Chinatown. O nome soava estranhamente familiar, mas Ni não sabia por quê. Talvez Shendu ou um dos outros irmãos tenha mencionado uma vez? Bem, isso realmente não importava, o mais importante era achar o lugar.
Ele parou outro humano e perguntou a direção certa. Desta vez fora um homem de meia-idade bem sóbrio, que no início não o levara a sério. Só quando Ni lhe deu a pior ameaça possível, o homem se rendeu e lhe disse aonde ele tinha que ir se quisesse encontrar Chinatown. Depois disso, foi embora murmurando algo sobre jovens imaturos.
Ni Tang não ligou para ele, embora o homem tivesse sido desagradável. Ele só poderia agradecer à sua sorte pelas pessoas serem tão lerdas e estúpidas hoje em dia. Nos velhos tempos, já haveria pelo menos três feiticeiros do chi atrás dele. Mas agora ele não tinha esses problemas, parecia que ninguém podia sequer considerar que o homem de máscara cinzenta e olhos vermelhos fosse, na verdade, um demônio e não apenas uma pessoa com um péssimo gosto para moda.
Mas ele ainda não ia ficar aqui agradecendo pelos acontecimentos de sorte. Agora ele sabia onde ficava Chinatown e, encorajado pelo fato de que ninguém lhe prestava nenhuma atenção, decidiu que poderia caminhar pelo menos parte da viagem.
As luzes da rua iluminaram o seu caminho e ele tentou evitá-las. Ni não quis se arriscar tolamente com os humanos, nem todos eles eram necessariamente tão idiotas quanto os outros. Ficou de olho nos ambientes e desviava o olhar quando se encontrava com humanos para esconder os seus olhos vermelhos.
O homem dissera que ele não estava muito longe de seu destino. Tudo o que ele tinha que fazer era andar por um tempo na direção em que estava e não podia perder isso. O homem tinha claramente pensado que ele era louco, quem poderia não saber onde um lugar como Chinatown ficava?
Ni passou por um restaurante e pôde ouvir a conversa feliz na rua. Ele só olhou para dentro, demônios não tinham que comer ou dormir. A maioria deles fazia isso de qualquer forma para se divertirem, comer humanos era considerado uma coisa muito divertida.
Ergueu os olhos para o céu. Então, agora ele estava aqui, mas e agora? Considerando o que ele viu, Chinatown devia ser grande e cheia de pessoas. Será que ele deveria parar alguém de novo? Realmente não queria fazer isso, sentia que era ridículo que um demônio como ele não pudesse fazer isso sem a ajuda de humanos.
E então ele sentiu. Ni Tang parou na calçada quando sentiu uma força estranha dentro de si. Como se alguém tivesse prendido a sua alma com um arame e estivesse tentando tirá-la dele. O que era isso?
Apertou os olhos e se virou quando sentiu isso de novo. Do outro lado da rua, ele tinha certeza agora. No edifício oposto, alguém estava tentando cantar um feitiço-chi.
– Achados Raros do Tio – ele murmurou para si mesmo e de repente entendeu.
Era isso! Shendu tinha mencionado o tio de Chan, o feiticeiro do chi. Podia ser que a caixa Pan Ku estivesse mais perto do que ele pensara.
Depois de dar uma olhada ao redor, Ni correu pela rua e saltou para o telhado da pequena loja. Ele tinha alguma pesquisa para fazer.
Jade suprimiu um bocejo enquanto observava o Tio desistir e se sentar em sua cadeira. Haviam se passado três semanas desde que eles baniram Shendu e o velho estava em pedaços. Ele se culpava por Valmont ter ido com o demônio e não podia aceitar o fato de que nenhum dos seus feitiços traria o homem de volta.
– Você deveria ir dormir, Tio. Já está muito tarde – disse a garota enquanto servia um pouco mais de chá. O Tio balançou a cabeça e franziu as sobrancelhas.
– Ainda não, tenho certeza de que o feitiço certo logo será encontrado – ele murmurou e leu seus livros com concentração. Jade deixou sair um suspiro.
