Capítulo 6
Garotos
"Seus olhos e seus olhares
Milhares de tentações
Meninas são tão mulheres
Seus truques e confusões..."
- Vocês não amam esse clima de primeiro dia de aula? – perguntou Rose, durante o café-da-manhã. Lily, que passava geléia distraidamente em sua torrada, ergueu os olhos e fitou Bridget de soslaio. Esta franziu a testa, parecendo incerta quanto ao que dizer.
- Acho normal – falaram as duas, em uníssono. Rose sorriu animada e deu de ombros.
- Deve ser nostalgia antecipada de veterana.
Hugo chegou logo depois, jogou a mochila ao lado da cadeira da irmã e sentou-se ao seu lado.
- Bom dia – disse ele indiferentemente às três meninas – Estamos falando de quê?
- De como é empolgante o primeiro dia de aula – respondeu Rose, ajeitando a gravata do irmão. Hugo sempre a reprimia quanto a tocá-lo sem aviso prévio daquela forma, quando estava no primeiro ano e não queria parecer um deficiente metal que precisava dos cuidados da irmã;mas depois de tanto tempo submetido às manias de Rose, não se irritava mais.
- Acho normal – respondeu ele, mais focado em colocar no prato tudo o que via a frente do que em olhá-la.
A menina deu um meio-sorriso e olhou disfarçadamente ao redor da mesa. Albus estava a alguns metros de distância do grupo, sentado junto de seus colegas de quarto. Ela se perguntava se ele também estaria pensando sobre como aquele seria o último primeiro dia de aula deles em Hogwarts e se o garoto também se perguntava como a prima estaria se sentindo naquele momento. Percebeu que os meninos que estavam junto de Albus conversavam entre si e riam alegremente, mas ele parecia muito distante dali. Estava visivelmente entediado.
- Bom dia, flor do dia.
Rose olhou por cima do ombro e sorriu ao deparar-se com Scorpius parado logo atrás dela. Ele lhe deu um beijo antes receber uma resposta, mas Hugo cortou-os prontamente.
- Credo – disse ele, largando sua torrada no prato, com uma careta. – Olha só, não tenho nada contra o namoro de vocês, acho muito legal, realmente, porém dispenso essa imagem logo na hora do meu café-da-manhã.
Lily riu, divertida.
- Adoro como o Hugo fica parecido com o tio Ron quando está com ciúmes – falou. Scorpius sorriu com malícia.
- Tudo bem, acho que posso respeitar sua vontade – disse. – Mas quando você não estiver por perto...
- Não termine essa frase – avisou Hugo, apontando uma faca de manteiga para o rapaz. – Eu não quero ter que fazer... o que eu estou prestes a fazer, Malfoy.
- Certo. Vou para a minha mesa, antes que o seu irmão me mate com essa faca de manteiga – zombou Scorpius, afastando a faca de si. – Nós temos dois horários juntos hoje, então te vejo mais tarde, ok?
- Sim – respondeu Rose, sorrindo. - Já estou com saudades.
- Aposto como eu já estou com mais saudades.
- Blá, blá, blá – imitou Hugo, levemente irritado.
As três garotas gargalharam.
- Isso é só para ele saber que eu estou de olho, Rosie – disse ele, indicando um de seus olhos e tentando soar ameaçador. – Sempre alerta.
- Certo. Obrigada por defender a minha honra. – A mais velha deu-lhe um beijo na bochecha.
Lily e Bridget ficaram a provocar o garoto, quando uma garota de olhos puxados e gravata azul, sentou-se ao lado de Rose, na cadeira vazia que estava ao lado dela.
- Então, você e Scorpius, Rose? – perguntou ela, sorridente. Rose sorriu de volta, mas Lily fechou a cara no exato momento em que a menina se aproximou do grupo.
- É, nós estamos juntos há algum tempo, na verdade.
Maeve Corner abriu um sorriso, com ar de surpresa.
- Sabe que eu sempre achei que rolava algo?
- É incrível como sempre que alguém está feliz, vem outro alguém atrás de fofocas para estragar tudo – falou Lily, ríspida.
Maeve olhou para a menina, ofendida.
- Eu só vim desejar...
- Sim, sim, conhecemos esse papo. Acho que você errou de mesa, sabe? A da Corvinal é mais para lá.
A "intrusa" endureceu sua expressão outrora sorridente.
- Eu já estava de saída, Lily. – Ela se levantou, de queixo erguido. – Até a aula de Feitiços, Rose.
- Até. E obrigada – respondeu a ruiva, com um sorriso sem-graça.
Rose, Hugo e Bridget olharam-se entre si e depois, olharam para Lily.
- Por que você fez isso? – perguntou Bridget, confusa.
- Lily detesta Maeve Corner, porque ela é filha de Cho Chang e Michael Corner – disse Hugo, balançando a cabeça como se achasse tudo aquilo uma infantilidade.
- Eu só estava defendendo a Rose dos possíveis boatos que pessoas ruins como ela fazem.
- Na verdade, Maeve é legal. Ano passado, Albus e eu montamos aquele grupo de estudos, lembra? – Lily fez que sim. – Pois é, ela também fazia parte e me ajudou muito com Aritmancia. Não que eu tivesse grandes dificuldades, mas...
- Então vocês são amiguinhas? – Lily interrompeu a prima, incrédula.
- Bem, não somos melhores amigas, mas...
- Traidora.
- O quê?
- É isso mesmo. – Ela estreitou os olhos, desafiadora. - Ela é filha de uma mulher que namorou o meu pai com um homem que namorou a minha mãe. Poderia ser pior?
Rose olhou para o irmão, pedindo ajuda. Hugo disse:
- Isso foi há uns vinte anos atrás – argumentou ele. – Não acho que a sua mãe ainda tenha raiva da mãe dela e nem que o seu pai tenha raiva do pai dela ou algo do gênero.
- Ah, é? – contrapôs Lily. – E como você se sentiria se eu fizesse um grupinho de estudos qualquer com Aiden Kettle? – A menina pronunciou vagarosamente as duas últimas palavras. – Ele é filho de Lavender Brown, ex-namorada do seu pai, caso você não saiba.
