Saravá Metal
Marcos Mignola estava deitado no chão sobre uma poça de seu próprio vômito. Ele tentava levantar, mas não conseguia. Seu corpo pesava. Sua mente parecia estar vazando, ficando cada vez mais alheia ao que acontecia ao seu redor. Seus sentidos estavam entorpecidos. Ele não sentia o piso gelado nem o líquido gosmento que tocavam sua pele.
Marcos estava falando algo, mas nem mesmo ele sabia o que era. Sua voz saia abafada, retorcida, estranha. Seu corpo tremia, mas seu estado estava tão frágil que ele nem havia percebido isso. A convulsão foi ficando cada vez mais violenta. Durante o ataque sua cabeça se choca contra o chão umas quatro vezes piorando ainda mais seu estado.
De repente ele para.
A convulsão para, a respiração para, o coração para...
Mas a cabeça ativa.
- Garoto, eu falei para você não tomar essa merda, não falei?
Marcos queria rir da sua própria desgraça. Como se não bastasse a situação as suas alucinações haviam voltado com tudo. Marcos tentava rir, mas os músculos de sua face não respondiam. O lado direito estava tão paralisado que parte de sua boca havia ficado torta. Mas ou menos como o que ocorre com vítimas de derrame.
Garcia Hotspur estava visível novamente. Por muito tempo Marcos via Garcia como uma espécie de guia espiritual. Um fantasminha camarada que dava os melhores conselhos e resolvia vários de seus problemas. Mas aí veio a revelação. Ou o que Marcos achou que seria a revelação. Era tudo mentira. Não havia guia espiritual. Não havia mediunidade. Não havia dom especial. Não havia porra nenhuma. Só havia um maluco que se iludia achando ser especial.
Garcia tira seu amigo do chão, o segurando com seus braços. Marcos era magro, mas alto, por isso pesava um pouquinho. Mesmo assim Garcia conseguia carregá-lo como se ele fosse um bebê, com muita facilidade.
Marcos queria perguntar como um ser etéreo como Garcia conseguia interagir com o mundo físico daquele jeito, mas sua boca não respondia aos comandos de seu cérebro.
Movendo apenas os olhos, que pareciam ser as únicas partes de seu corpo que ainda eram obedientes, Marcos olhou ao redor e percebeu que não estava mais em sua casa.
- Para onde esta me levando? - Marcos queria perguntar para Garcia. Mas ficou só na vontade.
O lugar onde Garcia levou Marcos não tinha janelas, mas não era escuro, já que tinha luz elétrica. Não havia móveis, por isso o lugar parecia ser mais amplo do que era.
Um barracão.
Garcia deitou o corpo molenga de Marcos em cima de uma esteira de palha estendida no chão. Marcos não estava entendendo. Aquela não era a visão que ele tinha do além vida. Uma visão tão... Comum, simples.
O corpo de Marcos ainda não respondia ao seu próprio comando, mas ele se sentia um pouco melhor.
Uma senhora idosa vestida de branco coloca dois pratos de barro grandes em sua frente. Com um pouco de esforço Marcos consegue ver o conteúdo dos pratos. Um tinha carne de boi o outro de galinha. Oferendas? Para quem?
Marcos tentou pedir ajuda, mas mesmo que conseguisse falar de nada adiantaria, pois ele estava invisível.
Após algumas horas seu corpo começou a responder. A paralisia no rosto havia passado e seus movimentos pareciam estar se recuperando pouco a pouco. De início Marcos só conseguia mover os dedos das mãos e dos pés. Mas depois os braços responderam e em seguida o resto do corpo. Quando ele consegue finalmente ficar de pé um dia inteiro havia se passado.
- Garcia? - Seu guia demorou de responder ao seu chamado, por isso Marcos acreditou que estava sendo abandonado novamente.
- Estou aqui.
- O que é isso? - Perguntou Marcos. Apontando para o barraco e para os pratos de barro. - Eu morri? - Marcos se sentiu meio estupido por fazer aquela pergunta. Mas achava que naquela situação ela cabia de ser feita.
Garcia ri, não de modo debochado. Um sorriso meigo que não expressava humor, mas sim um pouco de sentimento de pena.
- Morreu. Mas não hoje, nem ontem. Já faz algum tempo.
Marcos entortou a cara, achando que dessa vez quem havia enlouquecido não era ele, mas sim seu guia espiritual ou amigo imaginário, naquele instante ele não sabia dizer qual definição era a mais correta.
- Em que ano você acha que estamos?
Marcos quase ri da pergunta que achou estúpida por ser tão obvia. Mas por algum motivo ele sentia um pouco de dificuldade em responder aquela pergunta. Após pensar por longos segundos ele veio com a resposta.
- 1982, é claro.
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- Eu perguntava Do You Wanna Dance.
A música que tocava na rádio do seu carro não era a do estilo que ele gostava, porém como o estilo que curtia não era popular era quase impossível escutá-lo em alguma estação. O jovem guardava no porta-luvas do seu carro fitas com músicas das bandas que curtia, mas a sua "adorável" avó materna as descobriu e as jogou todas fora. - Essas músicas são do capeta! - Dizia a velha.