Nenhum deles dissera que era culpa do Tio, mas ainda assim ele achou que era responsável. Ele se sentia realmente culpado por ter banido Valmont e, embora nunca dissesse isso em voz alta, cada momento que se passava era uma tortura para ele. Jackie, Jade e Tohru também sentiam muito pelo que tinha acontecido, mas eles não levaram tão a sério assim.
Valmont fora um inimigo e, embora Jade não desejasse aquele destino para ninguém, ela não entendia por que o Tio estava disposto a desperdiçar a própria vida na procura de um feitiço inútil. O tempo tinha passado e era improvável que Valmont ainda estivesse vivo do outro lado do portal, mesmo que o Tio conseguisse abri-lo novamente. E sempre havia o perigo de que um demônio pudesse escapar, Valmont não valia esse risco.
A Mão Negra fora destruída com Valmont. Hak Foo dissera que estava livre da sua tarefa e voltara para a China antes que alguém conseguisse fazer alguma coisa. Os outros três, Finn, Chow e Ratso, ainda estavam em algum lugar de São Francisco, mas ninguém os vira desde o acidente com Valmont. Eles sabiam onde se esconder e não seria fácil encontrá-los.
– Bem, eu vou dormir de qualquer forma – Jade disse e deu boa noite ao Tio antes de sair da cozinha e subir para o seu quarto. A garota estava realmente preocupada com o Tio, se ele continuasse assim acabaria queimando mais cedo ou mais tarde. Ele poderia ter usado melhor o seu tempo, como fazer alguma pesquisa com a caixa Pan Ku.
Oficialmente a caixa era propriedade da Seção 13, mas o capitão Black dera ao Tio uma permissão especial para investigá-la. Infelizmente, o velho estava tão viciado com a necessidade de libertar Valmont que nem levou a caixa em conta e Black não teve coragem de levá-la de volta quando o Tio estava nesta condição.
Jade bocejou e empurrou a porta do quarto. Ela estava sozinha agora com o Tio e Tohru, Jackie fora para a América do Sul explorar um templo que alguns de seus colegas encontraram e, embora ela quisesse ter ido com ele, Jade ficou para tomar conta do Tio. Alguém tinha que se assegurar de que o velho se lembraria de comer e dormir entre a sua leitura.
A garota deu mais uma olhada para trás, preocupar-se tanto com uma coisa dessas não era típico do Tio.
Ni deslizou os dedos nos pequenos buracos da parede e se derrubou para investigar a parte de dentro. Equilibrar-se desse jeito era fácil, ele podia conseguir um bom domínio da desigualdade mais leve e sentia como se tivesse escalado por toda a sua vida. E talvez isso fosse verdade, ele só não se lembrava.
A janela levava para um pequeno quarto bagunçado onde ele pôde ver uma cama, uma mesa, um armário e todos os tipos de coisas. Havia uma coleção de roupas no chão e uma mochila escolar aberta em cima da cama. Ni franziu as sobrancelhas. Era muito improvável que a caixa Pan Ku estivesse nesse quarto. Então era melhor procurar em outro lugar. Ele subiu de novo para o telhado e considerou suas opções. Os humanos dormiam à noite, ele poderia arrombar e levar a caixa.
Claro que havia o perigo de que nem todos estivessem dormindo. Poderia ser mais seguro esperar até que ele tivesse certeza de que ninguém estava acordado, seria idiotice perder a sua cobertura tão cedo só porque ele estava sendo descuidado. A noite ainda não ia terminar, ele tinha tempo.
Como era a caixa Pan Ku? Shendu não lhe falara isso muito bem, mas Ni achava que a reconheceria se a visse. Além disso, quantas caixas este lugar provavelmente poderia estar escondendo? Mesmo que houvesse muitas, encontrar a certa não poderia ser muito difícil.
