HARRY

Eles cavalgaram juntos por quase uma hora e Harry parou debaixo de um carvalho cupuloso, cujas folhas começavam a secar e a cair pelo ápice do outono. Desceu do cavalo e olhou para Gina.

A força do vento durante a cavalgada havia soltado seus cabelos, que agora caiam como uma cascata de fogo até a cintura, deixando-a simplesmente linda. Ele a segurou e a colocou no chão, mantendo-a tão perto dele que Gina suspirou. Mas havia alguma cautela em seus olhos quando ela os desviou e caminhou até a árvore.

E então Harry foi amarrar o animal. Observou a irmã circular o tronco do carvalho e tocar a sua madeira forte com dedos ligeiramente trêmulos.

No fundo, ele sabia que isso poderia acontecer.

E Gina tinha toda a razão em ficar assustada, depois de tudo que ocorrera entre os dois. Por mais que ela quisesse tanto aquele beijo e por mais que houvesse gostado – como Harry pudera perceber pela forma como fora avidamente retribuído – suas ações haviam ido além do que ela podia suportar.

Ele a superestimara por sua inteligência e coragem, e provavelmente a fizera sofrer ao abandoná-la nos últimos dias. Isso ficava claro na sua aparência magra e pálida.

"O que estamos fazendo aqui?" – ela cruzou os braços diante dele.

Harry se aproximou e se sentou sobre a grama, à sombra do carvalho.

"Viemos conversar" – ele fez sinal para que ela pudesse se sentar ao seu lado.

E teimosamente, Gina se sentou, mas há uns três metros dele.

Harry bufou, num risada de incredulidade. Então levantou-se e caminhou até ela.

"Eu gostaria de tê-la mais perto, Srta. Ginevra Obstinada". – e se sentou bem ao seu lado.

A jovem fez menção de se levantar, mas Harry segurou o seu braço, impedindo-a. E circulou a sua cintura num gesto dominante.

"Tem sido muito difícil entender as suas vontades ultimamente, Duque Prepotente de Hawling".

Ele tentou conter o sorriso, pois precisava se manter sério sobre o assunto.

"Tem razão, Gina".

Ela o olhou, as sobrancelhas erguidas. Harry queria esclarecer tudo de vez, dizer a ela o que sentia, sem mais rodeios e mentiras, sem mais fugas.

"Tem sido muito difícil aceitar o que sinto por você".

Os olhos dela brilharam.

"O que você sente...por mim...?"

"Eu a amo, Gina. Amo muito, muito mais do que deveria". – ele tocou seu rosto repentinamente corado – "Amo-a ardentemente! Um amor de corpo e alma, um amor gigantesco e enlouquecido. Um amor que consome e sustenta ao mesmo tempo, que me mata quando você está longe e ressuscita quando te encontro. Mas não como irmão, Gina. Amo-a como homem, com doçura e com paixão, e sinto na carne os reflexos desse amor..."

Harry foi subitamente interrompido por dois braços ao redor do seu pescoço.

"Eu sabia!" – ela exclamou, abraçando-o – "Eu sempre soube, Harry! Desde que você voltou da Escócia!".

Ela deu uma risada, num misto de agitação e emoção.

Harry segurou seu rosto para enxugar as suaves lágrimas e ver toda a felicidade transbordando em seu olhar azul. Como ele poderia imaginar que a faria tão feliz por declarar seu amor?

"Muito antes disso, querida. Eu a amo desde que você nasceu! Desde que era apenas um bebê e a segurei pela primeira vez".

Harry viu com exatidão o menino de dez anos, de cabelos escuros e cacheados, com o peito erguido de orgulho pelo nascimento da sua quarta irmã. E ao segurar aquela criaturinha branca e ruiva em seus braços, ele soubera que ela era tremendamente especial.

"Você sabia, sua danadinha" – ele continuou – "que só parava de chorar quando eu a segurava no colo? Nosso pai ficava de um lado para o outro, inquieto com os seus berros, e passava você para Helen, e então para as criadas, até que eu assumia e você ficava quieta no mesmo instante. Eu já te contei isso?".

"Não" – ela fungou – "Mamãe já me comentou que ninguém tinha muita paciência com as minhas pirraças, só você. E é lógico que eu acredito. Até hoje, Harry...só você é capaz de me acalmar, de me fazer parar de chorar...como agora".

Harry sentiu aquela agonia dentro do peito.

E sem pensar duas vezes, beijou seu rosto e sugou todas as suas lágrimas. Sentiu o sabor do sal misturado à delicada textura de sua pele, e continuou deslizando a boca suavemente, por suas bochechas, por suas pálpebras fechadas, por sua têmpora, por seu queixo, e sentiu seu hálito doce quando ela abriu aqueles lábios tão rosados tão sinuosos e sedutores, preparados para recebê-lo.

