EU FINJO, TU FINGES... QUEM FINGE?

Autoria: Kry21 (fanfiction(ponto)net/u/788892/Kry21)

Tradução (autorizada): Inna Puchkin Ievitich

Publicada originalmente em: www(ponto)fanfiction(ponto)net/s/4164348/1/


Eu finjo, tu finges... quem finge?

7

- Pára de encher o saco! – gritei e bati meu pé no piso com todas as minhas forças.

Qual parte de "estar preocupada" não entendiam? Meu instinto feminino me indicava que algo estava acontecendo e que meu futuro perfeitamente planejado estava desaparecendo. Desde que o vi pela primeira vez prestes a entrar na plataforma 9 ¾, algo me disse que ele era meu destino e quem Merlin havia designado para mim. Cada carta que Ron nos enviou ao longo de seu primeiro ano em Hogwarts, deu-me uma idéia do que ele era e do que tinha: fama, dinheiro, poder...

Depois de tudo ele era o "Menino Que Sobreviveu", a quem seus pais haviam deixado uma pequena fortuna, quem havia se convertido no jogador de quiddich mais jovem de Hogwarts em 100 anos, aquele que aos onze anos de idade voltara a derrotar "Aquele Que Não Deve Ser Nomeado". E, como se fosse pouco, quem me resgatou da Câmara Secreta em seu segundo ano. Aquele que descobriu que seu padrinho era um fugitivo da lei, que ganhou o "Torneio Tribuxo" conquistando A glória eterna e, que, ainda não sei por que razão, nos fez voar até Londres para invadir o Ministério da Magia e enfrentar, assim, um bando de Comensais da Morte. E foi ele que há apenas alguns meses pôs um fim "Naquele Que Não Deve Ser Nomeado"... Uma garota pode pedir mais?

Além de tudo, foi ele que me beijou diante de todos, foi ele que me escolheu. Claro que devo dizer a meu favor que esta última estratégia, sugestão de Hermione, de mostrar-me indiferente e de sair com mais garotos, funcionou um pouquinho, e os meses que passamos juntos foram incríveis; depois veio isso de que não podia estar comigo pela minha segurança, a "Batalha Final", o retorno... e tudo mudou.

E eu sabia o porquê. De fato, todo mundo sabia e sempre o souberam, e quando digo "todo mundo" não me refiro apenas às pessoas próximas, tais como amigos ou familiares, mas também às pessoas estranhas e aos desconhecidos. E isso era algo que nunca imaginei passar ou, melhor dizendo, me neguei – e sigo negando – a acreditar que passaria. Por isso me vi na necessidade de usar a força e a ameaça. Sou uma leoa que defende com unhas e dentes o que tem e o que quer, sem importar o que os demais possam pensar de mim. Ultimamente já o fazem.

"Como é possível que Harry esteja com você?", "Sempre pensamos que eles dois ficariam juntos", "Eles fazem um belo casal. De fato, parecem almas gêmeas".

Acaso era tão difícil entender que ele me escolheu e não a ela? O que ela tem que eu não tenho para que a considerem o par ideal dele e até falem de almas gêmeas? Eu sequer sabia o que ela fazia ou de que servia ele tê-la tão perto. Com meu irmão era compreensível, ele é homem e além de dividirem o dormitório, compartilhavam interesses e coisas em comum... Mas Hermione é mulher. Que papel era desempenhava? Apenas o de "rata de biblioteca", pois não sabia outra coisa. Porém, ainda assim Harry insistiu que ela fosse com ele. Sei que ele havia me deixado pela minha segurança, mas esse espinhozinho de que eu era um estorvo não desaparecia de todo. Além disso, na maior parte do tempo que passávamos juntos, ele não deixava de falar dela: que Hermione tirou um Excelente em Transfigurações, que Hermione o ajudou com a poção do dia, que Hermione tinha que vê-lo na biblioteca, que Hermione o esperava para estudar... Hermione... Hermione... Hermione... Sempre ouvia falar dela. Não custa dizer que um dia surtei ao ouvir o quão bem ela era boa em feitiços convocadores, encurralei a dita cuja no banheiro do segundo andar e lhe disse que não se aproximasse mais do meu namorado ou iria me pagar. A partir desse momento, a ignorei e a importunei o quanto pude. Sei que ela nunca me fez nada pelo respeito e carinho que meu irmão e minha família lhe tem, mas sobretudo nunca tocou num fio do meu cabelo porque acha que eu sou a pessoa mais importante para Harry. Eu me aproveitei disso e não me arrependo. Porque se ela quisesse, desde o instante em que a joguei no banheiro, um movimento seu de varinha teria bastado para me fazer em pedaços. Em vez disso, ou por ser estúpida ou por ser boa amiga, se afastou. Continuava falando com Harry e coisas assim, mas nunca como antes, apenas o estritamente necessário.

