7 - A tentativa triunfal

Encontramos Harry e Ron à entrada do salão comunal. Eles aparentemente estavam tendo problemas com a senha.

— Abstinência — disse Mione.

— Ei, vocês! — disse Harry animado — Faz tempo que chegaram?

— Um pouco — respondi — fomos lá embaixo visitar o Hagrid. E aí, Ron?

— Tudo bem, Mel?

— Vamos entrando? — indagou Mione.

Ao perceber que Lavender puxava Ron para matar as saudades com beijos efusivos, ela nos chamou para uma mesa adiante.

— Como foi o Natal de vocês? — perguntou Harry.

— É... — meneei a cabeça de um lado a outro.

— Ah, bom — respondeu Mione — nada de extraordinário. E como foi o seu na casa do Uon-Uon?

— Já te digo. Será que antes, você e Ron...

— Não, Harry, absolutamente, não!

Harry desistiu, ao perceber que Hermione não estava exatamente amigável quando o assunto era Ron Weasley.

— Certo, certo. Agora eu preciso falar sobre algo que Mel e eu ouvimos no dia da festinha do Slughorn.

— Essa história de novo, Harry?

— Não contei ainda à Mione.

— O que foi que vocês ouviram?

E Harry narrou toda a conversa entre Draco e Snape, enquanto Mione escutava com atenção e eu esperava impacientemente. Ela refletiu por algum tempo.

— Você acha que...

— Que Snape ofereceu ajuda ao Malfoy para que ele lhe contasse o que estava fazendo. Agora você não pode negar que Malfoy esteja fazendo algo suspeito.

— Não, não posso.

— Nem você, Mel.

— Não estou negando, Harry. Só acho que não temos nada a ver com isso.

— Como não? Se Malfoy é um Comensal da Morte...

— Você e a sua obsessão por Malfoy! Aposto que não pensou por nenhum momento no fato de Snape ter feito o Voto Perpétuo. Aliás, nem mencionou esse assunto agora.

— Sinceramente, não me importei.

— Voto Perpétuo?

— Isso é egoísmo.

— Melvina, eu nunca disse que gostava ou me importava com Snape. Muito pelo contrário. Você sabe que ele tem um quinhão de culpa na morte de Sirius.

— Espera, do que vocês estão falando? — indagou Mione exasperada.

— Culpa? Que culpa? Por acaso você acha que ele colocou uma peruca, afinou a voz até chegar ao tom da de Bellatrix e foi lá no Ministério matar o Sirius?

— Não, mas o fato de ele ter jogado na cara do Sirius que ele só ficava trancado no Largo Grimmauld esperando as coisas acontecerem, pode muito bem tê-lo levado ao Ministério naquele dia, não?

— Snape não é Trelawney, Harry, ele não poderia supor. Demais, se aquele lá colocou coisas na sua mente, a culpa não foi de Snape...

— Claro, a culpa da morte do Sirius foi minha. Obrigado por reafirmar isso.

— Não, eu só quis dizer que...

— CALEM A BOCA!

Nós dois olhamos assustados para Hermione. Aquela explosão era atípica.

— O que vocês disseram sobre o Voto Perpétuo? — indagou em um tom completamente diferente.

— Snape fez um Voto Perpétuo com a mãe do Malfoy.

— Mas o que será que ela o fez prometer?

— Não sei, não me interessa. O fato é que se a pessoa não cumpre o que prometeu, morre.

— Eu sei, Mel. E Snape com certeza sabe também. E para ele ter feito o Voto, é porque se trata de alguma coisa importante.

Harry ficou pensativo. Pareceu considerar aquela hipótese.

— Indubitavelmente — eu disse.

— O que nos leva ao meu pensamento inicial — retomou Harry — Snape está preocupado com a tarefa de Malfoy, porque prometeu à mãe dele que o protegeria. Ele está preocupado em ter de terminar o que Malfoy não conseguir.

— ...Que nos leva ao mesmo niilismo de antes. Eu vou para o dormitório.

Eu sabia que os meus amigos não eram obrigados a manter qualquer tipo de preocupação com relação a Snape — até porque não haveria sentido — mas era cruel tratar como assunto irrelevante a possível morte de alguém. E eu absolutamente não sentia vontade de ver outra vez a face obscura da morte, tampouco refletida nos olhos de Snape.

