A viagem de volta transcorreu praticamente em silêncio. Hinata estava ocupada com seus pensamentos perturbadores, enquanto Sasuke revisava os acontecimentos da manhã com certa satisfação.

Ela sentira falta dele, pensou ele. Tudo — incluindo todas as coisas que não dissera — revelava isso. Então sua manobra de se manter à distância dera certo. E, agora, ela estava desesperadamente tentando reforçar suas defesas contra ele.

Mas não funcionará, caríssima, ele disse a si mesmo.

Depois que se livrara de Giacomo, ficou observando-a do outro lado da praça.

Ela podia não ser extravagante como Ino, mas sua concentração enquanto escrevia revelava paz e sensualidade que nunca encontrara antes em uma mulher.

Além disso, notou ele, com um prazer adicional, ela usava o mesmo vestido que atiçara sua imaginação na primeira vez que se encontraram.

E logo, pensou ele, virando o jipe em direção à casa — todas as suas fantasias seriam realizadas.

Não seria fácil, ele acrescentou mentalmente. Ela pode ter permitido que ele segurasse a sua mão por um tempo, mas ainda continuava a se esquivar, e não apenas fisicamente.

O relacionamento dela com seu primo era certamente um enigma. Ele não acreditava que estivessem apaixonados e planejassem um casamento imediato.

Ele perguntava-se se o caso de Naruto não acabaria por si próprio, sem a interferência da Zia Kushina.

Mas embora tenha tentado, não conseguira convencer a tia disso.

— E a sua função nessa história já deveria ter sido executada — acrescentou ela zangada.

— Sei o que estou fazendo — respondeu ele friamente.

Em uma coisa estava totalmente determinado: quando a tomasse nos braços, seria pelo desejo mútuo, e não para agradar a tia. Pelo menos de sua parte o desejo era genuíno desde o início. Era ela quem precisava de persuasão.

Ficar longe dela nos últimos dias fora um tormento, admitiu surpreso. Ela estivera constantemente em seus pensamentos e seu corpo inteiro a desejava com ardor.

Não estava acostumado, reconheceu ele sardonicamente, a esperar por uma mulher.

Ele disse calmamente:

— É a estrada ou a minha direção que a assusta tanto?

Ela virou o rosto, forçando um sorriso.

— É a estrada.

— Tente não se preocupar tanto, mia bella. — O tom de voz era seco.

Após um tempo, ele disse:

— O tempo vai mudar. Vamos ter tempestade.

Hinata olhou para o céu limpo.

— Aproveite o sol ao máximo — acrescentou ele.

— Tenho feito exatamente isso. — Ela fez uma pausa. — Na verdade — continuou ela hesitante — estava preocupada em estar mantendo-o longe da piscina, caso prefira tê-la só para você. Percebi que faz tempo que não o vejo nadar.

— Nado todos os dias — disse ele. — Mas muito cedo. Antes do café-da-manhã. Mas não é porque quero evitar sua companhia, mia bella, mas porque gosto de nadar nu.

— Oh — Hinata engoliu em seco. — Sim, entendo. Claro.

— Mas — ele continuou calmamente — é claro que pode me acompanhar sempre que quiser. A água fica uma delícia a essa hora do dia.

— Tenho certeza que sim — disse Hinata, todos os tipos de imagens proibidas saltando em sua mente. — Mas acho que vou continuar com o meu horário. Grane — acrescentou ela educadamente.

— De nada — respondeu ele com voz risonha. Ciente de que seu rosto estava quente, Hinata penetrou em um silêncio que durou até chegar em casa.

Quando saiu do jipe, ela agradeceu a Sasuke pelo almoço e foi para o seu quarto, tentando não parecer que fugia.

Sua roupa grudava no corpo com o calor. Tirou-a rapidamente e tomou um banho frio. Depois colocou seu robe e deitou-se ha cama tentando relaxar. Mas sua mente ainda estava repleta de pensamentos e impressões da manhã.

Era estranho, pensou ela, que Sasuke, o conde, tenha aparecido daquele jeito, do nada. E mais perturbador ainda era o fato de ela ter gostado demais de estar com ele.

Estava ansiosa com o comentário que ele fizera sobre ela estar escondendo algo.

E ela tinha de advertir Naruto quanto às suspeitas de seu primo.

Ela suspirou. Queria que isso nunca tivesse acontecido, disse a si mesma com veemência. Que nunca tivesse concordado com tal fingimento ridículo. E, acima de tudo, que nunca tivesse colocado os olhos no conde Uchiha.

