A/N: Buenas, meus amores! Desculpem pela demora mas a semana de inferno astral - popularmente conhecida como fim de período - resolveu me pegar de jeito. E para estudantes vadios como eu (no sentido cru de vadiar mesmo, pra ter qualquer outro eu precisaria aparecer na faculdade para fazer baixaria), as duas últimas semanas me sugaram a vida. Isso tudo somado ao fato de eu estar bombando mais nas matérias do que fogos de artifício em virada de ano, me deixou numa situação desagradável e corrida. Mas sem mais justificativas.

Temos aqui os POV's do Puck e do nosso casal de menines preferido. Vejamos o que posso adiantar, não leiam (lindas ou confortáveis) no trabalho, fikdik. Com mais pegação, explicações, histórias e um plano mirabolante do nosso delinqüente mais querido. Tá meio autoexplicativo. Espero que gostem desse capítulo também.

Então, galere boa, essa fic vai ser dividida em duas partes (nessa aqui, não abrirei outra, mesmo porque praticidade é meu sobrenome), mas cruzaremos essa ponte quando for necessário.

Obrigada pelas incríveis reviews, elas fazem minha alegria quando o mundo e meus professores resolvem conspirar contra mim. ;]

Pro próximo vamos ter uma confusão generalizada e os pontos de vista vão passear entre as pessoas. Fica a pergunta: querem ver um da Brittany também? Tô pensando em arrumar alguém pro Noah (love is in the air), o que me dizem?

É isso, pessoas bacanas. Deem suas opiniões e façam suas apostas.

Obrigada pelas ótimas reviews e pelo tempo de caminhada juntos. Vocês são ótimos/as. Xoxo.

Ainda não tenho Glee, nem dinheiro, nem dignidade e nada a meu favor. Só mais uma prova amanhã para qual deixei de estudar enquanto escrevia porque, como veem, sou uma pessoa com princípios.


Dirigi pela estrada com um sorriso no rosto, alternando meu olhar entre o caminho e uma tal de Rachel Berry sentada no banco ao lado. Não sei como, mas toda vez que eu a olhava, ela me devolvia o olhar e adicionava um sorriso meio tímido, incrível. Eu sorria de volta, claro. Para mim mesma e para ela que cantava com nossos amigos – incluindo a S., já mais calma depois do encontro com o salva-vidas e aquela vadia. Só de pensar naquela menina minha cabeça doía e uma raiva bruta nascia em mim. Saí do meu mau humor ao sentir a cabeça de Rach no meu ombro e sua mão segurando a minha, sobre a caixa de marcha do carro. Era engraçado o modo como ela sentia meus picos de humor, talvez ela tivesse mesmo um sexto sentido.

"Rach, tá tudo bem?" Perguntei a ela que não mais sorria e olhava a estrada se fazendo em nossa frente. Ela pareceu pensar por um minuto e me olhou, franzindo a testa.

"Não exatamente." Quase puxei o freio de mão e capotei o jipe de Santana – pra assinar meu atestado de óbito, por destruir seu carro e de nós todos, pela desgraça que isso causaria – tamanho susto levei com isso. Me virei completamente pra ela e olhei fundo em seus olhos – sim, eu sou uma boa motorista, minha amizade com a S. e a B. me fez sempre melhorar nesse quesito (amigas bêbadas e se pegando no carro de trás nos obrigam a dirigir com um olho na estrada e outro nelas, não por voyeurismo, mas porque às vezes discussões surgiam do nada e uma bela vez, San ameaçou pular pela janela do meu carro em movimento, o que me obrigou a segurá-la com uma mão e dirigir com a outra. Enfim) -, olhando fundo em suas piscinas de chocolate, vi que ela estava apenas implicando comigo, chamando minha atenção.

"Eu estava com saudades e isso é o que uma mulher tem que fazer pra chamar sua atenção, Fabray." Disse brincalhona e soltei todo o ar do meu corpo em uma respiração que eu não sabia que estava segurando. Olhei para estrada – me certificando que nenhuma curva ia se materializar tão cedo – e me voltei pra ela, que tinha um olhar brincalhão e cheio de si em face.

"Pra qualquer mulher, talvez. Mas pra você, Berry, eu posso pensar em outras opções..." Olhei em seus olhos que ficaram mais escuros enquanto seu rosto ia corando e eu segurei um risinho. Ela era maravilhosa, perfeita. Até ter percebido minha brincadeira e se virar pra estrada, baixando seus óculos de sol que prendiam seus cabelos e fazendo seu usual biquinho. Rá, ela era incrivelmente fofa também. Sorri aberto.

"Você tem sorte em ser linda, ou eu estaria cortando relações contigo nesse esse exato, minuto, Quinn. Não sei se é pela sua amizade com Santana, mas você está muito engraçadinha." Ela disse se ajeitando em seu banco e cruzando os braços. Não me agüentei e ri de seu jeito doce e infantil de ser. Tirei minha mão da embreagem e coloquei em seus braços cruzados de mau grado, puxando-os para que se desfizessem. Ela olhou confusa pro meu sorriso e se virou para olhar a estrada pela janela. Puxei-a com minha mão que ainda a segurava e trouxe seu corpo para um beijo rápido – certo, eu dirijo bem, mas se resolvermos nos beijar como mais cedo na praia, o resultado não será agradável. Sorri pra ela e recebi um sorriso de volta dessa vez. Sua cabeça voltou a achar o caminho do meu ombro e pude ouvi-la suspirando contente.

"Assim está bem melhor, não acha?" Perguntei baixo, em seu cabelo. Minha resposta foi um balanço rápido de cabeça enquanto ela trançava seu braço no meu. Beijei sua testa e voltei a olhar pra estrada.

"Fabray, se você nos matar porque não consegue tirar suas mãos do hobbit, eu vou torturá-las pelo resto de nossa eternidade." Santana, obviamente enciumada por eu estar beijando minha garota e por ela ser lerda demais pra fazer isso com a sua. Arreganhei meus dentes pra ela pelo retrovisor e ela me abriu os olhos. Nossa comunicação de quando eu não tenho algo bom em mente. Ri comigo e Rachel me olhou.

"Tá tudo bem, baby?" Sorri ainda mais pra ela, mas dessa vez por causa do seu 'baby' baixo e preocupado. Balancei a cabeça depressa e continuei olhando pra ela.

"Rach, solta o cinto..." Falei baixo em seu ouvido e, pelo retrovisor, vi os três se entreolhando nos bancos de trás. Voltei meu olhar pra ela, que não estava mais apoiada em meu ombro e me olhava confusa. Balancei a cabeça. "Você confia em mim?" Eu sei que isso é baixo e sei que se a resposta for negativa é bom que todos tenham confessado seus pecados porque eu posso acabar jogando o carro na ribanceira. Não por raiva, mas por nervosismo. Falando nele, eu comecei a tamborilar os dedos no volante enquanto esperava sua resposta. Pff! Mas é claro que ela não confiava, eu torturei-a por anos e depois de um beijinho – tudo bem, não foi um 'beijinho', foi provavelmente o melhor beijo que eu terei em toda a minha vida, mas ainda assim – ela iria magicamente confiar em mim? Claro que não, eu tinha que fazer por merecer, me redimir, pedir perdão e...

"O que faço agora?" Saí do meu plano de me humilhar até conseguir seu perdão e sua confiança por sua mão no meu rosto, seu corpo todo virado para mim e uma expressão de tanta inocência que me faria matar quem se aproveitasse ou tirasse aquela expressão de seu rosto. Olhei-a, sem cinto, ela realmente confiava em mim e eu não merecia isso, nem ela e menos ainda seu voto em mim. Mas era a mim que tinha escolhido Então ela teria o meu melhor, o que ninguém nunca teve até aqui e talvez nem tenha mais. Sorri olhando em seus olhos lindos e sinceros.

"Então, eu pensei bem e estou com saudades de você também..." Disse olhando-a fundo, que sorriu o seu sorriso mais gracioso e iluminado que eu já tinha visto. "E, principalmente, estou com saudades do seu corpo no meu..." Isso eu disse sussurrando e ela concordou com a cabeça e ficou vermelha. Que menina incrível! Sorri pra ela. "Senta no meu colo, Rach?" Perguntei e vi seus olhos se arregalarem mais que os da – agora - Srta. Pillsbury e ficar boquiaberta. Me aproveitei e soltei meu cinto e puxei-a pelo braço, que foi depois de me dar algum trabalho.

"Quinn, isso é perigoso, você está dirigindo, o que pode acontecer se a gente..." Coloquei um dedo em sua boca e balancei a cabeça, ela não precisava se preocupar com isso, eu tinha reduzido bastante a velocidade, tanto que alguém correndo nos ultrapassaria. Liguei o alerta do carro também, prevenir é melhor que remediar.