Ha! Se por um instante pensei que se ela se afastasse do Harry, ele deixaria de falar dela e me daria mais atenção, fui um pérfida de primeira categoria. O distanciamento de Hermione apenas piorou as coisas e fez com que meu namorado pensasse, uma e outra vez, no porquê da sua atitude, que lembrasse, uma e outra vez, os momentos que passaram juntos e que contasse todas as coisas que viveram, isso, claro, em parte, pois na metade do tempo interrompia uma frase no meio e dizia "Desculpe, isso é segredo. Não posso contar", enquanto que na outra metade eu não entendia do que ele falava. Como uma vez em que começou a falar de Vira-Tempos e que você não deve ver a si mesmo ou pode ficar louco, ou de uma profecia e de que o rato de Ron (que, aliás, perdera há alguns anos) era um assassino e que a professora de Adivinhação não estava louca...

Porém, o cúmulo aconteceu num dia antes de sair de férias quando, após voltamos do povoado, nos encontramos na ponte Hermione dando com a testa do gradil, a ponto de chorar e com uma expressão histérica. Fiz o que esteve ao meu alcance para que Harry a esquecesse e que a sua veia de "salvador" não batesse forte, mas creio que a cor do meu novo batom não lhe interessou. Para meu azar, Hermione fez uma cena no refeitório, deixando-se cair sobre a mesa e em seguida gritando que conseguiria vingança e, como se fosse pouco, pedindo a Luna uma soma extra orbitante de dinheiro. Como era de se esperar, assim que Hermione deixou o dormitório, Harry foi atrás dela. Eu, claro, me fiz de digna e não o procurei nem falei com ele toda a noite; pensei que ele refletiria e iria me procurar no Trem, mas ele sequer apareceu no vagão em que eu estava, melhor dizendo, nem sequer se despediu quando chegamos em Londres. E ainda por cima havia se passado cinco dias e eu não recebera um só coruja sua sequer. Era óbvio que estava desesperada!

Meu maior temor poderia estar se fazendo realidade e meus irmãos gêmeos se queixavam de eu não parar de caminhar pelo quarto. É que se meu temor se cumprisse, o que seria de mim? O que faria com meus sonhos e com meu futuro perfeitamente planejado como a senhora Potter? Sabia que uma minoria me apoiava por ser ruiva, e que diziam que Harry devia ficar comigo por essa razão, pois ele era o vivo retrato de seu pai e eu tinha a cor do cabelo de sua mãe, éramos a nova versão do casal Lily-James. Mas a grande maioria, como já disse, opinava o contrário, os tinha visto e descoberto desde o princípio. Era irônico, não? Ambos estavam apaixonados. Todos sabíamos, todos menos eles dois.

E se tudo corria bem e se eu escolhesse bem minhas cartas, nunca o saberiam. Ou seria muito tarde quando o descobrissem.

Parei de caminhar. Bati o pé no chão pela segunda vez. – NÃO ENCHE O SACO, FRED! – gritei para meu irmão, que acabava de me arremessar um de seus novos inventos por um buraco do meu piso ou de seu teto, depende de como se veja. Continuo sem entender como conseguiram o dinheiro para montar seu negócio.

Balancei rapidamente minha cabeça para afugentar esses pensamentos, não tinha tempo. Havia traçado um plano de ação que requeria uma operação imediata. Peguei meu casaco, meu gorro e minhas luvas.

- Não demoro, vou até Harry! – gritei, uma vez que estava na porta de minha casa, não esperei resposta alguma e me dirigi ao número doze de Grimmauld Place.

Como certa vez ouvi Hermione dizer: "Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai até a montanha", ou algo assim.

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Fechei os olhos e me recostei no sofá creme que Hermione se se empenhou em comprar, e que agora estava colocado diante da chaminé. Suspirei com satisfação pois depois de tudo o ditoso móvel resultou ser muito confortável. Uma série de ruídos, juramentos e maldições contra caixas e portas me fizeram sorrir.

- Você está bem? – gritei, após um barulho forte me tirar do meu estado de relaxamento.

- Sim! Foi só essa estúpida caixa...

Sua voz se perdeu entre suas maldições e meus risos. Sem vontade me levantei um pouco e bebi minha taça de chocolate quente, que acabava de preparar. – Simplesmente delicioso.