Hugo levantou os olhos zombeteiramente, como se refletisse arduamente sobre o assunto.
- Eu acho que realmente não daria a mínima. – Ele deu de ombros, sarcástico.
- Ah, é? Pois é isso que nós vamos fazer, não é, Bridget?
Bridget franziu o cenho.
- Mas ele está no segundo ano – respondeu.
- Seria amargamente pouco proveitoso para você – disse Hugo, com um sorriso debochado
- Sabe, você não está nada amável hoje. – Lily se levantou e apanhou sua mochila do chão. – Nem nos últimos dias, diga-se de passagem. Vou indo, não gosto de chegar atrasada e nem de ficar perto do Hugo quando ele acorda menstruado. Você vem, Bridget?
- Depois.
Pelo olhar da amiga, Lily percebeu que aquela era sua deixa. Rose, porém, não teve toda essa perspicácia.
- Tudo bem, a Rose me acompanha.
Rose desviou os olhos de seu prato.
- Você não estava brava comigo?
- Já passou. O tempo faz milagres, sabe como é. Vamos. – Lily a puxou pela mão.
- Mas eu quero mais uma torrada!
- Você come no caminho.
Rose se levantou de má vontade. Colocou a mochila nas costas e apanhou mais uma torrada antes de se afastar junto da prima.
- Sem geléia é horrível. Não entendi essa sua...
- Bridget e Hugo.
- "Bridget e Hugo" o que? – Rose mordiscou um pedaço de torrada pura e fez uma careta.
- Bridget gosta dele.
Rose fitou-a demoradamente.
- Como assim?
- A minha amiga Bridget gosta do seu irmão Hugo. Entendeu? – Lily olhou em volta quando saíram do Salão Principal, temendo que alguém ouvisse. - Bridget ama Hugo.
- E, até onde eu sei, Hugo ama Lily.
A estreitou os olhos para a prima, como se esta houvesse acabado de dar-lhe um tapa na cara.
- Dá para ficar quieta?
- É a verdade! Hugo não gosta dela e todos sabemos disso.
Lily suspirou, sentindo seu remorso se manifestar novamente.
- Sempre existe uma chance das coisas mudarem.
- Bem, você sabe o que dizem, não?
- Quem diz o que?
Rose, que estava terminando de engolir sua torrada, lançou um olhar provocador à prima e respondeu:
- Dizem que amor de primo nunca acaba.
Automaticamente, Lily deu um tapa no braço de Rose.
- Ai! – exclamou a mais velha, esfregando o antebraço. – Não fui eu quem criei essa frase. E, se foi criada, tem alguma fundo de verdade, ok?
- Não diga essas coisas. Hugo é como um irmão para mim. Eu não sei como ele, algum dia, nos imaginou como algo além disso.
Rose ficou em silêncio, decidindo evitar qualquer discussão. Lily, porém, prosseguiu:
- Ultimamente nós andamos afastados. Ele fala de mim, Rosie?
A garota hesitou.
- Fala. Mas, do mesmo jeito que eu não contei o seu segredinho para meu irmão ou para seus irmãos, não posso falar dos dele para você. Entende?
Conformada, Lily meneou a cabeça.
- Perfeitamente.
Ao mencionar o segredo de Lily, Rose lembrou-se repentinamente da conversa que tivera com Scorpius na noite anterior. A mesma aflição que daquela hora voltou a apertar sua garganta.
- Lily, mais tarde, queria falar com você sobre Vincent – disse, ao chegarem em frente à sala onde Lily teria sua primeira aula. – É uma coisa séria.
A menina deu um riso debochado.
- Eu até já sei do que se trata, Rose. Mas tudo bem, falaremos disso. – Ela mandou um beijo no ar para a prima e foi sentar-se na frente da sala.
Rose ficou parada por alguns segundos, olhando preocupada enquanto Lily cumprimentava seus amigos, alheia a qualquer coisa a que poderia estar se expondo. Depois, seguiu para a própria sala.
Apesar de cansado, Albus admirava o esforço que Patrick fazia para que ele se sentisse parte do grupo. Sempre que os outros três começavam a falar sobre algum assunto do qual o garoto não fazia idéia do que se tratava, este explicava a situação do começo ao fim, para que o novato não se sentisse por fora de nada. Na verdade, seu interesse era o mesmo que o peso de um grão de areia, mas se esforçava para ser gentil.
O assunto havia poucos instantes, voltara para Natalie Finnigan, a ex-namorada de quem Patrick tanto falava mal, mas claramente ainda sentia falta.
- Olha lá. – Ele indicou com a cabeça alguém na mesa da Lufa-Lufa, mas Albus não se virou para olhar. Estava muito concentrado em comer seu omelete. – Toda contente, conversando com os amigos e com aquele maldito David. Aposto que ela faz isso porque sabe que eu sempre tive ciúmes dele. Como se eu fosse me importar agora...
- E de qual garota Natalie tinha ciúmes? – perguntou Duane. – Você pode fazer a mesma coisa que ela está fazendo com você, sabia?
Albus se conteve para não revirar os olhos e dizer que aquela era a atitude mais infantil que ele poderia tomar e que só faria Natalie ter mais certeza de que deixá-lo fora a melhor decisão.
- Natalie não tinha ciúmes de ninguém – respondeu Patrick. – Ela até usou isso como argumento quando nós terminamos. Disse que ela não implicava com as minhas amigas, então eu não tinha que implicar com os amigos dela.
- Foi melhor assim.
Pela primeira vez naquela manhã, Albus abriu a boca para falar algo realmente substancial. Os quatro o fitaram com estranheza. Brandon, que desde o começo não se esforçava para esconder seu desgosto pela presença de Albus entre eles, suspirou e balançou a cabeça em sinal de censura.
- Por que você está dizendo isso? – perguntou Zachary, confuso.
Albus baixou os talheres calmamente, como se estivesse prestes a dar uma explicação banal a um grupo de crianças.
