Reticências

Capitulo 7

Tum!

A última batida do coração foi sentida com tanta intensidade que a fez abrir seus olhos do mar de fogo e dor em que ficou mergulhada nos últimos dias. Seu primeiro instinto foi o de capturar os sons diversos desde os das baratas pelos cantos mais escondidos daquele lugar até o do passarinho cantando distante do lado de fora. Mas o som do seu coração se silenciara e ela sabia que era para sempre. Então, ela sugou do ar enquanto levava uma mão ao peito e estranhamente soube que estava viva.

Este foi o seu primeiro pensamento.

E a primeira visão de sua nova existência foi a de um teto escuro, provavelmente a parte de baixo de algum assoalho que estava sujo e com teias de aranhas. Ela viu as frestinhas nas madeiras do teto e os insetos que se escondiam por elas, para depois, olhar as partículas de poeira no ar que bailavam em frente à luz fraca e amarela da lâmpada redonda. Deveria ser algo simples de se ver, mas não o era, pois havia intensidade ali, com detalhes jamais vistos antes nas cores e nos movimentos assimétricos.

De lábios abertos Esme degustou do paladar de cada partícula que pinicava em sua língua. Era tudo parte de uma perfeita sincronia que se complementou quando ela capturou os aromas presentes no ar com o seu olfato e, dentre tantos, ela distinguiu, em especial, o orvalho da madeira, da menta e do mel. Mas, havia também, um cheiro próximo ao seu corpo, indecifrável ainda, mas, agradavelmente penetrante.

Carlisle a viu abrindo seus lábios e sugando do ar e pensou que aquele ato fosse somente um reflexo cognitivo de sua outrora personalidade humana. Ele se maravilhava com a transformação da mulher deitada a sua frente que tinha na pele imaculada a palidez que lhe era tão intima e sentiu a força contida nos dedos pequenos que apertavam a sua mão, a força de uma recém-transformada. Ela não tinha controle de seus atos, ele o sabia, então, lhe falou como falaria a uma criança que anda pela primeira vez:

_Está tudo bem! – pois era assim que ele sentia-se, responsável pela mulher que acordava para uma nova existência, a qual, ele concedera. Com atenção desmedida Carlisle notou que ela voltou-se atraída pela sua voz, que a direcionou em meio ao mar de descobertas, como se fosse a luz de um farol em meio a tempestade sem fim. Mas a voz, calma e acolhedora também, a levou para uma época distante, longe da dor que queimava em sua garganta, para uma noite escura. Com a força deste pensamento Esme ergueu-se e ficou em pé, vendo-se entre dois jovens homens. Seus olhos foram de um para o outro e sem qualquer explicação ela passou a sentir que os três tinham algo em comum. Esme voltou-se para o loiro alto e pálido que continuava a segurar a sua mão com firmeza, o rosto dele, os olhos e, principalmente, a voz, tudo, até mesmo o cheiro doce que emanava do corpo esquio lhe remontava a um sonho distante, repleto de fragmentos.

_Você!

_Lembra-se de mim, pequena Esme? – havia doçura no timbre daquela voz.

_Sim!- ela titubeou por um instante antes de responder, pois que não sabia quem ele era de fato, mas que sentia que havia a uma forte conexão entre eles.

_Ótimo!

Ele sorriu e a deixando mais relaxada com este gesto, pois que lhe transmitia segurança.

_Como está a sua sede?

A esta menção ela levou seus dedos até a garganta dolorida, havia um incomodo crescente em seu interior, uma secura estranha que piorava a cada instante. Sua mente ainda estava confusa, como se nuvens densas a impedissem de lembrar-se até mesmo de quem ela era, mas aquele homem jovem e loiro era o seu alicerce e, ela deu um passo até ele antes de falar.

_Esta ardendo!

O som da voz que saiu pelos seus lábios era suave e doce e surpreendeu a ambos. Carlisle sentiu-se abrandar com aquela aproximação, ele a contemplava quase que encantado com o que ela tornara-se, linda, simplesmente. E com certa ansiedade perguntou-se o que exatamente ela lembrava-se dele.

_Ela se lembra vagamente de você, mas não sabe quem é, tão pouco de onde. Carlisle, ela sabe que somos diferentes! – havia surpresa na bela voz do jovem de cabelos bronze e Esme se perguntou o que exatamente ela deveria se lembrar? Ela notou também que tanto o jovem de bela voz e cabelos de um tom incomum e o doce homem, chamado de Calisle, tinham o mesmo tom na cor dos olhos, um tom amarelo, fugindo do tom do mel. Mas a ardência estava se tornando muito pronunciada em sua garganta, a tirando daquela contemplação.

