Olá pessoas lindas!
Em primeiro lugar devo-vos um enorme, mas enorme mesmo, pedido desculpas pelo atraso. Eu tentei, juro que tentei, ser o mais rápida possível, no entanto, não foi mesmo possível. Vocês nem imaginam a quantidade de vezes que escrevi, apaguei e reescrevi este capitulo simplesmente porque não ficava como eu queria. É um capitulo enorme, acontece muita coisa e eu espero ter conseguido que a história seguisse uma linha lógica e que esteja do vosso agrado. Também vos informo que vai haver, finalmente, alguma interação da Hinata e do Itachi como casal.
Quero agradecer imenso a todos os leitores e a todos os que deixaram review, significou muito para mim e é um dos motivos pelos quais eu continuo a escrever. Um agradecimento especial às pessoas que vieram diretamente falar comigo e perguntar porque é que eu estava a demorar tanto, isso também me incentivou imenso. O que eu quero dizer é que dá gosto escrever para vocês. Espero, honestamente, que o próximo capitulo não leve tanto tempo, o que honestamente não deve acontecer porque já tenho as ideias mais ou menos bem delineadas.
Sinopse – Ele era um homem frio e cruel que tinha assassinado a própria família. Para ela, ele não devia ser mais do que um dos homens do seu pai, mas não conseguia deixar de o ver como o seu anjo protetor desde que aceitara a sua mão naquela noite.
Disclaimer – Naruto e as suas personagens não me pertencem.
Capitulo seis – Do teu lado
A bonita mulher de longos cabelos negros e olhos vermelhos bufou quando acordou com batidas insistentes na sua porta. Abriu os olhos e deparou-se com o seu companheiro de todas horas, aquele que considerava o seu melhor amigo e amante ao mesmo tempo, ainda a dormir sonoramente. Selou os lábios com os dele num toque suave antes de se levantar a contra gosto e sair do quarto, apanhando no seu roupão de seda negra pelo caminho, cobrindo o pequeno conjunto vermelho que usava para dormir. Acendeu a luz da sala e fechou a porta do quarto para que o barulho nem lá chegasse e abriu a porta, bastante furiosa com quem quer que fosse que a estivesse a incomodar àquelas horas.
O seu humor não melhorou ao deparar-se com duas mulheres que conhecia muito bem e com quem não lhe apetecia conversar naquele momento.
- Temos um problema. – Foram as palavras de Tsunade, enquanto entrava na casa da outra arrastando Anko atrás de si sem sequer ter sido convidada. A anfitriã apenas fechou a porta atrás delas e encarou-as com uma expressão enfastiada.
- O que quer que seja, não pode esperar até amanhã de manhã? – Questionou enquanto se sentava num dos sofás, sem se importar em ser muito educada com as visitas inesperadas e indesejadas.
- Hyuuga Hiashi foi envenenado e suspeito que tenha sido uma das nossas. – Disse por fim a loura, prendendo por fim a atenção das outras duas, que não tinham noção do que se passara até ao momento.
- Mas isso quer dizer... – Começou uma Anko completamente chocada. – A Hinata...
- O que te leva a pensar que foi uma de nós? – Questionou Kurenai, deixando a sua voz transmitir uma calma que ela não sentia.
- A amante foi a ultima a vê-lo com vida. Conheci-a num evento da classe alta, ela tinha traços muito fortes, então lancei o sinal. Ela respondeu.
- Ele está...? – Perguntou Kurenai, obviamente preocupada com a primogénita dos Hyuuga.
- Pelo que sei ainda não, mas quer viva ou morra, alguém terá que tomar o lugar dele, nem que seja provisoriamente.
Tsunade era aquela que melhor compreendia aquelas famílias, afinal, ela mesma provinha da elite e fora habituada, desde muito cedo, aos costumes que estas carregavam. Um líder tinha de ser forte e Hiashi, mesmo que sobrevivesse, encontrava-se fragilizado.
- A Hinata não está pronta para assumir o posto dele. – Informou Kurenai, mas não era necessário, uma vez que todas sabiam disso.
- O que fazemos agora? – A pergunta veio de Anko, cuja personalidade direta e prática a obrigava a procurar soluções para os problemas apresentados em vez de remoer os problemas até à exaustão, no entanto, pela primeira vez em muito tempo, viu Tsunade, a mais velha e mandona das três, hesitar ao dar uma ordem, como se nem ela mesma soubesse o que deveriam fazer. Estava muito em jogo e elas nem sabiam de que lado deveriam estar e os seus planos de se manterem neutras tinham ido por água a baixo com a noticia de uma das delas, a amante do líder de uma das organizações mais importantes e perigosas da história, era uma das possíveis candidatas á sua tentativa de homicídio.
- Esperamos. – Disse por fim. – Passa palavra àquelas em que temos mais confiança: Iremos esperar e assistir aos próximos acontecimentos, no entanto, se por algum motivo não conseguir-mos sair da confusão, iremos assumir o nosso lugar ao lado da Hyuuga.
(...)
O mais novo dos sobreviventes do clã Uchiha encontrava-se enojado por ter que andar por esgotos, mas nunca o demonstraria, afinal, quem mostra as suas emoções é fraco. Infelizmente para os seus ouvidos, cabeça e sanidade mental, a rapariga que o acompanhava não partilhava a sua opinião e queixava-se, em alto e bom som para quem quisesse ouvir, da sujidade, cheiro e aparência daquele lugar que lhe estava a arruinar o cabelo, a roupa e os sapatos, para não mencionar o cheiro com que ficaria depois de sair dali.
Os outros dois rapazes que os acompanhavam não eram tão barulhentos, um deles apenas fizera um pequeno barulho de desagrados e queixara-se que cheirava "a esgoto", como se isso não fosse óbvio, enquanto o outro se abstivera de qualquer comentários.