Então se afastou, pondo-se de pé.

Gina arquejou e abriu os olhos atônitos ao perceber que não seria beijada como tanto queria.

Oh, Deus, ela era tão adorável!

"Harry!" – ela o olhou brava, levantando-se também – "Você não pode me deixar de novo!".

O quê?

"Acalme-se, querida" – ele tocou sua face – "Eu não vou a lugar nenhum. Eu não vou mais fugir de você, nem abandoná-la, nunca mais. É uma promessa".

Mas ele não arriscaria perder o controle outra vez. Ele não arriscaria provocar mais dor e medo nela. Precisava ser extremamente cuidadoso e propor a ela o que havia pensado para que aquilo desse certo.

"Vem cá". – ele pegou sua mão, e ela suspirou aliviada, seguindo-o.

Harry se encostou ao tronco do carvalho e a puxou para deitar em seu colo. Ela se ajeitou sobre a grama, alisando o belo vestido rosa, e apoiando a cabeça na cocha dele.

"Eu preciso que você me escute com bastante atenção, Gina". – ele continuou – "Pois o que eu vou dizer é sobre nós dois. Sobre como nós dois podemos viver isso que sentimos um pelo outro".

"Esse amor que sentimos um pelo outro". – ela o corrigiu, sorrindo.

"Sim, esse amor". – ele concordou – "Nós somos irmãos, apesar de tudo, você sabe. Nós somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe, temos o mesmo sangue, a mesma genética, a mesma corrente hereditária. E por isso, além de todas as razões morais e religiosas implicadas, também biologicamente, nós nunca poderemos nos casar e ter filhos, por exemplo. Na Inglaterra, e na maioria dos países, seria considerado crime se nós fizéssemos isso, entende?".

"Eu sei" – ela suspirou.

"Por esse motivo, Gina, e não por qualquer outro, eu lutei contra esse amor. Eu lutei contra o que sinto por você. Pela culpa, pelo remorso de viver algo incorreto e criminoso".

"Harry...como você acha que Deus poderia proibir o que o filho dele mais pregou? O amor? Esse amor enorme que eu tenho por você?".

Céus, Gina! Você realmente existe? Ou é um anjo enviado para o mundo terreno?

"Eu não sei o que Deus pensa sobre eu e você, Gina. Mas eu sei que as leis humanas reprovam o incesto. Então, nós nunca poderemos ter uma relação convencional, de homem e mulher. E isso precisa ficar claro como água, Gina".

O duque admirava a inocência da menina e a amava por isso, mas o seu papel era trazê-la para o mundo real. Por mais que isso acabasse com as suas ilusões.

"Ok. Mas o que isso quer dizer, Harry?"

"Existe uma forma, querida. Uma maneira de construirmos esse amor, essa relação, não convencional. Uma relação possível de carinho e amor entre um irmão e uma irmã, um meio termo entre essa relação fraternal e a relação amorosa de um casal, de um homem e uma mulher, mas sem...enfim, sem o envolvimento físico que caracterizaria essa relação como incestuosa".

"Sim – Gina continha uma ansiedade enorme nos olhos – E no que essa relação consistiria?"

"Consistiria em continuarmos sendo irmãos e encontrarmos as brechas onde poderíamos ser mais do que isso. Encontrando esse limiar e definindo juntos os limites e os componentes da convivência diária, a sós e em público, para preservar não somente a nossa posição diante da sociedade, como também a nós mesmos. E então..."

"Harry, por favor" – Gina riu nervosamente – "Eu não estou entendendo o que isso significa na prática".

Harry sorriu e só então, percebeu o quanto também estava nervoso. Logo ele, um homem que a vida inteira conseguira negociar com objetividade os assuntos do ducado. Respirou fundo.

"Ok, Gina, me desculpe. Vamos por partes. Eu defini três regras básicas para a nossa relação. A primeira regra é: essa nova forma de relacionamento obviamente só ocorrerá em casa, dentro de Hawling Garden. Fora, na cidade ou diante da sociedade londrina, precisaremos manter as aparências, como dois irmãos. Certo?"

"Certo. Só em casa. – ela repetiu - E os criados?"

"Hum, bem lembrado, querida." – ele sorriu e tocou a ponta do seu nariz com o dedo indicador. Começava a achar que estava se divertindo com aquilo tudo – "Precisaremos ser cuidadosos diante deles também, é claro. Mas creio que eles são bastante discretos e silenciosos".

"Sim, eles são. Mamãe sempre apreciou a privacidade familiar".

