*Não vim aqui pelos mirtilos*

Duas semanas depois...

Desanimado, Nick corria vagarosamente a pata pela folha de calendário que estava sobre a sua mesa, seus olhos verdes – e muito melancólicos – encarando com um quê de desesperança e arrependimento os dias marcados com um X feito a caneta.

Fazia exatamente duas semanas que Judy recebera alta do hospital.

Duas semanas desde que os pais dela a levaram de volta às Tocas para se recuperar.

Duas semanas sem vê-la, ter notícia e sem, muito menos, tentar entrar em contato com ela.

A última vez que ficaram tanto tempo sem notícias um do outro foi há alguns anos, na época do caso das uivantes – o primeiro caso oficial de Judy, e o primeiro não-oficial de Nick –, mais precisamente depois do fiasco que foi a coletiva de imprensa dada pela coelha após terem descoberto o paradeiro dos vários mamíferos desaparecidos. Naquela época, os dois ainda mal se conheciam – embora aquelas quarenta e oito horas de convivência terem sido mais do que suficientes para Nick descobrir em Judy uma amiga –, e os meses que ficaram separados, apesar de terem sim incomodado – e muito – a raposa, não lhe causaram o mesmo sofrimento e amargura que essas duas semanas estavam causando.

Porque, agora... agora, a situação era um tanto quanto diferente, talvez mais delicada, mais pessoal, mais aflitiva. Agora, Nick não estava apenas chateado e irritado por descobrir que Judy o temia.

Agora, a mera ideia o deixava completamente apavorado.

— Wilde!

O berro inesperado despertou o vulpídeo de suas reflexões, arrastando-o com tudo de volta ao mundo real.

Piscou algumas vezes, balançou rápido a cabeça para os lados e, após estar cem porcento desperto e atento, olhou para frente.

E deparou-se de imediato com a carranca habitual do chefe Bogo.

— Na minha sala, agora! — Comandou o gigantesco búfalo, e Nick, enquanto seguia o chefe, tentou fingir não perceber os olhares de pena que McHorn, Delgato e Grizzoli lhe lançavam.

Abaixou a cabeça e caminhou meio que sem vontade até a sala do chefe do Departamento de Polícia de Zootopia, sentando-se na cadeira antes mesmo que Bogo o mandasse se sentar, poupando seus ouvidos de mais um dos berros do zangado bovino.

— Então, chefe — Murmurou ele, vendo Bogo pegar alguns papéis e começar a assiná-los e carimbá-los. — Algum problema?

— E quando é que não tenho problemas? — O búfalo grunhiu, grosseiro, e prosseguiu: — Vou direto ao assunto. O seu rendimento nos últimos dias tem sido o pior da história do DPZ, Wilde.

Nick engoliu em seco, seus olhos enormes e amedrontados e suas patas abrindo e fechando nervosamente sobre o braço da cadeira.

— Senhor, eu... — Ele engasgou, a boca seca demais para falar. — eu sei que tenho deixado a desejar, mas... mas peço que só me dê outra chance. Uma chance apenas.

Bogo bufou, um som de puro desprezo, e estendeu a Nick um envelope amarelo.

— Aqui está sua outra chance. Vá acertar suas coisas com os Recursos Animais.

— O quê? Recursos... Espera aí! Você está me mandando embora? — Perguntou a raposa, recusando-se a pegar o envelope.

— Claro que não! Não seja estúpido — Bogo o respondeu com firmeza. — Estou te dando uma semana de folga.

Ainda um pouco desconfiado, Nick aceitou o envelope e folheou rapidamente o seu conteúdo. Ao tornar a erguer a cabeça, encarou o chefe bem nos olhos.

— Eu não preciso de folga, senhor. Eu estou bem. Juro.

Bogo arqueou uma sobrancelha.

— Geralmente, os mamíferos costumam beijar os meus cascos por uma folga. E não. Você não está bem. Você está exausto — Disse ele, seu vozeirão soando estranhamente suave. — Esse último caso abalou muito o DPZ, mas, de todos nós, você foi o mais afetado. Então, aproveite essa folga e use bem esses dias para se recompor e clarear as ideias, está bem? Ah, e faça um favor a si mesmo e vá visitar a Hopps.

Um tremor percorreu o corpo de Nick no momento em que Bogo fez aquela sugestão. As costas da raposa se retesaram e seus músculos se enrijeceram por causa da súbita tensão.

Com uma voz derrotada e miúda, ele falou:

— Chefe, eu não acho que essa seja uma boa ideia.

