Saint Seiya pertence ao M. Kurumada.
Três dias se passaram.
Milo mal conversava com os demais dourados e cuidava calculadamente os horários em que Camus buscava suas refeições para não encontrar com ele. Ocultava seu cosmo ou então pedia para os vizinhos zodiacais do aquariano se este estava em seu templo, sempre que precisava passar por Aquário.
Já Camus tentou, sem sucesso, encontrar Milo nos dois primeiros dias. No terceiro já tinha transformado aquele sentimento de culpa e dor em uma raiva que mal podia conter em seu peito.
- Pela Deusa! Você está com uma cara péssima einh vizinho? – Afrodite comentava sem pudor nenhum, sentado nas escadarias de seu templo, enquanto Camus descia estas em direção à sua casa.
- Vá procurar o que fazer Afrodite. – Aquário havia deixado sua educação em outro lugar.
- Tsc! Que grosseria! Eu e nem ninguém nesse Santuário tem culpa se você e o aracnídeo brigaram!
- Exatamente! Por isso, não se meta.
- Se o humor de vocês dois não tivesse transformado todo o ambiente num inferno, com certeza eu não me meteria. – Afrodite analisava suas unhas enquanto falava.
- Se vocês cuidassem mais das suas próprias vidas não sentiriam meu mau-humor.
- Hahahahahaha! Meu bem, essa aura negativa sua e de Milo é tão densa que praticamente me afoga! E pode ter certeza que não sou o único a pensar assim. Todos estão preocupados, entendeu? TO-DOS.
Por algum motivo a palavra "todos" fez Camus parar. Será que aquele momento ruim poderia sair de seu controle e chegar a preocupar sua Deusa? Ele não queria que ela ou seus colegas se preocupassem com algo que ele julgava tão pequeno.
- Entendeu agora Aquário? Tenha a bondade de ir se resolver com seu namorado. – Afrodite agora estava de braços cruzados, encarando as costas do vizinho.
- Ele não é mais meu namorado. Foi ele que terminou comigo. Eu não vou correr atrás.
- AAARGH! Me poupe desse orgulho imbecil! Se eu não te conhecesse até acreditaria que você é vítima, mas com certeza deve ter dito algo tão devastador como um Athena Exclamation pra ele.
- O que?! – Camus virava-se, encarando o vizinho. – O que você sabe? Não me julgue Peixes, você não tem ideia de como Milo é infantil, ciumento e carente!
- É o jeito dele Camus... é o jeito dele demonstrar que gosta de você. – A voz do pisciano agora estava doce como a de uma mãe.
- Entenda uma coisa Afrodite: não sei porque diabos você está tentando ajudar Milo, mas adicione isso a sua teoria: e o meu jeito? Alguém analisou o quanto eu me esforcei para me adequar às "necessidades" de Milo? Ele jogou na minha cara coisas, como se eu estivesse traindo ele com Saga! Pelo amor dos deuses! Isso não faz o menor sentido! Se eu amo Milo, isso não significa que eu seja propriedade dele!
Camus tinha perdido boa parte da sua compostura. Ofegava, encarando seu colega pisciano enquanto este arregalava os olhos azuis claros, impressionado com aquelas palavras.
- Uau.
- Pff. – Camus deu de ombros e se virou para seguir seu caminho. – Espero que você lembre de analisar os dois lados quando for se meter na vida dos outros novamente.
Passos duros soaram nas escadarias que saiam de Peixes e levavam até Aquário, mostrando que Camus não voltaria para esclarecer mais nenhum comentário de Afrodite.
Quando o aquariano tinha sumido da vista de Afrodite, este olhou para dentro de sua casa, entediado.
- Ele já foi, você sabe.
E então Milo apareceu, pálido e mudo.
- Aff... vocês cansam a minha beleza. – O belo suspirou, passando a mão pelos cabelos. – Vai, xô, xô! Vai logo falar com ele antes que eu ganhe rugas com essa energia negativa que vem de vocês!
Mas Milo não deu mais nenhum passo. Sentou-se com as mãos no rosto.
