Capítulo 7
Desabafar com o Galra foi a melhor coisa que fizera, Lance pensou, pois, ao final do dia, sentia-se incomparavelmente melhor do que quando acordara. Seu coração, embora ainda sofresse, estava mais leve e mais em paz do que jamais estivera desde o dia em que Keith fora capturado pelos soldados inimigos, e seus pensamentos, apesar de vez ou outra vagarem pelos recônditos sombrios da sua imaginação, estavam mais serenos e apaziguados.
No início da noite, sentindo-se mais animado e menos irritadiço em relação ao dia anterior, retornou à cabine de controle de Blue para ver se os paladinos tinham recebido o seu sinal e enviado alguma mensagem avisando sobre o tão esperado resgate, no entanto, não obteve resposta alguma. Com um suspiro cansado, ligou os comunicadores e tentou, mais uma vez, entrar em contato com os demais. E tentou e tentou e tentou, até o céu escurecer por completo e o cansaço fazer sua cabeça doer e suas pálpebras pesarem, entretanto, continuou sem obter sucesso.
— E se alguma coisa também aconteceu a eles? — Perguntou, temeroso e já sentindo-se sem esperanças. — E se eles também estiverem precisando de resgate? E se... se eles nunca receberem o meu sinal?
— Se não receberam ainda, vão receber — Assegurou o Galra, pegando o humano pelos ombros e o guiando para fora da cabine de Blue. — Eles vão receber o sinal... e virão te resgatar. Você vai ver, Lance. Agora, precisa descansar se quiser tentar de novo amanhã.
Eles dormiram ao pé de Blue e, no dia seguinte, Lance não perdeu tempo em retornar à cabine para, mais uma vez, tentar a sorte com os comunicadores. Ao entardecer, e ainda sem obter sucesso em suas incontáveis tentativas de contatar os outros paladinos, o humano deixou o leão e caminhou um pouco pela floresta para espairecer a mente e clarear as ideias. E foi durante essa caminhada, ora mirando o céu violáceo, ora observando as árvores enormes e frondosas e as montanhas cinzentas e longínquas que enfeitavam o horizonte, que o moreno foi assaltado de súbito por uma ideia.
Parando e olhando para trás, deixou seu olhar demorar-se sobre Blue e coçou o queixo ao avaliar o leão caído a uma certa distância. Relanceou um olhar para o Galra ao seu lado, que o encarava com curiosidade, e perguntou:
— Você se lembra como chegou a esse planeta?
O Galra fitou o chão por um instante, como se avaliando a pergunta e pensando na resposta, mas logo fez que não.
— Minha primeira lembrança é de acordar aqui, dentro de uma nave quase que completamente destruída. Acho que devo ter sido perseguido quando escapei da prisão e, em algum momento da fuga, fui abatido e caí aqui. Por quê? No que está pensando?
Lance coçou a nuca e tornou a encarar o leão.
— Blue nunca ficou tanto tempo sem conseguir se recuperar de uma batalha — Ele comentou, com um ar pensativo e sério. — E nós já passamos por muita coisa. Por pior que fosse a briga ou os danos que ela sofresse, ela era capaz de se recuperar. Sempre foi. Não sei o que está acontecendo dessa vez...
— Ela precisa de reparos, Lance — Respondeu o Galra, recordando-se do dia em que a vira cair no planeta, cortando o céu como um raio, da situação caótica dentro da cabine de comando e do estado em que o humano se encontrava. — Duvido muito que consiga se recuperar do que aconteceu sozinha.
— Não estou negando que ela precise de reparos — Lance disse. — Talvez você não saiba e até mesmo não seja capaz de entender, mas nós, paladinos, temos uma conexão com os nossos leões. Eu a sinto em minha mente.
O Galra lembrou-se de todas as vezes que Blue se comunicara com ele, ronronando carinhosamente em seus pensamentos e lhe transmitindo sensações das mais diversas, no entanto, não comentou sobre o fato com Lance, pois o humano parecia se sentir muito orgulhoso dessa conexão que possuía com o leão.
— E eu sinto que ela está... não sei... ficando mais fraca, eu acho — Prosseguiu o rapaz, e o Galra franziu o cenho, avaliando aquelas palavras. — É difícil explicar, mas... ela parece mais cansada a cada dia. E eu não acho que ela esteja assim apenas por causa da batalha. Nós fomos atingidos, beleza! Mas... mas não foi o suficiente para deixá-la assim tão... tão... debilitada.
— Pode ter sido o impacto — Sugeriu o Galra e, tal como Lance, passou a observar o leão. Não tinha percebido até então, mas, após o comentário de Lance, também era capaz de sentir o que o moreno sentia.
A energia de Blue parecia estar diminuindo bem aos poucos.
Como se estivesse sendo sugada.
E, apesar da sugestão que acabara de fazer, algo lhe dizia que não. Blue não estava assim por causa do impacto.
