Disclaimer: Os personagens de GW não são meus… mas… Satoshi sim… eu criei e desenvolvi este personagem, bem como a historia.

Pairing: 1x2

Agradecimentos: A Ophiuchus no Shaina pela revisão do capítulo; Litha pela paciência, pelas idéias que foram utilizadas e desempacaram a fic em momentos críticos deste capitulo; Dhandara pelos conselhos no msn (graças a ela esse capitulo está sendo postado de uma única vez e não dividido em duas partes) e a Karura por suas opiniões, apoio e, acima de tudo, amizade.


Eu acredito em uma loucura chamada "Agora"
Passado e futuro aprisionam meu coração

O tempo é cego
Mas eu quero trilhar o meu amor
na parede do tempo, por sobre a dor em meu coração

Arte da Vida
Lamina insana apunhalando os sonhos
Tente quebrar todas as verdades agora
Mas eu nao posso curar esse coração partido em dor
Não posso começar a viver, não posso dar fim a minha vida
Continuo chorando


Capítulo 7

Satoshi ainda não sabia o que havia acontecido com Duo para causar aquela crise de choro. Quando batera na porta da casa e ninguém respondera, não pensou duas vezes em entrar percebendo que a tranca estava aberta. Assim que o encontrou no quarto e se aproximou, ele se jogou em seus braços e começou a chorar. Aparentemente não tinha visto nada na feição de Duo que indicasse que o pai tivesse lhe batido, mas estava preocupado mesmo assim.

Escutou os passos vindos do corredor e soube que o pai estava logo ali os observando, mas não ligava, nem mesmo se ele descobrisse que Duo era espancado pelo próprio pai. A verdade era que estava querendo isso mesmo, talvez assim conseguisse fazer o amigo parar de sofrer tanto.

Heero tentava controlar o ciúme de ver Duo agarrado a Satoshi. Ele próprio tentava conter o ímpeto de afastar o filho e tomar o garoto trançado em seus braços para confortar qualquer que fosse seu sofrimento. Os soluços do menino lhe angustiavam, assim como aquela maldita proximidade e cumplicidade que via entre os dois. Ele tentou, mas não conseguiu ficar vendo aquela cena muito tempo sem quebrá-la.

- Posso saber o que está acontecendo? – perguntou num tom indiferente, mesmo que, por dentro, existisse uma vontade enorme de gritar.

Duo se assustou ao escutar a voz de Heero. Rapidamente se desvencilhou do abraço de Satoshi e tentou engolir o choro. Olhou para a porta de seu quarto e confirmou. Ele estava mesmo ali. Heero tentava passar sua mesma frieza rotineira, mas Duo podia ver que no fundo daqueles olhos azuis estava uma raiva contida que ele sabia muito bem porque queimavam.

Desviou o olhar para encarar Satoshi e viu no seu semblante o pedido de desculpas por ter trazido o pai junto. De maneira nenhuma poderia ficar zangado com seu amigo, pois tinha certeza que ele realmente não teria feito aquilo por mal, mas também não poderia deixar Heero saber sobre seu pai. Tinha medo que o japonês viesse a denunciá-lo e que prendessem-no. Não queria mal nenhum para seu pai e sofreria se isso acontecesse por sua causa.

- Não aconteceu nada. – respondeu, mas como poderia passar firmeza em suas palavras se seu rosto estava molhado pelas lágrimas e sua voz soava tão fraca e trêmula.

Heero poderia se zangar com aquela resposta mentirosa, mas não foi o caso.

- Então está chorando por quê? E porque Satoshi ficaria querendo vir até aqui se não tivesse um motivo forte?

Meia verdade foi o que contou.

- Nada demais. Briga de pai e filho, só isso. Normal. Nada com que se preocupar.

Satoshi olhou pesaroso para Duo. Por que o amigo protegia o pai daquela maneira? Por que se submetia calado àqueles mal-tratos?

Heero, por sua vez, sentiu-se aliviado. Afinal, brigas entre pais e filhos era uma coisa normal. Ele próprio, com Satoshi, vivia numa linha fina, que sempre arrebentava de vez em quando. Duo havia lhe contado os motivos de não se dar bem com o pai. Imaginava o quê de tão ruim poderia ter acontecido numa discussão que fizesse com que o garoto de olhos violetas chorasse daquela forma. E Satoshi? Já saberia dos motivos também? Seria esse o motivo de tanta preocupação? Heero ainda sentia que algo não se encaixa ali.

- Sato se precipitou, não foi nada demais. – garantiu, vendo a dúvida persistir nos olhos azuis de Heero.

- Duo, porque não vem conosco? – Satoshi sugeriu. – Poderia ficar lá em casa até seu irmão voltar.

O americano sorriu e balançou a cabeça negativamente.

- O pior já passou, Sato. Só pioraria as coisas se eu fosse com você. – disse tentando passar um pouco de tranqüilidade ao amigo.

Satoshi queria muito conversar mais abertamente com Duo, só que com seu pai ali, era impossível fazê-lo, sem acabar revelando a verdade sobre o que o amigo passava realmente.

- Tem certeza? – Satoshi perguntou incerto.

- Tenho sim. – Duo garantiu, vendo que Satoshi ainda parecia suplicar com o olhar para que voltasse atrás naquela decisão e fosse embora com eles. – É melhor vocês irem embora antes que meu pai volte, senão vou ter que explicar por que estão aqui.

Satoshi desistiu e abraçou Duo mais uma vez, sussurrando em seu ouvido, de modo que seu pai não escutasse.

- Se acontecer alguma coisa, qualquer coisa, por favor, promete que me liga?

Duo sentiu vontade de chorar de novo, mas se segurou e apenas sorriu.

- Eu prometo.

Duo levantou o olhar e notou a forma como Heero os encarava. O japonês de satisfeito não tinha nada e sabia bem o porquê. Afastou-se imediatamente de Satoshi, mas de forma delicada, para que o mesmo não percebesse seus motivos.

- Para o carro, Satoshi. – Heero ordenou. – Vamos embora.

Um pouco relutante o garoto se levantou e caminhou para fora do quarto.

Por um instante Heero ficou encarando Duo, que ainda estava sentado na cama. Queria poder se aproximar e abraçar o amante, mas também repreendê-lo por aqueles laços que estava criando com Satoshi. Naquele momento desejou que o que dividiam pudesse ser mais do que só sexo. Desejou poder ter com Duo a mesma confiança e cumplicidade que viu ali entre ele e Satoshi, que nos breves momentos que tinham passado ali, pareciam se entender apenas com o olhar.

Sem dizer mais nada, Heero se virou e foi embora. Duo sorriu em pura tristeza. Era querer, mais uma vez, esperar demais uma palavra de consolo vinda do amante. Havia realizado uma coisa naquele momento. Seu pai e Heero, para ele, não eram tão diferentes. Para ambos, sempre estava mendigando migalhas de afeto, procurando de alguma forma poder agradá-los e assim ganhar um pouco de amor. E era fato que, de ambos, jamais alcançaria nada daquilo.

-

No dia que se seguiu, a mesma rotina. Ele foi para o colégio, seu pai agiu como a pessoa indiferente de sempre e sequer tocou no assunto da discussão da noite anterior e, dessa vez, não existiu nem a famosa descarga de você é o culpado pelo que aconteceu.

Quando voltou da visita do hospital, tratou de limpar a bagunça em que se encontrava a casa e quando terminou de fazer a janta para o pai, foi tomar seu banho.

-

Naquela noite, Heero havia chegado acompanhado da namorada e Trowa para que pudessem jantar todos juntos. Quatre e Satoshi já esperavam por eles e assim que se sentaram à mesa, o menino não parava de encarar a loira que se sentava ao lado do pai. Aquela mulher quase fizera com que perdesse a amizade de Duo e remoia uma raiva ainda maior por isso. Ainda não havia contado para o pai, mas assim que encontrasse oportunidade faria com que aquela pose altiva dela se quebrasse.

Quatre estava mais preocupado com uma data em especial que estava por vir e queria garantir que Heero não se esquecesse dela.

- Heero, o que pretende fazer no aniversário de Satoshi?

Heero levantou sua atenção para o loiro e conscientizou-se de que realmente faltava pouquíssimo para o aniversario do filho.

- É mesmo. – voltou o olhar para o garoto, que aparentava estar alheio a conversa. – Já pensou em alguma coisa, Satoshi?

- Ainda não. – respondeu dando de ombros.

Sem ser questionada, Relena resolveu dar seu palpite.

- Que tal passar o aniversário nas montanhas? Você poderia chamar aquele seu amiguinho para comemorar lá no chalé.

Satoshi levantou os olhos azuis para ela e agradeceu intimamente pela oportunidade que a loira estava lhe abrindo.

- Desde que você mantenha distância dele e essa sua boca fechada, para mim está ótimo.

Heero imediatamente lhe chamou a atenção:

- Satoshi, tenha respeito!

- Ela não respeitou um convidado meu dentro de nossa casa, então devo dizer que estamos quites.

Heero franziu o cenho e virou o olhar imediatamente para Relena. A namorada se fez de desentendida.

- Eu? O que eu fiz para irritá-lo assim?

Satoshi estreitou os olhos com raiva da dissimulação daquela mulher.

- Eu quase perco a amizade do Duo por sua causa!

Heero não estava entendendo nada, mas a discussão lhe interessara a partir do momento em que Satoshi citara Duo.

- Por quê? Ele se ofendeu ou interpretou mal algo que eu disse? – Relena falou num tom que trazia embutido um certo deboche.

- Você colocou em dúvida os motivos da minha amizade por ele! – exclamou indignado.

Foi a vez de algum entendimento chegar a mente de Heero e o que ele presumiu não lhe agradou em nada. Duo havia passado por algo dentro de sua casa e não ficara sabendo.

- Relena. – chamou o nome da namorada, em tom que exigia uma explicação.

- Ora, Heero. O menino está exagerando! Eu só conversei com o amiguinho dele e provavelmente ele deve ter se perdido e não entendido direito as minhas palavras, afinal, pessoas do nível dele costumam não acompanhar direito conversas mais inteligentes.

Quatre resolveu se intrometer na conversa. Não gostava muito de Relena e o incomodara aquele jeito delicado de chamar Duo de burro.

- Sinto discordar da sua opinião, Srta. Relena, mas eu conversei com Duo e de lerdo e burro ele não tem nada. E não é para colocar mais lenha na fogueira, mas na minha opinião, a Srta deveria ter medido suas palavras com Duo, pois, por sua causa, Satoshi quase perde a amizade de um ótimo garoto.

- E para que ele quer manter amizade com um menino daqueles? Pensei que era apenas para irritar Heero.

- Eu acho que seu problema é pensar demais. – Satoshi ironizou num tom baixo.

- Já chega! – Heero exigiu se levantando da mesa e em seguida olhando para a namorada. – Relena, eu quero conversar com você agora.

Um pouco insatisfeita a loira se levantou e acompanhou Heero para fora da sala de jantar.

Os três, que ali ficaram, aturdidos pelo mesmo motivo.

- É impressão minha, ou ele acaba de tomar meu partido? – Satoshi duvidou.

- Heero está mesmo esquisito. Permitir sua amizade com um menino de classe inferior e ainda parecer que está te defendendo não são mesmo atitudes que esperamos dele. – comentou Trowa, confirmando o que o garoto pensara.

- Existe mesmo alguma coisa, ou alguém mexendo com a cabeça dele. – Quatre concluiu.