- Eu não sei o que dizer a ele Afrodite. ... principalmente depois da parte do "eu não sou propriedade dele".
Compadecido com a cara tristinha de Milo, o belo aproximou-se e fez um pequeno carinho na cabeleira loira.
- Olha meu querido. Uma coisa Camus tem razão: se ele mudou algumas atitudes para não te magoar, seria justo você se esforçar também para não magoá-lo. Talvez proponham um trato, algo tipo: "quero uma hora do seu dia para mim". Vocês são muito diferentes, se os dois não cederem, nunca vão dar certo.
Milo levantou os olhos e encarou Afrodite, analisando se este falava serio. Quando viu o sorriso sincero do cavaleiro de Peixes, encheu-se de esperança e desceu até Aquário, rezando para não ser mandado embora com um Execução Aurora.
...
Em Aquário, Camus deixou o copo de água cair no chão e espatifar-se em mil pedaços, assim que sentiu o cosmo de Milo se aproximando.
- ... vem de... Peixes?
Começava a sentir uma pequena raiva crescendo enquanto imaginava Afrodite e Milo tramando pelas suas costas, quando o escorpiano se fez presente no templo aquariano.
- Camus! Por favor, me escute antes de fazer qualquer coisa!
Milo sabia que seu namorado (ou ex-namorado) não era nada bobo e logo perceberia o que acabara de acontecer. Já Camus, não deu ouvidos a tudo que haviam lhe pedido.
- Você ficou de tocaia ouvindo tudo o que eu disse uh? Você é realmente impressionante Milo.
- Por favor, não me interprete mal. Eu... – Milo suspirou e baixou os olhos por um momento. – ... só pedi ajuda pois não sabia mais o que fazer.
- Você terminou comigo, não deixou eu me explicar e depois não sabia mais o que fazer. Interessante. – Cruel, Camus jogava sua mágoa na cara do outro.
- Não fale como se fosse o senhor da razão! Você me magoou muito com o que disse! – Milo reclamou, quase choroso. - ... dizer que meu amor lhe faz mal... me senti a pior coisa do mundo!
- Eu me expressei mal! O seu amor não me faz mal, suas atitudes ÀS VEZES me machucam! Você deixa de pensar nas consequências do que faz e isso, digo, essas atitudes que você diz serem por amor que me fazem mal! ... Milo... você deve ter ouvido, mas vou repetir: eu não sou propriedade de ninguém! Eu gosto de você, demais até! Mas não vou deixar de fazer o que sempre fiz por causa disso!
Tanto Camus quanto Milo bufaram assim que o discurso aquariano terminou.
- Saga... ele não me desce. – Resmungou Milo, vencido.
- Birra sua. – Camus fazia pouco caso desses sentimentos de Milo.
- Eu sei que ele gosta de você! Só você não vê isso! – Os resmungos se alteravam.
- AZAR O DELE! EU GOSTO DE VOCÊ! – Camus perdia completamente a paciência. – ARGH! Mas que cabeça dura! Quantas vezes eu vou ter que te dizer isso?!
- Eu sei que você gosta de mim, eu confio em você, eu não confio NELE! – Milo aproximava-se mais, gesticulando em direção a casa de Gêmeos.
- Milo. Milo, me ouça. – Camus pegou o rosto do amado em suas mãos. – Eu não vou ser estuprado ou assediado ou qualquer coisa assim, eu conheço Saga. Ele não é mau. Aquele alterego dele não existe mais, você sabe disso. Chega dessa bobagem.
- Você me perdoa então? – Milo segurava as mão de Camus.
Camus deu um longo suspiro.
- Se você me perdoa, sim.
E depois disso, nada mais foi dito. Milo atacou Camus com um beijo cheio de saudades e paixão, sendo devidamente correspondido.
-/-
Semanas se passaram e os humores aquariano e escorpiano melhoraram, deixando todo o Santuário mais leve. Os únicos que não acharam aquilo tão bom eram os abençoados por Gêmeos.