_Ela tem sede, o que vamos fazer? – Edward sentia-se intimidado, pois que ele passara por aquela experiência e sabia o quão profunda, e forte era a sensação da sede.

_Vamos ser educados Edward e nos apresentar. Pequena Esme, meu nome é Carlisle e este é Edward! - ela acompanhou com a cabeça de um para o outro, vendo na face de Carlisle a alegria e na do jovem identificado como Edward a duvida.

_Esme, eu lhe trouxe mudas novas de roupas.

Depois, Esme olhou para si mesma a constatar o estado de suas vestes.

_Elas são bem vindas! – e mesmo tendo a garganta seca e dolorida Esme sorriu em retribuição, revelando as pequenas covas em suas faces. Depois, ela soltou sua mão da segurança da mão dele e tocou no profundo rasgo que havia em seu vestido se questionando o que lhe havia acontecido. Sua mente lutava contra a ardência em sua garganta e com tristeza percebeu que não se lembrava de quase nada, apenas de sofrer muito e de que o homem que se intitulou de Carlisle lhe era familiar.

_O que houve comigo?

_Você entenderá com o tempo. Eu e Edward vamos deixá-la a vontade para trocar de roupas, depois a levaremos a um lugar onde poderá aliviar a secura em sua garganta.

Eles saíram lentamente a deixando só naquele porão sujo. Seus dedos tocaram o corpo, sentindo a firmeza de suas carnes e constatando a rigidez excessiva. Ela se surpreendeu quando foi puxar o vestido esfarrapado e o mesmo esmiuçou-se em seus dedos, caindo aos pedaços no chão. Depois ela tomou as mudas novas de roupas a vestindo no corpo e desejou poder tomar a um banho, tirar as manchas escuras que tinha na pele muito pálida. Com os dedos ela procurou ajeitar aos cabelos que estavam desgrenhados e olhou a volta em busca de um espelho. Por ultimo, Esme calçou aos sapatos e se dirigiu até a porta e teve a outra surpresa, pois ao tocar na maçaneta a mesma saiu em sua mão. Esme olhou desconfiada para a porta, para a estrutura da mesma que não parecia estar com a madeira podre. Ela saiu por um corredor estreito e subiu a uma pequena escada até dar em um andar superior e logo encontrou com os olhos ansiosos de Carlisle que lhe sorriu ternamente. Algo se agitou em seu peito e Esme estendeu a maçaneta que estava torta e amassada em sua mão.

_Desculpe, eu não pretendia!

Estranhamente, ela sentiu-se envergonhar.

_Fique tranqüila, era uma porta velha.

Carlisle caminhou até ela, medindo a velocidade de seus passos, tudo inspirava cuidados agora. Ele sorriu e retirou a bola de metal que virara a maçaneta na mão de Esme e colocou a dele no lugar. Lhe era reconfortante sentir o tom macio da pele dela sob a sua.

E único também!

_Venha, Edward nos espera no carro, temos que sair agora, enquanto é noite alta.

Esme se deixou conduzir por ele, pois sentia-se segura e protegida. Eles saíram da casa e ela olhou para trás, enquanto desciam as escadas em direção ao carro preto e lustroso que os aguardavam. Esme notou que estava em uma mansão e possivelmente havia acordado em um porão. Mas, por mais que tentasse, não conseguiu se lembrar de como havia chegado até lá.

_Esme?

A voz suave e terna de Carlisle a chamou, fora um sussurro, muito baixo. Ela sugou do ar livre da noite, sentindo o sereno que caia cheio de vida. Seus olhos percorreram ao redor do carro, havia uma mata, com arvores altas e escuras e por trás delas uma lua prateada e redonda. O vento que balançou as copas das arvores foi o mesmo que alisou os seus cabelos, mas ela não sentiu frio. A única coisa que Esme sentia era o ardor na garganta e ela aceitou a mão educada que estava estendia, a ajudá-la a entrar no automóvel. A frente, atrás do volante estava Edward, que lhe sorriu sem mostrar os dentes. Ele sentia que sua vida mudaria dali por diante com a chegada de Esme.

Assim que Carlisle adentrou no carro e se acomodou ao lado dela, ele ligou o motor do carro o colocando em movimento. Edward havia questionado a Carlisle o motivo de irem de carro para aquela caçada, no que fora advertido por Carlisle a manter a rota longe da cidade, mais para dentro da mata, afim de não expor Esme ao cheiro de algum humano.

