Você é Incrível. — Emily disse ofegante e de olhos fechados quando Charlotte se deitou ao seu lado, abraçando-a e entrelaçando suas pernas.

Em. — Chamou.

O que?

Eu quero fazer isso muito mais vezes. — Confessou, olhando-a nervosa ao ver Emily abrir os olhos e a fitar.

E você vai. — Sorriu e a beijou. Aquele foi um beijo de aceitação, de confirmação. Era um "sim" que dizia muito mais do que aparentava, muito mais do que simples palavras poderiam revelar. Sons diziam tão pouco que não se comparava a um leve encostar de lábios, que conseguiam decifrar tantas coisas com tantos significados diferentes. Suas vidas estavam tão repletas de diferenças e dificuldades, que qualquer coisa que se parecesse com o que elas esperavam uma da outra já estaria perfeito. E estava mesmo.

Havia passado três meses após toda aquela história e algumas coisas haviam mudado. Outras nem tanto. Emily e Charlotte continuaram se denominando "ficantes", apesar de agirem como se estivessem casadas, já que moravam juntas e davam um pé na bunda de todos que davam em cima delas, usando a desculpa de que estavam em um relacionamento "relativamente" sério.

Toby e Spencer aguentaram suas divergências, discussões e blá, blá, blás por mais algumas semanas depois daquele ocorrido. Após isso, separaram-se novamente e, mesmo com toda aquela tensão pós-término que sempre acontece, parecem estar indo bem como amigos agora.

Aria está saindo com um cara estranho chamado Jake. Ele pratica uma arte marcial coreana estranha. É um nome estranho. Não sei direito, mas acho que é Tang Soo Do. E, bem, como ela é estranha também, não fez muita diferença. Eles se dão muito bem sendo estranhos.

Encontros ocasionais entre Emily e Lea eram sempre muito tensos, já que o páreo "Ex vs Atual" sempre era muito complicado. Mas a paz nunca foi esquecida. Assim como entre Charlotte e Spencer, que, apesar de nunca terem se falado ou se conhecido diretamente, sabiam bem o que unia suas histórias e esse fato não deixava de ser uma pedra no sapato das duas.

— Então, Em. — disse antes de abocanhar uma garfada de salada. Aria era uma típica vegetariana e só Deus sabe como aquilo intrigava Emily. — O que você vai fazer hoje?

— Jantar com a Charlie. — Respondeu.

— Oh, entendo. — Entristeceu-se.

— Anda, diz logo o que você quer. — Riu da cara da amiga.

— Vou ao cinema com Jake. Mas eu queria muito que você fosse comigo. Sei que você adora filmes de ação e nós vamos assistir The Family. — Explicou animada.

— Supondo que eu vá, vou ficar segurando vela? É isso mesmo? — Arqueou uma sobrancelha.

— Não! — sentiu-se ofendida — Você pode levar a Charlie. Seria perfeito! Como um encontro de casais. — Sorriu esperançosa.

— E eu continuo me admirando com a sua capacidade de ser totalmente ridícula, Aria. — Riram.

— Você vem ou não?

— Por quê você precisa de mim pra sair com o seunamorado?

— Ah, qual é! Por favor, você é minha melhor amiga! — Implorou, fazendo aquela típica cara de filhotinho que caiu da mudança.

— Para de me olhar assim. — pediu, mas Aria manteve o olhar. — Para. — exigiu novamente e nada — Para!

— Só quando você disser que vai.

— Tsc, eu te odeio. — disse enquanto levantava da mesa para levar sua bandeja até a lixeira.

— Você vai? — seguiu-a através do refeitório, fazendo o mesmo que ela.

— A sua sorte é que eu planejava assistir esse filme.

— Eba! — abraçou a amiga — Obrigada, Em. Você é demais!

— Tá. Agora me solta, anã estranha. — riram — Às oito, né?

— Aham. — confirmou — Finalmente vou ver a Charlie vestida com roupas e não com lençóis. — Riu da cara que Emily fez ao ouvir aquele comentário desnecessário e saiu antes que alguma caixa de suco vazia voasse em sua cabeça.

— Toby, você vai querer alguma coisa pra comer? Estou indo comprar o almoço. — Spencer perguntou da portaria.

— Não! — respondeu após tirar a cabeça de dentro do motor do carro de Spencer — Mas eu aceito um copo com água.

— Ok, eu vou pegar. — Dirigiu-se até o saguão do prédio para buscar a bebida do rapaz.

O ar-condicionado do carro de Spencer estava quebrado e Toby era o único que podia consertá-lo sem cobrar uma fortuna. Estava realmente muito complicado dirigir no frio congelante ou no calor insuportável de Nova Iorque sem um mediador de temperatura. E, especificamente naquele dia, o calor reinava. Ou seja, para a melhor qualidade de vida de Toby e à população feminina da cidade, ele deveria tirar a camisa, pondo à mostra seu corpo definido e suado cheio de graxa. Ele era incrivelmente sensual.

— Aqui está a á-

Spencer parou antes de chamar a atenção do rapaz. Ficou ali, apenas observando a perfeição de seu corpo e lembrando dos momentos quentes que tiveram. Por alguns segundos ela se perguntou porque havia terminado com ele, mas voltou a si quando Toby a chamou.

— Eu consegui consertar seu ar. E eu tomei a liberdade de ver suas pastilhas de freio e marcha. Elas estão um pouco gastas. É bom você trocá-las logo. — disse enquanto pegava o copo da mão da menina. — Obrigado.