- Ai ai... que novela mais chata. Aqueles dois não se merecem, não combinam... quantas vezes vão ter que brigar pra entender isso? – Kanon resmungava, jogado em uma poltrona e com os pés sobre a mesinha de centro da sala de Gêmeos.
- Cala essa boca Kanon. Deixa eles, se eles se gostam, não podemos fazer nada. – Saga chamava a atenção de seu irmão, mesmo com o coração sangrando.
- Pff... você está um chato desde que resolveu ser sempre bonzinho. Eu sei que no fundo você gostaria der dar um fim em Milo e pegar Camus pra você.
Saga virou-se e encarou o gêmeo de forma que o mais novo até se endireitou na poltrona. Pela frieza da mirada, Kanon sabia que tinha passado dos limites.
- Ok, ok. Continue sendo um perdedor. Eu vou pegar o que é meu.
Saga se colocou na frente de Kanon, ainda com o olhar duro.
- Não ouse interferir na vida deles. Se eu ver que Camus está sofrendo por causa de Milo e tiver algo a ver com alguma atitude sua, só Athena vai poder te salvar da morte.
Kanon deu um sorrisinho quase debochado.
- Pfff... você ama mesmo o francês não é? Chego a ficar com o peito apertado por você irmão. ... Fique tranquilo, não vou fazer nada.
E saiu.
...
Kanon tinha avistado Milo treinando e resolveu se juntar a ele:
- Olá Milo.
- Opa, olá Kanon. Faz algum tempo que não conversamos.
- Bom, nem todos tem coragem de chegar perto de você e de Camus quando estão brigados. – O geminiano riu e deu um leve tapa no ombro do grego ao seu lado.
Milo riu junto dele.
- Não sei o que dizer.
- Já pensou que se vocês permanecerem assim para sempre podem desencadear o fim do mundo?
- O que? – Milo não sabia se tinha entendido aquele comentário.
- Você e Camus.
- O que tem eu e o Camus? Não sei se estou entendendo o que você está insinuando.
- Não estou insinuando nada. Estou constatando algo. Vocês brigam demais Milo. E toda vez que brigam sobra pra todo mundo.
Aquela conversa começava a irritar o Escorpião.
- E você está me dizendo isso agora por que exatamente? Não tem nada mais pra fazer Kanon?
- Hooo!... Calma, não era para ser uma ofensa. Eu só queria que v...
- Eu não sei o que você queria, mas isso não está me agradando nada. – Milo já começava a enrugar as sobrancelhas e cerrar os punhos. – Desembucha logo.
- Viu? É isso que quero dizer: quando falamos "Camus" ao seu redor, você perde completamente a sua estabilidade emocional, física, psicológica, sei lá. Você fica todo nervoso, estressado. Tem algo errado nesse relacionamento de vocês Milo. Isso não é nada normal.
- Quem não é normal é você que fica se metendo onde não é chamado! Ainda não entendi por que diabos você vem aqui, no meio de um treino, me falar o que pensa sobre o meu relacionamento com Camus! Como se eu me importasse com o que você pensa!
Milo levantou-se, irritado até demais com aquelas palavras. "Brigam demais... pff! ... O que ele sabe?... Quem ele pensa que é para vir falar algo assim?", pensava o grego enquanto voltava para seus afazeres. Estava tão desestabilizado pelo comentário que não percebeu que Kanon o seguia.
- Milo, espere. Não quis criticar vocês. Não tenho nada a ver com vocês... mas sempre gostei da sua companhia e sempre fui seu amigo. Não quero você sofrendo nessa montanha-russa de sentimentos, vendo você se despedaçar com as atitudes insensíveis de Camus. Eu estou sendo sincero, para o seu bem.
- Se quer o meu bem, suma agora daqui ou vou ser obrigado a quebrar a sua cara! Não se meta no que você não entende! – Milo praticamente gritou, chamando a atenção de alguns que treinavam no mesmo espaço que eles.
Já Kanon, que percebera o quanto Milo estava nervoso, acabou levantando as mãos em sinal de rendimento e acabou indo embora.
