Kalahari

Capitulo 6

Já havia perdido a conta das vezes em que me olhara no espelho e ensaiara as frases feitas, mas para cada uma, eu procurava usar uma expressão diferente, um olhar mais languido, algo que impactasse.

–Não!

Tinha que ser algo mais cálido, santo, um olhar que falasse diretamente na alma. Tentei me lembrar de como eu fizera no navio, com aqueles homens, eles sem duvidas eram assassinos de verdade. Mas eu só me lembrava de que primeiro, havia fechado bem meus olhos, minha testa pingava o suor do corpo e minhas mãos tremiam com a cruz entre os dedos. Sacudi a minha cabeça e me levantei daquela penteadeira. Nada funcionava, eu não iria conseguir convencer a ninguém que era uma santa mulher, não depois da tarde de pavor que eu tive com aquela criatura malcriada, estava perdida, era melhor entregar os pontos e aparecer naquela sala com as mãos estendidas para as algemas.

Tornei a fechar meus olhos, eu via tudo com requintes de perversidade, do xerife me algemando, me chamando de farsante, depois, os olhos verdes faiscando fogo vivo, me queimando todinha, com certeza o Cullen iria me torturar pessoalmente para que eu confessasse onde havia arranjando tanto dinheiro.

Estava enlouquecendo, deveria ser efeito do sol que torrou meu cérebro.

Não! Eu tinha que arranjar um jeito de pegar meu dinheiro e depois fugir daquele lugar, antes de morrer esfolada viva. Andei pelo quarto nervosa e voltei para a janela, o dia já deveria ter se findado, mas naquele continente tudo era diferente, o cheiro do ar era quente, selvagem, as pessoas eram fortes e resistentes como o solo seco e rachado. Eu ainda não havia entendido o que minha mãe vira naquele país. De repente, uma batida leve na porta e, eu me assustei ao ponto de bater minha cabeça na madeira da janela, doeu tanto que fiquei zonza.

–Madre Bella?

Era a voz doce de Zahara.

–Sim?

–O xerife Chenney está aqui!

–É mesmo? – a minha voz saiu fraquinha demais.

–Sim, ele está ansioso por conhecê-la!

–Maravilhoso! - meu sorriso para Zahara foi algo medonho, entre o pavor e o sofrimento.

–Madre, você está bem? Posso ajudá-la em alguma coisa?

Sim, me dê uma faca para eu me matar! Não o revolver é mais rápido e eficiente.

–Está tudo bem querida, vá na frente que eu já vou!

–Sim, ah madre, eu fiz um cozido especial esta noite, espero que aprecie!

Zahara me sorriu lindamente e depois se foi, ela era um anjo naquele inferno. Caminhei sentindo o peso dos condenados nas pernas e fui até a penteadeira e abri uma gaveta a remexendo, um tecido delicado de seda alisou meus dedos e não resisti o tomando, era uma echarpe mesclada em tons de azul e branco, muito bonita, eu senti o cheiro do perfume da mamãe e puxei um pouco mais o tecido quando algo pesado caiu dele. Meus olhos não acreditaram no que viram, eu abri a boca e quase babei.

–Alguém lá em cima gosta de mim!

Eu senti lagrimas saindo dos meus olhos, era perfeito! Quando voltei a me olhar no espelho meus olhos já não tinham mais a expressão de desespero, sorrindo, eu passei a echarpe na minha cabeça de modo a ajeitá-la com eficiência e classe, pronto, meus cabelos estavam cobertos e me dava um ar digno de senhora acima de qualquer suspeita. Joguei a ponta do tecido nas minhas costas e me ergui. Quando voltei a andar já me sentia mais leve e com o livro em uma de minhas mãos, eu abri a porta cheia de coragem.

A primeira coisa que senti foi o cheiro maravilhoso da comida de Zahara, eu não sabia do que era o tal cozido, mas o danado deveria estar bom de encher a boca. Meus estomago protestou, a quanto tempo eu não comia nada, nem lembrava! Depois, pude ouvir uma risada franca e aberta, mas o tom da voz era diferente, não se parecia com Jacob ou do demônio de olhos verdes. Deveria ser o xerife!

