CAPÍTULO 7
Pontualmente, Rony e Kingsley chegaram, pela rede de flu. Cumprimentando a mim e também a Malfoy, embora de forma um pouco menos íntima. Quando nos sentamos, foi Kingsley quem começou a falar.
- Senhor Malfoy, em primeiro lugar, devido aos acontecimentos da noite passada entre o senhor e Potter, você foi involuntariamente envolvido no serviço secreto dos aurores. Sei que o senhor não possui treinamento específico para isso, mas dado seu total conhecimento da situação, devido ao fato de ter sido nosso informante quanto a profecia e estar ciente desde o início devido a sua posição no Abrigo; eu gostaria de saber se o senhor pode oferecer comprometimento e discrição a causa que defendemos agora, que é proteger Anna, impedir que ela caia nas mãos de bruxos das trevas e diminuir a atuação desses bruxos aqui e em outros países.
- Estou. – Malfoy disse, muito sério, sem qualquer hesitação.
- Eu, Weasley e algum outros aurores conversamos hoje e pensamos em um plano inicial para proteger a menina. – ele continuou falando. – Espero que vocês dois aceitem se comprometer com ele.
- O que seria? – eu perguntei.
Não gostava muito quando eu não podia participar da elaboração de planos que me envolviam. Claro que acatar decisões dos aurores mais graduados também era parte do serviço; mas naquele momento me senti um pouco amargurado por Rony ter ajudado no planejamento enquanto eu estava sendo apenas avisado das decisões.
- Eu quero que vocês dois se assumam para toda a sociedade bruxa como um casal gay. – Kingsley disse, sério.
Meu estômago deu um salto.
- O que? – perguntou Malfoy, a voz duas oitavas mais alta, como se quisesse ter entendido mal.
Olhei para o rosto de Rony, que até então estava mudo e evitava me olhar. O jeito como suas orelhas estavam vermelhas esclarecia que ele estava muito constrangido de estar ali, junto de Kingsley, me pedindo aquilo.
- Veja bem, não será preciso tanto esforço. – o tom de Kingsley buscava amenizar a situação. – Vocês já estão sendo obrigados a permanecer juntos, de qualquer forma, devido ao feitiço.
- Permanecer juntos não significa casal gay. – Draco apontou, com lógica.
- Eu sei, mas uma hora as pessoas vão acabar descobrindo que vocês estão morando na mesma casa, não se assumir enquanto um casal despertará suspeitas quanto a verdadeira ligação que vocês tem. – o auror explicou. – Não queremos chamar atenção para o evento que ocorreu ontem à noite no abrigo, muito menos para esse feitiço horrível que aquele bruxo lançou contra Potter, o lilac mortem não é popular na Inglaterra e queremos que ele continue não sendo.
- Isso é mesmo necessário? – eu disse, com certo desânimo.
Eu via coerência no que Kingsley dizia, mas certamente poderíamos encontrar uma outra desculpa. Malfoy e eu poderíamos estar trabalhando juntos em um caso envolvendo ex comensais da morte, ele poderia estar atuando como meu informante.
- É necessário por causa da criança. Concordamos ontem à noite que ficar com você é um dos espaços mais seguros para Anna. Mas é importante que a comunidade bruxa entenda o porquê essa criança está sob sua responsabilidade, sem desconfiar da situação estranha que a envolve. - Kingsley colocou. – Caso se espalhe que uma menina estrangeira apareceu, perseguida por dementadores e bruxos das trevas e que os aurores a estão protegendo...
- Vai chamar atenção de mais bruxos das trevas para a menina. – Malfoy completou. – Bruxos que podem vir a engrossar esse grupo que quer sequestra-la.
- Exatamente. – Kingsley respondeu. – Mas contarmos uma história de que vocês são um casal gay que adotou uma criança órfã, poderá parecer muito natural. A fama de Harry poderá se sobrepor a qualquer desconfiança sobre a menina. Além disso, sendo ela a filha de Harry Potter e Draco Malfoy, é natural que seja protegida. Ainda há bruxos das trevas que se ressentem de vocês dois; de Harry por matar Voldemort, e de Malfoy por ter renegado os comensais da morte.