...
Enquanto isso, Camus estava na biblioteca do Santuário procurando uma das obras que o ajudariam nas pesquisas que retomara com Saga (embora sob o olhar feio de Milo). Foi então que o gêmeo mais velho apareceu.
Sem desviar o olhar dos livros, Camus o cumprimentou:
- Saga.
- Camus. Bom te ver depois desse tempo todo.
- Por favor, foram algumas semanas apenas.
- Você fez falta. Digo, nas pesquisas. Sua ajuda e seu conhecimento é realmente fundamental.
Enquanto Saga explicava a sua primeira frase, Camus já o olhava de forma desconfiada, relembrando as palavras de Milo: "ele sempre gostou de você!".
- Sei. – O aquariano comentou rapidamente, fechando o livro em suas mãos e o carregando para fora da biblioteca. – Retomemos os estudos então.
- Agora?
- Sim, pretendia ir até a sua sala assim que encontrasse esse livro. Acho que podemos esclarecer algumas coisas com o que está escrito aqui.
- Como quiser Camus. Aproveito e lhe mostro o que fiz nesse tempo.
E assim seguiram os dois.
...
O dia passou e agora o sol já começava a se por. O céu começava a avermelhar e Milo recolhia-se para sua casa, ainda bravo com a breve conversa com Kanon.
Entrou no banho e ficou vários minutos apenas deixando a agua correr pela sua cabeça, como se isso pudesse organizar seus pensamentos. "Vocês brigam demais", "Você se despedaçando com as atitudes insensíveis de Camus" eram algumas das frases que ecoavam na cabeça do grego.
- Será que é verdade? ... É normal ficarmos de mal humor quando brigamos com o namorado, certo? ... Como assim "sobra pra todo mundo"? – Milo falava sozinho enquanto automaticamente organizava um lanche e sentava no sofá.
Nesse tempo, no outro canto do Santuário, Camus e Saga já estavam cansados de ler e escrever e agora estavam sentados com os pés sobre a mesa em que trabalharam praticamente o dia todo.
- Mas então você e Milo estão bem agora?
- Por enquanto. – Camus respondeu com uma breve risada.
- Como assim "por enquanto"? Já está prevendo briga novamente Camus? – Saga respondeu realmente preocupado, não achando nenhuma graça na resposta do colega.
Camus suspirou antes de responder.
- Não é isso. É que... Milo tem um temperamento muito diferente, ou talvez muito parecido com o meu... não sei exatamente qual é o nosso problema.
- Pelo menos você admite que o problema são vocês dois.
- Sim. Admito. Nunca disse que eu sou uma pessoa fácil de se lidar. Milo sabe disso também. O que me deixa preocupado é que talvez, quando éramos apenas amigos, essas diferenças não se acentuavam tanto. Nós nos completávamos. Agora é diferente... há cobranças, necessidades, posses que não haviam antes...
- Camus... você está me dizendo que acha que vocês estavam melhores quando eram apenas amigos?...
- Eu não sei Saga, não sei. Só sei que minha vida era mais leve. ... mas a culpa não é do Milo. Eu me apaixonei e criei tantos problemas quanto ele. Por sorte conseguimos superá-los. Só que eu me esforço, ele se esforça... não sei até quando e até que ponto vamos mudar um pelo outro.
Houve então um breve silêncio.
- Você ainda gosta dele Camus?
Saga perguntou aquilo com um tom baixo, como se tivesse medo de perguntar pois não queria saber a resposta. Inconscientemente segurou o braço da cadeira em que estava sentado.
- Gosto.
- Muito?
Camus então olhou para Saga, achando estranha aquelas perguntas.
- Existe como medir a quantidade de amor por alguém? Não sei lhe responder isso... Ao meu ver eu sempre gostei do Milo na mesma quantidade, mas agora de maneira diferente. Talvez o ócio nos faz pensar no amor de formas diferentes...
-... ou talvez você nunca amou outra pessoa para poder comparar. – Saga completou a frase sem querer, como se as palavras tivessem saído sozinhas da sua boca.