Ao cair a noite, tive certeza de que o melhor lugar para um possível refúgio era a Torre de Astronomia. Não levei o mapa da Estrela Magna, queria apenas contemplar os astros a olhos nus, como uma criança o faria. Sentei-me ao chão e fiquei a fitar o céu, sem me incomodar com o vento hibernal que soprava com força, imitando os uivos de um lobo feroz.

— Imaginei que você estivesse aqui.

— Harry?

— Eu vim... Bom, acho que fui grosseiro com você hoje. Vim me desculpar.

— Tudo bem, Harry, eu é que acabei falando o que não devia. É claro que você não foi culpado pela morte do Sirius.

Harry, em silêncio, sentou-se ao meu lado.

— Se eu não houvesse fraquejado nas aulas de Oclumência, Sirius estaria vivo. É uma culpa que eu nunca vou deixar de carregar, entende?

Óbvio que eu entendia. Se eu não houvesse deixado o meu irmão brincar na neve, talvez ele vivesse mais.

— Não tem que se culpar, Harry, ninguém pode ser bom em tudo. E, Sirius, ele apenas fez o que você faria por ele. Nós não fomos até o Ministério para salvá-lo?

— Eu sei, Mel, mas eu poderia ter evitado tudo isso.

— Se nós pudéssemos prever, Harry, poderíamos evitar tudo nessa vida. Mas todos os caminhos que trilhamos são incertos, estamos vendados a cada decisão.

— É verdade. Não adianta mais ficar me culpando, não é?

— Não vai trazê-lo de volta, só vai fazer você sofrer.

— Eu fui egoísta, Mel. Tenho todos os motivos para odiar Snape, mas você não. É natural que se preocupe com ele.

— Eu não consigo ser indiferente à morte de uma pessoa, Harry, seja ela quem for.

— Eu não esperaria outra coisa de você, Mel.

Caímos em um silencio que perdurou por alguns segundos. Foi Harry quem o quebrou.

— Você acha que o Ron e a Hermione ainda vão voltar a conversar?

— Claro que sim. É só uma fase. Eu acho que se o Ron terminasse com aquela lagartixa albina, as coisas seriam muito mais fáceis. O que é que ele viu naquela garota, Harry?

— Não me pergunte.

— Cara, ela não tem nada na cabeça.

— Nem Ron. Se tivesse, não estaria com ela.

Entreolhamo-nos e rimos.

— George perguntou de você.

— Perguntou?

— Disse que você devia ter ido passar o Natal lá n'A Toca.

— Não teria sido má ideia.

— Você devia dar uma chance a ele.

— Qual é, Harry? Quer enfiar todos nós para dentro da família Weasley?

Eu ri enquanto Harry se fazia de desentendido.

— Ora, eu com George, Mione com Ron e você com Ginny. Nossos filhos seriam todos primos, então.

Harry, corando violentamente, meneou a cabeça.

— Eu com Ginny?

Entrelacei as nossas mãos.

— Você pode se abrir comigo, Harry.

— Bom... Er... Tem o Ron.

— Um dia ele acaba por se acostumar com a ideia.

— Tem o Dean.

— Coisa passageira, Harry. Ginny sempre gostou de você.

— Você acha?

— Tenho certeza. Lembra do poeminha que ela te escreveu no nosso segundo ano?

Harry deixou escapar uma gargalhada tão alta que ecoou pela Torre de Astronomia.

— Por favor, não me lembre disso.

— Teus olhos são verdes como dois sapinhos cozidos...

— Não, Mel!

— Teus cabelos, negros como um quadro de aula...

— Ah, meu Deus!

— Queria que tu fosses meu, garoto divino. Herói que venceu o malvado Lord das Trevas.

Praticamente nos dobrávamos de rir.

— Não acredito que você se lembra de tudo!

— Como eu poderia me esquecer? Coitada da Ginny, deve morrer de vergonha ao relembrar isso.

— Ela teve boa intenção.

— A inspiração é de família, então. Certa vez, George disse alguma coisa sobre os meus olhos.

— O que ele disse?

— Eu não me lembro.

— Mentira! É claro que você se lembra, mas está com vergonha de falar.

Harry começou a me fazer cócegas, para arrancar a confissão.

— Eu juro que não lembro, Harry! — eu dizia, rindo até engasgar.

— Força a memória, então! Ou vai preferir mostrar isso ao Snape nas aulas de Oclumência?

