Alex não sabia o que esperar quando abriu a porta. Mas entre todas as coisas que ele não imaginava, a última da lista era ver Norma Bates parada à sua porta, olhos azuis como o céu no começo do outono cravados nos dele e bochechas rosadas pelo frio. Ele não estava preparado para isso.

Os dois ficaram parados ali, apenas se olhando. Um mundo de questões entre eles. Alex sabia que devia falar alguma coisa, mas foi como se de repente todas as palavras sumissem.

"Eu já me decidi", ela murmurou por fim, dando de ombros e olhando para ele com um silencioso pedido de desculpas.

Norma deixou a bolsa cair ao seu lado e correu para ele, jogando-se em seus braços e enlaçando-o pelo pescoço.
A surpresa deixou-o imóvel, sem reação, mas logo ela sentiu a tensão começar a deixá-lo e as mãos dele apoiarem-se confortavelmente em suas costas.

"Ainda amo você" ele pode sentir os lábios dela passando por seu pescoço com cada palavra. "Mais do que sou capaz de dizer. E eu nunca fui boa com isso, e acho que nunca vou ser. Mas eu sinto sua falta. E... Eu não sei. Algo aconteceu ontem quando vi você com aquela mulher e... Eu estou com medo, Alex. Estou apavorada, porque isso é diferente de tudo que eu já conheci e eu tenho medo de me envolver demais e me machucar porque uma hora tudo vai ser como antes. Porque toda vez que encontro algo que me faz feliz, isso é tirado de mim, mais cedo ou mais tarde. Mas acho que eu já me envolvi demais. Você tem razão, eu devia ter falado. Só... Por favor, pare de me dar o espaço que eu não quero."

Ele se afastou, segurando-a delicadamente pelos braços e olhando firme para ela.
"Só se parar de dizer coisas que não sente de verdade só pra me machucar."

"Feito."

"Eu falo sério, Norma."

"Eu também! Juro."

"Okay."

"Eu nem sempre digo o que estou sentindo, ou o que estou pensando. O problema não é com você, sou eu, é só que..."

"Eu sei. Sempre foi assim, não é?"

Ela concordou com a cabeça.

"Mas eu amo mesmo você. E eu o quero de volta, porque também preciso de você. Eu sinto muito. Sinto muito mesmo. Sei que isso não conserta as coisas, mas eu quero consertar as coisas. Quero fazer com que dê certo. Então... será que pode me perdoar?"

Alex procurou por sinais de que ela estivesse mentindo, ou apenas dizendo o que precisava para conseguir o que queria, mas não viu nada. Só sentiu sinceridade no olhar e na voz dela.

"Vem, entre. Vamos conversar."

Ele se afastou dela e pegou a bolsa que ficara do lado de fora da porta. Estava pesada.

"É uma mala bem grande" ele comentou.

"Bom, eu não gosto de ficar sozinha naquela casa, e você se recusa a voltar, então... Vou ficar aqui com você", ela explicou, no tom mais natural que conseguiu.

Ele virou-se sob o pretexto de colocar a bolsa sobre o sofá e deu um pequeno sorriso, então voltou-se novamente para ela avisando que iria para a cozinha. Norma o seguiu, parando na entrada do cômodo e olhando ao redor, rapidamente notando a tarefa em que ele estava investido quando ela chegou. Alex voltou à sua posição anterior à porta da geladeira e Norma se aproximou, inspecionando os conteúdos que ele estava dispensando.

"Alex, ainda está comendo essas coisas congeladas? Isso é horrível, e não é bom pra sua saúde."

"Quer parar com isso?" ele revirou os olhos.

"Só estou falando. Essas coisas são cheias de conservantes e todo o tipo de porcarias. Seria melhor se você só fizesse alguma coisa em casa", ela deu de ombros, fazendo uma careta para o restante das coisas que ele jogou no lixo.

"Eu não sou o melhor dos cozinheiros, e francamente, morando sozinho isso nunca me importou. Era sempre mais fácil ter algo pronto para ser esquentado. E em certos dias tudo que se precisa é só pedir alguma coisa e esperar pela entrega. Certos dias como hoje. Pedi comida mexicana, já deve estar chegando."

"Bom... Acho que é melhor do que essas coisas congeladas que você jogou fora. Vou ter que me certificar de que coma direito de agora em diante", ela lhe lançou um sorriso quase tímido, testando os limites, que Alex lhe retribuiu de maneira fraca, como se estivesse tentando não sorrir, não ter esperanças.
Ela sabia que ele ainda não tinha certeza de suas intenções, e a culpa era dela mesma. Sempre aprendera a não deixar que outras pessoas ocupassem um espaço grande demais em sua vida e, principalmente, em seu coração. A não deixar ninguém se aproximar demais. Era difícil se desfazer de velhos hábitos.