"E isso também se estende à nossa família, Gina. Rony e Hermione não podem nem sonhar que nos amamos desse jeito...diferente".

"Eu sei, eles não entenderiam".

"Então, não teremos problemas. Se tomarmos as devidas precauções, ninguém vai desconfiar".

"Segunda regra?"

"A segunda regra, - ele pigarreou – no momento em que decidirmos viver essa relação, seguiremos os mesmos preceitos de um casal compromissado. Seremos fiéis um ao outro, dentro e fora de casa, sem nos envolvermos afetivamente com mais ninguém. Nem mesmo com marqueses, entendeu?"

"Então também podemos sentir ciúmes, Duque de Hawling?". – ela riu, provocadora.

"Principalmente se tivermos a razão adequada! Vê-la se atirar pra cima de um irlandês pedindo deliberadamente que a beije é uma razão muito mais do que adequada!"

Harry sentiu o sangue esquentar só de se lembrar da cena. Mas não queria se irritar, não no dia de hoje, não naquele dia em que começaria uma nova vida, a vida que almejava ao lado de Gina.

"Harry, eu não quero discutir sobre isso. Eu estava mesmo muito alterada naquela noite, chateada por você me rejeitar e querendo saber mais".

"Saber o quê?"

Ela piscou.

"Ah, saber o que havia de tão particular em um beijo. Esse é o assunto mais recorrente entre as jovens, seja nos bailes, nas tardes de chá...e convenhamos que eu passei anos e anos ouvindo as conversas entre Helen, Susan e Claire sobre isso. Todas elas haviam sido beijadas, menos eu! E quando eu finalmente senti essa vontade...

Ela enrubesceu adoravelmente.

"..eu pedi a você e você me negou. Negou-me tão incisivamente que eu quis descobrir porque. Compreender como era ser beijada. Mas eu não fiz por mal, Harry! E agora...

Harry acariciou seu rosto para acalmá-la.

"Agora está tudo bem, querida. Agora já passou e você já sabe como é."

O duque sorriu e abaixou-se, depositando um beijo lento e suave em sua testa.

"Mas vamos combinar, Gina – ele continuou - que a partir de agora, qualquer dúvida que você tenha, sobre qualquer tema, você deve recorrer a mim. Ou à Hermione, ou à Helen, que são mulheres casadas. Mas jamais a outro par de calças, está bem?"

"Está bem. – ela sorriu e se remexeu em seu colo - E particularmente, me agradou muito essa regra da fidelidade. Pois eu também não quero nenhuma condessa loira e ousada se jogando em cima de você dentro do seu escritório privado".

Harry riu e segurou o rosto dela entre suas mãos.

"Não há nenhuma condessa loira e ousada, nunca mais! Por que eu precisaria dela se já tenho uma belíssima ruiva como você, querida?" – linda, com esses cabelos flamejantes, os olhos de céu e a boca inteligente.

Harry só esperava que pudesse realmente se contentar com o que podia ter de Gina. Pois não poderia tê-la completamente, da forma carnal e absoluta como tivera a condessa e tantas outras mulheres. Mas nenhuma dessas mulheres tampouco havia chegado na profundeza do seu coração, como Gina. E começava a desconfiar que ela havia dominado todo aquele território e podia mandar e desmandar dentro dele, como uma verdadeira rainha.

"E o que mais?"

Lá estava ela, com sua curiosidade insaciável.

Harry respirou fundo.

"Terceira regra e talvez a mais importante - ele frisou - se trata dos limites físicos".

"Limites físicos" – ela repetiu, os olhos bem abertos.

"Sim. Nós poderemos nos tocar, mas com restrições, de forma cautelosa. Podemos nos abraçar, ficar assim como estamos, perto um do outro, andar de mãos dadas..."

Ele entrelaçou os delicados dedos entre os seus, unindo suas mãos.

"Hum...este cafuné está delicioso..." – ela comentou, referindo-se à outra mão dele sobre seu cabelo – "Isso pode, não pode?"

"Claro que sim, querida. Cafunés são permitidos" – ele riu – "E dentro de casa, se você quiser, nós podemos até dormir juntos na mesma cama, abraçados".

"Como naquela noite, quando você finalmente voltou? A noite da tempestade?"

"Sim, esta noite".

A incrível noite da qual ele fugira e que agora queria repetir milhares de vezes.

"Mas não só quando estiver chovendo, não é?"

"Não! Claro que não. Também quando as noites estiverem estreladas...assim, como estão seus olhos agora".

Ela sorriu, corando. Tão linda!

"Então, podemos dormir juntos todas as noites? No meu quarto e no seu quarto?"

