Nota da autora: Eu sei que, no original, ao contar para Mogli que ele tem que partir, o moleque foge de novo. Mas eu cortei essa parte e modifiquei um pouco. Me perdoem por essa fuga, mas eu realmente prefiro o Shaka e o Mu a um bando de malucos que se acham o exército (elefantes). Na verdade, eu vou parar de ver o resto de Mogli no youtube para deixar a história mais fidedigna. Considerem a história, do capítulo 6 em diante, como retratos das memórias infantis do que eu assisti há anos e algumas coisas criadas por mim. Como o Mu e o Shaka, por exemplo.
Tocaram a campainha, já que Afrodite não estava mais no jardim. Ela atendeu à porta com um sorriso doce no rosto.
"Eu vi que eram vocês pela janela. Posso ajudar de alguma forma?" Camus pigarreou, estava profundamente constrangido com a cena toda de mais cedo. Belíssima encarnação de Buda, essa.
"Eu sou Albert Camus e esse é Hyoga Vardalos, nós precisamos do carro do Ed... Shaka. Ele e o... Mu me disseram que está com você. Já terminou de consertá-lo?"
"Você tem comida, moça? Eu tô com uma fome de titã." Hyoga massageou a própria barriga, que grunhia. Camus se esquecera de alimentá-lo e não tinha comida – comida de verdade, não semente de girassol e chá – nenhuma na casa bizarra que acabaram de visitar.
Porém, isso não o impediu de sentir vergonha daquele moleque mal-acostumado. Ele também não comera nada desde a tarde anterior e não estava reclamando, estava?
A moça loira riu, colocando seus cachos azulados atrás de uma das orelhas.
"Claro, querido. Mas pode me chamar de 'Dite'. Um jovem rapazinho grego precisa se alimentar, não é mesmo?" Abriu mais a porta, deixando os dois entrarem. Abaixou-se para falar com Hyoga, penteando seus cabelos com as mãos. "A cozinha é logo em frente, em cima da mesa tem um pote de biscoitos. Vá lá e coma os que você quiser enquanto eu mostro ao monsieur Camus onde está o carro, sim?"
Hyoga sorriu, agradecido, e saiu correndo na direção apontada. Afrodite levantou-se e sorriu para Camus. Só então o homem reparou que ela usava um vestido azul-claro e um avental branco bordado.
Sem dizer nada, foi andando pelo quintal. Camus seguiu-o.
"Você não teria outro nome para eu te chamar? Afrodite é tão..." Afrodite riu.
"Logo alguém como você dando uma de pudico? Por favor, monsieur Camus, está estampado na sua cara que é gay. Aliás, mais gay do que eu, que sou uma mulher que deu o azar de nascer no corpo errado." Ela riu alto, diante de um Camus completamente vermelho. "Sinto muito, se você sente-se tão constrangido com a minha... condição. Mas, creia quando digo que não quer saber meu verdadeiro nome." Sorriu de novo e Camus achava cada vez mais que ela era infeliz.
"Talvez eu queira." Retrucou, parando em sua frente e encarando-a. Afrodite deu uma risada baixinha, quase cruel.
"Está bem, francesinho. O sieur que pediu." Apertou a bochecha dele como faria com uma criancinha, embora não parecesse mais velha do que ele. "Meu nome de batismo, por acaso, é Albert também. Prefere me chamar assim ou de Dite?"
Camus quase engasgou ao ouvir que tinham o mesmo nome. E Afrodite riu de novo. Aquela criatura parecia viver em outro mundo.
"Então, o menino é um Vardalos." Entraram na garagem naquele momento. Camus reparou que Afrodite usava meias-calças e sapatos de salto, além do vestido.
"Conhece algum Vardalos?" No mesmo instante, desejou não ter feito a pergunta. Não era prudente ficar dando informações deles por aí.
A loira olhou por cima de seu ombro fino enquanto remexia em uma caixa de ferramentas. Ainda sorrindo. Afrodite não sabia parar de sorrir?
"Digamos que eu e Olos nos... conhecemos por um período das nossas vidas... Aí ele conheceu o padre espanhol, que largou o celibato e foram construir o orfanato na Califórnia e eu conheci... Aliás, Hyoga só pode ser filho do Ólia, porque do Olos não seria de jeito nenhum, nem em outra encarnação, aquele ali não gostava nem de ver mulher." Ele parou e, por um instante, deixou de sorrir. Encostou a chave de fenda – com a qual estava gesticulando enquanto falava – no queixo fino e ficou uns segundos pensativos. "Camus, o que Hyoga está fazendo fora de Nova Iorque? O que ele está fazendo longe dos pais? O que você, que nem grego é, está fazendo com ele? Por que quer o carro do Shaka? Você não está raptando ele, está? Porque, euzinha aqui posso não gostar da polícia, mas vou chamá-la se você estiver molestando aquele menininho tão fofo. Posso ser uma bicha travestida louca, mas não apoio pederastia, ouviu? E..."