Os três deixaram o tópico de lado e terminaram o jantar. Heero e Relena não retornaram para a mesa e, pelo que notaram, os dois estavam no escritório a portas fechadas. Não se escutava barulho de discussão, mas estavam curiosos para saberem o que poderia resultar daquele estresse.

Satoshi não ficou esperando para saber o resultado e logo se despediu de Quatre e Trowa, subindo para seu quarto. A primeira coisa que fez, foi ligar para Duo.

-

Duo saiu apressado do quarto, onde terminava de se vestir, para poder atender ao telefone que tocava na sala. Seu pai devia estar para chegar e estava aliviado por ter conseguido deixar tudo no lugar e o jantar pronto para quando ele chegasse, por isso, até sua voz soou um pouco mais animada quando pegou o fone.

- Alô.

- Duo? – estranhou a voz mais tranqüila do amigo.

- Sato! – exclamou feliz por ouvir a voz do outro garoto.

- Como você está? – perguntou querendo saber sobre a noite anterior.

Duo já esperava aquela pergunta do amigo e, mais uma vez, ficava contente pela preocupação que o outro tinha para com ele.

- Eu estou bem. Já disse que não precisa se preocupar.

- Ontem à noite eu pensei… eu sinto muito por ter levado meu pai, mas ele se impôs e eu não tive como…

Duo riu do embaraço que Satoshi estava demonstrando por sentir-se mal ao ter ido até sua casa levando Heero.

- Tá tudo bem, Sato. Não fiquei aborrecido com isso, não. – garantiu para o amigo. – E ontem foi só uma discussão. Não aconteceu muita coisa.

Com um pouco de raiva pela situação de Duo, Satoshi, mais uma vez, tentou expressar seus pensamentos.

- Eu ainda acho que você deveria ir a polícia e…

- Sato. – chamou com a voz em repreensão e cortando o que o amigo iria falar.

- Tá, não vou insistir. – suspirou vencido. – Eu estou ligando mesmo para saber se você não gostaria de vir conosco para passar o final de semana que vem nas montanhas em comemoração ao meu aniversário.

Duo sorriu alegre ao escutar aquilo.

- Seu aniversário mesmo, Sato?

- Mesmo. – confirmou feliz pela empolgação na voz do americano. – E então? Vem com a gente?

Por um momento o sorriso ficou menos intenso ao lembrar de um detalhe.

- Mas se eu for com vocês não vai ter como voltar para ver Solo.

- É mesmo. – Satoshi também se lembrou um pouco desanimado que provavelmente não teria o amigo naquela data como queria. – Eu tinha me esquecido…

Duo não queria decepcionar Satoshi, principalmente porque o amigo estava sempre junto dele quando mais precisava. Não era justo negar aquele final de semana para ele.

- Eu vou. – decidiu sem qualquer arrependimento.

- Você vai? – indagou esperançoso.

Duo voltou a sorrir e confirmou:

- Sim, eu vou. Posso conversar com Solo essa semana e explicar que estarei fora só esse final de semana. Ele não vai se importar.

- Isso seria ótimo!

Duo ficou acalentado pela satisfação que Satoshi tinha em ter sua presença sempre perto. Por isso, soube que estava fazendo o certo, mesmo que sacrificasse suas preciosas visitas ao irmão no hospital, estaria retribuindo a mesma intensidade de amizade com que Satoshi sempre demonstrava ter por ele. Os motivos eram diferentes, mas o sentimento de querer estar junto, compartilhar, era o mesmo.

Pelo menos sentia que uma coisa ainda era verdadeira e sincera de ambas as partes, e isso era a amizade que dividia com Satoshi.

-

Quando Duo desceu do carro, ficou fascinado com o local. Era um lindo chalé na área montanhosa e pelo que Satoshi contara, ele e o pai não visitavam o local há algum tempo. Isso fazia com que se perguntasse o porquê, afinal, o local parecia tão maravilhoso para se passar férias e dias de folga. De qualquer forma, estava feliz por estar ali. Avisara a Solo sobre a viagem e, apesar dele saber que estava indo com Heero, não criou caso porque lhe assegurou que estava viajando por Satoshi. Quanto a seu pai, este não havia conseguido coragem para contar que passaria outro final de semana fora, provavelmente ele vetaria, então pediu a Solo que lhe explicasse quando este fosse ao hospital.

Satoshi estava contente por ter a companhia de Duo mais uma vez por aqueles dois dias. Infelizmente, a namorada do pai viera junto com eles também. Não ficou sabendo o que o pai conversara com a loira, mas ela, desde então, o olhava meio atravessado. Sendo boa coisa ou não, o fato é que dessa vez não permitiria que ela tivesse chance de falar besteiras para seu amigo.

- Aqui é lindo. – Duo comentou pegando sua mochila e olhando tudo a seu redor com admiração.

- Venha. Vou mostrar por dentro. – Satoshi falou, entrando no chalé e sendo seguido imediatamente por Duo.

Heero pode apenas observar os dois garotos entrarem, enquanto terminava de tirar as coisas que restavam da mala do carro. Tentava controlar o ciúme de ver tanta proximidade entre Duo e Satoshi. Pode refletir momentaneamente sobre sua estúpida idéia em achar que seria uma boa idéia incentivar a amizade entre os dois garotos. A única coisa que pensara quando a situação se dera, era que poderia ter o americano por perto e poderia tirar vantagem daquela situação, mas agora só desejava afastar aqueles dois. Era um pensamento egoísta que lhe girava na mente, de não querer que ninguém mais se aproximasse, tocasse ou tirasse a atenção do garoto dele. Quando aquele sentimento se tornara tão monstruoso? Não sabia. Mas ele estava lá. Existia e lhe corroia lhe dizendo que Duo era dele e que ninguém mais tinha o direito de ter suas afeições. Ao mesmo tempo havia o conflito de pensamentos que lhe traziam coerência e sensatez, lhe mostrando que não poderia reagir porque não queria que viesse a tona seu relacionamento proibido com um menor de apenas quinze anos.

Quando Satoshi lhe contara sobre Relena ter destratado Duo em sua própria casa, havia ficado com raiva da namorada, mas, como sempre, ela tinha seus métodos para persuadi-lo, porém, isso não queria dizer que não havia lhe proibido de insinuar qualquer coisa que fosse magoar o garoto. Para ele ainda era confortável a situação de manter a namorada e ter Duo para sua satisfação pessoal nos momentos em que desejasse. A única coisa que não via era que os papéis estavam se invertendo no que dizia respeito as suas prioridades.

- Satoshi está mesmo muito empolgado com esse amiguinho dele, não é mesmo, Heero? – Relena se aproximou do japonês reparando no jeito estranho que este estava agindo.

Heero manteve sua voz fria e colocou de forma a não dar muito que falar com a namorada.

- Satoshi não faz amigos com facilidade, acho que isso é no mínimo esperado.

- Por isso mesmo. – insistiu pegando uma das bolsas das mãos de Heero. – Veja bem, Satoshi é um menino solitário e que pode muito bem confundir essa empolgação toda que tem com esse garoto por não saber diferenciar bem as coisas. Eu me preocupo com seu filho, Heero e não quero ver você tendo que se preocupar com Satoshi tendo tendências homossexuais.

Heero parou e olhou para a namorada. Poderia ter ficado irritado com a insinuação dela, mas não foi o que aconteceu. De certa forma, viu sentido no que ela lhe falava. Satoshi poderia confundir amizade com algo a mais pelo simples fato de estar se apegado demais a Duo. Mas a única coisa que poderia fazer no momento era vigiar e cortar qualquer aproximação maior, porque até então, Satoshi não tinha demonstrado qualquer outro interesse por Duo a não ser aquela amizade e, tinha que confessar pelo menos a si próprio, que estava gostando de ver o filho tão mais sorridente e feliz. Ele podia não ser tão afetuoso ou estar tão presente na vida de Satoshi, mas isso não queria dizer que não o amasse e não quisesse sua felicidade. Duo estava fazendo bem tanto a ele, quanto ao seu garoto e não podia negar esse fato.

-

Satoshi mostrou o quarto onde dormiriam. Era um cômodo que havia sido reservado para hóspedes, tinha duas camas de solteiro e móveis de madeira envelhecida para combinar com o chalé.

Ele abriu as janelas para que o ar pudesse circular e a claridade entrou dando um aspecto mais reconfortante ao lugar que há tanto tempo estava fechado.

- Por que com um lugar desses vocês não fazem viagens mais freqüentes? – Duo perguntou pousando a mochila na cama.

Satoshi deu de ombros e recostou-se no parapeito da janela estilo colonial.

- Meu pai não tem tempo para gastar com passeios ou férias. E sozinho vir para cá não tem muita graça. – trazendo um pouco de nostalgia no olhar e na voz, ele continuou: - Minha mãe costumava vir para cá comigo e passar dias. Acho que foi só por isso que meu pai não vendeu esse lugar, pois era um dos lugares preferidos dela.

Duo sentiu o pesar nas palavras do amigo.

- Se seu pai mantém esse lugar por essas memórias, então ele não é uma pessoa tão ruim assim, já pensou nisso?

Até aquele momento não. – pensou Satoshi. Mesmo não querendo dar o braço a torcer, tinha que concordar com o amigo naquilo.

- Pode ser, mas não muda muita coisa para mim.

Duo fez uma expressão displicente e balançou a cabeça.

- Eu falo com as paredes.

- Provavelmente. – Satoshi garantiu irônico e de repente teve uma idéia. – Hei! Eu sei de uma coisa que podemos fazer.

- O quê?- perguntou curioso.

- Tem um rio não muito longe daqui. – contou olhando para fora da janela e em seguida perguntou por sobre o ombro. – Já pescou alguma vez?

Duo riu.

- Nunca.

Satoshi se voltou novamente para o amigo e decidiu.

- Então é isso. Vamos terminar de arrumar as coisas e pescar.

-

No hospital, Wufei visitava Solo e estranhou o fato de não ver Duo naquele dia ali agarrado ao irmão. Ele tinha notado que o garoto estava agindo de forma estranha há algum tempo e nas aulas, às vezes, ou estava aéreo ou quase cochilando. Não era normal dele aquele tipo de comportamento e muito mais esquisito ele não estar presente no horário de visitas no final de semana. Duo era quase obsessivo em relação àquelas visitas. Podia o mundo cair, mas ele dava um jeito de poder estar junto do irmão mais velho no pouco tempo que podia.

- Como você está se sentindo? – o chinês perguntou se aproximando da cama, onde Solo estava recostado à cabeceira.

- Bem, melhor agora. – Solo respondeu com um sorriso.

Wufei retribuiu o sorriso e pegou na mão de Solo fazendo um suave carinho.

- E onde está o Duo? – perguntou ainda sem esquecer da preocupação com o garoto.

Solo sabia exatamente onde o irmão mais novo estava e com quem estava. Aquilo no fundo o irritava, mas não expusera isso a Duo e nem contaria a Wufei sobre o que o menino estava fazendo. Provavelmente o chinês denunciaria o homem com quem Duo estava saindo. Wufei tinha um senso de moral muito forte e preocupava-se com seu irmão como se fosse um filho. Tinha certeza que se ficasse sabendo que este estava se prostituindo para um homem que tinha mais que o dobro da idade dele e, mesmo que existisse sentimentos envolvidos, Wufei iria atrás de Duo naquele exato momento e acabaria com o tal Heero. De qualquer forma tentou ser evasivo.

- Eu acho que hoje ele não vem e nem amanhã também.

Frisou as sobrancelhas negras estranhando o que Solo falava.