- Pelo que você disse, Patrick, essa Natalie não te dava a importância que uma namorada costuma dar a um namorado. Então, por que insistir em uma coisa sem futuro?
Aquelas foram as palavras de James para Albus, quando este estava perdidamente apaixonado por Bevin Theobald, uma das colegas de quarto de Rose. A menina não dava a mínima para as flores, chocolates, cartas românticas e todas as outras coisas que ele achava que faziam uma garota cair aos pés de um garoto. Bevin fora uma experiência levemente traumática, mas o deixara bem mais sóbrio em relação a namoros. O que Albus dissera a Patrick parecia óbvio para si agora, mas não fora tão óbvio para seu colega em relação a Natalie, do mesmo jeito que não fora quando Bevin disse que "o problema era ela, não ele".
- É – disse Jacob, finalmente. – Acho que você tem uma certa razão.
- Se tenho – disse Albus, ligeiramente pomposo. - Já tive uma experiência parecida.
- Sério? – Patrick pareceu muito animado em não ser o único com um coração partido por ali. – Com quem?
- Bevin Theobald. Sabe?
- Ah, claro. A lorinha, não é? – Ele indicou discretamente com a cabeça o lugar da mesa onde Bevin tomava seu café da manhã em companhia das amigas e Albus concordou. - Mas o que foi que aconteceu?
Albus consultou o relógio. Não havia tempo para a história inteira, embora ele estivesse inexplicavelmente animado com a possibilidade de poder passar sua experiência adiante.
- Posso contar para você no caminho da aula de Transfiguração? – perguntou ele, enquanto se levantava e pegava sua mochila do chão.
- Sim, sim. – Patrick fez o mesmo. – Vocês vêm conosco?
Duane parecia prestes a levantar, mas Brandon cortou-o na mesma hora.
- Não. Vão na frente.
Enquanto se encaminhava para a saída junto com Patrick, Albus sentiu o olhar raivoso de Brandon pesando sobre si. Tinha a leve desconfiança de que o garoto não estava gostando da forma como Patrick estava se aproximando dele e isso estava criando um leve atrito entre os dois. Ele sentia muito, mas não estava nem aí. Não estava tentando fazer parte do grupo ou roubar o melhor amigo de ninguém, apenas não queria andar por Hogwarts sozinho como um perdedor. Além do que, as pessoas logo reparariam que Scorpius e Rose estavam juntos como um casal e que ele não mais andava grudado com os dois. Isso criaria o maior falatório, então estar acompanhado já era de grande ajuda para se manter distante das perguntas indiscretas.
- Você e Bevin já namoraram? – perguntou Patrick, enquanto andavam. – Juro que não me lembro de já ter visto vocês dois juntos.
- Bevin não gostava de demonstrações públicas de afeto – explicou Albus. – Eu morria de medo de chegar nela, mas Rose me ajudou muito.
Ele deu um ligeiro sorriso, lembrando-se de tudo o que a prima fizera para ajudá-lo.
- Enfim – continuou -, o problema era que Bevin gostava de mim, mas não tanto o quanto eu gostava dela. Quando eu disse "eu te amo" pela primeira vez, sabe o que ela respondeu?
- O que?
- Ela disse: "Obrigada".
Patrick fez uma careta de desagrado.
- A palavra que qualquer apaixonado morre de medo de ouvir.
- Pois é. – Albus suspirou. – Acabou que eu tentei ficar com ela por mais algum tempo, mesmo com James, Rose e Scorpius me aconselhando a dar um fim àquilo. Sabe quando você se agarra a todas as esperanças possíveis?
- Sei! – respondeu Patrick, parecendo feliz por encontrar alguém que já estivera em seu lugar. – Por quanto tempo mais você ficou com ela depois do que aconteceu?
- Uns dois meses. Foi só quando o James me disse aquilo que eu falei a você agora há pouco que eu resolvi dar um ultimato.
- E você terminou com ela?
Albus suspirou.
- Digamos que o rompimento aconteceu em comum acordo, embora ela parecesse bem aliviada em se livrar do trabalho de romper comigo.
Patrick suspirou pesarosamente, em solidariedade a Albus.
- Que péssimo.
- Acabou sendo bom. Fiquei mais...
Ele parou por alguns segundos, procurando a palavra certa.
- Inteligente? – falou Patrick, jocoso.
- É, acho que sim. – Albus também riu, porque de fato, era verdade. Ele se sentia patético quando pensava em como agira diante do desprezo de Bevin. – Depois dela, nem tentei namorar mais ninguém.
- Por medo?
- Também. No fim das contas, dá muito trabalho se apaixonar, então eu nem me esforço.
Ficaram alguns instantes em silêncio, o que foi um milagre, visto que ele estava ao lado de Patrick Larkins. Na verdade, parecia que ele acordara bem mais agradável e conhecê-lo de perto não era tão ruim. Talvez, Albus pensou, tivesse apenas julgado Patrick durante um mau momento.
Sua mente começou a repassar sua fracassada vida amorosa "pós-Bevin". Ele nunca dava certo com garota nenhuma porque não nem por um instante querer se envolver com elas. E, ao contrário do que alguns achavam, não era por ainda sentir algo por Bevin. Na verdade, à medida que o tempo foi passando, após o término, eles passaram a se tratar como meros desconhecidos, daqueles que nem se olhavam quando passavam um pelo outro, no corredor. Só não estava procurando mais "dramas femininos" para sua vida.
- AI!
Ao virar o corredor, Albus topou com toda força em alguém. A exclamação viera de uma voz feminina, mas ele não viu imediatamente quem era, porque estava de olhos fechados, massageando a testa.
- Natalie! – falou Patrick. – Olhe por onde anda!
- Olhe por onde anda? – Albus abriu os olhos e olhou para a dona da voz. – Foi o idiota do seu amigo quem veio a toda velocidade e esbarrou em mim!
Então aquela era Natalie.
- Bem, talvez você estivesse muito distraída pensando no seu amigo David, não?