- O chocolate ou eu? – me sentei sobressaltado e girei para ver Hermione. A respiração se fez difícil, o pulso acelerou, o sangue galopou forte dentro de mim e meus hormônios fizeram sua aparição. Qualquerh homem, adolescente ou adulto compreenderia perfeitamente a causa de meu estado se estivessem vendo o mesmo que eu. Agradeci a Merlin pelo fato de eu ser o único afortunado a admirar tão grata visão.

Tentei dizer algo, abri a boca e apenas limpei a garganta. Hermione me fitava com a sobrancelha erguida e a cabeça ladeada, eu, enquanto isso, a admirei novamente da cabeça aos pés. O cabelo estava muito desordenado como da primeira vez que a vi, ela havia colocado uma de minhas camisas recém compradas e que lhe chegava apenas a uns centímetros abaixo dos quadris, os quais vestiam uma de minhas cuecas boxer; era óbvio que a roupa estava muito grande para alguém de seu tamanho, depois de tudo ambos havíamos crescido como devia ser e as diferenças entre homens e mulheres eram mais que notórias nesse momento. Fiz uso de toda minha força de vontade para que meus hormônios não se "armassem" e para que meu olhar se fixasse em outro lugar que não nas pernas esguias e bem torneadas de Hermione. Por todos os hipogrifos voadores! Quase poderia jurar que Hermione não usava nada sob a minha roupa.

- Por que vestiu isso? – perguntei de forma brusca e franzi o cenho, não estava irritado com ela, mas comigo mesmo e com o fato de que imaginar Ron e Malfoy de biquíni não ajudava meu coração a parar a taquicardia.

- Porque minha roupa está molhada, e não encontrei nenhum outro pijama – o sarcasmo era mais que palpável. – Por que será que os homens nunca usam pijama? É por natureza ou por que definitivamente não os conhecem? – Hermione ladeou a cabeça e despejou todo um rol de vantagens e desvantagens de se usar pijamas, obviamente e por razões também óbvias não me inteirei de nada. - ... ou me equivoco?

- Eh?!

- Está me ouvindo ou ainda está em Potterlândia?

- Vem aqui – lhe disse e abri os braços. Ela apenas sorriu e negou com a cabeça para, em seguida, acomodá-la em meu peito.

- Gostou? – perguntou depois de uns minutos em silêncio, nos quais nos dedicamos a desfrutar do delicioso chocolate que preparei.

- Você está incrivelmente sexy com a minha roupa. De fato – a afastei um pouco para vê-la melhor -, ela fica melhor em você do que em mim.

- Bobo- se ruborizou e me bateu no peito de brincadeira. – Não me referia ao meu vestuário.

- À cátedra dos pijamas? Porque se for isso, deixe-me dizer que eu estava muito ocupado admirando-a para prestar atenção.

- Não – riu, e beijou minha bochecha, aquela que decerto desviei para que meus lábios se encontrassem com os dela. – Me refiro a brincar na chuva. Gostou?

- Sabe que sim. Nunca o fiz.

- Não tomou banho de chuva?

- Por vontade própria, não. Algumas vezes, Dudley armou para me deixar do lado de fora enquanto chovia e quando consegui entrar, tia Petúnia não me permitiu trocar de roupa, então passei um bom tempo molhado e tremendo de frio, obviamente adoeci e me repreenderam e castigaram por isso.

- Oh, Harry! – ela me olhou como sempre faz quando falo da minha infância com os Dursley: como uma ovelha a ser abatida. Normalmente esse tipo de olhar me causa irritação, já que não suporto que as pessoas sintam pena de mim ou compaixão, mas por alguma estranha razão desta vez foi diferente. A sensação que percorreu meu corpo foi de ternura para com a mulher que eu tinha acomodada em mim, depois de tudo fazia apenas duas horas que eu havia descoberto o quão incompleto me sinto quando não estou com ela. Sei que é uma forma estranha de definir o que ela me faz sentir, e que é mais estranho ainda que eu não tenha me dado conta antes da paz e segurança em que ela me envolve cada vez que estou com ela. É que Hermione é... só queria estar com ela e tê-la ao meu lado todos os dias. Hermione sempre sabia quando eu estava triste ou abatido, e como me animar. As vezes, podia jurar que ela lia meu pensamento. Ela me fazia sentir cálido, amado, necessário, útil, forte, invencível... apenas com sua presença. E agora que sentia seu calor e a via entre meus braços e descobrira uma parte sua desconhecida, porém agradável, eu me sentia, se possível, ainda mais próximo dela.

Passei a mão pelo braço e beijei sua testa ao tempo em que aspirava a fragrância de camomila de seu, eternamente emaranhado, cabelo.