Minhas pernas começaram a tremer e eu me utilizei do exercício de respiração que aprendera nas aulas de canto.

–Calma Bella, calma!

Assim que o corredor terminou, eu dei de frente com a sala onde tudo aconteceu, fechei meus olhos e sacudi a minha cabeça, tentando exorcizar as lembranças de horas atrás.

–Madre Bella?

Uma voz alegre e jovial me fez abrir os olhos e cheia de surpresa eu vi um homem jovem, magro e alto com olhos quase infantis me olhando. Suspirei profundamente e tentei lembrar do modo como a superiora do colégio falava com as meninas antes das aulas se iniciarem, eu tinha que tentar alguma coisa, afinal das contas.

–Boa noite, meu filho! – usei uma voz suave e cálida, mas, uma risada debochada e escandalosa fez meus nervos pifarem e, ele ainda teve a audácia de bater na coxa antes de falar, após rir bestialmente por quase um minuto inteiro.

–Ben Cheney tem idade para ser teu irmão e não filho, francamente!

Eu não me dignei em olhar para ele, apenas apertei os dedos no livro e tornei a respirar profundamente antes de falar, procurando manter o falsete cálido e suave que havia usado antes:_Verdade seja dita, diante do altíssimo, somos todos irmãos!

Assim que acabei de falar, meneei a cabeça levemente a inclinando para baixo e acho que me sai bem, pois assim que ergui a cabeça e olhei para frente vi a um brilho de confirmação nos olhos de Ben Cheney e a voz arrogante de Edward Cullen calou-se.

Quase vibrei, depois de tudo pelo o que passei, torrando feito pão no deserto, ser pisoteada por um animal enlouquecido e depois ficar de bunda ao ar e servir de atração para aquele malcriado, julguei que iria conseguir passar aquela noite sem ser presa, morta ou escorraçada.

Sem perceber estava sorrindo.

–Angela ficara muito feliz em saber que temos a uma freira jovem na cidade.

Quem?

–Que grosseria a minha, me permita apresentar-me, Benjamin Cheney, eu sou o xerife desta comarca e, não sou o prefeito, mas, gostaria de lhe dar as boas vindas, madre Bella.

Apesar de tudo eu estava gostando daquele xerife. Ele se aproximou de mim e estendeu uma das mãos.

–Espero que a sua ordem permita saudá-la com este cumprimento cordial, madre!

–Mas é claro que sim, não somos assim tão severas! – acho que fui muito entusiasmada ao pote, pois vi de soslaio ao olhar enigmático de Edward e minhas pernas voltaram a tremer. Só havia uma solução, eu deveria olhar o mínimo possível para aquele homem impossível e com gratidão nos olhos eu vi o xerife me indicar uma cadeira, longe dele, mas, tive que passar por cima das pernas longas e musculosas e indevidamente lembrei-me do calor da coxa dele no meu traseiro.

–Jacob me disse que você, se me permite chamá-la assim, passou por maus bocados no deserto, madre.

Assim que me acomodei na poltrona eu coloquei o livro sobre o meu colo e tornei a jogar a ponta da echarpe para trás.

–Sim, mas a proteção do altíssimo estava comigo.

–Com certeza! – a voz de Ben Cheney soou com muito entusiasmo – sentir aquele calor, sem uma gota de água e ainda ser pisoteada por um búfalo e sobreviver, só pode ser obra do altíssimo!

Eu sorri com satisfação, pois sentia que a vida era maravilhosa, ainda mais depois de passar por tantas emoções de quase morte. Mas, meu sorriso morreu assim que a voz de Edward, agora muito sério falou intrometida.

–O que eu gostaria de saber mesmo, era o que você fazia naquele lugar?

–Senhora!

–Como é?

