e

Discleimer: Inuyasha e Cia. Não me pertencem, mas a história sim.

A bruxa traidora.

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O sacrifício da Bruxa.

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Uma hora mais tarde Darwin, metido num corpo humano, foi empurrado por uma aprendiza desalmada aos tropeções para fora de casa, ele olhou zangado para a porta que se fechava às suas costas.

_Vou querer duas tangerinas quando voltar! – exigiu. O que era o dobro do que Kagome havia lhe oferecido.

Era muito complicado andar com aquele corpo humano, ele era pesado demais, as pernas altas demais, Kagome só tinha um par de sapatos e iria precisar deles na floresta, de forma que Darwin teve de ficar descalço, mas os pés humanos eram sensíveis demais, e eles machucavam-se, arranhavam-se e sangravam facilmente enquanto ele caminhava, perdidamente por aquelas ruas de paralelepípedo, a certo ponto ele já não tinha mais certeza se seria capaz de voltar sozinho para casa.

Nunca havia ido tão longe com pernas humanas antes, mas queria provar a Kagome que era capaz de caminhar pela vila sem se perder, ele simplesmente não entendia como tinha se perdido, afinal visto de cima, a biblioteca era simplesmente o maio prédio dentro dos limites da vila, como era possível que não conseguisse encontra-la agora?! Fungou já sem esperança de encontrar o caminho para a biblioteca, ou mesmo o caminho de volta, parou no meio da rua e olhou ao redor, esperando, por algum milagre, conseguir se localizar.

A sua esquerda havia uma lojinha mal cheirosa e encarquilhada, encolhida entre duas lojas maiores, com um letreiro, que Darwin não conseguia ler – pois nunca entendera aqueles estranhos símbolos que os humanos chamavam de letras, dos quais Kagome parecia gostar tanto – pendurado.

Darwin piscou, podia até estar enganado, mas aquela parecia ser a loja da Sra. Steiner!

E daí que não tinha encontrado a biblioteca? Ora qualquer um encontraria aquele prédio grande e idiota numa vila tão pequena! Mas a pequena loja de poções da Sra. Steiner que sequer podia ser vista de cima? Isso sim é que era um feito surpreendente! E Darwin havia conseguido! Sim, porque ele era uma gralha, apesar de sua aparência atual, e todos sabiam que as gralhas eram mais inteligentes que as outras aves!

Já esquecido de seus pés humanos, que por serem tão moles e delicados, estavam todo arranhado e sangrando, Darwin correu para dentro da loja de poções.

Toda a loja era banhada por uma estranha luz arco íris, mas exceto por isso, podia-se basicamente descrevê-la como um caixote apertado e fedido cheio de bugigangas.

A Sra. Steiner, dona da loja, era uma bruxinha muito engraçada na opinião de Darwin, toda baixinha e roliça, estava com o avental sempre sujo de alguma coisa, e os cabelos espalhados para todos os lados, como um revolto ninho cinza de passarinhos, que ela se esforçava para esconder debaixo de um surrado chapéu marrom de bruxa, no entanto era um tanto perigoso ficar perto dela por muito tempo, já havia recebido sua varinha a trinta ou cinquenta anos, mas nunca tivera nenhum aprendiz, pois dois dos três filhos haviam preferido aprender com o pai, e o terceiro escolhera ter a madrinha como mestra, e não era difícil saber o porquê: aquela velhinha engraçada era simplesmente um perigo!

O que se dizia entre as aves familiares, era que a Sra. Steiner já tivera sete familiares, e todos haviam padecido de alguma trapalhada mortal dela.

No momento em que entrou na loja, Darwin encontrou a estranha bruxa, se equilibrando em cima de um banquinho de três pés, arrumando nas prateleiras uma nova remeça de poções, em cima do balcão havia um tatu adormecido – pelo menos Darwin esperava que estivesse adormecido. Aquele era o oitavo familiar da velha bruxa, e se as coisas se seguissem como haviam seguido com os outros, este também não duraria muito.

Pigarreou, e no mesmo instante ela virou seus intensos olhos verdes para ele, sem saber bem porque, talvez algum extinto de preservação, Darwin recuou um passo.

_Sim, o que deseja querida? – perguntou saltando do banquinho de três pernas.

Darwin não soube o que responder, até então seu objetivo era encontrar a loja de poções da Sra. Steiner – e provar para Kagome que era capaz – mas agora que estava ali, o que era suposto ele fazer?

Não tinha qualquer dinheiro, e mesmo que tivesse não havia nada ali que já não houvesse no porão de Soraia, na verdade aquele lugar parecia mais o lugar onde Soraia guardava as coisas que já não cabiam mais no porão.

Um feixe de luz azul, da luz arco íris que banhava toda a loja, por um momento o cegou, e curioso sobre a origem daquela luz, Darwin ergueu os olhos. Havia um trambolho preso do teto, que se parecia muito com uma espécie de disco com várias penas presas em suas extremidades, e um globo feito de algum material que fazia a luz ficar colorida quando passava através d... Penas!

Seus olhos esbugalharam-se.

_Aquelas penas também estão à venda? – perguntou.

...

Inuyasha passou os braços em volta da cintura de Kagome, e beijou-lhe o ombro esquerdo, fazendo a cor subir às faces da menina.

_Não faça isso. – ela balbuciou desconcertada – Me desconcentra.

_Bem e o que quer que e faça? – ele suspirou apertando-a mais conta si – Você esta me deixando sozinho aqui por cada vez mais tempo...

_Por causa da chuva! – ela justificou.

_E quando volta só fica prestando atenção nesses mapas e pergaminhos.

A proximidade de Inuyasha e a voz dele ecoando em seus ouvidos deixava Kagome completamente desnorteada, mas não tanto quanto o que ele estava prestes a fazer:

Inuyasha afastou seus cabelos e beijou-a na nuca.

_I-Inuyasha! – gaguejou – Darwin tem razão, você é mesmo um velhaco pervertido!

_Talvez eu seja mesmo. Não é? – ele admitiu escorregando a mão por baixo de seu queixo para virar-lhe a cabeça e beijar-lhe os lábios.

Kagome ergueu uma mão e segurou Inuyasha pela nuca tentando trazê-lo para mais perto, já totalmente esquecida do mapa que estivera estudando, ele virou-a ainda beijando-a deslizou as mãos por suas costas, mal tocando a pele suave, ele a beijou no queixo, uma mão espalmada em suas costas, e a outra subindo perigosamente por seu ventre em direção a um...

_Despistar o Hakudoushi é? – alguém gritou de repente – Isso está mais para despistar o Darwin!

Kagome afastou-se bruscamente de Inuyasha, e olhando-o extremamente zangada, como ele achou que nunca veria, ela apontou para seu rosto e disse:

_Seu velhaco pervertido nunca mais ponha as mãos nela!

_Ah Darwin. – Outra Kagome suspirou, ao lado daquela, e Inuyasha percebeu que aquela que ralhava com ele não era a mesma que ele estivera beijando até a pouco, e que Kagome não havia se afastado, mas sido puxada – O que faz aqui?