A ideia de incluir aqueles três no seu plano para se vingar de Itachi viera à sua cabeça pouco depois de os conhecer e de perceber que todos poderiam vir a ser de grande utilidade para ele. Todos eles tinham tido os seus problemas no passado e tentavam, de algum modo, esquecer algo que os marcara. O que era irónico porque Sasuke fazia questão de não se esquecer do seu passado e tencionava vinga-lo.
Juugo, o rapaz alto e encorpado de cabelo cor de laranja, precisava ser controlado. Ao inicio, o sobrevivente do massacre não percebia aquele estranho que obviamente tinha muita força e era útil em combates, mas com o tempo aprendeu que o ruivo era um assassino que não gostava de matar. Então, o próprio Uchiha prometeu controla-lo e assim evitar mais mortes.
Suigetsu era outro caso estranho. Ele queria a todo o custo uma espada esquisita que pertencia a um homem preso. Isso não seria nada de especial se Sasuke não se lembrasse de o seu falecido pai, o antigo chefe da policia de Konoha, estar nesse caso. De facto, lembrava-se de onde o criminoso estava e conseguir a espada não seria muito difícil, uma vez que sabia exatamente onde procurar. Assim sendo, trocou a espada pela lealdade do rapaz de cabelos brancos, que agora o ajudava no seu objectivo de vida.
Karin fora a mais fácil de convencer, uma vez que ela obviamente tinha uma paixoneta por ele. Por vezes, a rapariga ruiva conseguia ser tão irritante como Sakura e Ino, mas ao contrário das suas outras fãs desmioladas, ela era muito útil nos seus planos. Ela era especial, como as pessoas anteriormente a chamavam, uma palavra que escondia outra muito mais cruel: aberração. Apesar de ser uma humana normal, Karin tinha o estranho dom de puder sentir tudo o que a rodeava até muitos quilómetros de distância, para além de também ser muito inteligente.
Quando finalmente chegaram à porta de metal escondida, uma das poucas entradas do laboratório secreto de Orochimaru, ele teve de usar quase toda a sua força para abri-la e entrou, sabendo que os outros o seguiriam.
- Sasuke. – Karin tentou chama-lo, mas ele calou-a ao levantar a mão e fazer sinal para se manter em silêncio. Afinal, ele sabia que não estavam sozinhos.
Caminharam por um corredor escuro e passaram por dois dos homens de Orochimaru que guardavam o local antes de entrar para outro corredor não muito diferente do primeiro. Todo o local era um labirinto, de modo a que qualquer pessoa que ali entrasse não chegasse ao laboratório, pelo menos não sem todos já saberem da sua chegada. No entanto, Sasuke já conhecia o caminho, fizera questão de o decorar logo da primeira vez que ali fora com Orochimaru, e guiou-os por vários corredores até chegar à área onde sabia que encontraria o homem esquisito que tanto gostava de cobras.
- Estava à tua espera, Sasuke. – Ouviram por fim uma voz vinda de cima, de uma espécie de plataforma no segundo andar. Olharam para cima para encontrar o estranho homem vestido numa capa que originalmente devia ser branca mas que agora apresentava um tom creme encostado às grades negras que ali haviam para prevenir quedas. Este observou-os atentamente um por um com uma curiosidade contida, mas não teceu qualquer comentário.
- Quando é que vou encontrar Itachi? – Questionou com uma voz fria e arrogância típicas dele.
- Quanta pressa. – Zombou Orochimaru. Os seus lábios curvaram-se ligeiramente num sorriso que nada tinha de agradável. – Hyuuga Hiashi caiu e alguém tem de tomar o seu lugar.
- E o que é que isso tem a ver com a minha vingança?
- Quando a filha de Hyuuga Hiashi tomar as rédeas do império do pai, é a Akatsuki que a vai proteger. – E foi ai que Sasuke percebeu exatamente onde o outro queria chegar. – E isto eu te posso garantir como ex-membro da organização: Não importa a situação, quem está à frente da Akatsuki são o Pain e o Itachi.
(...)
Hinata acordou com os raios de sol a baterem-lhe no rosto e uma estranha sensação de extremo cansaço, como se o seu corpo lhe implorasse por mais horas de sono. Abriu os olhos brancos, cor de pérola, e observou o sol pela janela, perguntando-se porque é que não teria fechado as cortinas no dia anterior. E foi ai que a realidade se abateu sobre ela e ganhou a noção do que tinha acontecido à algumas horas.
Fora jantar com os Sabaku e esperara pelo seu pai, que acabara por não aparecer porque tinha sido envenenado. Fora para casa com Itachi tão rápido quanto era possível sem chamar demasiada atenção e quando lá chegara nem sabia muito bem o que fazer.
Quando o carro estacionara, ela apenas saíra do carro tão rápido quanto conseguira e seguira, com passos fortes e rápidos, para dentro de casa, passando por vários corredores e subindo as escadas principais para chegar onde queria, um anexo da mansão Hyuuga que servia como enfermaria. Era um anexo porque normalmente era utilizada pelos membros da Akatsuki que se feriam em missões e que viviam noutro anexo da casa, mas agora quem o ocupava era ninguém menos que o patriarca da família.
- O que aconteceu? – Ouviu uma voz atrás de si perguntar ao homem alto de cabelo alaranjado que lá se encontrava, encostado ao lado de uma das portas do local, atrás da qual era muito provável a operação do seu pai estar a acontecer.
Encontrava-se numa sala branca perfeitamente esterilizada com alguns instrumentos e duas macas, provavelmente utilizadas para ferimentos menores dos quais tantas vezes eles eram vitimas. E depois havia várias salas de operações para os casos mais graves, predispostas ao longo de um pequeno corredor.
No entanto, o homem que ali estava não lhe respondeu e focou um ponto atrás dela, do lado direito, onde provavelmente Itachi se encontrava. Estava obviamente a avisa-lo que não deveriam discutir aquilo com ela presente.