Fácil falar, pensou ela, mas seria verdade? Ela realmente queria ter vivido sua vida sem ter vivenciado esse encontro perigoso? Sem ter sentido a sedução do sorriso dele ou reagido à implicância em sua voz?

Não, pensou ela com tristeza. Honestamente, não iria querer perder um único momento precioso com ele. Mas agora a situação estava ficando complicada e realmente precisava se distanciar. Colocar a Europa entre eles e voltar à sanidade.

Ela suspirou novamente. Sasuke Uchiha era apenas um sonho. Uma fantasia para animar sua existência. E isso era tudo o que ele podia ser...

Ela sentou-se. Obviamente não conseguiria dormir, então seguiria o conselho do conde e aproveitaria o sol enquanto fosse possível.

Colocou o biquíni e foi para a piscina.

Quando chegou ao último degrau da escada, ficou desconcertada ao ver que teria companhia. Que Sasuke estava lá, esticado em uma espreguiçadeira, lendo.

Ele parecia concentrado e Hinata hesitou, perguntando-se se conseguiria retornar sem ser notada. Mas não foi possível, pois ele estava abaixando seu livro e levantando-se em um rápido movimento.

— Então, afinal de contas, você veio — disse ele.

— Estava começando a me perguntar.

— Eu... eu decidi seguir seu conselho. — Ela fez uma pausa. — Espero não estar incomodando.

— Não mesmo, mia cara. — Ele arrastou uma espreguiçadeira sob a sombra do guarda-sol e arrumou as almofadas.

— Obrigada. — Ele colocara a cadeira perto demais da dele, pensou ela. Forçando um sorriso, disse:

— Nossa, está mais quente do que nunca.

Hinata esticou-se para pegar o livro caído entre eles. — Francesco Petrarca.

— Lendo mais poesias sobre mulheres de véu, signore? — Ela entregou-lhe. Literatura, pensou ela. Agora existe um assunto seguro para uma conversa.

— Há muito para ler sobre isso. — disse ele. — O grande Francesco usou o nome de sua Hinata por vinte anos.

— Como se conheceram?

— Ele a viu — disse Sasuke. — Viu-a um dia e amou-a para sempre.

— E eles viveram felizes para sempre?

— Viveram as próprias vidas, mas não juntos. Ela pertencia a outro homem.

Ela ajeitou seus óculos escuros.

— Então talvez não devesse ter se apaixonado.

— Mas existe defesa contra o amor? — Os olhos dele pareciam perfurá-la. — O que você acha, bella mia? Naruto atingiu diretamente seu coração quando você o viu pela primeira vez?

Não, pensou ela, a dor retorcendo-se dentro dela. Mas você sim — e agora estou perdida para sempre... Ela olhou-o.

— Naturalmente houve... uma conexão. Por que mais eu estaria aqui?

— É verdade. Por quê? — disse ele. Ele esticou o corpo lentamente, deixando-a ciente de cada músculo de seu corpo. — Vou nadar, Hinata. Você vem comigo?

— Não — ela conseguiu dizer. — Não, obrigada. Ele sorriu para ela.

— Não sente necessidade de se refrescar um pouco?

— Nado muito mal — disse ela. — E não alcanço com os pés o chão desta piscina.

— Ah — disse ele pensativo. — Então por que não me deixa lhe ensinar?

Houve um silêncio tenso e Hinata percebeu que mordia os lábios.

— É muito gentil — disse ela, tentando manter a voz tranqüila. — Mas não posso abusar de você assim.

— Não é abusar, cara mia. Seria um privilégio e um prazer. Além disso, todos deveriam saber nadar em segurança. Você não acha?

— A-acho que sim. — Exceto pelo fato de que não estamos realmente falando sobre nadar, e nós dois sabemos disso. Então, por que você está fazendo isso?

Ele disse calmamente:

— Mas você não parece convencida. — Ele foi até o outro lado da piscina e mergulhou, nadando por toda extensão. Ele emergiu, sacudindo os cabelos, e nadou lentamente até a borda, apoiando-se ali.

Ele acenou.

— Hinata, venha até aqui. — Ele falou calmamente, mas o tom imperativo era claro. Ela percebeu, não pela primeira vez, por que, no Banco Uzumaki & Uchiha, ele era uma força a ser considerada.

