Capítulo VII - Reconciliação
Narrado por Linda
Eu tinha passado a noite ao lado da cama de Brian, velando o seu sono. Ele finalmente havia dormido vencido pelo cansaço, depois de tanto chorar. Meu peito doía ao vê-lo tão magoado, tão triste. A angústia que eu tinha sentido desde a hora em que ele entrou pela sala da casa da nossa avó ainda estava ali. Era como se eu tivesse pressentido o que iria acontecer e isso me assustava demais. Eu não gostava de sentir aquelas coisas. Não podia ser normal sentir tamanha tristeza por algo que ainda nem tinha acontecido. Eu não gostava de ser assim.
Eu havia descido até a cozinha para pegar um copo de leite quando ouvi alguém bater levemente à porta da frente. Ao abrir a porta da sala, assustei-me com a aparência abatida de Mel. Seu rosto pálido, os olhos vermelhos e inchados de chorar e as mãos trêmulas que demonstravam uma fragilidade ainda maior do que de costume. Brian sempre dizia que Mel era uma pessoa extremamente delicada em todos os sentidos. Sua aparência agora exibia toda essa delicadeza, dava até medo de olhar. Era como se ela fosse se partir em mil pedaços a qualquer momento. Mel permanecia parada no meio da sala alternando o olhar de mim para a escada que dava acesso ao quarto de Brian. Parecia me pedir permissão para subir.
_ Ele ainda está dormindo, Mel. – eu disse tentando não deixar transparecer a minha angústia, mas pelo olhar dela em meu rosto eu tinha a certeza de que não havia conseguido.
_ Eu preciso falar com ele, Linda! Será que eu posso subir? – ela perguntou insegura.
Eu apenas assenti com um sorriso fraco nos lábios e ela imediatamente correu em direção às escadas. Quanto mais cedo eles conversassem e se entendessem, mais cedo aquela angústia acabaria.
Já havia se passado algum tempo desde que Mel subira ao quarto de Brian e a casa permanecia mergulhada no mais absoluto silêncio. Eu esperava que isso significasse que eles tinham se entendido. Eu permanecia na sala de casa, abraçada aos meus joelhos, sentada sobre o sofá. Gabriel descia as escadas, mas parou me encarando assustado ao ver a minha expressão.
_ Linda, você está se sentindo mal? – ele perguntou se aproximando preocupado e se sentando ao meu lado.
_ Eu não sei o que está acontecendo comigo, Gabriel. Desde ontem eu estou sentindo uma dor estranha no peito. Parece que tem um bloco de concreto me pressionando! – eu respondi sem conseguir evitar que uma lágrima rolasse pelo meu rosto.
Gabriel se assustou com o meu choro, provavelmente pensando que fosse algo grave. Ele se levantou do sofá e me forçou a ficar deitada enquanto corria de volta escada acima. Em menos de um minuto meus pais desciam preocupados correndo em minha direção.
_ Filha, o que você está sentindo? – meu pai me perguntava enquanto tentava verificar meus batimentos cardíacos.
_ Eu não sei pai! Desde ontem que eu estou sentindo um aperto estranho no peito. Às vezes dói um pouco aqui... – eu disse colocando a mão sobre o peito na altura do meu coração.
_ Você está sentindo mais alguma coisa? Enjôo? Tonturas? Vontade de vomitar? – minha mãe me perguntou com a voz preocupada enquanto acariciava meus cabelos.
_ Não. Só essa pressão estranha no peito. É como se fosse uma angústia muito forte. – eu completei.
_ Você tem dormido bem? – meu pai perguntou. – Está ansiosa com alguma coisa?
_ Tenho. Só não consegui dormir a noite passada. Eu fiquei no quarto do Brian. Ele não estava bem. – confessei.
Meus pais se olharam de uma forma estranha antes de falar comigo novamente.
_ Tudo indica que você está tendo uma crise de ansiedade, Linda. Você precisa tentar relaxar e dormir um pouco. Isso logo vai passar, você vai ver. – meu pai me tranqüilizava enquanto minha mãe voltava da cozinha com algo em um copo para eu tomar.
_ Beba isto, filha. É uma valeriana bem suave. Vai ajudá-la a relaxar e você poderá dormir e descansar um pouco. – minha mãe disse me entregando o copo.
Tomei o conteúdo do copo e já me preparava para subir ao meu quarto quando Mel passou por nós aos prantos. Minha mãe ainda chamou por seu nome, mas ela não atendeu. Continuou correndo em direção à porta da frente e saiu sem olhar para trás. Meus pais ainda olhavam para a porta com a expressão assustada enquanto eu já corria escada acima em direção ao quarto de Brian. Abri a porta e o encontrei deitado de costas para a entrada. Eu precisava falar com ele. Ele tinha que ir atrás da Mel e se entender com ela, ou nós três ficaríamos presos naquele círculo vicioso angustiante.