- Nem penses nisso. – Murmurou ela, sabendo que ambos a iriam ouvir. – É o meu pai que está dentro daquele quarto a ser operado de emergência.
A sua afirmação seguiu-se de um silêncio mórbido no qual nenhum dos dois homens se atreveu a falar. Depois de alguns momentos, Pein soltou um sonoro suspiro antes de falar.
- Ele estava com a amante. – Informou por fim. – Suspeito que tenha sido ela a envenena-lo.
Hinata precisou de um momento para raciocinar tais palavras. Não era que ela não soubesse dos casos do pai, afinal, o pai continuava a ser homem e a ter algo a provar por ser o líder de família, mas aquele assunto deixava-a desconfortável. De facto, ela costumava consolar-se com o simples conhecimento que por muito que o pai gostasse daquelas mulheres, com quem ela evitara cruzar-se desde que estas começaram a frequentar a sua casa, ele nunca casaria com nenhuma delas e teria herdeiros, como tinha feito com a sua mãe. Pelo menos isso ela sabia.
- Como é que ele está? – Perguntou. A sua voz saiu rouca e, se fosse qualquer outra pessoa, não a teria ouvido, mas eles eram homens treinados para serem os melhores dos melhores, para ouvirem, saberem, perceberem e conseguirem lidar com tudo.
- Está neste momento a ser operado pelos melhores e mais discretos médicos do país. – Respondeu Pain, com o seu tom de voz autoritário. A maneira como ele disse aquelas palavras não dava espaço para contestação, mas na altura, ela simplesmente não queria saber.
Ela perdera a mãe muito cedo, mas ainda se lembrava dela, e isso afastou-a de Hanabi. O pai era a sua família, a única pessoa que, apesar de não ser carinhoso, reconhecia a sua existência. Ela não sabia o que iria fazer sem ele.
- Corre risco de vida? – Levantou os olhos cor de pérola para encarar os do assassino letal que tinha á sua frente. A diferença de alturas era notória, mas ela não se deixou intimidar. Sabia que aqueles homens eram leais ao seu pai e tinham ordens concretas para a tratar com cuidado.
- Por enquanto sim.
Depois, tirou um telemóvel do bolso e atendeu uma chamada. Hinata percebeu que o telemóvel estava em silêncio e nem tinha vibrado, mas ele apercebera-se da chamada mesmo assim. Respondeu com alguns "sim" antes de dizer que ia lá ter. Desligou sem qualquer despedida e virou-se novamente para eles.
- A noticia chegou lá fora. Nós asseguramo-nos que a casa está segura. A Akatsuki estará reunida pela madrugada na base. – Informou. Hinata não tinha a certeza se a informação era para ela ou para Itachi, mas não teve tempo para decidir isso ou responder, pois ele apenas virou costas e retirou-se.
Ficou durante longos minutos em silêncio, vidrada na porta da sala de operações onde o pai estava naquele momento. Uma infinita lista de coisas passava-lhe pela cabeça, mas ela só sentia um grande vazio.
- Eu quero vê-lo. – Murmurou com a voz rouca e sufocada, num tom capaz de dar pena à mais fria das almas. Itachi olhou-a por um momento, avaliando-a com os seus olhos cor de sangue antes de voltar a olhar para qualquer ponto atrás dela.
- Hiashi está a ser tratado pelos melhores médicos neste preciso momento. Não há nada que possas fazer e não posso permitir que atrapalhes. – Disse, no seu tom autoritário e frio.
Naquele momento, a primogénita da família gelou. As suas emoções passaram de um estranho estado de apatia e tristeza para uma raiva descumunal.
- Atrapalhar? – Repetiu, sentindo lágrimas a formarem-se nos seus olhos mas lutando, com todas as forças, para que estas não caíssem. – O meu pai está a ser operado de urgência porque a mulher com quem ele anda o envenenou e tu achas que eu querer vê-lo vai atrapalhar?
- Hinata, mantem a calma. – Aconselhou ele, mas ela não o ouviu, pelo menos não daquela vez.
- Eu não quero estar calma, nem seria normal eu estar calma. Sabes que mais? Isto já me aconteceu antes, quando soube que a minha mãe morreu e eu nem me podia aproximar porque era uma criança e podia atrapalhar.
Ela sentiu algo molhado a escorrer pela sua face e não precisou de muito para perceber que eram lágrimas. Também sabia que não deveria chorar à frente de Itachi ou de qualquer outra pessoa, afinal, ela era uma Hyuuga e Hyuuga's não choram nem mostram emoções, mas naquele momento, ela simplesmente não conseguiu evitar.
- E desde ai que isso é tudo o que faço. Eu só atrapalho. Atrapalho-te a ti, atrapalho o meu pai, em resumo sou um problema ambulante porque sou fraca e nunca serei quem vocês querem que eu seja. Mas mesmo que o meu pai ache isso de mim, ache que eu sou só um fardo e me trate mal, ele continua a ser meu pai e desde a morte da minha mãe, ele é a única pessoa que ainda se importa minimamente se eu continuo a respirar ou não. – Atirou por fim, num tom que não reconhecia como seu. – E agora sei que ele está ser operado numa cama de hospital e que há uma possibilidade de nunca mais o ver e tu dizes-me que eu não posso vê-lo porque posso atrapalhar?
Ela precisou de alguns momentos para recuperar o ar, só ai percebendo que gritara com o herdeiro dos Uchiha na pequena enfermaria da sua casa, que provavelmente era vigiada, e perto dos assassinos sem coração que pareciam ouvir tudo o que se passava naquela casa mesmo que tivessem a muitos metros de distância. Talvez não tivesse sido a mais sábia das decisões, mas ela não se arrependia.