"Senta aqui, Rach, se você não se aproveitar desse feitiço que você aparentemente tem sobre mim, não teremos grandes problemas." Ao ouvir que ela conseguia me enfeitiçar, ela se ruborizou e assentiu com a cabeça e se moveu pra sentar no meu colo. Ajudei-a e nos assentamos com ela de lado, com suas pernas em cima da caixa de marcha, sua cabeça em meu ombro esquerdo e uma mão sua segurava o banco enquanto a outra estava em meu outro ombro, num meio abraço. Ouvi seu suspiro contente novamente e sorri pra ela. "Então, está ruim?" Ela balançou a cabeça tantas vezes que fui obrigada a olhar a estrada pra não ficar tonta.

"Não, eu gostei da posição, nós podíamos andar de carro só assim, né?" Foi o que disse sorrindo meiga e me olhando esperançosa como uma criança que acaba de comer bala e não quer mais jantar, só quer beliscar besteiras. Assenti com a cabeça e com um sorriso que ela dobrou, me dando um beijo na bochecha e se aconchegando mais em mim. Sorri.

"Baby mama, não sabia que você também quebrava regras." Olhei pelo retrovisor e vi o sorriso cretino de Puckerman enquanto eu lhe levantava uma sobrancelha.

"Berry, mantenha suas mãos pra você! Se acontecer um acidente, você morre primeiro e eu vou fazer questão de sambar no seu túmulo." Santana e sua necessidade em comentar as coisas. Me virei pra Rach e ela estava com uma expressão de puro terror no rosto, provavelmente com medo até de respirar pra não me fazer perder a direção. Ri pra ela e puxei sua cabeça – depois de tirar a mão da marcha e segurar o volante, pois não sou suicida – e lhe dei um beijo desentupidor de pia, colocando minha língua em sua boca sem permissão, mais agressivamente que mais cedo.

"Caralho, Fabray! Eu vou te matar! Desgruda do hobbit e segura a porra do volante!" Santana gritou ao fundo.

"Pooooorra!" Puck falou, não sei de medo ou vendo nosso beijo. Que fosse.

"Nós devíamos tentar isso, San." Bem, Britt foi a única que disse sorridente e compreensiva.

Nos separamos por falta de ar. Olhei de relance pra Rachel, provavelmente querendo mais, com os olhos escuros, rosto vermelho, ofegante, descabelada e mordendo o lábio e lhe dei um sorriso inocente.

"Quinn!" Ela gritou e me deu um tapinha no braço, o que fez meu sorriso virar uma gargalhada.

...

Dizer que esse estava sendo o melhor dia da minha vida não é uma novidade, nunca em minha vida tinha me sentido mais feliz que hoje, nem no meu aniversário de cinco anos, quando ganhei minha relíquia de Funny Girl. Estava sentada no colo da garota da minha vida – sim, eu não conseguia me imaginar com mais ninguém além dela, homem ou mulher – enquanto cantávamos e nos aproximávamos de casa, com o céu já escurecido, mas não completamente negro.

"Rach, você pode acender um cigarro pra mim?" Ouvi da minha loira embaixo de mim e concordei com a cabeça. Até que a curiosidade me bateu, ela sempre foi uma cheerio, desde os treze anos, e as rotinas impostas por Sue Sylvester eram piores que os treinamentos do exército, então desde quando ela fumava? Ou melhor, como ela conseguia fumar e correr tanto?

"Só se você me contar sua história sórdida por trás desse prazer que eu presumo ser eventual, baby." Completei assim porque ela sempre abria meu sorriso preferido quando eu a chamava por esse apelido carinhoso. Não falhou e ela me sorriu novamente, seu sorriso magnético que me dá vontade de voar em sua direção. Deixei isso pra depois e peguei um cigarro e o isqueiro com Noah.

"Tem nenhuma sordidez por trás dessa história, Rach. Eu e S. fazíamos isso depois do especial Sylvester, quando passávamos 24 horas trabalhando fisicamente, na sua rotina, digamos, ortodoxa. Ajudava a relaxar os nervos depois, já que não conseguíamos dormir, mesmo cansadas." Minha loira me explicou. "Não é, S.?" E disse olhando pra Santana pelo retrovisor, que só balançou a cabeça. Dei um beijo em seu pescoço e acendi o cigarro pra ela, que me sorriu agradecida e segurou-o com intimidade, tragando-o e soltando a fumaça, com seus óculos de sol segurando seus cabelos. Certo, se eu achava a Katie charmosa fumando, Quinn conseguia levar esse ato, não aconselhável, a um novo extremo. Eu acho que fiquei perdida enquanto eu a observava fumar, como uma deusa, não era simplesmente sexy era... Sem explicações. Ela me olhou de canto de olho e sorriu, soltando a fumaça em meu rosto – como se ela precisasse fazer esse convite sexual explícito pra me deixar subindo pelas paredes. Desisti de testar sua habilidade na direção ao ouvir a voz de Santana.

"Berry, ainda tem cigarro aqui." Virei rapidamente pra ela. Do que ela estava falando? "Do jeito que você está olhando pra Q., você vai queimar o cigarro dela por vocês duas." Absolutamente ela ia implicar comigo. As pessoas do carro riram, já estava até acostumada com isso. Até que Quinn se virou pra mim enquanto passava por um trecho extremamente tranqüilo do caminho.

"Quer tentar algo comigo, Rach?" Eu me virei depressa pra ela e olhei seu olhar com um quê de malicioso, misterioso. Talvez e apenas talvez, eu tenha pensado em algo mais físico. Isso explicaria o meu rosto provavelmente vermelho – sei disso, pois estava me sentindo quente -, minha boca entreaberta e meu olhar ardente pra seus lábios. Ela sorriu um pouco e se aproximou de mim para me explicar em segredo. Será que era o que eu estava pensando? "Se chama shotgunning..." Não, infelizmente não era o que eu estava pensando.

"Fabray, você não vai fazer isso dirigindo! Qual é o seu problema? Quer matar a todos nós?" Santana cortou minha curiosidade e vi Quinn pensar no que ela disse e no que ela iria me mostrar. Ela resolveu seguir o 'conselho' de Santana e largar o assunto de lado, pra minha tristeza.

"O que era, baby? A gente pode fazer, eu seguro o volante..." Eu disse baixinho, tentando convencê-la porque eu sou sim uma pessoa muito curiosa. Ela me riu um riso doce e beijou meu nariz. Eu fiz bico, não por ser mimada, mas não estava contente com isso, oras!

"Faremos isso com calma, quando estivermos sozinhas e eu não precisar me preocupar com um volante..." Ela me sussurrou – e me matou. Bem, ainda tinha a possibilidade de ser o que eu estava pensando, né? Quer dizer, ela sugerir que fiquemos sozinhas em casa, bem...

"Fabray, nós passamos na sua casa e pegamos suas coisas. Eu deixo vocês três no esconderijo do hobbit e vou em casa com a B. para nos arrumarmos e pegarmos nossas coisas, ok?" Santana disse seu plano e eu concordei absolutamente, afinal, eu teria a Quinn toda pra mim. O quão incrível é isso? Ela viu meu sorriso – que deveria ser assustadoramente grande – e balançou a cabeça, rindo baixo.

"Eu gosto como a sua mente trabalha, Rach..." Ela me disse e piscou. Eu abri ainda mais meu sorriso e encostei minha cabeça em seu ombro. "Tá certo, S., tudo bem por mim." Respondeu olhando pelo retrovisor pra Santana. Eu suspirei contente e fechei os olhos um cadinho, pra descansá-los. Talvez eu tenha dormido, pois a única coisa que me lembro antes de acordar sozinha no banco do passageiro foi de seu beijo em minha testa.

"Quinn?" Foi a primeira coisa em que pensei quando acordei assustada e sozinha, olhando para todos os lados. Será que eu tinha sonhado? Aquilo tudo não passou de uma trapaça da minha imaginação? Eu deveria ter previsto isso, não era possível que eu realmente tivesse beijado Quinn Fabray, a presidente do clube do celibato, mais hétero que o Messias... Meus olhos se nublaram, mas eu me recuso a chorar por isso, me recuso. "Quinn..." Suspirei triste. Fechei os olhos e respirei fundo enquanto refazia o dia em minha cabeça. Suspirei. É, não passou de um sonho...

"Relaxa, Berry, sua mulé só foi pegar os panos de bunda dela. Nossa! Que colação de velcro vocês duas. Credo!" A voz de Santana me fez virar rapidamente a cabeça pra trás (e quase a perdi mais uma vez pela velocidade da virada). Olhei a cena onde Noah dormia com a cabeça encostada no carro e de óculos escuros (porque a noite estava muito clara, só pode), Brittany, no meio, tinha cochilado com um sorriso no rosto e com a cabeça encostada em Santana que fumava e revirava os olhos pra mim, até que se virou e falou. "Até que enfim! A sua metade de namorada estava tendo um ataque de nervos e choramingando algum showtune aqui pensando que você tivesse fugido de volta pro armário, Fabray." Revirei os olhos porque isso era uma completa e absurda mentira! E aproveitei para seguir sua visão e vi Quinn parada do lado de fora do carro com uma grande mochila nos ombros e um sorriso ainda maior no rosto, me piscando.