_Evitando uma tragédia aparentemente! – escandalizou o pássaro em corpo de menina.

Kagome, a verdadeira, suspirou.

_Não havia nenhuma tragédia prestes a acontecer.

_Havia sim! – e da mesma forma como fez com Inuyasha, Darwin apontou diretamente para o rosto de Kagome – E agora fique quieta, Kagome eu amo você, por isso me preocupo e sei o que é melhor para você! Mas não foi pra isso que eu vim aqui.

A ave lançou um olhar furtivo aos dois, mas pareceu se acalmar, Inuyasha sentiu um arrepio na espinha, mas não soube exatamente porque, era como se estivessem sendo observados.

_Bem então diga logo pra que veio! – impacientou-se Inuyasha.

_Eu digo. – Darwin o olhou mal humorado – Mas não porque você mandou, e sim porque vai ajudar a minha bruxa!

Kagome colocou a mão em seu ombro.

_Fale logo Darwin.

Darwin a olhou.

_Você não precisa explodir a torre de astronomia para conseguir as penas de falcão peregrino que quer, para transmuta-lo e tirá-lo dessa ilha.

_Eu não queria explodir a torre de astronomia. – Kagome corrigiu sentindo o rosto se aquecer. – Eu só ia causar uma explosão, considerável, para que eles pensassem que um meteoro tinha caído e... E... Deixa pra lá. – Parou vermelha demais para falar. – De qualquer forma, por que não preciso mais ir até lá?

Darwin estufou o peito e cruzou os braços sobre ele, com um sorrisinho arrogante nos lábios.

_Porque eu encontrei penas de falcão peregrino na vila. – respondeu todo orgulhoso de si.

Mas a jovem bruxa custou a acreditar, ela piscou e balançou a cabeça.

_Impossível! Segundo as minhas leituras na areia vermelha, a Mãe disse...

_Que o falcão peregrino mais próximo está na torre de astronomia, e deve estar certo, mas mesmo assim eu encontrei penas dele na vila.

_Onde? – perguntou surpresa.

_Na loja de poções da Sra. Steiner. Ela tem penas de várias aves à venda lá. Acho que penas devem ser usadas em alguns feitiços também.

E estremeceu pensando em seus pobres primos pássaros sendo depenados. Ah, como eram cruéis os praticantes de magia.

Já Kagome precisou sentar-se, ela nunca havia pensado em procurar as penas à venda na própria vila porque ela mesma nunca realizara nenhum feitiço, além do de transmutação, que envolvesse alguma pena, talvez esses fossem feitiços mais avançados, afinal ela mal iniciara seu quarto ano de bruxaria, por outro lado, Soraia nunca a mandara para catar pena na floresta também. Talvez as penas não fossem muito utilizadas em poções...

_As penas estão na vila... – balbuciou para si mesma, e olhou emocionada para Inuyasha – Percebe o que isso significa Inuyasha? Logo você será livre!

_Todos nós vamos sair daqui – corrigiu Inuyasha, mas havia um mau pressentimento lhe repuxando as entranhas – Infelizmente acho que você não vai querer deixar o corvo para trás.

_É claro que não! – negou Kagome abraçando protetoramente a Darwin, que havia se sentado ao seu lado. – Ele é meu familiar, nunca o abandonarei!

Darwin retribuiu o abraço de Kagome, coisa que tinha poucas oportunidades de fazer, visto que em sua verdadeira forma ele não tinha braços para abraça-la, e lançou o olhar vitorioso a Inuyasha, do tipo: "Viu só? Nunca vai se livrar de mim! Seu velhaco pervertido!", o que deu a Inuyasha um renovado desejo de comer gralha no espeto. Espere só quando aquele passarinho voltasse ao normal, e Kagome não estivesse olhando...

Lembrando-se de algo, Kagome sorriu e afastou Darwin.

_Darwin. – chamou – Quer ver uma coisa nova que aprendi?

Os olhos negros de Darwin se arregalaram, deveriam estar bicolores como os dela, mas não importava quantas vezes Kagome o transforma-se, ela nunca conseguia mudar a cor dos olhos dele.

_Espere! Que coisa?

_Ah. – ela sorriu calidamente – Só uma coisinha que li por acaso.

Ele começou a recuar.

_Não. Espere um pouco Kagome, da ultima vez que você testou em mim um feitiço que havia lido por acaso em algum lugar, eu fique vomitando margaridas por um mês inteiro...!

Mas era tarde demais, Kagome já havia começado a recitar o feitiço. Era bem mais fácil memoriza-los quando se conhecia o significado por trás das palavras. "Sua mascara caiu, a magia não o ocultará, pois dos meus olhos, a verdade não pode esconder. Revele-se eu ordeno!".

Por alguns segundos nada aconteceu. E Kagome já repassava o feitiço em sua mente, tentando lembrar se havia falado tudo correto, quando Darwin arqueou e curvou-se para frente.

_Darwin! – exclamou preocupada o puxando para si – Darwin fale comigo! Você está bem?

As unhas de Darwin cravaram-se em suas costas, ele a apertou num abraço esmagador, e guinchou agudamente em seu ouvido, o corpo começo a encolher, e penas começaram a nascerem por todo seu corpo, os braços foram recuando e se transformando em asas.

Uma gralha azul acomodou-se no colo de Kagome. Ela sorriu.

_Viu só? Devolvi suas asas. Não teria sido tão doloroso se tivesse confiado um pouco mais em mim.

Inuyasha acocorou-se a sua frente, com os pelos da nuca todos eriçados.

_Pensei que tinha dito que esse feitiço duraria no mínimo doze horas.

_Duraria. – ela concordou – Mas usei um contra feitiço nele.

_Podia ter me avisado o que você iria fazer. – Darwin reclamou em seu colo – Eu teria ficado um pouco menos nervoso.

Kagome sorriu o acomodando melhor em seus braços.

_Eu queria fazer um pouco de suspense.

Inuyasha sentou-se ao seu lado e olhou para Darwin, provavelmente imaginando novamente qual seria o gosto de gralha azul no espeto, Kagome sabia que ele costumava fazer muito isso, mas a verdade é que ela estava feliz, muito feliz, nunca achou que seria tão fácil conseguir as penas de falcão peregrino, tudo o que precisava era de algumas moedas, e o amor de sua vida estaria finalmente livre, e seguro, longe das mãos de seus irmãos e irmãs... E dela.

Essa parte a entristecia, mas era verdade, por mais que ela ansiasse em viver uma vida em comum com ele, e rever a família novamente, ela não podia acompanha-lo de volta ao mundo dos homens, a marca da bruxaria estava nela, os olhos desiguais diriam a todos que havia algo maligno nela, a gralha azul a seguindo para todos os lados só pioraria a situação, especialmente também por gralhas, assim como corvos e corujas, serem pássaros de maus agouros. As pessoas só encontrariam uma resposta para tais sinais. Kagome suspirou. Bruxaria.

E isso obviamente levaria aos três a uma fogueira.