Sem saber muito bem o que fazer, esperou alguma reação dele, no entanto, ela não veio. Ele ficou apenas quieto como se estivesse perdido nos seus próprios pensamentos e alerta a tudo o que se passava ao mesmo tempo. Soltou o ar de uma vez, por muito que nem se tivesse apercebido que estava a conter a respiração desde que o silêncio caíra entre eles, quando a porta abriu e revelou um homem vestido com a típica roupa verde que os médicos usavam dentro das salas de operações.
A partir dai, para rapariga de longos cabelos negros, tudo se tornou uma grande confusão entre os factos e as suas próprias emoções. Não conseguiu ouvir o que o médico lhe dizia, no entanto, era como se naquele momento tivesse ganho a habilidade de ler, nos lábios estreitos do homem desconhecido, o que ele acabara de dizer. Quando percebeu, uma sensação desagradável invadiu-a e foi como se lhe tivessem tirado o chão debaixo dos pés.
Hyuuga Hiashi estava em coma e não havia maneira de saber se acordaria ou não. A realidade abateu-se sobre ela sem qualquer piedade e lutou contra o súbito ímpeto de se desfazer em lágrimas.
Sentia a presença de Itachi ao seu lado, a observa-la em silêncio, sem fazer qualquer movimento. No entanto, quando ela sentiu as pernas a cederem e cair num choro descontrolado, ele apressou-se a guia-la até à cadeira mais próxima e sentá-la ali.
- O teu pai é um lutador. Não te posso garantir que ele sobreviva, mas podes acreditar que ele está, neste preciso momento, a lutar com todas as forças que tem para voltar á vida. – Disse ele, num tom estranhamente macio.
- A Hanabi? – Perguntou, num tom fraco, entre soluços, pois sabia perfeitamente que assim que esta noticia chegasse aos ouvidos de pessoas indesejadas, estas iriam atrás da filha conhecida. Não só por essa razão, mas porque apesar da frieza da irmã para consigo, Hinata sabia o quanto ela amava o pai. No fundo, nem eram assim tão diferentes uma vez que ambas procuravam a aprovação do patriarca da família.
- Está com Hizashi. Não é motivo de preocupação, está segura.
O médico voltou a sair da sala e aproximou-se para falar com eles, olhando com pena para a rapariga destroçada que se encontrava sentada na cadeira. Informou-os que a operação tinha corrido bem e que estava fora de risco, no entanto, ele havia entrado em coma e tudo iria depender de quando ele acordasse, se viesse a acordar.
- Posso vê-lo? – Questionou a morena com um olhar esperançoso.
- Ele só receberá visitas a partir de amanhã. Por hoje iremos acompanha-lo. – E após proferir tais palavras, o médico virou costas e regressou à mesma sala de onde tinha saído.
Ela não pode evitar pensar no quão injusta a situação era. Uma dor súbita atingiu-a no peito, uma dor que ela reconheceu como sendo a mesma de à muitos anos atrás, quando lhe disseram que a sua mãe, a sua querida mãe que ela tanto estimava, nunca iria voltar. E agora poderia acontecer exatamente o mesmo com o seu pai. Era uma hipótese que se tornara muito menor nas últimas horas, mas que ainda era um hipótese de qualquer das maneiras e ela não fazia ideia de como haveria de lidar com isso. Apercebeu-se repentinamente que, pelo menos da última vez, ela não ficara sozinha, não importava que o seu pai fosse a pessoa mais fria que conhecia, tinha perfeita noção que o olhar de gelo de Hyuuga Hiashi a observava e, apesar de ele nunca o dizer, sabia que estava preocupado com ela. Desta vez era diferente, porque não importava para onde olhasse, ela estava completa e irremediavelmente sozinha.
- Hinata. – Uma voz máscula interrompeu os seus pensamentos profundos e o seu estranho estado de transe provavelmente causado pela descarga emocional que acabara de sofrer. Olhou para cima, para o homem que acabara de falar e deparou-se com os olhos negros de Itachi a observa-la com um brilho que demonstrava uma compaixão mal contida. Isso confundiu-a, porque perante situação como aquelas - e perante a sua demonstração de fraqueza - ela esperava tudo, desde desprezo até pena, excepto compaixão do homem que foi responsável pelo massacre da sua família.
- Não estás sozinha. – Disse-lhe ele e apesar de a sua expressão não ter mudado e de ele não se ter movido nem um centímetro do seu lugar, ela sentiu que aquelas simples palavras vindas dele eram capaz de significar mais para ela do que qualquer gesto de pena que poderia vir a receber. Ela precisara de ouvir aquilo de alguém em quem confiasse e por muito estranho que parecesse, ela confiava cegamente em Itachi, o homem que a segurara pela mão naquela que, para ela, tinha sido a noite mais fria de inverno quando era apenas uma criança.
E então, inesperadamente e enquanto focava o olhar cor de ónix do criminoso à sua frente, viu-o estender a mão para si, exatamente como havia feito naquela noite à dez anos atrás, e ela sentiu-se novamente como a menina perdida que ele havia encontrado. Não conseguiu evitar curvar os lábios ligeiramente por entre os soluços que soltava antes de elevar a sua mão até à dele, imitando o gesto que executara naquela noite e sentiu uma estranha nostalgia a envolve-la. No entanto, desta vez foi diferente, pois assim que ele sentiu a mão dela segura na sua puxou-a com delicadeza e aproximou-se até que não restasse espaço nenhum entre eles. E ela só se apercebeu do que estava a acontecer quando sentiu um braço à volta da sua cintura e outro nas suas costas enquanto que o seu corpo ia contra o dele. E depois de perceber, teve de pensar se não estaria apenas a ter alucinações, porque nunca tinha imaginado que algum dia Uchiha Itachi, um dos assassinos mais frios que o mundo já conhecera, a iria a abraçar. E a sua reação foi abraça-lo de volta e enterrar a cabeça no seu ombro enquanto derramava as lágrimas que não conseguia conter.