- Pardón?
- Desculpe Camus, não tenho nada a ver com isso. Só pensei alto.
- Oh, não. Agora me explique o que quis dizer com "nunca amou outra pessoa para comparar".
Saga ajeitou-se na cadeira antes de se explicar, afinal, não poderia voltar atrás e desfazer sua fala.
- Eu só ... bem... se você tivesse amado, namorado, ou tido um relacionamento com outra pessoa nesse sentido, talvez poderia comparar... "ah, amei mais aquele do que este" ou "nunca amei alguém dessa maneira"... bem, não sei explicar.
- Uhm... sei. – Camus apenas resmungou. Mas seu lado curioso não o deixou ficar satisfeito com o que Saga havia dito. – Você fala isso por que já pode comparar amores Saga?
Podia-se notar um leve tom de deboche do aquariano, mas Saga estava tão preocupado com os rumos daquela conversa que acabou levando a sério.
- Sim. Posso comparar amores. Quando eu era jovem, eu amei alguém, enfim, antes de todo o problema acontecer com Ares. Hoje vejo que o amor que sinto é diferente, é maior, parece... completo. Não é só tesão Camus, é amor mesmo. Não é sentimento de posse, é necessidade de ver aquela pessoa feliz, mesmo que não seja comigo.
- Oh... – Camus então percebeu a seriedade no breve sorriso triste que Saga deixou escapar. – Bem, eu quero ver Milo feliz... mesmo que não seja... comigo.
Então, ao falar isso, Camus imaginou Milo feliz, com outra pessoa. Sentiu seu coração feliz, leve, como se estivesse de missão cumprida. E então se espantou com seus próprios sentimentos.
- Eu... preciso ir Saga.
- Claro. – O grego deu um sorriso compreensivo, como se entendesse o que se passava na cabeça do aquariano. - Precisando me mim, estarei aqui. Boa noite.
- Boa noite Saga.
Camus saiu pensativo e seguiu até sua casa sem perceber ninguém no caminho. Quando entrou em Aquário já sentiu um cosmo familiar na cozinha.
- Milo?
- Oh. Olhá Camus. Estou fazendo algo para você comer. – O Grego falou enquanto se virava para o dono da cozinha. – Espero que esteja com fome.
- Nossa... Muito obrigado. – Camus se aproximou do namorado e trocaram um selinho. Vou tomar banho então. Tente não fazer nada estranho, não quero morrer envenenado.
- Puxa, quanta confiança em mim einh Aquário? - Milo riu, voltando novamente para o tomate que cortava. – Pode ir, prometo que você vai gostar.
Uma hora depois, estavam Milo e Camus sentados na mesa, cada um com um prato de macarronada e um copo de vinho.
- Esse jantar... deve-se a algo especial Milo? – Camus olhava para o namorado de forma curiosa, já que Milo não tinha o costume de fazer esse tipo de coisa.
- Não, eu só queria uma desculpa para ficar mais tempo com você e conversar. – O grego então tomou seu copo de vinho todo de uma vez, deixando seu namorado ainda mais curioso.
- Uhm... – Desconfiado, o aquariano começou a comer para continuar observando as atitudes de Milo. – Muito obrigado mesmo. É sempre um prazer receber um jantar da pessoa de quem gostamos.
Milo deu um breve sorriso e começou a comer também. Durante o jantar, falaram amenidades sobre o dia-a-dia, até que Camus lembrou dos gêmeos.
- Hoje passei a tarde com Saga, parece que conseguimos avançar nos estudos. É estranho falar isso, mas quando Kanon não está lá também parece que as coisas fluem de forma mais fácil. Ele tem o prazer de importunar Saga e fazê-lo mil questionamentos sobre outros pontos de vista que nem sempre tem alguma lógica... parece que gosta de confundir nossas cabeças por pura diversão...
Milo, que estava colocando a terceira taça de vinho na boca, parou ao ouvir aquele comentário.
- Uhm... então Kanon gosta de confundir...
