Então gente olá \o Sentiram a minha falta? Ou da fic? Eu espero que sim ^^
Desculpem pela demora. Eu estou passando por um longo bloqueio para escrever a fic e a minha vida deu uma guinada diferente do que eu queria, o que também não tá ajudando muita coisa, mas não se preocupem: sou teimosa o bastante para não desistir.
Vocês que comentam a fic estão me animando um pouco e sempre que eu penso em desistir de publicar, porque isso é um saco, eu penso em vocês e resolvo insistir um pouquinho mais. O que mais gosto em publicar uma fanfic é a interação leitor-escritor e então quando não tenho isso, eu tenho tendência a ficar muito irritada e triste, coisas que não ajudam em nada com o bloqueio que eu tou passando, mas enfim.
Esclareço ainda duas coisas:
A partir de agora os capítulos serão fracionados porque estão grandes demais.
E as coisas vão ficar mais e mais tensas daqui por diante, algumas coisas diferentes da realidade, mas peço licensa porque isso aqui é uma fic, uma obra fictícia e eu tenho liberdade de moldá-la de acordo com o que o plot que planejei precise.
Agradeço a todos que me deram apoio, seja aqueles que ainda estão por aqui, ou os que já deixaram de se importar com tudo isso (e acreditem: teve perdas significativas nessa budega).
Agradeço ainda a minha beta, Kitsune-Lyra pelo apoio e por revisar isso. Eu devo muito a você para continuar a ter fôlego para escrever isso em meio a esse bloqueio.
Sem mais delongas, a fic.
SETE
Jingle Bell Rock
Algumas semanas depois...
-Isso é sério? –inquiriu Itachi completamente incrédulo, erguendo uma sobrancelha e parando de espremer o limão.
O tiroteio, as falas e agora o feitiço idiota. Só havia um filme que encaixava perfeitamente nessa definição. E ele realmente não acreditava que dentre todas as coisas que seu tio poderia ver, dentre todos os filmes que poderia locar, Shisui tivesse escolhido assistir um filme no antigo videocassete da família. Itachi reconhecia a entrada daquela película que, muito provavelmente, foi o primeiro filme de terror que assistiu, embora atualmente fosse considerado comédia.
Todos os filmes antigos eram, na verdade. Por exemplo, "a madrugada dos mortos vivos" era hilariante, melhor do que "american pie". Ainda assim, tinha tantos filmes bons para ver e Shisui escolheu o filme mais ridículo de todos.
-Sério? –inquiriu Itachi de novo, ouvindo o narrador dizendo o nome do filme. -Chucky?
-Yuhull! –respondeu Shisui com animação.
Velhos hábitos nunca mudavam e Shisui Uchiha era mesmo fã de Child's play (1) e Itachi revirou os olhos, sentindo menos que uma fisgada com o ato. Pelas falas, Itachi deduzia exatamente qual cena era: Charles tinha terminado o feitiço, o que significava que o raio tosco ia cair na loja de brinquedos.
-Esse raio é a coisa mais estúpida do mundo. –Itachi resmungou voltando aos seus afazeres.
-Don't fuck with the Chucky! (2) – disse Shisui animadamente no sofá. –Além disso, esse foi o primeiro efeito especial usado em filmes, sabia? Antes só usavam maquetes! Child's play é um marco, respeite-o!
-Tenha dó. –murmurou Itachi desacreditado, ouvindo uma risadinha da tia. –Que horas são?
-Pai nosso, que estais no céu, santificado seja... –respondeu Shisui em um tom animado.
-Não tinha uma mais nova não? –reclamou Itachi, erguendo uma sobrancelha e ouvindo a gargalhada do tio no sofá.
-Clássico é clássico! –respondeu Shisui com a voz animada. -Por isso Chucky nunca fica fora de moda! Basta ignorar as continuações imbecis, agora se der licença...
Suspirando profundamente, Itachi terminou de espremer o último limão na jarrinha, ouvindo o som da faca cortando alguma coisa no balcão da cozinha. Era véspera de natal e de vez em quando passava um carro de som pelo bairro tocando Jingle Bell Rock; Itachi já não aguentava mais essa música.
-Está bom, pode parar agora. –disse Shizune ao seu lado, pegando a jarra onde ele espremia o limão. –São quase três horas.
Quase três horas, ainda era o início da tarde, ainda havia tempo para as visitas esperadas chegarem, mas mesmo assim, Itachi se sentia ansioso. Kisame lhe visitaria naquela tarde, trazendo Suigetsu, mas conhecendo o amigo, Itachi sabia que Kisame só chegaria de noitinha, umas seis ou sete horas; Naruto era outra coisa. O adolescente tinha dito que viria de tarde, mas até aquele momento nada. Como Shizune estava de folga, Naruto foi dispensado de trabalhar naquela manhã, mas prometeu dar uma passadinha de tarde para que os dois conversassem. Nada demais, só jogar tempo fora, e ainda assim Itachi queria que o outro garoto aparecesse logo.
Seus motivos eram bem simples: Sasuke pelo menos grunhia quando Naruto estava no apartamento. Em todos os dias após o interrogatório, Sasuke permaneceu extraordinariamente silencioso, como uma sombra. Não falava com ninguém, como se alguém tivesse cortado sua língua. Seu irmão comia, tomava banho e ficava o dia inteiro no quarto dormindo e um clima de tensão gigantesco ficava no seu apartamento. Shisui praticamente tomou para si o sofá, usando-o como uma cama provisória, e Itachi se sentia terrivelmente mal por estar arruinando as primeiras semanas de casado do tio.
Quando Naruto estava na casa, Sasuke se esforçava para sair do quarto e ficar na sala com eles. Às vezes até grunhia coisas inteligíveis para eles, principalmente quando Naruto quebrava a "regra de distanciamento", basicamente, na cabeça de Sasuke, o Uzumaki só poderia ficar na casa se permanecesse pelo menos uns cinco passos de distância de Itachi; era ridículo.
Primeiro porque não fazia sentido algum, segundo porque lhe dava vergonha ver seu irmão agindo desse modo; era constrangedor! Além disso, Itachi não se importava em ficar próximo de Naruto, de algum jeito que ele ainda não sabia como, ele o outro adolescente se davam muito bem e era sempre muito agradável passar algum tempo com Naruto. Era como ter achado uma nota de cem num dia desagradável. Itachi não conseguia fazer amigos com facilidade, havia mil motivos para isso e Naruto, em tempo recorde, conseguiu ficar bastante próximo dele e Itachi gostava disso.
"E mesmo assim esse tonto ainda não apareceu!" pensou Itachi ligeiramente amargurado com o sumiço do outro adolescente.
-Existe outra coisa que eu posso fazer? –ele perguntou para a tia, desejando mais do que qualquer coisa se manter ocupado.
-Você pode espremer pra mim essas laranjas? –inquiriu a tia bondosamente.
-Claro. –ele respondeu, inalando o cheiro cítrico dos limões que espremeu em sua mão.
A tia se aproximou da mesa onde ele estava, Itachi sentiu o cheiro cítrico e adocicado das frutas pouco antes de Shizune depositar punhado das laranjas cortadas ao meio a sua direita.
-Muito cuidado! –disse a tia. Itachi grunhiu com o tratamento. Nas últimas semanas, até mesmo Shizune estava lhe tratando como um "intensivo de como cuidar de bebês" e isso era frustrante.
-São só laranjas!
-Chiu! –fez Shisui no sofá. -Quero ver o filme!
Mesmo enfezado, Itachi não retrucou, em vez disso tateou a mesa até achar uma banda de laranja e a espremeu com força para sair todo o sumo. Um gomo espirrou água no seu rosto e isso não o ajudou a ficar menos irritado. Entretanto, antes que ele pegasse outra banda da laranja, Itachi virou a cabeça para onde estava a porta, ele tinha escutado passos em frente a sua casa e mal fez isso e a companhia tocou.
-Só um momento! –disse Shizune lavando as mãos na pia e correndo para abrir a porta, provavelmente enxugando as mãos no avental. De onde estava, Itachi ouviu a voz espalhafatosa e sua irritação sumiu quase que instantaneamente. –Oi Naruto-kun! Quer entrar?
-Sim sim, boa tarde Shisui-san ooooow Child's play! –disse Naruto com a sua voz alta e espalhafatosa e Itachi reprimiu um sorriso ao sentir o cheiro peculiar de pêssegos assados. -O único vilão dos anos noventa que usa o cérebro!
-Aê! –murmurou Shisui alegremente. -Até que enfim alguém que sabe apreciar arte!
-Ai meu Deus, até você? –comentou Itachi bem humorado.
-Oi Itachi! –cumprimentou Naruto com alegria, vindo em sua direção; o som de uma sacola plástica se movendo não fugiu da atenção de Itachi. –Sentiu minha falta?
-Só faltei chorar o Nilo. –ele respondeu em um tom sarcástico e Naruto riu um pouquinho mais e Itachi sorriu um pouco também.
-Advinha o que eu trouxe pra você? –inquiriu Naruto com a voz alegre puxando a cadeira ao seu lado e se sentando em seguida, colocando uma sacola com algo pesado na mesa.
-Nossa, Naruto-kun! Que linda!-exclamou Shizune com contentamento. –Foi você quem fez?
-Sim!
Bastava inspirar o ar para sentir a doce fragrância dos pêssegos assados e do creme de baunilha. Itachi parou de espremer a laranja, enquanto ouvia a sacola plástica ser revirada e uma tigela de vidro ser depositada na mesa. Se o doce fosse tão bom quanto cheirava (e ele tinha a ligeira impressão que sim), Itachi poderia responder que aquilo era um pedacinho do céu: ele adorava torta de pêssego!
Ok, certo: de que doce ele não gostava?
-Hn, talvez alguma forma de pedir um aumento com delicadeza? –Itachi comentou sério, ou o mais sério que conseguia ser ao lado de Naruto e isso, ultimamente, estava bem difícil.
-Poxa! –exclamou Naruto em um tom falsamente ofendido que arrancou mais um sorriso de Itachi. -As pessoas não podem simplesmente quererem agradar aos seus chefes? Você magoou meus sentimentos agora!
Itachi deu uma risadinha baixa enquanto Naruto ria gostosamente ao seu lado. Mesmo a tia riu baixinho, o que fez Shisui aumentar o volume da televisão em alguns pauzinhos, justamente na parte em que uma mulher gritava. Talvez a mulher que tinha se jogado do andar? Itachi não lembrava. Shizune tinha voltado aos seus afazeres no balcão, provavelmente a tia estava na luta para temperar o chester; o cheiro de sumo de limão, pimenta do reino, orégano e alecrim estavam muito fortes em seu nariz. Na verdade, toda a sua casa cheirava a comida!
-Sendo assim, vou aceitar essa torta. –disse Itachi bem humorado. –Obrigado Naruto.
-Nah! –murmurou o Uzumaki com satisfação. –Eu gosto de cozinhar, desde que não me encham o saco. Tenho até que voltar cedo pra casa, não quero que meu pai ou a minha mãe se metam na minha cozinha. Papai disse que ia sair cedo hoje pra me ajudar, urg.