Relutantemente, ela tirou a camisa e dirigiu-se à borda.

Ela disse friamente:

— Você sempre espera ser obedecido, signore?

— Sempre. — O sol cintilava em seu cabelo escuro. Ele acrescentou: — Mas prefiro concordância à submissão, signorina. — Ele fez uma pausa, permitindo que ela assimilasse o que disse, depois sorriu. — Agora se sente na borda — indicou ele. — Coloque as mãos em meus braços e entre na água. Prometo que vai estar segura.

Oh, mas é tarde demais, pensou ela. Tarde demais para isso.

Mas fez o que lhe foi dito, arfando com o contato caloroso da pele dele, ciente das mãos de Sasuke, firmes como pedras, nos cotovelos dela.

— Você consegue ficar de pé — acusou ela sem ar- — Mas eu não. Estou caminhando na água.

— Então faça isso — disse ele. — Não vai se machucar. — Ele acrescentou se divertindo. — E não posso fazer nada em relação à disparidade de nossas alturas, bella mia.

Ele fez uma pausa.

— Você disse que nada um pouco? — E quando ela balançou a cabeça sem muita convicção: — A extensão da piscina, talvez?

— Talvez. — Ela hesitou. — Mas não sem tocar com os dedos no fundo — admitiu ela.

Ele suspirou.

— Então a resposta verdadeira é não — comentou ele austeramente. — Vamos começar.

Era um dos momentos mais estranhos de sua vida. Ele realmente tinha a intenção de ensiná-la a nadar.

Um dos problemas dela era a relutância que tinha de colocar o rosto na água.

— O que importa se você borrar a maquiagem? — disse ele.

— Não estou maquiada — replicou ela, tentando recuperar o fôlego.

Ele sorriu para ela.

— Eu sei. Agora, vamos tentar de novo. Você não tem confiança. Tem de aprender a confiar na água — afirmou ele finalmente. — Deixe que ela segure você. Agora, vire de costas e bóie um pouco. Vou sustentar seu corpo.

Fez o que ele disse e sentiu o sol em suas pálpebras fechadas.

Não só percebeu que ele tirara as mãos de suas costas quando o ouviu dizer:

— Brava, Hinata. Muito bem. — E então ela percebeu que ele não estava mais a seu lado.

Ela abriu os olhos em pânico e o viu olhando-a do outro lado da piscina. Em seguida atrapalhou-se, tossindo engasgada. Ele alcançou-a rapidamente e segurou-a.

— Você me soltou — disse ela ofegante.

— Há uns cinco minutos — ele disse. — Você parou de acreditar. Foi isso. Mas agora, quando estiver pronta, vai nadar a meu lado, porque você que pode. E lembre-se de respirar — acrescentou ele com seriedade.

Ela lançou-lhe um olhar de revolta.

— Si, signore.

Mas para sua surpresa, fez o que ele mandou, e sentiu-se eufórica com a façanha quando viu que estava segurando a borda da outra extremidade.

Sasuke saiu da piscina e depois se inclinou para ajudá-la a sair.

— Mas eu queria nadar de volta — opôs-se ela, sorrindo para ele.

— Acho que já é o suficiente para uma primeira vez — disse ele. — Ele fez uma pausa. — Afinal de contas, não quero deixá-la exausta. — A mãos dele moveram-se lentamente em direção ao ombro dela. E permaneceram lá.

E apesar do calor, ela começou a tremer, uma fraqueza fora do comum atingindo-a.

Ele estava olhando para ela, percebeu, olhando seus lábios entreabertos. Estava sorrindo um pouco, mas não havia risada naqueles olhos que a examinavam com intensidade, como se hipnotizados.

Ele inclinou o corpo, e ela pensou: "Ele vai me beijar."

Ela sentiu um forte desejo, mas junto veio a sanidade.

Ela escutou uma voz que mal reconheceu ser a sua.

— Não — Sasuke, por favor, não!

Ele ergueu o corpo e colocou as mãos em volta do rosto dela, os dedos acariciando os fios molhados atrás das orelhas dela, levando-os até os cantos de sua boca trêmula.

Ele disse suavemente:

— Não?

Ele enganchou um dedo na alça de seu biquíni e abaixou-a. Em seguida, inclinou o corpo, encostando os lábios na marca que o biquíni deixara em sua pele.

Hinata sentiu seu corpo inteiro tremer com o prazer que seu toque provocava. E sabia que ele percebera.

