Capítulo Sete

Na sexta-feira à noite o time da grifinória estava repassando as últimas táticas para o jogo com a sonserina no dia seguinte. O jogo final do campeonato de quadribol. Todos queriam muito a Taça, especialmente James. As chances do técnico do Tornados de Tutshill aparecer eram pequenas, mas mesmo assim ele deveria ganhar a Taça, certamente Slughorn se encarregaria de fazer a propaganda.

O treino não poderia ser muito demorado para que os jogadores não se cansassem, pois eles precisariam de toda a sua energia no dia seguinte.

James e Sirius conversavam animados enquanto deixavam o campo, as vassouras nos ombros. Os risos cessaram quando viram Evans parada no final do campo.

- Posso conversar com você, James. – pediu ela, quando os dois ficaram próximos o suficiente dela.

Os dois pararam, surpresos. Sirius levantou as sobrancelhas para o amigo, deu um sorriso malicioso e foi embora. James se aproximou da garota, mas não disse nada.

- Eu estive pensando – começou ela, tão sem graça que suas bochechas estavam levemente coradas – e percebi que você tem razão. Eu tenho sido injusta contigo. Você me ajudou muito naquelas três semanas e o mínimo que eu podia fazer era não te colocar em uma situação ruim publicamente.

James tentava controlar o impulso de sorrir. Como adorava vê-la envergonhada. Certamente isso se devia ao fato dela ter aceitado que ele realmente gostava dela. Notou que ela corara ainda mais, talvez tivesse percebido que ele a admirava.

- Está tudo bem. – foi tudo o que ele respondeu, o semblante sério.

Aparentemente ela esperava uma resposta melhor e, como ele não tinha facilitado, ela parecia lutar para dizer o resto do que se propusera a dizer ao ir até lá. James notou que ela mexia nervosamente as mãos e olhava para o chão, não conseguindo encará-lo.

- Então eu achei que, mais uma vez, seria bom pra nossa imagem se a gente voltasse, você sabe, a namorar.

Sim, James estava sendo mau. Ele sabia que ela chegaria a esse ponto, mas quis que ela mesma propusesse isso.

- Por mim tudo bem. – respondeu sério, embora sua vontade fosse de sorrir abertamente.

- Certo. – disse ela, as bochechas ainda vermelhas – Te vejo amanhã.

Ele a observou ir embora, tentando não demonstrar sua vontade de sair pulando de felicidade. Ela o havia chamado de James! Assim que viu a garota entrar no castelo, montou novamente sua vassoura e começou a dar loopings pelo campo vazio.

- Cara, tem noção?! – perguntava James já no quarto – Ela me chamou de JAMES!

- Errr, porque esse é o seu nome? – debochou Sirius.

- Cara! Esse é o maior avanço da história! – insistia James.

- Nossa! Mais importante do que a descoberta da Varinha! – Sirius continuava debochando.

- Seu cachorro idiota! – revoltou-se James – Isso quer dizer ela mudou o conceito dela sobre mim, porque foi isso que eu disse pra ela! E ela fez de propósito, porque sabia que eu entenderia!

- Cara, sem querer acabar com a sua alegria, mas acho que você viajou. – disse Sirius sério.

- Não! Ela só me chamaria pelo primeiro nome quando parasse de me achar um garoto mimado e prepotente. E como isso foi isso que eu falei na briga depois da festa, ela sabia que eu entenderia.

Sirius continuava com a sua expressão de deboche.

- Aposto que o Remus concordaria comigo! Maldita lua cheia!

Os últimos dias haviam sido de lua cheia e, apesar de continuar assim por mais duas noites, James e Sirius não poderiam ir ficar com Remus e Peter na Casa dos Gritos por causa do jogo. Eles sempre ficavam irritados de perder a diversão. Dessa vez, pensava James, pelo menos tinha valido a pena.


Lily fora acordada por uma animada Anne na manhã de sábado.

- Ei, porque toda essa agitação? – perguntou a sonolenta ruiva.

- Porque eu amo quadribol, porque os jogadores são gostosos, porque é a final contra os sonserinos, porque vocês voltaram e você deveria estar pulando de animação também!

- Você está me fazendo me arrepender de ter te contado. – disse Lily, virando-se para o outro lado na cama.

- Não! Levanta!