Era incrível que mesmo com o passar dos dias, falar de Minato com Naruto ainda era desconfortável para Itachi. Alguma parte dele ainda era atraída pelo médico e essa parte era extremamente inconveniente porque usava Naruto para saber mais coisas sobre o médico e isso era infrutífero. Itachi sabia disso, mas não tinha como se refrear às vezes, especialmente porque Naruto tinha muito orgulho dos pais, assim como em alguns momentos parecia ter uma falta de comunicação com Minato.
Naruto lentamente ia contando coisas sobre si nas manhãs em que passavam juntos e Minato parecia exercer uma cobrança surreal no filho, algo que Itachi compreendia tão bem que chegava a ser patético; Fugaku agiu assim com ele também.
Sasuke bufava muito nesses momentos, porque inevitavelmente ele e Naruto acabavam se aproximando um do outro instintivamente. Em uma analogia completamente descabida, era como se ele e Naruto fossem um casal namorando na sala, na frente do pai da moça. Itachi odiava exercer o papel de moça nesse exemplo, ainda bem que isso só estava na sua cabeça, mas ainda assim era frustrante demais!
-Ele 'tá de plantão?
-Uhum, mamãe também. –respondeu Naruto animadamente, mas em um tom de voz mais baixo. –Deixei o peru na geladeira e vim pra cá, hoje o rango é pra família toda! Vovó, ero-vô, vô doidão e acho que até alguns amigos do meu pai vão. Tenho que preparar um banquete!
-E vai dar tempo Naruto-kun? –perguntou Shizune em um tom apreensivo. –Eu estou há três horas só tentando temperar esse chester!
-Ah, eu já temperei o peru. Falta eu fazer os acompanhamentos, ainda não decidi o que fazer, por isso dirigi até aqui. –respondeu Naruto de maneira afável. –Dirigir é um bom momento pra fazer escolhas sei lá por que. Como vai meu malvado favorito?
Itachi deu uma risadinha para o novo apelido de Sasuke, embora ele preferisse o apelido anterior: grumpy cat. Naruto fazia o possível para fazer com que seu irmão saísse do torpor habitual e era extremamente criativo ao tirar a paciência de Sasuke, contudo, naquela semana, os dois jovens não brigaram nenhuma vez. Embora Naruto fosse o único que conseguisse alguma reação do seu irmão, já que Sasuke grunhia com raiva e isso era um progresso. Quando Itachi tentava falar com o irmão, este apenas se virava para o outro lado e o ignorava completamente, o mesmo para Shisui e Shizune.
-Misery (3). –respondeu Itachi com a voz sombria.
-Esse também é um ótimo filme! –comentou Naruto se erguendo da cadeira. –Deixa eu ir lá falar com ele, não fiz essa tortinha de limão a toa.
-Boa sorte.
-Ela é bem vinda sempre!
Com um arrastar da cadeira, Naruto se dirigiu ao quarto e Itachi apurou a audição, tentando se concentrar nos adolescentes e não no filme. A porta do quarto foi aberta com um rangido baixo. E não era ilusão sua o clima tenso que voltava a reinar na casa, mesmo que a TV ainda estivesse ligada. Os movimentos de Shizune estavam mais lentos do que antes e Itachi podia apostar que Shisui se retesou no sofá; ele próprio demorava mais para espremer as laranjas.
-Sasuke? –chamou Naruto abrindo a porta do quarto. -Cara você 'tá fedendo... Ei! –houve uma movimentação. O estrado da cama rangendo alto e passos pesados. -Ai! O que você 'tá...!
Itachi não sabia deduzir bem o que é que estava acontecendo, Naruto e Sasuke grunhiam baixinho e ofegavam, como se estivessem fazendo algum esforço físico. Seus pés sendo arrastados no chão, como se estivessem se empurrando? Itachi estava achando difícil entender a situação. Mas seu coração disparou quando Shisui pausou o filme e Shizune parou de cozinhar. Ele temia a reação do tio com aquilo. Sasuke testava Shisui até o limite e Itachi sabia que o tio iria estourar a qualquer momento e isso ele estava tentando remediar, mas naquelas circunstâncias tudo fugia ao seu controle.
A porta do quarto foi fechada, alguém escorreu por ela até que houve o ruído de algo duro batendo no chão. Naruto deu um longo suspiro e Shisui voltou a dar play no vídeo e Shizune a cozinhar.
-Você não vai nem me deixar entrar? –inquiriu Naruto com a voz incerta. -Mas você 'tá aí atrás da porta, né?
Não houve nenhuma resposta, mas Naruto deu uma risadinha baixa e cansada, que Itachi interpretou como se o garoto tivesse razão. Ele espremeu mais uma laranja, percebendo que Shisui abaixou o volume da televisão enquanto Shizune voltava aos seus afazeres, cantarolando baixinho, embora sua voz tremesse. Naruto soltou uma risada nasal sem graça nenhuma.
-Você não vai se livrar de mim, se é isso que você pensa. –afirmou Naruto calmamente. -Sabe aquela tortinha de limão, aquela que eu sempre faço pra ti? Eu fiz esse ano de novo.
Desde quando Sasuke comia doce? Isso verdadeiramente surpreendeu Itachi. O Sasuke que conhecia era um extremista quanto a doces, talvez até mesmo para balancear o quanto Itachi gostava. Ele suspirou, enquanto espremia a última banda de laranja. -Não quer sair daí pra comer? –inquiriu Naruto com a voz agradável. -Eu me esforcei pra não ficar muito doce, eu sei que você não gosta.
O filme continuava com Chucky mostrando ser um grande amigo, queimando seu parceiro de crime em uma explosão. Shizune veio até a mesa onde ele estava, pegando o suco de laranjas. Ele se ergueu, caminhando rapidamente até a pia e lavou as mãos. Mal fez isso e sua tia pediu para que ele ralasse um queijo, ele novamente se sentou na cadeira e Shizune lhe deu uma tigela, o ralador e o queijo.
-Sabe, eu tenho um bocado de coisa pra fazer hoje, mas não vou arredar o pé daqui até você abrir essa porta. –continuou Naruto após algum tempo. -Você sabe disso, né?
Mesmo com todos os outros sons que preenchiam o apartamento, Itachi ouviu um grunhido do outro lado da porta e isso lhe fez sorrir um pouco. Aos poucos, a tensão do apartamento amenizava um pouco, pelo menos, Shizune cantarolava menos tensa.
-Eu escutei isso! –disse Naruto bem humorado. -Hoje é véspera de natal, dia de me escravizarem, urg. –comentou o Uzumaki falsamente ressentido e mesmo Itachi percebia isso. -O que você acha que eu devo preparar para eles? Ano passado você gostou daquela maionese de forno que eu fiz, né?
Mais silêncio por parte de Sasuke e Itachi se concentrava apenas na voz de Naruto, enquanto tentava ralar o queijo sem se sujar muito. Era chato porque a tigela revirava quando ele fazia muita força, mas, aos poucos, ele conseguiu um ritmo estável enquanto o pedaço de queijo diminuía.
-Será que faço ela de novo? Ela é fácil de fazer, lembro que vai batata, cenoura, ervilha, miolo de pão pra dar textura... –enquanto Naruto dizia a receita, um grunhido alto foi ouvido e Naruto acabou rindo. -Sabe, se você não abrir a porta eu vou usar meu ataque fatal contra você!
-Hah! –zombou Sasuke.
-Ah, você quer saber qual é, é? –inquiriu Naruto com a voz mais animada. -Vou cantar a música do elefantinho até você abrir! –Sasuke bufou alto com a resposta e Itachi sorriu levemente. -Eu 'tou falando sério! Na verdade, mudei de ideia! Vou mudar a letra pra: um Sasuke incomoda muita gente, dois Sasukes incomodam, incomodam muito mais! Três Sasukes...
Itachi reprimiu uma risadinha ao ouvir o Uzumaki cantando a infamada canção: aquilo era golpe baixo. Não havia uma pessoa na face da terra que tinha paciência para aturar aquela música. Shizune também riu baixinho e Shisui respondeu à música aumentando ainda mais a TV.
-Hunf. –fez Sasuke e com um rangido suave, a porta foi aberta.
-Thank you!
Com passos suaves, Naruto entrou no quarto e a porta foi fechada com delicadeza e Itachi se concentrou em finalizar seu trabalho. O pedaço do queijo já estava pequeno e ao ralar, seus dedos também eram pressionados com a estrutura de plástico quase que dolorosamente.
Nada que ele não conseguisse terminar com alguma dignidade. Ele terminou de fazer isso e Shizune disse que ele tinha que amassar algumas batatas. Itachi não entendia para que tanta comida, seriam só quatro pessoas que precisariam comer os restos do natal pelo resto da semana. Mas não era exatamente isso que lhe incomodava: ele queria saber o que os dois adolescentes faziam.
Naruto conseguia alguma reação de Sasuke, isso era obvio. Nesses dias que se passaram foram apenas grunhidos e ele sempre pôde estar junto para evitar que Sasuke se excedesse, mas agora os dois estavam sozinhos no quarto. E Shisui estava bem ali na sala. Itachi não tinha medo pela segurança de Naruto, nem pela de Sasuke: ele já entendia bem que machucados eram comuns na amizade dos garotos e isso funcionava. Pedir para que eles parassem era quase se meter no meio de uma discussão entre marido e mulher.
Por outro lado, seu tio não compreendia como funcionava a amizade entre os dois jovens e estava por um fio com Sasuke. Não que Itachi pudesse culpar Shisui, Sasuke estava impossível nos últimos dias. Não falava, era mal-criado e, às vezes Sasuke sequer tinha vontade de comer! Seu irmãozinho parecia um passarinho preso numa gaiola, completamente esquecido de como era seu canto e isso era difícil não só para Sasuke, mas todos ao redor dele.
Itachi se limitou em ir novamente até a pia para tirar a oleosidade do queijo de seus dedos, no mesmo momento que Chucky se divertia torturando seu ex-mentor. Entretanto, nem os gritos de dor vindos da televisão, nem o fluxo de água da torneira abafaram um grunhido de dor vindo do quarto, seguido pelo estralar da cama; Itachi só podia prever que o inevitável aconteceu. Depois de dias, Sasuke e Naruto estavam brigando.
-Esse moleque...! –grunhiu Shisui pausando o vídeo de novo.
Rapidamente, Itachi desligou a torneira, sem sequer se importando em limpar as mãos ainda molhadas na roupa, ignorando completamente o frio que sentia pela água gelada em sua pele. Shizune prendeu a respiração e Shisui se levantou do sofá.
-Não, eu vou! –ele disse rápido, tateando pelo balcão e tentando ir até o quarto. –Por favor!
-Hunf! –grunhiu Shisui voltando a apertar play no vídeo e os gritos de dor voltaram, enquanto Itachi caminhava até o quarto.
Seu coração parecia estar na palma da sua mão: Shisui não poderia perder a paciência ou então tudo iria ficar ainda pior. Itachi respirou profundamente para se acalmar, enxugando as mãos no moletom que usava, ele apertou o tecido sobre suas cochas e parou em frente ao quarto.
-Que?! Que merda de ideia jacu é essa porra? –perguntou Naruto de um jeito totalmente ofendido dentro do quarto.
