Capítulo 7 – Cuidando de você
Quando Jensen viu o rosto inconsciente de Jared algo diferente remexeu dentro de si e apesar de não fazer ideia de sua real identidade, julgou-o familiar, alguém presente em sua vida em um tempo distante.
Imagens passavam rapidamente diante dos seus olhos, mas não conseguia distingui-las vendo apenas o branco transpassar em sua mente perturbada.
Aquele garoto lhe despertava sentimento de proteção e um calor repentino adentrava seus sentimentos. Olhava-o fixamente contemplando os traços finos de seu jovem rosto.
Acordou de seus devaneios ao ouvir distante a voz de Bob, chamando-o com desespero:
– Edgar, o que você tem?
Olhou-u desnorteado sem saber como explicar o que sentira.
– Você ouviu o que eu te disse? – Jensen balançou a cabeça negativamente.
– Ajude-me a erguê-lo e a levá-lo para o quarto!
O mais velho apoiava as pernas e o corpo do moreno em seus braços, erguendo-o pelo lado direito, Ackles fazia o mesmo pelo lado esquerdo, enquanto a senhorita Lopes carregava a mochila. Adentraram rapidamente o casarão encharcados pela forte chuva.
Subiram às pressas a escadaria do casarão acompanhados da empregada e da senhora Singer. Ambas observavam aflitas o rosto de Jared, pois sua cabeça pendia levemente para trás.
Ao entrarem em um dos quartos de hóspedes, sentaram-no em uma poltrona. Bob foi ao quarto do filho buscar roupas quentes e meias. Mesmo ele sendo mais baixo, procuraria algo em tamanho maior e confortável.
Enquanto isso o loiro pediu para as mulheres se retirarem do quarto para que o outro fosse despido. Então, pegou um lençol limpo do guarda-roupa e cobriu-o antes de despi-lo. Não sabia o porquê, mas não queria que outras pessoas o visse desnudo, apesar dele mesmo desejar vê-lo.
Enquanto isso em Vancouver...
– Acalme-se, Chris! Nós vamos encontrá-lo. – Roger Ackles tentava lhe passar confiança.
– Ele não costuma mentir, senhor Ackles. O Jay não é assim! Tenho medo que ele possa ter feito uma besteira.
– Você já procurou o Chad? Talvez ele apenas tenha resolvido morar com o namorado.
Ouvir aquilo o tirou do sério. Independente das intenções do mais velho em ter lhe dito isso era inadmissível duvidar da honestidade de Jared, principalmente relacionado àqueles que ele amava.
– O senhor tem razão. Talvez o Jay esteja com o namorado nesse momento, enroscado ao corpo dele, enquanto nós dois estamos aqui feito dois idiotas, preocupando-nos a toa. – Cuspiu as palavras com ironia.
– Chris Kane, que modos são esses?
– Ah! Desculpe-me! Esqueci que a primeira pessoa para que liguei antes de procurar o senhor foi Chad e ele ficou tão surpreso quanto eu pela atitude do meu filho.
– Chris, eu só...
– Mas, talvez o senhor não acredite nisso. Por que acreditaria? Afinal, tentou separá-lo do homem que amava quando ele tinha apenas quatorze anos e depois que Jensen o adotou, passou a criticá-lo.
– Quando você vai parar de me culpar pela morte de Jensen? Quando vai me perdoar pelos meus erros do passado? – Perguntou triste.
Chris nunca se conformou com o que havia acontecido com o seu melhor amigo. Embora tentasse mostrar o contrário para o filho, pois sabia que o jovem perdera uma parte de si e entendia a dor de se viver incompleto no mundo. Ele mesmo a vivenciava diariamente depois da morte de Jensen, seu eterno irmão.
O loiro sentou no sofá e deixou que as lágrimas banhassem o seu rosto aflito. Roger entendia-o e após a tragédia, comprometera-se consigo mesmo em ser um excelente avô para Jared e amigo para Chris. Mas, o homem insistia em lhe virar o rosto. Faltava o perdão.
– Infelizmente eu não posso apagar as minhas más ações. Também não posso reescrever aquele dia em que eu quase o arranquei dos braços do Jen e, lamentavelmente, precisei perder meu filho para enxergar o mal que havia feito tentando separá-los.
O mais jovem o olhou mais calmo.