"Afrodite, cala a boca um segundo, por Jesus, Maria, José e todos os animaizinhos do presépio! Ele está fugindo, Dite. Todos nós estamos. Eu sou... amigo do padrinho dele, que ficou encarregado de protegê-lo. Tem um homem, Gianni Malacicci, mais conhecido como Máscara da Morte, que foi posto na cadeia pelo pai dele, Aiolia, e esse assassino saiu sob condicional há pouco tempo e jurou se vingar. Achamos que ele vai tentar descontar tudo no pobre Hyoga, que foi adotado e não é segredo para alguém como ele. Por isso, ele está indo em segredo e segurança para o orfanato do Aiolos e do Shura na Califórnia. Além do mais, não sou pederasta, nunca machucaria Hyoga." Ótimo plano esse de não dar informações. Pena que a sua boca costumava ser maior do que o cérebro quando se tratava de pessoas bonitas, gentis e sorridentes.
Os olhos azuis de Afrodite se arregalaram por um minuto e ela parou de olhar para Camus, voltando a se concentrar na caixa de ferramentas.
"Achei!" Exclamou, puxando de lá uma chave brilhante e pequena. Jogou-a para Camus. "Vocês podem jantar por aqui e, amanhã, partem para a Califórnia ou onde quer que seja que estejam indo."
O ruivo a encarou por um instante.
"Eu gostaria de poder pernoitar, Afrodite. Mesmo. Você parece ser uma pessoa ótima, mas o Milo não sabe onde estamos e eu preciso voltar para o hotel com o carro para irmos embora. Ele está nos esperando."
A loira se aproximou, com um ar doce e angelical.
"Faça o seguinte, Camus. Deixe Hyoga comigo aqui, enquanto você vai buscar o seu Milo. Eu vou preparando o jantar, pego umas roupas limpas para vocês, tem giletes e água quente no banheiro... Podem passar a noite aqui, sério, não tem problema." Sorriu, dessa vez, quase irresistível. "Eu adoro crianças, mas, em geral, os pais delas tem medo que elas se aproximem de mim. Me deixa ficar um pouquinho curtindo esse jeitinho puro que o Hyoga ainda tem. Eu ainda tenho uns jogos de tabuleiro aqui... E tenho um vinho para você e o Milo... Tem mais dois quartos nessa casa, dá para você e o Milo dividirem um e o Hyoga outro..." Pegou uma mecha lisa do cabelo do outro e brincou com ela entre seus dedos. "Por favor... Eu sou tão solitária... Não tenho amigo nenhum, praticamente. Os únicos que gostam de mim por aqui são Mu e Shaka, mas eles não são muito de sentar com amigos e conversar... São muito... na deles..."
Camus suspirou e baixou os ombros, sentindo-se derrotado. Era impossível dizer-lhe não ou desconfiar dela.
"Está bem, Afrodite. Só vou até o hotel buscar o Milo e já voltamos." Ele sorriu sinceramente pela primeira vez naquele dia, e deu um beijo na testa da moça mais baixa e esguia. "Obrigado. Você foi a primeira pessoa a ser gentil conosco desde... sempre."
Como se virou para puxar o pano que cobria o carro, não viu que Afrodite limpava com suas mãos macias de unhas bem-cuidadas algumas lágrimas que tentavam escapulir.
"Então, você jura que esse troço está consertado?" Olhou finalmente para ela, observando o belo Mustang à sua frente. Afrodite riu e concordou com a cabeça. "E tem gasolina aqui?"
"Claro. Deixa só eu abrir a porteira para você sair sem destruir meu lindo jardim."
"É lindo mesmo." Respondeu, fechando a porta do carro. Depois de toda aquela demonstração de sinceridade e preocupação genuína da parte da outra, Camus finalmente se permitia sair de sua carapaça de mau-humor e sarcasmo.
Enquanto manobrava, Afrodite ainda acenava do jardim com um sorriso gentil nos lábios. Camus pensava que realmente queria que ela encontrasse alguém que lhe fizesse feliz, era uma boa pessoa.
/
"Alô? Como 'quem é'? Lógico que sou eu. Quem mais seria? Estava esperando a ligação de alguma vagabunda? Seu...! Ok, se você não quer saber que eu encontrei o que estava procurando, o problema é todo seu. Ah, agora eu sou o 'amore mio'? Vai se... Desculpe. Não, sinto muito. Não queria falar assim com você. Claro que te amo. Sempre. Só estou triste porque não me avisou que já tinha... Sim, desculpe, eu sei que estava ocupado. Como eu sei? Não importa, não é, amore? É, eu estou com o menino. Estou te esperando."
