente, quando finalmente perguntaria o que, de fato, deveria fazer para sair dali, o homem desapareceu num piscar de olhos. Daquele momento em diante, a bomba-relógio tiquetaqueou sem piedade em sua cabeça. O nervosismo e o pânico, misturados com a pressão excessiva e a dor intensa, fizeram com que o moreno não esboçasse reação alguma quando os primeiros sinais de mobilidade foram notados.
Ruby piscou.
xXx
Sua aflição era perceptível. Qualquer um poderia afirmar que ela estava sendo perseguida por um maníaco louco e perigoso, e corria desesperadamente para salvar sua vida. Só que não era exatamente com a sua que Jessica estava preocupada; cuidar de Sam era sua responsabilidade. Se algo acontecesse a ele, algo aconteceria a ela, e Moore não se dava ao luxo de pensar nas variações de tortura as quais certamente seria submetida.
Fez a curva num ímpeto, e, mesmo que seus instintos pedissem para parar após sentir a certa e singular presença desconhecida, seu desejo ousou gritar mais alto, e suas pernas continuaram o trajeto. O alívio foi imediato quando se permitiu parar na varanda e apoiar suas mãos nos joelhos, descansando antes de adentrar a casa. A respiração estava demasiada ofegante e exasperada, misturada à queimação insuportável em seu peito, e isso, aliado aos minúsculos, porém visíveis, machucados em seus pés, fez com que ela soltasse um breve gemido.
Ainda exausta, mas sem muito mais tempo para se recompor, girou a maçaneta e empurrou a grande porta impacientemente, não se importando com o fato de tê-la deixado aberta ao entrar. O silêncio preenchia completamente o lugar, e poderia dizer com convicção que ninguém estava ali, não fosse o conhecido eriçar de pelos em sua nuca, que lhe dizia o contrário. A sensação não era específica, mas era intensa; poderosa o suficiente para que a loira se mantivesse alerta o tempo todo antes de subir os degraus de forma lenta e inaudível.
Jessica encarou a porta à sua frente por alguns segundos, incerta do que, exatamente, deveria fazer; como reagir a seja lá quem estivesse junto ao moreno naquele aposento. Seus devaneios cessaram em um rompante, assim que ouviu um gemido de dor, provavelmente vindo do Winchester.
— Sam! — escancarou a porta sem refrear-se, correndo em direção ao moreno.
Mas o que viu, assim que desviou os olhos do moreno que se contorcia na cama, acabou com sua reação.
xXx
Ela avançava em passos lentos, torturantes para o Winchester mais novo, que a observava totalmente atônito. Depois do pânico que sentiu ao ver a moça gritar em frustração, percebendo que não havia mais almas nos corpos à sua frente, Sam temeu por si mesmo ao constatar que ela foi capaz de fitar-lhe os olhos. Não, Ruby não o estava vendo, tecnicamente. A vitalidade a atraía de forma incomum, e ela apenas seguia seus instintos mais animalescos. Uma caçadora de almas, como sempre fora. O que ela ganhava com isso? A cada alma usurpada, sua dívida diminuía consideravelmente, mas ainda faltavam muitos passos até concluir a jornada para o perdão absoluto.
Maldito foi o momento em que as desafiou!
Havia pouco da mentalidade da jovem naquele momento. A fera estava mais para um presente, uma dádiva ofertada pela própria entidade para a qual servia; dádiva esta que aceitou de bom grado, tendo em vista o tempo que pouparia ao recolher a quantia exigida. Seria assim, até segunda ordem. E é claro, existiam aqueles que batiam de frente quanto a isso: ceifadores. Eles, definitivamente, dificultavam as coisas. Nessas horas, ousava sentir um pouco de inveja de Jessica e seus "dons de primeira viagem". Nada era assim tão fácil, afinal de contas.
A parte sombria que a controlava era, basicamente, uma espécie de escudo: capaz de bloquear consideravelmente sua parte emocional, e isso, por si só, a impossibilitava completamente de reconhecer ou diferenciar suas vítimas. Mas, para ela, não importava, na verdade; todos possuíam o mesmo e irrelevante valor.
Ruby abriu outro sorriso. Dessa vez, infinitamente mais perverso e sádico. Sam respirou fundo, e, sentindo todos os músculos tencionados relaxarem aos poucos, permitiu que sua consciência se esvaísse lentamente.
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Os olhos foram abertos cautelosamente, e ele nunca pensou que a simples imagem do teto acima de sua cabeça fosse fazê-lo se sentir tão absurdamente bem. Embora sentisse a necessidade de dizer a si mesmo que tudo não passara de apenas um sonho ruim, no fundo sabia que tinha sido algo mais. Afastou tais suposições de sua mente, e acabou por perceber que Jessica estava ali, com a mão sob seu peito e a cabeça totalmente abaixada.
— Pensei que tinha te perdido, Sam. — a loira começou enquanto recolhia a mão de forma relutante, erguendo os olhos para encará-lo. — Pensei que Ruby seria mais rápida que eu e... Aquela vaca vai me pagar... — Moore possuía algo incerto em sua voz, mas, em seu olhar, Winchester pôde ver claramente toda a preocupação que Jessica insistia em não demonstrar.
— Jess, o que... Do que você está falando, exatamente? — perguntou verdadeiramente curioso, embora tivesse certeza do que a loira estava se referindo.
A confusão ainda estava estampada no semblante expressivo do moreno, e o silêncio de Moore nada mais trazia além de incertezas. Não havia lógica naquilo, não poderia. Mas, ao mesmo tempo em que a parte lúcida de sua mente considerava nula a hipótese de realmente ter participado de uma dolorosa experiência extracorpórea ou qualquer coisa do tipo, a parte insana lhe dizia que havia uma ponta de veracidade naquilo; que não havia alucinado em mais outro pesadelo habitual.
— Nós precisamos conversar, Sam.
Continua...