Anne pegou o travesseiro de Lily, que resmungou e xingou todas as gerações da amiga, e começou a bater nela.

- Tá bom, eu desisto! – disse uma descabelada Lily.

- Quero ser uma das primeiras a chegar pra ficarmos na primeira fileira!

- O que você quer é descer cedo porque sabe que os jogadores tomam café mais cedo nos dias de jogos...

Anne apenas sorriu. Lily se arrumou rápido e em instantes elas estavam no salão principal. James já estava saindo, mas, ao ver a ruiva, ele parou e sorriu. Lily pôde perceber que não gostaria do que ele iria lhe falar. Anne continuou em direção às mesas.

- Bom dia, meu amor. – ele disse, quando ela parou em frente a ele.

- Bom dia, James. – ela não sorriu.

- Sabe querida, eu estive pensando e cheguei à conclusão de que precisamos subir um nível no nosso namoro.

- O que você está armando dessa vez? – perguntou, uma sobrancelha levantada em desconfiança.

Ele se aproximou para falar ao ouvido dela.

- Depois de um mês de namoro você não acha que as pessoas vão estranhar que nunca viram a gente se beijando?

Lily sentiu seu rosto ferver. Os olhos se arregalaram involuntariamente. E o sorriso satisfeito dele demonstrava que ele estava adorando vê-la envergonhada.

- Até porque, depois de uma semana brigados, vai ficar mais difícil convencê-los sobre o namoro, não é mesmo? – argumentou ele – Então pense nisso. E se sente na primeira fileira pra ver o jogo.

A garota simplesmente não conseguiu responder. O viu dar um último sorriso satisfeito e sair, enquanto ela permaneceu parada por mais alguns segundos, até recuperar-se e ir sentar ao lado de Anne.

- O que houve? – perguntou a amiga, achando a expressão da outra engraçada – Porque você está da cor dos seus cabelos?

- Nada. – respondeu Lily, enfiando uma torrada na boca para não falar.

Mas a tática de comer para manter a boca ocupada só funcionou nos primeiros dez minutos, depois Lily não agüentava mais. Precisava contar pra alguém. Não agüentava mais mentir para Anne. E, mais do que nunca, precisava desabafar. Mas não ali.

Levantou-se e puxou a amiga pelo braço.

- Ei, eu ainda não acabei! – protestou Anne.

- Não importa, você vai querer ouvir isso.

Anne parou de resistir na mesma hora e seguiu a amiga para um local mais afastado e isolado.

- Eu preciso te contar a verdade – começou Lily – Sobre mim e o James.

- Como assim?

- Nós não namoramos, não de verdade.

Então rapidamente Lily contou sobre o diretor, sobre sua idéia maluca, sobre o Remus ter recusado, sobre a sugestão de Sirius, sobre o falso namoro, sobre a briga. Anne estava boquiaberta.

- E agora ele acha que precisamos nos beijar em público!

- Eu concordo. – disse a amiga, pensativa.

- Anne! É pra me ajudar, não a ele!

- Não, é sério! Porque realmente nós já estávamos começando a estranhar o fato de que ninguém nunca tinha visto vocês dois se beijando.

- E nem vai ver, porque o namoro não é de verdade! – disse Lily, no tom de voz mais baixo que conseguiu.

- Como assim não é de verdade? – ouviu uma voz masculina perguntar atrás dela.

Lily se virou para ver Jake atrás de si, com uma expressão de choque no rosto.

- Ele está te obrigando a namorar ele? – perguntou Jake, o choque se transformando em raiva.

- Não é nada disso! – se apressou em explicar Lily – Foi um acordo!

A ruiva levou a mão à boca como que para lhe impedir de falar mais. Não deveria ter contado a verdade, mas as palavras foram saindo contra a sua vontade. Vendo que era tarde demais, resolveu explicar melhor.

- Eu precisava de um namorado, ele concordou em me ajudar. Ele nunca me obrigou a nada.

- Até agora. – disse Anne entre risos.

Lily a fuzilou com os olhos.

- Ops. – fez a amiga.

Para a sorte das duas, parecia que Jake estava preso em algum pensamento que o impediu de ouvir Anne.

- Então quer dizer... – começou ele – que você não gosta dele?

- É. – confessou Lily.

Então a expressão de raiva se transformou em um sorriso.

- Isso é ótimo, Lil.