De repente, a realidade me golpeou. Meu cérebro lembrou que tudo isso era uma farsa, que estávamos apenas "praticando" para a ceia de Natal, e para, literalmente, calar a boca de toda sua família. Prontamente, toda essa calidez se esvaiu, e eu me senti sozinho... vazio. Tentei imaginar o que seria não voltar a vê-la a sós, não poder percorrer as ruas de Londres com ela, não tomar banho de chuva com ela, não provar de seus lábios nunca mais.

Neguei com a cabeça e franzi o cenho. Isso não ia acontecer! Não agora que eu havia descoberto o que é estar com ela e o que eu sentia por ela. Confessaria o que estava se passando comigo... ou melhor ainda, faria ela se apaixonar por mim, a envolveria e... estaríamos juntos, teríamos filhos e netos, uma casa na praia, riríamos de nossos cabelos brancos e com prazer morreria em seus braços. Eu tinha três dias para fazer toda essa farsa oficial. E a primeira coisa que eu tinha que saber era o porquê do seu novo comportamento, a que se devia o fato de sua maior preocupação ser conseguir um namorado e não a de passar nos exames? Ou por que era mais importante decorar minha casa e não fazer os deveres? Eu tinha a imperiosa necessidade de saber tudo, absolutamente tudo dela, pois de repente era como se não conhecesse. E não é que a mudança me desagradasse, pelo contrário, achava fascinante, embora um poço desconcertante, para ser sincero.

- Hermione?

- Hmm? – mexeu um pouco a cabeça e apoiou em meu peito uma de suas, se comparadas as minhas, pequenas mãos.

- Posso fazer uma pergunta? – até eu me dava conta de que essa pergunta era estúpida e infantil. Acaso estar apaixonado o deixa idiota?

- Suponho que sim – respondeu, deixando escapar um risinho. – Conquanto não seja sobre pijamas.

- Não. É algo mais pessoal.

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Levantei-me dentre seus braços sem muita vontade, e fiz uma careta de desagrado, realmente estava bom no meio deles. Suspirando, me preparei para o que pudesse vir, pois havia em suas últimas palavras um tom de voz extremamente sério, como o que costumava utilizar quando um Comensal ou inimigo trocava palavras com ele.

Uma vez sentada ao estilo índio diante de Harry, no outro extremo do sofá, o fitei. Que assunto pessoal tão importante ele queria saber? Franzi o cenho, e inclinei minha cabeça para olhá-lo melhor. Sua expressão estava intacta e se mostrava ilegível, qualquer pessoa diria que sua mente estava em branco, mas, como eu não era qualquer pessoa, pude detectar um brilho de curiosidade em seu olhar e uma leve ruga na sua testa que indicava que estava procurando as palavras adequadas para fazer a pergunta. Sabia que de um momento a outro ele falaria, então deixei que levasse o tempo necessário e não o pressionei. Passaram-se alguns minutos e, usando o mesmo tom de voz, falou.

- Por que está agindo assim? – simples, clara e direta. Era mais que óbvio que meditara as palavras e havia formulado a pergunta de tal forma que entendi perfeitamente que se referia a minha atitude dos últimos dias.

Suspirei enquanto Harry se apoiava no braço do sofá, cruzava seus braços e se dispunha a esperar minha resposta.

"Não sei".

Foi a primeira coisa que me ocorreu dizer, além do que essas três palavras eram o mais próximo da verdade. Eu sabia que estava agindo mais estranhamente que o habitual, dando-lhe a conhecer coisas e comportamentos tão anti-eu, que era mais que óbvio que meu melhor amigo, atualmente namorado postiço, iria notar de uma forma ou de outra. Mas como explicar as razões, motivos e circunstâncias do meu atual comportamento sem que ele se culpasse, graças a esse gene que o faz se achar o centro do universo? Desviei o olhar para os quadradinhos verdes, azuis e brancos que se entrelaçavam no tecido da boxer que eu estava usando, e me dispus a contá-los, sabia que ele estava me observando, analisando meus gestos. Sabia também que era preciso lhe dar uma resposta bastante clara e concisa para que sua curiosidade fosse satisfeita, do contrário insistiria a extremos inimagináveis até obter a verdade.

Continuei contando os quadradinhos, já chegava a 45 quando o ouvi expirar pouco a pouco; ele, como eu, não ia pressionar, se limitaria a esperar que eu falasse, a única diferença era que seu olhar, com o tempo, havia adquirido um "sabe-se-o-que" que fazia com que me sentisse traspassada por raios X.