O som de alguém se levantando e passos rápidos soaram no quarto, seguidos de uma queda estridente e Naruto grunhiu de dor. Outro som abafado soou e Naruto produziu um ruído de como se tivesse sido esmagado, antes dos primeiros sons de socos e pontapés chegarem aos seus ouvidos. Itachi tateou a porta até encontrar a maçaneta enquanto escutava os dois jovens no quarto. Parecia que estavam rolando no chão porque alguém se bateu no criado mudo deixando alguma coisa cair no chão. Sasuke resmungou alto, sua voz abafada e com evidente rastro de dor (provavelmente quem se machucou foi ele). Itachi segurou a maçaneta com força, prendendo a respiração e não sabendo se deveria entrar ou não.
Brigas eram o jeito dos adolescentes se resolverem, além disso, ele estava cego! Não era como se pudesse entrar no quarto e conseguir apartá-los sem se cair no meio do processo! Mas havia Shisui que não compreendia a situação e...
-Eu 'tou preocupado contigo seu Mané! Urg! –resmungou Naruto com a voz abafada. -Me solta!Aaaah!
Itachi abriu levemente a porta, fazendo um ruído suave que ninguém, além dele, pareceu prestar atenção. Os adolescentes pararam de rolar no chão e respiravam de maneira ofegante, Itachi pensava se seria seguro entrar agora. Ele respirou profundamente para tentar se acalmar e decidir como agir com os jovens, porém não teve tempo para chegar a qualquer conclusão: a TV novamente foi pausada.
-Itachi, se você não for, eu vou! –resmungou Shisui com um tom irritado.
-Não, eu vou. –Itachi respondeu com calma, ou toda a calma que sentia no momento. Seu nervosismo estava em níveis alarmantes!
Em passos rápidos e silenciosos, ele entrou no quarto, tentando não sobressaltar os jovens e ganhar alguma ação impensada dos dois, depois fechou a porta em um "clic" rápido. Nenhum dos garotos reparou em sua presença, ambos continuando a respirar de forma ofegante após a briga recém travada. Naruto grunhia com raiva e um pouco de dor, a respiração de Sasuke estava barulhenta, ambos os sons vinham da sua direita. Se fosse para deduzir, Itachi chutava que seu irmão de alguma forma imobilizou o Uzumaki entre o chão e a cama de Sasuke, possivelmente os dois estavam de joelhos no chão porque a respiração de Naruto soava diferente, como se estivesse em algum lugar abafado. Era diferente da respiração de Sasuke.
-Não... Eu não vou soltar... –murmurou Sasuke, falando pela primeira vez em dias. Sua voz estava baixa e rouca, mas tinha um tom zombeteiro definitivamente maligno nela. –Você vai me ouvir agora, Usuratonkachi...!
Sasuke investiu contra o corpo de Naruto, o som dos corpos se aproximando foi rápido e seco, e em seguida houve um som estranho de tecido sendo repuxado e Naruto gemeu de um jeito sôfrego, respirando de forma entrecortada. Era como se o Uzumaki tentasse engolir a dor ou alguma coisa assim. Talvez Sasuke deva ter imobilizado Naruto puxando um dos braços dele para trás ou alguma coisa assim. Itachi abriu a boca para mandar Sasuke soltar Naruto, quando o Uzumaki soltou uma risada abafada. E Itachi ficou tão surpreso com o riso que até esqueceu o que iria dizer.
-Huh, não sabia que você queria tanto me comer! –grunhiu Naruto com a voz abafada e baixa.
A resposta de Sasuke foi violenta. Com a confirmação do que ele tinha presumido, Itachi ouviu o braço de Naruto ser puxado com mais força e um estalo soou no quarto, junto do tecido da roupa do garoto. O Uzumaki produziu um som gutural cheio de dor e Sasuke se posicionou melhor, pelo som dos seus joelhos tocando o chão, pelo menos, Itachi achava que eram os joelhos. O som foi alto e oco, se fossem os pés o som seria mais amplo.
-Aaaaah você vai quebrar meu braço! –grunhiu Naruto com a voz urgente. Itachi finalmente estava começando a ficar bom nessa coisa de deduzir tudo pelo ouvido.
-Sas... –tentou Itachi, mas sua voz foi abafada pela a do irmão.
-Cala a boca e escuta! –disse Sasuke com urgência, produzindo um som estranho e que fez Naruto grunhir de novo, mas dessa vez era de raiva; a respiração do Uzumaki estava entrecortada e rápida. -Deixa meu irmão em paz! Ele não!
Naruto grunhiu com dor e Itachi ouviu um osso estalar alto, enquanto os dois adolescentes respiravam com dificuldade, o Uzumaki gemendo baixinho de dor enquanto Sasuke parecia morder alguma coisa e um grito baixo de Naruto soar no quarto. Grande adulto ele era, presenciando uma cena dessas e não fazendo nada! Itachi pigarreou para mostrar que estava no quarto, o que é que esperavam que ele fizesse? Saber a direção onde os dois estavam não minimizava seu desconforto ou lhe dava alguma dica de como agir!
-Você pode dar a merda do seu rabo pra qualquer um, mas não ele! –afirmou Sasuke com a voz quase alucinada. -Ele eu não aceito! Entendeu?
-E o que o Itachi tem a ver com isso?! –tentou dizer Naruto.
-Agora já chega Sasuke! –mandou Itachi com a voz firme e isso lhe deixou feliz, porque tudo o que ele menos tinha no momento era segurança em como reagir com a situação.
-Nii-san...! –murmurou Sasuke baixinho e assustado. Ao que parece, o susto foi grande o bastante para ele largar Naruto que deu um longo suspiro aliviado, se levantando e se sentando em uma das camas.
Se fosse para apostar, Itachi diria que o Uzumaki escolheu a sua cama para fazer isso. Sasuke ficou no mesmo canto, enquanto Naruto respirava lenta e pausadamente.
-Você está bem, Naruto?
-'Tou sim, só tira essa mistura de Mike Tyson com Nosferatu da minha frente! –foi a resposta de Naruto. –Vamos lá pra fora!
-Certo... –disse Itachi incerto sobre como agir. Naruto se levantou da cama e veio em sua direção.
-E só pra constar uma coisa, Teme. –avisou Naruto com a voz magoada, parando ao seu lado. –Não é porque você 'tá na merda que você tem o direito de falar merda pra mim. Por mais que eu me importe contigo, quem dita o que eu vou fazer sou eu! E você não tem nenhum direito sobre mim!
Sasuke ficou em silêncio e ainda estava no chão quando Itachi fechou a porta do quarto atrás de si, voltando a inspirar profundamente. Seu corpo roçou no de Naruto, seu peito roçando nas costas do Uzumaki e ele deu um passo para trás. O mais novo deu um longo suspiro e televisão foi pausada de novo.
-Você está bem? –perguntou Shisui com a voz anormalmente séria e gélida, fazendo Itachi retesar. –Você está com o pescoço machucado.
-Ele me mordeu. –respondeu Naruto com objetividade. Se movimentando e fazendo novamente seu braço produzir um estalo rápido. Quando voltou a falar, Naruto já mostrava que estava "bem". –Se me mostrarem um atestado de que ele foi vacinado contra a raiva, eu já ficaria muito feliz.
-Venha aqui Naruto-kun. –disse Shizune com a voz amável, apesar de trêmula. –Eu vou cuidar disso!
-Não, tudo bem. –afirmou Naruto parecendo um pouco assustado. –Eu não posso chegar em casa com uma gaze no pescoço! Minha mãe me mata se isso acontecer!
-Mas tem que limpar isso! –resmungou Shizune em um tom maternal.
O adolescente suspirou e caminhou até a cozinha, arrastando uma cadeira e se sentando. Durante todo esse tempo a televisão ficou pausada e Itachi queria muito saber o que se passava na cabeça de Shisui, ao mesmo tempo em que sentia medo do que o tio poderia fazer. Ele encostou suas costas na porta atrás de si, se sentindo muito cansado de repente. Shizune andava pela casa em seus passinhos rápidos e pequenos, algo tão característico dela que Itachi sempre prestava atenção. Um armário foi aberto, provavelmente a tia tinha ido atrás da malinha de primeiros socorros.
Naruto estava sangrando por causa de uma mordida de Sasuke e algo lhe dizia que em nenhuma outra briga dos dois garotos houveram mordidas. Com um suspiro alto, Shisui ligou a TV e Itachi prestou atenção nas falas.
We're friends to the end, remember?
This IS the end, friend. (4)
Nós somos amigos até o fim, lembra?
Esse É o fim, amigo.
Foi a vez de Itachi suspirar profundamente e caminhar até a mesa, onde Shizune trabalhava no ferimento de Naruto. Itachi se sentou em uma das cadeiras, apoiando o cotovelo esquerdo na mesa e encostando sua cabeça na mão esquerda, a mão direita estava sobre a mesa, de qualquer jeito. Um desânimo surreal o invadiu e tudo por causa dos últimos minutos. Ele se sentia terrivelmente mal pelo que Sasuke tinha feito, mesmo que não fosse sua culpa.
Seu irmão estava com ciúmes de Naruto e não havia nada para ter ciúmes, não que isso mudasse as coisas. Ele e Naruto eram amigos e, de qualquer forma, não era como se ele pudesse ou conseguisse se sentir romanticamente atraído pelo seu irmão. Havia alguém por quem ele estava atraído, alguém que ele gostaria de andar por aí de mãos dadas e toda a baboseira romântica.
Alguém que não era nem Sasuke, muito menos Naruto.
Droga, e essa pessoa porque ele se sentia atraído era o pai do melhor amigo de seu irmão, o qual recebia os ciúmes infundados de Sasuke! Itachi passou a mão pelos cabelos em um gesto frustrado, Shizune soprava ao seu lado e Naruto estava em silêncio. Era uma situação extremamente estranha e confusa! E pensar que no ano passado ele estaria ocupado temperando o chester em vez de Shizune e pedindo para Sasuke passar o natal com ele, em vez de na casa de alguém ou em alguma festa.
-Sinto muito... –ele disse baixinho.
-Pelo que? –perguntou Naruto com a voz baixa e gentil. Shizune se afastou indo de volta ao balcão. –Você não tem nada a ver com isso.
Naruto se esticou na mesa e segurou sua mão, Itachi automaticamente entrelaçou seus dedos ao do garoto, que estavam gelados, mas ainda assim mostravam mais conforto do que Itachi poderia admitir. Ele gostava da simplicidade de Naruto, era fácil conversar com o garoto e era mais fácil ainda relaxar, aproveitando a paz e alegria que o adolescente emanava.
Se no começo ele encontrava dificuldades em confiar em Naruto, agora ele via que estava errado: Naruto era experto em quebrar as barreiras que as pessoas construíam ao redor de si mesmas. Pelo menos, Naruto quebrou toda a sua insegurança inicial sem nem muito esforço. Era muito simples ser amigo de Naruto porque o garoto era, sem favor algum, uma dessas pessoas que todo mundo gosta. Será que era por isso que Sasuke sentia ciúmes? Itachi bufou e Naruto deu uma risadinha.
-Você é engraçado, às vezes. –murmurou o Uzumaki com a voz descontraída, soltando a sua mão. Shizune reclamou baixinho que estava faltando ervilhas. –Tenho que ir, ainda quero passar no mercado e comprar alguns chuchus vermelhos.