Marcos nunca gostou muito da sua avó. Para piorar a saúde da velha era de ferro. Ele as vezes achava que "iria embora" antes dela. Pensava isso em tom de brincadeira, sem saber o quanto estava certo.
Marcos liga o seu fusca. Carro velho, precisou ser ligado umas três vezes até enfim pegar. Quando consegue o seu feito Marcos comemora como se tivesse ganho um prêmio na loteria.
Naquela época Marcos era diferente. Fisicamente não muito. A maior diferença era que à época as tatuagens ainda não eram presentes. Seus braços eram limpos como uma tela em branco. As roupas que usava eram comuns, nada a ver com o vermelho berrante.
Enquanto passeava nas ruas com seu fusca Marcos via pichado nas paredes de muros frases como "fora ditadura". Via pessoas nas ruas com camisas amarelas com frases do tipo: " Brasil rumo ao tetra".
Marcos até estava rápido, levando em conta o carro ruim que dirigia. Se dependesse dele nunca que iria sofrer um acidente. Porém, no trânsito não se depende apenas de si mesmo. Na direção oposta, na contramão, veio um carro envenenado.
Em seguida veio a colisão.
Logo após o fim.
Mas o fim que veio não foi assim tão fim.
Com sua forma astral presa ao corpo morto Marcos tinha a ilusão de que ainda estava vivo. Com terror acompanhou o próprio velório. Não entendia o porquê dos seus familiares estarem a sua volta sem fazerem nada além de chorar. - Estou muito mal. - Tentou gritar. - Alguém me consegue um médico?
Após a reza e o caminhar até o cemitério veio a parte mais difícil de suportar. A tampa do caixão foi fechada. Marcos sentiu medo e pânico mesmo não tendo mais adrenalina correndo em suas veias para estimular o sentimento.
Embaixo da terra, na escuridão, Marcos esperou. Esperou que algo acontecesse. Uma mudança que fosse. Não havia Paraíso, nem Inferno. Apenas o breu do interior do caixão. Sem esperanças, Marcos clamou. Não sabia bem a quem já que gostava de muitas religiões para escolher uma só.
Eis que alguém respondeu.
Marcos não estava mais preso, nem em seu corpo morto, nem no caixão. Havia sido teleportado até um lugar exótico e muito branco. Muito bonito inclusive. O Paraíso? Quase. Até você poderia o considerar como sendo um, a depender do modo a qual você foi criado.
Marcos estava na presença de seres gigantes e se sentia muito pequeno frente a eles. Doze figuras sentadas cada uma em um trono. Essas entidades representavam os elementos da natureza. Iansã, Oxalá, Yemanjá eram os nomes de alguns deles.
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Hoje.
Mignola olha para si mesmo. Não estava mais usando as roupas com as quais fora tirado de sua casa no dia anterior, que estavam sujas e fedendo a vômito. Vestia sua antiga roupa de trabalho. Uma blusa social vermelha acompanhada por uma gravata e um colete pretos. Na cabeça usava um chapéu moderno.
Marcos olha para suas roupas e para suas tatuagens. A mistura de sentimentos fez com que ele risse e chorasse ao mesmo tempo. Aquelas roupas, aquelas tatuagens... Aquele era o tipo de atitude que ele gostaria de ter tido em vida, mas que sua família nunca aprovaria. Marcos pensa em sua avó e tenta imaginar que reação ela teria se o visse daquele jeito.
- Parece que foi ontem. - Disse Marcos com muita nostalgia.
- O tempo passa de forma diferente para nós que... Você sabe.
Marcos ri, Garcia não entende o motivo da piada. O jovem explica: - No fim das contas Heitor tinha razão, eu sou mesmo um charlatão. Mesmo sem saber menti para todo mundo: nunca fui sensitivo, médium, profeta, nem nada do gênero. Nunca tive um dom especial. Eu sou só um morto.
- Não um morto qualquer. - Consertou Garcia. - Você pode aparecer para os vivos como se material ainda fosse. Você tem mais sensibilidade do que qualquer sensitivo humano. Você pode ver o futuro e influenciar o destino. Você é um guardião da meia noite, protetor das encruzilhadas.
O discurso serviu de incentivo. Mignola sai do barracão sem precisar usar a porta, pois havia se lembrado como era atravessar as paredes. Garcia o acompanhou.
Do lado de fora do terreiro os dois desencarnados olharam para o céu verde criado pelas novas criaturas que haviam invadido a cidade.
- Tem alguém mexendo na minha cidade. - Disse Marcos. - Esta na hora de expulsar esses invasores daqui. - Ele tira o chapéu da cabeça, limpa a poeira (imaginária) nele dando um tapa e o põe de volta.
- Finalmente uma atitude que presta, não é Marcos?
- Marcos não, Marcos Mignola morreu. O nome agora é Sete Riachos. O exú da cidade voltou.