Mas se a caixa não estivesse com os Chans, isso causaria problemas. Então ele estaria de volta à estaca zero e poderia ser forçado a depender de métodos desesperados para descobrir onde ela estava. Shendu e os outros o tinham advertido sobre violência inútil, mas se o único jeito para ter sucesso fosse cortar algumas gargantas, o que mais ele poderia fazer?
Ni se ajoelhou no telhado e franziu as sobrancelhas. A luz na janela não parecia estar enfraquecendo, talvez alguém tivesse esquecido de apagar as velas. Mas a luz não flamejava nem um pouco e ele ficou querendo saber que tipo de fontes de luz o velho mago tinha. Talvez ele tivesse algum tipo de mágica para ter luz boa?
Quando se passou um pouco de tempo, Ni decidiu que era hora de ele se mexer, com alguém acordado ou não. Quando precisasse, ele escaparia antes que alguém percebesse alguma coisa e confiou nas próprias habilidades para ficar quieto. Não podia usar a porta da frente, era possível que o feiticeiro do chi tivesse colocado uma armadilha lá para proteger sua família.
Então o melhor e único jeito seria pela janela. Ni desceu novamente e deu uma nova olhada pela janela. Retraiu-se de repente quando percebeu que o quarto não estava mais vazio, uma jovem menina se sentara em uma cadeira e estava escrevendo alguma coisa em um caderno. Ni recuou rapidamente de forma que a menina não o notasse e considerou o que fazer.
A garota era da família Chan, então deveria saber onde a caixa estava. E garotinhas eram fáceis de assustar, só de aparecer na sua frente faria com que ela desse alguma informação útil. Ni saltou agilmente para o peitoril e abriu a janela.
Jade se virou quando ouviu alguém abrir a janela. Deixou sair um grito de surpresa, ela estava sendo fitada por dois olhos vermelhos brilhantes! Mais rápido do que ela pensou, alguém se moveu atrás dela e apertou a mão em sua boca.
– Mais um erro e eu vou torcer o seu pescoço – Ni disse quietamente e apertou mais a garota. Jade afirmou com a cabeça rapidamente. O que estava acontecendo? – Onde está a caixa Pan Ku? – Ni perguntou e tirou a mão com cuidado para que Jade pudesse falar. Ele ainda estava pronto para golpeá-la se a garota não tivesse entendido o que era saudável para ela.
– Que caixa? – perguntou Jade, fingindo estar confusa e esfregando o pescoço. Ni apertou os olhos.
– Isso não é uma resposta. Você não é insubstituível, menina. Eu posso cuidar de você agora e tentar a sorte com o habitante do próximo quarto – ele ameaçou suavemente e Jade franziu as sobrancelhas, começando a ficar um pouco preocupada. Quem era esse cara? A sua voz a lembrava de alguém, mas ela não sabia dizer de quem...
– Ah! Aquela caixa! Eu conheço, engraçado eu não ter lembrado agora há pouco. Está lá embaixo, mas provavelmente o Tio já está dormindo. Não precisa descer e acordá-lo – disse Jade sorrindo, e Ni a agarrou novamente.
– Eu não tenho que acordar o seu tio, e nem você.
Jade fechou os olhos acreditando que o estranho misterioso ia matá-la agora, mas ele estava contente quando pôde fechar a sua boca de novo.
– Agora me escute. Eu poderia matá-la aqui, mas eu ainda preciso de você. Quando nós descermos, você me mostra onde está a caixa. Se você der um pio ou causar algum problema, eu não vou ser tão gentil quanto agora. Entendeu? – perguntou Ni, e Jade afirmou com a cabeça. Quem quer que fosse esse cara, ele estava claramente sério e a garota não quis confiar cegamente na sorte. Talvez a Senhora Sorte também precisasse de férias...
O estranho misterioso apertou a garota contra si mesmo e eles começaram a descer os degraus. O cara não tinha sapatos e assim pôde se mover sem som e nem Jade fez barulho.