Itachi se empertigou em sua cadeira e franziu a testa.
-Chuchu vermelho?
O Uzumaki deu uma sonora gargalhada e Itachi franziu os lábios em desaprovação. Era uma pergunta séria!
-É, cerejas! –respondeu Naruto animadamente. –A maioria das cerejas em calda é chuchu! Daí chuchu vermelho.
Itachi murmurou um "affe", revirando os olhos pela obviedade das palavras de Naruto e isso causou mais uma risadinha no garoto. Conversar com Naruto era muito fácil, Itachi duvidava que qualquer pessoa resistiria a conversar com o outro.
-Quer vir junto? –perguntou Naruto animadamente. –Aí eu compro as ervilhas que você precisa, Shizune-san.
-Mas não seria incômodo, Naruto-kun? –inquiriu Shizune. –Não queremos que o Itachi desvie a sua rota.
-Besteira, eu tenho que ir no mercado comprar meu chuchu. –Itachi revirou os olhos de novo. –Você parece a tia do exorcista quando faz isso.
E num passe de mágica, Shizune e Shisui explodiram em risadas e Itachi sentiu suas bochechas queimando de um misto de raiva e vergonha. Vontade de cavar um buraco no meio da cozinha não faltou, entretanto, ao mesmo tempo em que ele sentia essa vontade, ele não conseguia ficar realmente irritado porque toda a tensão no apartamento por causa dos últimos minutos desapareceram. Quer dizer, no minuto anterior, Shisui estava prestes a ir dar uma bronca em Sasuke e agora até pausou o filme só para rir! E não era um filme qualquer, era Chucky, bem na parte final.
Shisui dava socos no sofá e Shizune se apoiou na bancada, ambos sem parar de rir um segundo sequer e a imagem mental fez com que Itachi se divertisse um pouco.
-Desculpa! Eu não...! –Shizune tentava dizer e parar de rir, mas a risada escapava do seu controle.
Naruto começou a rir também, aquele som alto, espalhafatoso e alegre que contagiava a todos e mesmo um pouquinho chateado, Itachi acabou cedendo e rindo com todos. A situação era extremamente surreal e incomum, não era para rir tanto, mas ninguém conseguia parar de rir por algo tão idiota. O pior? É que quando todos estavam parando de rir, bastava que alguém fraquejasse e todo mundo voltava a rir. Sua barriga estava doendo pelo esforço e Itachi se perguntou qual foi a última vez que tinha rido assim.
-Ai minha barriga... –murmurou Shisui entre o riso. –Essa foi boa Naruto-kun!
-O quê? –inquiriu Itachi bem humorado. -Isso é um complô contra deficientes visuais?
O adolescente deu uma risada mais sapeca, do tipo que antecede alguma travessura. Itachi sabia dizer isso porque sempre quando Naruto maquinava um novo apelido para seu irmão, ele inevitavelmente dava essa risadinha.
-Eu me esforço! –respondeu Naruto alegre. –Então, você vem?
-Eu 'tou de moletom!
-Troca uai. –retrucou Naruto. –Além disso, não é como se você fosse sair do carro. O supermercado deve 'tá um inferno.
-Ok, espere um pouco. –disse Itachi, se lembrando que tinha deixado um jeans no banheiro.
-'Tá.
Naruto voltou a se sentar na cadeira, enquanto Itachi foi até o banheiro, logo tateando a parede até encontrar o jeans e se trocando o mais rapidamente que podia, ficando feliz que dessa vez ele não se bateu nenhuma vez enquanto se trocava. A perspectiva de sair de casa mais uma vez era animadora, especialmente porque poderia ficar sozinho com Naruto e os dois poderiam conversar sobre o momento anterior. Em contra partida, isso significava que Shisui ficaria sozinho em casa com Sasuke, o que com certeza significava que os dois conversariam e isso era preocupante. Porém Shizune estava em casa e nada muito grave iria acontecer, ao menos, era o que ele esperava.
Itachi suspirou, passando a mão nos cabelos em um gesto inconsciente e tentando refletir se era mesmo prudente sair de casa. Sua prioridade era o bem estar de Sasuke, ajudar o tolo do seu irmão a sair desse vício e estar ao seu lado. Naruto conhecia Sasuke melhor que ele e conversar com o garoto fazia um bem danado para sua autoestima. Todavia o que Shisui poderia falar com Sasuke enquanto eles estavam fora poderia fazer com que seu irmão se fechasse mais ainda.
Era arriscado sair de casa depois do que aconteceu, mas Itachi não teria muitas chances de falar a sós com Naruto nos próximos dias. Além disso, ele estava com um péssimo pressentimento de que se as coisas estavam ruins agora, tudo iria piorar.
-Pronto. –ele disse ao sair do banheiro.
-Ótimo.
Shisui lhe obrigou a usar um sobretudo pesado e fez umas recomendações ridículas de "pai preocupado com o primeiro encontro da filha" que realmente lhe fez ficar frustrado, principalmente porque ele novamente precisou segurar o braço de Naruto como uma dama segurava seu cavalheiro na idade média. Itachi estava um pouquinho receoso do que aconteceria no apartamento depois que saísse, mas resolveu tentar não pensar nisso no momento e lidar com Sasuke mais tarde, porque ele definitivamente teria uma conversa com Sasuke. Seu irmão tinha que entender algumas coisas e se conscientizar de que precisava de ajuda.
Naruto o guiou para fora do apartamento e assim que pisaram na rua foram agraciados com um vento gelado cruel que, para variar, bagunçou seus cabelos de novo. O Uzumaki o puxou para a direita e eles caminharam em um silêncio confortável enquanto dobravam a esquina, a rua estava bastante silenciosa; o que o final do ano não fazia, hein? Eles chegaram ao carro e Naruto lhe orientou tão bem a entrar no carro que ele bateu a testa na lateral do veículo e Itachi grunhiu com raiva.
-Desculpa, desculpa, foi sem querer. –desculpou-se Naruto parecendo constrangido e arrependido, nada que fizesse Itachi parar de franzir os lábios em frustração. –Machucou muito?
-Eu vou sobreviver.
-Glória Gaynor, 1978. –disse Naruto em tom ameno. –E antes das piadinhas, eu sou fã da Glória Gaynor, não apenas dessa música.
-Mas eu não ia dizer nada. –Itachi se defendeu e sorriu.
-Aham, sei... –comentou Naruto desconfiado e ligando o motor do carro, imediatamente uma voz baixa e suave soou. Mas Itachi não entendeu nada do que o vocal cantava.
O ritmo da música era suave, Itachi conseguia ouvir o baixo e a bateria com facilidade, a guitarra era apenas um complemento e ele realmente não fazia ideia de que estilo era aquele, muito menos o idioma que soava enrolado e com um sotaque carregado.
-O que é isso? –ele perguntou franzindo a testa enquanto colocava o cinto. –Alemão?
-Aham. Der Morgen Danach, do Lacrimosa. –respondeu Naruto, manobrando o carro. –Por algum motivo essa música me lembra o Sasuke.
-Como é a letra?
Naruto ficou em silêncio e a música seguia em um ritmo próprio, era rock, mas havia um toque requintado que Itachi desconhecia que músicas de rock pudessem ter. Não era ruim, mas ele não escutaria outra vez; a música era um pouco triste. Talvez combinasse com Sasuke por isso. O carro parou suavemente, talvez algum sinal vermelho.
-Fala de amar alguém a distância. –respondeu Naruto em um tom sério. –E nunca ser notado.
Itachi se virou para o lado, de onde a voz de Naruto saía. O adolescente mexeu na marcha e o carro voltou a rodar tranquilamente, enquanto a música tocava, a cada nota ficando mais e mais encorpada, assim como o desconforto de Itachi ao ouvir a resposta de Naruto.
-O vocal canta que precisa da luz da pessoa amada, que ele a idolatra, a respeita, que ele a deseja. –continuou Naruto em um tom de voz imperscrutável. –Ele escreveu uma carta, dizendo seus sentimentos e esperando ser reconhecido.
Com um aperto no peito, Itachi se lembrou na página no caderno de Sasuke e uma tristeza sem fim voltou a invadi-lo. Em momentos assim ele chegava a pensar se tudo não seria mais simples se ele tentasse corresponder aos sentimentos de Sasuke, só que apenas de pensar nisso, na possibilidade de beijar Sasuke todo seu corpo e mente repudiavam o ato. Sasuke era o seu irmãozinho. Droga, se fosse para ser franco, muito franco consigo mesmo, Sasuke era praticamente um filho para ele. Não dava, não dava!
-O que você 'tá pensando? –perguntou Naruto em um tom sério.
Itachi colocou uma mão na testa e tentando pensar em alguma maneira de não responder a pergunta. A música estava lhe dando muita agonia, muito mais do que ele queria admitir. Com um suspiro longo e pesado, as palavras simplesmente escapuliram.
-Que se eu correspondesse ao que ele sente por mim... –respondeu Itachi sendo sincero e sem nem entender porque quis responder a essa pergunta. -Talvez...
-E quem salvaria você? –inquiriu Naruto com a voz séria e firme.
Aquilo o pegou de surpresa. Itachi tirou a mão da testa e voltou a se virar para o lado de Naruto. Decerto, agindo como Sasuke esperava dele, ele próprio sairia machucado, talvez irreversivelmente. Porém se isso ajudasse Sasuke, então seria um preço razoável, não?
-Além disso, não é certeza que ele pararia. –continuou Naruto, ainda com a voz séria. -Sasuke 'tá muito no fundo, Itachi. Eu estive pensando nisso esses dias, só nós dois não é o bastante. Nós somos o apoio dele, mas ele precisa de ajuda de um profissional.
-Ele não é louco. –Itachi disse rapidamente.
-Não. –concordou Naruto. -Ele não é, mas está muito machucado.
Aquelas coisas ele sabia, mas ainda assim não era fácil falar sobre isso. O carro seguia em frente, ao que parecia, a rua estava com pouquíssimo movimento e o silêncio na cidade era quase aterrador, embora vez ou outra tocasse Jingle Bell Rock em uma ou outra loja; Itachi não se importava. Naruto parou o carro outra vez e a música alemã parou de tocar, Naruto se moveu, fazendo o cinto de segurança estalar rapidamente, logo uma caixinha foi aberta e revirada, Itachi deduzia que o garoto fosse trocar a música. Dito e feito, logo Jhonny B Good tocava em alto e bom som.
-De volta para o futuro? –inquiriu Itachi de repente. -Sério?
-Clássico é clássico. –confirmou Naruto com a voz macia voltando a dirigir.
-Desisto de vocês. –Itachi comentou agradecido pela mudança de assunto.
Naruto deu uma risadinha rápida e um silêncio confortável voltou a reinar entre os dois. A mudança na música fez uma diferença grande, mesmo que Itachi ainda estivesse pensando em seu irmão. O que Naruto falou tinha sentido e Itachi realmente tinha que considerar. Acontece que o fardo pesava demais: todo mundo estava perdido. Todas as portas se fechavam na sua cara, isso o deixava desanimado.
E ali estava Naruto ganhando espaço na sua vida justamente por tirar esse desânimo que às vezes o atacava.