"Desculpa pela demora, Rach, tive que convencer minha mãe a não vir aqui falar com vocês." Minha loira me disse depois de jogar a mochila no colo de Santana e entrar no carro, batendo a porta. Olhei-a confusa. Qual era o problema de conhecer a senhora Fabray? Até que a realização passou por minha mente... Ela estava com vergonha de me apresentar pra sua mãe. Por que não tinha pensado nisso antes? Fechei a boca e olhei pra frente tentando recuperar o resquício de dignidade que ainda tinha, mas ela segurou minha mão e me virei para olhá-la. "Psiu! Não é isso que você está pensando." Foi o que ouvi baixo enquanto ela passava sua outra mão no meu rosto. "Não ia trazer minha mãe aqui pra ela nos ver com várias cervejas. Além do mais, se ela soubesse que Puck tinha a ver com isso, iria nos trancar todas em casa e chamar a polícia com medo." Ela me disse num embaraço ameno e divertido.

"Ay Díos mio. Alguém que me salve dessa rasgação de seda." Isso foi Santana, absolutamente, sussurrando. Ignorei-a e olhei nos olhos penetrantes da loira ao meu lado. Seu olhar era profundo, sincero e vulnerável. Ela conseguiria me desvendar e me despir só com aqueles olhos. De repente, fiquei constrangida e sorri, abaixando a cabeça. Ela segurou meu queixo e levantou minha cabeça, beijando minha testa. Sorri mais ainda porque não poderia fazer outra coisa.

"Vamos?" Disse ainda me quebrando com seu olhar. Nesse momento, eu tive certeza de que não queria mais ninguém por toda minha vida. Eu sei, isso parece ser ultrapassado e pueril demais, como todos os sonhos adolescentes, mas era a minha maior certeza. Isso e sobre meu futuro na Broadway. O modo que ela me olhava com tanto carinho, numa abertura imensa e expondo suas fragilidades me fez repaginar toda a minha vida amorosa. Nenhum dos meus relacionamentos amorosos anteriores era próximo disso, nem se todos fossem somados e multiplicados, tipo a hipotenusa. Eles, pensando claramente, foram tão infames perto disso, só serviram pra me preparar, me mostrar que a vida é muito mais do que eu tinha conhecido, eu poderia ter e dar muito mais do que já havia pensado. Morrer de amores e estar feliz por isso nunca fez tanto sentido. Ninguém tinha se exposto tanto assim pra mim, só num olhar. Não importa o que aconteça pelo resto do caminho, eu sempre vou pegá-la quando precisar, sempre. Balancei a cabeça pra ela que ainda me olhava, mesmo que, no fundo, eu estivesse apenas concordando com minha promessa interna de cuidar dela pelo resto da minha vida, não me importando o quanto isso me custe. Ela sorriu e meu coração pulou uma batida. Eu seria sua força pro mundo e ela veria a verdadeira Rachel Berry, uma que não é tão forte quanto parece, mas será por ela. Pensando nisso, lembrei do segredo que tenho que contar e colocar tudo a perder. Tudo isso...

Não importa, mesmo que ela não me queira depois de saber a verdade, eu não vou mentir e vou cumprir, pra sempre, minha promessa de protegê-la. Numa segunda-feira tão diferente, eu achei o que move a minha vida, sorri e fui recompensada com seu sorriso mais doce e calmo. Sorri ainda mais. Mesmo que as coisas não dêem certo e ela volte a me tratar como uma aberração perdida do circo, esse sorriso me valia pelo resto da minha vida. Tirei sua mão da marcha e beijei-a. A loira me sorriu, puxando meu corpo para me encostar em seu ombro. Que a santa Barbra queira que ela entenda, que ela aceite. Eu posso abrir mão de tudo, só por isso, só...

"Tudo bem, Rach?" Ela disse beijando minha testa. Soltei o ar que não sabia que estava preso em meus pulmões e mordi o lábio enquanto memorizava suas feições. Até que a vi ficar preocupada e ameaçar se virar para mim, me apressei para explicar.

"Eu espero que fique, eu espero que você entenda o que eu tenho a te dizer, eu..." Antes que eu terminasse ela beijou minha mão e me sorriu fragilizada. Não sorri de volta porque estava perdida em meu mundo não mais fantástico. "Me promete algo, Quinn?" Sussurrei para ela, provavelmente do mesmo modo patético que me abri hoje mais cedo quando admiti meus sentimentos. Ela parou o carro no sinal e olhou para mim, dessa vez mais séria, entendendo o peso do que eu estava pedindo.

"Qualquer coisa, Rachel." Num tom de promessa que eu poderia jurar pela minha alma que eu carregaria pra sempre. Mas não posso, ela não pode ficar no escuro (eu não poderia deixar) e nem prometer coisas das quais não faz a menor idéia. Segurei meu coração que derreteu com essa sentença, não tínhamos tempo pra isso.

"Independente do que aconteça ou do que eu diga, você não vai voltar com os apelidos e as raspadinhas, porque eu só preciso..." Parei minha frase ao sentir minha mão ser apertada na sua.

"Vamos conversar isso em casa, Rach. Mas eu te prometo que não farei mais isso, okay?" Ela me falou séria e eu concordei com a cabeça. Afinal, apesar de estar estranhamente quieta, Santana ainda ouvia a conversa. E só faltava um quarteirão pra minha casa de todo modo mesmo...

"Menos mal. Estou cansada de tanto doce, vai me fazer mal." Era Santana tentando deixar o clima mais leve. Ou isso, ou só estava de implicância mesmo. Na verdade, acho nunca vou saber qual era o seu objetivo.

"Pois é, a B. ta dormindo, né?" Quinn respondeu risonha pra ela.

"É e o clima desse carro tá muito gay até pra mim." Isso foi a resposta e rimos as três enquanto Quinn se preparava para estacionar o carro. Olhei-a com uma interrogação na testa.

"Eu lembro o seu endereço desde aquela festa, Rach." Me disse com um tom bem leve e eu assenti com a cabeça. É, fazia sentido. Sorri de volta. Me apedrejem se quiserem, mas vamos lá? Quem resistiria a esse sorriso, a essa mulher? Bem, eu não.

Santana sussurrou no ouvido de Britt para acordá-la e recebeu um sorriso meigo – que ela fez questão de devolver – e eu pude ver pelo retrovisor. Jogou a mochila de Quinn em cima da minha loira e eu fui pegá-la, mas ela segurou-a no alto enquanto brincava sobre a minha altura. Coisa que não entendo e não acho graça, fiz bico e bati o pé. Um absurdo a garota dos seus sonhos ir de, bem, seu sonho, a voltar a te zoar. Bullying! Eu sabia que... Antes de terminar meu raciocínio, ela me pegou num abraço e me colocou no colo, rindo pra mim. Ri de volta – tirando a parte de pensar no que ela não deve ter sido submetida pra ter essa força toda, a atitude era pra lá de romântica. Ela me rodou e beijou minha bochecha enquanto eu agarrava seu pescoço como se não houvesse amanhã. Fomos cortadas de nosso momento romântico por Santana – quem mais seria? – acordando Noah, depois de se ajeitar na frente com sua loira.

"Sai do carro, animal, antes que a PETA passe e me multe por tráfico ilegal de bichos em extinção." Foi o que gritou batendo na cabeça de Noah que saltou do carro como num filme do Rambo. Todas rimos e ele se ajeitou em seus pés e passou a mão na cabeça, perdido. "Volto já com mais cerveja." Foi o que gritou ligando o carro e roncando o motor até meu vizinho da frente olhar pela janela e gritar qualquer coisa. Numa atitude bem educada, Santana sinalizou com seu dedo algo que não deve ser feito e acelerou o carro, cantando pneus e sumindo. É, se meus amáveis vizinhos já me adoravam, agora meu nome – que futuramente brilhará na Broadway – provavelmente está numa roda de macumba, voodoo e magia negra. Sorte de revés! Olhei para minhas companhias e meu punk ameaçou xingar de volta o vizinho que estava nos acusando de crime contra a paz. Puxei-os antes que fôssemos surpreendidos por algum policial nos brindando com uma deleitável surpresa de veraneio.

"Esse povo pau no cu não muda nunca!" Foi Noah gritando na minha janela, abusando de nossa falta de sorte.

"Shhhh! Noah! Não faça isso, lembra da última que você resolveu bater boca com os vizinhos?" Disse repreendendo-o, vamos lá, né? É só usar o cérebro um bocadinho. "Pois é, meus pais adoram esse dia e fazem questão de jogá-lo na minha cara sempre que preciso defender meus pontos de vista."

"O que houve exatamente?" Quinn perguntou, olhando da cara de pau de Noah pra minha.

"Superstar aqui teve um pequeno problema com a polícia, né, Rach?" Desgraçado! Ele sempre faz questão de levantar meus momentos mais obscuros.

"Ah é? E como foi isso?" Quinn nos brindou com sua sobrancelha levantada em seu usual tom de desafio.

"Deixa que eu te conto..." Noah, claro! Quem mais faria tanta questão em arruinar minha vida? Não, o senhor Schuester não conta.