— Tá bom, tá bom! — exclamei com a voz falhada pelas risadas — Foi algo do tipo: "Seus olhos são verdes como gafanhotos".

— Verdes como gafanhotos? VERDES COMO GAFANHOTOS? Eu não acredito que George tenha falado isso!

— Te juro!

— Sabe, acho que a Ginny não compôs aquele poeminha. Deve ter achado nas coisas do George. Ele deve ter escrito pra você, na verdade.

— Ah, e meus cabelos são negros como um quadro de aula? Eu derrotei o Lord das Trevas?

Ríamos muito, e absolutamente alto.

— Tenho uma explicação pra isso...

— Eu espero mesmo que tenha, Potter. Uma boa explicação para infringir as regras do horário e do decoro.

E só naquele momento, vendo Snape de baixo, eu me dei conta de que estava deitada sobre o chão da Torre de Astronomia, e Harry, de bruços, ainda com uma mão sobre a minha cintura, onde, há nem um minuto, ele estivera provocando cócegas. Passado o primeiro momento de choque, erguemo-nos com uma rapidez incrível.

— Nós estávamos só...

— ...Brincando — completei — contando umas piadas.

— Engraçado, Liadan, isso tinha outro nome na minha época. Então não tiveram as férias de Natal inteiras para colocarem as "brincadeiras" em dia?

— Na verdade, não passamos o Natal juntos.

Olhei muito feio para Harry, que segurou o riso.

— Foi só uma brincadeira inocente. Use Veritaserum e saberá que não estou mentindo.

— E desperdiçar uma poção tão valiosa com você, Liadan? Ah, você certamente sabe a complexidade que é produzi-la.

— Eu sei, senhor, mas...

— Volte para o salão comunal, Potter.

Harry me puxou pelo braço.

— Eu disse Potter.

Harry hesitou.

— Vai, Harry — eu disse — antes que peguemos uma detenção.

— Sábias palavras, Liadan. Sabe que estou para me arrepender... No meu tempo, uma coisa assim implicava em expulsão. Creio que as punições não tenham mudado tanto...

— Vai, Harry!

Contrariado, o meu amigo deixou a Torre de Astronomia. Eu não sabia como encarar Snape, e tinha o rosto em chamas.

— Que beleza de cena, Liadan. Achei que você viesse até aqui apenas para ver as estrelas. Eu digo, no sentido próprio.

Fiquei escarlate.

— O senhor está sendo injusto. Harry é como um irmão para mim, nós estávamos brincando como duas crianças.

Seus lábios desenharam um meio sorriso oblíquo.

— Eu sei.

— Olha, eu sei que pareceu ser outra coisa, mas não...

— Imaginei que você estivesse aqui...

— É a segunda pessoa que me diz isso hoje.

— ...Mas sem o Potter.

— Bom, ele foi a primeira. Veio se desculpar por uma discussão que tivemos, então...

— Serei franco, Liadan: Não estou interessado na sua discussão com o Potter. Se eu a procurei a essa hora, foi por um bom motivo.

— As aulas de Oclumência.

— Amanhã, às oito.

— Tudo bem.

— Boa noite.

Eu gostaria de perguntar sobre o Voto Perpétuo, ininterruptamente, noite adentro, até que ele me negasse cada uma das palavras que eu ouvi. Mas nada fiz. Quando consegui balbuciar o meu "boa noite", já estava só na Torre de Astronomia.

-x-

— O que diz o aviso? — indaguei por trás dos ombros de Harry e Ron — não consigo alcançar. Leia pra mim, Harry.

O salão comunal estava lotado por causa da novidade afixada ao mural de recados àquela manhã.

— Deve ser triste ter 1,62 de altura — caçoou Ron.

— Ei, Ronald, por que você não vai se...

— Aulas de Aparatação. Se você tem dezessete anos, ou vai completá-los até 31 de agosto, inclusive, poderá se inscrever em um curso se Aparatação de doze aulas semanais com um instrutor do Ministério da Magia. Se quiser participar, assine abaixo, por favor. Custo: 12 galeões.

— Beleza! Completo dezessete no mês que vem.

— Eu, em março — disse Ron infeliz — mas não sei se terei doze galeões...

— Ah, para com isso — falei, dando um empurrão no meu amigo para que ele assinasse de uma vez a lista — economiza no presente de dia dos namorados da lagartixa, que dá e sobra.