Era estranho estar tão próximo de um adolescente de dezessete anos e, pior, receber conselhos de um; era uma facada no seu orgulho. Ainda assim ele não dava à mínima porque Naruto, de coração, parecia se importar, só que isso não afastava todos os seus receios.
Itachi tinha consciência de que tudo foi um acordo mútuo, onde um topava ser a válvula de escape do outro até a tempestade amenizar, ele sabia disso, Naruto sabia disso, mas, às vezes, Itachi sentia uma fragilidade tão grande quanto a isso. Porque quanto mais ele tentava acreditar que era apenas um acordo, menos os dois se comportavam como se tudo fosse só um simples contrato.
Confusão era uma palavra insignificante para descrever a sua vida agora. Havia tantas coisas a se preocupar, Madara, trabalho, colação, diploma, Sasuke, o lance com Minato... As coisas não poderiam ficar piores, poderiam? Itachi tinha medo de saber. E onde isso o levava? Itachi não fazia à menor ideia.
Naruto estacionou, mas não desligou o motor do carro e agora Jerry Lee Lewis soava no carro, tocando um de seus maiores sucessos Crazy Arms. Rock em essência, Itachi gostava disso. Essas baladinhas estilo Elvis Presley, Carl Perkins e o próprio Lewis, dentre tantos outros, eram algo que ele gostava de ouvir de vez em quando; e isso fazia dele um careta, obrigado.
-Vou lá e vou tentar ser rápido. –disse Naruto abrindo a porta do carro. –Vou deixar o motor ligado pra você ouvir música, 'tá? Ah! E pode cantarolar o quanto quiser!
-Uchihas não cantarolam. –ele disse em tom defensivo.
O adolescente deu aquela risadinha sapeca que Itachi conhecia bem e isso lhe fez arquear uma sobrancelha. Naruto estava desconfiando da sua palavra?
-Veremos... –murmurou o Uzumaki com divertimento. –Já venho!
Antes que Itachi pudesse retrucar, a porta foi fechada com uma pancada ruidosa e logo o Uzumaki estava longe, sozinho, Itachi bufou. Ele apoiou o cotovelo na janela fechada (estava frio demais para ele pensar em abrir, sem falar o medo de ser assaltado) e começou a batucar os dedos no pouco espaço entre o vidro e a porta do carro. Sair um pouco do apartamento era bom, e Naruto escolheu uma trilha sonora menos depressiva para ele, o que Itachi agradecia. Chubby Checker soava livremente pelas caixas de som e Itachi batucava os dedos ao som de "Twist Again" controlando a vontade de balançar os pés ao ritmo da melodia.
Percebendo que seus dedos estavam ganhando vida própria, Itachi tentou parar de mexê-los ao ritmo da música, conseguindo razoavelmente se controlar até "Great Balls of fire" soar em alto e bom som. Seus dedos imediatamente passaram a acompanhar os sons do teclado, fazendo-o parecer estar digitando alguma mensagem em código Morse. O pensamento lhe fez sorrir, ele gostaria muito que Naruto não voltasse para o carro agora.
Infelizmente, não foi como ele quis.
-Certo, você não cantarola. –comentou Naruto com a voz sorridente e sapeca, enquanto abria a porta traseira do carro para colocar as sacolas de compra. –Mas batuca os dedos! Estava tão bonitinho!
-Você não está falando sério. –retrucou Itachi mordido. Era só o que faltava! Naruto lhe tratando como criança, assim como Shizune e Shisui. Isso por acaso era contagioso?
Em resposta, Naruto gargalhou muito alto enquanto se sentava no banco do motorista. Itachi cruzou os braços, franzindo os lábios e virado para o lado de onde o som vinha, pacientemente esperando a risada cessar. Infelizmente, ao que parecia, bastava Naruto lhe olhar que a risada voltava.
-Não sei por que você se incomoda. –comentou Naruto ligando o carro e o manobrando. –É tão natural isso.
Itachi não se dignou a responder, muito embora soubesse que ficar em silêncio pudesse soar como birra, mas também não era como se ele tivesse alguma coisa para acrescentar. Naruto manobrou o carro tranquilamente, Ben E. King cantava "Stand by me" suavemente e o Uzumaki cantarolava baixinho. Definitivamente, Naruto não tinha uma boa voz.
-Você é desafinado. –ele comentou baixinho, apenas para quebrar o silêncio.
-Você é um péssimo telégrafo. –retrucou Naruto mordido. Itachi franziu os lábios. –Hein, você se importa se a gente passar em um lugar antes?
-Sou apenas carona. –respondeu Itachi de maneira educada. –Pode me ignorar, se quiser.
-E que graça isso teria? –comentou Naruto animado.
O último comentário foi capaz de roubar um sorriso de Itachi. Apesar das palavras, Naruto não tentou conversar com ele nenhuma vez, apenas continuando a cantarolar baixinho e Itachi se permitiu bancar o telégrafo, mesmo que com isso ele conseguiu arrancar r um risinho do mais novo.
O carro seguia agora sem pegar nenhum sinal vermelho por ruas longas e retas, até que começou a pegar algumas subidas e agora não parava de fazer curvas. Por alguma razão que ele desconhecia, as curvas estavam lhe deixando enjoado.
A sensação de estar virando de um lado para o outro, por um lugar desconhecido estava lhe deixando profundamente incomodado e nem mesmo a presença de Naruto no volante ou as músicas pareciam amenizar a tontura. Itachi não tinha ideia sobre o lugar onde estava e poderia muito bem acontecer alguma coisa, mesmo que ele confiasse em Naruto, as voltas estavam lhe deixando agoniado.
-Você tá com uma cara de enjoo. –comentou Naruto com preocupação após uma curva particularmente horrível.
-São essas curvas. É estranho ter que passar por isso quando não se pode enxergar. –respondeu Itachi com sinceridade. –Onde estamos indo?
-Praia Akatsuna. –respondeu Naruto com objetividade. –Na verdade o deque do mirante sul, onde dá pra ter uma boa vista. Quero dar uma olhada numas paradas, não vai demorar muito, juro! É logo depois dessa curva.
O nome do lugar lhe era familiar por alguma razão e isso fez com que Itachi refletisse sobre o porquê disso. Porém, por mais que Itachi pensasse, ele não conseguia lembrar. Ele não era uma pessoa que gostava de muito de praias, nem gostava muito de pescar no mar, embora de vez em quando acompanhasse Kisame quando seu amigo locava um barco para pescarem em alto mar. Ele sempre fazia questão de ficar sentado na sombra da vela, deixando Kisame com a proa da pequena embarcação e falando de seu sonho de mergulhar dentro de uma gaiola para ver tubarões de perto.
Kisame era esquisito às vezes, mas Itachi não ligava muito.
Naruto estacionou o carro, saindo rapidamente e abrindo a porta para que Itachi saísse também; isso, por si só, fez com que Itachi entendesse porque o garoto tinha lhe trazido ali. Não era apenas uma questão de "checar uns negócios": Naruto queria falar sobre o que aconteceu ainda pouco com Sasuke. E Itachi o escutaria.
Ao sair do carro, Itachi foi recepcionado por um vento excepcionalmente frio que lhe fez tremer da cabeça aos pés. O cheiro salgado de maresia invadiu suas narinas, mas era algo até que bem vindo. O Uzumaki segurou o seu braço de maneira habitual e a proximidade de seus corpos diminuiu um pouquinho do frio; ali estava muito mais gelado que na cidade por causa da brisa litorânea constante. Os dois caminharam pela calçada irregular até o deque, feito de madeira.
O vento, se é que era possível, ficou ainda mais gelado e mais constante, mas trazia muitos sons: pessoas caminhando pela praia, música de 'batuque' ao fundo (coisa que Sasuke certamente ia gostar de ouvir, mas para Itachi aquilo era 'batuque') além do próprio som do vento.
-Nossa, tem muita barraca armada aqui! –comentou Naruto com algum entusiasmo. –Epa! Não no mau sentido...! Er...! Não é isso que...!
-No mal sent...? –inquiriu Itachi até se lembrar do que 'barraca armada' significava. -Oh.
Naruto deu uma risada constrangida alta enquanto Itachi arqueava as sobrancelhas, mas logo em seguida colocando sua melhor expressão estoica, o que só aumentou ainda mais o riso constrangido do garoto. Não havia muitas pessoas que usavam piadinhas de duplo sentido quando falavam com ele, por alguma razão que ele desconhecia.
-Por que tem um acampamento aqui? –inquiriu Itachi ignorando completamente o comentário anterior.
-Por causa de uma rave que 'tá tendo aqui. É tipo uma greenvalley, só que menor. –respondeu Naruto em um tom mais sério. –Ela é tradicional dessa época do ano. Você 'tá ouvindo ao longe? As tendas um e dois já estão funcionando, daqui dá pra ver e até escutar um pouco. A tenda três só vai começar a funcionar de noite, depois do jantar do hotel Rokudou, parece.
Apenas nesse instante Itachi reparou que ainda segurava Naruto, logo o soltando para poder esfregar ambas as mãos rapidamente até que elas ficassem quentinhas e ele pudesse aquecer seu rosto com elas. O vento vinha de frente e não era nada agradável. Seus cabelos estavam ficando extremamente bagunçados e os arrepios involuntários pelo seu corpo eram desagradáveis. Itachi se virou de costas para o vento e suas costas se encostaram em algo gelado, provavelmente as grades de segurança, mas só o ato de estar contra o vento já tornava tudo um pouquinho mais tolerável.
-Aqui está muito frio! –ele comentou com a voz baixa, ouvindo a canção do vento nos seus ouvidos. Não muito longe ele ouviu uma onda quebrando na areia. –O que é greenvalley?
-Uma rave muito foda. –respondeu Naruto se movendo e estremecendo ao seu lado. –Só não é melhor que o tomorrowland, que são quatro dias com o melhor da música eletrônica, montam quase uma cidade pra ele! Sasuke certamente iria querer ir.
Itachi apenas assentiu, sem nada dizer. Havia um motivo para que Naruto viesse naquele lugar gelado em específico, porque se fosse apenas para falar sobre o que aconteceu momentos atrás, os dois poderiam ter ficado no carro. Pelo menos, ele realmente queria acreditar nisso e ele certamente esperava que não fosse algo como "vamos transformar o ceguinho em um picolé humano!". E gripado, porque depois dessa ele certamente ia ficar.
-Vamos ser diretos: por que me trouxe aqui?
-Você não lembra o que falei antes? –inquiriu Naruto em tom sério. -A festa? Aquela que o Sasuke 'tava a fim de vir.
Um estalo veio em sua mente. Ele se recordava agora do por que aquela praia lhe soar tão familiar. Haveria uma festa aqui, uma festa que Sasuke queria vir com os amigos e que, para tanto, estava roubando coisas e revendendo, e sabe-se lá mais o quê seu irmãozinho tinha feito para ter o ingresso. Antes que Itachi falasse qualquer coisa, Naruto continuou:
-Então, seja apresentado ao "Akashi fest!". –o garoto fez uma pausa longa e sua voz saiu tremida por causa do vento gelado que lhes atingia sem piedade alguma. -Eu 'tou analisando o terreno. Eu vou vir pra cá hoje com meu vô. Tipo, ele descolou uns ingressos pra festa de natal do hotel Rokudou com os patrocinadores, daí quem tem o convite de lá, também tem acesso a área vip do "Akashi fest!" na tenda três que é onde o Armim vai tocar.