Antes que a conversa pudesse se aprofundar, no entanto, a campainha tocou e Alex saiu para atender, segurando os braços de Norma gentilmente ao passar por ela.
Após pagar e fechar a porta com os pacotes precariamente equilibrados nos braços, Alex se deparou com Norma de braços cruzados olhando para ele.

"Você tem uma campainha aqui? Desde quando?"

"Desde sempre."

"E por que sempre me deixou bater?"

"Você é inacreditável, Norma", ele comentou e dessa vez ela notou a leveza e o bom humor na voz dele. "Venha, vamos comer."

Eles voltaram para a cozinha onde Norma pegou pratos e talheres e arrumou a mesa, alegando que pelo menos podiam comer em uma mesa devidamente arrumada. Comeram em silêncio quase completo. No entanto, não era um silêncio pesado e desconfortável. Trocaram algumas amenidades, ambos evitando os tópicos pelos quais já passaram dezenas de vezes nos últimos dias.
Quase no fim da refeição, Alex decidiu ousar um pouco mais. Havia muito a ser resolvido, pelo menos era o que ele pensava, e, conhecendo Norma como conhecia, lançar todas as perguntas de uma vez a faria se esquivar e fugir de novo. Precisava começar aos poucos.

"Então... Quanto tempo está planejando ficar?" ele perguntou, tentando parecer casual e suave. Seu olhar procurando por alguma expressão de desconforto no rosto dela.

"Eu... Não sei ainda", ela respondeu devagar. Parecia estar pensando nas palavras. "Por quê? Você tem outros planos?"

"Não!" ele se apressou em responder, temendo que ela pensasse que não a queria lá. "Não, é só... Só queria saber."

"Tudo bem se eu ficar... Por muito tempo?"

"Pode ficar o tempo que quiser", a sombra de um sorriso apareceu no rosto dele, fazendo Norma sorrir também.

"Talvez... Acho que devíamos tentar de novo", ela disse, após mais alguns momentos de silêncio.
Alex levantou os olhos para ela interrogativamente mas não disse nada. Ela continuou, sabendo que ele só falaria alguma coisa depois de ouvir tudo o que ela tinha a dizer.

"Eu sei que não sou fácil. Mas... Não sei, tem algo diferente em você. Você me irrita profundamente. E também é a pessoa mais gentil que já conheci. Tudo que você fez por mim, e pelo Norman... E eu pensei que você merecia algo mais. Alguém melhor."

"Norma..."

"Não, só escute. Por favor. Eu já estava acostumada com as pessoas saindo da minha vida. Todos desistem de mim, mais cedo ou mais tarde, e eu não queria que acontecesse o mesmo com você. Então tentei desistir de você. Pensei que... Se eu o afastasse primeiro não iria me machucar. Mas a verdade é que me senti mal por isso. Não queria realmente deixá-lo ir. Eu sinto falta do Norman, mas... É diferente. Com você. Não quero desistir de você."

Quando terminou de falar, Norma tinha a respiração acelerada. Estava nervosa e torcia as mãos sob a mesa. Alex apenas continuou olhando para ela por um momento até ter certeza de que ela terminara. Digerindo a informação. Procurando o que responder.
Ele sabia que conversas honestas não eram algo fácil para a mulher frágil, insegura e de passado doloroso à frente dele. Coisas que pareciam triviais para qualquer outro, para ela requeriam um grande esforço.

"Eu jamais desistiria de você. Não assim. Não tão fácil. Pra ser honesto, você também me irrita profundamente, às vezes, com sua teimosia. E... Eu gosto disso. Não deixa meus dias serem tediosos", ele sorriu ao dizer a última parte. Genuinamente. Um sorriso que fez Norma relaxar um pouco.

"Mas..."

Sempre havia um 'mas'.

"Eu preciso que tente se lembrar que não sou como os outros. Também não sou o tipo de cara que vai dizer sempre aquilo que você quer ouvir. Eu te respeito o bastante para dizer o que realmente sinto. Eu te amo o bastante para ser honesto com você. Mesmo que me odeie por isso."

"Eu não quero que me diga só o que quero ouvir. Tudo que quero ouvir de você é a verdade. Como você sempre fez", ela suspirou antes de continuar. "Eu cometi muitos erros na minha vida, Alex. E odiaria cometer outro com você."

"Eu me odiaria se você me visse como um erro, Norma."

"Não! Você não é! Não é! Não foi o que quis dizer, não assim. É que... Eu estava com medo. Ninguém nunca me colocou em primeiro lugar antes. Eu só achei que estivesse fazendo isso por si mesmo."