"Sim, Gina, onde você quiser! Alternar pode ser interessante".

"Eu vou amar isso!" – ela beijou as costas da mão dele, sem soltá-la da sua – "Nunca mais terei pesadelos".

Harry tinha certeza que também não, se ele conseguisse de fato dormir, é claro.

Sobre isso, havia um detalhe muitíssimo importante.

"E estando devidamente vestidos também" – ele acrescentou.

Gina franziu a testa.

"Consegue ser mais específico?"

"Claro. Nunca mais use aquele penhoar de seda preto".

Aquela camisola divina com a qual Harry sonhara durante o último mês que passara fora do país e que lhe causara fantasias das mais pecaminosas.

"O que há de errado com o meu penhoar?"

Ele me faz ter vontade de tirá-lo e possui-la, caramba!

"Não é adequado, Gina. Experimente algo de algodão ou lã, de preferência grosso e comprido".

"Eu vou morrer de calor". – ela reclamou.

"O inverno está chegando"

"Mas..."

"São as regras, Ginevra".

Ela bufou, exasperada. E Harry desconfiou que as coisas não seriam tão fáceis assim. E mal havia começado.

"Você precisa colaborar comigo, querida". – ele a ergueu e a abraçou contra o seu peito – "Entenda que mantê-la dessa forma perto de mim já é um grande desafio".

Gina o olhou, esforçando-se para compreender.

"Tudo bem, Harry." – ela suspirou, e então sorriu, mergulhando o nariz no pescoço dele e inalando – "Eu aceito tudo! Todas essas regrinhas inconvenientes! Se for para ficar assim, juntinho de você todos os dias e todas as noites!"

"E assim será, Gina" – ele afagou suas costas – "Eu prometo a você".

Harry também inalou o perfume floral do cabelo dela, inebriando-se. Era tão bom! Se pudesse sentir seu cheiro todos os dias, ele também poderia se contentar com aquela relação casta e pura.

Então bastou sentir o toque da mão dela em seu maxilar que a eletricidade entre eles retornou. Harry abriu os olhos e viu que ela estava perto demais, e mordia sedutoramente o lábio inferior.

"Eu preciso saber... - ela estava sem graça – se beijos também são permitidos".

O coração de Harry disparou dentro do peito.

Então, ele a beijou. Na face. E logo depois no ombro, por cima da manga do vestido.

"Beijos são perfeitamente normais. Até mesmo entre irmãos, sabia?"

Gina revirou os olhos, antes de dar um sorriso lânguido.

"Você sabe que não é esse beijo que eu quero, Harry".

"Existe, Srta. Gina Voluntariosa Potter, uma enorme diferença entre querer e poder".

"Ah, Harry!" – ela estapeou levemente seu peito.

E então o duque segurou seu queixo com firmeza.

"Acalme-se, Gina. Você terá seus beijos".

"Terei?" – um brilho luminoso perpassou seu olhar.

"Sim, querida. Muitos beijos".

Harry já havia pensado em tudo, com detalhes.

"Muitos?"

Oh, ceús! Como ela podia ser tão encantadora? Harry não queria nada mais além de usufruir de seus encantos! Por isso, ele a segurou e a beijou na boca.

A sensação do encontro foi esplendorosa. Mas dessa vez, tudo foi mais rápido. Apenas um toque suave entre seus lábios e os dela. Apenas o suficiente para sentir a sua maciez e temperatura, como uma breve carícia. Quando ele se afastou, ela suspirou.

"Esse foi um beijo casto".

"Casto?"

"Sim, um beijo só de lábios, puro, inocente" – ele explicou – "Como devem ser os nossos beijos a partir de agora".

Gina sorriu, parecendo feliz e satisfeita.

Ela umedeceu os lábios, fazendo o coração de Harry saltar dentro do peito com aquela visão. Entrelaçou os dedos nos cachos negros da nuca dele e o reivindicou novamente para ela, beijando-o. Seus lábios movimentaram-se unidos, numa maravilhosa dança de textura e prazer, numa lentidão deliciosa.

E por mais que não fosse o beijo completo e cheio de vigor que eles haviam dado no baile de Lady Gainsborough, ainda assim era um beijo repleto de carinho e amor. E só pela possibilidade de finalmente poderem se abraçar e trocar suaves carícias em baixo da cúpula do carvalho, pela possibilidade de finalmente estarem juntos e felizes, com sentimentos declarados, com a consciência limpa, era o suficiente para os dois.

Pois o Duque de Hawling sabia que eles não estavam fazendo absolutamente nada de errado, nada de criminoso, além de se amarem, com um amor puro e imaculado. E isso bastava para ele. Pelo menos, por enquanto.