Cap. 7 - Amigos
Lira e eu éramos inseparáveis. Aliás, ela era a menina mais popular da classe, provavelmente, do colégio.
Os meninos ficavam babando por ela enquanto andávamos pelos corredores.
-Sabe, Mary, fiquei sabendo que o Tom tá afim de você.
-Não estou nem um pouco afim dele.
-Mas ele é lindo e...
Eu estava sempre esquiva com relação a esses assuntos, quando falavam de "meninos" eu só pensava no Heiro.
É, estava afim dele. Por outro lado, ele não apareceu mais lá em casa, talvez fosse por minha mãe.
A Rainha do Castelo era um tanto inconveniente.
Por outro lado do outro lado, ele apareceu na escola com alguns machucados. Um curativo próximo do olho e mancando, como se tivesse quebrado uma costela.
Aquilo me preocupava muito, mas tinha de me manter longe dele.
Lira e eu andávamos pelo corredor em direção a sala de música.
-Lira... O que acha do Heiro? - Inverti os papéis.
-Ele é um mafioso, nada mais, nada menos. - Ela foi seca, sequer me olhou.
-Como assim?!
-Não sabe?- Ela parecia assustada com minha falta de informação- O pai dele é o chefe da Máfia de Neo Domino.
-É por isso que as pessoas se afastam dele?
-Não é motivo suficiente? - Ela riu.
-Bem...- Pensei em todas as conversas que tive com Heiro - Ele não me parece nem um pouco ameaçador.
-E não é.
-Ele é charmoso. - Achei que Lira me censuraria.
-Concordo.
Começamos a rir.
Ela me levou até a sala de música, ali mesmo, da porta, podia ver a fonte cupido.
Ao olhar pela janela reconheci o curativo na testa de Heiro, que estava ao fundo da sala, com uma guitarra em mãos.
-"Então... Ele é músico?"
Lira pediu que eu a aguardasse por ali, voltou dois minutos depois com um sorriso bobo no rosto.
-Alguém parece bem feliz. - Brinquei.
-Pois é, vou sair na sexta.
-Pra onde?!
-Festa no Farol, vamos?!
-Minha mãe jamais me deixaria ir... - Comentei.
-Que chato, queria que fosse comigo. - Ela torceu o nariz.
Continuamos caminhando até o pátio, ficava me perguntando sobre como estaria Heiro. Paramos no pátio.
-Mary, nesse colégio, tudo é informação. - Lira cortava meus pensamentos.
-Entendo...
-As melhores festas, os melhores eventos são feitos no cenário underground.
-Nossa, parece até coisa de filme. - Eu estava um pouco desacreditada.
-Sim, a Cidade dos Lírios tem disso.
-O Heiro frequenta esses tipos de evento? - Saiu sem querer, eu acho.
-Onde a Máfia está, ele está. Mas... Pra que essa insistência no Heiro? Tá afim dele?! - Ela estava com um sorriso bobo e intimidador.
-Nãaaaao! - Fiquei encabulada, ao mesmo tempo, com raiva de mim.
-Não seria a primeira menina, acho que tem umas seis ou sete que o amam em segredo. - Lira estava com uma mão no queixo, olhando para o alto, quase sorrindo.
Era algo a se esperar, com aquele jeito quieto e frio, sendo bonito como era, muito fácil uma garota apaixonar-se por ele, mas ainda me eprguntava sobre como Lira sabia da quantia quase exata de garotas que o achavam assim tão interessante, por outro lado, ficava me questionando sobre ser só mais uma.
Mas afinal, eu devia ser a única menina, ou uma das poucas, que sabia como Heiro realmente era.
Simpático, inteligente, com um gosto musical estranho, do tipo que não faz muitas piadas...
-Mary, se estiver afim dele, pode falar, prometo guardar o segredo.
-Não estou, só o acho uma incógnita.
-Ah, claro... É assim que começa.
Rimos novamente.
Lira sabia da minha rotina, de como eu era com meus pais, dos problemas da minha Cidade que eu gostava de chamar de "velha", das minhas experiências com garotos. Ela era uma verdadeira amiga. Me aconselhava, me advertia, me ajudava com os trabalhos do colégio.
Lira... A filha do Chefe de Polícia da Cidade dos Lírios, um homem rico, cheio de medalhas e honras.
Ainda me recordo que, naquela semana, na sexta-feira, Heiro apareceu finalmente lá em casa.
Ainda mancando um pouco, mas sem o curativo.
-Desculpe não ter vindo antes, não achei um bom motivo pra te encontrar.
-Precisava de motivos? - Eu estava com sono, ele tinha me acordado jogando pedras na janela do quarto.
Heiro, apenas venha me ver.
-Como você está?
A imagem do rapaz alto de jaqueta e calça Jeans, bem diferente do garoto de calça de Lycra, as vezes de bermuda e camiseta...
Heiro não estava ali apenas para descançar de uma corrida, era para me ver.
-Bem, obrigada. Mas a questão é como você está, já que apareceu machucado no colégio.
-Briga entre garotos, acontece.
-Que idiota... - Deixei sair um bocejo.
E continuamos nossa rotina de risos e conversas banais.
Em meio a conversa em relação ao trabalho sobre nossa Árvore Genealógica, acabei por perguntar:
-Heiro... Seu pai é mesmo mafioso?
-Sim.
Ele não pareceu se importar com aquilo, respondeu com o sorriso que agora era costume.
O Heiro é tão... Especial.
Ele olha pro céu, com esse sorriso bobo no rosto, e ali, naquele íntimo momento, sinto que ele está bem, que lembra de boas coisas, e que mesmo sendo tão quieto no mundo "lá fora", fala muito comigo sem dizer nada. Fico me perguntando como ele consegue mantê-lo sabendo que todas as pessoas da Cidade evitam chegar perto dele.
Que sorriso misterioro...
Heiro é mesmo minha incógnita.
Deitei em seu ombro, e descansei, até a hora em que ele se despediu me dando um beijo na testa.
-Vá se arrumar para a aula, moça.
De fato, Heiro e Lira são as pessoas mais incríveis que conheci nesta cidade.
Obrigado, Cidade dos Lírios.