- Tira-me daqui. – Pediu por um fio de voz. Nem se tinha dado conta do quão sufocada se sentia naquele local até ao momento. Estava tão perto do seu pai e o seu estômago revirava-se com o pensamento do patriarca da família em coma numa cama atrás daquela porta.
O Uchiha soltou-a delicadamente e afastou-se, nunca deixando de a fitar nos olhos enquanto caminhava em passos lentos até à porta e a abria para lhe dar passagem. Ela aceitou, mas só reparou que acabara por parar de soluçar quando já se encontrava no corredor. No entanto, o facto de estar a retomar, a pouco e pouco, o controlo das suas emoções, não queria dizer que se sentisse melhor.
- Itachi... Eu tenho de fazer alguma coisa... – Disse-lhe de repente, parando de andar para encara-lo diretamente nos olhos, lembrando-se que se a noticia havia chegado lá fora, um grande problema iria cair sobre eles em muito pouco tempo. Não que ele não o soubesse, provavelmente até tinha mais noção das consequências do estado do seu pai naquele mundo que os dois pareciam controlar do que ela, mas não podia evitar pensar que tinha responsabilidades, apesar de não ter a certeza no que é que estas consistiam.
- Tudo o que tens que fazer agora é dormir. – Ele disse, num tom autoritário que não permitia qualquer recusa ou discussão. Guiou-a até ao quarto dela e viu-a abrir a porta, mas quando ela se preparava para entrar, parou-a e passou à sua frente.
Hinata seguiu-o, confusa, até perceber o que ele olhava. As luzes do jardim encontravam-se todas ligadas e como a janela estava aberta, era possível ouvir o som de duas vozes masculinas, apesar de ela não ser capaz de as distinguir nem de perceber o conteúdo da conversa. Aproximou-se mais para observar exatamente o que ele estava a ver quando Pain e Hidan, que se encontravam em pé à frente da minha janela, olharam-nos de volta. Viu Pain dar um rápido aceno de cabeça para Itachi, como se confirmasse algo, antes de o Uchiha fechar a janela e de os dois homens dispersarem em silêncio.
- Eu não consigo dormir agora. – Garantiu, com um olhar rápido para a grande cama de casal que se encontrava no centro do quarto.
- Hina. – A sua voz parecia calma, mas quando os seus olhos caíram sobre os dele, percebeu de imediato que aquilo era uma ordem e que ele não estava tão calmo quanto aparentava. Também reparou, embora não soubesse dizer se não estaria só a imaginar coisas que ela gostaria que acontecessem, que ele deixara de lado a sua indiferença habitual e que a encarava com um certo cuidado, como se ela fosse uma boneca de porcelana prestes a partir a qualquer momento. – Senta-te e ouve-me com atenção.
Ela fez o que ele mandou, dirigindo-se á cama com passos lentos e sentando-se na borda. Esperou, pacientemente, enquanto ele fazia o mesmo, ficando de frente para ela. Não conseguiu evitar em pensar na quantidade de regras que ele devia estar a quebrar só por ter entrado no quarto dela, mas ele não se parecia importar com isso.
É claro que não, pensou, a pessoa que criou essas regras está em coma. E sentiu os olhos a lacrimejar outra vez, porque não importava quantas vezes ela se lembra-se do atual estado do pai, iria sempre doer.
Como homem observador que era, o prodígio dos Uchiha pareceu perceber o estado em que ela se encontrava, novamente, e suspirou antes de dizer, num tom calmo:
- Hina, eu compreendo que este momento esteja a ser difícil para ti, no entanto, preciso que me ouças. – Ela concordou com um aceno de cabeça. – Suspeitamos que o envenenamento tenha sido o obra da amante do teu pai. Não sabemos os seus motivos, mas uma coisa podemos presumir, ela agiu a mando de alguém.
Ela voltou a acenar afirmativamente com a cabeça, sentindo-se burra por tudo aquilo nem lhe ter passado pela cabeça em primeiro lugar. Ficara preocupada com o pai, no entanto, quase conseguia ouvir a voz dele a dizer-lhe que ela era uma Hyuuga e que Hyuugas sabes manter a cabeça fria em qualquer situação.
- Quem poderia... – Começou a pergunta, mas ele silenciou-a com um gesto rápido com a mão direita que lhe indicava que devia manter-se em silêncio.
- Hiashi é um homem muito poderoso, a lista daqueles que o querem ver cair é extensa. Existem suspeitos, como é óbvio, mas ainda não encontramos evidencias que levem a alguém em concreto. – Parou por um momento, como que a preparar as suas próximas palavras. - Há múltiplas razões pelas quais poderiam tentar envenenar o teu pai, mas a maior delas todas é, sem qualquer duvida, o seu império. – Lançou-lhe um olhar sábio. – Percebes onde quero chegar?
- Pela lógica, se o meu pai morresse, eu herdaria o império. – Murmurou ela, finalmente percebendo o ponto dele. – Mas ele não está morto. – Afirmou, com um tom mais alto.
- Ele é um homem muito odiado. Se o império Hyuuga não se mantiver intacto e com uma liderança segura, será uma questão de tempo até que ele seja morto na sua própria casa.
- Vocês não deixariam que isso acontecesse. – Disse a rapariga. – Vocês sempre foram leais ao meu pai. – E as suas palavras fizeram-no suspirar novamente.
- A Akatsuki é leal ao teu pai pelas mais variadas razões, afinal, cada membro é leal à família Hyuuga mas não aos restantes membros da organização. Compreendes o que te estou a dizer?
Ela compreendia. De facto, era algo que já havia notado. Bastava o pai dela dar uma ordem que todos obedeceriam, no entanto, os membros da organização não se davam entre si. A maioria costumava trabalhar sempre com os mesmos parceiros, mas ela nunca definiria aquelas estranhas relações entre eles como amizades. Eles toleravam-se e uniam as suas habilidades para completar uma missão, apenas isso. Se a organização perde-se um membro numa missão arriscada, ela tinha a certeza que ninguém ia lamentar, no entanto, agora que o seu pai estava em coma, todos se estavam a mover para regressar à mansão principal. Murmurou um "sim" e esperou que ele continuasse a falar.