"Com o seu avô?" pensou Itachi curioso, erguendo a sobrancelha, vontade de perguntar isso ao Uzumaki não faltou. Mas uma rajada de vento que fez todo seu cabelo vir para frente, desfazendo o rabo de cavalo que usava lhe fez ter foco. Ele não gostaria de continuar nessa espécie macabra de campanha publicitária de xampu de cabelo! Principalmente nesse frio escabroso. Tudo o que ele mais queria era tomar uma boa caneca de chocolate fumegante, do tipo de queimar a língua, debaixo de uma manta quentinha que tinha no seu apartamento. E se Naruto não tivesse mesmo que voltar, Itachi teria pedido para que o garoto lesse mais um pouco para ele.
Soava tão bom esse pensamento, especialmente quando ele estava congelando com a brisa marinha e cheio de problemas. A última coisa que ele precisava era que Sasuke fugisse de casa para vir para um lugar longe, frio e com acesso a drogas!
-Você acha que Sasuke pode fugir pra vir pra cá? –ele perguntou incrédulo. Parecia-lhe difícil acreditar que alguém trocaria o conforto de uma manta para vir para um lugar frio e escutar aquela batucada toda.
-Sim. –respondeu Naruto como se a pergunta fosse algo muito obvio e Itachi ficou meio mordido por causa disso. Oras, ele tinha um ponto! E seu irmão era estranho. -É muito provável, na verdade. São duas coisas que ele curte numa tacada só! –ponderou o Uzumaki enfatizando bem a situação e Itachi prestou atenção. -Ele 'tá sedento pra querer tomar umas balas é muito possível ele fugir, pagar um... Deixa pra lá.
Naruto pareceu extremamente desconcertado por um momento, pigarreando em seguida e um silêncio incômodo se instaurou entre eles. Itachi se virou para o Uzumaki e de repente o vento gelado nem parecia mais importante, mas o que Naruto iria dizer era. O pior? Itachi sabia o que o garoto queria dizer.
Era algo que ele morria de medo, mas ele também precisava saber. Naquele momento, em específico, ele queria saber e ele queria que fosse Naruto quem contasse; Itachi não conseguiria acreditar em mais ninguém, nem aceitaria ouvir isso de qualquer outra pessoa, exceto Naruto. Porque era o Uzumaki quem mais conhecia Sasuke e quem mais próximo compreenderia a sua dor, se o que ele estava pensando realmente acontecesse.
Não que isso lhe deixasse menos apreensivo e irritado, ou que sua frustração diminuísse, na verdade, tudo aumentava. Itachi se sentia a ponto de explodir, não em dor, não em raiva, simplesmente explodir por causa de todos os fatores que roubavam seu irmão de si; roubavam seu próprio futuro de si.
-Continue. –pediu ele com a voz dura.
Naruto não obedeceu e Itachi esperou pacientemente, sabendo que não deveria pressionar o garoto. Ele não era estúpido para perceber como a respiração de Naruto estava mais lenta e em como o garoto se afastou dele, dando um passo para o lado e se virando, inconscientemente querendo fugir.
-É algo que só vai te fazer ficar triste. –murmurou Naruto e sua voz estava visivelmente triste e isso só fez com que a frustração em Itachi atingisse um novo nível.
-Eu preciso saber. –ele disse no seu tom de voz mais convincente.
Mais um passo, para mais longe ainda. Por um momento, Itachi teve medo que Naruto o deixasse sozinho ali, mas o pensamento era tolo demais; o Uzumaki tinha responsabilidades e não fugiria disso, Itachi tinha certeza. O vento uivava uma canção triste, Itachi não sabia bem por que ele sempre associava o som da ventania a canções, mas era como se o vento conversasse e ninguém fosse capaz de ouvir. Mas ele sempre ouviu e o vento sempre foi uma companhia silenciosa em sua vida, mais querida do que muitos humanos que lhe ofereciam sorrisos falsos.
Humanos que eram incapazes de estarem próximos o bastante dele para compreendê-lo, ou mesmo captarem a sua atenção. E não foi por isso que Itachi deixou Sasuke escapar? Por ser tão inatingível, as pessoas ao seu redor também se tornavam inatingíveis. E o que isso tinha a ver com aquela situação com Naruto? Nada.
Era só a sua mente pregando peças outra vez. Uma fuga da verdade, uma ilusão onde ele poderia pensar o que quisesse para não aceitar o fato.
Sasuke se prostituía.
-Não é bom saber de tudo, sabia? –comentou Naruto com a voz baixa.
"Eu sabia." Itachi pensou. Mas ainda assim doeu. Doeu muito mais do que qualquer outra coisa que tinha experimentado até então. E se seu irmão estivesse com alguma doença sexualmente transmissível? AIDS, sífilis, gonorreia! Havia tantos perigos! E se Sasuke estivesse com a temida hepatite C? Itachi só poderia supor e também só poderia esperar que seu irmãozinho idiota tivesse usado camisinha. No apartamento tinha. Era de praxe qualquer homem que se preze ter, mesmo homens que não transavam como ele.
Naruto chutou alguma coisa que bateu em algo, provavelmente uma lixeira, porque produziu um som metálico. O garoto xingou baixinho e sua voz estava triste e Itachi percebeu, pela primeira vez, que agora ele próprio fazia parte da preocupação do garoto a sua frente. Isso não era justo. Itachi não queria ser um problema para mais ninguém, nem mesmo para Naruto que tanto estava lhe ajudando.
-Você ia dizer que o Sasuke ia pagar um boquete para alguém, só pra entrar na festa, não? –ele perguntou em um tom aparentemente brando. Ele ficou contente que sua voz não tremeu. Mas em vez disso o seu coração ficou acelerado, querendo saber como é que o mais novo receberia suas palavras.
-Você quem disse. –respondeu Naruto de um jeito seco.
E Isso irritou Itachi, muito mais do que ele gostaria. Ele estava se esforçando para não deixar o mais novo chateado e recebe birra? Decerto que ele não estava agindo muito certo, mas Naruto também não poderia suprimir ainda mais informações sobre seu irmão. Para dar certo, os dois tinham que agir como uma dupla, não como um par de estranhos em um "disse-que-me-disse"!
-Naruto, se você não reparou, eu não sou burro! –reclamou Itachi com a voz irritada.
-Itachi, se você não reparou, eu não quero te magoar! –aduziu o Uzumaki com a voz magoada e dando alguns passos em sua direção. –Droga, como foi que chegamos a isso?
A respiração do mais novo estava entrecortada, e as últimas palavras dele tinham saído tremidas, com uma nota de desespero no timbre espalhafatoso e normalmente seguro. Itachi suspirou descontente consigo mesmo. Claro que o inverso também era verdade, por que ele não pensou nisso?
O vento gelado se fez pressente mais uma vez, trazendo o cheiro salgado do mar e de algumas algas. Seu cabelo ficou na sua cara outra vez e Itachi tentou domá-lo, se perguntando onde é que estava o seu amarrador.
Naruto caminhou brevemente, depois voltou em sua direção. Ele pegou seu pulso direito com dedos muito gelados, mas carinhosos e lhe fez abrir a mão, e Itachi sentiu o peso suave do seu amarrador. Rapidamente ele ajeitou os cabelos e os amarrou firmemente para que o vento não bagunçasse de novo. O frio era irrelevante agora, mesmo o som da tal rave também era.
-Desculpe, eu fui grosso. –ele disse baixinho, após se certificar que o amarrado não seria desmanchado pelo vento.
-Tudo bem. –murmurou Naruto parecendo constrangido. -Eu também fui.
Itachi assentiu, sem saber mais o que dizer. Estava um clima esquisito entre os dois. Havia alguma coisa ali, impedindo uma conversa e Itachi não sabia o que era, e tinha um pouco de medo de descobrir o que era. O melhor seria se ignorassem o tema e Itachi se lembrou de algo que Shisui contou naquela semana, algo que tinha tirado a paciência do tio e que agora se tornou a preocupação e alívio de Itachi.
-Ele não vai precisar. –Itachi disse quebrando o silêncio.
-O que? –perguntou Naruto em tom de voz que não entendia nada.
-Se Sasuke quiser mesmo vir pra cá, ele não vai precisar fazer... Você sabe. –Itachi acrescentou incerto, aproveitando que o vento parou de encher o saco para esconder seu rosto com a franja, enquanto voltava a posição anterior. -Shisui ganhou ingressos para a festa nesse hotel. Três, ao todo, para mim, Shizune e Shisui. A empresa do meu tio, aquele cara que mandou a bailarina, é um dos patrocinadores.
Naruto ouviu tudo em silêncio, caminhando para mais perto até ficar ao seu lado. Itachi podia sentir o torso de Naruto se encostar no seu braço e a leve pressão aqueceu sua pele por debaixo do casaco; era um alívio naquele frio todo.
Ele e Naruto não terminaram a conversa sobre a caixinha de som. O mais novo ficou curioso para saber por que Itachi ficou tão apreensivo com aquilo e até tentou entrar no assunto, mas não era como se ele pudesse tocar nesse tema com Sasuke por perto. E ele nem tinha vontade de contar isso para Naruto.
Itachi tinha certeza que se o garoto soubesse disso, finalmente ia se tocar que toda a sua família era um problema sem fim e que seria mais prudente deixá-los de lado. Sasuke precisava de Naruto e Itachi precisava que Naruto entendesse isso e se concentrasse nisso, que ambos se ajudassem nessa missão aparentemente impossível.
Não era preciso ser um gênio para saber que o mais novo estava lhe observando e Itachi fez o melhor o possível para que sua expressão ficasse impassível, num geral, Uchihas eram bons nisso. Seu pai fez questão que ele aprendesse bem a técnica.
-Sei... –murmurou Naruto de um jeito meio desconfiado. -Você jogou aquela caixinha de música fora?
-Sim.
-E suponho que tenha seus motivos pra isso. –continuou Naruto e Itachi sentia a irritação crescendo no timbre do mais novo, e isso lhe fez ficar um pouquinho mais chateado.
-Sim. –ainda assim ele foi impassível em sua resposta.
-E que não vai me contar. –concluiu Naruto e havia exasperação na voz do garoto.
-Você é bem inteligente quando quer. –disse Itachi com a voz leve e um sorriso suave, tentando não tornar a situação insustentável.
Havia todo um caminho de volta para casa e ele definitivamente não queria voltar para sua casa brigado com Naruto. Era véspera de natal e Naruto era uma das poucas coisas boas que aconteceram nos últimos tempos. Ele esperava, de verdade, que o garoto compreendesse, mas, talvez, fosse pedir demais para um adolescente.
-É, eu me esforço. –respondeu Naruto em tom sarcástico. Bufando infantilmente e foi assim que Itachi percebeu que o adolescente não estava realmente chateado com ele. -Valeu por reconhecer!
E a piadinha no fim da frase tirou todo o peso dos seus ombros, fazendo Itachi dar um suspiro satisfeito e um sorriso teimoso deixou seus lábios. Imediatamente o clima esquisito que reinava entre os dois tinha desaparecido e Itachi se sentia novamente confortável ao lado do garoto, que ainda estava ao seu lado, aquecendo a lateral do seu corpo agradavelmente. O frio fazia sua presença ser notada outra vez e Itachi queria voltar para casa, mas um estalo lhe veio em mente: Naruto não tinha falado sobre o incidente de pouco tempo atrás.
