Capítulo 6
Abri meus olhos não acreditando no que ele tinha feito. Seus dedos subiram para minha boca e ele se aproximou. Eu também. Abri minha boca para receber a sua, mas não senti seus lábios gelados como esperava. Ele riu e se afastou, pegando minha bandeja.
- Quando afirmar algo Isabella, tenha sempre certeza do que está falando.
O vampiro saiu sem fazer barulho. Eu estava sem ar. O que foi aquilo? De repente o quarto estava quente demais.
[...]
Acordei no dia seguinte de mau humor. Claro. Eu não estava acostumada a dormir até a hora do almoço. Mas depois do incidente com Demetri, eu havia demorado horas para dormir. Eu já sabia que era tarde, o sol entrando pela janela estava muito forte. Eu pensei a noite inteira no que tinha acontecido. E cheguei a uma brilhante conclusão, com base em fatos de situações ocorridas entre Bella Swan e vampiros. Demetri me seduziu. Ponto final.
Aquilo deve ter sido fácil. Nós, meras humanas de corpos moles e despreparadas para os charmosos e cheirosos vampiros, éramos alvos fáceis. Então eu era fraca. Só isso. Eu não estava interessada um mínimo em Demetri. Eu era apenas humana. Amava Edward com a mesma devoção de sempre. Minha fraqueza apenas se intensificou devido ao desapontamento que eu tive com ele. Ou não?
Demetri era muito bonito. Felix já chegara bastante perto de mim, e não causara nenhum efeito parecido com o que Demetri fazia comigo. CHEGA! Pare com isso Isabella.
Aquele sorriso sacana ficou na minha cabeça e nos meus sonhos a noite inteira. Não ficaria no meu dia. Ou resto do dia. Não sabia que horas eram. Maldito quarto sem relógio! Bufei caminhando para o armário.
Vesti uma roupa e nem toquei na bandeja que estava no sofá, como sempre.
Saí do quarto. O que eu ia fazer agora? Não tinha nada para fazer no castelo. Bom... eu não tinha terminado de ler o livro de ontem. Comecei a vagar pelos corredores.
- Boa tarde, Isabella.
Escutei uma voz de sino, mas infantil, vindo atrás de mim. Virei-me. A vampira minúscula andava em minha direção, quase flutuando.
-Ah, olá Jane.
Ela me olhou com indiferença.
- Aro quer falar com você.
Estremeci. Já? Gianna não disse que Aro era ocupado demais com o mundo vampírico? Pensei em várias possibilidades. Senti um frio na barriga. Será que ele já ia me transformar? Mas eu precisava saber mais! Precisava de informações! Jane me olhava com intensidade. Concentrada. Concentrada até demais.
- Jane, você pode parar de tentar me torturar, por favor?
O olhar dela relaxou.
- Desculpe. É costume. Eu nunca pensei que alguém pudesse bloquear isso. Vamos. Aro não gosta de esperar.
Assenti e a segui. Passamos por vários corredores. Jane abriu a porta e eu entrei na mesma sala que havia estado dois dias atrás. Clara e toda branca. A única coisa escura eram os tronos acima do piso principal e os vampiros de mantos pretos. Aro me esperava, sorriu assim que me viu entrar pela porta. Um sorriso sincero. Achei estranho, nunca tinha visto esse tipo de sorriso no seu rosto.
- Isabella! Espero que esteja gostando da nossa hospitalidade. Está sendo bem tratada?
- Sim.
Tirando o vampiro sedutor da guarda de Aro, eu poderia dizer que estava começando a me adaptar.
- Excelente! Jane lhe falou o porquê de estar aqui?
Neguei com a cabeça, imaginando que seria pela minha transformação. Era o único assunto de interesse que Aro tinha comigo. Não?
- Ótimo. Eu andei pensando sobre você Bella. Eu realmente, em todos meus anos como vampiro, nunca tinha visto uma humana com a habilidade de bloquear poderes como os nossos. Jane não consegue te torturar. Demetri não consegue te rastrear. Eu não consigo ler seus pensamentos.
Agradeci mentalmente por isso, meus olhos fitavam o vampiro à minha frente, ele fez uma pausa de alguns segundos, como se estivesse me dando um tempo para pensar, mas depois continuou.
- Mas veja Bella, o que mais me intriga é que você não bloqueia todos os poderes. No dia que esteve com Edward e Alice nessa mesma sala, Marcus sentiu a intensidade do seu relacionamento com ele. Quando eu observei os pensamentos de Alice para ver seu futuro, vi que o marido dela, Jasper, consegue exercer influência em suas emoções. A própria Alice consegue ver seu futuro. Mas por quê? Fiquei curioso. E esse é o principal motivo de você estar aqui.