- Desde que era uma menina – comecei meu relato ainda olhando os quadradinhos da boxer, não precisei vê-lo para dar-me conta de que todos os seus sentidos estavam perfeitamente sintonizados de modo a não deixar escapar nada -, mais concretamente quando iniciei a escola, sempre fui diferente. E não era por causa da magia que há em mim, mas sim pela educação que meus pais me deram. Eles sempre me disseram que em primeiro lugar vinham os estudos, os deveres, as obrigações e depois todo o resto. Por exemplo: se o professor saia da sala e nos deixava exercícios, primeiro eu tinha que fazer o trabalho e em seguida, se queria, podia brincar. Creio que sabe que a maioria dos alunos, assim que o professor sai, grita, brinca, sai da sala de aula... naturalmente, quando isso acontecia, eu seguia o conselho de meus pais ao pé da letra, e quando o professor regressava eu estava sentada trabalhando ou já havia terminado; quanto aos outros, ele os encontrava fora de seus lugares ou conversando, assim nunca me repreenderam e se a isso agregamos o fato de que eu sempre fazia as tarefas, os trabalhos, era ordenada, limpa, sempre levava o material, o uniforme impecável, era pontual... me convertia numa convencida. Por isso, todos os demais colegas de classe não me suportavam e me excluíam, adicionando a tudo isso: minha conduta introvertida, meu cabelo, que é único, e meus dentes demasiado grandes. E se obtém como resultado toda uma raridade. Então, ao não ter nada que fazer nos recreios, pois ninguém se aproximava de mim nem sequer para falar, me dedicava a ler. Li todos os livros do meu ano, pensando que se adiantasse as lições podia sair para brincar e relaxar... mas isso apenas serviu para que os professores me deixassem mais trabalhos, especiais, segundo eles, para ampliar meus conhecimentos. Quando descobri a biblioteca, descobri um mundo! Um mundo onde podia sonhar com lugares mágicos, castelos e dragões. Onde sonhava em ser uma princesa e apaixonar-me por uma fera, onde podia conhecer meu príncipe encantado em um sonho, e identificar-me com o Patinho Feio. Meu vício pela leitura aumentou cada vez mais quando meus pais abriram sua clínica em Londres, distante de casa. Eu passava as tardes sozinha no quarto ou na sala de estar, e a forma mais fácil de fugir era ler. O dia todo.

Estava na biblioteca da escola, tinha oito anos e queria alcançar um livro de história, não lembro por que queria esse livro em particular, mas ao não poder alcançá-lo me irritei muito e, de repente, o livro flutuou até chegar em minhas mãos. Assustei-me e sai correndo. E desde aquele dia coisas estranhas ocorriam ao meu redor. Se alguém me incomodava, caia sem mais nem menos, ou seu copo de suco explodia e sua cara e roupa se molhavam... Como sabiam, não sei, mas sempre pensavam que eu causava tudo, de modo que passei a ser a "Menina Estranha", a "Menina Estranha e Anormal". Um mês mais tarde Alan ingressou na escola, nunca lhe perguntei o porquê mas desde o primeiro dia ele se juntou comigo, sem lhe importar que eu fosse diferente ou a sabe-tudo da classe. O tempo passou e nos tornamos bons amigos, ambos gostávamos de ler, saíamos as tardes quer fosse ao parque, sua casa ou qualquer outro lugar; eu era feliz, tinha alguém que me defendia se me molestavam e com quem passar as tardes. Desafortunadamente, seu pai foi transferido para a Califórnia e a comunicação se perdeu. Depois disso, um dia, o professor Dumbledore se apresentou em minha casa, falou comigo e com meus pais, explicou-me que eu não era anormal, mas sim uma bruxa, que tinha em meu interior magia e que ele viera saber se eu estava interessada em aprender a canalizar essa magia. Mostrou-me o que poderia fazer e, para alívio de minha saúde mental, fez levitar vários livros e os depositou em minhas mãos. – Um lento sorriso formou-se em meus lábios e soube, com toda segurança, que ele também estava recordando esse momento e as sensações que se experimenta quando se compreende que não se está louco e que há mais pessoas como você.

Busquei seu olhar e um sorriso de cumplicidade se formou em nossas faces. – Você sentiu o mesmo, não é? – perguntou – Como se pela primeira vez soubesse que vai se encaixar em algum lugar?

- Sim – disse. – Como se pela primeira vez estivesse em meu lar. – Permanecemos em silêncio por um tempo. Ambos relembrando, ambos sentindo, ambos unindo-nos mais.