- É inteligente fazer com que o mundo bruxo perceba Anna por outras razões que não as que envolvem a profecia. É essencial que a profecia não se espalhe, e que os bruxos que já a conhecem não identifiquem Anna como a criança a qual a profecia faz referência. – disse Rony.
- Alguns bruxos, no entanto, já devem desconfiar dela, ou não teriam tentado sequestra-la. – Malfoy argumentou.
- Claro. – Kingsley concedeu de má vontade. – Mas é importante que a gente amenize essa situação. Como filha de vocês ela poderá ser protegida, sem que isso gere desconfianças dentro do próprio ministério. Além de que vocês argumentarão que querem que a menina tenha uma vida normal e a deixarão fora da mídia o tanto quanto possível.
Kingsley e Rony olharam para nós em expectativa.
- Draco? – eu perguntei. Querendo saber o que ele achava.
- Pode ser uma boa ideia. – ele disse, e pigarregou. – Para proteger Anna. E de toda forma somos obrigados a viver juntos.
- Não será eternamente. – Kingsley disse, buscando nos convencer. – Talvez vocês possam simular um divórcio daqui a alguns anos, e continuarão cuidando de Anna como pais separados. Mais tarde poderão se envolver com outras pessoas, dizer que a homossexualidade foi uma fase. Mesmo que precisem manter-se em constante contato por conta do feitiço que vinculou vocês.
- Será que as pessoas vão acreditar nessa união entre eu e Malfoy? – eu questionei, ainda incerto. – Até anteontem eu era casado com Gina, legalmente ainda sou.
- Conversamos com Gina. – Rony disse. – Ela assinou um contrato mágico de sigilo e vai colaborar com os aurores.
- Vamos dizer que o casamento que vocês tinham era de fachada e que vocês eram apenas amigos. Ele teria sido realizado para esconder sua união com Malfoy que já existiria desde antes do casamento. Nesses anos, Gina teria tido alguns casos, mas agora, teria conhecido alguém com quem deseja uma união mais permanente. Ao mesmo tempo você e Malfoy teriam decicido que estava na hora de assumir o relacionamento.
- Certo. - Draco disse. – E quando as pessoas com quem me relacionei começaram a se manifestar que se envolveram comigo nesses últimos anos? Enquanto eu, teoricamente, namorava Potter.
- Bom, diremos que você ficou com essas mulheres para manter a aparência de heterossexual. – explicou Kingsley com seriedade.
Eu lembrei da conversa que tive com Draco de manhã e vi a falha naquele plano.
- Deixe-me refazer a pergunta. – Malfoy disse, com um toque de sarcasmo na voz. – O que faremos quando os homens com quem me relacionei sexualmente nos últimos anos começarem a aparecer?
- Você é gay? – disse Rony, com a voz aguda, perdendo toda a compostura.
- 5 pontos pra grifinória. – Draco disse, com desdém.
- Isso torna um pouco mais complicado. – disse Kingsley, se recuperando do contratempo. – Mas caso isso venha à tona podemos dizer que o relacionamento de vocês teve idas e vindas nesses últimos anos, ou que você se ressentia de Potter por não querer assumir a relação publicamente e acabou pulando a cerca algumas vezes. De qualquer forma, pensando bem, o fato de você ser realmente gay e de haver homens que comprovem isso torna a história ainda mais verossímil.
- Não acredito que você seja gay. – Rony disse, como se tivesse voltado à adolescência. – E Pansy Parkinson?
- Dificilmente ir ao baile da escola com uma garota aos 14 anos comprova a heterossexualidade de alguém, Weasley. – Draco disse, sonserino.
Kingsley pigarreou.
- Vocês afinal estão dispostos a se comprometer com esse plano?
- Sim. – eu e Draco respondemos em uníssono.
- Então vamos assinar os papéis. – o auror abriu a pasta e me estendeu um documento. – Primeiro o divórcio, Gina já assinou.
Encarei o papel que terminaria o meu relacionamento de tantos anos, que eu achei que duraria para sempre. Eu não estava nem de longe tão chateado com aquilo quanto eu deveria estar. Assinei o papel sem conseguir sentir remorso, arrependimento ou tristeza pelo fim do que tinha sido a minha vida. Naquele momento eu conclui que meu casamento com Gina, fora mesmo, de certa forma, uma farsa.