– Quem sabe, meu amigo, se eu tivesse adotado o garoto, o Jen a essa hora estaria aqui conosco, feliz e realizado ao lado do seu amor? Porém, as coisas aconteceram de outro modo e eu vou conviver com essa culpa para o resto da vida. O peso é grande Chris... Por que você não tenta me perdoar? Sei do ser humano grandioso que é, pois mesmo me odiando, nunca, sob hipótese nenhuma, contou para o Jay da forma inescrupulosa que eu agia com ele quando descobri sobre os sentimentos dele e do meu Jen.
Falou calmo e compassado. Havia sinceridade em suas palavras. Realmente a culpa o consumia, mas, maior do que ela era o seu desejo de conquistar a confiança e o perdão do amigo fiel de seu falecido rebento.
Kane se permitiu chorar. Abraçado por Roger, ambos lavaram suas almas expondo a dor de seus martírios, permitindo que grossas lágrimas varressem o vazio de suas existências, pois nesse mundo de "trevas", quem experimenta amar verdadeiramente está sujeito a felicidade, mas também ao desalento caso o ser amado parta primeiro rumo ao desconhecido.
J2
Deitado em uma cama de casal de colchão macio, Jared tremia dos pés à cabeça.
Fora vestido em uma blusa de malha, anteposta a um blusão em linho, uma calça folgada de lã e meias grossas. Também foi posto sobre o seu corpo um edredom, mas o jovem estava com calafrios e sua pele ardia em febre. Há mais de meia hora estava inconsciente.
Ao seu lado, Jensen preocupado, encharcava na bacia com água fria, um lenço dobrado em duas camadas. Fazia compressa em seu rosto enquanto Bob a cada meia hora usava o estetoscópio e o esfignomametro para medir a sua capacidade pulmonar e as alterações na pressão arterial.
– Bob! Ele está piorando. O que vamos fazer? – Ackles perguntou aflito.
– Acalme-se, garoto! Ele já foi medicado. Temos que mantê-lo aquecido e monitorar seu estado de saúde. Logo a medicação fará efeito.
– Mas a febre não baixou?
– Edgar, há algo que eu aprendi ao longo desses anos: ter fé. É o que lhe peço.
Quando foi resgato, Jared fora submetido a um aquecimento artificial por meio do aquecedor do quarto programado a uma temperatura conveniente. Depois, vestido em roupas secas. Até mesmo o seu cabelo fora envolvido em uma toalha e secado à mão por secador.
Mesmo assim, devido a chuva intensa a que foi submetido em pleno inverno de Toronto, suas condições de saúde não avançavam positivamente, preocupando aqueles que cuidavam dele.
– Posso entrar? – Perguntou Hellen após algumas batidas na porta.
Jensen e Bob apenas confirmaram com um aceno de cabeça, voltando suas atenções para o moribundo.
– Filho, eu trouxe este chá medicinal. É uma receita antiga da minha bisavó e acredite, vai ajudar a descongestionar os pulmões dele.
– Obrigado. Pode deixar que eu me encarrego de sentá-lo e fazê-lo beber o chá. – Falou pegando a pequena bandeja das mãos da mulher.
– Mas, Ed! Você ainda não jantou e nem trocou as roupas molhadas. Assim quem vai ficar doente é você!
Então lembrou. Quando trouxera o garoto para o quarto fora alertado por Bob sobre suas roupas molhadas, comprometendo-se em trocar depois. O problema é que havia esquecido devido a sua preocupação com o mais jovem.
– O chá está muito quente. Vou rapidamente ao meu quarto me trocar. Por favor, deixem-me cuidar dele... – Pediu irrompendo pela porta em seguida.
O casal de médicos concordou uníssono e quando Jensen saiu do quarto de hóspedes, a senhora Singer perguntou curiosa:
– O que está havendo com o nosso filho? Acaso ele lembrou que conhecer esse jovem?
– Não, querida! Acho que se ele lembrasse de algo nos falaria.
Mas o que eles não sabiam é que para sentir, lembranças não são necessárias. A alma lembra mais do que a mente por ser imortal, assim como o verdadeiro amor.
Passava da sete e trinta da noite. Roger Ackles e Chris Kane foram ao orfanato conversar com o senhor Correnan sobre o desaparecimento de Jared.
Kane falou dos últimos acontecimentos desde a visita do jovem ao cemitério àquela hora. Ashila e Many juntaram-se aos senhores dispostas a procurar pelo menino que viram crescer. Amavam-no como parte da família.