–Senhora madre Bella, meu jovem! Eu já lhe disse, se lembra?

Eu vi os olhos dele se projetarem a tal ponto de quase pularem das órbitas, de repente eu voltei a sentir aquele temor pela minha vida, mas, fui salva novamente por ele, Jacob Black!

–Madrezita, que alegria vê-la assim, tão bem disposta!

–Jacob, meu salvador! Estava sentido sua falta nesta sala, agora o ar ficou até mais leve...

–Pois para mim, parece que os calores dos infernos subiram, vai uma bebida, Ben? - eu não tinha a coragem suficiente de firmar meus olhos nos dele, mas sentia a forçar daquele olhar aquecer a todo o meu lado esquerdo e a voz, que bem parecia chicotadas no meu corpo.

–Não Edward, vou respeitar a madre aqui presente, acho que você deveria fazer o mesmo e moderar esta tua língua solta!

–Só se desmanchasse ele e o fizesse de novo! – Jacob falou muito indignado.

–Jacob, para o altíssimo, nada é impossível, apenas, tenha fé! – voltei a usar meu tom cálido ao falar, ele sempre dava bons resultados, menos com ele, Edward!

–Puta Merda! Está todo mundo contra mim hoje? Zahara?

O grito do homem foi capaz de fazer as paredes sacudirem. Eu tinha que admitir, ele era força bruta em tudo, no corpo, na voz, no espírito. Eu não conseguia enxergar a um pontinho de franqueza naquele ser.

–Sr. Cullen? – o anjo da Zahara entrou sorrindo.

–Está pronta esta comida mulher? Meu estomago trocou de lugar com o cérebro! – havia um tom de suplica quando ele falou, até parecia uma criança de cinco anos. Zahara tinha o incrível poder de acalmar a fera. Mas um riso debochado escapou da minha boca e ele ouviu.

–Contei alguma piada, madre?

–Piada? Imagina, se não o ouvisse falar, jamais iria supor que o senhor usasse o estomago no lugar do cérebro, não senhor! – falei usando um tom mais agudo e bem irônico que fez Jacob e o xerife rirem gostoso.

–Acabei de arrumar a mesa, será uma alegria esta noite, com o xerife e a madre Bella conosco!

Eu sorri retribuindo a doçura da Zahara, mas o demônio Cullen não iria deixar as coisas como estavam, não mesmo!

–Hum! Bom, já que temos a uma religiosa nesta casa, seria muito bom ouvir uma prece, antes de comermos, não é mesmo, Senhora Madre Bella?

Eu engoli a saliva que secara na minha boca e apertei com força o livro santo, pois eu não esperava por isto. E agora?

Eu não sabia rezar!

Eu vi a mão enorme e morena de Jacob estendida para mim e os olhos negros brilhando emocionados. Me apoiei nela e me ergui, o xerife balançou a cabeça para mim, para que eu e Jacob seguíssemos na frente. Eu vi o sorriso de Zahara e os dentes brancos perfeitos, depois olhei para o lado, só para confirmar e lá estava ele, com um brilho perigoso no olhar e um sorriso, de lado e debochado na face.

Que homem terrível!

Voltamos para o corredor, mas ao invés de virarmos para o lado dos quartos entramos na próxima a esquerda, era uma sala ampla, com um enorme e lindo lustre e embaixo dele tinha uma mesa enorme e bem posta. Era tudo muito lindo e delicado, as louças e o modo como foram ajeitadas sobre a mesa. Não consegui deixar de lembrar dos tempos felizes da minha vida, quando ainda tinha casa, tinha meu pai e jantávamos todas as noites juntos, em mesas tão lindas quanto a desta noite.

Zahara.

Ela sem duvidas, deveria ser a alma iluminada daquela casa.

–Oh, Zahara, está tudo lindo!