Observando por entre as frestas da parede de madeira – pois estaria se expondo demais, os observando pela janela ou pela porta, Hakudoushi engoliu em seco, ele tinha razão, ele tinha mesmo razão, aquela garota de olhos estranhos realmente era uma traidora!

Virou-se e começou a se afastar da cabana, ele queria correr, mas estava tentando ser silencioso para que não fosse percebido, por isso havia deixado Entei em casa, só que não era fácil ser silencioso numa floresta, havia muitas folhas secas, e galhos no chão, todos apenas esperando para serem pisados, e entregarem sua presença ali, e seria ainda mais difícil ser silencioso montado em um cavalo.

Claro que o canto dos pássaros, o barulho dos outros animais e som do vento nas folhas das árvores podiam até camuflar um pouco, qualquer som que ele fizesse, mas ele não queria se arriscar, tinha de ser cuidadoso, muito cuidadoso, pois ela sabia que ele desconfiava dela, por isso manava a gralha transmutada em sua forma para enganá-lo.

E ele caiu na armadilha como um perfeito idiota.

Ele estava certo, o tempo todo ele estivera certo, a garota da terra dos homens era mesmo uma traidora abrigando um homem humano na ilha, e pior, era amante dele, Hakudoushi sentia calafrios só de pensar nisso, ela iria comprar penas de falcão na vila, e transforma-se juntamente com seu amante humano em falcões para fugirem da Ilha.

Mas a magia de transmutação era algo muito avançado para aquela desprezível garota da Terra dos Homens, uma magia do sexto ou sétimo ano de magia, não, do nono, e ela sequer havia chegado ao quinto, e era bem conhecido na comunidade o fato de que aquela garota, não era uma das mais brilhantes, sempre perambulando por aí, com ou sem a companhia do familiar, sem dar a menor importância aos ensinamentos de magia de sua tutora... A tutora!

Se ela havia aprendido uma magia como aquela, somente a tutora dela é que poderia ter ensinado, é claro ela também tinha um amante na Terra dos Homens, com certeza o havia conhecido na época em que fora buscar aquela traidora!

Por isso nunca havia se casado e tido filhos, como seria natural: porque ela estava apaixonada – eca – por um humano, e todo este tempo estivera apenas mancomunando a traição com sua aprendiza impura.

Sendo assim a traição então era muito maior do que ele imaginara a principio, e muito mais hedionda, porque diferente daquela garota indigna a sua tutora era uma legitima bruxa de sangue puro, filha da Ilha!

Alguns galhos começaram a estalar acima da cabeça de Hakudoushi, e a luz do sol ficou cada vez mais escassa na floresta, até desaparecer por completo, ele apertou os passos, já não se importando se era ouvido ou não, já estava longe o suficiente da cabana, tinha que avisar os outros, tinha que chegar até a vila e contar a todos o que havia descoberto...!

Algo o atingiu com força na nuca, e o mundo se apagou.

O cajado de Kagome caiu aos seus pés, e de olhos arregalados ela levou a mão à boca.

_Acho que o matei. – murmurou para si mesma, o corpo de Hakudoushi continuou jogado no chão, inerte, Kagome soluçou – Pela Mãe eu o matei!

Exasperou-se levando as mãos à cabeça, e caindo de joelhos no chão.

Inuyasha passou por ela e ajoelhou-se ao lado do garoto, puxou o capuz de sua veste de aprendiz para baixo e afastou os cabelos – que tinham um estranho tom arroxeado – dali. Não havia sangue. Isso era bom. Pegou-o pelo ombro e o virou. O rosto do menino estava sujo de terra, mas, fora estar desacordado por causa de uma cajadada na cabeça, ele parecia estar bem, apenas desacordado. Ainda assim Inuyasha abaixou-se até encostar o ouvido na caixa torácica da criança. Ele estava respirando, e o coração batia. Suspirou aliviado e ergueu-se.

_Ele não morreu. – informou. – Você não o matou Kagome.

Kagome, que havia coberto o rosto com as mãos, como se quisesse apagar da cabeça aquela cena, separou os dedos lentamente, para espiar entre eles.

_O... O que?

_Ele não morreu. – repetiu – Você só o deixou desacordado.

Kagome suspirou exprimindo o seu alivio e apoiou as mãos no chão, próximas ao cajado, para não cair.

_A Mãe seja louvada. – ela olhou o menino – Como você sabia?

_Eu estava com um pressentimento ruim. – ele explicou – Sabe aquela sensação de estar sendo observado? Era mais ou menos algo assim, mas como dessa vez não era o seu pássaro que estava nos observando, porque ele estava lá conosco. Eu supus que algo deveria estar errado. Chame de sexto sentido se quiser... Ainda bem que o pegamos antes dele contar a alguém não é?

Contar a alguém.

O alivio de Kagome durou pouco, logo ela ergueu a cabeça para Inuyasha, novamente a beira do pânico.

_Estou arruinada. – sua voz soava definitiva e absoluta, como se naquele momento tivesse determinado sua própria sentença de morte – Quando ele acordar, contará a nossos irmãos e irmãs o que descobriu, e então...!

_Nós já estaremos longe, fora do alcance deles. – terminou Inuyasha.

Só que Kagome sacudiu a cabeça como se sua mente não pudesse aceitar aquela ideia, e voltou a cobrir o rosto com as mãos.

_O que farei? O que farei? Mãe, o que farei? Eles nunca me perdoarão. Minhas irmãs e irmãos nunca me perdoarão.

De repente, Inuyasha entendeu tudo. E sua face endureceu.

_Você nunca pretendeu ir comigo não é? –Kagome sequer teve coragem de olhá-lo. Inuyasha trincou o maxilar. – Foi isso o que você quis me dizer aquele dia em que nos conhecemos, não foi Kagome? "Um dia, também já fui uma de vocês." você já foi uma de nós, não é mais, diz que esta é sua prisão, mas a verdade é que você adotou este lugar como um lar, e abraçou a seus carcereiros como irmãos.

_Sou uma bruxa. – ela soluçou, pela primeira vez assumindo isso em voz alta – A mãe presenteou a Primeira Bruxa com esta Ilha, para manter a todos nós em segurança, não posso me afastar dela Inuyasha, não posso, aqui estou segura!

Gritou a ultima palavra, erguendo o rosto, molhado de lágrimas para encará-lo.

_Segura. – ele repetiu com amargura. – Vamos ver o quão segura você estará aqui, quando seus irmãos e irmãs descobrirem a sua traição. Vou levar esse garoto para a cabana. Você cuida das penas de falcão.

Ele ergueu Hakudoushi, o jogou sobre um ombro e foi embora.

Darwin desceu rodopiando do alto da copa das árvores, e pousou humilde de cabeça baixa.

_Eu sinto muito. – ele murmurou. – É tudo minha culpa Kagome. Eu devia ter acreditado em você quando disse que estava sendo vigiada. Eu a condenei à morte ou ao exilio... Não vou culpa-la se quiser romper com o elo.