Não entendi nada. Esse era o motivo da conversa? Meu bloqueio? O problema no meu sistema? Eu achei que isso só fascinava Aro. Mas pelo visto ele tinha dedicado um bom tempo pensando no assunto. Isso o intrigava também.
- Como controlamos nossa sociedade, vampiros de todo o mundo vêm aqui. Seja para pedir favores, seja para nos alertar sobre algo, seja para ser punido – estremeci – Eu gostaria que sempre quando um vampiro viesse nos ver, você estivesse ao meu lado.
Assenti, mas sem entender nada. Jane não parecia gostar da idéia. A dúvida e a insegurança estavam em meu olhar. Aro continuou.
- Naturalmente alguns têm poderes inofensivos. Outros, poderes que precisam ser controlados. Outros nem têm poderes. É aí que você entra. Todo vampiro vai ser educadamente obrigado a testar o poder que possui em você. Assim, poderemos saber qual a extensão de seu dom peculiar.
Eu arregalei os olhos. Aro só podia estar brincando comigo. Eu? Uma cobaia? Ele só me via como um pedaço de carne com sangue. Só isso. Mas eu também não podia reclamar. Desde que o talento de Jane não me atingisse tudo estaria ótimo. Olhei com tristeza para Aro e assenti.
- Posso ir agora, Aro?
Nesse momento a porta se abriu violentamente. Eu me virei assustada. Felix e Demetri chegavam com o que parecia um vampiro em desespero. Ele se debatia. Mas mesmo com a força de um vampiro isso não fazia efeito, Felix tinha os braços gigantescos e era impossível sair. O vampiro estava quase espumando. Eu rezei para que Aro me deixasse sair da sala.
- É esse aqui, Aro. – a voz de Demetri soou atrás de mim.
- Tudo bem Demetri, já sabe o que fazer. Ah! Espere um momento. Bella?
Já havia me virado para sair da sala sem ser percebida, estava claro que meu assunto com Aro havia terminado. Eu não queria presenciar o que estava por vir, boa coisa não era, ao julgar pelo desespero no olhar do vampiro preso. Mas parei e me virei para meu futuro mestre.
- Sim?
- Eu nunca deixaria alguém te machucar, querida. Que fique bem claro isso. Portanto, se algum vampiro tiver poderes piores do que os de Jane, o que eu acho improvável, ele será desmembrado antes de sequer pensar em testá-los em você.
Eu dei um pequeno sorriso. O vampiro ainda se debatia nos braços de Demetri e Felix, mas ou outros pareciam que tinham se esquecido disso. Ele logo desistiu e começou a acompanhar a conversa. Deve ter achado algo curioso uma humana no castelo dos Volturi, e Aro a protegendo. O alívio era imediato. Já ia agradecer Aro quando ele abriu a boca novamente.
- Creio que nos próximos meses vou estar muito ocupado. Vamos ter que deixar a conversa sobre sua transformação para depois. Há uma onda de recém criados no Sul novamente e a situação já está saindo do controle. Sabe como um recém criado se comporta Bella?
Neguei com a cabeça. Edward nunca havia me falado sobre isso. Eu nem sabia que o termo 'recém criado' era usado para designar vampiros novos. Isso era assunto proibido para o ouvido humano na família dos Cullen, assunto que pelo que parecia, não era proibido para Aro, mas vital.
- Não se preocupe. Irá aprender. Vou pedir para algum membro da guarda lhe mostrar como eles se comportam. Mas estará protegida, evidente. Quero que veja quando ainda for humana, para não estar despreparada quando for uma e se juntar a nós, vampiros.
- Tudo bem.
Eu sabia que isso não tinha sido uma proposta, e sim uma ordem. Não tinha como negar algo a Aro, eu já deveria começar a me acostumar com isso. Ele sorriu.
- Anda tendo pesadelos, Bella?
Eu não entendi a pergunta, ele continuou.
- Ultimamente você tem gritado muito. Mas ontem você gemeu a noite inteira.
Senti meu rosto queimar. Não sabia se era de raiva ou de vergonha. Provavelmente ambas as coisas.
- Tenho pesadelos desde que Edward me deixou. – tentei deixar bem claro.
- É uma pena. Um dia irá esquecer Isabella.
Isso seria difícil. Eu não tinha nem idéia do que poderia acontecer. Cada dia em Volterra era um dia diferente. Balancei a cabeça.
- Agora pode ir, vá ler algo. Temos trabalho a fazer.
Aro sorriu calmo. Percorri a sala e meus olhos pararam em Demetri, ele estava sorrindo. Ótimo, agora toda Volterra sabia que eu havia gemido a noite inteira. E eu tinha certeza de que o vampiro que agora me olhava sabia o motivo. Dei as costas e saí da sala.
Assim que fechei a porta, escutei um grito ensurdecedor saindo da sala. E um barulho de algo rasgando. Apressei o passo e caminhei até a biblioteca.