Narrado por Brian
Meu corpo estava cansado e eu me sentia incapaz de me mover. Nas poucas horas de sono que tive, havia sonhado com Mel. Ela sempre me dizia que nosso relacionamento estava acabado embora eu tentasse de tudo para que ela me perdoasse. O sonho era real demais. Eu podia até mesmo sentir o seu perfume perto de mim. Por um breve momento, cheguei a sentir a sua respiração perto do meu rosto, mas ela logo se afastou, me deixando sozinho. Cheguei a pensar ter ouvido o barulho da porta se fechando e abri os olhos assustado para então perceber que tudo não tinha passado de um pesadelo. Respirei aliviado e voltei a deitar a cabeça sobre o travesseiro e fechar os olhos.
Não sei quanto tempo havia passado, mas fui despertado pela entrada de Linda em meu quarto. Sua expressão parecia de dor e meus instintos imediatamente se colocaram em alerta máximo. Sentei-me na cama observando preocupado enquanto ela se aproximava de mim com o rostinho angustiado.
_ O que foi, Lindinha? Por que você está assim? – perguntei ao vê-la se sentar ofegante em minha cama.
_ O que foi que aconteceu aqui agora há pouco? – ela me respondeu com outra pergunta.
_ Como assim, Lindinha? Do que você está falando? – eu perguntei confuso.
_ Brian, a Mel esteve aqui por quase vinte minutos e de repente desceu chorando as escadas sem falar com ninguém! Vocês brigaram? – ela me perguntou impaciente.
A realidade me atingiu como um trem desgovernado. Aos poucos, a minha memória começou a recuperar os fatos que tinham ocorrido na noite anterior. Não tinha sido um pesadelo. Tudo tinha realmente acontecido. Minha angústia, antes aliviada, tinha voltado com força total. Linda ainda me encarava esperando pela resposta para sua pergunta.
_ Eu não sei por que ela foi embora sem falar comigo, Lindinha. – respondi derrotado – Mas eu preciso falar com ela e tem que ser agora.
Algo me dizia que eu tinha que correr ou eu a perderia de vez. Corri ao banheiro, escovei os dentes com pressa e peguei a primeira camisa de malha que vi jogada sobre a poltrona no meu quarto. Desci as escadas descalço e corri em direção à porta da rua. Meus pais estavam na sala e me olhavam com um misto de preocupação e pena. Eu não podia parar para falar com eles. Eu sentia que eu tinha que correr.
Abri a porta da sala da casa do tio Emmett sem nem ao menos bater. Nikki e tia Rose estavam na sala com uma expressão estranha. Meu coração batia disparado no peito, quase a ponto de doer. Parei congelado olhando para as duas, mas foi tia Rose quem me disse onde Mel estava.
_ Ela está no quarto dela conversando com o pai, Brian. Suba, é com você que ela precisa conversar agora! – ela disse sorrindo fracamente.
Não esperei mais um segundo. Praticamente voei escada acima, parando do lado de fora do quarto dela a tempo de ouvir sua voz chorosa.
_ Paizinho, por favor! Eu preciso ir... – ela chorava baixinho.
_ Filha, você não vai embora sem conversar com o Brian. Se depois que vocês conversarem você ainda quiser ir, tudo bem. Antes disso, não! – ele foi enfático.
Eu estava apavorado. Mel queria ir embora? Para onde? Ela tinha desistido de nós? O pânico, ao invés de me congelar, me impulsionou para frente e eu entrei no quarto surpreendendo os dois. Ao me ver, Mel imediatamente se levantou da cama ficando de frente para a janela, me impedindo de ver os seus olhos. Suas mãos tentavam disfarçadamente enxugar as lágrimas que eu sabia que molhavam o seu rosto. Sua respiração entrecortada pelos soluços que ela tentava em vão controlar a denunciava. Tio Emmett se levantou da cama com o semblante sofrido por nos ver daquela forma e veio em minha direção. Ele parou diante de mim, me olhando nos olhos e pousou sua mão direita sobre o meu ombro esquerdo dando leves tapinhas.
_ Converse com ela, Brian! Vocês não podem continuar assim! Precisam colocar tudo em pratos limpos. – ele me disse e logo saiu do quarto me deixando sozinho com Mel.
Ela permanecia de costas para mim. Pelo reflexo do vidro eu podia ver suas feições tristes, seus olhos fechados. Uma expressão que beirava o medo tomava conta do seu rosto. Eu estava parado no mesmo lugar, tentando encontrar uma forma de começar aquela conversa. Meu corpo implorava para que eu me aproximasse dela e a tocasse. Eu odiava aquela distância que nos separava.