Albus ficou estupefato com a beleza dela por alguns instantes. Não sabia como deixara que ela passasse despercebida antes.
- Você é mesmo doente, Patrick! – gritou a menina. – Já cansei de repetir que David é meu primo!
- Em segundo grau, oras!
- Continua sendo nojento!
- Já está tudo bem. Entre mortos e feridos, nos salvamos todos, não é? – Albus abaixou para pegar os livros e aproveitou para olhar discretamente as pernas de Natalie. Sorriu pelo canto da boca: adorava pernas longas e finas.
Devolveu os materiais da menina e olhou fixamente para o seu rosto. Natalie Finnigan pareceu fazer o mesmo, ao olhá-lo de perto. Foram alguns milésimos de segundos, pois Natalie logo se recompôs. Jogou os longos cabelos castanhos para trás, empinou o nariz e disse:
- Obrigada, Albus.
Ela saiu pisando duro e sem olhar para trás.
- Passar bem! – gritou Patrick, irritado.
Albus seguiu o caminho para a sala de aula, olhando por cima de seu ombro enquanto a lufa caminhava para o lado oposto ao deles. Patrick estava tão absorto em xingá-la que nem percebeu.
- Viu como ela é? – perguntou o rapaz, exasperado.
Albus abaixou a cabeça e deu um sorriso discreto.
- Vi.
- Como foram suas férias?
Bridget resolveu quebrar o silêncio, enquanto Hugo a acompanhava até sua sala de aula. Ele ficou em silêncio por alguns instantes, porque realmente não sabia o que dizer. Havia acontecido tanta coisa em algumas poucas semanas que as definições de "ruins" e "estranhas" já se misturavam um pouco.
- Foram bem incomuns. – respondeu. – Quer dizer, minha tia está grávida, o que é uma coisa boa. Mas meu primo James ficou doido, Albus e Rose brigaram feio, Lily está misteriosa e ninguém me conta nada; mas antes de tudo isso, nós viajamos para Brighton e foi legal. O problema foi que depois de duas semanas de praia, tudo desandou.
Bridget riu.
- Que pena que Brighton trouxe azar.
- Pena mesmo. É uma cidade tão bonita – respondeu ele, em tom zombeteiro.
Ficaram alguns instantes em silêncio, novamente. Quando chegaram à porta da sala onde Bridget teria sua primeira aula do dia, ela disse:
- Hugo, fiquei em dúvida se deveria fazer isso, mas Lily me aconselhou a ir em frente.
Ele franziu o cenho. Se vinha de Lily, já desconfiava do que poderia se tratar.
- Então, vá em frente.
- Ok. – Bridget tomou fôlego, torcendo os dedos. – Eu queria saber se nós podíamos sair juntos, na próxima visita a Hogsmeade.
Hugo abriu e fechou a boca algumas vezes, como um peixe fora d'água. Sabia que estava ridículo fazendo aquilo, mas Bridget ainda esperava a resposta, esperançosa, e ele não sabia como decepcioná-la sem transparecer que iria decepcioná-la.
- Brid, gosto muito de você, mas...
- Certo. Lá vem o "mas" – disse ela, baixando os olhos.
Ele deu um meio-sorriso, constrangido.
– Não é um bom momento agora, entende?
Ela o olhou firmemente e Hugo teve certeza de que sua amiga não entendia, porém, a menina sorriu e confirmou com a cabeça.
- Entendo.
O silêncio constrangedor se pôs entre os dois novamente.
- Bem, vou entrando – disse ela. – Obrigada por me acompanhar.
- Sem problemas. A gente se vê mais tarde?
Bridget se virou brevemente e sorriu de novo, mas não respondeu.
Hugo seguiu sozinho pelo corredor, se sentindo maior fracassado do mundo. Afinal, o que o impedia de sair com Bridget? Suas esperanças doentias de algum dia namorar sua própria prima?
- Perdedor – falou para si mesmo, enquanto jogava sua mochila sobre a carteira da sala.
James estava tendo um sonho particularmente interessante envolvendo Brighton, garotas e biquínis, quando o despertador disparou a soar sua música preferida em altos brados.
- O quê? – disse ele, com a cabeça afundada no travesseiro. Quando conseguiu achar o botão para desligá-lo e se virou de lado para dormir, sua mãe adentrou o quarto sem cerimônia e o chamou:
- Jamie?
Decidiu fingir que continuava dormindo e que aquela era uma parte especialmente incômoda de seu sonho. A voz, porém, voltou com a intensidade da fúria de uma mulher grávida.
- JAMES!
Dessa vez ele ergueu a cabeça e se virou para a porta, onde sua mãe estava parada com uma xícara de café nas mãos.
- Você não pode beber isso – avisou ele prontamente, embora sonolento. – Cafeína não faz bem para grávidas, Rose me disse.
Ginny riu e foi até ele. Sentou-se na beirada da cama. James pegou a xícara fumegante de café de suas mãos e bebeu um grande gole, mal suportando o sono.
- Rose é muito fofa, por ter lembrado você de me dizer isso. Mas pode deixar, já fiquei grávida três vezes.
James riu.
- É verdade – concordou ele. – É o sono.
Ginny levantou-se.
- Não demore a se arrumar. Sua tia tem muito o que fazer no Ministério, e o dia lá começa cedo.
- Certo.
James levantou-se e se espreguiçou demoradamente. Estava desacostumado a acordar tão cedo desde Hogwarts. Trabalhando na Gemialidades, só começava o expediente às nove horas, então acordava às oito sem dificuldade alguma. No dia anterior, porém, decidira aceitar o convite de sua tia de conhecer seu trabalho no Departamento de Execução de Leis Mágicas. Seu pai já lhe avisara que lá, o dia não seria nada calmo.
- Eles correm bastante – disse Harry. – Especialmente sua tia, que manda em um monte de gente. Tomara que você consiga acompanhar.
James não achou o comentário nada animador, mas decidiu ir, do mesmo jeito. E, como sua tia ia para o trabalho as sete, sua mãe lhe avisara que teria que acordar às seis.
