CAPÍTULO VI
Sábado era um dos dias mais movimentados da se mana e hoje as clientes visitavam a butique para ver a coleção da nova estação.
A primavera era evidente: as árvores que se desfo lharam durante o inverno estavam brotando nova mente e o calor do sol tocava a terra, trazendo a pro messa de um verão ameno.
Não havia sinal de Kagura. Embora achasse impro vável que a mulher aparecesse tão rapidamente.
Dois convidados que estavam no jantar de Eleni e Dimitri passaram pela butique. Toula, Kagome lembrou-se, que, depois de muito discutir e consultar sua ami ga, finalmente decidiu comprar um conjunto muito caro.
— Você me dá um desconto?
A pechincha estava para começar. Kagome ofereceu a porcentagem de costume e viu as sobrancelhas de Toula se erguerem.
— Mas nós somos amigas.
Trinta por cento. Amigas? Encontrei você apenas uma vez... Ela pensou.
— Essa peça é da nova estação — explicou ela. — Não uma peça em liquidação.
— Mas daria um desconto de pelo menos vinte por cento.
— Se a peça ainda estiver no estoque em janeiro, eu lhe darei os vinte por cento.
— Então vamos considerar que estamos em janei ro e você me dá o desconto de trinta por cento. Vinte por cento da liquidação e dez pela amizade.
Com um leve sorriso e um balançar de cabeça pro vocador, Kagome recolheu a roupa do balcão e colocou-a de volta no cabideiro.
— Você é boa nisso, Toula — mas não o suficien te. — Meu desconto original permanece o mesmo.
— Mas isso é ridículo! — Toula se aproximou. — Posso lhe trazer muitos negócios.
Hora das duras palavras.
— Eu gerencio essa butique para sua dona — disse ela. — É ela quem determina a tabela de porcentagem.
— Vou a outro lugar.
— Como quiser. Mas a peça que você escolheu é original e exclusiva dessa butique.
Toula apertou os lábios.
— Vou pensar sobre isso.
— Gostaria que a reservasse por uma hora? — Kagome checou a hora e sorriu. — Se não retornar até as três, coloco de volta na prateleira.
— Muito bem.
— Ela voltará — afirmou Sango quando as duas mu lheres saíram da loja.
— Talvez.
— Ela adorou a roupa, ficou bem nela, tem dinhei ro... Por isso vai comprá-la — Kagome deu um sorriso malicioso.
— Café por minha conta depois do trabalho se eu estiver errada.
— Feito.
Toula entrou na butique precisamente um minuto para as três com o cartão de crédito em mãos.
— Você negocia duro.
Isso era imaginação de Kagome ou ela detectou um tom de respeito?
— Eu dirijo um negócio de sucesso — corrigiu ela com gentileza. — Estou certa de que terá os sapatos e a bolsa certa — chamou a atenção de Toula para os itens expostos na vitrine. — Mas esses são esplêndi dos, não acha?
Toula examinou-os e decidiu.
— Se você os tiver no meu número, levarei.
— Deixe-me ligar e checar.
Cinco minutos depois, ela conseguiu uma comis são com a venda, Toula ficou satisfeita e Kagome devia um café a Sango.
Eram quase cinco horas quando elas fecharam a butique e em poucos minutos estavam em um café es perando dois descafeinados.
— Nada planejado para a noite?
Como ela podia admitir que não tivesse a mínima idéia?
— Jantar em casa — isso deveria disfarçar. Sango franziu a sobrancelha e seus olhos assumiram um ar de provocação.
— Um pouco de vinho, uma comida requintada... E deitar cedo?
— Hu-hum... — foi uma resposta não comprome tedora.
— Amanhã é domingo. Vocês podem ficar na cama e curtir um ao outro — disse Sango em tom de brincadeira. — Aposto que ele é fabuloso.
— Provavelmente.
E se confidenciasse que o casamento não envolve sexo? Pior, que estava grávida do irmão de Sesshomaru?
Kagome Higurashi, educada com valores morais rigo rosos, amiga... Estava pagando um preço alto por uma insensatez.
Ainda havia aqueles que discutiriam, dada a gran de atratividade, dinheiro e status social de Sesshomaru...
— Qual é o seu problema?
— Porque não é o que sou nem o que quero ser.
Uma resposta complexa que nem chega a ser uma resposta.
— Nada a dizer? — Sango questionou e Kagome deu um sorriso frouxo.
— Tem algumas coisas que devem permanecer privadas.
— Ah, droga. Justo agora que achei que a conversa ia ficar interessante.
— Vamos falar de você para variar um pouco, ta?
— Uma palavra engloba tudo. Esperando. Pelo ho mem certo, pela vida certa, todos os meus sonhos rea lizados. Continuo procurando e não acho ninguém. Pelo menos, ninguém que queira compromisso.
— Talvez você esteja procurando nos lugares erra dos.