Depois de fazer algumas ligações, James conseguiu que o inspetor Mark Pellegrino se prontificasse em ajudá-los. Os dois se conheciam há alguns anos e trocavam favores entre si. O problema era que a queixa formal só poderia ser dada na manhã seguinte devido a ser domingo e não haver possibilidade de atendimento.
– Eu mesmo vou procurá-lo. Começarei do cemitério, o lugar que ele visitou como sempre faz todos os domingos. – Falou erguendo-se da cadeira e se encaminhando à porta.
– Acalme-se Chris. Você tem que pensar antes de agir. Todos nós iremos procurá-lo, mas precisamos organizar um plano para o caso dele aparecer por si só. – Esperava que o seu amigo entendesse.
O homem suspirou resignado e voltou a sentar na cadeira próxima aos presentes.
James Correnan pediu que Many fosse chamar o seu motorista para buscar o senhor Pellegrino. A partir daquele momento se iniciavam as buscas não formais pelo garoto. Deixariam a parte burocrática envolvendo a lei para o dia seguinte. Achar Jared era prioridade.
– Meu filho! Eu só espero que você esteja bem! – Pensou Chris.
J2
Jensen havia sentado Jared apoiando suas costas em dois travesseiros macios postos contra o encosto da cama.
Calmamente, inseria-lhe o chá pelos seus lábios trêmulos segurando cuidadosamente a xícara com a mão esquerda enquanto a direita se encarregava de segurar o queixo dele. O jovem estava agitado e balbuciava palavras desconexas. Esses reflexos inconscientes repentinos deixaram o loiro aflito, pois mesmo sem entender queria aquele a quem devotava cuidados, são e salvo.
– Não!... Fica!... Jen!...
– Calma, garoto! Vou cuidar de você.
– Amor... Meu... Volta!... Para mim...
Ao ouvir a palavra amor, Ackles apurou mais os ouvidos na tentativa de entender melhor o que ele falava.
– Volte!... Amor!... Jen... Jen...
– Quem é Jen? É alguém de sua família?
– Volte!... Eu preciso!... Jen!... Volte!...
Deixou a xícara vazia sobre o criado-mudo, voltando a deitar o outro calmamente sobre a cama e repondo o edredom. Os calafrios diminuíram, mas a febre não. Jared delirava e em seu delírio, apontava para o único motivo que trazia lucidez aos pensamentos tristes e desoladores que vivenciava após a partida do seu amor: Jensen...
Enquanto isso, na sala de estar, Bob e Hellen tentavam encontrar algo que os fizessem descobrir onde o rapaz morava.
Descobriram que ele trabalhava no Computer center and telemarketing em Vancouver e que tinha tinha vinte e um anos, mas não eram registros de sua identidade, apenas um papel digitado que o outro carregava e que certamente era da empresa. O único documento que sobrevivera a forte chuva. Com certeza o garoto andava sem documentação.
O casal decidira deixar Jensen cuidando do outro. Ele parecia saber o que fazia como se houvesse feito antes.
– Fale devagar para que eu possa entendê-lo. – Conversava com ele enquanto iniciava compressas com água fria em seu rosto.
– Amo... Você!... Jen...
– Volte!... Por favor... amor...
Observava o rosto frágil daquele a sua frente. Via as feições de um menino em o corpo de um homem. No entanto, apesar do tamanho, estava tão indefeso... E só agora percebia que nem tanto pelo seu corpo físico enfraquecido, mas por seus sentimentos corrompidos pela dor da saudade.
– Garoto... Você é tão jovem e já entende o que é perder alguém... – Indagou sentindo o peso de suas palavras.
– Eu cuidarei de você. Não o abandonarei como essa pessoa o abandonou. Acredite! – Afagava-lhe os lisos cabelos.
– Quem é você? E por que mexe tanto comigo?
Perguntava ouvindo apenas como resposta os sons desconexos e as palavras que julgava sem sentido.
– Acorde novamente para a vida. Vamos!
Após pronunciar tais palavras, Jared abriu os olhos, fitando o olhar surpreso do homem que o cuidava.
Continua...
Oi! O próximo capítulo só postarei segunda-feira. Desculpem-me, mas eu vou me dedicar essa semana a Sweet August e almas acorrentadas que serão postadas sexta-feira dessa semana. Essa semana também postarei uma one-shot sobre a amizade. Espero que gostem e possam comentar. Obrigada aos rewies que estou recebendo. Vocês sabem o quanto eles motivam um escritor. Beijos!