Sexta-feira à noite, discutíamos em meu quarto qual seria o fim que daríamos pra última alma mal assombrada que resolveu nos matar. O fato de o sujeito estar morto é um mero detalhe, nada que o influenciasse, infelizmente.

"Porra, Rachel! Você só pode estar de sacanagem comigo!" Noah gritava na minha janela.

"E por que eu estaria, como você ousa dizer, brincando com a veracidade de minhas palavras, Noah Puckerman?" Respondi enraivecida.

"Você quer resolver a porra do problema dessa filha da puta depois que ele arrebentou a sua cara e quebrou o meu braço? Cadê o caralho do seu amor próprio?" Gritos enfurecidos seguidos por um vocabulário chulo saíam da garganta de Noah, no beiral da minha janela.

"E se for isso que estiver segurando-o aqui? Acha melhor que a gente fique inventando desculpas pra todos esses machucados do que tentarmos ajudar essa alma penada?" Respondi tão enfurecida quanto ele. A desculpa da semana tinha sido uma pequena briga na no shopping (sim, quem cai no pau no meio das compras? Mortos adoram, malditos) que não foi bem vista e nem teve credibilidade o suficiente. Ou nenhuma.

"A gente pode tentar outra coisa, sei lá! Porra, eu to puto da cara e você quer ajudar o filha da puta." Eu deveria ter previsto meus vadios vizinhos da frente. Não, eles não tem uma vida pra tomar conta, só da minha, como podem ver. Enfim, eles resolveram sair de sua casa e ir para o quintal, prestando cada vez mais atenção. "Hum, eu tive uma idéia..." É, se vocês pensaram que seria ruim, podem elevar isso à milésima base, foi uma desgraça. Dizer que seu plano deu mais errado que a existência do Finn é até um eufemismo.

"Noah..." Eu o conhecia e sabia que não ia ser algo bom. Por que insisti tanto nessa amizade?

"Exorcismo funciona, Rach. Lembra daquele padre que disse isso?" Ele me falou abusado.

"Noah, qual é o seu problema? Santa Barbra! Quem vai fazer um exorcismo? Nós somos judeus, esqueceu? E pra começar, você acredita mesmo nisso? Não é possível uma coisa dessas funcionar, Noah, isso só vai dar errado..." Eu já estava no meu limite. É ridículo brigar com mortos porque eles já vem com um ponto forte contra nós, eles não morrem. Se machucam, certo, mas não morrem. Pragas! E esse penado, em especial, não estava de brincadeira no negócio de nos machucar. Por que? Mal amado! Tudo por causa disso. O que eu tenho a ver com o fato de ele morrer atropelado? O carro nem meu era – afinal, eu tinha 12 anos, quem daria um carro na mão de uma criança dessa idade? Mesmo sendo extremamente madura, eu não podia dirigir ainda –, eu nem fazia idéia do que ele queria, além de querer nos levar pra um encontro adiantado com o barqueiro. O diabo estava querendo nos infernizar e queria mais era causar, defunto sem o que fazer.

"Nós podemos ver isso. Vamos googlar!" Ele continuou seus gritos.

"Ah sim, todos os dias as pessoas fazem exorcismos de almas que não cruzaram a linha e explicam isso na internet. Como não pensei nisso antes?" Meu sarcasmo era colado assim com a minha raiva.

"Dane-se então, eu vou fazer isso! Com ou sem você. Até que ele entre aqui e quero saber qual vai ser a sua desculpa mirabolante pros seus pais, hein?" O sem vergonha estava certo. Isso era um risco que não poderíamos correr. Ora, nós já éramos loucos o suficiente, não precisávamos de mais munição para dar, nem pra nossa família. O que quer dizer que ninguém sabia dessa nossa profissão não remunerada, só nós dois estávamos nesse barco, até então pelo menos. Assim eu aceitei entrar em mais uma fria.

"Vamos ver isso então." Disse e fomos pesquisar as formas de fazer isso. Vários sites depois, analisamos todas as informações (sim, eu também me assustei ao ver isso sendo exposto na internet. Práticas condenáveis pelo Vaticano, presumo eu. Ah sim, mas não ficamos com o exorcismo católico, tivemos que escolher uma macumba africana mesmo. Pelo visto, os padres não podem dividir esse tipo de informação com os outros seres mortais. Mas dividem as confissões dos fiéis. Safados!) . Nos preparamos pra tudo. Já tínhamos uma corrente do morto, Puck tinha uma bolsa de sangue no carro – que ele foi buscar, chamando ainda mais a atenção dos vizinhos -, o que me levava à seguinte conclusão: ele já tinha isso tudo esquematizado. Até o roubo ao banco de sangue. Tudo bem que eu ajudei-o (meio sem querer, distraindo a segurança e algumas enfermeiras enquanto dava meu show de encenação particular), mas ele me disse que ia pegar apenas remédios para sua avó – coisa que ele fez, mas vendeu-os e eu devia ter previsto isso também –, só que a velha senhora nem sentiu o cheiro das medicações.

Com uma roda de velas aromáticas (eu adoro iluminação secundária e acho velas bonitas, românticas e relaxantes) que me partiram o coração, mas usei-as assim mesmo em nosso círculo, pois precisávamos fazer aquilo. Ele fez um pentagrama com o sangue doado e roubado no chão do meu quarto (sim, meu querido quarto já sobreviveu a tudo) com a corrente do morto (dessa também nos apropriamos ilegalmente ao entrarmos em sua casa no meio da noite e vasculhar suas coisas em busca de pistas. Noah pegou-a porque era de ouro e pretendia vendê-la, coisa que fui contra até o fim e ganhei a discussão, como podem ver. Acho um absurdo). Apagamos as luzes, acendemos as velas e começamos a ler a língua estranhíssima que tínhamos copiado da internet.

Bem, demorou, mas funcionou. Max Steel – seu nome era Jason Bakhtin, mas como ele era lutador de vale-tudo (sorte é isso aí!) e forte que parecia de aço, nós o apelidamos assim – surgiu no auge de seu bom humor, ventando pela minha janela como um ciclone. Foi quando a festa ficou bonita.

Os vizinhos que estavam tomando conta da minha vida ligaram pra capela – uhum, eles não se satisfazem em apenas chamar a polícia – e demandaram um padre na minha casa, jurando que estávamos invocando o próprio diabo numa seita maligna e obscura. E o padre, bem, foi. O touro morto tinha tentado acertar meu amigo delinqüente, mas estava se debatendo como uma minhoca epilética enquanto Noah tentava domá-lo com seu braço engessado e eu lia as frases estranhas. Isso tudo ao tempo que meu pai, Leroy, bateu à porta nos avisando da companhia do padre. Situação desagradável aquela, duas crianças judias fazendo um exorcismo da magia negra africana com um padre parado na soleira da porta, meu pai médico vendo o sangue desenhado (não foi minha melhor arte, confesso) no chão, Noah sendo enforcado, misteriosamente, pelo vento e eu lendo uma língua desconhecida, parada na frente de velas aromáticas que queimavam, dando um cheiro gostoso de canela pelo ar.

O que se seguiu foi igualmente interessante. Disse para o meu pai que estávamos treinando para uma peça sobre cultura africana, onde interpretaríamos um casal dos infernos que adora jogar uma quizumba na vida alheia. E eu ainda mataria o meu marido como uma boa viúva-negra. Ele pareceu entender e saiu correndo, depois de perguntar se o sangue era real (claro, ele não deixaria isso passar e eu disse que era groselha. Isso tudo enquanto Noah se debatia com a diabólica alma do lutador). Eu posso dizer que o toquei do meu quarto, aterrorizado (eles me conhecem e sabem que o melhor é não se meter em meus ensaios, ainda mais com Noah tão, digamos, dentro de seu papel). Sim, eu estava expirando mais mentiras do que gás carbônico e o padre me olhava, provavelmente me leiloando pro reino dos infernos. Ignorei-o na frente de minha porta (que meu pai teve a decência de fechar) e ele avisou algo do tipo, 'vou orientá-los nessas questões, um padre tem que saber de tudo', tudo por uma boa fofoca. Que isso esperasse, Noah estava em maus lençóis e eu pulei em cima do morto muito louco. Um salto mortal, quase literalmente. O papel com os dizeres voou nas chamas que estavam descontroladas como a aura do assassino de sangue frio (ou já sem sangue, não sei exatamente), Noah caiu sem ar na cama e o padre foi ajudá-lo. E eu, bem, depois de escorregar por meu telhado (sim, há um telhado embaixo de minha janela e é isso que torna simples e românticas as aparições quase fantasmagóricas de Noah em meu quarto), eu caí pela janela com o colar feito de dedos gélidos enrolado em meu pescoço. Antes que pudesse sentir dor, a polícia estava lá com alguns paramédicos, soquei a cara branca do Max Steel antes de morrer sem ar e cambaleei, sendo amparada pelos paramédicos enquanto meus pais estavam assustadíssimos com o fato de eu ter caído louca da minha janela. Antes de ser atacada novamente e brigar com o ar como uma psicopata, o padre resolveu mostrar serviço e fez o seu exorcismo católico com direito a Bíblia e tudo, abrindo um buraco envolto por fumaça e ventos no céu, puxando nossa amarga companhia (claro que só nós três víamos) em sua direção. E a ventania destruía meu penteado do dia.Só deixei passar porque o homem de aço foi sugado pelo buraco negro e seguiu seu rumo pela escuridão.