Não era comum, mas às vezes quando um familiar não correspondia às expectativas, ou sendo indomável, ou colocando o seu bruxo, ou bruxa, em perigo, ou qualquer outro fato desta natureza, o seu bruxo, ou bruxa, tinha por obrigação libertá-lo do elo... Com a morte. E pelo jeito que Darwin olhava fixamente para seu punhal cerimonial, como se esperasse que a qualquer momento ela o desembainhasse e lhe decepasse sua cabeça fora, era exatamente nisso o que ele estava pensando.

Kagome o pegou nas mãos e levantou-se.

_Não seja tolo Darwin, como eu poderia romper com nosso elo, quando tudo o que você fez foi me amar? Você só estava tentando me ajudar.

_Mas eu trouxe o garoto aqui. Eu a condenei.

_Isso foi uma fatalidade. – ela abaixou-se e pegou o cajado.

Foi quando algo lhe ocorreu. O familiar de Hakudoushi! O cavalo! Mesmo que ele obviamente não estivesse ali, caso contrário teria defendido o garoto da cajadada que Kagome lhe deu, ele certamente sentiria que algo estava errado com seu bruxo, embora isso talvez fosse demorar um pouco, pelo elo entre os dois ser tão recente, e daria um jeito de alertar alguém, Kagome tinha que agir antes que isso acontecesse, e ela precisava ser rápida!

Com um gemido, Kagome jogou Darwin para o alto, para que ele voasse, e pela primeira vez desde que podia se lembrar, disparou correndo pela floresta sem tomar qualquer cuidado com onde ou em que estava pisando.

...

Lá no alto, uma pequena águia-negra asiática pairava inquieta, por que de repente as árvores haviam se fechado e bloqueado toda a sua visão?

Ela voou em círculos algumas vezes, tentando ver o que se passava, mas os galhos das copas das árvores estavam todos ficando cada vez mais entrelaçados e unidos, elas definitivamente estavam tentando esconder alguma coisa.

Inquieta, a águia abriu o bico e gritou um aviso.

Hakudoushi abriu os olhos ao ouvir aquilo, estava zonzo e desorientado, sem ter ideia de onde se encontrava, sentia náuseas e um forte latejar na parte de trás da cabeça. Tentou se levantar, mas então se descobriu amarrado e amordaçado.

Sentiu o coração acelerar em pânico, e sua respiração tornou-se ofegante.

A traição! Ele havia descoberto a traição!

Estava indo para a vila, avisar a todos quando... Algo o atingira na cabeça. Fechou os olhos e gemeu. Tinha sido capturado. Mas que estúpido.

_Então você acordou. – uma voz disse acima dele. Alguém o pegou pelo ombro e o girou. Para que deitasse de costas. – Kagome realmente não lhe bateu tão forte quando pensava. Ela vai ficar aliviada. Desculpe pela mordaça, mas eu já estou aqui a tempo o suficiente para entender que as palavras de vocês são muito perigosas.

O humano! Hakudoushi o olhou com fúria, como se pudesse incinera-lo com aquilo, e afastou-se dele da melhor forma possível, contorcendo-se e rolando humilhantemente, seus olhos diziam: Não me toque seu inseto. Não fale comigo. Nem sequer olhe para mim. Mas o humano sorriu como se aquilo fosse alguma piada levantou-se e deu as costas a ele.

Não ria de mim seu inseto desprezível!

Hakudoushi queria gritar. Contendo sua fúria, pois de nada ela lhe serviria, ele olhou a volta, onde estava a traidora e sua gralha?

As penas!

Ela havia ido buscar as penas. Iriam fugir naquele momento. Isso não podia acontecer, ele tinha que impedi-los, a sua glória dependia disso!

Nunca havia tentando aquilo antes, mas supôs... Bem, chamar aquele cavalo idiota era sua única chance. Fechou os olhos e se concentrou o máximo possível.

Entei!

O cavalo ergueu a cabeça, confuso e desorientado. Por um segundo ele imaginou ter ouvido a voz de Hakudoushi dizendo seu nome. Mas como isso era possível se ele sequer estava por perto? Desde que saíra pelo meio da manhã ao encalço daquela garota, que ele insistia estar tramando uma traição, ele não havia retornado.

Ele resfolegou, e começou a procurar, nos arbustos próximos algum sinal de que o irritante aprendiz de bruxo estava escondido em algum lugar por ali, estava fuçando alguns arbustos quando ouviu que alguém vinha se aproximando depressa, e ergueu a cabeça para ver a menina, que Hakudoushi supostamente estaria seguindo, passar correndo pela rua, sem sequer nota-lo, com a gralha azul voando logo atrás e o cheiro de Hakudoushi invadiu lhe as narinas.

Ele olhou para o fim da rua, esperando que ele aparecesse caminhando por ali, resmungando emburrado de braços cruzados, que aquela garota só fazia coisas chatas, como ficar perambulando sem rumo pela vila e depois voltar para casa.

Mas Hakudoushi não apareceu. Aquilo era estranho, o que estava acontecendo? Como Entei podia ter ouvido sua voz e sentido seu cheiro, se ele sequer estava por perto?

Algo o ferroou na parte de trás da cabeça, e irritado, Entei virou-se com a boca arreganhada para engolir o inseto, mas não havia nada ali, bufou balançando a cauda provavelmente já havia fugido voando, e deixado uma irritante dor na parte de trás de sua cabeça, que... Parecia estar se espalhando. O cavalo piscou, sentia-se um pouco tonto. Como se alguém o tivesse acertado na cabeça.

Hakudoushi!

De repente em estado de alerta, virou a cabeça para a garota que agora já ia longe à rua, com um longo e retorcido pedaço de pau na mão, era aquilo! Aquele pedaço de pau tinha o cheiro de Hakudoushi, ela o havia acertado na cabeça com aquilo!

Praguejando Entei, deu meia volta e tentou correr para procurar Hakudoushi, mas estava amarrado, só que ele não se daria por vencido, se empinou nas duas patas traseiras e relinchou o mais alto que pôde, ele escoiceou o ar e forçou a corda, relinchou novamente.

Mesmo aquela distância Kagome pôde ouvir o cavalo enlouquecido de Hakudoushi, começou a correr mais rápido, mal notou as pessoas de olhos fixos no céu que começavam a se amontoar na rua, entre elas Soraia, e entrou em casa.

_O que estamos fazendo aqui?! – Darwin voava feito um louco pela sala, tomado pela adrenalina – As penas estão na loja de poções!

_Exatamente! – Kagome começou a subir as escadas – Eu preciso de dinheiro para compra-las!

O único lugar na casa onde haveria dinheiro era o quarto de Soraia. Darwin engasgou-se, certamente Kagome não estaria tão louca para...!

O estrondo vindo do andar de cima provou que sim, Kagome estava louca. Darwin foi voando para lá, a pequena aprendiza de bruxa havia arrancado a fechadura da porta do quarto de Soraia, e quebrado parte de seu cajado junto, ela largou o cajado quebrado no chão chutou a porta inutilizada e invadiu o cômodo, Darwin voou atrás.

Mas Celeste estava lá.