- A Akatsuki é uma organização que trabalha sob o comando do líder da família Hyuuga, no entanto, a lealdade de muitos irá cair sem Hiashi.
- Mas Pain disse que eles estariam na base ao amanhecer. – Discutiu a morena, sentindo a cabeça pesar com tanta informação.
- E aqui estarão. Mas deves ter a noção que se a família cair, eles serão os primeiros a desaparecer.
Uma vez, quando era mais nova, o pai explicara-lhe que ela tinha de ser forte porque o poder e influência daquela família dependiam não só de todos os seus meios, mas também da sua liderança. Na prática, aquilo queria dizer que todo o império Hyuuga não dependia apenas da proteção e prestação de serviços da Akatsuki, a organização constituída por alguns dos melhores criminosos que o mundo já vira, mas sim de quem a liderava. Até ao momento, ela sabia, esse alguém tinha sido o seu pai. Ele era o membro chave do império, que era manipulado quase como um jogo de xadrez onde o que realmente importava não eram as peças mas sim como estas eram utilizadas. Todos os membros da Akatsuki reconheciam isso, umas vez que sabiam que ali, ao comando de Hyuuga Hiashi, eles valeriam muito mais do que peças isoladas e assim poderiam arranjar formas alternativas de atingir os seus interesses.
- A decisão de ficar ou ir depende de quem os irá liderar. – Percebeu por fim. – Mas Hizashi não...
- A liderança não pertence a Hizashi. – Cortou-a, sabendo bem no que ela estava a pensar. – E a Akatsuki não irá seguir o teu tio.
Depois de ele proferir tais palavras, ela preferiu ficar em silêncio, pois não confiava em si mesma para responder à altura. Ele pareceu perceber o seu dilema interno, pois apenas virou costas e dirigiu-se para a cama de casal, puxando os cobertores num gesto cuidado.
- Por hoje tenta descansar. Amanhã será um novo dia. – Assegurou. Viu-a acompanhar todos os seus movimentos com um olhar que poderia ser caracterizado como doloroso.
Hinata acenou afirmativamente com a cabeça antes de se virar e apanhar num pijama. Viu que Itachi se ia mover para sair do quarto, provavelmente para lhe dar mais privacidade e apressou-se a dizer.
- Espera. – A voz saiu mais alta do que ela esperava, quase como uma ordem e, para sua surpresa, ele estancou e olhou-a. Se ele fosse o tipo de homem que demonstrava emoções, com certeza estaria estupefacto e sem compreender nada, mas como se tratava dele, mantinha-se apenas atento a ela e impassível. – Importaste... – Teve de desviar os olhos dos dele, não por medo de os olhos vermelhos dele – e ela nem reparara que eles se encontravam vermelhos novamente – mas porque se apercebera do quão vergonhoso era o pedido que estava prestes a fazer. – O meu pai... Eu... Eu que-queria... – Parou novamente, soltando um suspiro exasperado por nem sequer conseguir exprimir-se devidamente. Ele devia acha-la patética e com razão.
- Podes-me pedir o que quiseres Hinata. – Concedeu ele, achando que a menina à sua frente precisava de um incentivo para falar. Também não compreendia a situação ou o porquê dela gaguejar, pois sabia que esse era um problema que ela havia ultrapassado, pelo menos na presença dele.
- É só que... – Respirou fundo, procurando uma maneira de dizer aquilo sem parecer tola. – Eu sei que isto não faz parte do teu trabalho, mas poderias ficar aqui? – Perguntou. Viu os olhos vermelhos brilharem com um certo divertimento e só ao perceber que ele erguia, elegantemente, uma sobrancelha, parecendo surpreendido com o pedido é que compreendeu que a maneira como ela o fizera poderia ser muito mal entendida. – Não quero dizer ficar aqui comigo, apenas...
- O teu pai foi envenenado hoje Hinata, é normal que estejas desconfiada da tua própria sombra e que não queiras ficar sozinha. – Itachi acabou por interromper, dando a entender que percebera o que ela queria. – Vai tomar um banho, pode ser que te acalme. Quando voltares, estarei aqui. – Informou e esperou que a menina, ainda rubra de vergonha das palavras proferidas anteriormente, entrasse na casa de banho e fechasse a porta atrás de si.
Dentro do pequeno compartimento, enquanto despia a roupa formal que usara para o jantar e se punha debaixo do chuveiro, Hinata não conseguia evitar pensar que não fazia a mínima ideia do que estava ou iria fazer, mas que pelo menos com Itachi ali ela tinha a certeza de existir pelo menos uma pequena hipótese de tudo acabar bem.
Quando acabou, secou o corpo e o cabelo com uma toalha branca e vestiu o pijama que tinha trazido, um conjunto de calças e top de seda negra que caia graciosamente pelo seu corpo, fazendo-a parecer mais alta do que o que realmente era e mostrando toda a sua elegância e curvas acentuadas. Por um momento corou, lembrando-se que Itachi a veria assim vestida e que isso era tudo menos próprio.
A quem queres enganar? Questionou-se a si mesma. Ele nunca olharia para uma menina como tu, não quando pode ter qualquer mulher.
Acabou por afastar esses pensamentos enquanto se dirigia para o quarto, acabando de secar os longos cabelos escuros com a toalha. Procurou qualquer sinal de Itachi pelo quarto e só o encontrou, nas sombras, sentado numa poltrona perto da porta. Era estranho de pensar que tinha um assassino sentado numa poltrona do seu quarto, com os olhos cor de rubi dele a segui-la em todos os seus movimentos, e que aquela imagem que lhe dava tanta segurança significava o verdadeiro perigo para todos aqueles que ele considerasse inimigos.