Após terminar seu café, tomou um banho, e vestiu um terno, do jeito que seu pai vestia todos os dias. Na loja, trabalhava de blusa e calça jeans, apenas com um crachá com a palavra: "FUNCIONÁRIO". Quando ele se via em roupas sociais, como naquela ocasião, sentia-se ligeiramente ridículo.
- Que droga – disse ele, se olhando no espelho. Fizera um nó desleixado na gravata, com o qual, tinha certeza, sua mãe implicaria quando ele descesse.
Exatamente, como imaginara, antes mesmo de terminar de descer os degraus, Ginny exclamou:
- Você vai assim?
James suspirou, enquanto ela apertava a gravata em seu pescoço.
- Estou de terno. Foi o que vocês me disseram pra vestir.
- Mas sem pentear os cabelos?
James passou as mãos pela cabeça, tentando inutilmente abaixar os fios.
- Eu juro que penteei.
- Culpe a genética – disse Harry, que estava tentando ajeitar o próprio cabelo em frente ao espelho da sala.
James se sentou à mesa para tomar o café-da-manhã. Sentia-se meio sufocado pela gravata, porém, imaginava, era a falta de costume. Em Hogwarts, apenas andava com ela em volta do pescoço, sem nunca amarrar direito.
- Está animado? – perguntou Harry, sentando-se ao lado do filho.
- Estou – disse ele, embora sem muita convicção. Quando era pequeno, James imaginava que o trabalho de sua tia Hermione fosse apenas para pessoas altamente inteligentes, bem articuladas e argumentativas como ela, embora não conhecesse todas essas palavras na época. Agora, aos dezessete anos, continuava achando a mesma coisa e pensava também que ficar numa mesa, bolando e estudando leis não tinha nada a ver com ele.
James terminou de se arrumar e escreveu um breve bilhete para Joy, explicando que não poderia se encontrar com ela na Coffe Shop naquele dia e perguntando se ela não gostaria de encontrá-lo no Ministério e almoçar com ele. Joy fora seu primeiro pensamento ao acordar, não só naquele dia, mas em todos os outros anteriores. Isso o incomodava cada vez mais. Isso e o fato de que o ponto alto de sua rotina era encontrá-la no fim da tarde. Baseando-se em experiências anteriores, James achava que quando uma garota passava a ser o ponto alto do seu dia, você estava encrencado.
Mandou o bilhete amarrado à perna da coruja de seus tios, pois, num lapso de consciência, deixara Lily e Albus levarem Kalliope para Hogwarts. Logo depois saiu, rumando para a casa da frente. Sua tia estava saindo pela porta quando ele chegou.
- Ah! Bom dia, querido! – disse ela, guardando as chaves em sua bolsa.
- Bom dia, tia – respondeu ele, contendo um bocejo.
– Já estava indo te chamar. Vamos?
- Vamos.
Os dois desaparataram juntos para o Ministério da Magia.
- Eu realmente gostaria de receber o calendário logo, sabe.
Bridget revirou os olhos ao ouvir Lily dizer aquilo pela quinta vez, durante o terceiro tempo de aula.
- Por que você está tão doida para saber das provas e trabalhos que teremos que entregar? Ou dos N.O.M's dificílimos que teremos que fazer?
- Quero saber quando será a próxima visita a Hogsmeade – respondeu a menina, automaticamente. Logo depois, se arrependeu. Bridget era desconfiada e começaria a fazer mil perguntas.
Fingiu que estava prestando atenção na aula de História da Magia, ao sentir o olhar curioso da amiga pesando sobre si.
- Por que essa ansiedade toda? – indagou ela.
- Ah... – Lily fingiu desinteresse. – Sei lá, quero comprar uns chocolates na Dedosdemel.
Bridget franziu a testa, descrente do que a amiga dissera.
- Que coisa estranha. Se tudo isso é por causa dos chocolates, eu tenho um na mochila.
- Não precisa, obrigada. Tem que ser os da Dedosdemel.
- Hum... Certo.
Lily não conseguia escutar uma palavra sequer do que dizia o professor, embora soubesse que realmente precisava daquela matéria para os N.O.M.'s. Sua mão estava prestes a escorregar para a mochila para pegar a última carta de Vincent, mas não podia com Bridget ali do lado.
- Nós podíamos fazer um grupo de estudos para os N.O.M's, como o que Albus e Rose fizeram, sabe? – falou a morena, aparentemente já esquecida do assunto anterior. – Parece ser muito útil e, além do mais, nos deixa bem vistas pelos professores.
Ela riu e Lily deu um breve sorriso, não tendo escutado realmente o que a garota dissera.
- Concordo – respondeu.
Esforçando-se ao máximo para desviar sua mente de Vincent, abriu um pergaminho e começou a copiar o que estava no quadro negro.
Algumas salas adiante, os setimanistas da Sonserina e da Grifinória se juntavam para uma aula dupla de Feitiços.
Rose e Scorpius já haviam se tornado o assunto mais comentado da escola. Alguns demonstravam aprovação, outros, apenas comentários maldosos. A ausência de Albus entre os dois já havia sido notada, também. Os boatos que surgiam agora eram os de eu Albus era apaixonado pela prima e fora traído pelo melhor amigo.
- Acho que essas pessoas estão lendo romances demais - falou Patrick ao amigo, ao escutar Sage Harris e Lucy Timothy, da Grifinória, dizerem aquilo alto o suficiente para que Albus ouvisse.
Este, porém, não deixou por menos. Virou-se para as meninas e retrucou:
- Seria ótimo se vocês cuidassem mais da própria vida e menos da vida alheia.
As duas olharam-no ofendidas, mas ele deu as costas, indiferente. Sage ficou tão brava que convenceu Lucy a mudar de lugar.
- Uau – exclamou Patrick, enquanto praticava seu feitiço desilusório. – Elas te ofenderam, mesmo, hein?
- Dizer que eu sou apaixonado pela minha prima é demais – disse Albus, apanhando sua varinha furiosamente.
