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CAPÍTULO 6 – OS CINCO GUARDIÕES

Eu acordo com o som da porta do aposento se abrindo. Não posso evitar, meu sono se tornou leve desde a noite do ataque.

Ten e Ruto entram trazendo um balde e o que parece ser uma muda de roupas. Eu não preciso de uma maldita muda de roupas, eu só preciso do meu macacão de escavador, mas parece que este eu terei que barganhar diretamente com Lory.

Após "conversar" com Ren.

Que diabos ele quer conversar comigo é algo além da minha imaginação. Provavelmente quando ele diz "conversa" está querendo dizer "interrogatório", e é aí que a minha preocupação repousa.

"Oh, você acordou!"

Eu não sei o que motiva o sorriso de Ten. Que mulher esquisita...

"Ren me disse para lhe trazer comida e roupas, então eu imaginei que não faria mal providenciar também um banho para você!"

Ren... o quê?

"Enfim, sei que não é exatamente um banho, mas aqui tem água e um pano para você se limpar. Eu tenho alguns óleos, também! Qual fragrância você prefere?"

A cortesia dela é totalmente bizarra. Não ensinaram o básico a esta mulher?

Pergunta estúpida. Claro que não. As mulheres somente são ensinadas a serem simpáticas, cordiais, obedientes e boas anfitriãs. Ten simplesmente não sabe agir de outra forma, nem mesmo diante de alguém que invadiu o palácio do Clã com um propósito desconhecido.

Ruto, ao lado dela, apenas me observa, o que começa a me enervar.

"Areia"

"Hm?"

"Eu disse que prefiro areia. Nada de óleo. Areia do deserto, entende?"

"Areia?"

Esta mulher é estúpida?

"É como os nômades se limpam. Na escassez de água, esfregam areia fina no corpo e depois a removem com um pano"

Ela parece surpresa e me pergunta se a técnica funciona. Eu não vou explicar a ela que estou recusando o óleo que ela está me oferecendo por saber que ele provavelmente estaria entupido de essências, o que me tornaria facilmente localizável pelo cheiro que eu exalaria por dias a fio, então apenas aceno com a cabeça.

Ela matraqueia algo sobre experimentar algum dia e parece genuinamente pesarosa por não ter areia para me fornecer no momento, mas sai do quarto prometendo retornar em breve com uma refeição para mim.

Ruto permanece me olhando. Talvez ele não seja bom da cabeça.

Eu verifico a muda de roupas que Ten trouxe para mim e praguejo.

"Uma maldita saia! Que diabos eu vou fazer com uma saia?"

"Você não gosta de saias?"

Oh, então o "mudinho" consegue falar mais do que três palavras!

"Claro que eu não gosto de saias! Já tentou nadar, correr, escalar, saltar e engatinhar com uma saia?"

É uma pergunta retórica, então me surpreendo quando ele me responde.

"Não, nunca tentei"

Ten retorna com uma bandeja e me flagra revirando os olhos para a resposta de Ruto.

"O que aconteceu?"

"Ela não gosta de saias"

Santa Natureza, o maior assassino do planeta é um idiota!

"Oh? E por que não?"

"Porque a única utilidade que as saias têm é facilitar o trabalho de preguiçosos machos no cio!"

Por pouco Ten não derruba a bandeja que carrega. Acho que meu comentário a chocou.

"Se bem que uma mulher com a saia levantada consegue correr mais rápido que um homem com a calça abaixada"

Oh, ela não estava chocada: estava tentando conter a gargalhada.

Ruto olha de mim para Ten como se estivesse perdido, o que finalmente me faz rir: a contradição entre quem ele é e como se comporta quando não se sente ameaçado é absolutamente cômica. Agora somos duas idiotas gargalhando, mas por motivos diferentes.

"Você é a única mulher de quem eu ouvi falar que usa calças!"

Aposto que sim. Até o que vestimos é controlado por homens.

"Bem, calças têm dois buracos para pôr as pernas. E pernas é algo que tanto homens quanto mulheres têm. Logo, não vejo razão para não usar calças, se eu preencho os pré-requisitos"

Talvez meu comentário sarcástico tenha sido demais para Ten.

"Eu... verei o que eu posso fazer, mas acho que não encontrarei um par de calças sobrando"

Antes dela alcançar a porta, contudo, o som de espanto que me escapa da garganta a faz olhar para trás e se deparar com a cena que eu estou presenciando: Ruto está se despindo diante de nós.

