Capítulo Seis: A Moça de Casamento Marcado
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Por mais estranho que pudesse parecer – e contrariando o que havia esperado – Ino estava se sentindo bem naquela manhã, quando pusera seus pés logo depois dos portões que separavam Konoha do mundo lá fora.
Imaginara insegurança, receio e qualquer outra coisa que fosse, mas jamais familiaridade. Apesar de tudo que havia passado ali, já não se sentia tão em casa como se sentia junto de Gaara, na Vila da Areia. Porque, a cada dia que corria, estava mais certa do que se passava em seu coração e pensamentos: ela o amava inteiramente.
Havia a saudade, que a cutucava no peito. Mas tudo era suportável.
Enquanto Ino, entretida em seus pensamentos, analisava a sua volta, Gaara, por outro lado, mantinha-se serenamente indiferente.
De volta a essa patética vila, não pôde evitar pensar.
Gaara deu um pequeno sorriso, recordando-se de cenas humilhantes. Não era motivo para vergonha, embora fossem desagradáveis.
Naruto. Sua raposa idiota.
"Ahh!" Ino pegou a mão dele, os lábios deliciosamente curvados. "Gaara, você está sorrindo!"
Voltando-se para ela, realmente não pôde deixar de sorrir – pelo menos um pouco. Era um sorriso de desprezo. Afinal, Ino era tão graciosa e tão escandalosa.
Mas como se tais palavras houvessem tirado a magia do momento, o sorriso de Gaara foi sumindo gradativamente, devagar, mesmo sem que ele percebesse. Era aquele instinto de autodefesa que persistia, mesmo com sua areia intacta.
É estúpido se permitir ser pego expressando coisas inúteis, foi aquele pensamento que o acometeu.
Maneou a cabeça numa silenciosa crítica sobre a personalidade exageradamente animada de Ino e ela fez um biquinho insatisfeito ao constatar que ele logo havia readquirido sua expressão habitual. "Vamos logo." Apressou-a, os braços cruzados. "Preciso trabalhar, Ino."
Como se fosse verdade, reiterou para si mesmo.
Ela riu.
"Não tente me enganar, Gaara." E deu uma piscadinha divertida.
Ele suspirou.
Era tão incômodo que Ino o conhecesse daquela maneira.
"Não precisa ter pressa. Vamos ficar apenas o suficiente." Garantiu, tornando a sorrir. O rabo de cavalo se agitava conforme balançava a cabeça.
A manhã fresca passava-se lentamente. Os segundos se escorriam como grãos de areia numa ampulheta, Gaara constatou. Aquilo fê-lo lembrar-se dele mesmo. Era uma pena que, mesmo com o controle da areia, fosse incapaz de controlar o tempo e sua ampulheta.
Sua pele, surpreendendo a ele mesmo, estava fria. O vento gélido que cortara seu rosto no caminho deixara-o refrescado, embora seus dedos continuassem úmidos, suando um suor frio.
Era um alívio aquela temperatura ambiente.
"Sorria para mim de novo." Pediu Ino, cutucando sua bochecha com o indicador.
Gaara olhou-a, irônico.
E ela retribuiu-lhe com um sorriso.
"Você finge bem, mas não me engana." Beijou seus lábios num movimento súbito. "Seus olhos sorriem para mim."
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Temari adentrou na sala do Kazekage carregando documentos aprovados pelo conselho da Vila para que ele assinasse.
Quando abriu a porta, seus olhos rapidamente pousaram sobre os lírios brancos na mesa perto da janela. O cômodo estava cheiroso, embora as flores já estivessem murchando. Eles eram o único adorno que havia por ali e assim permaneceram por muito mais tempo do que ela havia suposto.
Aos poucos Ino ia fazendo a diferença nos hábitos, expressões e no comportamento de Gaara. Ele era completamente dominado pelo poder dos olhos dela. Mesmo que tentasse, seria impossível resistir.
"Gaara, você cai como um patinho." Comentou divertida, sabendo que ele não poderia escutá-la.
Aproximou-se da mesa, depositando os documentos sobre esta. Perto do abajur, havia uma pequena foto de Ino, com uma dedicatória, obviamente escrita por ela mesma.