Pousou a toalha numa cadeira e aproximou-se da cama. Não sabia muito bem como agir, mesmo que tivesse sido ela a pedir que ele ficasse, afinal, nunca tinha tido um homem no seu quarto durante a noite antes, nem mesmo o seu pai.
- Itachi. – Chamou e após um longo minuto de silêncio, viu-o levantar-se e aproximar-se lentamente, prestando atenção não só a ela mas a tudo o que os rodeava. Depois, sentou-se à frente dela na borda da cama. – Achas que vão tentar matar o meu pai? – Ele suspirou antes de responder.
- Temo que sim. – O seu tom era calmo e condescendente. – Não penses nisso agora. Descansa.
- E se o meu pai não acordar? – Questionou.
- Hinata, tens de acreditar... – Começou, mas parou ao perceber uma lágrima solitária a cair pelo rosto belo e pálido da morena à sua frente.
- Tal como acreditei que a minha mãe iria voltar do trabalho naquele dia? – Questionou, com uma voz fraca. Percebeu o homem à sua frente a hesitar, apesar de não perceber porquê. Então viu-o fechar os olhos e assim se manter durante longos segundos, segundos de agonia para ela que se encontrava mais perdida do que nunca, até que os olhos deles se abriram, tão negros como o céu sem estrelas, tão incrivelmente bonitos e tristes que ela achou que se podia perder neles e nunca mais se voltar a encontrar. Quem achava que Uchiha Itachi não passava de um criminoso perigoso responsável pelo massacre da sua família e que os olhos vermelhos eram perigosos nunca havia visto o que ela via naquele momento, os olhos de um homem forte mas tão perdido como ela. Os olhos de alguém capaz dos maiores crimes mas também das maiores bondades e, sobretudo, alguém que estava ali para ela. Viu-o aproximar-se e uma das suas mãos empurrou-a, com uma gentileza que ela nunca imaginara sequer existir, contra o seu peito.
- Há algo que te quero perguntar. – Sussurrou, com medo que ele simplesmente se apercebesse do que estava a fazer e se afastasse. Ela queria manter aquele contacto, aquele carinho que ela tanto precisava, por quanto tempo quanto fosse possível, no entanto, precisava de saber. – Porque estás aqui?
Se há menos de uma semana alguém lhe dissesse que ela estaria a perguntar algo daquele género ao assassino favorito do seu pai, ela não acreditaria. Mas ela não conseguia ver nada de errado com a pergunta, não naquele momento. Esperou que ele percebesse o significado e a importância daquelas palavras quando lhe desse a resposta. Queria que ele lhe dissesse se tudo aquilo, tudo o que fizera por ela, havia sido apenas para seguir ordens e só conseguia esperar que não, que assim não fosse, pois ela não sabia se conseguia aguentar outra desilusão naquele dia.
- Porque à dez anos atrás, encontrei uma menina de seis anos a chorar no meio da neve. Jurei para mim mesmo que a iria proteger. – Confessou ele. Ela não podia ver a expressão dele, no entanto, confiava naquelas palavras. Uma onde de emoção assolou-a, deixando-a quase sem ar. Não tinha a certeza de compreender o que ele queria dizer, no entanto, parecia-lhe algo muito mais profundo do que algum dia imaginara.
- Porquê? – Limitou-se a perguntar, tentando obter mais respostas.
- Porque naquele momento, ao olhar para ti, percebi que ainda existia uma réstia de luz neste mundo de escuridão. – Olhou para cima, deparando-se com o rosto dele apenas a centímetros do seu, a observa-la. Os seus olhos mostravam uma mistura de emoções que ela não conseguiu decifrar por estar demasiado imersa nas suas. Depois, viu-o curvar os lábios num sorriso de canto antes de pousar os lábios nos dela num toque tão suave que ela quase podia duvidar que acontecera. No entanto, o ritmo acelerado do seu coração provava que tudo aquilo estava mesmo a acontecer.
Quando ele se afastou novamente e a soltou definitivamente, ela sentiu-se subitamente como se o seu mundo fosse desabar, mas logo se acalmou ao perceber que ele lhe segurava os cobertores para que se deitasse.
- Agora descansa. – Ordenou. A rapariga obedeceu, sem nunca desviar os olhos dos dele. – Eu estarei aqui.
Sentiu a mão dele em cima do seu braço, mesmo por cima dos cobertores, e percebeu, com alguma surpresa, que os seus olhos imploravam para se fecharem do cansaço acumulado. Só se apercebeu que já não chorava mais nem sentia qualquer vontade de o fazer quando caiu num sono profundo.
Depois de todas estas memórias lhe virem à cabeça, levantou-se num pulo e inspecionou todo o quarto, verificando que estava vazio. Não podia negar que se sentia desiludida por ele não estar ali, no entanto, reconhecia que ele provavelmente tinha muito mais para fazer com a presença dos Akatsuki na base. Ou pelo menos era isso que ela pensava quando ouviu a sua porta a ser aberta e homem que ela procurava entrou no seu quarto. Ele estava com uma roupa diferente da do dia anterior, trocando as roupas formais por umas calças de ganga pretas e uma camisa da mesma cor que lhe assentava perfeitamente e uns sapatos de marca que ela nunca tinha visto, e o seu cabelo caia solto e molhado pelos seus ombros, o que era estranho considerando que ele sempre prendia o cabelo. Trazia, nas suas mãos, um tabuleiro cheio de comida. Ao vê-la acordada, aproximou-se da cama e pousou o tabuleiro branco à sua frente.
- Isto é... – Começou, observando o tabuleiro cheio de comida. Havia croissants, fruta, iogurtes e café. Eram tudo coisas que ela gostava de comer, especialmente ao pequeno almoço, e perguntou-se se aquilo era um acaso ou se ele reparara em tais pormenores.
- O teu pequeno almoço. Sei que o costumas tomar na sala de jantar, mas dadas as circunstâncias... – Explicou por fim.