- Afinal, o que foi que realmente aconteceu? – Patrick olhou-o cauteloso, parecendo preocupado em irritar o colega ainda mais.
- Como assim? – indagou Albus, fingindo estar concentrado em seu livro de Feitiços.
- Queria saber por que você brigou com eles. Não que eu me importe com essa sua aproximação repentina, mas quando alguém lança uma indireta sobre Rose ou Scorpius, você muda de assunto num piscar de olhos.
Albus suspirou. Não estava certo se gostaria realmente de entrar naquele assunto depois de tê-lo discutido tantas vezes com Hugo e chegado a conclusão nenhuma.
- Sem ofensa, Patrick, mas não acho que seja uma idéia muito boa.
Patrick meneou a cabeça.
- Entendo. Mas prometo que não vou te julgar, se for esse o seu medo. Afinal, não preciso defender Rose e Scorpius.
Albus hesitou um pouco, mas resolveu dar uma chance a Patrick. Ele parecia disposto a ouvi-lo sem maiores compromissos ou intenção de ficar aconselhando-o.
- Scorpius é meu melhor amigo desde que entrei em Hogwarts. Nossa amizade começou de um jeito estranho, mas acabou vingando, contra todas as probabilidades. E há um ano está acontecendo uma coisa importante na vida dele, como namorar a minha prima e os dois simplesmente escondem isso de mim.
Ele deu uma olhada rápida em Patrick e este lançou-lhe um olhar encorajador.
- A Rose é... bem, não posso defini-la só como melhor amiga. Ela é da minha família, eu confiaria a minha vida a ela. Sempre fomos muito unidos, desde pequenos. E a amizade dela com o Scorpius foi uma conseqüência da minha amizade com ele. Sem "Albus e Scorpius" ou sem "Albus e Rose", não haveria "Albus, Scorpius e Rose".
Patrick fez um gesto de entendimento, como se finalmente tivesse captado o que Albus queria dizer.
- Você acha que, agora, eles irão se tornar "Scorpius e Rose" e você será "só o Albus", não é? – indagou ele.
Albus admitia que ainda não havia visto as coisas por aquele ângulo. E agora que via, sentia-se uma criança mimada e ciumeta.
- Talvez... Talvez seja isso – respondeu, envergonhado.
- Albus, posso dar uma opinião sincera, sem maiores julgamentos? – perguntou Patrick. Albus fez que sim. – Se você confia tudo ao Scorpius e colocaria sua vida nas mãos da Rose, acho que eles não são o tipo de gente que deixaria você para trás em hipótese alguma.
Albus olhou para o casal sentado do lado da sala oposto ao dele e suspirou.
- Mas por que eles me esconderam o namoro deles por tanto tempo?
- Talvez eles conheçam você a ponto de saber que você se sentiria "só o Albus".
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, enquanto o professor passava em frente à mesa e observava o andamento do trabalho. Quando o homem saiu, Albus logo falou:
- Você é bom mesmo nesse negócio de aconselhar.
Patrick riu.
- Obrigado. Você acha que agora pode fazer as pazes com eles?
- É algo a se pensar – respondeu, com uma ponta de orgulho.
Do outro lado da sala, a uma certa distância de Albus, Scorpius e Rose praticavam juntos seu feitiço desilusório. Rose tentava fazer com que Scorpius segurasse corretamente sua varinha, pois o resultado de seu feitiço estava seriamente duvidoso.
- Sabe, parece que ele acabou por gostar mesmo do Patrick – disse Scorpius, quase conseguindo que sua caixa se confundisse com a parede. Rose olhou-o estranhamente, sentindo uma ponta de ciúmes na voz do rapaz.
- Isso te incomoda? – perguntou ela, passando as páginas de seu livro.
- Não, só acho que ele mudou de melhor amigo rápido demais – retrucou Scorpius, rancoroso.
Rose riu e o menino soltou um resmungo envergonhado.
- Qual é a graça?
- Nunca vi você com ciúmes do Albus. Só de mim.
- Antes era fácil. Éramos sempre nós três e só, sabe? Com outras amizades, mas sem intrusos, como Patrick Larkins.
Ela olhou para a dupla do outro lado da sala. Os dois riam de alguma coisa que viam no livro e que, aparentemente, era hilária.
- Eles mal se conhecem. Além do mais, não é assim que se muda de melhor amigo – falou ela, tentando consolá-lo.
O garoto deu de ombros, com um suspiro.
- Não queria sentir que escolhi você a ele – justificou-se Scorpius. – Queria poder ter você como namorada e ele como melhor amigo e achei que fosse possível.
- Vai ser, sim – falou Rose, confiante. – Eu sei que sim.
~.~.~.~.~.~.~
James se surpreendeu quando chegaram ao Ministério. Ele já fora lá várias vezes como visitante e o local estava sempre fervilhando de gente. Embora ainda estivesse cheio e relativamente agitado, os corredores e elevadores pareciam abrigar bem menos pessoas que o de costume.
- Muitos funcionários continuam de férias, por isso o Ministério está parecendo mais vazio – explicou sua tia Hermione, como se houvesse adivinhado seus pensamentos. – Eu só fico afastada por algum tempo, enquanto as crianças estão aqui. Vivo ansiosa para trabalhar.
James riu, tentando acompanhar os passos rápidos de sua tia, que parava para cumprimentar quase todos que passavam por ela. Hermione era querida por tudo o que realizara ali e fora dali, também.
- Esse é meu sobrinho, James Potter – ela dizia aos seus conhecidos. – Ele veio conhecer o meu trabalho.
James achava engraçado que todos agissem como se o conhecessem desde sempre. "Como ele está crescido!", respondiam. O rapaz cumprimentava, agradecia os elogios e prometia não se esquecer de mandar lembranças a seu pai.
- Viu como você é famoso? – perguntou sua tia, sorridente, enquanto esperavam o elevador.
- Meu pai é – respondeu James, dando de ombros com um sorriso sem-graça.