"Eu te amo, Gaara, mesmo você sendo insuportavelmente distante."
Temari sorriu de um jeito suave e maroto.
"Meu irmãozinho também ama você, Ino." Disse, para logo depois permitir-se cair na gargalhada.
Jamais pensei que ela realmente fosse conseguir, pensou.
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"Hokage-sama!"
Um chuunin apareceu sobre o parapeito da janela, subitamente.
Tsunade, que bebia um copo de saquê, arregalou os olhos, sem reação. As bochechas rosadas denunciavam-na, os lábios ainda molhados.
"Er...sim?" Tentou disfarçar, soprando a borda do copo com um sorriso sem graça. "Aceita um chá?"
O ninja fez uma cara estranha, como se não tivesse aceitado a desculpa esfarrapada.
"O Kazekage e uma kunoichi de Konoha acabaram de chegar."
Tsunade sorriu. "Acompanhada, hmm?" e sorveu um gole da sua bebida, calmamente.
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Sakura soltou um suspiro, passando a mão pelos cabelos.
O dia mal havia começado, mas já era o suficiente para deixá-la cansada. Em meio a todas aquelas consultas, tantos pacientes, o sangue, o desesperança, a dor. As pessoas eram tão frágeis e tão desesperadas diante da agonia. E, enquanto cuidava delas, Sakura pensava: São apenas bonecos com forma de gente.
O que era sua profissão, senão um jogo de montar? Remontar. Reformar. Enfim, patético. Costurar, sarar, anestesiar. Era como se ela estivesse agindo sob o controle do piloto automático. Hábito. Hábito de cuidar.
As crianças muitas vezes sofriam mais que os adultos e, ironicamente, eram as mais corajosas. Tenha esperança, elas ouviam sempre. Seja forte. Ser forte era exatamente o problema. Cresce-se e deixa para trás sonhos, a magia da puerilidade, mas principal e mais notoriamente: a esperança. E aqueles que já tinham suas esperanças destroçadas, não acreditavam, gritavam, choravam.
Alguns ouviam "Seu caso é sério" e então se tornavam criaturas indiferentes à expectativa.
Eu gosto do que eu faço, dizia para todos. Mas só ela sabia como era doloroso passar seus dias diante de camas de hospitais, vendo as pessoas definhando.
"Você tem que entender, Sakura, que ser um médico não é a profissão mais benéfica que existe. Ela pode ser letal se você não conseguir administrar bem seus nervos diante do que te espera." Sakura apenas acenou em positivo diante do ensinamento de Tsunade, anos atrás.
Ela não sabia realmente o que significava tudo aquilo que estava ouvindo. Mas a Hokage, como sempre, mostrava grande destreza e grande capacidade medicinal, não apenas por suas habilidades, como também pelo seu incrível poder de espírito. Pois Sakura aprendera que um espírito forte era muito mais importante do que muitas coisas à sua volta.
Bem, sorriu ironicamente, agora eu sei, Tsunade-sensei.
"Sakura-senpai." Virou-se ao chamado de Umi, uma das enfermeiras do hospital. "Nobu-san está reclamando de dores. Já posso lhe dar o próximo comprimido?"
"Mas não faz nem duas horas desde o último!" foi incapaz de conter o resmungo.
"Isso é um não?" Umi mordeu os lábios, insegura.
Sakura deu uma olhada no relógio que trazia no pulso. "Nobu-san não pode tomar nenhum comprimido nas próximas três horas, Umi. Kozac é muito forte para ser administrado em grandes doses. Deixe que ele reclame. As dores não podem estar realmente tão fortes assim."
"Mas ele está gritando, Sakura-senpai."
Ela moveu a cabeça.
"Nobu-san está fazendo drama, Umi. Dê-lhe apenas alimentos gelatinosos e muito líquido."
O relógio do hospital badalou, anunciando o meio-dia.
Meio-dia e ela simplesmente havia esquecido que marcara de encontrar com Sasuke.
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Ela está atrasada.
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A bolsa sacudia à suas costas, como um saco de batatas.