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O último olhar de Kyoko para mim me atormenta desde que a deixei naquele quarto. Agora minha cabeça lateja e eu mal consigo me concentrar no que Yashiro está reportando.

"Lory me disse que Kuu está apreensivo pela falta de informação e há duas horas chegou esta mensagem de Rick"

Eu olho para o papel na mão de Yashiro e sinto a dor de cabeça aumentar. Eu consigo antecipar o conteúdo da mensagem, o que azeda o meu humor.

"Leia para mim"

Talvez o recado se torne menos ruim se eu não ouvir a voz de Rick na minha cabeça.

Yashiro pigarreia e olha para o papel por alguns segundos, mudo.

"Tudo bem, Yashi. Pode ler"

"... Prezado irmão babaca, faça o favor de parar de agir como um frangote... O que é um frangote?"

"Yashi, apenas termine logo de ler!"

"Prezado irmão babaca"

"Você já leu esta parte!"

Às vezes Yashiro é tão sádico que eu me pergunto porque não foi ele quem recebeu a alcunha de "Monstro".

"... e retorne logo para os seus afazeres. Ruriko e Kimiko não param de choramingar que estão no período fértil e você não está aqui"

Puta merda, todo mês é a mesma coisa!

"Elas me fazem lembrar o motivo pelo qual eu casei com Tina, então suponho que eu deveria ser grato a você, mas no momento eu só consigo ficar puto da vida por ter que aturar as reclamações das duas quando a obrigação é sua. Resumindo, pare de se fingir de morto, eu já sei que você não sofreu atentado nenhum e desconfio que esteja apenas se esgueirando das suas responsabilidades – não que eu o culpe por não querer foder aquelas duas, é sério, elas deveriam ser catalogadas como 'risco biológico' ou coisa do tipo! – e volte logo para o seu território, que é onde você pertence. Assinado Rick, o irmão que recebeu todos os genes que valiam a pena"

Yashiro deve achar que eu não percebo o esforço que ele está fazendo para não rir, enquanto eu só consigo bufar, irritado.

"Bem, é verdade que nós deveríamos ter voltado há dois dias"

"Há questões mais importantes a serem resolvidas aqui"

Eu sei que estou prestes a entrar em mais uma discussão de prioridades com o meu Conselheiro, o que me faz buscar um assento. Se vamos bater boca, eu prefiro estar confortável.

"Questões mais importantes? Ren, sua elevação a Mestre de Clã já aconteceu e você permanece fora do seu território sem uma missão especial que justifique sua ausência. Ela está fora de perigo e Lory já nos garantiu que conduzirá a questão com o Conselho e outros nobres. Em outras palavras, ele não quer sua interferência. Provavelmente ele percebeu como você perde a cabeça quando o assunto é ela. Então, o que ainda estamos fazendo aqui, quando há assuntos pendentes aguardando você no território Tsuruga?"

"Meu irmão está me substituindo e-"

"Rick concordou em substitui-lo por um dia, nada mais, e ainda assim você o mantém longe do território Hizuri!"

"O Mestre Kuu está no território Hizuri, portanto, eu não vejo prejuízo para nenhuma das partes"

"Ren, você está ouvindo a si mesmo? Por seis anos você se concentrou apenas em se tornar Mestre, e agora que conseguiu parece inventar qualquer pretexto para ficar longe do seu próprio território!"

"Não é qualquer pretexto!"

A expressão perplexa de Yashiro é desnecessária, quando eu mesmo percebo minha explosão.

"Não é qualquer pretexto. Eu sinto... há algo maior acontecendo, eu sei disso!"

"... Ren, talvez Lory tenha razão em afastar você do 'Caso K'"

Maravilha, agora ele está defendendo aquele velho ardiloso!

"Você simplesmente não está pensando direito! Nada é mais importante que a continuação da humanidade, e se você disser o contrário em voz alta, correrá o risco de perder a posição de Mestre!"

O foda é que Yashiro tem razão.

"Você me nomeou Conselheiro, então aqui vai o meu conselho: volte para o seu território. Assim, Rick poderá retornar ao território Hizuri, para junto de Tina, e Kuu receberá notícias suas e ficará tranquilo. Do jeito que a situação está, tudo que você está conseguindo realizar aqui é ser indelicado com Lory ao estender nossa permanência além do razoável, preocupar seus pais, frustrar Rick e descumprir suas obrigações com suas procriadoras!"