-Por que você o provocou daquele jeito? –perguntou Itachi ciente da sua falta de jeito.
Naruto parecia ter tido um pensamento bem similar ao seu porque deu uma gargalhada divertida, o som de sua voz sendo minimizada pelos outros sons que compunham o cenário onde estavam. Ainda assim era algo que Itachi gostava de ouvir e dessa vez ele não se importou em ser o motivo daquele riso.
-Você lembra quando eu falei que não sabia até aquele dia que era por você que o Sasuke 'tava apaixonado? –começou Naruto.
A voz do garoto estava entre o tom conspiratório e o indeciso, como se fosse contar algum segredo. E Itachi se aconchegou mais à grade, abaixando-se um pouco mais e isso fez com que ele e Naruto ficassem um pouquinho mais próximos.
-Lembro.
-Pois é... Tipo... –Naruto parecia incerto e deu um longo suspiro. Itachi franziu a testa, curioso para saber. –Sasuke começou a mudar pra pior quando eu comecei a namorar.
Isso Itachi sabia e não compreendia porque o garoto parecia tão apreensivo. Ainda assim, ele aguardou com calma, esperando o Uzumaki escolher as palavras. Não importava que estava ficando ainda mais frio e que os dois, provavelmente, ficariam gripados, Itachi já sentia seu nariz escorrer, para ser bem franco consigo mesmo. Talvez ele devesse pedir para Naruto passar em uma farmácia antes de voltarem, para que ele pudesse comprar alguns tilenois para tomar quando voltasse para casa.
-Eu tinha muitas DRs com meu namorado porque todo mundo dizia que o Sasuke queria namorar comigo, tipo, todo mundo sabia, menos o idiota aqui. –disse Naruto de uma vez, se afastando um pouco dele. Itachi virou o rosto para o lado do mais novo.
Demorou dois segundos para Itachi entender.
-Namorado? –ele perguntou erguendo a sobrancelha. Naruto não parecia gay.
Quer dizer, Itachi conhecia poucos gays. Só Deidara e Sasori, antes ele já tinha visto os dois se comendo na cozinha improvisada (e Itachi nunca mais conseguiu tomar água do bebedouro da firma depois de ter visto Deidara gozar lá).
Ele odiava Sasori que alem de manipulador, era extremamente falso, maquinando planos para ele perder o emprego e tudo simplesmente porque Itachi caiu nas graças do gerente; havia algo meio psicótico em Sasori e Itachi tinha certeza disso. Quanto a Deidara, ele era... Era... Provavelmente a segunda pessoa mais insuportável que ele já tinha conhecido na vida! Não aceitava opiniões dos outros, falava de arte, mas sequer conseguia diferir arte de produtos enlatados pela mídia, ou seja, era um cara irritante.
Graças a essas duas pessoas, que eram todo o seu conhecimento de homossexuais, Itachi não tinha uma opinião lá muito boa de gays. Especialmente após a recepção mais do que carinhosa que Sasuke lhe deu quando Itachi descobriu por quem seu irmão estava apaixonado e que se drogava. Aquilo foi traumatizante, sendo bem sincero.
Era até mesmo algo que ele evitava pensar porque só a lembrança de que Sasuke beijou a sua boca querendo aprofundar o beijo era devastadora, só que nunca vinha sozinha. Sempre vinha junto com Sasuke dizendo que gostava sexo mais agressivo e isso era perturbador, porque mostrava que seu irmãozinho estava tendo experiência sexual com alguém (e aqui vinha junto o medo da prostituição). E, como a cereja em cima do bolo de terror, ainda tinha o fato que Sasuke quis fazer sexo com ele.
Não, simplesmente não ia rolar. Não teria jeito de Itachi ter uma ereção naquelas circunstâncias. Então, ele seria o quê? Estuprado? O pensamento era ainda mais surreal e assustador do que qualquer outra coisa. Itachi não queria pensar sobre isso, definitivamente não queria lidar com esse tema.
Era algo que lhe deixava extremamente apavorado, não pela possibilidade de estupro, mas sobre até que ponto Sasuke o queria. E até que ponto seu irmão poderia ir por ele. Aquela conversa com Naruto foi prova o suficiente, já que Sasuke quase quebrou o braço do Uzumaki, até mesmo mordeu o garoto. Itachi tinha medo que Sasuke ficasse irreversivelmente quebrado e impossível de voltar a ser o que era no fim de tudo.
Isso era pior, sem sombra de dúvidas.
Tudo isso lhe fez ter uma imagem negativa sobre a homossexualidade, para ser bem sincero consigo mesmo. Mas, por outro lado, havia a atração que ele sentia por Minato. E isso lhe deixava frustrado porque Itachi verdadeiramente não se importaria se o médico lhe beijasse, ou ficasse andando de mãos dadas com ele por aí (e só de ter consciência de suas vontades, Itachi sentia vontade de se bater. Ele parecia ter regredido a uma idade mental de uma garotinha de treze anos e apaixonada! Urg!).
Além disso, Naruto era uma das melhores pessoas que conheceu, não que tinha conhecido muitas. E por que isso importava mesmo? Ele provavelmente deveria estar deixando o garoto apreensivo com todo esse silêncio, mas Itachi não sabia o que deveria dizer, nem como reagir aquilo oras.
-É, eu tive um. Sou bi. –disse Naruto com rapidez, parecendo incerto e, de repente, aquela tensão surreal e esquisita estava ao redor deles novamente. Itachi sentia vontade de revirar os olhos, mas não estava a fim de parecer a menina do exorcista. -Você tem algum problema com isso?
E ali estava o medo na voz de Naruto e Itachi percebeu isso muito claramente dessa vez. Não era sua intenção deixar o garoto constrangido e nem nada disso, Naruto definitivamente não era uma pessoa que ele excluiria da sua vida só por isso. Era fácil descartar o idiota do Sasori e o imbecil do Deidara, mas era difícil esquecer o que Sasuke fez, e Itachi nem queria pensar em Minato agora. Esse era o tipo de coisa que tornaria tudo ainda pior, desejar o pai do garoto à sua frente.
Itachi sentiu o garoto se afastar mais um pouco dele e Itachi sabia que o garoto devia estar pensando mil coisas, desde ser desempregado ou talvez até que ele fosse ser rude ou algo assim. Só que ele não tinha a menor vontade de agir assim porque Naruto simplesmente não merecia isso.
Havia muitas pessoas no mundo, todas diferentes, mesmo que houvesse um sistema que orientasse cada um a seguir a vida conforme um padrão socialmente imposto. Gays não eram algo que a totalidade aceitava por fugir a esse padrão e Naruto já devia ser consciente disso. Itachi só poderia supor o que o garoto talvez já tivesse passado. E isso entrava no assunto? Não, e sim.
Não porque não era importante e sim porque no mundo as pessoas não deveriam ser julgadas por cor, raça, deficiência física, gênero, opção sexual, nível social, nacionalidade, credo, cultura, gosto ou o que fosse. E Naruto lhe provou ser uma pessoa excepcional, alguém que ele gostaria de manter no seu círculo social por muito tempo. Não seria difícil construir uma nova imagem sobre homossexualidade tendo como modelo o garoto
Esse pensamento não só lhe acalmou, quanto lhe fez ficar mais seguro.
-Não. –ele respondeu com um sorriso para mostrar que realmente tudo estava bem. -Por que teria?
Foi até mesmo engraçado ouvir o suspiro de alívio que o mais novo deixou escapar, segurando as grades com força como se fosse desabar. Itachi sequer conseguiu esconder o pequeno acesso de riso que teve e Naruto riu junto, dessa vez verdadeiramente contente, e os dois puderam relaxar outra vez.
-Algumas pessoas têm. –respondeu Naruto com a voz animada. -Muitos homens meio virgens têm.
-Meio virgens? –Itachi perguntou com a voz bem humorada, erguendo a sobrancelha.
-É! –respondeu Naruto animado e depois deu aquele risinho sapeca que Itachi bem conhecia. -Eles, hn, fazem sexo pela frente, mas nunca inauguraram a porta de trás, daí é o mesmo que ser meio virgem, saca?
Existem piadas e piadas. Algumas são pensadas e que quando são escutadas de cara se sabe que foi planejada, no entanto há outras que saem de momento, que atravessam todas as barreiras e acertam em cheio o botão do riso. Naruto parecia ter o dom de sempre provocar a segunda opção em Itachi e ele simplesmente não conseguia evitar o riso quando isso acontecia.
Itachi se apoiou ainda mais nas grades, rindo até mesmo um pouquinho alto demais, sem se incomodar em abafar o som. Naruto tinha uma gargalhada mais alta que a dele e era um som suficientemente alto para cobrir a sua voz. Itachi precisava admitir para si mesmo que tinha sentido falta disso nos últimos tempos.
-Ok, volte um pouco. –ele pediu bem humorado quando conseguiu parar de rir. -Explique melhor, por que todos achavam que o Sasuke gostava de você?
-Pensa, Sasuke tinha parado de se cortar, de ser um cusão com os outros quando eu 'tava por perto e nós dois passávamos muito tempo juntos, muito mesmo. Ele ia lá em casa o tempo todo, já que os meus pais ficaram workahollic depois da morte do nii-san. –contou Naruto apressadamente e Itachi esperou que o garoto se pronunciasse sobre o irmão, mas nada aconteceu. O irmão de Naruto era tabu, assim como Madara era. –Eu conheço o Sasuke desde criança, mas a gente só veio ficar grudado naquele ano, eu te contei a história, né?
-Contou.
-Então... –disse Naruto, voltando a se aproximar mais dele. A lateral do corpo do Uzumaki pressionada contra a lateral do seu corpo. -Sasuke pra mim é como um irmão e eu não consigo ver como ele poderia gostar de mim e tals, mas muita gente começou a colocar essa ideia em mim e eu queria ter certeza, sabe?
Itachi verdadeiramente entendia o que Naruto queria dizer, droga, ele queria que fosse verdade. Seria tudo muito, muito mais simples se Sasuke realmente fosse apaixonado por Naruto. Mas após aquele "ataque" quando ele voltou daquela maldita prova? Itachi realmente achava difícil que seu irmão pudesse ser apaixonado por Naruto.
Se Sasuke estivesse apaixonado por Naruto, ele não teria feito aquilo ou se drogaria para isso. Pelo menos, a imagem que Itachi tinha de seu irmão era que Sasuke teria coragem de se declarar para Naruto, se fosse o caso. Seu irmão poderia não querer decepcioná-lo, mas não havia nada para decepcionar Naruto, já que ambos estavam ombro a ombro desde o começo. Enquanto ele, por ser irmão mais velho e responsável, já tinha outro tipo de relação e isso é inerente a qualquer família. Coisa que Sasuke aparentemente esqueceu, porque somente isso justificaria aquele romance.