Sakura sentia que suas pernas se trançavam vez ou outra, tamanha a pressa. Mas as pessoas não colaboravam, insistindo em caminhar distraidamente pela calçada, observando o movimento.
Na pasta que segurava, havia as anotações dos preparativos do casamento. Eram tantas as coisas a fazer que às vezes simplesmente se esquecia que estava de casamento marcado. Ia adiando as tarefas, até que tudo começou a ficar em cima da hora demais.
Mais de duas vezes por semana, Sasuke deixava o vilarejo para cumprir as missões designadas pela Hokage. Sempre estava ocupado para o que dizia respeito ao casamento. Flores, toalhas, convidados, é tudo besteira, ele resmungava.
Voltou os olhos para o relógio, constatando seus quinze minutos de atraso.
Vou precisar fazer algo em relação ao joelho do Nobu-san, ela não pôde deixar de pensar. O trabalho raramente deixava de ocupar sua mente e pensamentos.
Mordiscou o lábio e, quando percebeu, havia um par de cabeças na sua frente, uma loira e uma ruiva.
"Com licença, eu-" ao tentar a ultrapassagem, Sakura estacou, surpresa.
"Sakura?" Ino arregalou os olhos.
Ambas se analisaram com uma rapidez que passou despercebida pelos olhos de Gaara, que tinha as mãos no bolso, o braço de Ino enganchado no seu. Ele também não se daria ao trabalho de notar aquela troca de olhares, mesmo se lhe fosse possível.
Os cabelos de Sakura caiam pelos ombros, o haitaite preso à sua blusa por baixo do jaleco branco. Fisicamente, ela parecia a mesma Sakura de sempre. Interiormente, Ino viu, havia uma maturidade e um conhecimento da tristeza humana que iam crescendo a cada dia, de acordo com as experiências vivenciadas naquele hospital estúpido e cheirando a desinfetante.
Embora Ino jamais aprimorasse completamente suas técnicas como ninja, a beleza dela compensava. Seus cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, a camiseta branca e o jeans eram tão estupidamente comuns que chegavam a lhe dar vontade de gargalhar. Se Sakura vestisse aquilo, jamais ficaria tão bem quanto ficava em Ino. Era apenas uma beleza insuportável e uma cabeça maliciosa.
"Ino eu-ah meu deus! Gaara...?" Foi só então que ela notou Sabaku no Gaara.
Seus olhos não deixaram de reparar na proximidade dos dois e foi impossível que contivesse um arquear de sobrancelhas, surpresa.
Gaara maneou a cabeça. "Quem é ela?" perguntou à Ino.
"Minha..." ela hesitou. "Aquela moça que eu disse que ia se casar." Consertou, rapidamente.
"Hmm." E ele fez um ruído, que Sakura não soube identificar se era de entendimento ou desprezo. Tirando os olhos de Sakura, ao fim da sua análise silenciosa, Gaara então se voltou para Ino, impassível. "Ino." Disse, em tom de aviso.
"Ahh, tudo bem. Como você é chato!" Ino soltou um muxoxo. "Precisamos ir, Sakura."
Sakura não sabia se queria vê-la, ainda assim não pôde deixar de impedi-la de partir. "Chegou hoje?" perguntou, ajeitando a bolsa sobre o ombro.
"Sim."
Silêncio.
"E...hmm...você recebeu meu convite?" Indagou Sakura, timidamente.
"Recebi."
Silêncio.
"Tchau, Sakura."
E Ino e Gaara se foram, deixando-a para trás.
Droga!, praguejou.
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Ela está atrasada meia hora.
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N/A: Continuando a trama, mais um cap pra vcs, gente! Brigada pelos comentários, pelo pessoal que seeeeempre acompanha e continua gostando! E sinto muito pela demora. É que andei meio atribulada com os trabalhos da escola e por aí vai! Provavelmente final de semana que vem virá o próximo cap.
Referente à fic: Continuo não gostando de Sakura e Sasuke, mas se assim for necessário, eles darão mais seu ar da graça. Como vcs podem perceber, a intimidade entre InoGaara vai aumentando.
Continuem acompanhando. Kissus, Li.