Ela desenrolou-se na cama de Soraia e ergueu os olhos cegos para a dupla invasora, colocando a língua para fora repetidas vezes, sentindo o gosto do medo e do desespero no ar. Abriu a boca e sibilou como se estivesse experimentando as mandíbulas para saber se era grande o bastante para engolir aos dois juntos, e veio deslizando lenta e perigosamente na direção dos dois. Kagome recuou assustada, e sequer conseguiu achar a porta escancarada logo atrás de si, de forma que se prensou contra a parede.

_D-Darwin! – emitiu um grito estrangulado.

Darwin sempre morreu de medo de Celeste.

Ele deu meia volta e fugiu voando em alta velocidade do quarto. Celeste voltou a sibilar, e preparou-se para o bote, Kagome virou o rosto, pressionando a bochecha contra a parede e fechou os olhos com força.

Era o seu fim.

Celeste saltou.

_Fique longe da minha bruxa! – gritou Darwin.

Um livro grande velho e pesado foi atirado na cabeça da cobra, jogando-a para o chão. Kagome observou-a de olhos arregalados, esperando... E esperando. Mas a cobra não voltou a se mexer.

_Darwin. – Kagome o olhou – Você me salvou!

_É claro que sim. – o pássaro parecia quase ofendido com a surpresa dela. – Agora se apresse Kagome, pegue logo esse dinheiro e vamos embora!

Ela não sabia dizer se a cobra havia morrido, mas caso tivesse, era melhor que se apressassem, pois Soraia logo estaria ali, sem perder tempo, Kagome começou a vasculhar o quarto da tutora.

Pareceu levar uma eternidade até que Kagome e Darwin finalmente encontrassem o que procuravam, o dinheiro de Soraia estava muito bem guardado numa sacolinha de couro, enfeitiçada para morder a mão de quem quer que tente tocá-la, escondida debaixo de uma tábua no piso.

Ainda assim Kagome conseguiu tirar o que precisava dela, e saiu correndo de casa.

Havia perdido tempo demais ali, aquela altura, o cavalo de Hakudoushi já podia... Havia uma multidão na rua, todos de olhos fixos no céu.

_O que a patrulha está fazendo? – murmuravam um.

_A floresta está estranha. – dizia outro.

_Olhe, ali vem mais um! – apontou um homem.

E com um tremor percorrendo todo o corpo, Kagome ergueu os olhos para ver, uma coruja atravessando os céus, sendo seguida por seu bruxo em uma vassoura. Ele fazia parte da patrulha alada. Aquilo não era bom, os membros da patrulha que possuíam corujas só deveriam fazer rondas à noite. Seguindo-os com os olhos, Kagome viu que eles iam em direção à floresta, e pior, já havia outros cinco membros da patrulha ali.

_O que está acontecendo? – era a pergunta que não queria calar no meio da multidão.

Apertando bem as moedas na palma da mão, temendo perde-las, Kagome curvou a cabeça e enfiou-se na multidão com Darwin em seu ombro, arrastando-se o mais discretamente possível, para não chamar a atenção para si, coisa que seria difícil de fazer, já que todos estavam com os olhos fixos no céu, atentos a cada movimento dos patrulheiros alados.

Estava quase chegando a uma pequena viela, onde se poderia ver livre daquele sufoco, quando várias pessoas na rua prenderam a respiração, e de uma hora para outras as perguntas que circulavam na multidão mudaram:

_Viram aquilo? – perguntou alguém espantado – A floresta...!

_A floresta. – disse outro com igual assombro.

Kagome finalmente alcançou a viela, e enfiou-se nela livrando-se assim daquele amontoado de gente na rua, por um segundo respirou aliviada, mas então Darwin bicou seu ombro e lembrou-a de que não podia perder mais tempo do que já havia perdido, fazendo-a rapidamente apressar os passos.

Deixou para trás as pessoas estáticas na rua, assombradas com o que haviam acabado de ver: um longo galho erguera-se da floresta, lenta e perigosamente, como um urso que tivesse acabado de acordar de uma longa hibernação e agora estivesse se espreguiçando, os patrulheiros, provavelmente tão surpresos quanto às pessoas que observavam tudo da vila, sequer tiveram tempo de se mover, antes que o galho descesse com brusquidão sobre eles, lançando dois vigilantes e um familiar para longe, da mesma forma que faria uma pessoa para espantar algumas moscas irritantes que estivessem pairando sobre sua cabeça.

_A floresta está repelindo os patrulheiros alados! – se seguiu os murmúrios.

Mas Kagome já havia se afastado demais e já não podia mais ouvi-los, pra falar a verdade, ela sequer havia tomado conhecimento da razão pela qual todo mundo parecia tão espantado.

Darwin virou a cabeça em alerta.

_Entei! – disse.

E um furioso relincho de cavalo foi-se ouvido ao longe, fazendo o pânico martelar surdamente nos ouvidos de Kagome.

Em frente à loja de poções a Sra. Steiner também assistia estupefata ao que havia acabado de acontecer, e sequer se dera conta que deixara cair o cesto de trevos que carregava antes, e que agora o tatu que era seu familiar andava às cegas de um lado para o outro com um cesto enfiado na cabeça.

Por isso obviamente quase teve um ataque do coração, quando aquela aprendiza apareceu do nada, empurrando-a para dentro da loja pedindo por penas.

_Penas? – repetiu assustada – Mas que penas? Do que esta falando minha filha?

_A senhora vende penas para feitiços aqui! – afirmou a aprendiza, beirando ao desespero – Preciso delas, duas, não, três, melhor, cinco!

_Sim, sim eu tenho penas. – concordou sobressaltada – Mas que tipo...?

A menina nem sequer deixo-a terminar de falar.

_Falcão peregrino! – já foi dizendo – Preciso de penas de falcão peregrino! – agarrou-a pelos ombros – A Senhora tem aqui, não tem?

Ela hesitou por meio segundo, nunca pensou que uma bruxa experiente como ela sentiria medo de uma aprendiza, mas aquela definitivamente a assustava, ela parecia enlouquecida a beira de um ataque psicótico, e aqueles olhos... Oh aqueles olhos! Eram olhos ferozes e malignos, um azul o outro castanho, sem duvida não eram olhos que deveriam pertencer a uma criança, eles não era assim quando ela tinha ido ali mais cedo, eles eram negros e profundos, a menina também parecia estar bem mais calma naquela ocasião.

_Tenho. – respondeu e apontou para as penas que tinha a venda – Mas apenas duas destas. Espere um pouco, que eu vou pegar a escada...

A aprendiza sacudiu a cabeça.

_Não há tempo, Darwin!

A ave azul, que só agora ela havia notado, se lançou do ombro da menina e voou como uma flecha em direção as penas no teto, com um estalo ela rompeu a corda que prendia o enfeite onde estavam as penas, e este caiu com estrondo no chão, o globo de vidro partiu-se em dezenas de pedacinhos, um deles se enterrou na carne suave da perna da garota, mas ela sequer pareceu sentir.

Ajoelhou-se ali e começou a vasculhar entre os destroços, sem importar-se com os cortes que estava arranjando na mão e nos joelhos.