- Não vem? – olhou para o loiro desconfiado. Tinha certeza agora que este lhe escondia alguma coisa. – O que está acontecendo com ele, Solo?

Solo riu. Era difícil tentar enganar o chinês, quando este já parecia conhecê-lo tão bem.

- Calma. Deixe o Duo quieto. Ele está passando por uma fase.

Wufei via claramente que Solo tentava não abrir o assunto de forma clara e aquilo começava a irritá-lo.

- Fase? Que fase? Esse garoto de um tempo pra cá está indo de mal a pior e você diz com essa calma que é uma fase?

- Paixão, Fei. – disse vendo o semblante do chinês se abater pela surpresa da revelação. – Ele está gostando de alguém.

- Apaixonado? – ecoou um pouco aturdido.

- É. – Solo confirmou displicente. – Ele está assim meio avoadinho porque está gostando de alguém e esse final de semana ele me pediu pra quebrar a rotina dele para que pudesse viajar.

Wufei estava analisando a situação. Não tinha visto Duo andando com ninguém novo no colégio. Como poderia ser?

- Duo gostando de alguém? Mas quem, se ele não tem andado com ninguém diferente… - lembrou-se então do último final de semana em que haviam se encontrado na recepção. – A não ser que…

A primeira coisa que lhe veio à mente foi aquele homem japonês e a forma hostil que lhe encarara, mas não podia ser. Não poderia ser ele a paixão de Duo, pois este era muito mais velho e era pai de um menino que tinha praticamente a mesma idade do americano. E foi quando deduziu que talvez pudesse ser aquele garoto, o novo amigo de Duo, já que sabia das preferências sexuais do aluno.

- Aquele menino que estava com ele naquela visita?

Solo sentiu-se acuado com aquela pergunta, mas quase suspirou aliviado quando o médico entrou no quarto acompanhado de seu pai. Wufei soltou a mão de Solo antes que qualquer um dos recém-chegados pudesse perceber.

Solo sorriu ao ver o pai, mesmo ainda estando ressentido pelo que este fizera a Duo. Mas apesar de tudo era seu pai e o amava, assim como Duo também sempre relevava as surras que levava por amar aquele homem como se fosse seu verdadeiro pai.

- Bom dia, Solo, Wufei. – cumprimentou o médico ao se aproximar do leito. – Seu irmão não veio hoje? – perguntou estranhando a falta do menino que sempre esbanjava alegria e sorrisos pelos corredores do hospital.

Solo olhou receoso para o pai e respondeu.

- Não. Ele está com um amigo passando o final de semana distante da cidade.

Duo havia lhe pedido para conversar com o pai e contar sobre sua viagem, mas não queria que ele pensasse que o irmão mais novo estava lhe escondendo as coisas, pois viu o pai franzir o cenho assim que terminou de falar o paradeiro de Duo.

- É uma pena que ele não tenha vindo hoje. Ele ficaria contente de saber que o tratamento está surtindo efeito melhor do que o esperado e que você logo vai poder voltar para casa.

Solo piscou algumas vezes e Wufei sorriu pela notícia.

- Eu vou ficar realmente bem? – perguntou ainda incrédulo.

O pai sorriu entendendo a relutância do filho em acreditar que pudesse mesmo estar chegando ao fim daquele pesadelo. Para ele também era um grande alívio ter a certeza de que não perderia o filho como perdera a esposa.

- Sim, filho. – confirmou para Solo. – Eles querem agora apenas finalizar o tratamento, mas você vai ser transferido para outro hospital para isso.

O médico apenas confirmou o que o pai havia contado.

- Isso mesmo. Vamos transferi-lo para outro hospital para terminar com a radioterapia.

Solo mal acredita que havia mesmo terminado. Aqueles dias de tratamento no hospital, a única coisa que habitava seus pesadelos era a imagem da mãe definhando por causa do câncer numa cama de hospital. A felicidade que o abatia era incrível. A simples certeza de que tinha a chance de viver sua vida verdadeiramente e não ter que deixar Duo sozinho no mundo era tudo o que precisava. O irmão mais novo era a coisa que tinha de mais importante e agora que sabia que sobreviveria, faria cumprir a promessa que tinha feito a ele. Jamais permitiria que ele sofresse nas mãos do pai outra vez.

Quando o médico deixou o quarto, Solo pediu para que Wufei lhes desse licença, pois queria conversar em particular com o pai. Queria deixar tudo claro, para não existir qualquer confusão depois.

- O que houve, Solo? – o pai perguntou desconfiado.

Solo estava sério e não criou rodeios para falar o que queria. Foi claro e direto.

- Eu só quero avisar que quando eu deixar o hospital, vou pegar o Duo e nós vamos embora.

A surpresa era nítida na expressão madura do pai, que a principio não quis compreender o que havia sido dito.

- Como? Eu acho que não escutei direito.

Solo não baixou a guarda. Não poderia, mesmo que no fundo sentisse pena do pai.

- Escutou sim. Você esgotou a minha paciência. – falou em tom firme. – Eu não vou permitir mais que você machuque o Duo.

Finalmente vinha a compreensão e o pai estreitou os olhos, com um pouco de raiva.

- Você vai dar as costas para o seu pai por causa daquele bastardo? É isso, Solo?

Solo se irritou por mais uma vez o pai estar se desfazendo da paternidade do irmão mais novo com aquelas palavras tão duras.

- Ele pode não ser seu filho de sangue, mas te ama como um pai de verdade, mesmo o senhor fazendo o que faz. E acima de tudo ele é meu irmão e não agüento ver ele sofrendo toda vez que você está frustrado e o espanca.

A expressão do pai se fechou totalmente.

- Ele dá motivo. O insolente não sabe respeitar minhas ordens.

- Eu sou testemunha do quanto o Duo tenta te agradar, enquanto o senhor o trata pior do que a soleira de nossa casa.

- E você sabe como aquele moleque conseguiu dinheiro para pagar a dívida da casa?

Solo gelou. Se seu pai soubesse que Duo havia vendido o corpo para conseguir aquele dinheiro, provavelmente mataria o irmão.

- Esquece isso. Coloque na sua cabeça que ele se sacrificou muito para garantir que não perdêssemos aquela casa. – voltou a olhar com raiva para o pai e o acusou. – E você em gratidão o espancou até deixá-lo marcado… Eu não quero isso pra ele. É só um menino e merece paz.

Não havia mais o que discutir. Solo quando tomava uma decisão não costumava voltar atrás. E quanto a ele, sabia bem de quem era a culpa por tudo aquilo estar acontecendo.

-

Heero estava chateado e frustrado. Sentia-se preso, pois Relena não o deixava nem por um minuto e para piorar, Satoshi não desgrudava de Duo. Desde que haviam chegado, não conseguira chegar perto do garoto e vê-lo passar, sorrir, e não poder abraçar, beijar, tocar, era uma tormenta. Fingir que estava agradado da presença de Relena ali era tortura e assim como saber que a alegria que o americano distribuía, não era causada por ele, mas sim por seu filho.

Agora estava ali em sua cama, depois de ter feito sexo com Relena, que havia investido aproveitando a ausência dos garotos. Olhando para o rosto adormecido da namorada, quase riu de si mesmo. A princípio quis repelir o contato íntimo com a loira. Simplesmente não lhe excitava mais o pensamento de ter sexo com ela, mas durante os beijos e carícias, sua mente trouxe a tona a imagem do garoto de trança e olhos violetas. Depois disso, viu-se consumido pelo momento e acabou por fazer todo o ato com a ilusão de que tomava o belo e jovem prostituto.

Ali, deitado em sua cama, mais uma vez sua mente vagava para onde estariam Satoshi e Duo e o que estariam realmente fazendo. O filho tinha pego o material para pescar e disse que iriam até o rio. Insistia em si dizer que estava ficando neurótico demais, que nada poderia acontecer entre os dois garotos, que eram amigos. Mas o maldito incômodo de imaginar diversas situações o fazia quase esquecer de quem era ou toda aquela encenação.

-

Na beira do rio, que corria em suas águas calmas, Duo tentava aplicar alguma das técnicas que Satoshi havia lhe ensinado para tentar fisgar algum peixe, mas no balde com água, só havia dois, que tinha sido o amigo quem pescara.

Pescar era algo que exigia paciência e isso era uma coisa que não fazia parte das virtudes de Duo. Ele sentia-se frustrado e tinha certeza de que estava fazendo algo errado. Satoshi tentava não deixar ser pego em seus olhares displicentes para o amigo, mas era tão engraçado ver as expressões que Duo fazia. Num momento emburrado, no outro entediado. Teve uma hora em que pensou que o outro garoto iria cochilar sentado, mas assim que esse despertou assustado depois de cutucá-lo, não agüentou o riso e, por isto foi quase jogado dentro do rio pelo amigo.

- Aaahhh! Eu desisto. –Duo declarou, retirando o anzol da água e largando a vara na grama a seu lado.

Satoshi viu Duo se jogar para trás e deitar sobre o tapete verde que a grama baixa fazia ali, os braços cruzados atrás da cabeça lhe servido de travesseiro.

- Eu acho que não levo jeito para pescar mesmo, ou esses peixes não gostam de mim. – Duo resmungou num falso tom de mágoa.

- Você não tem é paciência. – Satoshi constatou, retirando o anzol da água também. – Já está escurecendo mesmo, mas podemos tentar amanhã outra vez. Quem sabe você não tem mais sorte?

- É mesmo. - Duo confirmou, olhando para o céu e vendo que este já tingia num tom bem mais escuro.

Ambos ficaram por mais tempo apenas em silêncio enquanto observavam a noite chegar e as estrelas surgirem no céu.

- Na cidade não dá para ver tantas estrelas assim. – Satoshi comentou.

Duo sorriu e lembrou-se de um fato que ocorria sempre entre ele e o irmão.

- Quando éramos menores, Solo e eu costumávamos subir no telhado da nossa casa e ficávamos horas olhando para o céu e as estrelas, conversando sobre besteiras, mas nós sempre esperávamos ver uma verdadeira estrela cadente.

Satoshi levantou uma das sobrancelhas e indagou desconfiado:

- Acreditavam naquele mito de quando se vê uma estrela cadente, se faz um pedido e este se realiza?

Duo deu de ombros e continuou a sorrir.

- É. Estúpido, não? Eu hoje sei que é, pois o meu nunca se realizou.

- Então você viu mesmo uma? – Satoshi perguntou interessado e viu o amigo assentir positivamente com a cabeça. – E o que você pediu?

O sorriso de Duo se tornou um pouco melancólico.

- Quando eu era menor, tinha esse sonho besta de conhecer meu pai verdadeiro e eu pedi para encontrá-lo. Naquela época, eu ainda acreditava em desejos e não entendia que meu pai verdadeiro nunca me quis.

Satoshi ficou triste pelo amigo e sentiu uma vontade enorme de abraçá-lo e afastar aquela mágoa do rosto dele.

- Quem sabe esse desejo não esteja na fila de espera e vá se realizar ainda. – disse em simpatia.

- Nah… isso foi há muito tempo atrás. Além do mais, se ele quisesse mesmo me ver, teria me procurado.

- Eu sinto muito. – Satoshi disse verdadeiramente sentido pelo amigo.

- Eu também. – confessou sincero.

Satoshi ficou observando com atenção e pesar o rosto de Duo, enquanto este entristecido ainda olhava para o céu. Pensou que seria bom se uma estrela cadente caísse naquele momento e pudesse pelo menos, por aquela noite, acreditar e fazer um pedido.

- Hei, vocês não acham que já está tarde demais, não?