Ele disse calmamente:

— Hinata, tenho uma casa perto de Sorrento. É tranqüila e muito bonita. Poderíamos estar lá em algumas horas. — Os olhos encontraram os dela. — Então, ainda tem certeza de que é não?

De alguma maneira, mesmo nesse estágio, ela tinha de retroceder. De alguma maneira... Ela deu um passo para trás.

— Tenho certeza absoluta. E você... você não tem o direito de pensar... de achar...

— Não acho nada, caríssima. — Ele levantou as mãos. — Mas você não pode me culpar por tentar.

— Mas o culpo. E Naruto também o culparia se eu decidisse contar-lhe.

— Nunca me importei com Naruto, confesso. Estava mais preocupado com meu próprio prazer, bella. — Ele sorriu. — E com o seu — acrescentou ele.

Ela sentiu que a cor se esboçava em seu rosto.

— Você é muito seguro de si, signore. Acho isso extraordinário.

— Perder uma batalha — disse ele — não significa perder a guerra. — Ele fez uma pausa. — E você me chamou de Sasuke enquanto esperava que eu a beijasse.

Ela ficou ainda mais corada e disse entre dentes:

— A guerra, como você diz, chegou ao fim. Vou comunicar a Naruto que quero voltar para a Inglaterra imediatamente.

— E ele provavelmente vai concordar — disse ele.

Ignorando a raiva dela, pegou a toalha e começou a se secar totalmente despreocupado. Hinata recolheu seus pertences e seguiu para a escada.

— Arrivederci. — A voz dele seguiu-a. — Até mais tarde, bellissima.

Sasuke observou-a partir, sexualmente frustrado.

Esticando-se na espreguiçadeira, ele olhou para o céu, interrogações rodando em sua cabeça.

Por que a deixara ir embora daquele jeito? Ele a sentira tremer com o seu toque. Por que não jogara as almofadas no chão e a puxara com ele, livrando seu corpo do biquíni úmido e silenciando seus protestos com beijos?

Depois, a convenceria a irem para Sorrento. Mas para quê? Para fazerem planos para o resto de suas vidas? Ele franziu a testa. Nunca pensara em nenhuma mulher nesses termos. Mas apenas para fazer planos para as semanas seguintes — talvez meses.

Em algum momento teriam de voltar para Roma. Seria melhor, decidiu, se ele alugasse um apartamento para ela. Um lugar com uma cama que ele não tivesse dividido com mais ninguém.

Mas que sentido tinha pensar nisso quando nada acontecera?

Dio, ainda conseguia sentir a pele sedosa dela.

E agora ela queria voltar para Londres. Bem, o quanto antes — melhor. Porque ele a seguiria.

Na Inglaterra teria liberdade de ficar com ela exatamente como queria. E não haveria Zia Kushina.

Ele de repente sentou-se. Seria possível que estivesse julgando mal a situação? Será que ela estava realmente apaixonada por seu primo mimado? A idéia o deixou nauseado.

Mas ela queria muito ser beijada por ele. Sua experiência com mulheres não deixava dúvidas quanto a isso.

Não, pensou ele. Não aceitaria que Hinata sentisse algo sério por Naruto. Mulheres apaixonadas carregavam escudos de proteção. E, no entanto, ele sentiu que ela parecia receptiva.

— O quê? O que você está dizendo? — Naruto estava com a expressão contrariada.

— Quero ir para casa — Hinata repetiu. — Sou um total estorvo aqui e estou começando a ficar seriamente constrangida.

— Um constrangimento pelo qual será bem paga — retrucou ele. E fez uma pausa. — Bem, o que você me pede não totalmente é impossível. Minha mãe não vai suspeitar se você for para a casa sozinha; vai pensar que nós brigamos.

— Não consigo ver como — disse ela friamente. — Não passamos tempo juntos o suficiente para discutir.

Ele levantou a mão impaciente.

— Então poderíamos ir juntos; daqui a dois ou três dias.

— Você vai estar bem para viajar? — perguntou Hinata com sarcasmo.

Ele deu de ombros.

— Vamos torcer que sim. Ela disse calmamente:

— Naruto, estou falando sério, e não pretendo esperar indefinidamente. Em vinte e quatro horas pretendo estar embarcando.

Posso sobreviver nesse tempo, pensou ela indo para o quarto se arrumar para o jantar. Mas dessa vez, sou eu que vou evitá-lo.