_Quais delas? – perguntou frenética. Cascos de cavalo eram ouvidos se aproximando pela rua. – Quais delas?!

De olhos arregalados a Sra. Steiner ajoelhou-se afobada para ajuda-la, catou dali algumas penas, cortando um dos dedos num caco de vidro, e começou a vasculha-las.

_Há uma traidora entre nós! – Uma mulher gritou lá fora, e um cavalo relinchou furioso. – Ela golpeou meu irmão, o familiar dele contou isso ao meu, ajudem-me todos! Ajudem-me a encontrar a traidora!

Era a voz de Kagura, a bruxa dos ventos, irmã mais velha de Hakudoushi, quem incitava a multidão lá fora, aos poucos cabeças deixavam de prestar atenção nos patrulheiros alados, que ainda eram repelidos pela floresta para se virarem em sua direção, era difícil não prestar atenção numa mulher montada num cavalo daquele tamanho, principalmente quando este ameaçava esmagar a todos que não saíssem de se caminho.

_Traidora...? – o sussurrou começou a espalhar-se de boca em boca pela rua, como uma praga.

A Sra. Steiner parou de separar penas, a boca se abriu num circulo ao ouvir aquilo, em sua mão restava apenas duas penas, de um tom dourado amarronzado, uma traidora entre elas? Isso só poderia significar uma coisa, uma de suas irmãs havia abrigado um humano na Ilha.

Ela olhou a aprendiza agoniada a sua frente, parecendo estar vendo-a pela primeira vez, mas a verdade é que só agora a reconhecia, ela era a garota trazida da Terra dos Homens, aprendiza de Soraia, a última trazida de lá até então.

Lembrou-se do que diziam os mais jovens sobre aqueles olhos.

Os olhos de uma traidora.

Quanta verdade pode haver nas cruéis palavras de algumas crianças?

_Você...

A menina lançou-se sobre ela, fazendo-a gritar, as penas foram arrancadas de sua mão, assim como a varinha de seu bolso, e moedas de pratas se espalharam pelo chão, seu familiar veio em seu auxilio, mas a garota saiu correndo da loja, saltando sobre ele, e fugiu com um grito:

_Darwin!

O pássaro azul a seguiu, e os dois desapareceram.

_A traidora! – Kagome ouviu a Sra. Steiner gritar lá atrás ainda em sua loja – Ali vai ela!

Alguém tentou agarrá-la, Kagome não viu quem. E Darwin desceu sobre o rosto dessa pessoa, atacando-a com suas garras e fazendo-a cair gritando no chão, quando o familiar desta pessoa, que era um gato selvagem, tentou saltar sobre Darwin para defender seu bruxo, Kagome virou a varinha afanada em sua direção, dela saíram centelhas flamejantes que lançaram o gato em chamas para longe, virando-se Kagome pôs fogo em mais uma dúzia de bruxos e alguns familiares, que tentavam cerca-la, e surpresos demais por verem uma varinha na mão de uma aprendiza – mesmo que uma traidora –, sequer tiveram tempo de reagir.

A simples visão do fogo fez com que boa parte, quase todos para falar a verdade, dos familiares fugissem em debandada, causando um pequeno tumulto, e dificultando ainda mais a captura da traidora.

Ela lançou-se em meio ao caos empurrou uns com cotoveladas, chutou outros, a certo ponto lançou uma criança, que sequer havia chegado à idade de aprendiz, na sarjeta, de alguma forma transformou um coelho familiar, num chapéu, como uma simples sacudidela da varinha afanada, e mordeu a mão de um irmão que se atrevera a agarra-lhe o braço.

Correu para a floresta cuspido o sangue daquele homem.

No meio de toda aquela confusão, a maioria sequer percebeu que a garota havia escapado, e os que perceberam não puderam escapar aos caos que se instalara, para segui-la.

De certa forma a multidão a ajudou, pois impediu que a bruxa Kagura e o cavalo Entei se aproximassem dela, a certa altura ela apontou a varinha para a menina, iria matá-la com um só golpe, mas então Darwin desceu do céu, ele estava lá em cima apenas vigiando, e cuidando de todos aqueles que Kagome não via, ele atacou o cavalo, bicou e arranhão seu rosto, deixando ele até mesmo cego de um lado, à visão do outro lado foi obscurecida pelo sangue escorrendo de um profundo corte logo acima do olho, Entei empinou-se relinchando e escoiceando em fúria, tentando abocanhar Darwin e derrubando Kagura no chão, que rolou inerte para longe das patas mortíferas do animal enlouquecido, havia batido a cabeça na queda.

O cavalo não conseguiu alcançá-lo, mas o cisne sim, Darwin havia se esquecido de que o cavalo era o familiar do garoto amarrado na cabana e não da bruxa dos ventos, o verdadeiro familiar da bruxa dos ventos era um cisne negro.

As aves se emboloraram no ar, a gralha azul em clara desvantagem, mas do que nunca ele desejou ser um falcão, uma águia, qualquer coisa que tivesse garras mais afiadas, Darwin sabia que morreria, mas não se importava desde que sua bruxa conseguisse se salvar.

Mas talvez a sorte estivesse lhe sorrindo.

De alguma forma o cavalo os alcançou, mas para sorte de Darwin, foi à ave errada que ele pegou, Entei abocanhou a asa do cisne e o atirou ao chão, antes que a ave pudesse reagir, morreu ao ter seu pescoço esmagado por uma das patas do cavalo.

Darwin fugiu dali antes que o cavalo percebesse que tinha matado o pássaro errado, mas logo que alcançou o céu viu um corvo familiar vir voando em sua direção para o ataque, ele estava ferido e não conseguiria ser rápido o bastante para fugir, mas não teve medo, não havia vencido – bem, tecnicamente vencido – a luta com um cisne para agora cair pelas asas de um corvo.

Mas a ave mal chegara a meio metro de Darwin quando uma centelha vermelha a atingiu no peito, e com um lamento de dor ela caiu em espiral em direção ao chão, levando junto um colibri familiar que também vinha para o ataque.

Darwin olhou consternado para as aves em queda, em tempos passados, familiares como àqueles haviam sido o mais próximo de amigos, depois de Kagome, que ele tivera, mas ele não sentia raiva deles, afinal eles só estavam fazendo por seus bruxos o mesmo que ele estava fazendo pela sua, provavelmente o bruxo tentara acertá-lo, mas errado na mira e acabado por acertar o corvo, uma segunda centelha vermelha passou a centímetros da cabeça de Darwin, e atingiu uma coruja do deserto, a coruja do filho do bibliotecário, que descia para ataca-lo por trás, bem fosse quem fosse o bruxo, era melhor Darwin se apressar a sair logo dali, porque ele estava melhorando de mira.

Estava cansado e ferido, mas deu o melhor de si para voar em zigue zague e desviar-se de mais possíveis ataques.

...

Ele não imaginava, porém, que a intenção do bruxo, cuja varinha havia lançado aquelas centelhas vermelhas, realmente era acertar as outras aves. Suspirando, Soraia lançou novamente mais uma forte centelha que desta vez derrubou uma arara que vinha ao encalço da gralha azul, e voltou a embainhar a varinha.