Hinata olhou para ele e dele para o tabuleiro. Depois, apercebendo-se que estava esfomeada, trincou um croissant e começou a comer um dos iogurtes que ele havia trazido.
- Já tomaste o pequeno almoço? – Questionou ela, com a sua voz melodiosa a ecoar pelo quarto.
- Já tomei café, é tudo o que preciso. – Respondeu ele, cortes. Aparentemente, havia voltado a ser o assassino modelo e obediente que costumava trabalhar para o seu pai.
- Aparentemente hoje o dia vai ser tudo menos normal, talvez queiras partilhar este pequeno almoço, eu diria que vais precisar. – Aconselhou, vendo-o levantar uma sobrancelha e estranhar a sua atitude. Ela virou o tabuleiro na direção dele e viu-o, de maneira hesitante, tirar um croissant.
Acabou rapidamente de comer e apressou-se na direção do guarda roupa, abrindo-o e olhando para todas as suas peças durante longos segundos.
- Há algo que preciso de saber. – Comentou por fim, tentando simplesmente não pensar demasiado, pois sabia que se o fizesse iria desfazer-se em lágrimas novamente e, infelizmente, não tinha tempo para isso. Olhou para trás, para o homem que ali estava ainda com parte do croissant na mão mas completamente atento ao que ela dizia e continuou:
- Ontem disseste que me irias proteger, então, estás do meu lado? – Questionou, tentando não perder a coragem.
- Isso importa? – Ela já esperava que ele desse aquele tipo de resposta, uma resposta que, no fim de contas, não responde a nada, então simplesmente deu um sorriso triste.
- Importa. Afinal, tu és a única pessoa que me resta. – Confessou, contente por a sua voz não falhar. Esperou, ansiosamente e com o coração a bater a mil, que ele lhe respondesse.
- Estou do teu lado Hinata. E sempre estarei. – Aquilo soava como uma promessa, tanto que ele largou o resto da comida e levantou-se, ficando um pouco mais alto que ela. E ela acreditou, porque naquele momento era tudo o que ela podia fazer.
Virou costas e procurou algo que pudesse vestir naquela ocasião. No fim de contas, a sua mãe não ia voltar, mas Hikari havia vivido tudo aquilo que podia e com certeza que desejava que a sua filha continuasse a viver. A mãe nunca mais voltaria, por muito que isso doesse, no entanto, o seu pai ainda tinha uma hipótese, ainda havia uma pequena chance de ele acordar. Talvez ainda o pudesse abraçar quando ele acordasse, apenas para levar uma reprimenda por demonstrar emoções quando não o devia fazer, seguido de um longo discurso sobre a maneira como ela deveria agir. Ainda lhe restava Hanabi, a irmã que se encontrava agora tão distante mas que ela nunca deixara de amar. Sofrera demasiado quando a sua mãe morrera, todos eles sofreram, no entanto, talvez ela pudesse fazer algo para evitar que ela e a irmã passassem por isso novamente. O seu pai poderia ou não acordar e não havia nada que ela pudesse fazer para mudar isso, mas ainda havia muito que ela podia fazer.
- Está alguém lá fora? – Questionou, vendo, pelo espelho, que Itachi olhava para a porta pelo canto dos olhos, talvez demasiado atentamente. Viu-o acenar positivamente. – Quem?
Ouviu algumas batidas na porta e preparava-se para ir abrir quando se deparou com uma mão com algo estendido. Itachi movia-se rápido e silenciosamente o suficiente para ela não captar os seus movimentos, então não era uma surpresa que de um momento para o outro ele interceptasse o seu caminho, a surpresa estava no facto de ele segurar um roupão negro do mesmo tecido do seu pijama na mão. Só ai é que ela olhou para baixo e percebeu que ainda usava a bonita e elegante peça mas que também poderia ser considerada um pouco ousada. Podia ser só uma menina comparada com ele, mas aparentemente ele notara a sua forma de vestir e causara alguma impressão. Corou de vergonha ao pensar no assunto e aceitou o roupão, agradecendo com um aceno de cabeça.
- Entra Pain. – Disse, assim que se deparou com o homem cheio de pircings com cabelo ruivo.
Ele seguiu-a para dentro do quarto e preparava-se para falar, ela nunca chegou a saber se com ela ou com Itachi, quando ela o fez primeiro.
- Os membros da Akatsuki já cá estão? – Questionou numa voz firme enquanto continuava a olhar para o seu armário. Percebeu, pelos grandes espelhos embutidos nas portas do armário, que os dois homens se entreolharam antes de Pain responder.
- Sim, chegaram todos de madrugada.
- Onde está a restante família Hyuuga? – Perguntou, novamente num tom firme mas inexpressivo.
- Na mansão segundaria, mas estima-se que aqui estejam em menos de meia hora. – Respondeu automaticamente, dando as informações pedidas.
- Achas que consegues reunir toda a gente na sala de reuniões principal em uma hora? – Virou-se para os dois homens, percebendo as diferentes expressões destes. Itachi parecia surpreso e Pain agradado, de tal modo que respondeu que sim, que seria possível. – Trata disso então.
E com isto, o homem ruivo saiu do quarto tão depressa quanto tinha entrado, deixando-os, de novo, sozinhos.
- O que tencionas fazer? – Ouviu a pergunta de Itachi enquanto agarrava numa roupa e ia na direção do quarto de banho.
- O que o meu pai gostaria que eu fizesse. Vou fazer tudo o que posso por esta família, mas vou faze-lo à minha maneira. – Respondeu, antes de fechar a porta.
No seu banho, ela acabou por perder o olhar surpreso de um Uchiha e o pequeno mas visível sorriso perante a sua atitude. Afinal, ele sempre soubera que Hinata tinha algo de especial e agora o resto do mundo iria perceber isso também, a bem ou a mal.
Continua...