— D-de nada. E obrigada, também. — sorriu — Quanto eu te devo? — já puxava sua bolsa para pegar o talão de cheques quando ele a interrompeu.

— Ei, ei. Você não me deve nada. Somos amigos, certo? — Sorriu. Nesses momentos ele nem parecia o Toby que sempre discutia e brigava com ela.

— Não, eu insisto, To-

— Spence. — interrompeu-a novamente — Você vai mesmo querer discutir comigo sobre isso? — Riram.

— Ok. — sorriu abobada — Mas, de qualquer forma, obrigada. — Spencer havia percebido que, dali em diante, manter uma amizade com ele seria milhões de vezes mais fácil do que um relacionamento. Afinal de contas ela poderia brigar com ele quando quisesse sem ter que se preocupar se iam terminar ou não.

— Ok, pessoal! — chamou a professora — Quero que formem duplas. Procurem parceiros nos quais vocês mais se identifiquem. O exercício de hoje é de confiança. — Explicava enquanto os alunos iam formando as duplas. Ironicamente, Charlotte e Lea sobraram, então não houve escolha.

— Oi. — Lea tomou a iniciativa de um "primeiro" contato.

— Oi.

— Certo. Agora vocês precisam ter muita calma e plena confiança no seu parceiro. — chamou seu assistente para demonstrar o exercício — Um de vocês ficará de lado para seu parceiro e fará o seguinte: Deixe-se cair nos braços de seu parceiro. — disse e, logo em seguida, caiu nos braços do rapaz. — Entenderam? Confiança, queridos. Confiança!

Posicionaram-se da tal maneira e começaram os exercícios. Por um bom tempo, ninguém errou os movimentos e tudo correu muito bem.

— Então — Lea pegou Charlotte nos braços — Você ainda namora aquela menina, certo? — Levantou-a.

— Nós não somos exatamente namoradas. — agora foi a vez de Charlotte pegá-la nos braços. — Mas, sim, ainda estamos juntas. Por quê? — Ajudou-a.

— Por nada. — repetiam os movimentos várias vezes — É só que Ela tem muita sorte. — sorriu embaraçada ao levantá-la e perceber que ela a olhava com estranhamento, mas não disse nada. O silêncio reinaria entre elas pelas próximas cinco quedas até que Lea falasse novamente — Eu ainda gosto de você.

E um estrondo foi ouvido, fazendo com que todos parassem e voltassem as vistas para elas.

— Querida, você está bem?! — Srta. Joss foi em direção a elas.

—Sim, sim. Estou bem. — Lea respondeu enquanto massageava a cabeça. O choque havia sido tão grande para Charlotte que ela esqueceu de qualquer movimento natural. Inclusive o de segurar sua parceira no exercício de confiança.

— O que houve, Charlotte? — Perguntou estranhando. A ruiva era uma de suas melhores alunas.

— N-nada. Eu me desconcentrei. Perdão, Srta. Joss. — virou-se para Lea — Me desculpe, Lea. — ajudou-a a levantar-se — Vamos continuar?

— S-sim.

Todos voltaram a repetir as séries do exercício. Por um momento, Charlotte achou que Lea pudesse a deixar cair exatamente como ela fizera só por pura vingança. Mas a morena era dócil demais para tal feito.

— Como você tem coragem pra fazer isso? — perguntou ao levantar-se — Depois de tudo o que aconteceu você acha que pode voltar assim e dizer que ainda gosta de mim esperando que eu vá voltar pra você como um cachorrinho?! — Virou-se para encará-la.

— Charlie, me entende. Eu não tive escolha. — Tentou pegar a mão da ruiva, mas a mesma afastou-se.

— Não, Lea! Você teve todas as opções do mundo e escolheu a ele. Escolheu aquele bunda mole gigantão. — uma lágrima escorreu de seus olhos — E por quê? Só por causa de um maldito papel.

— Meninas, o exercício. — Joss as repreendeu por estarem conversando. Silenciaram-se novamente e repetiram as séries. Cai, levanta, cai, levanta, cai, levanta.

Era a última série e a vez era de Lea pegar. Charlotte caiu em seus braços, mas Lea não teve forças para levantá-la. Aqueles olhos dourados eram tão hipnotizantes que ela não pôde fazer outra coisa a não ser observá-los o máximo possível.

— Eu me castigo todos os dias por ter te deixado ir — seus rostos ficavam mais próximos a cada segundo e já era possível sentir suas respirações se chocando.

— Lea, para A gente é passado. — Era impossível não ceder ao jeito encantador e dominante da pequena.

— Mas eu quero que seja presente. Nosso presente. — Encostou seus lábios levemente num beijo calmo, mas, ao mesmo tempo, cheio de dúvidas e incertezas. Pouquíssimo tempo depois sua língua dançou sobre os lábios de Charlotte, pedindo passagem para aprofundar o beijo. Logo a ruiva aceitou e se deixou levar pela boca sedenta da morena. Ela não podia negar, seu beijo era maravilhoso.

Após separarem-se, apenas alguns "Aê" e palmas foram ouvidos em volta delas. E tudo o que Charlotte conseguiu fazer foi sair dali o mais rápido que pôde. Lea poderia tentar ir atrás dela, mas sabia que não daria em nada. E, afinal, ela também estava em choque. Charlie correspondeu ao beijo, ainda havia uma chance.