Camus fixou seu olhar em Milo, que parecia distante enquanto bebia seu vinho. Alguns instantes se passaram e o aquariano não aguentou mais esperar seu namorado tomar a iniciativa.
- Muito bem Milo. Fale.
- Uh? – Parecia que Milo acordava de um transe – Fale o que?
Camus botou sua taça na mesa após beber o último gole e falou de forma seca, realmente sem paciência.
- Não é que eu não tenha gostado, mas você chegou fazendo um jantar e isso já é estranho por si só. Não bastasse, você está virando essa garrafa de vinho praticamente sozinho e está excepcionalmente pensativo e distante hoje. Ou você está sob o efeito de algum poder de outra pessoa ou tem algo importante para me falar.
Chocado, Milo sabia que não havia mais para onde correr. Camus não era burro, nunca fora. Ele tinha seus momentos insensíveis, mas nunca fora de não perceber o que estava acontecendo entre eles dois.
- Camus... Kanon não estava com vocês hoje a tarde porque estava comigo.
O sangue sumiu do rosto do aquariano.
- O que você quer dizer com isso?
- Ele veio conversar comigo e me disse algo que... não sei se eu deveria... mas fiquei perturbado com isso.
- Como assim? O que ele disse Milo? - O coração aquariano começava a bater forte, algo lhe dizia que aquilo não era bom.
- Ele disse algo sobre nós dois... que eu e você brigamos demais... mas o pior foi quando ele jogou na minha cara que o nosso relacionamento não parece normal, já que brigamos tanto... - Milo olhava para as próprias mãos, como se fosse uma criança que confessava uma peraltice. – Mas é como você disse... Kanon gosta de nos confundir... e era isso que eu estava pensando... se ele tem razão ou não.
Camus ficou paralisado. Parecia que a conversa que ele tivera com Saga fora parecida com a de Milo e Kanon.
- Uhm... brigamos mesmo. Mas e daí? O problema é de quem? Nosso ou dele?
- Esse que é o problema Camus... ele também disse algo como "quando vocês brigam, sobra para todo mundo". – Milo então chegou mais perto do parceiro, pegando nas mãos finas do aquariano. – Camus, será que realmente prejudicamos os demais?
- Por Athena Milo! Mas que bobagem!
Camus levantou-se indignado, levando a mão de Milo junto.
- E o que mais me admira é você, bem você, dar atenção para uma bobagem dessas! Se fosse qualquer outro cavaleiro eu admitiria essa dúvida, mas VOCÊ?! Francamente. – Camus soltava a mão de Milo e enchia sua taça de vinho, visivelmente contrariado pela conversa que estavam tendo.
Já Milo deu um pequeno sorriso triste e manteve-se sentado.
- Camus, eu tive a mesma atitude que você ao ouvir isso... mas... – suspirou pesadamente – Kanon tem razão.
- E daí? E daí se tem razão? É ele que namora com você?
- Não seja cego Camus! – Milo levantava e encarava seu namorado. – Como fica nossa imagem de cavaleiro de Athena perante os demais? O que os aspirantes devem pensar sobre nós? Que somos dois namoradinhos brigões? Que deixamos nossas vida particulares influenciar nossa missão aqui? É isso que você quer? E se Athena começar a se preocupar, você imagina a vergonha que será? Pelo Olimpo todo Camus, PENSE!
"Oh sim, o soldado perfeito. O guerreiro mais justo... como fui me esquecer." - Camus pensava, completamente anestesiado pelas palavras preocupadas do namorado. Foi tão decepcionante ouvir aquele discurso de Milo que o aquariano sentiu uma leve náusea.
Naquele momento, o dispositivo de resfriamento fora ativado no coração do francês. Eram sentimentos demais para administrar, melhor mata-los todos.
- Você poderia ter pensado nisso antes de começarmos a namorar. ... Antes de criar esse laço diferente comigo.
- Por favor Camus. Não é isso que estou dizendo. Não comece a me olhar e falar comigo nesse tom impessoal.