Estava na janela de sua casa mantendo-se afastada de toda a confusão, embora ela mesma tenha instalado a maior parte do caos com um feitiço para confundir as mentes que ela própria inventara quando ainda era uma simples aprendiza, o feitiço, porém estava se desfazendo, e cada vez mais de seus irmãos estavam se dissipando em direção a floresta para onde a garota havia corrido, ela tinha o ventre comprimido pelo aperto de Celeste que repousava a cabeça em seu ombro, ainda atordoada pela pancada que levara de um livro, a familiar ergueu os olhos cegos para o céu, e depois se virou para Soraia, a língua bifurcada espiando uma e outra vez para fora da boca.

_Eu sei. – suspirou – Se alguém tiver me visto certamente estou condenada. Mas o que queria que eu fizesse? Ela é a minha pupila afinal.

...

Darwin virou-se de lado e começou a descer em direção a Kagome.

A tola! Ao invés de escapar, para a floresta, como seria sensato de se fazer, ela havia parado a meio caminho entre a floresta e a vila quando percebera que não era seguida por ele.

_O que está fazendo? – gritou esganiçado – Vai! Vai! Vai!

_Eu ia voltar quando não vi você! – ela gritou para ele.

_Idiota! – ele respondeu passando por cima de sua cabeça – Ande logo. Eles estão chegando!

_Você está sangrando! – ela gritou, correndo atrás dele.

_Eles estão chegando! – ele voltou a gritar. – Você tem as penas de falcão peregrino?!

_Eles estão chegando! – ela gritou.

Os patrulheiros alados, aqueles dois que restavam nos ares pelo menos, os teriam pegados, mas estavam ocupados demais com a floresta, que agora não se limitava mais a ataca-los com galhos e lançamentos ocasionais, de frutas, mas também os havia agarrado, com longos cipós e os puxavam para baixo, a coruja de um deles, que era o único familiar restante, pois ou outros haviam sido derrubados ou saído voando atrás de seus bruxos lançados longe pela floresta, tentava livrá-los, mas era inútil.

_Isto é loucura! – gritou um deles, a ponto de sufocar quando um cipó veio feito um relâmpago da floreta e o agarrou pelo pescoço – Por que a floresta nos ataca?! A Ilha deveria proteger aos seus filhos e não...!

Ele foi puxado para baixo e engolido pela floresta.

Sim, a ilha protegia aos seus filhos, e naquele momento ela estava protegendo aquela sua pequena e solitária filha, que era julgada por todos pelos olhos e as origens que tinha que todo o dia caminhava sozinha e desolada sem ter quem a aceitasse, e se para fazê-la feliz significava proteger aquele homem que não era seu filho, mas era o primeiro em toda aquela Ilha que a amava e a aceitava da forma como ela era, então a Ilha o protegeria.

A Ilha não podia deixar o amor de sua mais triste filha morrer daquela maneira.

Algo atingiu Kagome no ombro, ela gritou deixando a varinha furtada cair no chão, e agarrando o ombro atingido, seus dedos voltaram pegajosos de sangue, mas ela não teve coragem de olhar para trás ou mesmo parar para pegar a varinha, apenas continuou correndo.

A floresta pareceu abrir-se a sua frente, permitindo a passagem dela e de Darwin, e fechou-se imediatamente ás suas costas, o som de madeira explodindo foi-se ouvido quando outro ataque de seus irmãos foi disparado.

No interior da floresta tudo era escuro e sinistramente silencioso, exceto pelos sons, de madeira explodindo, conforme seus irmãos enfurecidos forçavam a passagem.

_Isso é loucura! – Darwin gritou. – Seremos pegos!

_Não seremos! – Kagome gritou em resposta, mas não tinha certeza.

_Eles estão queimando tudo o que há no caminho! – Darwin a alertou. – A floresta está em chamas!

_Como você sabe?!

_Sinta o calor, ouça o crepitar, é a maior fogueira humana de toda a história da Bruxaria!

A floresta, que até então havia mergulhado num silêncio soturno de repente ganhou vida, mas não de uma maneira boa, pássaros começaram a gritar e voar em pânico, animais saiam de suas tocas, todos em fuga, do calor das chamas que se alastravam.

Até aquele momento, Inuyasha estivera sentado á mesa de Kagome, com o rosto afundado entre as mãos, mergulhado em uma profunda agonia enquanto esperava pelo retorno de Kagome, mas os minutos pareciam se arrastarem moribundos e prolongarem-se, mas ergueu o rosto no momento em que o barulho começou.

Ele sabia. De alguma forma ele já sabia. Sabia que todo aquele silêncio mórbido no qual a floresta havia mergulhado no momento em que Kagome acertara o "irmão" na nuca com o cajado – como se de alguma forma a floresta também tivesse tombado inconsciente – não podia ser boa coisa.

E agora vinha o barulho, o barulho do medo de centenas de animais em fuga.

Descobriram. – era a única coisa que se passava em sua cabeça, e então: – Kagome!

Levantou-se e saiu correndo da cabana, esquecido do pequenino aprendiz de bruxo amarrado e amordaçado no canto, pela primeira vez sem se preocupar, ou ao menos ligar, se alguém o veria, em seus pensamentos só havia espaço para Kagome.

Ele precisava acha-la, precisava salvá-la!

No momento em que pôs os pés para fora uma gota d'água atingiu-o nos lábios, e outras centenas se seguiram a estas, debaixo de seus pés, o solo irregular da floresta começou a transforma-se em lama, era novamente a chuva marcando sua presença.

Mal tinha corrido três metros quando a amada surgiu por entre as árvores e atirou-se em seus braços, sangrando em um dos ombros, e numa das batatas das pernas, também tinha os joelhos todos cortados com vestígios de sangue, e alguns brilhantes fragmentos de espelho grudados a eles.

_Fogo! – foi tudo o que disse. Tinha os olhos inundados de medo.

Com uma das mãos agarrou-o pela camisa, sujando-o com um pouco de sangue, tinha a mão cortada também, e voltou a falar:

_Fogo! – e só então é que conseguiu falar algo mais – Eles... Descobriram, precisamos sair daqui... Agora!

Era do fogo que Kagome estava desesperada para fugir, não da fúria de seus irmãos, não havia nada que uma bruxa temesse mais que o fogo.

Ao redor do casal a floresta estremecia e chorava, sendo consumida pelas chamas de seus próprios filhos, que nem mesmo a chuva era capaz de apagar, enquanto eles forçavam a passagem, queimando e cortando tudo em seu caminho, guiados pelo ódio aos humanos e a afronta da traição daquela que eles "acolheram".

O calor agora era palpável, mesmo com a água da chuva caindo sobre eles, e eles já quase podia sentir a fumaça os sufocando, o fogo estava próximo.

Acima deles do galho de alguma árvore, por enquanto ainda intocada pelo fogo, uma gralha azul ferida, o único pássaro que não estava em fuga, gritou um aviso para o casal condenado:

_Eles estão vindo! – ele via os bruxos lutando com a floresta, emergindo por entre as chamas e a fumaça, feito demônios.