Eu vi com alegria como ela ficou encabulada com o elogio. Jacob puxou uma cadeira para mim e antes de me sentar, eu vi Edward passando por nós. Senti o cheiro másculo do seu corpo, era doce e forte. Assim que me sentei, ele puxou uma cadeira e sentou-se também, a cabeceira da mesa, meus olhos se abaixaram até o músculo da coxa tensionado. Edward pousou o copo com que se servira de bebida na outra sala e aguardou até todos estarem acomodados, até Zahara sentou-se conosco.

Depois, como eu esperava, ele me olhou novamente, daquele jeito enigmático e tornou a fazer-me o convite.

–Madre Bella, por favor, estamos todos ansiosos pelas suas palavras de benção!

Foi ai que eu senti o peso do livro em meu colo e o coloquei na mesa, depois, eu o empurrei para ele que me olhou aturdido, surpreso mesmo.

–Está é uma noite especial, que tal se o senhor lesse um trecho deste livro para nós?

–Eu? – agora havia raiva quando ele voltou a se manifestar.

–Sim, sendo o dono da casa, suas palavras seriam acolhedoras. O senhor sabe ler, senhor Cullen?

–Com todos os dia..., mas é claro que eu sei ler! Vai demorar demais ler algum versículo...- ele meneou a mão enorme no ar, tentando dar ênfase ao que dizia – o ensopado vai esfriar!

–Com o calor que está fazendo esta noite, acho que podemos correr a este risco...

Ah! Se eu iria passar apuros ele iria junto comigo! De algum modo Edward percebeu, pois se inclinou para frente e me fuzilou com os olhos e falou por entre os dentes.

–Primeiro a reza, depois eu leio!

–Madrezita? – Jacob, meu herói!

–Sim! – naquele momento eu não tinha medo, continuei a olhar firme para Edward.

–Se a senhora não se importar, gostaria de fazer a esta singela oração! – Jacob estava chorando?

Voltei-me para ele, sim, havia lágrimas nos olhos de Jacob!

–A senhora ainda não sabe, mas eu fui criado em um orfanato de freiras na minha querida terra. E todas as noites orávamos agradecendo as bênçãos...

–Oh Jacob, mas que historia bonita! – eu toquei com carinho a mão de Jacob e ouvi um suspiro impaciente vindo de Edward.

–Sim, eu gostaria de fazer a esta oração, se me permite?

–A melhor oração é a que vem do coração e é espontânea, meu querido!

–Obrigado, madrezita!

Jacob uniu suas mãos enormes e curvou sua cabeça, era o sinal para fazermos o mesmo, depois a voz grossa e sentimental foi ouvida.

–Senhor, esta noite, nesta mesa farta, agradecemos a graça do pão misericordioso, AMÉM!

Houve um momento constrangedor de silêncio, mas Zahara o quebrou repetindo a palavra e logo foi seguida por mim e por Ben. Quando abri meus olhos me assustei com o modo de Edward.

–Jacob, que bosta de oração é esta?

Como ele conseguia ser tão rude?

–Foi uma oração muito singela, Jacob, obrigada!

–Hombre! Se acha que pode fazer melhor, faça!

–É melhor começarmos a comer! Zahara por favor, me passe o purê?

A refeição começou a ser servida em silencio e logo se ouvia apenas o mastigar das bocas, as minhas mãos tremiam muito quando finalmente eu coloquei o bocado de comida no garfo e o levei até a minha boca. Fechei meus olhos e me transportei para outro mundo com aquele sabor divino.

Acho que gemi!

Depois, perdi o controle e passei a comer desesperadamente, eu tinha medo de que o prato fugisse da minha frente. Alguém me passou a tigela do arroz e das batatas, peguei o quanto podia e me servi de mais ensopado.

–Hã, madre Bella?

Alguém realmente iria me interromper naquele momento de sublime prazer?

–Então, a senhora poderia nos falar um pouco mais sobre seus planos para abrir o convento nesta cidade, soube que já possui verba para isto, não é mesmo?

Fiquei entalada com um pedaço de carne bem no meio da minha goela e, lágrimas brotaram dos meus olhos.

Que situação mais indigesta!

Continua...