Os dois garotos sobressaltaram-se de susto. Duo colocou-se imediatamente sentado e junto com Satoshi se voltou para trás, fitando a face séria de Heero, que se aproximava em passos lentos e com uma lanterna em uma das mãos.

- Você quer nos matar de susto? - Satoshi reclamou. – Podia pelo menos fazer algum barulho que indicasse que estava chegando.

- Por quê? – perguntou desconfiado.

- Você nos assustou chegando desse jeito sorrateiro. – Satoshi disse ainda chateado.

- Vim busca-los. Já está tarde e não comeram nada desde o almoço. – Heero falou se aproximando o bastante para reparar no balde perto dos garotos. – Conseguiram mesmo pegar alguma coisa?

Duo sorriu e confirmou.

- Sato quem pescou. Segundo meu amigo aqui, eu sou preguiçoso. – riu do olhar aborrecido do amigo e finalizou: - Mas como ele magnificamente pescou, eu vou prepará-los para janta hoje.

Heero arregalou os olhos, incrédulo, e indagou:

- Vocês vão preparar esses peixes?

Duo o olhou displicente.

- Claro. E correção, eu vou preparar. Qual seria a graça de pescar e não comer?

Satoshi olhou para o pai dando de ombros, também não muito certo de que o amigo poderia dar conta do que estava falando.

Heero quando viera procurar pelos garotos havia deixado Relena um pouco contrariada. Ela alegava que os meninos eram bem crescidinhos e quando sentissem fome voltariam para o chalé. Ele sabia que ali não havia perigo algum para os garotos, mas ainda estava sendo guiado por sua ânsia de saber o que estariam fazendo sozinhos e até àquela hora.

Quando os viu sentados, apenas conversando, por um instante se achou ridículo por ficar imaginando mil e uma besteiras.

Sentiu o pesar de Satoshi quando escutara o americano falar sobre o pai e aquilo fez que repensasse sobre sua situação com o próprio filho. Não desejava aquele tipo de mágoa em Satoshi. Talvez Duo estivesse mesmo lhe deixando mais sensível a aquele tipo de reflexão.

O problema foi ver ainda no olhar de Satoshi algo diferente e gostaria mesmo de saber o que pensava o filho com aquele brilho de ternura no azul de seus olhos.

-

Duo e Satoshi voltaram para o chalé com Heero. Relena torceu o nariz quando Duo foi para cozinha e, como tinha prometido, começou a preparar o jantar. Infelizmente ela teve que dar o braço a torcer e cumprimentar o garoto, pois a comida estava mesmo boa.

Eles passaram um tempo na sala jogando monopólio, enquanto Heero lia um livro e Relena assistia a algum programa fútil na televisão, mas não demoram a se recolher ao quarto.

Enquanto se ajeitava para se deitar, Satoshi reparava no corpo delgado de Duo que havia se despido para colocar uma roupa menos pesada para dormir. Ainda podia ver marcas fracas da agressão que o americano sofrera. Estavam quase desaparecidas, mas olhando com atenção, era possível ver que ainda estavam lá. Sua maior vontade era contar a alguém o que Duo passava para que o pai dele fosse denunciado, mas infelizmente tinha que respeitar a estúpida promessa que tinha feito a seu amigo e guardar aquilo como segredo. Sentia raiva ao lembrar do pai de Duo. Como alguém podia sequer cogitar a idéia de machucar alguém como ele?

Duo parou de se vestir, reparando o modo pensativo como Satoshi estava lhe observando e franzindo o cenho, perguntou:

- Tá tudo bem, Sato?

O garoto japonês piscou algumas vezes saindo de seus pensamentos e sentindo-se um pouco constrangido por ter sido pego encarando.

- Desculpa, eu só estava pensando. – disse voltando a desforrar a colcha da cama.

- Posso saber pensando em quê?

- Nada de importante. – disse tentando evitar trazer pensamentos ruins e qualquer desconforto ao amigo naquele final de semana.

Duo ainda olhou um pouco desconfiado, mas não insistiu no assunto. Não queria forçar Satoshi a falar nada que não quisesse realmente.

-

Duo acordou um pouco desorientado e quando a escuridão tomou sua vista, soube que ainda era noite. Endireitou-se e olhou para a outra cama ao lado, vendo que Satoshi dormia tranqüilamente. Suspirou suavemente e empurrou as cobertas para longe de si, girando o corpo e levantando-se. Por mais que tivesse a certeza de que estava tudo bem, não conseguia evitar sentir-se mal por não ter ido visitar Solo aquele final de semana. Era como se estivesse quebrando algo muito especial e realmente era. Aquelas visitas ao irmão no hospital eram tão sagradas para ele, mas Satoshi era um amigo especial e não queria decepcioná-lo, mesmo porque o mesmo estava sempre pronto para estar a seu lado qual fosse a ocasião, então se via mais do que no dever de retribuir esse mesmo afeto que lhe era dedicado.

Sua insônia repentina era provavelmente causada por aquele sentimento de culpa por sua falta com o irmão mais velho. Mas existia também aquela opressão de sentimentos por causa de Heero. Para ele, não estava sendo fácil sorrir e agir normalmente quando tinha que presenciar troca de carinhos entre ele e a namorada. Ele não tinha direito de sentir ou expressar qualquer forma de ciúmes e tinha que se conformar com isso, pois aceitara ficar com Heero independente de tudo. Isso não o impedia de refletir se o que estava vivendo valia mesmo a pena. Perguntava-se do porquê de ter aquele sentimento tão forte pelo japonês e ainda se questionava, tentando imaginar que se tivesse sido outra pessoa no lugar dele, teria criado esse mesmo tipo de afeição. Era uma grande interrogação. Não conseguia chegar a uma conclusão.

Tentando não fazer muito barulho, ele deixou o quarto e desceu até a cozinha. Achou que não faria mal tomar a liberdade de pegar um copo de água na geladeira.

-

Heero não havia subido para dormir junto com Relena. Preferiu ficar mais tempo acordado, passar a ocasião lendo, já que não estava mesmo com sono. O que causava aquilo? Uma tentação em forma de um adolescente de olhos violetas. Como se arrependia de ter aceitado a proposta de passarem o aniversário do filho naquele chalé. Estava totalmente de mãos atadas. Tinha que se conformar em olhar e não tocar o amante, pois tinha sua namorada e seu filho o tempo todo junto a eles.

Foi quando escutou os passos descendo a escada de madeira que ligava os andares. A princípio pensou que seria Relena, que talvez tivesse acordado e como já era de madrugada, percebeu a sua falta e viera lhe procurar, mas quando os passos seguiram para outra direção, a pessoa sequer se apercebendo da fraca luminosidade das luminárias da sala. Desconfiado, ele deixou o livro ali mesmo na mesinha de centro e cautelosamente andou até a porta da cozinha e não conteve o sorriso ao ver que quem estava ali era ninguém mesmo que o jovem que vinha perturbando sua mente.

Heero deixou o olhar vagar pelas feições delicadas do garoto, enquanto este ainda não parecia ciente de sua presença ali. Duo estava pegando um copo de água na geladeira e a claridade da mesma, iluminava o belo rapaz, que vestia um conjunto de moletom. Ali, a noite, realmente fazia um pouco de frio, mas Heero podia pensar em mil e uma maneiras para arrancar aquelas roupas e fazer com que o garoto sentisse mais do que calor naquela madrugada.

Duo terminava de recolocar a garrafa na geladeira e fechar a porta da mesma, quando se assustou ao sentir braços lhe envolverem e um corpo moldar-se ao seu por trás. Não precisava se virar para saber quem era, mas as palavras sussurradas em seu ouvido lhe garantiram o reconhecimento.

- Pensei que não teria uma oportunidade como esta durante o final de semana.

Duo conteve um gemido em sua garganta quando o japonês mordiscou o lóbulo de sua orelha e correu a mão por de baixo de sua blusa até um de seus mamilos. Mas apesar do efeito imediato que Heero tinha sobre ele, sua mente ainda conseguiu pensar sobre a situação.

- É melhor não. Se alguém acordar e…

Heero cortou qualquer contemplação que pudesse vir a fazer quando o virou para si e o beijou repentinamente. Qualquer pensamento ou cautela escapou de seu entendimento e a única coisa que sentia era a urgência de corresponder ao beijo do amante e sentir o corpo forte se impondo contra o seu.

Duo reprimia os gemidos durante o beijo ao sentir os toques ousados das mãos de Heero. Era ridículo negar que o que mais queria era que o japonês lhe despisse e lhe tomasse ali mesmo.

-

Relena não podia acreditar no que via. Tinha acordado no meio da noite e percebera que Heero não havia ido para cama ainda. Um pouco preocupada, desceu até a sala para tentar persuadir o namorado a subir e passarem um tempo juntos, mas o que encontrara não fora bem um japonês compenetrado em sua leitura. Heero estava compenetrado sim, mas em tentar se fundir com o garoto amigo de Satoshi, num beijo fervoroso.

Ela simplesmente ficou estática. Como se tentasse digerir a cena que via bem diante de seus olhos e com a esperança de por acaso acordar e rir daquele sinistro e nojento pesadelo. Pois ali estava o seu namorado, atracado ao corpo de um garoto de quinze anos, tocando-o de forma vulgar, beijando-o e demonstrando um desejo que era prontamente correspondido.

Foi quando ela percebeu a presença de alguém a seu lado e quando se virou constatou que ali estava um tão igualmente chocado Satoshi Yui.

O garoto, assim como Relena, havia acordado e notado a falta do amigo. Preocupado, havia descido para procurá-lo. Dizer que estava chocado era pouco. Havia um turbilhão de emoções diferentes que lhe percorriam que o impediam de ficar passivo ao que via ali.

Não entendia, não queria entender o porquê de seu pai estar agarrando seu melhor amigo. Sentia nojo, ódio, repudia, pois via que Duo correspondia aos avanços que lhe eram feitos.

Em toda sua fúria, ascendeu a luz da cozinha, fazendo com que os dois finalmente se afastassem e percebessem que tinham audiência.

- Oh meu Deus… - Duo murmurou se afastando de Heero o máximo que podia e encarando a confusão nos olhos azuis de Satoshi. O que ele temia havia finalmente acontecido. Consumido pelo constrangimento, ele deixou o recito correndo, passando por Relena e Satoshi sem dizer uma palavra. Seus passos rápidos subindo as escadas puderam ser ouvidos claramente e Satoshi, mesmo querendo enfrentar o pai, logo se viu indo atrás do amigo.

Apesar da iniciativa ter vindo de Satoshi, quem exigiu explicações foi Relena, que com aquela atitude havia saído do estado catatônico e envolvida por um sentimento de indignação imenso.

- O que significa isso, Heero Yui?

Heero, apesar de ter sido pego naquela situação com Duo, não expressava qualquer reação de culpa ou vergonha, pelo contrário, parecia calmo. Ele simplesmente contou a verdade para a namorada sem qualquer remorso.

-

Duo não sabia o que fazer. E a única coisa que via em sua mente era o olhar de Satoshi. Era a raiva e incompreensão, que distinguira nos olhos do amigo, que lhe fazia angustiar-se e pensar que nada daquilo valia a pena. Era seu puro e tardio entendimento de que só existiriam perdas daquele relacionamento que mantinha com Heero. Perdas irreparáveis para aos quatro que estavam naquele final de semana ali.

Quando Satoshi entrou no quarto que estava dividindo com Duo, encontrou-o arrumando as coisas dentro de sua mochila. E foi quando as vozes na parte inferior da casa se elevaram e puderam escutar nitidamente a discussão que se dava entre Relena e Heero.