"Norma..."

"Talvez... Talvez meu erro tenha sido deixá-lo."

"Você nunca me deixou. Não de verdade" ele confessou. "Acho que não consigo mais ficar longe de você."

Ao ouvir as palavras que deixaram os lábios dele, Norma não pode evitar o sorriso. Todos os medos e angústias sendo substituídos por alegria e contentamento. As nuvens negras começavam a dar lugar ao céu azul novamente.

"Sério?"

"Sim. Lamento desapontar. Está presa comigo, Sra. Romero."

Dessa vez ela não o corrigiu pelo apelido. O que fez foi levantar-se e ir até ele. Sem preâmbulos, sentou-se em seu colo e o beijou. Um beijo casto, mas intenso que ele retribuiu imediatamente. Norma sentiu as mãos dele deslizarem por suas costas, até o pescoço, depois descerem, apoiando-se em seus quadris, onde ele apertou gentilmente. Seus próprios dedos correram pelo cabelo macio dele, puxando-o mais para perto, abraçando-o quando ela quebrou o beijo e escondeu o rosto na curva de seu pescoço.

Era assustador o que sentia por ele; diferente de tudo que já sentira antes. Nem mesmo a paixão tórrida e quase selvagem que tivera com Sam no começo a fez sentir-se assim. Alex lhe oferecia calma e uma vaga ideia de estabilidade, algo que nunca existiu em sua vida. Ao mesmo tempo havia um certo ar de mistério ao redor dele, algo que atiçava sua curiosidade. Mas acima de tudo, dedicação. Alex Romero, ela sabia, lhe entregaria o mundo enrolado em papel brilhante com um grande laço se ela assim o pedisse. E, ao mesmo tempo que isso causava uma revoada de borboletas em seu estômago, também lhe dava medo. Medo de não atender as expectativas dele, de não ser o que ele esperava que ela fosse... Mas naquele momento, enquanto ele apenas a segurava, acariciava seus cabelos e se inclinava para pousar um beijo leve em sua têmpora, ela entendeu que tudo que ele esperava é que ela fosse ela mesma. E ela o amou um pouco mais por isso.

Ela levantou o rosto para olhá-lo nos olhos. Grandes e belos olhos castanhos que ela aprendeu a associar com segurança.

"Devíamos jogar essas caixas fora e limpar a sua cozinha", sussurrou.

"É, acho que devíamos", ele concordou.

E no instante seguinte ela pulou de seu colo dedicando-se à tarefa em questão como se sempre tivessem feito isso, como se não tivessem acabado de ter uma das conversas mais profundas e significativas de seu curto relacionamento. Não levaram muito tempo para limpar tudo, e logo Norma estava dobrando o pano de pratos e depositando-o sobre a pia antes de virar-se e se deparar com Alex parado ali, olhando para ela.

"O que foi?"

"Nada. Só... Gosto de vê-la aqui."

Ela sorriu, aproximando-se e estendendo a mão para trazê-lo mais perto num abraço.

"E eu gosto de estar aqui", ela sussurrou. "Mas precisamos fazer compras amanhã. Vou garantir que tenha comida de verdade nessa casa."

Ele riu, abraçando-a mais forte. Quase podia esquecer que os últimos dias não aconteceram. Quase. No entanto, apesar de tudo ser ainda muito recente, ele sabia que seriam capazes de superar. Então desligou as luzes e a levou para a sala. A mala que ela carregava ao chegar não estava mais lá. Ele a levara para o quarto enquanto ela terminava a cozinha. Acomodaram-se para assistir à televisão, Norma encostada ao lado dele. Não muito tempo depois ele notou que ela adormecera e a carregou para a cama. Retirou seus sapatos e o casaco, e ela acordou apenas o bastante para ajudá-lo com o resto das roupas, ficando apenas de lingerie, num gesto quase inconsciente.

Depois de se arrumar para dormir, permanecendo de camiseta para não correr o risco de deixá-la desconfortável, Alex se enfiou entre as cobertas, mantendo uma certa distância entre seus corpos. Porém, logo sentiu os dedos dela procurarem os seus, e ela puxou o braço dele ao redor de sua cintura, enlaçando seus dedos e, com um suspiro, voltou a dormir. Alex se acomodou melhor, pousando um beijo muito leve em seu ombro e sentiu o corpo relaxar contra o dela e o sono começou a tomar conta dele. Aquela noite ele não precisaria de nada para fazê-lo adormecer. Não precisaria da bebida, ou de comprimidos, nem teria um sono agitado e sem descanso. Aquela noite, a esperança e o amor da mulher em seus braços eram o único calmante de que ele precisava.