- Sabe o que é mais engraçado? – disse, depois de um tempo, e o vi negar com a cabeça. – Que estando em Hogwarts, tudo voltou a se repetir. – Voltei a desviar meu olhar. Por que tinha que ser tão difícil? – Estava tão emocionada, havia descoberto um novo mundo, um de verdade e ao mesmo tempo fantástico como os que havia lido, que desejei saber tudo. Comprei todo tipo de livro que pudessem me contar algo de minha nova vida, devorei os livros textuais e quando tive minha varinha em mãos me pus a praticar, queria fazer tudo bem. Memorizei "História de Hogwarts", punha todo meu esforço nos trabalhos e nas aulas, era a melhor. Mas outra vez estava sozinha, ninguém se aproximava. Tudo era como na escola trouxa, eu me tornei a favorita dos professores e os demais me detestavam. Daquele vez em que os ouvi, lembra? Quando saíamos da aula de Feitiços, não chorei pelos insultos, chorei porque por mais que me esforçasse não me encaixava. Como é que chegamos a ser amigos? Ou, como é que logrei entrar no grupo? É algo que ainda não consigo entender. Mas me senti muito bem comigo mesma quando, graças a meus conhecimentos, pudemos atravessar O visgo do diabo, no primeiro ano, ou ter contribuído para solucionar o mistério da Câmara Secreta ou, que graças ao fato de querer estudar mais, tenham me dado o Vira-Tempo e, assim, poder ajudá-lo. Apenas uma vez me permiti pensar em mim e não em Voldemort. Ao tentar esquecer-me de tudo, deixar os livros e divertir-me, esquecer os feitiços de defesa e concentrar-me nos feitiços de maquiagem e penteado. E foi Ron que me lembrou que não podia fazê-lo. Eu, desfrutando do baile, e alguém tentava matar você! Não faz idéia de como me senti quando o vi sair do labirinto. Naquele noite, chorei como nunca.

- Chorou? – perguntou com surpresa. – Por quê?

- Porque se eu não estivesse tão ocupada pensando em se alguém me convidaria ao baile ou como ia me pentear, teria podido poupá-lo de todo aquele sofrimento. Eu pensando em mim e você suportando coisas horríveis. O que Ron havia me dito na noite do baile, ressoou muito forte na minha cabeça naquela noite, pois sempre tivera razão. De outra vez, Ron estava beijando-se com Lavander e os ciúmes se fizeram presentes em forma de canários. Claro que não tinha nada a ver com Lavander, teria feito o mesmo se ele estivesse beijando Dean ou a Murta, ou com o simples fato de estarem se beijando; era simplesmente pelo fato de que ele podia se divertir e ser adolescente, e eu não? Por que se eu me descuidava aconteciam coisas horríveis, mas vocês dois podiam passar algum tempo como pessoas normais? Obviamente com você tudo era diferente, depois de tudo merecia um pouco de felicidade na vida, sobretudo levando em conta que o destino não estava muito ao seu favor. E assim, um dia, após tantas coisas, me encontrei entrando em meu quarto na casa de meus pais, com 17 anos.

Recordo que a primeira coisa que fiz foi olhar ao meu redor, vi meu computador, a televisão, o som, o DVD... todos presentes de meus pais, todos sem uso. Foi aí quando lembrei que também era trouxa. Que tinha primos, tios, avós... que tinha uma vida e que nem tudo era magia e feitiços. Não me interprete mal. Eu não me arrependo de nada do que fiz, nem das decisões boas ou más que tomei. É só que estivera tão ocupada com outras coisas que não havia me permitido ser eu... Até agora.

Agora não há mais livros, agora não há mais guerra. Finalmente, sei muitas coisas que nenhum professor poderá me ensinar e as aprendi em primeira mão e da pior forma. Demonstrei que sou muito boa aluna, que sou capaz de enfrentar tudo. E, acima de todas as coisas, você está a salvo. E eu agora posso ser eu.

Encarei-o por fim, sentado diante de mim, olhando-me fixamente, pouco a pouco seus olhos foram diminuindo e antes que se fechassem por completo vi um sem-fim de emoções bailando neles. E soube que, talvez, não devia ter aberto a boca, que às vezes é melhor guardar algumas coisas e não revelá-las.

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Fechei os olhos e me amaldiçoei interiormente. Em todos esses anos, nunca me dera conta do quão egoísta fora com ela. Com relação a Ron, de uma forma ou de outra estive perto de sua família, mas e ela? Natal, férias de verão, sempre estava conosco... lendo, investigando, aprendendo... Por minha culpa, se privara de muitas coisas, das quais até agora acabava de me dar conta. Ron e eu sempre a enchíamos com nossos problemas, tivessem ou não relação com Voldemort e eu, naquele, então, destino incerto, e ela sempre estava lá, aconselhando-nos, repreendendo-nos. Merlin! Incluso havia organizado nossos horários para que estudássemos... nos havia ajudado sempre mas, e os problemas dela? Jamais me ocorreu pensar que ela também necessitava passar um tempo com seus familiares, ter amigas, falar de garotos, maquiagem, em outras palavras: que precisava viver sua juventude; que ela, como eu e Ron, sacrificou mais que sua saúde física, mental e emocional, tudo para me salvar.