Seus olhares se encontraram enquanto escutavam as vozes alteradas.

- Eu não estou te entendendo, Relena. Você nunca se importou com as minhas amantes antes!

- Ele é um homem, Heero. Você está se deitando com um homem, ou melhor, um garoto que tem a idade do seu filho! Provavelmente esse vagabundo está fazendo algo para te manipular!

- Quando um prostituto barato vai me manipular? Você enlouqueceu! Ele me dá o que eu quero e recebe bem por isso, nada mais!

Duo engoliu a seco as palavras de Heero e permitiu guardar as lágrimas para si. Desviou o olhar de Satoshi e voltou a arrumar ainda mais rápido suas coisas. Não sabia o que falar para o outro garoto, se é que havia necessidade de que algo fosse dito.

Satoshi continuava olhando para Duo um tanto magoado e aturdido. As palavras do pai ainda ecoavam em sua mente. Não era difícil de raciocinar e descobrir o que acontecia. Era óbvio o porquê de Duo estar aos beijos e carícias com seu pai na cozinha àquela hora da noite. Mas ele ainda buscava uma razão para aquela traição. Um motivo para aquilo tudo estar lhe doendo tanto. Não sabia ao certo se era pelo fato de desconfiar que a amizade que tanto prezava tivesse sido desde o princípio uma farsa, ou por Duo ter omitido ser um prostituto e ser amante justamente de seu pai, ou ainda pela dor que vira no olhar do americano quando escutara aquelas palavras duras vindas do andar inferior da casa. Seu sofrimento era uma mistura de tudo aquilo, mas infelizmente era maior quando pensava na última hipótese.

Finalmente achou sua voz e não conseguiu medir suas palavras ásperas contra Duo.

- Quer dizer que você não passa de um garoto de programa que está subordinado ao meu pai?

Duo havia terminado o que fazia e olhou ainda mais ferido para Satoshi. Talvez estivesse preparado para perder Heero desde o princípio, mas não queria ter perdido aquilo que tinha com o amigo. O que ele poderia falar? Satoshi estava na razão dele e não tinha o direito de replicar.

Vendo que Duo havia colocado a mochila pendurada nas costas, Satoshi deu um riso irônico e indagou:

- Pretende colocar o rabo entre as pernas e fugir sem ao menos me dar uma resposta? – havia uma raiva contida nas palavras, mas acima de tudo rancor. – Amizade de araque, não? Se aproximou de mim naquele dia já sabendo quem eu era? Talvez pensando em tirar mais vantagens entretendo o filhinho do amante, não é mesmo?

Duo sentia seu coração de retrair dolorosamente a cada palavra acusadora de Satoshi e ante a elas, não conseguiu mais conter as lágrimas. Ele sabia que isso aconteceria. Sabia que a ilusão chegaria ao fim, só não esperava que fosse acontecer tão rápido, nem contava que a dor fosse ser tão intensa, principalmente pelas acusações daquele a quem considerava seu melhor amigo.

Satoshi sentiu-se esmorecer mais uma vez ao ver as lágrimas de Duo. Não era exatamente isso que mais odiava ver no rosto de seu amigo? Mas Duo era seu amigo? Por que ele não desmentia, negava tudo, ou pelo menos tentava lhe explicar, fazer sua mente acreditar que estava errado?

Viu Duo se aproximar e tirar algo de seu pescoço. Teve um leve sobressalto e quase puxou de volta sua mão quando esta foi tomada pela do outro garoto, mas se deteve quando carinhosamente pousou o cordão que lhe havia presenteado naquele dia… no dia em que fora tentar recuperar uma amizade que Duo relutara em lhe devolver.

- Eu sempre soube que deveria ter deixado as coisas como estavam daquela vez. – escutou Duo lhe dizer com a voz baixa e olhar triste. – Eu sempre soube que sofreríamos no final e que jamais fui merecedor desse seu presente… mesmo assim eu quis viver essa ilusão… mas tenha certeza de uma única coisa, minha amizade nunca foi falsa.

Satoshi não conseguiu reagir ao ver Duo se afastar indo a direção da janela e dela pulando. Ele ficou ali imóvel e a única coisa que conseguiu fazer foi olhar para a cruz do cordão que estava na palma de sua mão. A imagem daquela jóia lhe trouxe uma agonia crescente ao coração e a sensação de que aquela seria a última vez que veria Duo novamente. E era isso o que ele queria? Não estaria ele julgando os motivos do outro da mesma maneira que condenara o americano quando havia dado valor às palavras de Relena? Por que ele sentia que conhecia o íntimo de Duo e isso lhe dava tamanha certeza de que estaria se precipitando? Estaria mesmo disposto a perder a única coisa boa que acontecera em sua vida desde que perdera a mãe?

-

Duo caminhava a passos rápidos pela trilha iluminada apenas pela claridade da lua, na tentativa de chegar o mais depressa a estrada principal para tentar pegar um ônibus ou uma carona de volta a cidade. Afligiu-se ao escutar passos corridos vindo do caminho que deixava para trás. A voz de Satoshi lhe chamando fez com que tentasse andar mais rápido ainda.

Ele não queria parar. Não queria escutar mais acusações dolorosas. Infelizmente foi obrigado, porque o japonês lhe segurou pelo braço e o surpreendeu abraçando-o por trás. Um abraço tão forte, mas ao mesmo tempo tão carinhoso, que não tentou lutar contra ele, ou continuar seguindo seu caminho.

- Somos amigos, não somos? – escutou a voz de Satoshi junto ao seu ouvido num sussurro quase angustiado.

Era uma esperança cruel que não queria alimentar.

- Por que você iria querer ser amigo de prostituto barato?

Satoshi estava escutando da boca de Duo o eco das palavras ditas por seu pai e na voz dele soavam com pura humilhação e tristeza.

- Duo, eu… - fechou os olhos ainda não querendo deixar o abraço, tentando guardar naquele momento a sensação de ter o outro tão perto de si, pois tinha medo de não conseguir reverter aquele quadro ao que era antes. – Você é importante pra mim e… eu só não quero perder o que temos.

Duo levou a mão ao encontro do braço de Satoshi e lhe fez um carinho.

- Se você aceitar as minhas explicações… não precisaremos perder um ao outro.

Satoshi deixou um suspiro aliviado escapar de seus lábios e afrouxou o abraço. Assim não hesitou em recolocar o cordão de volta no pescoço de Duo.

- Isso te pertence. – Satoshi afirmou - Não ouse tirá-lo do pescoço novamente.

Duo colocou a mão sobre o crucifixo e se virou. Encarou as feições do amigo que pensou ter perdido para sempre e, com um sorriso triste o abraçou, sendo imediatamente correspondido. Era bom poder abraçar Satoshi outra vez e sentir que ainda tinha sua amizade, sentir que alguém ainda se importava com ele acima de tudo e de todos.

Ainda abraçado ao amigo, Duo resolveu fazer um pedido.

- Eu queria que fizesse um favor pra mim.

Satoshi assentiu com a cabeça e afastou-se para encarar os olhos violetas.

- O que quiser.

Duo sorriu com aquela amizade incondicional que Satoshi parecia estar lhe oferecendo outra vez e pegou em sua mão.

- Vamos. – disse puxando o amigo e continuando a caminhada pela trilha.

Satoshi acompanhou Duo até a estrada, onde eles conseguiram pegar um ônibus de volta para a cidade e no caminho, foi esclarecido com a história que Duo lhe contou sobre o que realmente acontecia entre ele e seu pai. Apesar de ainda sentir-se um pouco traído pelo fato de Duo não ter lhe contado antes, conseguiu encontrar discernimento suficiente para entender o constrangimento que deveria ser contar que vendia o corpo em troca de dinheiro. Duo não quisera entrar em muitos detalhes, mas ficou sabendo sobre a casa e sobre o acordo que os dois mantinham há algum tempo. Aquilo, de certa forma, o magoava de uma forma estranha. Saber que Duo entregava o corpo a seu pai era algo que o incomodava e o que mais sentia por seu pai era ódio e inconformismo, afinal, ele estava mantendo um relacionamento com um garoto de sua idade. Era um crime tão abominável quanto os espancamentos que o pai de Duo lhe infringia. Mas com o pai resolveria depois.

Ele acompanhou Duo até sua casa e ainda estava escuro quando chegaram. Duo entrou um pouco ressabiado e já sabia que este temia um encontro com o pai, mas por alguma obra de sorte ou do destino, este não se encontrava em casa.

Satoshi acompanhou Duo até seu quarto, observando-o abrir o armário e tirar, de dentro de uma caixa, um envelope cheio, que imediatamente lhe estendeu para que pegasse.

Um pouco intrigado Satoshi pegou o envelope e indagou:

- O que é isso? – perguntou tomando a liberdade de abrir e se surpreendeu com a grande quantidade de dinheiro que ali continha.

- Esse é todo o dinheiro que Heero me pagou enquanto estivemos juntos.

Um pouco surpreso, Satoshi olhou para o amigo e perguntou:

- Você guardou tudo?

- Não tudo… o primeiro pagamento eu usei para saldar a dívida da nossa casa, mas o restante está todo aí.

Aquilo deixou Satoshi mais intrigado. Temia perguntar e uma suspeita que tinha vir a tona. Ele olhou nos olhos de Duo e viu a resposta para o que buscava saber.

- Você nunca se prostituiu realmente, não é mesmo? – perguntou com tristeza.

Aquilo trouxe novas lágrimas aos belos olhos do americano e com a voz um pouco embargada ele respondeu:

- Acabou, Sato. Ele só me vê como um brinquedo, um divertimento. – o viu afastar as lágrimas com as costas da manga do moletom e pedir: - Quero que devolva para o seu pai esse dinheiro e diga que acabou.

Satoshi não queria aquilo. Não queria a terrível constatação de que Duo se apaixonara por seu pai e agora sofria por isso.

- Eu acabei com seu aniversário, não é mesmo? – Duo disse se sentindo um pouco culpado.

Com aquela confusão, Satoshi sequer se lembrava que naquele dia, domingo, estaria fazendo aniversário e aquilo, de fato, não tinha a menor importância para ele depois de tudo o que havia se passado.

- Nunca fui mesmo a favor de se comemorar por estar ficando velho. – disse tentando quebrar o clima ruim que ainda pesava.

- Mesmo assim eu sinto muito. – Duo insistiu se penalizando.

Havia tanta tristeza no olhar e nas palavras de Duo, que Satoshi sabia que nem um terço era relacionado a um aniversário não comemorado. Amaldiçoou seu pai pelo mal que fizera a Duo, mas ainda tinha esperança de ser capaz de consertar aquilo.

Ele se aproximou e abraçou o amigo outra vez, passando conforto e sentiu-o retribuir e suspirar como se tentasse assim expulsar tudo de ruim que tinha no coração, se atendo apenas àquele instante de carinho.

- Não fique triste, Duo. – naquele instante, mesmo querendo evitar, as imagens do pai beijando o amigo com tanta volúpia lhe invadiram a mente e um sentimento que não era o de repulsa, mas sim de ciúmes lhe atingiu. Lembrar que o pai havia tocado em Duo de maneira tão íntima, lhe fez notar que a revolta anterior era por puro e simples ciúme.

Queria apagar aquela lembrança, esquecer que Duo havia sido usado daquela forma.

- Obrigado, Sato… - murmurou agradecido. – Obrigado por não ter virado as costas pra mim.