– Onde? – sussurrou Ni quase mudo e Jade apontou para a cozinha. Oh, por favor, Tio. Ainda esteja acordado!, ela pensou desesperadamente e se retraiu quando o estranho começou a se mover novamente. Embaixo estava mais claro e ela viu que a mão em sua boca era toda cinzenta. E quando ela contou isso com os olhos vermelhos, descobriu que não estava lidando com um humano.
Na cozinha, tudo o que Jade estava esperando foi esmagado, o Tio estava apoiado contra a mesa, roncando, e os seus óculos estavam quase caindo no nariz. Jade deixou sair um suspiro. O Tio estava tão perto, seria fácil acordá-lo... Deveria ela ousar se arriscar e brincar com a sua vida? Talvez o estranho não tenha dito aquilo de verdade, talvez ele só estivesse querendo assustá-la.
Apesar de todos os livros e outros artigos na mesa, Ni soube imediatamente o que estava procurando. Era azul escuro e ele podia ver oito símbolos, quatro em cada lado da caixa.
– Então essa é a caixa Pan Ku – ele murmurou para si mesmo e esticou a mão para agarrá-la...
No momento em que seus dedos longos a tocaram, uma faísca azul lampejou e Ni retirou a mão.
– Ah! – ele gritou antes que conseguisse suprimir isso e se xingou. Shendu tinha lhe falado que ele não podia tocá-la! Por que ele não se lembrou disso? – Pegue a caixa! – ele disse para Jade, que a pegou antes de pensar no que estava pensando.
– O que está acontecendo? Jade, por que você está segurando a caixa Pan K... E quem é esse? – perguntou o Tio ainda meio-dormindo quando a voz de Ni o acordara.
– Droga! – Ni disse irritado e se assegurou de que a garota ainda estava com a caixa. Antes que o Tio conseguisse fazer qualquer coisa, ele saiu correndo da cozinha e subiu de volta para o quarto de Jade.
– Você não pode escapar! Este é o seu fim! – anunciou Jade, vitoriosa, mas Ni apenas bufou.
– Cale a boca e cuide da caixa. Se você deixá-la cair, eu vou deixar você cair – ele disse e saltou agilmente para fora da janela. Eles aterrissaram na rua em frente à loja de antigüidades do Tio justo quando o Tio correu para fora da porta.
– Deixe a Jade ir agora! – o velho disse e ergueu um punhado de pó de chi para tornar a sua exigência mais ameaçadora. Ni chiou com raiva e saltou rapidamente para o telhado do edifício. Então continuou para o próximo até que eles estivessem longe da loja do Tio.
– Lembre-se do que eu falei sobre a caixa – lembrou Ni quando ele desapareceu na noite com Jade nos braços.
Apesar do medo, Jade gostou da carona que Ni lhe deu. O ar frio da noite fez o seu cabelo curto e preto fluir e a cidade noturna era bonita de se ver. Ela segurou a caixa Pan Ku nas mãos sem ousar soltá-la. Apesar da paisagem adorável, ela não queria se familiarizar muito com isso.
Com que tipo de criatura ela estava lidando? O estranho tinha um formato de humano, mas a sua pele cinzenta e os olhos vermelhos davam a certeza de que ele não era um. E Jade também tinha bastante certeza de que não muitas pessoas podiam saltar deste jeito. O único que ela conhecia era Jackie.
A outra pergunta era: para onda a criatura a estava levando? Agora que ela estava acima do choque de ser seqüestrada, não estava com tanto medo quanto no início, mas se sentiria melhor se soubesse para onde estavam indo.
– Então, pra onde você está me levando? – ela perguntou, decidindo que não tinha nada a perder. Jade não era uma pessoa que gostava de se preocupar muito com as coisas, não importava o problema que fosse.
Ni não respondeu e a garota suspirou. "timo, agora esse cara não falava nada.
Ele aterrissou suavemente no telhado de seu esconderijo e pulou para a janela certa. Ele a empurrou para abri-la e, depois de depois de dar uma olhada ao redor, fez um gesto para Jade subir.
– Agora – ele acrescentou quando pareceu que a garota não ia fazer o que ele esperava. Depois que a garota relutantemente fez o que ele disse, Ni a seguiu e fechou a janela.