Tudo se resume a isto, no final das contas: enquanto eu estiver aqui, Rick não estará tentando engravidar Tina e eu não estarei tentando engravidar Kimiko e Ruriko.

Se elas não fossem filhas de nobres, qualquer outro homem do meu Clã poderia assumir o meu lugar em tentar engravida-las, mas como isso deixaria os pais delas putos da vida e eu preciso do apoio deles, a tarefa cabe exclusivamente a mim.

Antigamente, a situação era outra. Não só os ciclos delas não estavam sincronizados, como elas também não tinham tanto interesse em mim. Em breve completará dois anos que elas são minhas procriadoras e até ano passado elas não se empenhavam tanto na tarefa quanto agora.

Quando eu era somente um herdeiro de Clã, as duas perseguiam Rick, o mais velho entre nós dois e a maior aposta na sucessão de Kuu como Mestre do Clã Hizuri. Mas Rick, esperto como poucos, tratou de desposar Tina antes que as famílias das duas conseguissem algum acordo com Kuu que o envolvesse.

Assim, meu irmão escapou da triste sina que recaiu sobre mim.

Nenhuma delas fez qualquer questão de dissimular o desgosto que sentiam por serem designadas como procriadoras para o filho mais novo de Kuu, o Monstro Tsuruga. Afinal, elas vinham de dois anos como procriadoras de Sho, único herdeiro Fuwa, e eu parecia uma mácula no "currículo" delas.

Mas alguma coisa eu devo ter feito corretamente, já que elas passaram a me disputar, o que sempre me colocava na enfadonha situação de aparta-las e de evitar que uma matasse a outra.

Nos últimos meses, contudo, a briga apenas acirrou. A expectativa de que eu me tornaria Mestre do meu próprio Clã tomou-as de surpresa e elas passaram a antever a possibilidade de serem tomadas como esposas. O prazo de dois anos está quase se esgotando, então, elas não têm muito tempo sobrando para me convencer a escolher uma das duas como esposa e abrir mão da outra para o próximo nobre da fila.

O que significa que o meu trabalho com elas apenas triplicou, entre artimanhas para me seduzir e estratagemas para boicotar a outra.

"Bem, se você faz realmente questão, nós podemos adiar seu retorno em mais um dia"

Parece que minha reflexão silenciosa foi interpretada como indecisão por Yashiro.

"Mas se for esta a sua decisão, para não perdermos o período fértil nem de uma, nem da outra, eu terei que, novamente, mandar as duas ao mesmo tempo para o seu quarto"

Oh não, de novo não! Aquela foi uma péssima ideia. A pior que eu já tive, na verdade.

"Ora, mas que Mestre de Clã dedicado!"

A dona da voz, mais que o sarcasmo, faz-me congelar.

Yashiro deve estar com a mesma expressão que eu: como não percebemos a presença de Kyoko? Há quanto tempo ela está nos ouvindo?

E que diabos está acontecendo, para ela estar usando as roupas de Ruto?

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Eu sinto o mais profundo desprezo pela forma como este mundo trata as mulheres.

Antes mesmo de me apossar de toda a coleção que os antepassados enterraram por considerarem as obras "perigosas", eu já me inquietava pela condição subalterna destinada a nós. Digo, a elas, já que se supõe que eu seja um rapaz.

Obras perigosas, sem dúvidas. Uma deliciosa coleção de livros que retratam as mulheres em posições que atualmente elas nem pensam em ocupar. Personagens que nasceram em Kyoko e que a têm protegido desde então: Mio, Natsu, Setsuka e Momiji; junto comigo, Kuon, somos os cinco guardiões de Kyoko.

Evidente que antes do ataque nós não existíamos. Kyoko simplesmente não sabia como enfrentar o que acontecia a ela, até porque ela sequer identificava os perigos. Ela era muito jovem quando foi vendida – ou, como este mundo chama, "destinada a uma família com melhores condições de cria-la em troca de uma compensação aos pais biológicos" – para refletir sobre qualquer coisa.

No Clã Fuwa, ela foi ensinada a ler e a escrever, mas somente o necessário para entender e recriar receitas. Ainda assim, ela percebeu o desagrado generalizado quando começou a pedir livros sobre botânica e zoologia, por mais que ela explicasse que o interesse era meramente culinário, pois responderam que tal conhecimento era demais para ela.