_Ela é uma recém criada Edward, sua força e velocidade são impressionantes e eu não gostaria de testá-la neste momento. Não será como você, que absorveu parte do conhecimento apenas lendo a minha mente.

Edward percebeu a surpresa no rosto de Esme, ela vira a própria imagem refletida no espelho retrovisor do carro e tocou com as pontas dos dedos a própria face para depois se deter nos olhos vermelhos.

_Meus olhos, minha pele!

Ela sussurrou.

Edward já o sabia, que um recém criado mantém a cor rubi do sangue, assim que acorda, nas iris dos olhos. E que o tom excessivamente pálido na pele era também um indicio da falta do mesmo no corpo, pois com o coração morto, não tinha como bombear o liquido da vida pelas artérias e vasos.

_Se eu de fato morri, como posso sentir tudo assim, tão intenso? - Ela voltou-se para Carlisle - A rigidez do físico, a textura lisa e fria dos objetos, o quente e macio de sua pele.

Os olhos de ambos se abaixaram para as mãos entrelaçadas firmemente.

_Somos diferentes Esme, Edward e Eu e, agora, você também!

_Estamos mortos?

_Sim e não!

Carlisle concentrou todo o seu poder de persuasão ao olhar para os olhos cheios de duvidas e vermelhos de Esme.

_Eu preciso que você confie em mim neste momento! Não lhe desejo o mal e tudo o que fiz, foi por você, somente. Eu quero que você seja feliz Esme!

_Como se é possível isto, em meio a tantas perguntas?

_Eu irei lhe responder a todas. Mas antes, eu gostaria de lhe aplacar a sede, com ela diminuída será melhor o seu entendimento.

Esme levou seus dedos até a garganta antes de voltar a falar:_Eu sinto que é uma sede diferente, que a água, ou o suco da fruta, não irão aplacá-las.

_Não Esme, somente um fluído em especial poderá fazer isto.

_Qual?

_O sangue!

Ela não pensou por alguns segundos, enquanto desviava seus olhos dos dele. Esme mirou-se no espelho retrovisor e contemplou suas iris redondas e vermelhas, depois sua pele branca e imaculada e, lentamente ela fechou seus olhos. Imagens confusas de si mesma se intercalavam, dela sofrendo uma dor indescritível, com uma criança pequena nos braços, olhos frios a espreitavam, sombras estranhas a acompanhavam, Esme abriu seus olhos repentinamente e se deparou com os de Edward e um brilho reluziu dos deles a fazendo fechar os seus novamente e ver-se a beira de um precipício e depois a dor da escuridão.

Um esgar sofrido escapou dos lábios dela:_Então, Deus me castigou, pelos meus pecados!

_Deus não castiga quem ama, Esme!

_Mas castiga quem tira a própria vida!

Esme voltou-se para Carlisle e viu a tortura na face bela dele.

_Eu tenho muitos anos de existência, minha pequena e doce criança. E em todos estes anos, vi muitas pessoas, realmente merecedoras do castigo divino. Menos você!

Esme soluçava:_Eu estou chorando, mas meus olhos estão secos e eles tem a cor vermelha dos demônios...

_Esme olhe nos meus olhos, eu posso lhe garantir que esta cor irá embora, depois que você se nutrir.

_De quem?

O desespero passou a tomar conta dela.

_De animais, os da floresta! Corsas, Ursos, alguma pequena manada de cervos, até mesmo dos coelhos.

_Comeremos deles, então!

_Não, beberemos do sangue, apenas!

Ela soltou da mão protetora e segurou com desespero os ombros fortes e bem postos de Carlisle.

_O que somos? Para vivermos somente do sangue?

_Vampiros!

Esme soltou dos ombros de Carlisle para colocar suas mãos nas próprias faces.

_Somos demônios!

Desta vez foi Carlisle quem a tomou pelos ombros antes de falar.

_Esme, quando eu olho para você e para Edward, eu não vejo demônios! Eu vejo crianças, as minhas crianças, eu vejo a minha família!

Crianças, família!

Algo que Esme desejou por toda uma vida. Algo que lhe foi negado da forma mais cruel e insensível. Ela sentiu esta perca dentro de si, mesmo não se lembrando dos detalhes. Seus olhos brilhavam entristecidos, eles recaíram nos olhos amarelos de Edward que compartilhava de sua dor e sentiu nele um amor indescritível. Depois voltou-se para Carlisle que a olhava com ternura.

Como eles poderiam ser demônios?

Continua...