Aquelas palavras lhe fizeram sorrir. Sabia então que Duo precisava dele, tanto quanto ele precisava de Duo.

Satoshi afastou o amigo carinhosamente e lhe falou olhando nos olhos.

- Eu nunca poderia lhe virar as costas, Duo…

Ele estava ali, com Duo tão perto de si. O rosto frágil, tão lindo e cativante, o atraia tanto. Deixou os olhos azuis vagarem pelos traços esculpidos na pele alva, até pararem nos lábios.

Duo não entendia o porquê de Satoshi estar em silêncio e o olhando com tamanha intensidade e veneração. Pensou em perguntar se estava tudo bem, mas suas palavras ficaram presas em sua garganta quando percebeu a aproximação ousada do amigo. Não conseguiu ter uma reação, pois ficou cativo aos olhos que lhe passavam tanto carinho.

Satoshi aproximou o rosto, fazendo uma tentativa contra os lábios de Duo, sentindo de leve a maciez da boca delicada. O americano estava assustado com aquele tipo de interesse partido do amigo. Sabia que poderia afastá-lo, mas não teve forças para rejeitá-lo. Como não fez objeção, o beijo se aprofundou. Duo correspondeu, sentindo o coração bater forte. Era diferente de Heero, mas ao mesmo tempo, parecia tão familiar. O beijo era cheio de adoração e compensava a falta de experiência. Mas a pergunta era porque aquilo estava acontecendo? Por que Satoshi o estava beijando e por que estava deixando ser beijado por ele? Mesmo que estivesse incerto sobre o interesse dele, via-se incapaz de negar qualquer coisa. Quase estragara tudo o que tinham e não queria decepcioná-lo mais. A necessidade de compensar Satoshi apagou qualquer coerência da mente de Duo, mas também se sentia confortável com aquela demonstração de carinho, que parecia suprir suas maiores carências naquele momento. Levou as mãos ao pescoço dele, entrelaçando os dedos para puxá-lo para mais junto de si.

Satoshi mal podia acreditar no que estava fazendo. Estava beijando Duo, seu melhor amigo, e estava sendo correspondido. Apesar de sua própria incredulidade, estava fascinado pelas sensações que aquela demonstração íntima com o outro garoto lhe traziam. Estava confuso, mas ao mesmo tempo, ciente do que fazia.

Quando interromperam momentaneamente o beijo, estavam sem fôlego. Satoshi deixou sua testa apoiar na de Duo e ambos trocaram um olhar significativo.

- Duo, eu… - o que poderia dizer ali depois daquele beijo que o excitara tanto e diante daqueles olhos tão lindos? – Eu acho que eu…

- É melhor você ir pra casa. Meu pai pode chegar e o seu deve estar preocupado com você. – aconselhou cortando qualquer que fosse a confissão que o amigo fosse fazer.

Satoshi suspirou. Não queria lembrar do pai, não queria que voltasse a sua mente o motivo de estarem ali, mas não replicou, não insistiu. Não queria entristecer, nem brigar mais com Duo, principalmente depois daquilo ter acontecido entre eles.

Ele queria pelo menos dizer o que estava sentindo.

- Tudo bem. Amanhã podemos nos ver?

Duo sorriu um pouco sem jeito.

- Seu aniversário, você quem sabe.

- Eu só queria ficar perto de você e conversar.

Duo o abraçou e afundou o rosto em seu pescoço.

- Sim, nós precisamos conversar. Amanhã.

Satoshi se afastou um pouco relutante do corpo de Duo e recebeu um olhar que ainda tentava disfarçar a confusão sobre o que havia acontecido entre eles. E resolveu pelo menos deixar uma coisa certa.

- Eu achava que gostava de você mais do que deveria e agora que tive certeza disso.

Duo corou e assim Satoshi foi embora, deixando-o para trás ainda mais abalado do que já estava.

-

Duo não dormiu, ficou sentado em sua cama pensando. Não estava cansado, pelo menos não fisicamente. Com a partida de Satoshi ficara com muitas dúvidas perturbando sua mente. Uma das principais era o beijo que havia trocado com o melhor amigo. Lembrar do acontecido fazia com que se enternecesse e ao mesmo tempo pensasse no qual errado fora. Errado porque ele não poderia se apaixonar por Satoshi. Primeiro porque amava Heero, mesmo que este não sentisse nada além de desejo sexual por ele; e segundo porque mesmo que conseguisse esquecê-lo, não acreditava que seria uma situação boa ter sido amante do pai e depois criar um relacionamento amoroso com o filho. Era algo que em sua cabeça parecia estranho, principalmente pelo amor que tinha por Heero. Não sabia se aquele sentimento iria passar e não queria iludir Satoshi, não queria que ele sofresse como estava sofrendo.

Mas não podia negar que havia gostado do beijo, que ainda sentia o alento que lhe trouxera.

Suspirou frustrado por aquela súbita virada de acontecimentos em sua vida. Pelo menos ainda tinha Solo. Como voltara antes do que esperava, poderia ir aquele domingo visitá-lo. Satoshi disse que o acompanharia e já ia se levantar para se arrumar quando escutou a porta da frente se abrir e bater com força.

Seu pai havia voltado.

Tinha certeza que ele tinha passado a noite pela rua bebendo. Duo tinha medo de sair do quarto e topar com a fúria dele, se por acaso estivesse zangado por ter deixado a Solo a tarefa de contar sobre sua ausência de casa no final de semana.

Tentou manter-se em silêncio. Fingir que não voltara para casa, mas seu pai parecia ter um sexto sentido que desconhecia e acabou por vir verificar seu quarto.

- Finalmente resolveu voltar? – o pai se aproximou reparando nas olheiras do filho. – E pela sua cara parece que não foi o final de semana da sua vida.

Pelo tom de voz, Duo sabia que o pai não estava tão bêbado quanto costumava estar. Ainda continuava sentado na cama, abraçado aos joelhos.

- Voltamos antes. Pelo menos vou poder ver o Solo hoje.

As palavras de Duo fizeram o pai se lembrar da ameaça de Solo. Solo queria ir embora e levar Duo com ele. Aquilo o magoara em vários sentidos e queria magoar na mesmo proporção ou mais do que havia sido. Queria que Duo sofresse o mesmo que sentia, para assim ter pelo menos uma compensação por tudo o que passava.

- Solo? Agora que você vem se preocupar com seu irmão? – disse com escárnio. – Se não estivesse tão ocupado nas suas safadezas poderia ter ligado para o hospital para ficar sabendo do estado de Solo.

Duo se alarmou com o tom e as palavras do pai.

- Aconteceu alguma coisa, pai? – perguntou preocupado, endireitando-se na cama.

O pai gostou do tom alarmado que vinha da voz do filho mais novo e não o poupou com as palavras.

- Lembrou agora que tinha irmão? – disse se aproximando da cama. – Enquanto você vadiava por aí, seu irmão teve uma complicação no hospital. Ele passou mal na madrugada passada e não resistiu…

Duo arregalou os olhos violetas, sentindo a garganta ressecar e um baque doloroso e inesperado em seu peito.

- Solo… morreu? – indagou debilmente

- Deveria ter sido você, bastardo… nunca ele. – o pai num tom de tristeza com mágoa e se sentou na beira da cama e levou a mão ao queixo do filho, fazendo-o encará-lo nos olhos. Reparou no brilho das lágrimas que já ameaçavam cair.

- Não pode ser… não pode ser… ele prometeu… não pode ser.

Ele passou a mão no rosto do filho, afastando as lágrimas que caiam e sorriu irônico.

- Igual a sua mãe. Ela podia esmorecer qualquer um com aquelas lágrimas. – sua voz era nostálgica, quase imaginando alguma situação em que presenciara a mulher chorando. Inclinou o corpo mais para frente e trouxe o garoto para um abraço.

Duo estava tão abalado pelo baque daquela notícia que se fechou momentaneamente para o que acontecia ao seu redor. Sentiu o calor do abraço do pai, mas não registrava que os beijos em seu pescoço não eram nada paternais. A única coisa que conseguia pensar era em Solo. A pessoa mais importante da sua vida estava morta e ele não estava por perto quando isso aconteceu. Percebia um dos braços ainda se manter em suas costas sustentando o abraço, mas não ligava para a mão que vagava por debaixo de sua blusa e descia agora, ousada, ultrapassando o elástico da bermuda que usava. Somente conseguia processar as imagens que guardava dos momentos vividos com o irmão mais velho. Havia um peso sobre seu corpo, sussurros longínquos para o alcance de sua mente, embora estivessem tão perto de seu ouvido. Algo rijo roçando de contra sua pélvis e logo depois sentiu uma dor incomoda que o fez finalmente voltar à realidade e simplesmente entrar em pânico. Seu pai estava sobre si, lambendo e chupando seu pescoço, uma das mãos entre suas nádegas, lhe acariciando o ânus.

Duo se debateu e tentou empurrar o corpo do pai para longe de si.

- Pára pai! – pediu em meio ao desespero em que tentava inutilmente se livrar da situação.

Mas este não estava disposto a ouvir suas súplicas, nunca estivera e ali, apenas impelira mais força para mantê-lo firme onde estava.

- Shii… vamos ver se você tem alguma serventia afinal. – o pai sussurrou e Duo pôde sentir forte cheiro de álcool em seu hálito.

O barulho do zíper sendo aberto fez com que Duo se alarmasse e tentasse se debater com mais força.

- Pai! Pára, por favor! Pára! – gritava em súplica, as lágrimas caíam sem refreios pelo pânico de saber o que estava por vir. Não sabia o que tinha dado em seu pai, ele era violento, mas nunca havia tentado lhe molestar daquele jeito.

O som da campainha não fez com que o ataque parasse.

- Não! – gritou quando sentiu que ele tentava arrancar o short que vestia.

Ele tentou chutar o pai para longe de si, quando sentiu o corpo maior folgar um pouco para deslizar o short por suas pernas e, de alguma forma, achou que aquilo só facilitara. Não era forte o bastante para fazer frente ao pai, mesmo assim resistiu quando de forma brusca suas pernas foram afastadas e o outro corpo se encaixou entre elas.

Um estrondo ecoou pela casa, mas nem Duo, nem o pai pareciam ter reparado. Duo, por estar em pânico, querendo se livrar da situação em que estava e o pai concentrado em se aproveitar do corpo do filho.

Duo sentiu o alívio do peso ser tirado de cima de si num único tranco e registrou ainda apavorado que havia alguém dentro do seu quarto e que este jogara seu pai de contra o armário, mas não conseguia bem distinguir quem era. Não queria saber. Tratou de pegar seu short e recolocá-lo rápido em meio aos soluços do choro que não queriam cessar. Quando a pessoa tentou se aproximar, não conseguiu entender o que queria lhe dizer. Para ele estava tudo embaçado e não conseguia reconhecer nada. Quando viu que aquela pessoa continuava a se aproximar, o pânico aumentou e ele se levantou num pulo, empurrando aquele alguém no processo e saindo correndo da casa. Vagamente escutou seu nome ser gritado e isso só fez com que seu desespero aumentasse e corresse ainda mais.

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Heero havia chegado em casa exausto. Depois de uma longa discussão com Relena, ao procurar por Duo e Satoshi para tentar conversar com os dois, havia descoberto que ambos não se encontravam no chalé. As coisas de Duo haviam sumido. Dizer que ficara preocupado era pouco, mas a governanta telefonou para seu celular avisando que o filho havia chegado em casa naquela madrugada, mas sozinho. A mulher estranhara o fato do menino, que deveria estar com o pai para o final de semana, de repente aparecesse sozinho e achou melhor comunicar ao patrão. Heero perguntara por Duo e a mulher confirmou que o garoto não estava acompanhando Satoshi. Então deduziu o óbvio e deu uma ordem a ser seguida por seu motorista.