- Agora o papel da adoção. – Kingsley falou. – Acho que devemos chamar Anna.
Malfoy levantou-se em silêncio e voltou alguns minutos depois com Anna e os dois elfos domésticos. A menina deu um sorriso tímido da Rony e cumprimentou Kingsley com a cabeça.
- Olá, Anna, eu sou Kingsley. – ele disse. – Eu sou chefe dos aurores, o grupo de bruxos que protegem nosso mundo da magia das trevas.
- Olá. – ela cumprimentou, parecendo insegura. – Você descobriu algo sobre os homens que mataram minha mãe?
- Ainda não, Anna, mas estamos trabalhando nisso. – ele disse, com ternura. – Mas agora precisamos nos focar em manter você protegida deles.
- Achei que estava protegida aqui na casa do sr. Potter. – Anna respondeu.
- E está. – o auror concordou. – Por Harry ser um herói para o nosso mundo a casa dele tem todas as proteções que o Ministério da Magia pode oferecer.
- Mas não queremos que as pessoas achem que Harry está te protegendo, como um auror, porque isso pode chamar atenção de mais bruxos maus como aquele que tentou sequestrar você. – Rony explicou, tentando manter a voz calma e não assustar a menina.
- Seria melhor que Harry e Malfoy adotassem você. – Kingsley sorriu. – Todos vão achar muito normal um casal querendo constituir uma família.
Eu me ajoelhei perto dela, fazendo-a olhar pra mim. Eu percebia como ela estava confusa e amedrontada com aquela situação. Ali estava uma garotinha que tinha sido perseguida por toda a sua vida, e que agora tinha perdido a única pessoa em quem confiava.
- Anna, sei que você está com medo e triste por causa de sua mãe. – eu falei, tentando mostrar como eu entendia. – Eu gostaria de dizer que você vai deixar de sentir tanto a falta dela, mas não posso. Só posso te dizer que ela vai estar sempre com você, dentro do seu coração.
Eu via as lágrimas começando a escorrer pelo rosto infantil de Anna.
- Mas você não está mais sozinha. – garanti a ela – Sei que nada vai substituir a família que você teve, mas nós podemos formar uma nova família.
- Mas a adoção é uma mentira. – ela falou confusa. – Vocês estão fazendo isso para ninguém desconfiar que eu não sou uma menina normal.
Aquilo doeu dentro de mim, eu mal sabia o que dizer. Quando percebi, Malfoy estava ajoelhado ao meu lado.
- Não estamos fazendo isso apenas para que ninguém desconfie de você, Anna. Estamos fazendo isso porque gostamos de você, queremos te proteger. – ele disse.
- E acho que nós cinco podemos ser felizes juntos. – eu disse, incluindo Marti e Lorry na conta.
- Você também está nos adotando. – Malfoy disse. – Nós dois também não temos nenhuma família.
Então Anna deu um pequeno sorriso em meio as lágrimas e se aproximou para nos abraçar. Naquele momento, me senti preenchido de um amor indescritível. Só então me dei conta que realizava verdadeiramente meu sonho de ter uma filha, mesmo que não fosse do meu sangue, mesmo que fosse nessas circunstâncias, não importava. Aquela menininha estava ali, precisava de mim, e eu iria estar ao lado dela para sempre.
Ao lado dessas ternas certezas estava a confusão emocional que já se tornara costumeira desde a última noite, conforme eu sentia o braço de Draco encostar displicentemente no meu enquanto abraçávamos Anna. Eu não estava apenas adotando uma criança, mas estava fazendo isso com ele, e eu não sabia o que pensar ou como me sentir a respeito disso.
Nós dois assinamos o papel da adoção, nos tornando legalmente pais de Anna, além de um contrato de mesma data que afirmava minha união estável mágica com Draco Malfoy. Depois disso, pedimos a Marti que voltasse para o quarto com as crianças, para o caso de Kingsley querer nos dar ainda alguma instrução.
- Acho que é importante fazermos uma foto de vocês dois. – Kingsley comentou.