— Não — Lance negou, balançando a cabeça para os lados e confirmando os temores do Galra. — Eu acho que não foi nem os danos na hora da batalha nem o impacto que danificaram tanto Blue. Claro que eles tiveram uma parcela de culpa, mas alguma coisa aconteceu quando nos aproximamos do campo gravitacional desse planeta — Comentou e, desviando o olhar de Blue, passou a fitar a cadeia de montanhas, ao longe. — Eu não me lembrava muito bem até pouco tempo atrás. Minhas memórias estavam um pouco bagunçadas, mas agora eu me lembro. Alguma coisa aconteceu logo após sermos atingidos pela nave Galra. Blue tinha sido danificada, mas nada muito sério. Eu me afastei um pouco dos outros leões para ter condição de me recuperar e acabei me aproximando desse planeta. E foi aí que tudo começou a dar errado. Me lembro de vários picos de energia, de luzes piscando e dos controles do leão sendo desativados de repente. E aí nós caíamos — Ele inspirou fundo e encarou os olhos do Galra. — Por isso te perguntei se você se lembrava do que aconteceu quando caiu aqui. Queria saber se também tinha passado pelo mesmo que eu.
— Eu... eu não sei — Balbuciou o Galra, incerto e triste por não ser de grande ajuda. — Como disse, não me lembro de nada antes de chegar aqui. Sinto muito, Lance.
— Ei! Que isso! Não esquenta! Você vai lembrar — Lance sorriu e deu uns tapinhas camaradas no ombro do Galra, que também sorriu em resposta. — Já até mesmo começou a se lembrar de algumas coisa, não é mesmo? Tá certo que não foram coisas muito boas, porque quem gosta de ser torturado? Mas, pelo menos, foi uma memória que recuperou. E, se foi capaz de se lembrar disso, claro que conseguirá se lembrar de mais!
O Galra assentiu, sentindo-se mais confiante, e, encarando o moreno, perguntou:
— Acha que há alguma coisa nesse planeta que causou a queda do seu leão? Talvez algo que danificou os controles? Algum tipo de interferência eletromagnética? E você acha que é por esse mesmo motivo que eu também caí aqui?
— É possível — Lance fez que sim. — E eu acho que é isso, o que quer que isso seja, que está consumindo a energia de Blue... e que está impedindo a minha equipe de receber o sinal de SOS. Talvez exista alguma coisa aqui — Ele olhou ao redor. — impedindo que o sinal seja transmitido direito. E talvez seja essa mesma coisa que não está permitindo que os outros me encontrem.
— Algo como um interferente natural — O Galra cogitou, coçando o queixo e erguendo o rosto, como se encarando alguma coisa no céu — que possa estar presente na atmosfera ou no solo daqui. Ou acha que deve ser algo relacionado ao campo eletromagnético do próprio planeta?
— Sinceramente, não sei — Respondeu Lance. — Mas eu acho que sei uma forma de contornar esse problema. Se eu conseguir fortalecer o sinal o bastante para que ele supere o efeito do interferente, talvez os meus amigos consigam recebê-lo e nos achar. Tudo o que eu preciso é construir um amplificador!
— E você sabe fazer isso? — Indagou o Galra, duvidoso. — Lembro que disse que não era bom com essas coisas.
Lance fez um movimento incerto com a cabeça, no entanto, o sorriso em seu rosto transmitia segurança.
— Claro que Pidge e Hunk dão de dez a zero em mim quanto a essas coisas, mas eu me lembro de uma aula ou outra de eletrônica básica. Vou saber sim construir um amplificador. Isso era tipo, o básico do básico! — E então, o seu sorriso morreu e seus ombros murcharam de repente. Com uma expressão derrotada, fitou o Galra. — O problema é que eu não sei se vou conseguir o material necessário. Aqui nesse lugar só tem mato e pedra! Duvido muito que vou conseguir achar as peças que preciso.
O Galra estreitou os olhos e, inesperadamente, estalou os dedos, como se acabasse de ter uma ideia. Abriu um sorriso animado e pegou Lance pela mão, puxando-o floresta adentro.
— O que está fazendo? — Perguntou o rapaz, apressando o passo para conseguir acompanhar o outro. — Para onde está me levando?
— Eu sei onde pode conseguir material! — Respondeu, todo empolgado. — Na minha nave! Sei que ela está bem acabadinha e que não voltará a voar tão cedo, mas talvez você consiga aproveitar uma peça ou outra.
Lance gargalhou, contagiado pela a empolgação do Galra.
— Galra do bem! Você é um gênio!
~Voltron~
A nave, como o Galra mesmo dissera, estava muito acabada e não voaria tão cedo.
Ou nunca mais.
Lance, contudo, cultivava fortes esperanças de encontrar o material necessário para construir o amplificador de sinal e, assim que chegou onde ela estava, correu até o veículo espacial e começou a procurar por qualquer peça que estivesse num bom estado de conservação. Encontrou algumas válvulas e transistores que pareciam intactos e comemorou ao conseguir recuperar mais alguns dispositivos eletrônicos que poderia usar. Depredou o painel de controle da pequena espaçonave galra como um verdadeiro saqueador, não mostrando piedade alguma e, de quando em quando, deixando escapar animadas exclamações sempre que encontrava algo que lhe interessava. Até que, enquanto vasculhava o pequeno espaço embaixo do painel principal, desmontando um coisinha aqui e outra acolá, franziu a testa ao sentir sua mão esbarrar num determinado objeto. Esticou um pouquinho mais o braço por baixo do painel e, quando conseguiu finalmente alcançar o tal objeto e puxá-lo para si, sentiu seu corpo inteiro gelar.
Em sua mãos, agora, se encontrava um dispositivo muito bem conhecido por Lance.
A bayard do paladino vermelho.