"Conhecimento demais"? Como assim? Existe tal coisa como "conhecimento demais"?

Foi quando Kyoko começou a se esgueirar pelos corredores do território Fuwa a procura de livros escondidos. Talvez ali o futuro dela como Escavador já estivesse selado.

Estudando, seu desempenho assombrou a todos. Inclusive já comentavam que ela havia superado Taisho, o Chef do Clã, para descontentamento deste, mas ela nunca pensou nele como uma ameaça. Hoje, graças a nós, ela repensa tudo que viu e viveu dos seis aos catorze anos e se impressiona com quão estúpida ela era para não perceber que estava acumulando rivais em toda parte.

A começar por Yayoi. A matriarca Fuwa fazia questão de dizer que a via como filha e Kyoko acreditava. Na verdade, a megera estava apenas dando um recado ao patriarca...

Como Kyoko também não identificava a malícia nos olhos dele sempre que a olhava é outro mistério. Filha o cacete, ela era só um pedaço de carne maturando lentamente.

E Sho, que ela pensou que a amasse? Pffffttt... certo, a única coisa que ele sempre amou foi o poder, por isso a rivalidade com o próprio pai. Aposto como o herdeiro Fuwa aguarda ansiosamente pela morte ou aposentadoria do patriarca para se tornar o Mestre do Clã e ditar as regras. Se é que ele aguarda. O mais provável, mesmo, seria ele tramar a morte do pai, mas Sho nunca foi do tipo esperto. Talvez até já tenha tentado – e fracassado – algumas vezes.

A família inteira é podre.

O que Kyoko esperava, recorrendo a Yayoi após o ataque de Sho? Que ela se comportasse como "mãe" e cuidasse dela? Que ela punisse Sho pela transgressão?

Foi o precioso Sho quem garantiu a Yayoi a posição de esposa de Mestre de Clã. Todos sabem que, não fosse ela engravidar, o patriarca Fuwa se casaria com Julie, com quem estava encantado pela beleza e juventude. Ele sempre gostou das novinhas, e Yayoi já passava dos vinte anos, enquanto Julie estava ainda com dezesseis anos.

A concepção de Sho garantiu a Yayoi uma vida confortável, e só. O patriarca nunca foi fiel. Com o argumento de perpetuação da raça humana, já que ele havia conseguido engravidar uma procriadora, abriu mão de todas as outras ao se casar com Yayoi, mas fez questão de manter Julie, que somente se livrou dele quando completou dezoito anos, ao término do prazo de dois anos que toda procriadora precisa cumprir com o mesmo parceiro.

É o tempo que o Conselho determinou como razoável para verificar a compatibilidade do casal em termos de fertilidade. Uma verdadeira putaria, na minha opinião.

Inusitadamente, ele conseguiu produzir nela um filho, Reino, e por conta disso tentou dissolver o casamento com Yayoi para se casar com Julie, o que foi vetado pelo Conselho. Tentou, então, casar-se com as duas, mas o Conselho novamente vetou.

Um homem pode ter um número indeterminado de procriadoras, desde que respeite o prazo de dois anos e que consiga fornicar com todas nos respectivos períodos férteis, mas esposa ele só pode ter uma. Deve ser para evitar que os Mestres mais ricos colecionem os melhores "espécimes", deixando os demais Mestres com as "sobras".

Qualquer que seja a razão, não é em benefício da mulher, disto eu tenho certeza.

Fuwa usou todas as cartas que tinha na tentativa de manter Julie, argumentando ser o primeiro nobre em décadas a produzir dois herdeiros, e de fato isto angariou mais prestígio ao Clã. Ao ponto de, apesar de ter sido derrotado nas votações do Conselho, receber como "prêmio de consolação" a possibilidade de manter Reino mesmo após perder Julie para o próximo nobre da fila, Kuu.

Dizem que ela não estava em bom estado quando foi recebida como procriadora pelo Clã Hizuri. Mas, se ela não estava em bom estado, Kuu não teria se casado com ela quase imediatamente, certo?

O fato é que Yayoi fez de tudo para se livrar de Reino. Não sei se a decisão de o mandar para ser criado pelo Clã Morizumi foi decisão dela, para se livrar dele, ou do patriarca Fuwa, para evitar que Reino sofresse um "infeliz acidente". Só sei que ela finalmente estava vivendo o sonho de não ter qualquer rival por perto.