Inuyasha não compreendia as palavras da gralha, mas compreendia o significado delas, agarrou Kagome pelos ombros e disse:

_Faça Kagome! Faça agora, nos transforme em pássaros antes que eles cheguem!

Kagome estava aterrorizada demais para fazer qualquer feitiço, sua mente era um caos, tinha os olhos vítreos e as palavras, tanto as comuns quanto as mágicas, todas emboladas na boca, lutando para saírem, mas só uma conseguia atravessar os lábios da aprendiza, aquela que mais a aterrorizava:

_Fogo!

Inuyasha precisou sacudi-la, uma, duas, três vezes. Para que ela finalmente voltasse a si.

_O feitiço Kagome! – disse – Temos de sair daqui, agora! Onde estão as penas Kagome?

Kagome afastou-se dele, mas quase caiu quando as mãos dele deixaram seus ombros, quase, porém, de alguma forma ela conseguiu manter-se de pé, estendeu a mão até então fechada firmemente em punho, e abriu-a.

Ali estava, uma única e amassada pena de falcão peregrino.

Kagome olhou mortificada para a pluma em sua mão. Somente uma única pluma, apenas uma, mas onde estava a outra, onde estava a outra?! Seus olhos encheram-se de lágrimas.

_Não. – ela murmurou olhava a pena como se pudesse fazê-la se multiplicar – Não.

_O que? – Inuyasha tentava não entrar em pânico, lá de cima Darwin voltou a gritar – O que foi?!

_Só há uma pena Inuyasha. – ela soluçou – Só um de nós poderá partir.

_Não! – Inuyasha agarrou-a pelos braços – Não Kagome! O que aconteceu com a outra?!

_Eu a perdi. – disse afogada em angustia.

Inuyasha engoliu em seco, e tomou uma decisão:

_Então vá você. Transforme-se, pegue Darwin e voe com ele para bem longe daqui.

Mas Kagome também já havia tomado sua decisão, há muito mais tempo que ele.

_Nós ficaremos você vai.

_Não! Ao menos se transforme numa gralha azul!

_Uma gralha azul jamais suportaria a viagem!

_Que seja então, me transforme num falcão, mas depois se transforme numa gralha, e eu juro, carrego você e Darwin para longe daqui!

_Seria demais para você!

_Eu não vou sem você!

_E eu não vou deixa-los matá-lo! – ela gritou, já não havia mais tempo para discursão jogou uma palavra mágica contra seu rosto.

Inuyasha petrificou. Kagome soltou-se do agarre dele, e rápida como uma ave de rapina sua mão disparou no ar e arrancou não um fio, mas uma mecha inteira do cabelo de Inuyasha. Enquanto ela realizava o feitiço, Inuyasha não podia falar, nem mover-se, mas seus olhos imploravam Kagome não faça isso, não faça isso! Mas ela não o escutou.

A pena e os cabelos queimaram, verde e azul. O feitiço foi concluído.

O corpo de Inuyasha estremeceu, e como se alguém tivesse jogado uma pedra em uma vidraça, o primeiro feitiço, aquele que imobilizara Inuyasha, quebrou-se, mas então já era tarde.

Ele sentia dor como nunca sentira antes, era a força do feitiço se impondo a ele e esmagando a sua vontade, os ossos se desfazendo e remodelando-se á vontade da bruxa.

Mas ele ainda conseguiu dizer:

_Ai Kagome, que foi que você fez?!

A transformação já se iniciara.

Uma lágrima escorreu do canto do olho azul de Kagome, mas ela sorria. Pegou-lhe o rosto entre as mãos e o beijou suavemente.

_Foi o melhor. – disse apenas.

Mas mesmo quando ele tornou-se um falcão peregrino por inteiro, ele não se afastou.

_Vá. – ela disse, mas ele não foi – Vá! – olhou por cima do ombro, agora era possível ouvir seus irmãos, eles estavam perto – Por tudo o que é mais sagrado Inuyasha, vá de uma vez!

Porém ele ficou. Ela podia transformá-lo, mas não obriga-lo a deixa-la. Ou pelo menos foi o que pensou.

Erguendo as mãos Kagome recitou as palavras do feitiço do fantoche, que, se Inuyasha entende-se seriam:

"A tua vontade agora a mim pertence, reles criatura curve-se diante o meu poder, as correntes fecham-se em teu pescoço, calcanhares e pulsos, percebes? Agora tu me pertences e fara o que te direi."

Kagome parou, respirou fundo, fechou e abriu os olhos. Não havia mais tempo. Ela então ordenou na língua dos homens:

_Inuyasha vá embora daqui e me deixe, voe para bem longe. – Soluçou e ajoelhou-se enfraquecida, depois de ter usado toda aquela magia, ela já não conseguia mais continuar de pé. – E não pare até estar em segurança.

Inuyasha tentou resistir, queria ficar, não podia deixa-la, ele lutou, mas suas asas pareciam ter vida própria, e o estavam carregando para longe dali, para longe de Kagome, foi quando ele percebeu, que ela o havia enfeitiçado com o mais cruel de todos os feitiços, pois este o obrigava a abandoná-la.

_Não! – gritou, mas era algo inútil, suas asas continuavam a bater – Kagome deixe-me ficar!

Darwin fixou seus olhos nele, quando ele passou voando.

_Espero que entenda o sacrifício que ela esta fazendo por você. – disse a gralha numa soturna sabedoria, sabia que estava condenado – E não o desperdice de alguma forma estupida.

E mergulhou. Os "irmãos" de Kagome haviam chegado.

Inuyasha não podia voltar, pois suas asas enfeitiçadas não lhe permitiam, mas ele ainda pôde olhar para trás, antes não o tivesse feito.

Ele viu Kagome indefesa no chão, cercada por bruxos e animais, Darwin mergulhou para ajuda-la, mas ela o agarrou e o puxou para baixo de seu corpo, fazendo-se de escudo para protegê-lo, quando seus irmãos sacudiram as varinhas e a atacaram.

_Não! – gritou em agonia.

E nenhum dos irmãos de Kagome percebeu o falcão peregrino de olhos dourados, entre tantos outros pássaros em fuga das chamas, voando na chuva para longe daquela ilha, em direção à segurança e a liberdade, até desaparecer no céu azul cobalto.

Estava tudo acabado.

Fim.

Muito bem olha eu aqui correndo para postar, nos últimos minutos da meia noite!

Mas eu consegui!

Ficaram surpresas com o final trágico não é? Confessem que sim!

Feliz Halloween.

Resposta a review:

Joh chan: Oi! Nossa que timing perfeito hein! Eu agoniada para postar, e bem na hora você manda essa review! O.O

Tem razão, Darwin é uma graça, eu me apeguei muito a ele sabe? ^^

Um especial de natal? Com Darwin? Hum... *pensativa*

Pra falar a verdade ele tá arrumando desculpas pra não vir, "hoje não dá, amanha eu vou..." sabe?

Mas em fim, espero que tenha... Chorado com o final. *sorrisinho maligno*

Bye bye.