Como sempre fazia quando entrava no Ministério, olhou demoradamente para a estátua que ocupava o lugar onde estivera um dia a estátua do ministro Scrimgeour. Agora, estavam ali esculpidos seu pai, sua tia Hermione e seu tio Ron. James não conseguia evitar sorrir quando via aquela imagem de três pessoas que fizeram coisas tão honrosas como as que eles fizeram. Naquela vez, porém, a sensação foi diferente.
- Você já conhece tudo por aqui, não? – perguntou Hermione, ao entrarem no elevador.
- Na verdade, só sei onde fica o seu departamento e o do meu pai – falou.
- Certo. Bem, James, ninguém chega a conhecer o Ministério inteiro além do ministro – explicou Hermione. – Mas caso você queira fazer alguma pergunta, esteja à vontade. O que eu puder te explicar, eu explicarei.
- Eu tenho uma dúvida – disse o rapaz. Hermione esperou que ele continuasse. – Quando você entrou aqui pela primeira vez como funcionária, você também estava tão nervosa quanto eu me sinto agora?
Hermione riu.
- Eu estava tremendo de nervosismo, no meu primeiro dia aqui. Não sabia para onde ir, com quem falar e nem se era realmente isso que eu queria fazer da minha vida. Mas sabe de uma coisa, James? Eu estava doida para tentar. E você?
James respirou fundo, sentindo-se um pouco mais calmo e disse:
- Estou doido para tentar.
- Ótimo! – exclamou sua tia, no seu casual tom de quem estava sempre pronta para o trabalho. O elevador parou no sexto andar. – Chegamos ao meu departamento. E já vou avisando que tem um monte de gente aqui querendo te conhecer.
Querido Vincent,
Você não faz idéia do quanto eu espero pelo dia da nossa primeira visita a Hogsmead. E não se preocupe ninguém da minha família está sabendo, do jeito que você pediu que fosse. Eu gosto que nós mantenhamos isso em segredo, pois ninguém nos entenderia. Podem dizer o que quiserem, mas eu sinto que conheço você, assim como sinto que você me entende melhor do que ninguém.
Pensando em você,
Lily
Lily almoçara correndo para ter tempo de escrever uma resposta para Vincent. Bridget chegara a perguntar o motivo de sua pressa e Rose apenas lançou-lhe seu profundo olhar de reprovação. "Quero revisar as matérias da manhã", respondeu à amiga. Saiu rápido, antes que houvesse tempo de lhe fazerem mais perguntas e foi para a biblioteca em busca de um mínimo de privacidade.
Sorriu abertamente ao reler sua carta. Ela e Vince iriam se casar, ter filhos e netos e Rose riria da própria desconfiança, um dia, quando fosse madrinha de seu casamento. Tudo seria perfeito, como nos contos de fadas. "Estou ficando fora de mim", pensou ela, entrando num transe momentâneo. Aquele momento de calma, porém, não durou muito. Rose chegou à biblioteca, mais parecida do que nunca com Hermione quando ia dar um sermão em um dos filhos.
- Lily, precisamos conversar – anunciou, sentando-se à mesa onde a prima estava.
- Estou toda a ouvidos – respondeu a menina, na defensiva. Rose revirou os olhos diante do tom dela e prosseguiu:
- Você precisa se afastar do Vincent.
- Ah, Rosie! – exclamou Lily, mais alto do que pretendia. Baixando o tom novamente, continuou:
- Já tivemos essa conversa milhares de vezes e eu acho que me fiz bastante clara. Eu sei no que estou me envolvendo.
- Você está cega, Lily! É o que acontece com quem se apaixona.
- Então você é cega por estar apaixonada por Scorpius! O que há de tão errado nisso?
- É diferente. Eu sou muito mais racional do que você.
- Eu não sou uma idiota, Rose.
- Não estou te chamando de idiota e sinto muito se dei a entender que chamei. Tudo o que eu estou dizendo é que você pensa muito mais com o coração do que com a cabeça.
Lily abriu a boca para falar, mas Rose a cortou.
- Eu admiro isso. Admiro que você queira ver o melhor das pessoas, mas, Lily, há quem se aproveite de gente como você. E pelo que eu já ouvi sobre esse garoto, ele pode ser uma dessas pessoas. Eu me preocupo com o que você pode fazer por confiar demais nele.
- Vincent é apaixonado por mim.
- Você não sabe disso! – Rose passou as mãos pelos cabelos ruivos impacientemente, já cansada de tentar argumentar com a prima. Não podia dizer que contara a Scorpius, mas também não tinha como provar o que falava.
- Eu sinto isso – retrucou Lily. – Nem todo mundo é mal, Rose.
Rose deu um meio-sorriso, sentindo-se vencida.
- Eu soube de coisas ruins sobre ele.
- Oh, não – respondeu a mais nova, convicta. – Vince é muito, muito bom. As pessoas exageram no que dizem sobre ele.
Rose suspirou.
- Você se lembra de Anna Hansel? – perguntou ela.
Lily jogou a cabeça para trás, como que mostrando cansaço em falar daquele assunto.
- Rose...
- Lembra, Lily? Você se lembra de que foi Vincent quem espalhou rumores pela escola inteira sobre o possível envolvimento do pai de Anna com artes das trevas durante a guerra?
- E ele fez errado? – Lily deu um tapa na mesa, atraindo olhares das pessoas que estudavam à volta. A ruiva baixou a voz, chegando mais perto da prima. – Fez errado em denunciar alguém que cometeu crimes horrendos numa guerra que, aliás, quase matou nossos pais?
- Em primeiro lugar, Vincent não tem o direito de julgar qualquer pessoa que seja. Em segundo lugar, foi provado que o pai de Anna Hansel só trabalhou para Voldemort porque estava sob a maldição Imperius. Ele era uma pessoa boa, Lily. Assim como Anna também era.
Rose se lembrava vagamente de Anna. Era uma menina tímida e baixinha, que andava sempre carregando pilhas de livros que pareciam ser maiores do que ela. Tinha um grupo grande de amigos e parecia ser popular na Corvinal. Só estudou em Hogwarts até o terceiro ano, pois fora tão rechaçada após os boatos que Vince espalhara, que seu pai decidiu transferi-la para outra escola.