- Oh me perdoe, acho que estou meio burro hoje, porque não consigo entender o que você quer.
- Só quero que fiquemos bem. Que nossos laços continuem, mas sem prejudicar nossos deveres no Santuário...
- PARE COM ESSA MERDA DE DESCULPA!
Camus simplesmente estourou, cortando a fala de Milo e jogando a taça de vinho contra o primeiro pilar que apareceu.
- Onde diabos você quer chegar com essa conversa? Vamos! VAMOS, FALE NA MINHA CARA!
Os olhos de Escorpião estavam marejados. Milo já via seu amado de forma borrada pela água.
- Não ouse chorar na minha frente Milo, pois eu juro que vou socar sua cara!
- CALA A BOCA CAMUS! – Milo secou seus olhos antes que as lágrimas caíssem. – Sua besta! Eu te amo tanto, que não suporto a ideia de ver você com uma merda de reputação! Eu não suporto a hipótese de que você perca o respeito perante aquele bando de pivetes que chegam aqui! Camus, Camus, me ouça: - Milo pegou no rosto do amado, seus olhos vermelhos. – Eu não consigo pensar que ao darmos as costas, alguém possa falar mal de você. Dizer que somos dois amantes que não conseguem ficar em paz, que prejudicam o bem-estar dos demais no Santuário por causa de problemas particulares. EU NÃO ADMITO ISSO!
Camus não sabia o que dizer. Encarava o grego de forma dura sem soltar um ruído sequer. Longos segundos se passaram e só restou a Milo tentar novamente.
- Camus, eu te amo, da forma mais verdadeira que existe. Eu quero que você seja o melhor aqui nesse Santuário. Que sua v...
- Eu não quero ser o melhor aqui no Santuário. – Novamente o francês cortava a fala do outro. – Tenho dois interesses nessa vida Milo e você sabe muito bem quais são eles: Servir a Athena e ser fiel a mim mesmo. Mas não posso deixar de concordar com você algumas coisas. Eu também lhe amo, da forma mais verdadeira que existe.
Nesse momento, um rápido flashback da conversa com Saga apareceu na mente aquariana.
- Eu acho que finalmente entendo o que você pretende. Vamos deixar as coisas assim... sem brigas, sem namoro, sem cobranças.
- Eu... Camus... – a voz de Milo começava a falhar. - Eu não quero perder meu laço com você Camus. Somos tão bons juntos, não podemos perder isso... eu só não quero mais prejudicar ninguém por causa desse nosso jeito torto de se nos relacionarmos...
- Milo. Não me venha com "jeito torto". Não há nada de errado com o nosso relacionamento. Mas entendo que você esteja preocupado com isso, afinal, somos soldados... antes de qualquer outra coisa.
A frieza na voz de Camus fazia Milo cada vez mais triste. O Escorpião sabia que estava fechando o coração de seu amado e que levaria muito tempo para ele ser aberto novamente. Mas, em sua consciência, era o que precisava ser feito.
- Por favor Camus, me entenda. Eu realmente preciso da sua amizade.
Milo encarou seu parceiro aquariano com os olhos novamente cheios de lágrimas. Ele precisava de um sinal de que ele tinha feito a coisa certa e que agora tudo ficaria bem. Para todos.
Camus, embora estivesse realmente bravo com tudo aquilo, sentiu um aperto tão grande ao ver seu querido quase fazendo uma súplica com o olhar, que não pode desconsiderar tudo que viveram até então.
- Claro Milo. Mas por favor, me dê um tempo. Eu estou realmente emputecido com você. ... E com o cretino do Kanon.
- Camus...
- Eu vou dar uma volta. Fique a vontade aqui Milo. Você conhece a casa.
E então Camus saiu, sem saber exatamente onde iria.
Demorou... fiz, refiz, ficou meio assim pois esse capítulo marca a mudança da estória. Tive que agilizar as coisas assim como se faz com novela, ou não sairia do lugar. Por favor, não droppem. Prometo postar novamente e aí as coisas farão sentido.
3