Senti que ela se aproximava de mim e se sentava sobre meus joelhos, de frente para mim, e me tomava o rosto entre suas mãos buscando meu olhar. Contudo e apesar de estarmos cara a cara, me negava a abrir os olhos e encará-la, pois a culpa começava a correr em meu interior.

- Ei! – sua voz mandona se fez presente. – Será melhor para você se mandar esse seu egocentrismo ir pastar, nem que seja só desta vez. Quando vai entender que nem tudo gira ao seu redor?

Abracei-a com força e enterrei meu rosto na curva do seu pescoço, aspirei o perfume do seu cabelo, que sempre cheirava a camomila. – Eu sinto, eu sinto muito, sinto muito – murmurei enquanto beijava seu pescoço.

- Harry, basta! - me separou dela e voltou a tomar meu rosto em suas mãos, a fitei e me dei conta de que havia se irritado. – Deixe de dizer tolices...

- Não são...

- Sim, são. Você não tem por que pedir desculpas, não fez nada. – tentei refutar esse absurdo argumento, mas antes que eu abrisse a boca, Hermione pousou um dedo em meus lábios. – Cale-se e ouça. Já disse que tudo que fiz o fiz porque queria fazer. Você não me obrigou nem me ameaçou com a varinha, nem com pistolas, nem nada. Desde o princípio, você não quis que nem Ron e nem eu nos envolvêssemos, fez o possível para nos manter apartados e não funcionou. Nós... eu decidi lutar ao seu lado, eu decidi crescer com você, eu decidi estar com você. Se me feriram, se perdi tempo, vivências, experiências... tempo, foi porque eu quis. Acaso não acredita que eu seja o suficientemente inteligente para tomar minhas própria decisões?

- Não é isso. – Neguei com a cabeça. – É só que você merecia mais e eu lhe tirei...

- Não acha que é tenho o bastante em ser a melhor amiga do "Escolhido"? – sorriu – Além disso, graças a você, sei mais coisas de Hogwarts do que aprendi em "A História de Hogwarts", desafiei as leis da natureza ao recuar no tempo, fui cúmplice de um fugitivo da lei, saí com o jogador de quiddich mais famoso do momento, fugi do colégio nas costas de algo invisível, invadi o Ministério da Magia em plena noite, montei um dragão e ajudei a impedir o Apocalipse. Uma garota pode pedir mais? Eu, ao menos, não trocaria nada disso por alguns saltos altos e uma hora no SPA – levou a mão ao queixo e bateu nele com o dedo indicador algumas vezes, em seguida seus olhos brilharam e um sorriso atravessou seu rosto. – Embora, talvez, pensasse melhor se me oferecessem uma mudança de look.

Como reagir ante uma situação assim? Rir, chorar, se ajoelhar ou deixar passar? Ela, como sempre, solucionou o problema: me abraçou. O único inconveniente era que eu queria mais que um simples abraço, queria beijá-la, queria tê-la junto a mim todo o tempo, queria dormir e acordar com ela, ajudá-la a preparar o café da manhã e convidá-la a comer na cama, queria me casar e ter filhos com ela, queria mais, queria ela, toda ela. Sem medir as conseqüências e sendo a única coisa que me pareceu correta a fazer, busquei seus lábios com os meus. O beijo, quiçá devido as confissões recentes, quiçá por culpa ou agradecimento, ou simplesmente pelo sentimento que descobri horas antes e que agora aceitava sem hesitar, foi diferente. Tomei-a pela cintura e aproximei-a mais de mim, meus lábios se moviam ferozes e exigentes contra os dela. Abriu a boca por uma fração de segundos e eu aproveitei para adentrar-me nela e saboreá-la a bel prazer. Por incrível que pareça, Hermione correspondia o beijo com a mesma vontade, senti que suas mãos subiam por minhas costas e pousavam em minha nuca e ao fim de uns segundos começavam a brincar com meu cabelo, despenteando-o mais. Hermione suspirou, ou fomos os dois? Nesse momento não importou, pois minhas mãos exploravam o que estava a seu alcance, seus quadris, sua cintura, suas costas, e seu rosto... Queria fundir-me nela, abraçá-la e permanecer assim para sempre, tê-la em meus braços, em minha casa, em minha vida... Ela aproximou-se e aprofundou o beijo ainda mais, senti como seu torso se colava ao meu, e quando senti seus seios e minhas mãos comichavam para tocá-los, gemi e retornei à terra.