— Eu quero estrelas cadentes, pompa e circuns tâncias... Todas essas coisas de deixar a boca aberta. Mas talvez eu tenha de me conformar com o confor tável.
— E isso seria tão ruim? — Sango brincou.
— Fácil para você falar isso quando se tem o Sr. Magnífico.
Um celular tocou. Kagome checou o seu e viu que era Sesshomaru na linha.
— Terminando o dia?
Ela moveu o celular em direção a Sango.
—Tomando um café.
— Mande-me uma mensagem quando for embora. Até mais — e terminou a conversa.
— O homem?
— Como adivinhou?
— Chamando você para casa, né?
— Me lembrando de que não sou mais uma mulher solteira.
Sango revirou os olhos.
— Como se você fosse esquecer.
Já era o bastante. Kagome pagou a conta e pôs-se de a pé.
— Vamos?
A noite estava caindo. Elas andaram até o estacio namento para pegarem seus carros.
— Tenha um ótimo fim de semana. Vejo você na segunda.
Kagome entrou em seu Volkswagen e partiu para Rose Bay.
O sinal de trânsito estava contra ela quando parou em um cruzamento e sentiu um inexplicável formiga mento nos ombros e no pescoço.
Esquisito, muito esquisito. Era sábado a noite, pelo amor de Deus, havia carros em todas as direções.
A sensação permanecia apesar do esforço que fa zia para esquecer.
Auto-sugestão, ela racionalizou, enquanto acionava o controle para abrir os portões. Não havia nin guém a seguindo... Não checara o retrovisor várias vezes?
Kagome guardou o carro na garagem e entrou na casa. Um banho, trocar de roupa e alguma coisa para co mer seria bom.
Ela moveu-se em direção às escadas e parou abruptamente quando encontrou com Sesshomaru descendo a escada.
Jeans e uma camisa pólo preta deram a ele um vi sual diferente
— Oi — o cumprimento pareceu sem emoção. — Dia difícil?
— Apenas agitado.
— Steve preparou o jantar.
— O guarda-costas cozinha?
— Nos fins de semana, se a gente quiser comer em casa.
— Apenas um dos talentos dele?
— Por que não pergunta para ele?
— Ele não está na cozinha, está?
— Bem atrás de você, senhora.
Senhora foi demais. Alto, musculoso, jovem... E texano.
O homem que estava de pé olhando para ela tinha em torno de quarenta anos, altura mediana e corpo magro.
— Não era o que você esperava?
— Por favor, me diga que acertei sobre o jeito te xano?
— Nascido e criado em Dallas
— Graças a Deus.
Steve olhou para Sesshomaru.
— Acho que nos daremos muito bem.
— Daqui a pouco vocês vão dizer que são grandes amigos.
— Nós nos conhecemos há algum tempo — reve lou Sesshomaru.
— Mais mulheres obsessivas entre os esqueletos no seu armário, querido?
Ele pegou a mão dela, beijou-a no meio da palma... E observou seus olhos cintilarem.
Uma emoção que ela rapidamente disfarçou.
— Por que não vai se trocar? — perguntou ele com tranqüilidade. — O jantar vai sair em meia hora. De pois Steve vai dar algumas instruções a você.
Kagome olhou bem para os dois.
— Luto kick-box e sou faixa preta em karatê.
— Uma vantagem — Steve reconheceu dando um sorriso.
Quando ela chegou no andar de cima, ouviu a voz de Sesshomaru.
— Estarei aí em alguns minutos.
— Para esfregar as minhas costas? — as palavras saíram antes de ela pensar.
— É só pedir — como se fosse.
O rosto de Kagome ficou ruborizado com a resposta dele e ela praguejou contra sua língua afiada.
Vinte minutos depois, ela havia tomado banho e trocado de roupa os cabelos cacheados presos em um coque.
Quando Kagome se aproximou da cozinha, um aroma inebriante tomava conta do ar. Ela entrou e viu Sesshomaru inclinado sobre a bancada, segurando uma taça de vi nho enquanto Steve passava para uma baixela o que parecia ser um suculento cozido de carne.
— Que cheiro ótimo! Precisa de ajuda?
Steve apontou para um prato com diversos tipos de legumes e hortaliças.
— Você pode levar isso para a mesa que eu e Sesshomaru levamos o resto.
Ficou claro que os dois homens, além de patrão e empregado, eram amigos, e a troca de piadas durante a refeição tornou o clima tranqüilo e alegre.
Se o objetivo de Steve era deixá-la confortável, ele conseguiu, admitiu Kagome para si mesma. Embora o mesmo não pudesse ser dito sobre Sesshomaru, cuja simples presença era suficiente para deixar os nervos dela no modo autoproteção.
Por que era assim? Ela não podia estar atraída por ele, certamente? Pelo menos, não em nenhum sentido sexual. No entanto, os feromônios estavam traba lhando de modo sutil, provocando sua sensualidade de tal forma que poderia muito bem viver sem.