Estava escuro no armazém e, com seus olhos humanos, tudo o que Jade conseguia ver eram os olhos brilhantes de Ni. Mas Ni via tudo claramente, e olhou para a garota, profundamente pensativo. Ela era jovem e não havia nada de especial nela. O demônio polar franziu as sobrancelhas. E ainda assim parecia que ela era única... Algo que ele realmente não pôde entender. Como se ele já a tivesse conhecido antes.
– Ainda vivo? – a voz clara e curiosa de Jade foi ouvida e o despertou de seus pensamentos, e Ni tentou se concentrar no que era importante. Então, agora ele tinha a caixa e alguém para carregá-la. Tudo o que ele precisava era do próximo portal do demônio, e encontrá-lo não poderia ser muito difícil. Shendu dissera que a caixa lhe mostraria um mapa, e se ele soubesse como lê-lo, acharia facilmente os portais.
Seria muito tarde para procurar pelo primeiro esta noite, mas eles teriam bastante tempo depois.
– Coloque a caixa no chão perto de você e ande alguns metros para longe dela – ele disse para Jade. Era possível que a garota pudesse tentar escapar e levar a caixa, e ele não podia se deixar perdê-la agora.
– O que você vai fazer com a caixa? – Jade perguntou curiosa e se sentou no chão depois de se assegurar de que não se sentaria em alguma coisa nojenta. Ni virou os olhos vermelhos para ela e considerou o quanto ele poderia lhe contar. A garota era uma Chan e uma inimiga, mas se ele realmente ia mantê-la por perto carregando a caixa, ela descobriria tudo mais cedo ou mais tarde.
– Eu vou libertar os meus irmãos com ela – Ni respondeu e se sentou também. Ele fez isso silenciosamente e Jade percebeu isso quando os olhos vermelhos abaixaram. Ela se retraiu, surpresa.
– Você é um demônio! – ela exclamou e entendeu alguma coisa. – Mas você também não deveria estar preso no Netherworld? – ela perguntou não acreditando nisso totalmente.
– Nós não fomos todos banidos para lá, só os oito mais velhos – Ni respondeu e Jade se viu com uma interessante informação nova.
– Então, na verdade, há nove demônios! Por que o Tio não sabia nada sobre você? E que tipo de demônio você é? – ela perguntou. Isso era interessante! Quando ela pudesse escapar, poderia dizer tudo isso ao Tio e ele ia gostar da informação.
– Eu sou Ni Tang, o demônio da noite polar – Ni respondeu e se virou para a caixa Pan Ku. – Depois que Shendu falhou, a missão dele foi dada a mim. Como você sabe, eu não posso tocar a caixa, e é por isso que você vai me ajudar. Você vai carregar a caixa para onde eu disser e fazer isso sem reclamar – ele acrescentou. Jade bufou.
– Sem ofensas, Ni, mas eu não acho que você seja melhor do que o Shendu – ela disse e inspirou fundo quando pensou em alguma coisa. – Valmont! O que vocês fizeram com ele? – a garota perguntou, agitada. Essa era a resposta para a pergunta que estava torturando todos eles, o que tinha acontecido com o senhor do crime? Ele ainda estava vivo e eles tinham uma chance de trazê-lo de volta do Netherworld?
Ni se retraiu quando Jade perguntou isso. Valmont...? O nome causou calafrios na sua espinha e, por um momento, tudo o que ele conseguiu ver foi escuridão. Parecia que ele tinha perdido a visão e despencado no mesmo nível de um humano. Um temor passou pelo seu corpo e então ele de repente pôde ver de novo. Ele se sentiu estranho, como se a sua alma tivesse sido esticada ao ponto em que se rasgaria e então tudo estava normal de novo.
Ele piscou e tentou clarear a cabeça. O que estava acontecendo?
– Quem é Valmont? – ele perguntou cuidadosamente e Jade franziu as sobrancelhas com raiva.