Tinha que falar com ela, dizer-lhe que não queria mais fingir, que isso não era parte do ensaio para enganar sua prima. Devia dizer-lhe que nela havia encontrado tudo o que necessitava para ser feliz, que ela era como meu complemento, que se é verdade que existia uma alma gêmea, ela era isso e mais. E devia dizer, ou melhor, perguntar à ela se existia a mais remota possibilidade de que ela sentisse o mesmo que eu, se me correspondia. Com a respiração entrecortada e a cabeça dando voltas, me separei dela. Hermione tinha as faces ruborizadas, seu peito subia e descia irregularmente, os olhos estavam brilhantes e seu olhar perdido.

Sorri interiormente, era um dos três: ou ela era ótima atriz para conseguir fingir tão bem, ou eu era correspondido em meus afetos e ela ainda não se dava conta, ou simplesmente era porque eu beijava muito, mas muito bem.

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- Obrigado – disse a contragosto e mais por educação do que por realmente ter aproveitado da viagem. Talvez teria me despenteado menos se tivesse vindo na minha velha, lenta e patética vassoura do que dentro do Noitibus Andante. Dirigi-me ao número doze que estava do outro lado da rua e tentei arrumar meu cabelo com as mãos, recompus minha postura e estampei meu melhor sorriso. Quando cheguei à porta do número doze, estava mais que disposta a representar meu papel. Ergui meu punho direito para bater à porta, quando um ruído de passos, vozes e risinhos deixaram-se ouvir através dela. Reprimi um grunhido e a vontade de irromper de supetão na casa.

Na verdade, não sei por que me surpreendia tanto, depois de tudo era lógico que estivessem juntos; Ron havia dito, desde que saímos de férias e chegamos em casa que Hermione passaria as festas natalinas com sua família (nada estranho, tendo em conta que quase não ficava com seus pais) e que Harry, só Merlin sabia por que, estaria sozinho, pois precisava arrumar umas coisas, para quase se emancipasse no verão. Depois de ver, à distância, a discussão de meu irmão com Luna, sua namorada, sobre esta lhe dar uma série de explicações nas quais se incluía o comportamento estranho de Hermione e, em seguida, ver que Ron encerrava o interrogatório e ficava assim, sem preocupar-se com seus amigos, não era preciso ser um gênio para saber que um mais um são dois e que Harry e Hermione estavam juntos.

Meu plano era simples. Simplicíssimo. Não haveria cenas de ciúmes, brigas, gritos ou choro. Não pediria nem suplicaria, eu também tinha meu orgulho e minha dignidade. Se, por alguma estranha razão, nenhum dos dois havia percebido do que todos os demais davam por fato há anos, eu apenas seria a namorada doce, boa e preocupada, que vai visitar seu namorado porque sente sua falta; mas se já sabiam, eu apenas reclamaria minha posição como namorada de Harry. Hermione compreenderia de cara, e sendo tão nobre como é se afastaria, depois de tudo ela era o tipo de pessoa que sacrifica sua própria felicidade para que os demais sejam felizes.

Então, se me fizesse presente e relembrasse que Harry é MEU namorado e que ele é feliz comigo, pois havia me escolhido, ela se afastaria. Era óbvio que quem se daria conta de tudo seria ela; ela era a inteligente, a observadora, a mulher... e somos, precisamente mulheres, que nascemos com uma espécie de "dom" para os assuntos do amor e sentimentos. Além disso, há que se levar em consideração que Harry, por mais nobre e boa pessoa que seja, além de bruxo poderoso, é um pouco lento e desatento para com essas coisas.

Dessa forma, não havia erro. Ergui o queixo e bati à porta.


Nota da Tradutora: Mwahauahauahauhaua! Com esse final, agora eu quero ver! Pedidos desesperados de "atualiza, por favor, se não..." em 3, 2, 1...! ;D

Nem vou comentar nada, que é pra não estragar esse momento lindo de aflição. ;]

A única coisa que lhes direi é...

... Ok, relevem quaisquer erritos, não foram meus mas do meu astigmatismo enxerido.

Agora, sério, o que tenho a lhes dizer de relevante é...

... segurem as pontas, eu não tardarei! - assim espero. XD

Abraço solidário de "eu compreendo e me divirto muito" (mwahauhauahau!) e até o próximo capítulo da sua novela "de suspense" mexicano favorita. ;]

Inna Puchkin