O lado bom: funcionou. O ruim: uma costela quebrada, três horas explicando pro meus pais e pra polícia que Noah não me arremessou janela afora e eu não pulei desafiando as leis gravitacionais. Ficamos os dois de castigo e fui internada pra pôr gesso no tronco todo (já disse o quão adorável é quebrar as costelas? Pois bem, uma experiência surreal que não quero experimentar outra vez. Um mês disfarçada de Robocop foi o suficiente pra mim, obrigada) e a culpa foi toda da telha velha do telhado (que quebrou sim, mas não por estar podre. Algo mais parecido o meu corpo batendo nela enquanto eu chutava a cara sem vida do Max ali) que cedeu. Outro ponto foi que conhecemos o padre Brandon, que também tinha essa admirável capacidade de ver, conversar e apanhar de mortos. Não, só nós dois apanhávamos, acho que a batina não deixava que ele fosse todo serial killer pra cima dos desafortunados sem o dom da vida (blá, blá, blá). Bem, nós aprendemos algumas coisas com ele. Tipo religião e como fazer nosso próprio exorcismo sem precisar vender nossas almas à escuridão. Ah, conhecemos Hades também, um rottweiler preto e marrom que andava pelos arredores da igreja. É, o nome dele era esse porque ele também via mortos. Loucura pura isso tudo. Embora fosse um filhotinho e só tivesse seis meses, ele conseguia assustar (sério mesmo), mas geralmente nos ajudava. Convivemos com o padre Brandon – sem mudarmos de religião, obviamente – e com Hades até a primavera do ano seguinte (pouco mais de um ano), quando ele precisou ir embora para terminar seus estudos de teologia. Hades era como se fosse seu, eu suponho, por isso deve ter ido também. É, foi bom conhecê-los.

E isso tudo por causa da boca suja de Noah, pelo nosso glamour também conhecido como carma e meus vizinhos fofoqueiros.

Ele contou essa história e ia cogitando pular a parte mais mórbida e tal, até que eu segurei em seu braço e olhei em seus olhos, bem no fundo. Nos encaramos por um tempo até ele entender minha intenção e concordar com a cabeça, subindo e avisando precisar tomar banho. Era melhor acabar logo com aquilo. Desabafei tudo, sem pular nenhum detalhe. Era agora ou nunca.

...

Não sei qual foi exatamente a minha reação ao ouvir a história fantasiosa que Rachel me contou, mas bem, eu me sentei. Até que ela terminou de contar e eu ri. Era admirável e risível isso. Quando meu riso virou uma gargalhada, eu a vi ficando irritada.

"Se importa em me dizer qual é a graça, Quinn?" Ela me perguntou batendo o pé e fazendo bico. E eu, que já estava arfando por ar, entrei em mais uma série de risinhos que só a irritaram mais ainda. "Agora você vai rir da minha cara? Ótimo, maravilhoso! Não sei por que puxei esse assunto contigo. Ah sim, talvez pelo fato de você ter me chamado pra conversar? Hum sim, é, faz sentido." Ela disse sarcástica e eu parei de rir, não gosto de deboche. Tipo, de verdade.

"Eu te disse pra termos uma conversa sobre o que aconteceu hoje na praia, não pra você inventar uma história mirabolante sobre isso, Rachel." Disse revirando os olhos. Ela me olhava com força e raiva, até que a vi tirar o moletom e me engasguei. Fiquei mais que surpresa com isso, ela estava pensando em sexo de reconciliação ou o quê? Com minha cara abobada, ela pegou minha mão e colocou em sua barriga. Certo, isso não era engraçado porque eu estava tendo outro tipo de reação e rir era a última coisa em minha mente naquele momento, definitivamente.

"Sente isso?" Ela me perguntou enquanto segurava minha mão gelada e trêmula em seu abdômen. Depende do isto em questão, porque sentindo eu estava, fatalmente. Seu olhar ainda era cortante e me concentrei nele pra não acabar abusando dela. Foi quando senti uma pequena cicatriz e olhei pra baixo (passo errado, Fabray, bem errado). Quando voltei a olhá-la, eu tenho certeza de que ela percebeu minhas, hum, segundas intenções, pois soltou minha mão. "Isso foi quando eu e Noah ajudamos o senhor Houston a botar seu filho na cadeia, por assassinato premeditado. O Jeremy tentou me esfaquear e Noah o impediu de enfiar a faca em mim." Confesso que ouvir isso mexeu comigo de um modo desconhecido, um misto de sensações passavam pelo meu corpo e eu não sabia em qual eu parava. Mas ela continuou e levou minha mão à sua testa, que tinha uma marca que eu já tinha visto. "Essa foi de um acidente de carro que o Noah resolveu nos meter quando fechou um assassino duplamente qualificado enquanto suas vítimas mortas estavam reclamando no carro. Não sei se você já percebeu, mas Noah tem uma cicatriz no braço." Sim, eu tinha percebido, mesmo quando ele tentava esconder usando os casacões do time de futebol. "Foi assim que nós destruímos o jeep de Lily Puckerman. Nós não, Noah, que cortou o braço me protegendo de um impacto mais violento." Agora eu estava com raiva e triste e prestes a cair em prantos, cheguei perto dela, que deu um passo pra trás e levantou a palma da mão esquerda, que tinha uma cicatriz ao longo da linha da vida. "Esse foi quando Samantha Brynes, colega de turma da sua irmã, morreu ao beber, pegar o carro e enfiá-lo numa carreta, matando o motorista. Interessante história, já que o caminhoneiro trabalhava para o pai dela. O senhor Smith, que morreu na hora, passou a assombrar a Liv, irmã mais nova dela, que talvez você se lembre por ter estudado conosco. Pois ele tentou dar uma garrafada na cabeça de Noah e eu coloquei a mão na frente. Cinco pontos nessa." Ela contou entretida e passando a ponta de seu indicador na cicatriz. À medida que ia me contando, minha vontade era de colocá-la no colo e niná-la. "Esse aqui foi quando o melhor amigo e assassino de Raffe, que também queria matar a Katie, mas menos que a mim e ao Noah, me jogou de um telhado." Disse me mostrando o braço, com uma pequena cicatriz. "Essa foi desse dia que te contei, minha costela quebrou e você pode tentar senti-la." Sem que eu percebesse, minha mão estava na altura de sua costela e eu cheguei a vê-la se retesar.

"M-me desculpa." Balbuciei puxando a mão.

"Tudo bem, não dói mais, foi só uma, hum, reação mesmo..." Seu rosto ficou num tom vermelho lindo e eu sorri um pouquinho. "E eu e Noah conhecemos Susan, Franz e Amy hoje, antes do café. Eles querem machucá-las, as três. E foi por isso que nos aproximamos de vocês hoje, pra protegê-las." Foi o que ela falou e passou a mão em meu rosto. Acho que eu estava chorando e não sabia, mas suas feições tinham se amenizado e ela me olhava doce novamente. Abracei-a bem apertado e beijei sua testa enquanto chorava e soluçava. Ela estava se arriscando por mim e nem sabia o motivo, nem sabia se eu valia à pena. Beijei sua cicatriz da testa e olhei em seus olhos que estavam marejados. Segurei sua mão e beijei-a onde tinha sido o corte e fiz o mesmo nas outras marcas que ela havia me mostrado, até que segurei seu rosto e beijei sua boca num frenesi inconseqüente, tentando explorar cada mistério seu. Não foi como os beijos que trocamos na praia. Não era como o primeiro que teria terminado em sexo ou o segundo que foi lento e sensual. Não, esse tinha um quê de desespero, de medo, de perda. Talvez meu medo de tê-la perdido antes mesmo que eu pudesse tê-la, propriamente dizendo. Uma paixão inominável, mas paixão era o que estava ali.

Nos separamos e ela me olhou sem ar e sem reação. Passei a mão no seu rosto a apertei seu corpo contra o meu.

"Por que, Rach?" Sussurrei em seu ouvido.

"O que, Quinn?" Ela me respondeu e, pelo seu tom, eu poderia dizer que estava confusa. Me afastei e olhei em seus olhos.

"Você está disposta a se machucar mais uma vez, é perigoso, eles podem..." Ela colocou o indicador selando meus lábios como mais cedo.