Ele me olhou com estranheza, ao mesmo tempo em que Mione, que acabara de assinar o seu nome, retirava-se. Foi aquele um dia de euforia geral, graças ao anúncio da aparatação. Ron deixou escapar que Harry já aparatara, e foi motivo suficiente para que ele não tivesse paz pelo resto do dia. Às quinze para as oito, ele conseguiu escapar, dizendo que ia à biblioteca. Na verdade, foi ter com Dumbledore.

— Acho que já deu a minha hora também — falei para Hermione, consultando o relógio de pulso.

— Boa sorte, então. Eu te espero aqui no salão comunal.

— Tá certo. Até já.

Mais uma vez trilhei o longo caminho até as masmorras, e mais uma vez me deparei com a porta de carvalho. Consultei o relógio antes de bater. Eram exatamente oito horas.

— Sempre pontual, Liadan.

— Não gosto que me façam esperar. Suponho que as outras pessoas também não gostem.

— Muito bem, entre.

Meio hesitante, sentei-me à cadeira já colocada para o meu uso e empunhei a varinha.

— Eu espero que você se lembre daquilo que nós conversamos antes do recesso...

— Sobre o meu irmão? Lembro, claro que lembro.

— Espero que te ajude a enfrentar essa lembrança.

— Eu estou disposta a tentar.

— Muito bem. A postos... Legilimens!

Eu deveria ter uns dez anos. Meus dedos escorregavam graciosamente pelas teclas do piano. A música era de um compositor trouxa. Era agradável rever aquela cena feliz, mas eu precisava lutar contra as lembranças, fossem boas ou ruins.

— Ótimo — disse Snape ao retornarmos — Debussy?

Percebi, com alívio, que eu continuava seguramente sentada à cadeira e não ofegava.

— Debussy — repeti — o senhor conhece?

— Apenas essa música, Clair de Lune. Mas, voltemos. Preparada? Legilimens!

Pude reconhecer naquele lugar a Casa dos Gritos. Havia uma conversa acalorada entre Sirius, Lupin e Snape. Harry estava transtornado, e eu confusa. Depois já era o Ministério da Magia, no dia da morte de Sirius. Praticamente pude sentir novamente a dor na minha perna, ao ser quebrada pelo feitiço de Lucius Malfoy. E, então, eu estava de volta.

— Não pode me deixar ir tão longe, Liadan. Vamos tentar de novo.

Eu dançava no Baile de Inverno com o George, abraçava Harry após as férias, tomava em minhas mãos um livro de capa envelhecida...

— Era o seu diário?

Foi com indizível assombro que vi Snape se levantar do chão. Em seu rosto, porém, não havia rancor.

— Ah, me desculpe! Me desculpe!

— Eu estou bem, Liadan. Você foi ótima dessa vez, mas poderia apenas ter me repelido com a sua mente. É o que quero de você. Já sei há muito tempo que você pode praticar um feitiço de desarmamento com destreza.

— É claro, eu sinto muitíssimo.

— Mas estamos indo bem. Concentre-se agora, Melvina, dispa-se de qualquer emoção.

Não pude. Como poderia, se uma descarga de impulsos elétricos me invadira, certamente contra a minha vontade, ao ouvi-lo pronunciar, pela primeira vez, o meu nome de batismo? E não eram apenas sensações corpóreas, o meu pensamento também trabalhava velozmente. Não podia deixar que ele tivesse ciência daquilo que passava pela minha mente naquele momento. Simplesmente não podia... E então o seu rosto, antes intrigado, adquiriu um quê de satisfação. Tremi.

— Você entendeu a mensagem, entendeu muito bem. Não há o que contestar, você me bloqueou absolutamente.

— Isso... É bom?

— Se é tudo quanto queremos...

Sorri, satisfeita comigo mesma. E aliviada.

— Está muito bom por hoje. Nos veremos quarta, então.

— Certamente.

Cheguei eufórica ao salão comunal, agradecendo mentalmente por haver apenas alguns grupos bem esparsos e Hermione lendo em frente à lareira.

— Cadê o Harry? — indaguei — E o Ron?

— O Harry ainda não voltou, e o Uon-Uon deve estar testando alguns cantos de Hogwarts com Lavender Brown.

— Mione, eu consegui fechar a mente.

— Conseguiu? Mas isso é muito bom! Como foi?