- É? – perguntou a ruiva, recebendo uma cotovelada da amiga e, ao entender, corando levemente.

A agitação no salão principal demonstrava que já estava ficando tarde.

- Nós precisamos ir. – disse Lily, para sair daquela situação constrangedora.

- Espere. – pediu ele – O que vocês estavam falando sobre beijo?

Lily sentiu seu rosto ferver intensamente pela segunda vez naquela manhã. Corar já era ruim, ferver era insuportável. Sem saber o que responder, Lily notou que Jake parecia ter entendido.

- Ele não pode te obrigar a beijá-lo!

- Ele não vai me obrigar! – protestou Lily – Ele apenas sugeriu isso!!

- E você não pode aceitar isso! – Jake estava revoltado, indignado.

- Eu não decidi ainda!

- Você está cogitando a possibilidade! – não fora uma pergunta, fora uma afirmação em tom de indignação e decepção.

- Talvez seja necessário!

- Mas por que ele? – perguntou Jake – Por que você não veio falar comigo??

- Porque você já tinha uma namorada!

- Pois eu não tenho mais!

- Agora eu já fui longe demais nisso, não posso simplesmente mudar as coisas.

- Claro que pode, sempre se tem opção. Você escolheu ele!

- Você não entende!

Lily chegou ao seu limite e saiu a passos rápidos de lá, sendo seguida de perto pela amiga que ainda processava o diálogo acelerado.

- Lily, você percebeu que ele disse que namoraria você? – perguntou no caminho, tentando alcançar a amiga.

A ruiva parou bruscamente.

- É verdade. – só então tinha percebido.

- O jogo já deve ter começado, você vai ou não? – perguntou Anne, vendo que Lily não se movia.

- Vou. – respondeu sem pensar.

Ao chegar ao campo as duas viram Claire acenando para elas, apontando dois lugares vazios que tinha guardado para as amigas, na primeira fileira. Ao se acomodar, Lily viu James sorrir para ela.

Lily simplesmente não sabia o que fazer, não sabia nem ao menos o que pensar. Lembrava-se das palavras de James na briga após a festa, lembrava-se das palavras de Jake pouco tempo antes. Realmente seria complicado terminar tudo com James agora e iniciar um namoro com Jake, poderia prejudicar o seu objetivo, poderia magoar James.

Ele a tinha ajudado incondicionalmente, não era justo ferir seus sentimentos agora. Até porque faltava pouco tempo para o fim do ano letivo, apenas duas semanas, nem precisaria levar o namoro até o fim, e as provas finais os afastaria de qualquer forma.

E um namoro com Jake não seria seguro, envolveria todo o processo de um namoro de verdade, requisitando tempo para realmente passarem juntos, ciúmes e outros sentimentos, com o risco de não dar certo.

E James estava tão feliz, não era justo fazer isso com ele naquele dia. Seria um balde de água fria se ele estivesse comemorando a vitória ou seria um golpe cruel se ele estivesse abatido pela perda.

Quanto ao beijo, ela não precisava gostar dele para beijá-lo, não iria morrer por causa disso. Não conseguiria fazer isso se ainda o detestasse, mas ele a tinha surpreendido naquelas últimas semanas. Além do que, agora não se sentia mais um prêmio a ser conquistado. E ele havia mudado, Remus havia lhe garantido que ele não estava saindo com nenhuma outra garota durante todo aquele tempo. Lily jamais tinha pensado que isso seria possível. Riu consigo mesma ao pensar isso.

E se assustou como todos esses pensamentos.

Sentiu suas mãos geladas, contrastando com o rosto fervendo.

- Você vai beijá-lo! – disse Anne ao seu lado, rindo – Tá na sua cara!

- Eu estou me decidindo! – disse Lily, mentindo para a amiga e para si mesma.

E então aconteceu. James pegou o pomo de ouro, a partida acabou, a grifinória ganhou e James voou até a arquibancada onde Lily estava, desceu da vassoura ao lado dela e a envolveu pela cintura colando seu corpo ao dela e pressionando seus lábios contra os dela.

O beijo estava longe de ser suave, havia uma urgência nele, como uma vontade reprimida que finalmente estava sendo libertada, como se aquele fosse o último dia do universo.

Lily não resistiu nem por um segundo, deixou-se levar pelo beijo e passou as mãos pelo pescoço dele.

