- Meu Deus, Julian! – foi tudo o que Elizabeth pôde dizer.

- Julie Ann... – a garota respondeu sem graça, abaixando a camisa e sentando-se novamente.

- Ficaram em silencio por algum tempo.

- Eu... não agüentava mais... precisava falar... – fixou o olhar na tina de água do banho da amiga, ainda cheia.

- Por que... fez isso? – Elizabeth tentava entender o que levara a garota a se vestir como homem e viver daquele jeito. – Julie, por Deus, o que houve? – Julie voltara a chorar.

Mais calma, começou:

- Talmot, na verdade, é a ilha onde nasci. Meus pais são um pirata que quase nunca via e uma meretriz. Fui criada entre bêbados e prostitutas. Minha mãe atendendo vários clientes, não é bem o que se pode chamar de "estrutura familiar" – Julie fez um olhar de desprezo – Não era o que eu queria para mim! – seu olhar agora passava desespero – Nascida mulher, se eu ficasse lá, não seria outra coisa que não prostituta! Sempre amei muito minha mãe, mas não queria ser aquilo!

Nova pausa.

- Aos treze anos, disse a minha mãe que queria ser pirata... Está louca, ela disse. Passamos um ano brigando, até que, aos quatorze, resolvi ir embora...

x-x-x- Flashback –x-x-x

- Sabe o que pode acontecer se descobrem uma mulher num navio pirata? – Lil falava aos berros. Sua filha usava roupas masculinas furtadas de algum bêbado que passara a noite na taverna.

- Não sei e não me importa! Aqui é que não fico mais! – dizendo isso, Julie puxou uma adaga.

- Ju-julie Ann, filha, o que vai fazer? – a mãe ficou assustada. Viu Julie pegar os longos cabelos na mão direita e, com um único movimento da adaga na mão esquerda, cortar fora seus cachos até a altura do pescoço.

- Não! – gritou. A garota jogou os cabelos no chão do quarto e atou a adaga novamente na cintura. Lilianne abraçou a filha – Porquê?

Julie Ann estava irredutível. Ficou parada enquanto sua mãe a abraçava, até que segurou seus cotovelos e a afastou. Saiu do quarto e andou pelos corredores até a escada que dava para o salão da taverna, Lilianne atrás, gritando.

- Não faça isso! Você vai morrer!

- Prefiro assim! Odeio esse lugar, odeio essa vida, odeio você! – gritou em resposta.

- Eu te odeio também, agora cale a boca e suba essas escadas agora!

- Pois eu prefiro morrer no mar como homem que não sou a levar essa vida ridícula e ser como você!

Lilianne parou. Uma lágrima escorreu pelos seus olhos. Amava muito a filha, mesmo que não demonstrasse tanto. Julie Ann percebeu que acabara de magoar sua mãe, mas agora já era tarde. Alisou com as costas da mão esquerda o rosto da mãe, pegou um lenço vermelho que Lil trazia no pescoço e o atou na cabeça, cobrindo os cabelos. Desceu o resto da escada. Quando chegou na porta da taverna, ouviu sua mãe dizer, do alto da escada.

- Eu te amo, filha. Que Deus te acompanhe.

Julie sorriu. Saiu.

x-x-x- Fim do Flashback –x-x-x

- Então, você quis ser pirata para não ser... uma...

- Prostituta. Pode dizer, Liz.

- Mas a sua mãe...

- Ela é, mesmo.

- Quatorze anos... você tem vinte e um... são sete anos...

- Sete anos vivendo assim, mentindo! Com medo! Sabe, durante esse tempo já estive em nove navios. Além do Pérola, claro. E por cinco vezes já me descobriram. Em uma delas fui simplesmente abandonada. Mas, nas outras... – os olhos de Julie voltaram a marejar. Elizabeth passou um braço em volta dos ombros da amiga. – Por quatro vezes abusaram de mim. Já fui espancada, presa no porão sem comida ou água e depois largada num porto ou ilha qualquer. Mas teve uma vez em que pensei que fosse morrer. Me bateram tanto... tanto... e teria morrido, se não tivesse fingido de morta. Me jogaram ao mar – respirou fundo – por sorte, estava perto de uma ilha e nadei até lá.