Só de olhar para ele causava-lhe isso. O jeito como ele se movia, seu perfil forte, as marcas de expressão em seus olhos e o contorno sensual de sua boca.
Ela teve uma rápida lembrança de como era seu to que, o breve deslizar da língua dele na dela.
Havia uma parte dela, escondida bem no fundo, que queria mais, muito mais. O toque das mãos dele em seu corpo, apalpando cada curva, explorando-a... Fazendo-a se sentir viva.
O cozido estava delicioso e a sobremesa de maçã também. Ela deu a Steve os cumprimentos que ele merecia.
Kagome recusou o café e tomou chá, depois insistiu em arrumar tudo, apesar dos protestos de Steve.
Os três arrumaram um pouco a cozinha antes de subirem para o escritório de Sesshomaru, onde a cena tornou-se estritamente de negócios.
— Nós precisamos tomar nota de algumas falhas possíveis na segurança. Sem exceções.
— Não acha que isso é um pouco exagerado?
— Não estamos lidando com uma pessoa racional. Kagura fará qualquer coisa para atingir seu objetivo. Até agora, ela já violou um mandado de restrição ju dicial em Melbourne. A recém-mudança de Sesshomaru para Sydney e o casamento agravaram a situação. Ela já voltou a morar aqui.
— Então, o que você propõe?
— Eu quero que você carregue um dispositivo de rastreamento. Um no seu carro e um com você.
— Você deve estar brincando!
Steve não respondeu.
— Você confere quando chegar na butique de ma nhã e quando for embora no fim do dia.
— Depois você vai me dizer que vamos ter um có digo secreto.
— Isso também. Ligado a mim, a Sesshomaru e a alguém da empresa de segurança.
Kagome olhou para um e para o outro.
— Não vou entrar nessa.
— Isso não é negociável — declarou Sesshomaru.
— A criança que eu carrego é tão importante?
— Mãe e filho.
Claro, porque sem a mãe não há criança.
Se ela não saísse de lá, diria algo repreensível. Além disso, havia dignidade no silêncio. Mas não acabava com o ressentimento... Raiva a retificou, pondo-se de pé e saindo. Parou, virou para Sesshomaru e o olhou com severidade.
Dane-se a dignidade.
— Eu odeio você.
A tentação de bater a porta foi quase irresistível, mas ela mostrou controle e fechou-a com um quase silencioso clique.
Deus do céu. Ela precisava de ar fresco no rosto e colocar para fora um pouco da raiva.
Droga tinha raiva dela mesma, de Inuyasha, de Sesshomaru. Para não mencionar o invasor cujas atitudes causa ram tal dano emocional.
Dano que achara que tinha resolvido. E tinha, ga rantiu a si mesma enquanto abria a porta da frente e saía para a noite.
Ela não precisava de um terapeuta para dizer que estava lutando uma batalha mental contra seu cora ção. Um coração que enterrara sob tantas camadas de proteção; dispensá-las estava fazendo-a sentir angús tia e dor.
Chegará o dia em que você vai descobrir o amor e precisará ultrapassar a última barreira.
A qual ela respondeu: sentir medo e mesmo assim continuar?
Você vai ter de se deixar levar. Desde então, e nos anos seguintes, ela se conven ceu de que nunca mais se permitiria ficar emocionalmente envolvida.
Agora ela estava metida em uma situação que não queria e um diabinho caprichoso tinha a intenção de virar sua vida de cabeça para baixo.
A lua estava alta e o céu escuro, com luz suficiente para que ela pudesse ver onde pisava. Os grandes portões de ferro que guardavam a propriedade esta vam fechados e eletronicamente trancados, mas ela não tinha a intenção de se aventurar na rua.
Atração física não era amor, nem de perto, racio nalizou caminhando pela grama.
Ele era tudo o que ela não gostava em um homem. Cruel, poderoso, inflexível. Sensível? Duvidava que ele tivesse alguma sensibilidade naquele corpo.
Ela andou mais um pouco e decidiu entrar.
Sesshomaru estava inclinado sobre o balaústre na base da escada. Sua expressão era indecifrável quando ela se aproximou.
— Já terminou?
Kagome levantou o queixo e lançou-lhe um olhar que teria abatido qualquer outro homem.
— Foi apenas uma volta para tomar ar fresco ou isso lhe causa algum problema? — ela levantou os ombros. — E se você sugerir que eu vá para a cama; agora, bato em você.
— Ia recomendar uma bebida quente.
Ela teve enorme satisfação em dizer a ele exatamente o que ele devia fazer com aquela recomenda ção, depois passou por ele e subiu as escadas.
O fato de ela ter ido para sua suíte, tirado a roupa e ido para a cama não tinha nada a ver com isso, porque ela tomou a decisão.