Até Kyoko aparecer.

O pretexto era a menina ser criada para eventualmente substituir o Chef, então com trinta anos, mas nunca lhe ocorreu pensar que era estranho ela ter sido escolhida no lugar de um garoto. Ora, há muitas ocupações para homens, enquanto para mulheres há uma só, então por que desperdiçar um ofício com ela?

Kyoko precisou escapar com vida para começar a refletir sobre isso, por mais óbvio que fosse. E se ficou óbvio para ela, era óbvio para Yayoi. Inferno, era óbvio para todo mundo, inclusive para os Mestres. Até para um idiota, como Sho, devia ser evidente que o patriarca estava criando Kyoko com o único propósito em mente dela se tornar uma procriadora. Talvez ele tivesse a expectativa de Yayoi nada fazer contra a garota, caso se afeiçoasse o bastante nos anos de convivência forçada. Talvez ele tenha achado, nas vezes em que a matriarca dizia que via Kyoko como filha, que o plano dele havia sido um estrondoso sucesso.

Talvez fosse exatamente isso que Yayoi pretendia quando fazia as afirmações. Nada mais vantajoso que um inimigo com a guarda baixa.

Só Kyoko era ingênua para não perceber. Porque ela foi criada para ser exatamente assim.

Porque, naquela época, nenhum de nós existia para alerta-la ou protege-la.

Com o passar do tempo, quando Sho e Kyoko tinham dez anos, Shoko apareceu, no auge de seus dezesseis anos. Talvez o patriarca tenha achado que mais seis anos era tempo demais para esperar por Kyoko e encontrou na jovem Shoko a distração perfeita. Assim que a viu, solicitou-a como procriadora. Ele esperou quatro anos por ela, já que havia dois nobres na fila antes dele, mas pelas fofocas eu descobri que ele deveria esperar dez anos: o terceiro da fila ele simplesmente usou a autoridade de pai para substituir, jogando Sho para o sexto lugar.

Sho foi o mais jovem nobre da história a solicitar uma procriadora. A sorte lhe sorriu, já que Shoko ficaria disponível justamente quando ele completasse catorze anos, idade mínima para ingresso dos homens no doentio circuito de reprodução humana, mas ele não contava com a interferência do próprio pai em lhe tomar o lugar.

A manobra somente foi descoberta quando Sho completou catorze anos e foi reivindicar Shoko, ocasião em que foi informado que ele era agora o sexto da fila e mais seis anos de espera o aguardavam. Shoko ainda passaria por Rick e Ren antes de chegar a vez dele, e os dois eram os primeiros solteiros da lista. Qualquer um dos dois poderia desposa-la e ele jamais teria a chance de tê-la.

Não que Sho ainda quisesse se casar com ela. Este poderia ter sido o sonho dele no auge dos catorze anos, mas acabou no instante em que o patriarca Fuwa se intrometeu.

Sho jamais se casaria com uma mulher que houvesse dividido a cama com seu odiado pai. Ele poderia fornicar com ela, mas jamais a desposaria.

O ódio por ver o patriarca desfilando diariamente com Shoko a tiracolo um dia encontrou limite: o pai tirou dele o que ele mais ansiava? Então ele devolveria na mesma moeda; o pai saberia exatamente o que é esperar anos para receber um prêmio, apenas para vê-lo escorregar por entre os dedos.

Kyoko sortuda, não? Não foi por luxúria que Sho a atacou, mas por vingança. E a vingança sequer era contra ela.

Como resultado da dinâmica doentia da família Fuwa, Kyoko foi violentada. Ao procurar ajuda em Yayoi, a primeira pessoa em quem Kyoko pensou, a garota foi encaminhada ao patriarca Fuwa, que ficou furioso com o filho. Não pelo bem de Kyoko, mas, segundo as palavras dele, pelo moleque ter "danificado a mercadoria".

O olhar de pesar que ele destinou a Kyoko não era pelo crime que havia sido cometido contra ela, mas a de alguém que vê o brinquedo favorito perder a serventia.

Foi com a expressão de quem recolhe os cacos do vaso favorito que ele a dopou e carregou para os limites do próprio território. "Tsk, que desperdício!" foi a última frase que ele disse a Kyoko, antes de fincar nela o punhal.