Mas não era como se Itachi conseguisse falar sobre aquele dia, era algo que ele preferia esquecer e trancar bem dentro de si para que ninguém, ninguém mesmo descobrisse. Não só para proteger Sasuke, mas proteger a si mesmo. Principalmente para se proteger; Itachi realmente não conseguia lidar com aquilo, a angústia que sentia por causa daquela memória e o que isso poderia significar para Sasuke eram coisas que Itachi não conseguia sequer formular uma linha de pensamento lógico para que ele pudesse aceitar. Talvez o tempo fizesse melhorar. Só talvez.
-Entendi. –ele disse, tentando mudar o foco dos pensamentos. -E o que o comportamento de hoje te mostrou?
-Que ele não sabe que precisa de ajuda. –respondeu Naruto em tom sério. -Temos um longo caminho.
Outra onda quebrou na orla da praia, gaivotas cantavam e havia o som das pessoas nas barracas se preparando para irem para a tal festa e isso deixava a atmosfera quase irreal. O mundo girava ao redor deles, indiferente aos seus problemas. As pessoas eram extremamente descartáveis, mesmo que quisessem ser únicas e especiais, quisessem se sentir sobretudo necessárias. Só que era em momentos como aquele que percebiam o quão descartáveis eram. Itachi inspirou a brisa marinha, sentindo seu nariz arder por causa do ar gelado e imediatamente conseguiu parar de pensar sobre isso.
-É. -respondeu Itachi após um suspiro pesaroso. -Eu sei.
-E outra coisa.
-O que?
-Ele nunca me mordeu antes! –pontuou Naruto em um tom sério e apreensivo. –Por um momento eu podia jurar que ele... –Naruto deu um longo suspiro exasperado. –Que ele estava se divertindo porque eu... Eu estava por baixo dele... E sim a posição era constrangedora assim! E não me faça te dizer!
Naruto parecia envergonhado, raivoso, preocupado e inseguro, tudo ao mesmo tempo e Itachi gostaria muito de ter alguma palavra para acalmar o garoto. Ele realmente não achava que era para tanto, mas também não era como se conseguisse falar sobre aquele dia há um ou dois meses atrás. Fazia tanto tempo assim? Itachi mal conseguia acreditar.
Ele não queria lembrar, queria afastar as lembranças, mas do que isso adiantaria? Estava dentro dele e Sasuke era uma parte dele, seu sangue, e a pessoa que ele tinha que proteger. Renegar essa parte seria renegar um pouco do que Sasuke passava e se Itachi verdadeiramente queria ajudar o irmão, ele não poderia ignorar isso.
Acima de tudo: para ajudar Sasuke, ele precisaria da ajuda de Naruto. E não havia ninguém mais que soubesse esse lado de Sasuke além de Naruto. Até o momento, Itachi conseguiu enrolar Shisui e não revelar o real motivo, embora Shisui suspeitasse de algo a mais; Itachi tinha certeza. Mas Itachi ainda custava a aceitar o assunto, ele não queria lidar com isso, mas era necessário.
Ele passou a mão nos cabelos e suspirou, se lembrando exatamente do que seu irmão disse naquela ocasião.
-Gosta de algo mais violento? –inquiriu o mais novo com um sorriso travesso, assustando ainda mais Itachi. –Não tem problema! –Sasuke abaixou as calças e a roupa íntima, revelando uma ereção. Itachi desviou os olhos. –Eu também gosto assim, nii-san! (5)
-Naruto, eu não quero entrar em detalhes. –Itachi disse, achando difícil encontrar as palavras, suas mãos tremiam e não era pelo frio. Era pela lembrança, mas ele precisava enfrentar isso. Não era justo com Naruto e esse tipo de coisa apenas faria com que os dois não se concentrassem no foco principal. -Mas eu sei que ele não está interessado em você, acredite em mim.
Itachi inspirou profundamente, tentando desviar o foco das lembranças. Ele devia apenas se focar no presente, nessa conversa com Naruto e apenas isso. Foi quando o mais novo deu um suspiro resignado e fez algo que verdadeiramente lhe surpreendeu: Naruto lhe deu um abraço.
-O que está fazendo? –Itachi perguntou incrédulo, sem corresponder ao abraço.
As pessoas não lhe abraçavam, até queriam o seu corpo nu numa cama, mas nunca tinham a cara de pau para lhe abraçarem ou tentarem alguma coisa com ele. Só sua família lhe abraçava, Kisame dava palmadas no seu ombro e o esmagava quando estava bêbado, era algo diferente e dolorido (Itachi não recomendava para ninguém). Abraços não faziam parte da sua rotina e isso era muito estranho, num bom sentido, mas ainda era estranho. Naruto estava quente e o resto do ambiente estava muito gelado, isso Itachi não negava.
E, certo, ele precisava ser sincero: ele estava gostando. Naquele momento o abraço lhe fez esquecer um pouco das lembranças ruins, lhe dando algum conforto para lidar com seus próprios medos acerca do futuro da sua família. Quanto a isso, ele era grato a Naruto.
-Feliz natal, Itachi. –desejou Naruto de um jeito amável.
O Uzumaki devia ter pegado alguma dica no seu rosto para entender o que ele estava sentindo, por isso desviou o assunto para alguma coisa mais mundana; era a resposta lógica dos fatos, ainda assim era algo que foi apreciado por Itachi. Ele sabia que era uma fuga, assim como sabia que havia lutas que as pessoas deviam travar sozinhas: superar aquele medo era uma luta apenas sua. Naruto sabia disso e não iria interferir, ainda assim estaria lá, caso Itachi precisasse.
Eram muitas certezas em poucos gestos, mas Itachi sabia que era verdadeiro. Por isso ele se permitiu um sorriso e que seus braços contornassem a lateral do corpo de Naruto, sentindo o calor do mais novo e em seguida Itachi depositou sua cabeça no topo da de Naruto, percebendo que ele era bem mais alto que o garoto, pelo menos uns dez centímetros.
-Eu não estou muito feliz agora. –ele disse sendo sincero. Não com a intenção de quebrar o abraço ou qualquer outra coisa, era apenas uma constatação da sua realidade.
-Pega senha e entra na fila. –retrucou Naruto com a voz divertida e Itachi sorriu um pouco.
Nada era fácil, não havia uma previsão de fim para tudo aquilo, o único fim previsto era o daquele ano, mas ele sabia que o ano seguinte também seria difícil. Itachi sabia disso (e como sabia), mas ainda assim, se pequenos momentos como aquele ocorressem, ele e todos os demais ficariam bem. Itachi não precisava de abraços e nem nada, apenas respirar alguns momentos de alívio.
Inconscientemente ele inalou o perfume de xampu de camomila que vinha dos cabelos de Naruto, não gostando muito de ter que soltar o garoto; calor humano era uma boa em meio aquelas ventanias geladas.
-Sério mesmo que a gente tem que ficar nesse frio? –ele disse se afastando do mais novo.
-Ok, vamos embora! –concordou Naruto animadamente.
A volta para casa foi tranquila e as curvas malditas não foram tão ruins dessa vez, ainda assim ele pediu para que Naruto passasse em uma farmácia para comprar os remédios necessários. O Uzumaki comprou apenas uma cartelinha reclamando do preço do medicamento e Itachi concordou. Seu nariz estava escorrendo e Itachi sabia que seu cabelo devia estar um ninho de rato de tão embaraçado. Quando ele chegasse em casa, iria pedir para Shizune esquentar um chocolate quente para ele.
O tráfego estava tranquilo e logo Naruto lhe deixou na frente da sua casa, pedindo para que ele desse um feliz natal à Shizune, Shisui e Sasuke. O garoto já tinha dado alguns passos quando Itachi pensou que era agora ou nunca (ou mais provavelmente no natal do ano seguinte).
-Naruto...
-Hn?
-Feliz natal.
Referências
(1) – Child's play. Aka: boneco assassino. Mas a tradução do filme do nome em inglês para o português é "brincadeira de criança".
(2) – Don't fuck with the Chucky! – Não foda com o Chucky! É uma fala original do filme 2.
(3) – Misery. – Filme de 1990 que no Brasil se chama "louca obsessão", baseado no romance de Stephen King "Desespero" (ai como eu quero esse livro que é raro de achar! Ò.ó). Kathy Bates levou o oscar de melhor atriz por interpretar a personagem Anne Wilkes, acho que foi o único Oscar que um filme de terror levou por atuação, mas não tenho certeza :/ Cona a estória de que todo escritor mais tem medo: de que os fãs da fic, série de livros, seja um louco psicótico atentando a vida deles. S2
(4) We're friends to the end... Filme um do Chucky, versão original.
(5) Quote do cap 2, eu acho. Depois eu edito isso se tiver errado D: Trovões não me deixam pensar direito .
Aviso muito importante
Quem usa drogas como a bala e o doce em última hipótese desceria ao nível de se prostituir para conseguir a droga. O jeito mais simples seria traficar, mas eu não queria o trio problema envolvido nisso e mudei. Com o tempo e maturação das ideias, isso virou plot.
Relembro também que é super raro alguém viciar nesse tipo de entorpecente, no caso do trio problema, eles três tem problemas psicológicos que os fazem querer ficar na ilusão de "é só uma festa, aqui temos um grupinho, estamos longe das coisas que nos incomodam, só por hoje vamos fugir da nossa vida normal com essa vida falsa". Okey?
Eu quero a minha cama! TT_TT (Aka, resposta do review)
Kitsune Lyra
Yo girl! Você foi a única a comentar aqui no ffnet, thank you pelo review S2 Por você ser a beta, não vou pedir desculpas pela demora ou pelo atraso em postar a fic, você está mais ciente do problema que as outras, so, we can jump this shark \o
Naruto é um amorzinho! Acho que todas as pessoas queriam um amigo como ele e a maior parte das mulheres desejariam um bofe como ele. Eu desejo, ao menos S2 Itachi é lindo, inteligente e tem senso de humor, mas também é o cara que deixaria você horas plantada esperando porque ele tinha outras prioridades -.-' "me desculpe, quem sabe da próxima vez?" sempre.
Hauahuahuahauhauhauhauaha tadinho do Sasuke. Ele é verbo, ok? Verbo sasukar, sinônimo de "confusão", "se meter em problema", "se meter em barraco", dê mais um crédito pra ele ou um pouquinho de amor hauhauahuahuahauhaa
...
Nossa, eu tou com tanto sono que eu li "surra de pinto" em vez de "surra de cinto". Realmente tenho que dormir ahuhauahuahuahauhauhaa
Caraça levei maior susto agora D:
Enfim, itachi é um diliça que vai sofrer pra caramba, outros caps virão e eu até queria escrever uma sasunaru/narusasu, se o bloqueio deixasse. O trovão me assustou e a resposta ficou corrida, mas thank you pelo review S2 E pelo apoio S2 E pelas betagens lindas S2
[ÚLTIMOS AVISOS: I PROMISE!]
Então guys, por hoje é só. Eu tenho só um aviso importante: essa é a parte um do capítulo sete. O outro capítulo que vem vai ser capítulo sete também. Provavelmente eu vou ter que fracionar capítulos daqui por diante porque o tamanho deles não cabem aqui no nyah e eu não quero ter que passar o sufoco da vez passada tendo que cortar palavras.
Espero que vocês tenham gostado. Por favor, deixem reviews! Reviews me animam a querer postar essa merde aqui e ajudam com o bloqueio que eu estou passando para escrever essa fic :/