"Eu nunca vou deixar que algo te aconteça, Quinn, só se eu morrer primeiro." Ela disse numa promessa e com tanta paixão e tanto sentimento em seu olhar que eu tremi, como se tivesse levado um choque. Talvez eu estivesse chocada com isso. Mas pro diabo quem acha que eu ia deixá-la se machucar por minha causa. Eu prometi que ia cuidar dela e eu vou! "Você pode se afastar se quiser, eu vou te deixar em paz, só me deixa vigiá-la de longe. Eu sei que isso parece muito obsessivo e eu te entendo, mas eu preciso me certificar que..." Eu a beijei de repente e coloquei minha língua em sua boca sem permissão (me aproveitando do fato de ela estar falando e com a boca ainda aberta), mas ela consentiu ou teria feito, caso eu tivesse lhe dado a chance. E ficamos nos beijando com fome enquanto eu a guiava para algum lugar. Acabei prendendo-a entre mim e a parede com um braço enlaçando sua cintura e o outro me segurando na parede, na altura de sua cabeça.

Nem cheguei a ver o destino tomado pela minha bata, mas sei que foi tirada em algum momento quando recomeçamos os beijos. Outra coisa era ela me segurando pelos cabelos (acho que gostou disso tanto quanto eu) e eu apertava sua cintura enquanto beijava seu pescoço e sua mão passeava pelo meu torso. Sem me dar conta, eu levantei-a rapidamente pelo quadril e a tinha no meu colo, com suas pernas trançadas na minha cintura e nos forçava na parede, buscando apoio. Minhas mãos saíram de sua cintura e foram para sua bunda sem que eu percebesse e ela me mordia e arranhava minhas costas. Eu não tinha mais ar e estava me segurando pra não me forçar nela e machucá-la (ou parecer, como diria a S., no cio), mas ela não estava com a menor vontade de colaborar nessa tarefa.

"Quinn..." Ela gemeu no meu ouvido e eu tive que respirar muito fundo (e fiz isso de fato) para não estuprá-la no pé da porta de entrada com o corpo salgado e ainda ardido da praia. Encostei minha cabeça e arfei em seu ombro - esse foi um péssimo movimento. "Quinn..." Ela resolveu gemer enquanto mordia minha orelha, com sua voz maravilhosa bem funda e rouca. Resolvi pagar na mesma moeda e comecei a morder e beijar seu pescoço, o que a fez gemer ainda mais ao pé do meu ouvido e forçar sua cintura no meu colo. Não sei como, mas isso a fez morder meu pescoço e gritar um 'mais' pra lá de sensual no meu ouvido. Claro que eu não estava muito atrás, na verdade, eu estava fervendo.

"Deus, Rach..." Eu suspirei no seu ouvido enquanto ela sussurrava coisas inteligíveis e sua língua passeava pelo meu pescoço, fazendo minha cabeça girar.

"Eu gostei de você salgada..." Ela se afastou e disse com um sorriso safado e se forçando ainda mais em mim, enquanto mandava meu resto de autocontrole embora pela porta ao nosso lado suspirando, gemendo e me mordendo. "mais forte, baby..." E eu estava suando, segurando-a e me forçando mais do que era humanamente possível, ela me ajudava cavalgando no meu colo (sério, como isso é possível? O primeiro dia em que nos beijamos e as coisas já estão indo pra outro nível sem o meu consentimento? Isso não é normal ou plausível... mas ela fazia tão certo, tão bem e era tão gostosa que eu não conseguiria parar o que estávamos fazendo, não poderia e não queria também) e o fiz com tanta força que eu fiquei com medo de machucá-la na parede. Voltamos a nos beijar porque, de algum modo, eu precisava de sua boca pra respirar e os beijos eram molhados, sem ritmo nenhum e nos beijávamos por necessidade primária. Ela arranhando minhas costas e eu massageando sua bunda. Tirei minha boca da sua e olhei nos seus olhos tão negros e líquidos que tive vontade de falar a palavra com "a". Mas aí já é correr demais, até pra gente. Entretanto, ela não tinha a menor dúvida sobre querer aquilo que estávamos fazendo, como eu também não tinha, muito embora estivéssemos apressando demais as coisas, só que não conseguia parar. Beijei seu colo e segurei seu seio, o que a fez urrar e me puxar pra mais um beijo, enquanto as coisas estavam escalando rapidamente na nossa dança. Eu apertava o seio que estava em minha mão e ela me mordia, gemendo tão alto que agradeci estarmos longe da janela. "Hum... você é tão boa" Foi o que me disse, frenética na cavalgada no meu colo.

"Rach... Eu te quero tanto." Isso foi meu sussurro porque minha voz resolveu me abandonar naquele momento.

"Não mais do que eu, Quinn. Você não tem idéia do quanto eu esperei pra tê-la assim..." Essa frase vinda dela já seria algo que me faria subir pelas paredes, sem contar com os suspiros, a respiração funda e os gemidos que a seguiram... Certo, eu estava literalmente subindo pelas paredes enquanto ela subia e descia com seu corpo no meu. Não sei de onde eu tive tanta força para fazer isso, mas eu posso agradecer a Sylvester por isso. Segurar alguém já não é muito fácil, mas adicionar o fator eu estar massageando seu seio com uma mão e tentando tirar minha calça (que estava nela) de ginástica com a outra enquanto nos debatíamos desesperadas na parede requer muito mais energia. Desisti de tirar a maldita da calça, a posição não ajudava em nada, diferente dela. "Depois disso, é melhor mandarmos essa calça pro lixo junto com meu biquíni..." Disse me provocando e me mordendo o pescoço com força o suficiente para marcá-lo.

"Mas você está vestida demais e eu te quero sem roupa..." Eu também podia jogar esse jogo, afinal, é tudo sobre provocar e não agradar. Era, melhor dizendo, porque com ela o assunto era outro definitivamente. Ela gemeu alto no meu ouvido – Santana estava certa sobre minha pequena morena ser vocal na cama (ou na parede) e isso era alucinante e fazia misérias com o meu domínio.

"Tira o short, baby, ele está me incomodando." Isso foi um sussurro que não esperou minha resposta. Quando abaixei os olhos, suas mãos estavam brigando com meu zíper e ela mordia o lábio inferior, descabelada e nenhuma visão mundo poderia ser mais sexy que aquilo. Não até ela deixar de morder seu lábio e morder o meu, passando levemente sua língua nele e se afastando quando eu investia em beijá-la, sorrindo e me provocando. Aproveitei e beijei seu seio, voltando com minha mão para sua bunda porque tinha perdido o controle das pernas de uma hora pra outra. Ela me segurava pelos cabelos me mantendo ali enquanto gemia baixo e rouca coisas que no mínimo ganhariam um novo significado depois de ouvi-la dizer. Outras coisas eu até tinha conhecimento, mas ela tinha levado a um nível extremo e completamente enlouquecedor. Apertou ainda mais suas pernas ao meu redor enquanto me cavalgava com a mesma paixão que eu me forçava nela. Voltei a beijar sua boca sexy e bem... Eu estava quase me derretendo com ela, isso não era nenhum mistério dado o nosso estado.

Eu não precisava de muito mais e nem ela, por isso o ritmo tinha ido embora pela porta também até que – e por que isso não me surpreende? Desgraça! – Puckerman resolveu matracar.

"Quinn, Rach! Vocês tão por onde?" Claro que ele ia chegar. Na verdade, não é claro porque eu tinha esquecido sua existência e de sua presença na casa. Apoiei a testa na sua e ela me olhou fundo e mordeu o lábio inferior, o que me fez gemer e beijá-la mais uma vez, que retribuiu com fervor até parar para suavizar sua respiração funda e me olhou nos olhos sorrindo.

"Eu nunca detestei tanto alguém quanto eu estou detestando o Noah agora." Ela me disse tentando deixar o clima mais leve enquanto descia do meu colo e ajeitava sua pouca roupa, lamentando baixinho e com uma expressão de muito contragosto (talvez igual a minha, se o desconforto que ela estivesse sentindo por não termos terminado fosse um terço do meu, ela estaria furiosa). Minhas pernas estavam bambas e tive que apoiar minha mão na parede em que ela estava encostada. Dei-lhe um beijo leve e encostei meu rosto no seu.

"Eu sempre soube que ele não prestava." Falei também tentando deixar o clima mais leve. Ela sorriu, ainda com as pupilas muito dilatadas e seu sorriso não alcançou os olhos (hehe, ela queria ter feito sexo tanto quanto eu. Se bem que, pensando nas coisas que foram sussurradas e gemidas no meu ouvido, isso não era novidade nenhuma). Sorri pra ela. "Você vai dormir comigo hoje, Berry, não vá achando que vai escapar assim, ilesa." Ela gemeu mais um pouco e foi quando eu percebi o duplo sentido da minha frase. Pois então, não tinha como retirá-la (não que eu fosse fazer isso, mesmo podendo). O meu plano de provocação tinha ido por água abaixo, eu estava realmente pensando em agradá-la.

"Ótimo, porque eu não sei se agüento mais interrupções, loira." Disse provocando de volta, mordendo minha orelha e sorrindo devassa.

"Opa, tô atrapalhando, meninas?" Sua voz nos cortou mais uma vez e eu me preparei para dar uma patada (ou um socão mesmo) nele, mas Rachel não deixou.

