Capítulo 7- O confessor
Em sua cela, o prisioneiro da máscara de ferro terminava a sua refeição matinal que consistia em pão grosseiro, leite e uma maçã. Comia sempre devagar por causa da máscara. Acordara com o soar do sino que anunciava a chegada de algum novo hóspede para a Bastille.
Quando terminou de se alimentar, começou a manusear uma Bíblia nova em folha que havia sido acrescentada à sua pequena biblioteca. Geralmente lia deitado por causa do peso da máscara. Sentia também a barba coçar, mas não havia o que fazer. Tinha consciência de que sua barba devia ter crescido bastante, pois ela já se insinuava pelo pescoço abaixo, espetando e incomodando. Sentia-se muito desconfortável. E a coisa ficaria pior quando chegassem a primavera e o verão.
Ouviu alguém se aproximando da porta. Levantou-se, juntou a caneca vazia, o prato de barro e o miolo da maçã. Já ia passar tudo pelo pequeno orifício retangular, quando percebeu vozes distintas, indicando eu havia mais de uma pessoa se aproximando. Seu coração bateu acelerado, esperava o momento em que viriam torturá-lo. De sua cela escutava os gritos de dor dos prisioneiros.
Não sabia por que estava preso, mas sabia que não tinha sido confundido com outra pessoa, pois tinham ido à sua propriedade e perguntado por ele especificamente. Talvez alguém o tivesse apontado como traidor ou conspirador. Mas não atinava quem. Ele e a sua família sempre haviam sido leais súditos do rei. Outra coisa que o intrigava era o fato de não terem feito nenhum interrogatório desde que fora levado. Certificaram-se de que era ele, levaram-no para a prisão e colocaram-lhe a máscara de ferro. Tudo feito a seco, mecanicamente, sem nenhuma explicação.
A porta se abriu e deixou passar dois homens. O primeiro era o seu captor, aquele que atendia pelo nome de Saint-Mars. O outro usava uma longa capa e vestia-se inteiramente de preto. Era um homem de uns sessenta anos, magro, com imensos olhos verdes sonhadores. O homem abriu uma sacola, retirou um terço, água benta, uma velha Bíblia e depositou tudo em cima da mesa. Saint-Mars pegou a Bíblia em suas mãos, sacudiu-a e, vendo eu não havia nada dentro, tornou a colocá-la no lugar. O padre de olhos verdes pigarreou leve. Saint -Mars saiu, e foi se colocar do lado de fora da cela. A porta foi cerrada.O padre sentou-se. O prisioneiro entendeu que ele vinha ouvir a sua confissão. Pôs-se de joelhos em postura de contrição.
Quando terminaram, o prisioneiro fez menção de levantar-se, mas o homem o deteve, colocando uma das mãos em seu ombro. O prisioneiro sentiu o coração acelerar. Ouviu o padre sussurrar.
-Sou amigo de sua mãe. A ajuda virá. Guarde e só leia quando eu sair. Queime quando ninguém estiver olhando.
O prisioneiro sentiu uma onda de eletricidade inundar seu peito. Era a esperança, aquela sensação tão boa da qual ele se desacostumara por medo de criar ilusões. O padre deslizou um pequeno pedaço de papel para a mão do prisioneiro.
O padre se pôs de pé, juntou suas coisas e deu uma batida leve com o nó dos dedos na porta. A porta foi aberta. Lá fora, o Capitão Saint-Mars revistou a bolsa do padre e nada encontrando de suspeito, agradeceu.
-Presta-me um grande serviço, padre.
-É minha obrigação olhar por essas almas perdidas.
Saint-Mars deu um sorriso torto.
-Essa alma está perdida para sempre. Mas está me fazendo um grande favor. Poderá voltar na semana eu vem?
-Sim. Quando eu precisar me ausentar, posso arranjar um substituto tão discreto quanto eu. Como sabe, faço um trabalho de ajuda aos idosos do campo.
Saint-Mars gostou daquela eficácia. Conhecia o padre desde seus tempos de cadete. Não eram especialmente amigos, mas foi um grande alívio poder contar com a ajuda de um homem de Deus discreto, tão discreto que não fez uma só pergunta sobre a identidade do prisioneiro e nem a razão da máscara. Não era à toa que Monsieur de Tréville tinha tanto apreço por aqueles homens. Um verdadeiro achado encontrar-se com aquele mosqueteiro aposentado, ex-irmão de armas, hoje membro da Igreja.
O prisioneiro ficou ansioso. Queria ler o papel, mas morria de medo de ser descoberto. Queria esperar a noite, após a ceia, para abrir aquele pequeno pedaço de papel que era fiador de sua alma. Porém não resistiu. Seu espírito precisava de esperança, assim como um faminto necessita de pão. Abriu o papelzinho. Era um retângulo de papel macio. Aberto, cabia com folga na palma de sua mão. Apenas poucas palavras, mas a letra fina e elegante era inconfundivelmente a de sua mãe.
Vamos tirá-lo daí. Não perca nunca a esperança.
Amassou o papel e jogou-o no fogo. Gostaria de tê-lo conservado, como um talismã, perto de si, mas o risco era grande e entendeu que cumprir à risca o que o padre lhe recomendara era o mais acertado. Certificou-se de que o papelzinho estava desfeito pelo fogo. Mexeu um dos tocos para mesclar as cinzas. Ajoelhou-se e rezou. Deus estava olhando por ele. Os seus ainda se lembravam dele. Não se sentia mais sozinho. Naquela noite e nas seguintes, dormiria serenamente, a despeito do peso da máscara.