_ Mel? – eu a chamei, mas minha voz saiu trêmula.
Ela abriu os olhos e me encarou através do reflexo da janela. Seu olhar era a mais angustiante demonstração de fragilidade que eu já tinha visto. Medo. Ela estava com medo. Eu só não sabia se era medo de mim ou do que eu tinha a dizer.
_ Olha para mim, por favor? – eu pedi angustiado.
Hesitante, ela se virou de frente para mim. Seus olhos brilhavam com as lágrimas represadas enquanto ela abraçava o próprio corpo tentando se controlar.
_ Não me deixe! – falamos ao mesmo tempo.
Era tudo o que eu precisava ouvir. Nem sei ao certo como me movi tão rapidamente. Tudo o que sei é que em um segundo eu a abraçava com todas as minhas forças querendo acreditar que não estava sonhando.
_ Eu senti tanto medo! – ela finalmente conseguiu falar, sua voz não passava de um sussurro.
_ Eu também, docinho! Eu também! – eu disse acariciando seus cabelos, ainda abraçado a ela.
_ Eu pensei que nunca mais fosse ouvir você me chamar assim! – ela disse ainda chorosa e agarrada a mim.
Franzi o cenho e me separei levemente dela olhando-a confuso. Ela pareceu perceber a minha confusão e logo tratou de se explicar.
_ Eu pensei que você tinha acreditado nas mentiras do Mark! Você não olhava para mim e nem falava comigo depois que tudo aconteceu e eu pensei... – ela não conseguiu completar a frase caindo em um choro magoado.
Peguei seu corpo trêmulo e frágil em meus braços e a levei para a cama, me deitando ao seu lado. Ela se agarrou a mim com toda a força que tinha, como se ainda tivesse medo que eu fosse evaporar diante dela.
_ E eu pensei que você tivesse ficado decepcionada comigo, docinho. Perdoe-me, por favor! Eu não devia ter agido daquela forma violenta, mas quando aquele moleque tentou me envenenar jogando toda aquela sujeira sobre você, eu perdi o controle. Ele não tinha o direito de ofendê-la daquela forma e eu não consegui me segurar. Eu sei que eu errei, eu sei que eu deveria ter agido de outra forma, mas foi impossível para mim.
Mel me olhava nos olhos enquanto eu lhe dizia essas palavras. Eu podia perceber que ela queria me contar a verdade, mas também lutava contra o medo da minha reação. Ela tomou o ar com força, tentando controlar o tremor do seu corpo e sentou-se na cama segurando as minhas mãos. Seu olhar pousou sobre a minha mão direita e eu vi claramente a tristeza tomar novamente conta das suas feições. Olhei para a minha mão e logo entendi o motivo.
_ Eu precisei tirar a aliança porque os meus dedos ficaram inchados, docinho! – eu expliquei enquanto ela acariciava com a ponta dos dedos o meu dedo vazio.
Ela suspirou aliviada e apertou as minhas mãos, olhando logo em seguida para o meu rosto.
_ Foi por isso que você saiu correndo do meu quarto sem falar comigo? – perguntei segurando o seu queixo para que ela não voltasse a desviar o olhar.
Ela apenas assentiu, suas bochechas tomando um leve tom avermelhado e um sorriso envergonhado nasceu no canto de seus lábios.
_ Eu nunca acreditaria em uma coisa monstruosa daquelas, docinho. Eu sei que você seria incapaz de agir de forma tão leviana comigo! Eu confio em você e preciso que você também confie em mim. – eu disse enquanto acariciava o seu rosto. Eu esperava que com minhas palavras ela tomasse a coragem de me contar tudo.
Mel suspirou aliviada e passou algum tempo em silêncio me olhando com doçura. Fitei seu rosto e vi claramente o tamanho de sua fragilidade. Os olhos inchados e vermelhos pelo choro, a pele mais pálida do que o normal e as duas manchas levemente escurecidas sob os olhos mostravam que ela não tinha conseguido descansar. Provavelmente havia passado toda a noite em claro e chorando. Mas, mesmo com uma aparência abatida, ela continuava linda. Perfeita.
_ Eu preciso conversar com você sobre o que aconteceu ontem, bebê. – ela finalmente tomou coragem embora sua voz tivesse saído trêmula. – Eu só peço que você me ouça e que entenda os motivos de eu não ter contado tudo antes!
_ Eu prometo que vou ouvir tudo com calma, docinho. Confie em mim, está bem? – eu pedi tentando passar-lhe confiança.