Lily se levantou impaciente e começou a recolher suas coisas da mesa e a recolocá-las com violência na mochila.
- Sabe, Rose, eu detesto quando você tenta bancar a "Sra. Perfeição" para cima de mim. Ou de qualquer um – falou ela, irritada. – E você faz isso com muita freqüência.
A expressão de Rose se fechou no mesmo instante.
- Desculpe se eu me importo com você e com o seu péssimo gosto para namorados. Eu só estou tentando dizer o que eu acho que...
- E sabe o que eu acho? Eu acho que você errou feio com Albus. E acho também que é terrível que você coloque Scorpius antes do seu primo, o seu melhor amigo, alguém que faria tudo por você. Acho péssimo que você coloque um namorado acima da sua família. É isso o que eu acho.
Rose sentiu um nó se formar em sua garganta ao ouvir as palavras da prima. Lily jogou a mochila nas costas e saiu de queixo erguido e pisando no chão como se pudesse abrir um buraco ali.
- Deve ser legal ter uma estátua tão grande em homenagem a você.
James e Joy estavam sentados num banco de metal logo em frente à estátua de Harry, Ron e Hermione, matando o tempo até que o horário de almoço de James terminasse. Após almoçarem, compraram um sundae tamanho grande na Florean Fortescue e ficaram ali, sentados, conversando. Como sempre, era Joy quem dava rumo aos assuntos. James, porém, estava quase que somente ouvindo o que ela dizia.
- Qual é a sua hoje? – perguntou ela, tirando um rastro de sorvete que caíra em sua roupa.
- O quê? – James, que estivera olhando fixamente para a estátua, acordou de seu transe e encontrou os enormes olhos castanhos de Joy à sua frente, analisando-o.
- Você está distante. Mal me contou sobre o seu dia aqui, hoje. Quer dizer, você deve ter um milhão de novidades, mas por algum motivo não está animado para contá-las.
O garoto suspirou.
- Acordei cedo, coisa que eu estava desacostumado a fazer. E corri o dia inteiro, de um lado para o outro, acompanhando toda a complicação que é o departamento da minha tia.
- Você adora bagunça! – exclamou Joy, alto, sorrindo como se a solução dos problemas de seu amigo finalmente houvesse sido encontrada.
- Joy, eu vou lhe contar uma coisa – disse ele, deitando-se no colo da garota. – Minha tia e estas pessoas que trabalham com ela mexem com uma coisa que eu nunca compreendi muito bem: regras. Eu não me encaixaria.
A garota riu alegremente fazendo com que as pontas onduladas de seus cabelos roçassem o nariz de James.
- Qual é a graça?
- A graça, James – disse ela –, é você ver criando dificuldades, como sempre. Quando você decidiu se tornar um auror, você se determinou. Você traçou uma estratégia e lutou pelo que queria.
- E falhei, certo?
- Tudo acontece por um motivo. Você vai acabar tirando algo bom de tudo isso e você não sabe o quanto eu tenho tentado aceitar essa idéia para conseguir ficar em paz comigo.
James levantou a cabeça e fitou a amiga por alguns instantes. Joy parecia arrependida do que dissera.
- Do que você está falando? – indagou ele.
- Nada. – Joy colocou o sundae de lado, indiferente, como se tivesse repentinamente perdido o apetite.
- Está acontecendo alguma coisa com você, Joy?
- James, eu não gosto de falar sobre mim e você sabe. – Ela puxou a cereja do fundo do copo e deu a James. – Olha, deixei a cereja para você.
- Obrigado – disse ele, suspirando. Já desistira de insistir que Joy falasse sobre ela.
Os dois voltaram ao momento de silêncio. As esculturas de Harry, Ron e Hermione pareciam heróicas ali, de varinhas em punho. James se sentia praticamente desafiado quando olhava para eles. E, logo depois, se sentia um inútil, sentado ali naquele banco de metal, sem saber o que fazer da vida.
- Eu queria fazer algo grandioso, sabe? E ser lembrado por isso – falou James. – Não quero que todos me cumprimentem por onde eu passo porque eu sou filho de Harry Potter, mas sim porque eu fiz algo bom por todas essas pessoas. Assim como fez o meu pai. Eu quero a minha própria estátua.
Joy suspirou e colocou uma mão sobre o ombro dele.
- Há um milhão de formas de fazer coisas boas pelos outros. E, sabe o que mais? Não ser conhecido por todos os seus feitos ou não ter uma escultura sua não significa que você seja um nada.
James deu um meio sorriso para ela, sentindo-se ligeiramente mais animado.
- Eu acredito em você, Jay – falou a menina.
James pegou a mão que ela colocara sobre seu ombro e entrelaçou os dedos nela. Joy encostou a cabeça junto à dele.
- Obrigado por existir – falou ele.
"Garotos como eu
Sempre tão espertos
Perto de uma mulher
São só garotos"
N/A: Uma coisa engraçada: esse capítulo já tinha um título e uma música diferentes, mas eu estava dando uma revisada e percebi que ele ficou muito focado nos meninos da trama. Daí, automaticamente lembrei dessa música mais que maravilhosa e da qual eu não consigo enjoar e alterei tudo assim que terminei de reler. Provavelmente muitos de vocês acabaram de se perguntar: "OK, e eu com isso?", mas, sei lá, fiquei com vontade de expressar esse fato.
Gente, me desculpem por ter demorado a postar, como sempre. Eu morro de saudades das minhas fics, mas mesmo quando eu tenho um tempo livre, confesso, eu fico com preguiça de ler e revisar mais de vinte páginas.
Como sempre, muito obrigada aos que comentaram, conto com vocês sempre! Não estou conseguindo abrir a página das reviews, por algum motivo desconhecido. Eu clico e só dá "página não atualizada". Isso tem acontecido com outros sites que eu tento entrar também, então desculpem por não estar respondendo à reviews individualmente, como eu geralmente faço.
Abraços!
Victória