Heero largou tudo como estava ali e com uma Relena nada conformada desceu para cidade. Depois de deixar a loira em seu apartamento seguiu direto para casa. Chegou amanhecendo o dia e não hesitou em ir direto ao quarto do filho, que para sua surpresa não estava dormindo e estranhamente parecia esperar por sua chegada.

Heero sabia que não seria fácil conversar com Satoshi. Seu gênio forte e a mentalidade mais madura, mesmo para idade que tinha, lhe davam o falso direito de que podia lhe responder no mesmo tom de voz e exigir coisas que não lhe diziam respeito, mas, daquela vez, queria tentar não perder a cabeça com ele.

Satoshi estava angustiado e um tanto sonhador. Depois de ter beijado Duo, era a única coisa que conseguia pensar. Não queria tê-lo deixado depois do que tinham partilhado, queria ter esclarecido melhor as coisas, conversado, principalmente porque ainda lhe perturbava o fato de saber que Duo sentia alguma coisa por seu pai. Há quanto tempo tinha aquele sentimento por Duo e não havia percebido? Quatre tinha se referido sobre seus sentimentos em relação ao melhor amigo, mas não quisera levar a sério. Precisou passar por uma situação daquelas para perceber o que sentia pelo americano. O que mais abalava era o fato de que tinha medo. Medo do que sentia, medo de quando conversasse com Duo talvez não fosse correspondido e, pior ainda, de que assim quebrasse o que eles tinham. Não queria perder a amizade de Duo, mas também não sabia como lidar com aquela descoberta sobre seus sentimentos por ele.

Quando ouviu a porta de seu quarto se abrir e a figura de seu pai entrar, qualquer pensamento sobre aquilo desapareceu e o que restou foi a raiva e o ressentimento. Não se moveu de onde estava, sentado a mesa de seu computador, mas o encarou como se desafiasse a começar as suas explicações que sabia que ele tentaria dar. O fato era que tudo o que ele falaria já sabia de cor, pois Duo tinha lhe contado exatamente o que havia se passado e, mesmo o americano tendo feito de forma a amenizar toda a situação, isso não diminuía nem um pouco a repulsa que sentia agora pelo pai.

- Você voltou com Duo para a cidade sem sequer avisar. O que pensa que estava fazendo?

Satoshi manteve a voz calma.

- Ajudando um amigo que foi usado e humilhado por você.

Heero teve um pequeno sobressalto ante a acusação. Deveria estar preparado para aquilo, mas mesmo assim, escutar o ódio embutido nas palavras e a maneira que Satoshi colocara tudo, fez com que se retraísse.

Duo… estava preocupado com o garoto. Depois que haviam sido flagrados, só tinha visto o garoto fugir constrangido para fora da cozinha e só não foi direto falar com ele, pois não imaginava que este fosse querer ir embora daquela maneira.

- Ele está bem?

Satoshi se corroia por dentro. Era raiva por saber que seu pai monopolizara Duo e ciúmes por aquele tom de preocupação.

- Como pode perguntar se ele está bem! – explodiu se levantando da cadeira. - Você não liga mesmo! Nunca ligou pra nada a não ser a si próprio!

Era exatamente aquele tipo de atitude que irritava Heero. A capacidade de se revoltar de Satoshi e transformar tudo num escândalo desnecessário.

- Primeiro abaixe essa voz e segundo eu me preocupo sim. Pode não acreditar, mas eu me preocupo com você… e com ele também.

Satoshi deu um riso sarcástico e ironizou:

- E quando foi que demonstrou isso? Quando chamou ele de prostituto barato, ou quando disse que ele te dava o que queria e recebia por isso e nada mais? – acusou vendo a reação do pai se tornar mais irritada. Não perdeu tempo então e pegou o envelope em cima da mesa e o estendeu para o pai que franziu o cenho em estranheza. – Duo me pediu para te devolver isso.

Heero sentiu um baque ainda maior ao escutar aquilo. Quando pegou o envelope e viu que ali continha uma absurda quantidade de dinheiro não se deteve em perguntar.

- O que significa isso?

- Duo disse que é o dinheiro que você pagou a ele.

- Mas por que? Eu… esse dinheiro era dele, por que devolver? – Heero indagou com uma agonia crescente em seu peito, mas muito bem disfarçada em sua voz indiferente.

- Ele mandou dizer que acabou, para você não procurá-lo mais. – informou no fundo sentindo um pouco de prazer naquilo. Dizer ao pai que ele não teria mais Duo era um tanto satisfatório, dada as circunstâncias.

Heero só teve uma reação. Inconformismo.

- O que ele está pensando? Ele não pode. Nós temos um trato.

- Como você consegue? – perguntou indignado. – Ele só tem quinze anos. Isso é crime! Isso é… isso é nojento!

Heero estava no limite de sua paciência e se a batida na porta do quarto não o tivesse interrompido e a governanta entrado pedindo licença, teria perdido a cabeça com o filho.

- Desculpe, Sr. Yui, mas Matsuo chegou e pediu para falar-lhe com urgência.

Heero franziu o cenho e estranhou. O motorista havia sido instruído para ir buscar Duo, mas estar requisitando urgência em vê-lo não poderia ser uma coisa boa. Temia que Duo tivesse se negado a vir com ele, já que Satoshi estava lhe dizendo que o garoto havia decidido acabar com o trato que tinham. Mas se Duo pensava que poderia se livrar do que tinham estava muito enganado.

Colocou o envelope no bolso do casaco e dando um último olhar para Satoshi, avisou:

- Nossa conversa não acabou. Pode me esperar aqui que eu vou voltar. E comece a medir seu tom de voz e suas palavras comigo porque não vou tolerar seu ataque de menino mimado.

Virou as costas e saiu do quarto com destino certo até a sala, mas sentiu em suas costas o olhar mortal que o filho lhe lançava de pura raiva.

Quando chegou ao amplo cômodo, viu que o motorista que sempre havia visto com o semblante tranqüilo e calmo, parecia perturbado e nervoso.

Olhou-o com estranheza e perguntou diretamente o que queria saber já que não via Duo por ali.

- Onde está o garoto? Porque não o trouxe?

O empregado de confiança não sabia ao certo como contar, não tinha a menor idéia de qual seria a reação de seu patrão quando contasse tudo o que vira e o que acontecera. Já trabalhava há bastante tempo para os Yui e a forma protetora com que vira o patrão da última vez que mandara buscá-lo o havia surpreendido. Temia que ele não fosse gostar nada de saber do que acontecera.

- Sr. Yui… eu não sei nem como dizer isso.

- Apenas conte e me poupe tempo. – disse de forma seca, mais ansiando pela resposta do que ser agressivo.

- Eu não pude trazer o menino porque ele fugiu… ele… eu, quando cheguei lá e toquei a campainha, escutei o choro e os gritos dele e quando não houve resposta e o menino continuou a gritar, eu arrombei a porta e corri para ver o que acontecia. Quando cheguei no quarto, ele estava lutando… o pai dele o estava molestando… mas quando eu arranquei o pai de cima e tentei me aproximar, o menino ficou fora de si e fugiu. Tentei alcançá-lo, mas o perdi.

Heero ficou momentaneamente atônito. Tentava assimilar o que o motorista nervosamente lhe passava e ainda era com incredulidade que chegava a certeza de que Duo havia sido molestado pelo pai.

- Sr. Yui.

Ficou preocupado com o olhar que o homem estava dando para mais atrás de si. Estranhou, virando-se imediatamente para o olhar do motorista guiava e se deparou com o filho que parecia ter escutado a conversa e estar em choque.

- Satoshi, eu não mandei que ficasse em seu quarto?

O garoto não respondeu ao pai, mas caminhou até o motorista quase que no mesmo instante.

- Você estava falando de Duo, não é Matsuo? – Satoshi viu o motorista desviar o olhar para Heero como se perguntasse o que deveria fazer e insistiu com a voz tremula e o semblante angustiado. – O pai dele, não foi? Ele machucou o Duo, não é mesmo?

Heero ficou preocupado com o filho, apesar dele próprio estar numa tempestade interior de ódio e angústia pelo que acontecera ao americano.

- Satoshi, o que o Matsuo estava contando, não é bem…

- Eu não sou idiota e escutei muito bem o que ele disse! – elevou a voz de forma descontrolada. Baixou o olhar como se tivesse se acalmado e falou como se para si próprio. – Ele violentou o Duo… Eu não deveria ter deixado ele sozinho… a culpa é minha.

Heero franziu o cenho e se aproximou do filho colocando a mão em seu ombro.

- Do que você está falando, Satoshi?

Satoshi estava abalado. Levantou os olhos marejados para o pai e viu que não queria mais guardar aquele segredo de Duo. Não queria trair aquilo que havia prometido, mas para ele era mais importante ter seu amigo bem, do que o peso de uma promessa. Doía-lhe saber que por sua hesitação, por seu respeito à palavra dada ao amigo, algo daquele grau havia acontecido.

- Ele me fez prometer que não contaria, por isso eu não… O pai dele o maltrata. Ele é violento e o espanca quando Duo o desagrada de alguma forma… eu deveria ter contado, mas eu não imaginei que… Duo me fez prometer.

Heero chegava a final conclusão sobre as marcas no corpo de Duo. O garoto lhe mentira ao dizer que havia conseguido aqueles hematomas numa briga. Como fora tolo em acreditar, e mais ainda por cogitar a idéia de que Duo teria conseguido aqueles machucados se deitando com outro cliente. Agora entendia o desespero de Satoshi em querer chegar à casa de Duo naquela noite e o porque de ambos terem uma ligação tão forte como a que presenciara.

- Eu preciso achá-lo, procurar por ele… - Satoshi decidiu, meio sem razão, já querendo se encaminhar para porta, mas foi segurado por Heero, que o deteve pelo pulso. Satoshi reagiu, querendo arrancar o braço à pegada do pai, mas este o manteve firme. Olhou-o com raiva e lutou verbalmente. – Me deixe ir! Ele precisa de mim! Você pode não estar se importando com o que aconteça a ele, mas eu me importo!

- Você não vai a lugar nenhum. – ordenou em definitivo. Ele precisava pensar rápido no que fazer. Não tão diferente de Satoshi, ele queria encontrar Duo e certificar-se de que ele estava bem. – Ele não está em casa, onde você pretende ir para procurá-lo se não sabe sequer para onde ele foi?

Satoshi via razão nas palavras do pai e por aquele momento deixou de lutar. A constatação de sua inutilidade em não ter como encontrar Duo, a culpa por saber que estivera com ele há tão pouco tempo e imaginar o que ele deveria ter passado com o pai, trouxeram as lágrimas à tona.

- Mas eu tenho que encontrá-lo… - de repente algo clicou em sua mente e se agitou mais uma vez. – Solo! Ele pode ter ido ao hospital.

Heero entendeu o que Satoshi queria dizer. O local mais provável para o garoto fugir era para o irmão, mesmo que esse estivesse hospitalizado.

- Eu vou até lá verificar e você fica aqui. – disse ao filho vendo de imediato a recusa em suas feições. – Satoshi, se eu encontrá-lo vou trazê-lo para cá, por isso, não há necessidade de…

- Eu vou! – disse decidido.

- Não, não vai e isso é uma ordem. Você vai esperar aqui até eu voltar.