- Foto? – eu questionei, levantando-me.
- Sim, para o jornal, amanhã de manhã sairá uma matéria sobre vocês no profeta diário. – disse meu chefe, como se estivesse fazendo um breve comentário sobre o clima. – Seria bom um beijo, para não haver dúvidas.
Eu estava um pouco enjoado, detestava essas publicidades, especialmente quando eram mentiras sobre mim. Mesmo que fosse uma mentira com a qual eu tinha concordado.
Me sentei a contragosto no sofá junto a Malfoy, que segurou a minha mão, como se tivesse passado a vida fazendo isso. Kingsley retirou a câmera fotográfica da mala preta que tinha trazido consigo.
- Não vai ser tão ruim, Potter. – ele sussurrou perto do meu ouvido, para que apenas eu ouvisse. – Feche os olhos.
Eu obedeci.
Ele encostou os lábios nos mesmos de um jeito muito leve e rápido, permanecendo só pelos segundos que durariam a foto. Depois se afastou devagar, e eu permaneci alguns segundos, de olhos fechados, sem conseguir entender porque me sentia tão inebriado.
Quando a mão dele se soltou da minha, eu abri os olhos, forçando-me a retornar à realidade daquela situação. Era só uma foto. Uma mentira. Olhei para Rony, que me olhava com uma mistura de nojo e pena. Eu assenti para ele, dando a entender que estava tudo bem.
Depois daquilo, Kingsley e Rony foram embora. Eu e Draco fomos até o quarto de Anna e ela já tinha adormecido na cama. Afinal, já estava muito tarde. Eu ajeitei seu travesseiro enquanto Draco a cobria, e saímos todos silenciosamente do quarto. Já do lado de fora, nos despedimos de Marti e Lorry que aparataram para a casinha rosa no jardim.
Foi então que Draco e eu nos vimos sozinhos. Fomos até o quarto e eu entrei logo no banheiro para tomar banho, saí vestindo meu pijama e fui para cama, aguardando enquanto Malfoy demorava vários minutos no chuveiro. Quando ele saiu, vestia apenas uma calça de tecido leve, que não escondia muito dos contornos de seu corpo.
Ele se deitou ao meu lado na cama.
- Dia longo. – ele comentou.
Eu concordei com a cabeça.
- Achei que não terminaria nunca.
- Dois dias atrás eu nunca poderia imaginar que hoje eu me tornaria pai e estaria praticamente casado com Harry Potter. – ele disse, a voz sem emoções.
- Eu sinto muito. – eu disse olhando para ele.
- Tudo bem, Potter, nada disso é sua culpa. – ele parecia cansado, eu nunca tinha notado de forma tão marcante quanto naquele momento o peso dos últimos 10 anos no rosto de Draco Malfoy.
Ficamos em silêncio durante alguns momentos.
- Mas ainda está valendo o que eu te disse de manhã. – eu falei. – Não precisa ser horrível.
- Não. – ele disse. – Anna vai ser uma coisa boa, pra mim e pra você.
- Vai sim. – eu concordei. – Mas eu me referia a nós dois. Não precisa ser horrível.
Draco Malfoy olhou para mim, os olhos intensos nos meus daquele jeito desconcertante.
- Eu espero mesmo que não, Potter.
- Vem para mais perto. – eu disse, chamando em um impulso. – Talvez se já estivermos bem próximos os pesadelos diminuam.
Malfoy estremeceu, talvez lembrando-se do sonho que tivera na noite passada. Então ficou mais perto de mim, nossos corpos se encostando. Ele estava deitado de barriga para cima e eu me encostava nele, deitando de lado, quase de bruços. A sensação do peito nu de Draco Malfoy tinha algo de extremamente reconfortante.
Passei um braço ao redor do corpo dele, tínhamos estado assim a noite passada, era melhor que já fossemos superando essas barreiras. Ele me olhou com uma expressão questionadora, como se me perguntasse o que eu achava que estava fazendo. Então fechei os olhos e me recusei a continuar encarando. Deixei que ele se afastasse e retirasse meu braço, se quisesse, mas ele não o fez. Logo adormecemos abraçados.