"Na verdade, sim, Noah, mas tudo bem, eu preciso tomar banho mesmo. A única diferença, é que agora ele vai ter que ser gelado." Foi o que disse saindo da prisão que eu tinha feito com meu corpo, me sorrindo e fechando com uma piscada. É, banho gelado pra você também, Fabray! Maldito Puckerman! Me virei e vi Rachel subindo as escadas, provavelmente para se arrumar em seu quarto.

"Quinn, eu queria falar com você." Olhei para ele e foi quando percebi que ele deve ser bipolar ou ter várias personalidades, não é possível. Há menos de um minuto ele era o galinha que se intitula como Puckassaurus (quem é idiota o suficiente pra isso?) e agora ele estava com uma postura séria, de homem. Concordei com a cabeça, fechei minha braguilha e abaixei para pegar minha blusa e vesti-la (ok, ele era outra pessoa, mas quem ia me garantir quanto tempo esse novo Puck ficaria? Não iria arriscar, claro). Segui vestida e quase decente tentando disfarçar minha vontade enorme de esganá-lo e me sentei no sofá, ele fez o mesmo.

"Vocês são quentes juntas." Não falei? Aí está o velho e sujo Puck de sempre, revirei os olhos e olhei-o.

"Você é nojento." Foi o que disse tentando não soar muito rouca como alguém que estava quase se comendo há meio minuto numa parede do lado de uma porta de entrada.

"A Rach te contou?" Pronto, o estúpido foi embora e voltou esse desconhecido Puck, ou Noah. Concordei com a cabeça, ele se aprontou pra continuar.

...

Claro que ver minha superstar e a baby mamma juntas era o sonho de qualquer homem, mulher ou o que seja. E se os chupões no pescoço da loira e sua cara de revolta quisessem dizer alguma coisa, acho que interrompi algo. Eu ri, claro. Depois o galinha era eu.

"Caralho, Quinn" Porra! Não precisava apanhar por isso, caramba.

"Fale o que quer, Puckerman, não tenho todo o tempo do mundo." Foi o que me respondeu puta da cara e eu tive que dar um sorriso. Ela podia não ter tempo pra mim, mas pra Rach ela tinha e muito.

"Acho que a Rach discorda disso..." Disse ainda rindo e tomei um soco no braço. "Mas que porra, dá pra parar com isso? Você tem a mão pesada." Não sei qual é o problema dessas meninas, nunca vi gostarem tanto de porrar alguém. Só a Britt salva, cruzes.

"O que você quer saber?" Ela continuou com sua expressão gélida e protetora tentando esconder o fato de quase ter se comido com minha melhor amiga trepada numa parede. Sorri sincero, talvez ela possa prestar pra Rach. Diferente do retardado do Hudson e da bichona do St. Jackass, ela defendia minha superstar e era isso que me valia. Ela viu meu sorriso sincero e saiu da defensiva. Bom, muito bom.

"Ela te contou sobre o nosso motivo pra nos aproximar e nossa história com defuntos?" Perguntei.

"Credo, Puckerman! Quem te ouve assim vai pensar que vocês são dois necrófilos." Ela respondeu sorrindo leve, eu ri aberto pra ela, pelo menos a baby mamma tinha cérebro e senso de humor também. "Não que isso te interessar me assuste, já que não conheço pessoa mais sem critério que você." Foi o que completou rindo ainda mais e eu revirei os olhos e parei de sorrir. Mulheres! Que seres estranhos.

"Que seja. Quero saber se entendeu no que está se metendo ao se aproximar da Rach e ficar de sacanagem por aí." Disse e sua expressão se tornou séria. "Não que eu tenha algo contra vocês duas indo por todos os caminhos... se quiserem mais alguém, eu..." Tentei completar sorrindo e ela se levantou e deu tapa na minha cabeça. Saco!

"Escuta aqui, Puckerman, se você se aproximar da Rachel ou encostar suas mãos sujas nela eu vou fazer tão direito que nunca vão achar seu corpo, entendeu?" Foi rosnado na minha cara com ela me agarrando pelo colarinho. Tudo bem, eu sou um cara e já apanhei muito na vida, isso só contando uma parte da minha história com a Rach, mas vendo a Quinn com sua usual expressão fria do passado fez meu sangue congelar e eu não disse mais nada. Não por medo, caras como eu não sabem o que é isso, mas só porque não precisava irritá-la mais, né? Concordei com a cabeça rapidamente e ela me soltou.

"Ótimo, estamos entendidos." Disse ainda em pé e me olhando firme e dura.

"Uhum. Eu nunca faria nada com a Rach, Quinn..." Falei baixo, tentando me explicar.

"Nada do tipo que fez comigo, Puckerman?" Continuou me olhando com tanta raiva que eu me senti um lixo. Foi desprezível o que eu fiz com ela e o que aconteceu com Beth por causa dessa minha estupidez que começou quando eu resolvi ser um babaca com a Rachel. "Eu não me importo com isso, Puck, o que aconteceu entre nós já passou, acabou e não vai voltar. Foi uma idiotice nossa que não era pra ter acontecido, ainda mais se pensarmos na Beth." Ao ouvi-la dizer isso, meu coração partiu (é, eu sou um cara, mas tenho coração, idiotas). Eu tinha sido tão inútil quanto o meu pai, tão imprestável e imbecil quanto ele com minha própria filha. "Eu só vou tomar conta da Rachel, sei me cuidar e é bom que saiba e faça o mesmo. Pro seu próprio bem, Noah." Ela terminou não mais enfurecida, mas com um quê de compreensão. Concordei com a cabeça e enxuguei os olhos com a manga da camisa. Não, não eram lágrimas, foi só um cisco. Falar na Beth sempre me deixava numa bad.

"Eu te prometo que vou cuidar dela, como sempre cuidei. E eu fico relaxado sabendo que minha diva pode contar contigo também, Quinn. E eu não vou te machucar mais, eu juro. Também não vou deixar ninguém encostá-las, ou coisa do tipo." Disse o mais sincero que pude, pra ver se ela pegava tudo que eu estava sentindo, toda a mágoa decepção comigo. Ela me puxou pela mão e eu pulei em pé, com medo de levar outra surra.

"Eu acredito em você, Noah. Mas agora eu vou proteger a Rachel também. Mesmo que eu não possa bater em fantasmas, ou sei lá o que vocês fazem, eu não vou abandoná-la." Depois de ouvir isso, percebi que ela realmente tinha mudado e muito, não era mais a menina egoísta e que dormiu comigo pra me afastar da minha melhor amiga e por estar se sentindo gorda, ela era uma mulher. Sorri o sorriso preferido da minha pequena e ela me abraçou sincera. Tanto que me fez chorar (é, homens choram também, só os idiotas fingem).

"Me perdoa, Quinn. Por tudo que eu te fiz passar, sua reputação, as cheerios, pela sua família, pelo seu namoro com o idiota do Finn, pela Beth..." Eu não sei de onde saiu aquilo tudo, mas vendo-a ser tão madura, compreensiva e disposta a proteger minha garota, me levou a falar tudo, abrir o coração e tentar ser um homem pra essas meninas e não só o idiota de sempre que come todo mundo e não se importa com ninguém. Ela se afastou e colocou a mão no meu rosto.

"Shhh! Isso já passou, Noah. Você me ajudou a me transformar numa pessoa, coisa que eu não era antes. Perder a reputação me fez dar valor às pessoas que eu costumava humilhar, as únicas que ficaram ao meu lado. Sair das cheerios me deu paz de espírito e me fez analisar o tipo de pessoa que eu gostaria de ser. Eu não sou como a treinadora Sylvester, por mais que ela já tenha dito, eu não preciso me esconder pra fazer as pessoas me temerem. Eu sei que consigo fazer isso com um olhar, de todo modo." Ela me sorriu e revirou os olhos, ainda segurando meu rosto. "O que nós fizemos com o Finn foi baixo, mas não foi pior do que o que eu fazia com ele ao longo do nosso namoro. Não em questão de mentira, mas por usá-lo e ele ser idiota o suficiente e não ver isso. A pior parte foi perder minha família, mas antes de perdê-la, nós já não éramos uma família mesmo. Russell era um grande filho da puta..." Eu confesso que ri disso, ainda tentando não chorar. Ela sorriu e revirou os olhos. "Ele não era um bom pai, ou um bom cristão. Ele foi, claro, um dia, há muito tempo. Mas não depois que a Meg o ignorou e foi viver sua vida de acordo com o que ela acreditava, daí ele se voltou pra mim, a fim de me moldar pra não fazer as mesmas coisas que minha irmã. E eu segui, pois já tinha perdido-a mesmo e não queria perdê-lo também." Uma lágrima rolou por seu rosto e foi minha vez de abraçá-la e balançá-la um pouco no abraço. Ela se afastou balançando a cabeça e sorriu, continuando. "Mas ele fez questão de sair da minha como sempre, ou me tirar da dele e eu, mais uma vez, obedeci. Foi quando percebi que não precisava ser adestrada e deveria seguir minha vida por minhas escolhas. Posso dizer que minha relação com minha mãe melhorou depois que voltei pra casa. É, no início foi horrível, mas conseguimos nos entender e estamos construindo algo que não tínhamos há tantos anos." Eu sorri sincero pra ela que sorriu de volta. "As coisas se ajeitam aos poucos, vê? E, por favor, não se desculpe pela Beth, ela fez tanto por mim... tanto. Se hoje eu tenho cuidado com as pessoas e com os sentimentos alheios é tudo por ela, pra que um dia ela se orgulhe de mim, ou sei lá..." Ela abaixou a cabeça e começou a chorar e eu chorava junto, abraçando-a. Isso me fez lembrar o motivo pelo qual eu fui apaixonado por ela um dia. Não só pela beleza, ou pelo poder, mas pelo mistério e pela fragilidade que ela conseguia demonstrar mesmo sendo uma tirana pau no cu. Nos afastamos e ela riu. "Nossa, nós parecemos duas velhas comadres." Ri junto.