Elizabeth ficou imaginando o esforço de Julie em chegar até a tal ilha. Espancada, estuprada, e ainda tendo de nadar para salvar a sua vida. Imaginou seu sofrimento. E abraçou a amiga. Poderia levar toda uma vida para tentar entender toda a sua dor, física e moral. Mas jamais saberia o que é isso.

- Ah, Julie... eu sinto tanto...

- Todos os dias, de navio em navio, sempre com medo de que descobrissem. Quando pensava que alguém desconfiava de mim, fugia na primeira oportunidade e embarcava em outro! E, agora... – Julie escondeu o rosto entre as mãos. Elizabeth percebeu uma mudança na voz da garota. Tentou levantar o rosto dela, carinhosamente.

- E agora, o quê? – nenhuma resposta – Julie, o que mais aconteceu?

Julie ainda titubeou, mas acabou falando.

- E-é... o ... capitão...

- Ah, mas eu te disse que a cisma era normal! Não precisa se preo...

- Não é isso, Liz! – cortou a amiga. Elizabeth arregalou os olhos. – É que... eu fiz... uma besteira...

Elizabeth sorriu.

- O que, exatamente?

- Eu... beijei... o Jack!

Nova surpresa para Liz. Ela arregalou os olhos e riu. Lembrou de quando ela mesma fez isso. Era ao para prendê-lo no navio, mas havia de admitir que sentia também curiosidade e, porque não, vontade. Era bom! Nunca haveria de esquecer. Mas amava o Will. E, pelo jeito, aquela mocinha ali estava apaixonada. Era só ver o embaraço ao falar, o olhar e o rosto corado. Pobre menina. Ninguém merece se apaixonar pelo Jack.

- Mas, Julie! Ele é... tão estranho...

- Ele é único! – rebateu, levantando rapidamente a cabeça e encarando Elizabeth.

- Ele é cheio de si!

- E um homem valoroso!

- É estabanado!

- E muito divertido!

- É um bêbado!

- E eu não sou? – realmente, pelo que vira na Jamaica, Julie sabia virar uma garrafa muito bem!

- Tá, mas ele é... é... – procurava uma palavra – é um ladrão farrista e ganancioso!

- Elizabeth, ele é um pirata... – respondeu, como quem explica a lógica da realidade.

- E é mulherengo!

- Mas o Jack é um bom homem.

- É. Isso lá é verdade... – admitiu. Jack Sparrow era um amigo! Estar dizendo aquilo não significava exatamente que achava tudo aquilo – E agora, o que pretende? – viu que não havia dúvidas. Ela estava mesmo apaixonada.

- Não sei, esse é o problema! Normalmente eu fugiria, mas eu não consigo! Me sinto presa ao Pérola Negra!

- Ao Pérola ou ao capitão? – viu que a amiga corou com a brincadeira – me desculpe.

- Mas, acho que tem razão... sabe, foi o meu primeiro beijo...

- Julie, ele sabe? – quis rir com a ingenuidade da amiga, mas se conteve.

- Acho que não. Eu, pelo menos, não contei...

- Então ele acha que beijou um homem? – Elizabeth pulou.

- Mas, talvez agora ele desconfie... entendeu?

A loira calou. Levantou-se.andou de um lado para o outro. Finalmente falou.

- Só há uma coisa que você pode fazer, Ju. Contar.

- Contar? – a menina se assustou. – Não, eu não posso!

- Ju, você precisa! Ainda não percebeu? Está apaixonada!

- Eu? – respondeu assustada.

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Jack Sparrow não costumava andar pelo convés nas noites de lua cheia. ainda pairava sobre ele a idéia da maldição. Era vaidoso demais para se ver naquela forma cadavérica. Então, para poder ver a lua sem ver a si mesmo, sentou-se na escada do convés superior, onde não estava batendo a luz da lua. Se deixou observar a bela noite. Tão bela, que parecia despertar milagres. Ainda pensava nas lembranças, na menina, no beijo. O que devia fazer? Mesmo ainda não a tendo visto vestida de outra forma que não a de homem ou de criança, era uma bela mulher. Mas, o que fazer com ela?

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Mais um capítulo! Esse é grande, pra não deixar vocês na mão depois de dois capítulos minúsculos!

Só mais uma coisa: a pronúncia do apelido da Ju é aquela coisa inglesa (tipo djôu), ok?

Beijão e até mais!