Ela sorriu fracamente, fechou os olhos e inspirou o ar com força tentando ganhar algum controle antes de falar. Quando ela novamente abriu os olhos e me encarou, eu soube que ela estava pronta para me dizer a verdade.
_ Desde aquela vez, no meu aniversário de 16 anos, Mark vem tentando a me convencer a ter alguma coisa com ele. – ela disse temerosa. – Eu não acredito que ele goste de mim de verdade, eu só acho que ele não aceita ter sido rejeitado. Ele sempre teve todas as garotas que quis sem fazer o menor esforço e eu tenho certeza de que o fato de eu nunca ter me rendido a ele feriu o seu ego. Ele não fica andando atrás de mim e não fica me ligando, mas sempre que ele me vê, ele tenta forçar a situação e me convencer a ficar com ele. Ontem mesmo, quando Sofia e eu estávamos no shopping, ele apareceu do nada querendo ficar comigo...
Meu coração batia acelerado no peito e um ódio imenso daquele imbecil fazia meu sangue ferver. Eu tentava me controlar para não assustá-la porque eu sabia que ela estava estudando todas as minhas reações. Respirei fundo e segurei suas mãos delicadas com mais firmeza para que ela continuasse.
_ Não aconteceu nada de grave no shopping, bebê. Ele tentou me obrigar a falar com ele quando nós tentamos nos afastar, mas eu consegui reagir e acho que ele ficou surpreso com o que eu disse para ele porque ele não teve reação. Sofia e eu aproveitamos para nos afastar de vez, entramos no carro e saímos de lá.
Seus olhos novamente se encheram de lágrimas e meu coração ficou espremido no peito pela angústia de vê-la daquele jeito.
_ Eu sei que eu deveria ter contado tudo antes, bebê! Eu sei que eu errei, mas eu tinha medo de que você perdesse o controle e fizesse alguma coisa que lhe prejudicasse! – ela disse voltando a chorar.
_ Shh... docinho! Não fique assim, já passou! – eu a abracei com força tentando confortá-la. – Eu sei que você não fez por mal! Eu amo você e confio na sua honestidade. Eu sei que você não seria capaz de me trair, minha menina! Não chore, por favor!
Mel explodiu em um choro descontrolado, mas eu sabia que aquele choro era de alívio. Ela realmente teve medo de que eu tivesse acreditado em Mark e eu me chutava internamente por não ter esclarecido as coisas na noite anterior. Se eu tivesse tido a coragem de conversar com ela, ela não estaria tão fragilizada agora.
_ Docinho, olha pra mim! – eu segurei seu rosto perto do meu enquanto secava suas lágrimas – Eu quero que você me prometa que não vai mais me esconder as coisas. Se ele tentar se aproximar de você novamente, eu quero que você confie em mim e me conte, está bem? E eu prometo que também não vou mais tentar adivinhar seus pensamentos. Sempre que eu tiver alguma dúvida, eu vou perguntar pra você antes de qualquer coisa. Promete fazer o mesmo?
Ela assentiu calada. Sua respiração ainda estava entrecortada pelos soluços. Puxei seu corpo para mais perto de mim enquanto uma de minhas mãos acariciava seu rosto e a outra a apertava com força contra mim. Aos poucos, ela começou a se acalmar e o tremor foi deixando seu corpo.
_ Você me parece muito fraquinha, docinho! Já se alimentou hoje? – perguntei preocupado ao olhar em seu rosto pálido.
_ Tomei um suco e comi uma fruta no café da manhã. Se eu tivesse comido algo mais, meu estômago teria expulsado tudo. Eu estava angustiada demais com medo de você não acreditar em mim. – sua voz era apenas um sussurro.
_ Eu sempre vou confiar em você, minha linda! Nunca duvide disso! – eu disse aproximando meus lábios dos seus.
Deus! Como eu tinha sentido falta daqueles lábios e das sensações que ele me fazia sentir. Nos deitamos novamente abraçados fortemente. Precisávamos descansar, precisávamos dormir para recuperar as forças, mas não queríamos nos separar naquele momento. Mel fechou os olhos com a cabeça recostada em meu peito e suspirou profundamente, relaxando. Em poucos instantes, ela ressonava tranqüila e protegida em meus braços. Beijei levemente sua testa e fechei meus olhos sentindo-me mais tranqüilo.
Eu estava completo de novo. Estava feliz! A tempestade havia passado e nenhum mal maior havia acontecido. Saímos com alguns arranhões, mas isso faz parte da vida e do aprendizado que tiramos dela. Sabíamos que, dali em diante, nosso relacionamento ficaria ainda mais forte e isso era tudo o que nos importava: estarmos juntos. Para sempre juntos.