Satoshi o olhou com ódio e apenas deixou a sala a passos pesados, subindo para seu quarto, onde controlou as lágrimas de frustração e preocupação pelo amigo, que já não era em seu coração simplesmente aquilo. Em meio a todos os acontecimentos conseguiu lembrar com ironia que naquele dia deveria ser seu aniversário. Um belo aniversário por sinal. O pior de sua vida e que ainda não sabia que ficaria marcado como muito mais do que um dia ruim.

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Heero pediu para que o motorista ficasse e assegurasse de que Satoshi não tentaria sair de casa. Ele próprio dirigiu para o hospital. A idéia de que Duo pudesse ter fugido para lá era a mais plausível e por que não dizer que era a único lugar que poderiam realmente procurar. Mas e se ele não estivesse lá, o que faria? Tinha vontade também de primeiro ir até a casa de Duo e acabar com o maldito que ousara tocá-lo. O próprio pai. Como aquele homem tinha o atrevimento de violentar o garoto? Era verdade que este não era o verdadeiro pai de Duo, mas o havia criado. Como em anos de convívio laços não poderiam ter sido criados com alguém como o jovem americano?

Heero apertou com raiva o volante e controlou-se para não dar uma guinada e realmente ir matar o homem antes de ir procurar por Duo no hospital. No fundo também se culpava por não ter percebido que o garoto era espancado. Se soubesse desse fator, jamais teria permitido que ficasse perto daquele homem. Mas infelizmente talvez Satoshi tivesse razão. Talvez estivesse tão cego por satisfazer apenas a si próprio, que não percebera o que de realmente importante acontecia ao seu redor.

Duo era importante para ele? Agora tinha certeza que sim.

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Quando entrou no quarto de Solo, Heero foi recebido por um olhar confuso e de insatisfação. O loiro estava sentado na cama do hospital e pareceu estranhar a presença dele. Seu coração então pesou quando constatou que Duo não estava ali.

- O que quer aqui? – perguntou endireitando a postura.

Heero não respondeu de imediato e Solo sabia que o irmão havia ido viajar com aquele homem e o filho dele. Odiava pensar que Duo estava se dando a um homem que pagava para ter sexo com ele. Não entendia o raciocínio do irmão mais novo, principalmente seus sentimentos de se apaixonar por um homem como aquele, tão mais velho e distante da realidade em que viviam. Mas o que lhe acometeu no momento foi que se Heero estava ali e deveria estar viajando com os garotos, onde estaria Duo? Preocupou-se de imediato.

- Aconteceu alguma coisa com meu irmão?

Heero respirou fundo e ainda falou.

- Ele não esteve aqui, não é mesmo?

- Claro que não! – disse ficando nervoso. - Pelo que me consta ele deveria estar com você e seu filho. O que diabos aconteceu?

Heero tinha como explicar tudo o que havia acontecido? Teria como dizer de toda a confusão sobre Duo lhe vender o corpo e do pai tê-lo violentado?

O silêncio de Heero, que parecia ponderar sobre alguma coisa, irritou Solo que estava angustiado por querer saber sobre o irmão mais novo.

- Eu sei muito bem o que você faz com o meu irmão, então me poupe de crises de consciência agora e me diga o que aconteceu com o Duo.

Heero ficou um pouco surpreso por Solo confessar que sabia sobre seu relacionamento com o garoto. Entendia então o porquê da insatisfação no olhar do loiro, quando este o vira entrar, mas para isso não dava muita importância. Se Solo sabia seria, em parte, mais fácil de explicar. E foi o que fez. Contou tudo o que havia acontecido e mesmo não expressando, sentiu-se mal em contar sobre a violência que Duo sofrera antes de fugir.

Solo não queria acreditar no que ouvia, mas sabia muito bem do que o pai era capaz. Infelizmente, jamais imaginou que o mesmo chegaria a tanto. Abusar sexualmente de Duo era uma coisa que jamais esperara. Sempre temera pela integridade física do irmão pela agressão física que o pai impelia a ele, mas pensar que este via o irmão como algum objeto de desejo era algo inimaginável para ele, e o chocara verdadeiramente. Transtornado só de tentar imaginar o que Duo teria passado, deixava que a dor fosse totalmente impressa em suas feições.

- Pensamos que talvez ele tivesse corrido para vê-lo. – Heero completou, sem saber ao certo o que dizer para o jovem. – Tem idéia para onde ele possa ter fugido?

- Eu vou matar aquele desgraçado. Ele não podia ter feito isso com o Duo. – falou com ódio e tristeza pelo irmão mais novo. – Duo amava aquele filho da mãe. Foi o único pai que ele conheceu e mesmo sempre apanhando e sendo escorraçado, ele o amava como a um pai de verdade.

- Se eu soubesse sobre isso, que Duo era maltratado pelo pai, não teria deixado que ficasse naquela casa sozinho com ele.

Era verdade, jamais permitiria que Duo fosse machucado daquela forma.

- Você é idiota ou quê! – perguntou Solo, voltando sua ira para o japonês. – Não viu os hematomas? Claro que deve ter visto, mas não deve ter dado a mínima, ou então acreditou em qualquer desculpa esfarrapada que Duo te deu, mas o que esperar de um homem que sequer percebe que um garoto está apaixonado por ele e finge ser um prostituto apenas para poder ficar perto dessa pessoa?

Aquela revelação abateu Heero como uma bomba.

- Como assim fingiu ser um prostituto?

Solo riu de forma debochada.

- É mesmo um idiota. Meu irmão foi se vender para pagar a dívida da nossa casa, mas ele não tinha necessidade de continuar fazendo isso. Não tinha motivos e o único que ele tinha para continuar indo pra cama com você era o de ter se apaixonado. Um garoto bobo apaixonado por um homem mais velho que só pensava nele quando queria satisfazer suas necessidades sexuais. – havia raiva, mágoa e principalmente acusação na voz firme de Solo. Aquele maldito japonês também não escaparia da culpa que tinha. – Ele tinha medo, caso você descobrisse sobre esse sentimento, o rejeitasse e não quisesse mais vê-lo, por isso aceitou fingir ser uma coisa que não era.

Heero absorvia as informações que Solo lhe passava com total surpresa. Duo ser apaixonado por ele era uma coisa que ele começara a perceber a muito pouco tempo, mas continuar com ele e submeter-se a ser tratado como um prostituto era algo que nunca lhe passou pela cabeça. Era mesmo tão cego assim? A resposta mais uma vez sabia que era positiva.

- Eu não sabia disso. – foi a única coisa que conseguiu falar ante ao choque da revelação.

- Não, claro que não. Você sabe muito pouco pra alguém tão instruído, sabia? – ironizou com raiva.

Não iria criar discussão com o loiro ali, mesmo porque não o culpava por sentir raiva dele. Duo era seu irmão mais novo e provavelmente sentiria o mesmo se algo parecido acontecesse com Satoshi. Mas isso não o impedia de continuar se preocupando e querendo encontrar Duo.

- Você tem idéia de onde o Duo possa ter fugido?

Solo que esperava uma retaliação a seus comentários, ficou um pouco surpreso por Heero apenas parecer se oferecer para ajudar a encontrar Duo. Percebeu que não era mesmo momento para ser orgulhoso ou jogar sua raiva contra aquele japonês. Primeiro tinha que trazer seu irmão de volta.

- A casa de Wufei talvez, além do seu filho, Duo não tinha amigos íntimos e vivia mesmo mais dentro de casa, até mesmo porque meu pai não gostava que ele ficasse pela rua. – disse sentindo o ódio quase explodir em seu peito ao ter que lembrar daquilo.

Heero assentiu com a cabeça em entendimento e avisou:

- Eu vou procurar por ele.

Depois de pegar alguns endereços, Solo falou, antes que Heero pudesse deixar o quarto:

- Quando encontrá-lo, quero que o traga aqui e se afaste em definitivo dele. Você não tem os mesmos sentimentos que ele guarda, então é melhor cortar esse mal agora do que no futuro meu irmão sofra muito mais.

Heero entendeu a mensagem de Solo, mas não respondeu de volta. Deixou o quarto e seguiu para o estacionamento do hospital para pegar seu carro. Afastar-se de Duo em definitivo? Isso era uma coisa que ele não pretendia fazer, mesmo que seus sentimentos não fossem os mais nobres, ainda assim, não queria abrir mão do garoto por nada.

-

Duo não sabia onde estava, não sabia o quanto havia corrido, andando e finalmente se cansado até que seu corpo não agüentasse mais de exaustão. Deixara-se cair num canto de um beco, fechando-se todo ao abraçar os joelhos e esconder o rosto entre eles. Já não sabia se chorava, ou se apenas emitia os soluços, mas o fato era que ainda estava preso as imagens do pai lhe tocando e ao sofrimento de saber que seu irmão estava morto. Sem Solo, com o pai lhe molestando, o que restara para ele no final das contas? Quase nada. Não conseguia lembrar, não queria lembrar. Não sentiu a chuva que começou a cair naquele dia nublado, não sentiu o corpo ficar encharcado, não sentiu frio, apesar de seu corpo tremer, não sentiu fome quando as horas se passaram e o dia virou noite, não sentiu nada.

- Hey, está tudo bem? – uma voz lhe perguntou.

Duo escutou o chamado no fundo de sua mente e levantou o rosto assustado quando a pessoa tentou tocá-lo no braço. Encolheu-se o máximo que pode de contra a parede suja do beco, e apesar de tentar focar o olhar na pessoa a sua frente, só via embaçada e distorcida a imagem do pai lhe tocando de forma íntima.

A pessoa a sua frente pareceu hesitar e depois um instante falou:

- Um garoto bonito como você não deveria estar sozinho nessa parte da cidade. Muito menos num beco como esse.

Duo não reconheceu aquela voz. Não sabia quem era, mas sua visão aos poucos foi desanuviando e logo pôde encarar com mais clareza as feições do homem agachado a sua frente. Era um alívio não ter que ver ali o rosto de seu pai.

- Não precisa ficar com medo de mim, menino. – disse-lhe o homem, que em suas feições aristocráticas e olhos azuis, lhe passaram um sentimento de confiança e amabilidade. – Você precisa de ajuda?

Duo não respondeu. Sentia vontade de voltar a chorar, de se encolher e esperar que o mundo acabasse a seu redor. E o homem a sua frente pareceu perceber isso e vagarosamente levantou uma das mãos numa tentativa de lhe tocar o rosto.

Duo fechou os olhos fortemente, já que não podia ir além daquela parede onde estava se espremendo, mas sentiu o toque quente na sua face. Não sabia o que esperava. Uma bofetada? Um carinho nojento de alguém que queria se aproveitar? Talvez. Mas o que o gesto lhe transmitiu foi apenas tranqüilidade.

Era um carinho que quase lhe lembrava o de Solo. Sua feição assustada se amenizou e abriu os olhos lentamente, mais uma vez encarando o rosto do homem que agora lhe sorria em simpatia.

- Venha comigo. Eu vou cuidar de você.


Por que o medo sempre rezou sobre sua confiança

Eles viram as conseqüências?
Eles empurraram você de volta?

Porque a fraqueza procurará pelos fracos até quebrá-los

Você conseguiria se reerguer?

Seria a mesma coisa?


Nota:

O capítulo saiu grande, eu pensei em quebrá-lo e postar primeiro uma parte, depois a outra, mas Dhandara fez o grande favor de ler e me aconselhar a postar tudo como um único capítulo. Realmente espero que não tenha sido um capitulo onde a leitura tenha ficado muito maçante…