– Você deveria saber. O homem que Shendu possuiu – ela disse e Ni Tang entendeu.
Era sobre aquele humano patético que Tso Lan mencionou.
– Esse... Valmont... está morto – ele respondeu e a sua voz quebrou quando ele disse o nome em voz alta.
– Vocês o mataram? – Jade perguntou, chocada. Claro que ela e os outros sabiam que essa era a verdade mais provável, mas ouvir isso assim era demais.
Valmont nunca fora seu amigo e Jade não gostava dele. Mas mesmo assim, ninguém era mau o bastante para merecer uma morte nas mãos de demônios sanguinários, nem mesmo Valmont. E o pior é que o seu destino não fora sua culpa. Shendu o possuíra e foi o Tio que lançara o feitiço.
– Como vocês puderam? – ela continuou em desprezo. Ni Tang encolheu os ombros, não realmente se preocupando com isso.
– Eu nunca o vi e nem sabia o nome dele até agora. O irmão Tso o mencionou uma vez, mas e daí? Ele era tão patético e inútil quanto os outros mortais – ele disse, embora ao ter dito isso em voz alta o fez sentir que alguma coisa estava errada.
Jade franziu as sobrancelhas e não disse nada. Os demônios tinham matado Valmont! Ela sabia que eles eram maus, mas na verdade nunca tinha pensado que eles matariam alguém. Agora ela entendeu como fora ridiculamente ingênua, claro que ela deveria ter entendido como eram as coisas.
– Durma. Não é bom para os humanos ficarem acordados à noite. E você vai precisar de força amanhã – disse Ni. Jade suspirou e olhou para o demônio na escuridão. Ela já sabia que o odiava, ele era uma das criaturas mais repugnantes que ela já tinha visto. Ela tentou se deixar confortável no chão duro, mas era impossível pelo simples fato de que era um chão. E um demônio mantendo o olho nela também não era nada relaxante.
Ni Tang observou a garota se deitar e franziu as sobrancelhas. Ele tocou a máscara cinzenta com as pontas dos dedos, profundamente pensativo. Ele sentia como se alguma coisa estivesse muita errada, mas não sabia dizer o quê. Era só uma impressão. Talvez os seus irmãos soubessem o que estava acontecendo e pudessem lhe dar algum conselho.
Essa menina era diferente do que ele tinha esperado. De alguma maneira, Ni tinha achado que uma criança humana fraca choraria e reclamaria nas mãos de um demônio, mas essa menina, o feiticeiro do chi a chamou de Jade, não era nem um pouco fraca. Ela ousou desobedecer Ni e parecia ser bem mais velha do que na verdade era.
Ele tinha que ter muito cuidado, um deslize e a menina poderia escapar com a caixa Pan Ku. Ni não ousou confiar que a sua presença seria suficiente para manter essa menina na linha e agora que ele ainda não tinha controle de seus poderes, não era algo que a menina temeria.
A menina precisava de comida. Ni realmente não sabia o que faria com esse tipo de coisa. Ele não podia aparecer na rua, pelo menos não antes que soubesse como se transformar em um humano, e ele não podia deixar a garota sair sozinha. Eles tinham que ficar juntos, ele não podia perder a garota de vista nem sequer por um momento.
E havia outros problemas também, mas ele ainda não tinha que cuidar deles. E logo alguns dos seus irmãos estariam livres, eles saberiam o que fazer.
Mas ele realmente queria a família aqui? Agora que ele saíra do Netherworld e não tinha que tomar cuidado com a conduta e com o que dizia, ele se sentia muito mais autoconfiante. Talvez fosse por causa desta cidade, ele se sentia como se ela fosse muito mais familiar do que o Netherworld.
Ni balançou a cabeça com raiva. Ele não podia pensar assim, era quase uma traição aos irmãos mais velhos. Ele foi libertado só para ajudá-los e seria um comportamento baixo traí-los.
Além disso, a sua única razão de viver era servir às irmãs e aos irmãos mais velhos.
Continua...