— Do nada. Eu quis muito esconder um pensamento de Snape, e, quando dei por mim, já o bloqueava totalmente.

— Fantástico! Eu acho que é bem por aí mesmo, Mel.

— Também acho. E acho que consegui esse resultado até rápido demais.

— Ah, sim, com certeza. E eu posso perguntar que pensamento foi esse que você tanto quis esconder de Snape?

— Ah — respondi, sentindo o rosto queimar — era sobre o livro do Príncipe Mestiço. Você pode imaginar como Snape poderia ferrar o Harry com Slughorn, caso descobrisse.

— E Harry é simplesmente louco por continuar correndo esse tipo de risco.

— E falando nele...

Harry entrou meio atordoado, ora bagunçando os cabelos, ora tocando a cicatriz. Praticamente correu ao nosso encontro ao nos localizar.

— E aí? — indagou a mim.

— Acho que eu consegui fechar a mente uma vez.

— Poxa, isso é legal! Snape deve ser mais agradável com você, então.

Hermione deu uma risadinha significativa, mas disfarçou quando a repreendi com o olhar.

— E então, Harry? Como foi com o Dumbledore?

— Ah... Cadê o Ron?

— O Uon-Uon? Adivinha...

— Mas a essa hora?

— O Uon-Uon, Harry, esqueceu que tem amigos e relógio.

— Bom, não faz mal, depois eu conto a ele.

— Então — disse Mione impaciente — se não se importar em nos contar agora...

— Eu tive novamente acesso a lembranças alheias através da penseira de Dumbledore. Hoje vi o Tom Riddle adolescente. Voldemort adolescente, dá pra acreditar?

— Como ele era? — indaguei com simplicidade.

— Bonito — respondeu Harry com um meio sorriso — muito bonito. Você iria gamar.

Hermione nos repreendeu com o olhar.

— Então, lembram do que eu contei sobre a mãe de Riddle e sua família? O irmão e o pai que a maltratavam, e tudo?

— Sim — respondeu Mione por nós duas — prossiga.

— Voldemort, aos dezesseis anos, acabou por descobrir sobre os Gaunt. Foi até a casa onde apenas o tio Morfino vivia e o estuporou, tirou a sua varinha e com ela matou o pai trouxa e os avós. Dessa forma, o Ministério investigaria a varinha de Morfino, encontrando nela a Avada Kedavra que foi usada sobre os trouxas, entende?

— Que astuto! — exclamei, sem poder me conter.

— E aí ele alterou a memória do coitado do Morfino, para que ele confessasse o crime ao Ministério. E a palavra de um réu confesso é irrevogável, não?

— Coitado uma ova! Ele não agredia Merope?

— Mel, você está apoiando uma atitude de Voldemort?

— Não, Harry, é claro que não. Mas nesse caso...

— Tá — interpôs-se Hermione — prossiga, Harry.

— Bom, essa foi a primeira lembrança que eu vi hoje. Dumbledore disse que a segunda era a mais importante. Trata-se de uma conversa entre Riddle e Slughorn.

— Slughorn? — indaguei — Poxa, esse cara é antigo, não?

— E, pelo jeito, o Clube do Slug sempre existiu. Riddle fazia parte dele. Deu-se que, em um momento oportuno, ele perguntou algo sobre Horcruxes.

— Hor... Quê?

— Também não sei o que é isso, Mel. Tinha esperança de que vocês soubessem. Mione?

— Não sei, Harry. Deve ser magia negra avançada. O que Slughorn respondeu?

— Não respondeu. A lembrança foi alterada, entende? Agora Dumbledore quer que eu consiga a lembrança original.

— E como você pretende fazer isso? — perguntei.

— Não sei, não faço ideia.

— Nós temos que pensar em algo — disse Mione — alguma estratégia.

— Não consigo pensar em mais nada por hoje — falei, espreguiçando-me — desculpa, tá, Harry?

— Imagina, Mel, já está tarde mesmo. Amanhã nós temos Poções, não é? Talvez até lá eu consiga pensar em alguma coisa.

Dei um beijo no rosto do Harry e segui com Hermione para o dormitório. É claro que eu estava preocupada com as tarefas do meu amigo, mas não conseguia deixar de me sentir triunfal por conta do sucesso na aula de Oclumência. E, foi pensando naquele progresso, que eu adormeci placidamente.