Tudo isso aconteceu horas antes de eu nascer. Eu fui o primeiro a ser criado e de quem ela mais precisou nos últimos seis anos. Mas não sou o único: há mais quatro de nós dentro dela, e juntos daremos a cada um deles o que eles merecem.

Só precisamos usar nossas cartas corretamente. E, pelo sorriso de Natsu, é a vez dela jogar.

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"Ora, mas que Mestre de Clã dedicado!"

Correção: a voz dela transborda sarcasmo e malícia. Ela sorri de uma maneira inquietante que é quase... erótica?

"Quem... é você?"

Então Yashiro também percebeu: a mulher diante de nós não se parece em nada com a mulher de ontem, e não me refiro somente ao fato de que ela tomou banho e penteou os cabelos, mas a postura, o olhar e o tom de voz são completamente diferentes.

"Oh, não se importem comigo! Por favor, continuem a discutir como se eu não estivesse presente. Você falava sobre enviar duas ovelhinhas para o covil do Monstro, não é mesmo? E parece que tal coisa já foi feita antes?"

Yashiro olha para mim como se esperasse alguma indicação sobre como proceder.

Inferno que eu sei! Eu não sei sequer com quem estamos falando agora!

"Tsk, tsk, tsk, que danadinho você é, Ren! Como os antepassados chamavam isso, mesmo? Oh sim, mènage a trois!"

A risadinha dela é maliciosa e soa como pequenos sinos. A única pessoa impassível no aposento é Ruto, que...

"Que diabos você está fazendo, vestido de mulher?"

Alguma coisa na situação toda eu preciso compreender: se a Kyoko de agora é um mistério, eu quero ao menos desvendar como eles acabaram com as vestimentas trocadas.

"Ela não gosta de usar saias"

É isso? Só isso? Isso deveria me dizer alguma coisa? Como caralhos eles acabaram um com a roupa do outro é o que me incomoda!

Enquanto eu tento processar as informações, vejo-a caminhar até Ruto e praticamente se debruçar sobre ele. Que diabos está acontecendo? Como a situação ficou tão bizarra de um dia para o outro?

"Bem, o querido Ruto aqui foi um amorzinho em compreender que eu não gosto de saias, e como Ten não sabia se conseguiria arranjar calças para mim, ele teve o cavalheirismo de trocar de roupa comigo"

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Ela está pressionada contra ele. Ruto está imóvel, mas eles parecem olhar um para o outro com adoração, enquanto Kyoko distraidamente brinca com um cacho dos cabelos dele. É a primeira vez que eu vejo uma mulher ser tão atirada em público. O normal é elas agirem sedutoramente apenas quando querem ser desposadas, e na intimidade do quarto, nunca em público.

Espere, é isso que Kyoko pretende? Ser desposada por Ruto?

Atrevo-me a olhar de viés para Ren e, como eu esperava, ele está puto. E não digo isso apenas pelo maxilar e os punhos contraídos: quando o Monstro acorda, é pelo olhar que se percebe.

Inferno, eu sou o Conselheiro dele, e como tal minha missão número um é neutralizar ameaças ao Clã Tsuruga. E, no momento, Kyoko é uma ameaça enorme.

Especialmente se ela conseguir jogar os dois maiores assassinos do mundo um contra o outro, como parece prestes a acontecer. Mas se eu a atacar, as chances de Ruto, Ren ou os dois me atacarem é enorme, afinal, ambos são mais ágeis que eu.

Merda. Ela não está jogando apenas um contra o outro, mas me envolvendo também. Ela sabe que está caminhando para provocar um banho de sangue?

Se for proposital, a ameaça que ela representa é ainda maior: apenas flertando ela está em vias de conseguir fragilizar a aliança entre os Clãs Takarada e Tsuruga e talvez até provocar a morte de um membro importante da sociedade, da mesma forma que a mera existência dela conseguiu desestruturar a rotina dos Clãs Takarada, Tsuruga e Hizuri!

Ela é uma fraqueza para Ren e, como tal, uma ameaça ao Clã Tsuruga. Ela é uma Excepcional de habilidades desconhecidas e sua existência está focada no ódio pelos Clãs. Por mais que ela seja uma mulher e uma potencial esperança para a humanidade, minha função primordial é proteger o Clã Tsuruga.

Está decidido: Kyoko precisa ser eliminada.