Ouviu a ovação de todos no campo de quadribol, torcidas, jogadores, todos pareciam estar vendo o beijo. Quando eles se separaram, Lily sabia que não poderia ficar mais corada na vida.

James simplesmente montou sua vassoura novamente e decolou, sem dizer nada, apenas sorrindo.

- Uau! – disse Anne – Imagina se você tivesse decidido!

Lily riu com a amiga. Aos poucos, todos foram retornando ao castelo. No caminho, contudo, aconteceu algo que chamou a atenção dos muitos que passavam. Lily parou para ver e arregalou os olhos quando viu que envolvia James e Jake. Correu para perto a tempo de ver Jake dar um belo soco em James. Este já ia para cima do corvinal quando a ruiva o segurou.

- Você ainda está do lado dele?? – Jake estava desconcertado.

- Você não entende, Jake! – gritou Lily.

- Não, realmente não entendo. – disse, antes de virar-se e sair.

- O que raios foi isso?? – perguntou um furioso James.

- Eu te explico depois. – disse ela.

Mas parecia que depois não servia para James, pois este a pegou pela mão e a levou a uma sala vazia.

- Por que ele me disse que eu não podia te obrigar a me beijar?? – perguntou James – Isso deveria fazer sentido pra mim??

- Ele entendeu errado! Eu acabei contando pra Anne e ele acabou ouvindo, foi um acidente! – se explicou Lily.

- E então ele presumiu que eu estava te forçando a me beijar? Ele realmente acha que você seria forçada a algo assim? – a indignação de James surpreendeu Lily, pois ele não estava furioso com Jake pelo soco, mas sim pelo que o corvinal fazia dela.

- Ele se preocupa comigo!

- Não defenda alguém que pensa isso de você!

- Eu sinto muito pelo soco. – ela se sentia culpada – Mas eu tentei explicar a ele!

- Isso não importa, não é como se eu nunca tivesse entrado numa briga. – ele ainda estava sério, as sobrancelhas juntas em revolta e indignação.

- Você não está chateado comigo?

- Claro que não, Lily.

- Então porque está com essa cara?

Ela percebeu que ele parou pensativo, decidindo se responderia ou não.

- Porque parece que o que vocês têm é mais do que um climazinho.

- Ah, não! – revoltou-se a garota – Eu já disse, você não tem o direito de ficar com ciúmes!

Para a sua surpresa, ele relaxou a expressão e os ombros, e concordou com ela.

- Eu sei. Vamos fazer assim, então, eu esqueço o soco que levei sem poder revidar e você esquece o meu ciúmes. – propôs ele, com um sorriso encantador.

Ele ofereceu a mão a Lily, que a aceitou, e a conduziu para fora da sala, para a animada festa de comemoração na sala comunal da grifinória.


James estava rodeado de jovens grifinórios admirados enquanto reproduzia mais uma vez sua pegada. Peter entre eles. Nada mais animado do que uma festa pós-jogo em que a grifinória havia ganhado. Viu Sirius se gabando também pela vitória, rodeado de admiradoras. Sentia falta de Remus, que devia estar na enfermaria. Essa noite ele e Sirius poderiam estar com ele.

Mas mais do que tudo isso, uma outra coisa lhe ocupava sua mente. Olhou para ela, no outro lado da sala comunal, conversando animada com as amigas. Estava preocupado, parecia que seu ciúmes tinha fundamento. Não apenas ela tinha uma queda pelo corvinal, como era recíproco, ele gostava dela a ponto de lhe dar um belo soco, sem pensar poderia ter apanhado do time de quadribol inteiro, pois se Lily não o tivesse impedido de revidar, a briga poderia ter tomado maiores proporções.

James pensava no que mais ela teria falado para o corvinal quando ele descobriu a verdade. Ou o que ele entendeu que fosse a verdade. E os corvinais ainda se gabavam pela inteligência!

Será que o corvinal a convenceria a desistir do falso namoro? Já era difícil o suficiente conquistar Lily sem concorrência e seu tempo estava acabando, mais duas semanas e entrariam de férias e só a veria de novo no sétimo ano.

A ruiva encontrou o olhar dele, percebendo que estava sendo observada e corou levemente. James sorriu para ela. Com todas essas dúvidas, era bom ver que ela ainda ficava corada com ele.