"É verdade." Disse me afastando um pouco.

"Foi bom te perdoar, Noah. Agora eu sinto como se pudesse voltar a viver minha vida, sem mágoas." Ela me sorriu. E eu sorri tão grande que não me cabia de felicidade. Agarrei-a pela cintura e giramos no ar, com ela rindo.

"Você ter me perdoado significa muito mais do que imagina pra mim, Quinn..." Disse depois de colocá-la no chão e olhá-la fundo, tentando passar o que sentia. Ela concordou com a cabeça e sorriu. "Mas não vá sair dizendo que eu chorei que nem uma mulherzinha por aí e tal..." Completei limpando a cara e ela revirou os olhos, como sempre, sorrindo.

"Ok e nem vou te chamar de Noah, Noah. Você vai voltar a ser Puck, ok?" Ela disse e eu olhei-a confuso. Mas o que isso tinha a ver. Sua resposta foi rápida e embaraçada. "A Rach vai ficar ciúmes e a gente não preciso disso agora..." Ela falou, meio vermelha e abri meu sorrisinho de sempre.

"Amarrada." Foi o que disse fingindo ter uma crise de tosse. E ela me bateu no braço, me fazendo rir ainda mais.

"Idiota." Não foi nada criativo o fato de ela ter imitado minha crise de tosse pra me xingar. Revirei os olhos. Quando voltei a olhar em sua direção, ela estava olhando pro alto da escada e segui sua linha de visão. Rach estava lá com um vestidinho branco de verão e uma gaze na mão machucada. Com uma cara de apaixonada que eu nunca vi igual e um sorriso tímido e vermelha. Virei para Quinn que também ria envergonhada e ficava embaraçada, olhando-a. Sorri feliz. Pode não ser normal pra um cara ficar feliz ao ver duas garotas juntas e não pensar numa suruba. Mas ali estavam as duas mulheres da minha vida, loucamente apaixonadas uma pela outra e eu não conseguia parar de sorrir.

Peguei meu celular para ver as horas, era tempo de ir. E se algo me deu mais coragem de fazer o que estava prestes a ser feito, isso eu devo à Quinn e à nossa conversa sincera. Também ao fato de saber que, independente do que me aconteça, ela iria proteger a Rachel pela sua vida, isso me reconfortava. Me virei para dar-lhes certa privacidade – que eu tinha tirado mais cedo, não era culpa minha o fato de elas pensarem mais em sexo que eu – e sair, mas Rach, já do lado de Quinn, me perguntou.

"Vai aonde, Noah?" Me virei para olhá-la. "Você está tão bem arrumado, tem algum encontro?" Disse sorridente. Eu vestia um calça risca de giz preta que ela me encheu o saco pra levar, sapatos também escuros e uma camisa com uma gola estranha que ela disse ser uma letra, ou música, ou sei lá cinza de mangas compridas – a noite sempre ficava fria em Lima.

"Vou cuidar um pouco da Alice, vou levá-la pra um sorvete." Respondi sem olhá-la nos olhos. "E dar um pouco de privacidade ao casal de pombinhos." Disse rindo do jeito que ela detestava pra ver se ela ignorava o fato de eu estar mentindo sem vergonha nenhuma. Rach pareceu não notar e revirou os olhos, se voltando pra dar um beijo rápido em Quinn e sorrir, que riu nas nuvens de volta. Como eu não percebi que ela também era apaixonada pela superstar? Nossa!

"Dê um beijo nela por mim." Ela disse sorrindo e eu tive vontade de fazer uma careta. Era insuportável mentir para alguém como ela, ainda mais quando me olhava com aqueles grandes olhos sinceros. Fiz que 'sim' com a cabeça, eu tenho um limite de mentiras a dizer e não conseguiria mentir mais ainda pra ela. Me virei e saí.

Era hora de Noah Puckerman se tornar homem. Por mais que possa matar a Rach, eu estava fazendo isso por ela. Cansei de vê-la tentando me proteger e cuidar de todos, era a vez dela de ser cuidada. Por sorte a Quinn estava disposta a isso. Entrei no carro e pedi pra que ela não me detestasse mais uma vez quando soubesse o que eu estava pra fazer. Eu sei que ela irá e vai pensar em todos os meus erros e nas vezes que não fui o amigo que ela precisava que eu fosse (por causa da porra da reputação), mas se isso ia deixá-la salva e segura... Bem, era o que eu iria fazer.

"Estou chegando já, tô no carro indo praí." Disse no telefone, era hora do show.

...

Olhei para minha loira que me sorria linda e fofa e puxei-a para um abraço, do qual ela fugiu. Fiz uma careta desconcertada, o que tinha acontecido? Ela me deu um beijinho e riu.

"Eu preciso tomar banho, Rach, ou vou te sujar toda..." Ela disse rindo e se virando para ir pegar sua bolsa.

"Eu não ligo de ficar toda suja com você. Ainda mais se formos tomar banho juntas depois..." Falei baixo e fingindo estar desinteressada, o que a fez se virar e marchar até parar na minha frente. Levantou seu indicador direito e passou no meu rosto, descendo pelo meu ombro, tirando levemente a alça fina do meu vestido e me devorando com o olhar. Claro que minha respiração ficou rápida e entrecortada, meu coração entrou em palpitações desesperadas, minha boca ficou seca...

"Gostei desse vestidinho, vai tornar tudo mais simples depois do meu banho." Me mate alguém! Isso seguido de um sorriso misterioso e safado e de um beijo no nariz. Depois a vi se afastar e abaixar lentamente (lentamente demais, diferente da minha mente que foi a lugares fundos nos meus sonhos selvagens mais rápido que a luz) e pegar sua mochila. Se virou e me olhou de cima a baixo e me mandou um beijo. "Nos vemos daqui a pouco, Rach..." Me piscou e foi subindo.

E eu ainda tinha tempo demais para pensar safadezas com ela... Barbra me ajude.

...

Cheguei ao Breadsticks na hora combinada e fui entrando direto, procurando por uma mesa.

"Bem, acho que alguém vai ter que me dar mais cinco minutos além do tempo. Atrasos não são charmosos, Noah." Eu ouvi e me virei, olhando a ruiva sentada com um as pernas cruzadas, um vestidinho preto curto que me faria babar e jogá-la numa cama, seu usual sorriso desafiante e suas feições finas, com a pele bem clara e os olhos da mesma cor dos da Quinn (será que isso quer dizer que tenho um tipo?), mas com um mistério que o nublava, deixando suas feições mais sombrias e intocáveis. Dei um sorriso que não era safado, nem engraçado e nem envergonhado, mas que passava o cuidado que estava tendo ali. Não podia deixá-la me conquistar, não estava ali pra isso.

"É bom vê-la também, Stacey." Falei tentando entender o que eu sentia exatamente. Um misto de tesão com precaução, com raiva e um pouco de compaixão. Uma combinação bombástica pra mim, como sempre foi.

"Sente-se, Noah, as pessoas não precisam ouvir nossa conversa." Foi o que ela falou me dando o seu sorriso que me amarraria numa cama pelo resto da minha vida.

Andei em sua direção, sorrindo ainda e puxei uma cadeira, de frente pra ela que pegou minha mão e alisou-a com o polegar, rindo ao ver que isso me deu certos calafrios. Se recostou na cadeira, cruzando as pernas pro outro lado e me pedindo uma bebida (não ouvi porque estava viajando enquanto a secava), mas depois eu saberia que era um uísque. Descobri tarde demais para trocá-lo e resolvi mandá-lo pra dentro assim mesmo. Eu sou homem, oras! Que mal havia num drink com uma menina bonita? Foi seu sorriso diabólico que me fez lembrar que não faz mal tomar uma bebida com uma gata num encontro, mas ela não era qualquer garota e eu devia ter me lembrado disso.

"Foi a Rachel que te atrasou, Noah?" Disse brincando com o gelo em seu Martini – nós só bebíamos porque ela conhecia o dono do restaurante, sua família era rica e influente nessa cidade desgraçada. Pois eu lhe sorri torto e me preparei para a noite que não seria fácil. Era a hora de começar o meu jogo duplo. Que eu tenha aprendido drama o suficiente pra isso sair como planejei.