Bogo cruzou as patas na frente do peitoral largo.

— E por que não?

— Você não entenderia.

— É mesmo? — O búfalo provocou. — Pois eu acho que entendo muito bem. Você fica sabendo que uma das coelhas teve um ataque de pânico ao ver um predador e começa a tirar conclusões precipitadas e agir feito um covarde. — A indignação que sentiu ao ouvir a acusação quase fez Nick engasgar. Nervoso, fez menção de responder algo, entretanto, Bogo não lhe deu espaço e continuou: — Olha, Wilde, eu não sei muito bem que tipo de relação você tem com a Hopps e, sinceramente, eu não dou a mínima pra isso. Só digo que, se você, de repente, não quer mais agir como um amigo decente, aja, pelo menos, como um parceiro decente. Vá ver a nossa coelha. E não me faça ter que tornar isso uma ordem.

Nick respirou fundo e, após um tempo, assentiu.

— Eu... eu vou pensar no assunto — Murmurou e pôs-se de pé.

Bogo fez que sim com a cabeça e tornou a enterrar o focinho na papelada que estava sobre a mesa.

— Você faça isso. Agora, suma da minha frente.

~Zootopia~

Dois dias depois, Nick encontrava-se no trem a caminho das Tocas.

Ele deixou Zootopia um pouco antes do meio-dia e chegou à estação das Tocas no final da tarde. Com um pouco de sorte, conseguiu uma carona com um velho – e muito prestativo – castor, que o deixou subir na carroceria da caminhonete e o levou praticamente até a porta da casa da família Hopps antes que o sol terminasse de se pôr, e ainda deu a Nick alguns sabugos de milho de presente, os quais a raposa aceitou de muito bom grado e os guardou num compartimento da sua mochila.

Após se despedir do velho castor, inspirou fundo, como se para reunir coragem, e estacou na frente da porta da casa. Encarou a campainha por um tempo – minutos, até – e, quando, depois de muito ponderar, suspirar e de ter alguns pequenos ataques de pânico e surtos de ansiedade, finalmente resolveu erguer a pata e tocá-la, a porta se abriu.

— Nicholas? — Bonnie Hopps falou assim que abriu a porta, seus olhos ligeiramente arregalados ao deparar-se com a raposa. — Então era você! Podia jurar que tinha ouvido um barulho aqui na frente e vim ver o que era. Ah, mas onde estou com a cabeça?! Entre logo, meu querido.

Ela abriu espaço para ele, recebendo-o com sorrisos calorosos e um abraço apertado, o qual Nick, embora um tanto quanto acanhado, respondeu prontamente.

— Não sabia que viria.

A raposa coçou a nuca, sem graça.

— Isso foi culpa minha, na verdade. Eu vim sem avisar. Espero que não tenha problema.

Bonnie abanou uma pata gorducha no ar e o guiou até a cozinha, onde puxou uma cadeira para Nick se sentar.

— Claro que não! — Assegurou ela com sinceridade enquanto enchia uma chaleira com água e separava um pouco de hortelã para preparar chá. — Embora deva confessar que, se soubesse que teria visita, com certeza teria reservado alguns mirtilos para você. Sei o quanto você gosta dos nossos mirtilos, mas, infelizmente, não tenho nenhum para te oferecer... ...ontem foi dia de feira na comunidade e acabamos vendendo tudo.

— Não tem problema — Nick balançou a cabeça para os lados. — Não vim aqui pelos mirtilos — Confessou, a voz muito mais rouca e profunda do que de costume, e, ao escutá-lo falar daquela forma – séria e cheia de emoção –, o semblante de Bonnie se suavizou.

A coelha pegou duas xícaras de porcelana do armário e, após oferecer uma a Nick, sentou-se ao lado dele.

— Eu sei que não — Disse ela com um sorriso pequeno e triste nos lábios. — Judy foi ajudar Stu com a colheita, mas acredito que deve retornar em breve. Já está começando a escurecer.

A raposa assentiu devagar e começou a brincar com a xícara, girando-a em suas patas. Sem encarar a coelha ao seu lado, perguntou:

— Como ela está?

Bonnie exalou um sopro de ar antes de responder.

— Vou ser sincera com você, Nicholas — Confessou, cansada e tristonha, as patas crispando a barra do avental de algodão. — É muito difícil ver a minha Judy desse jeito. Ela nunca conversou com a gente sobre o que aconteceu e sempre que perguntamos diz estar bem, mas, por mais que ela tente se fazer de forte, eu sei que ela está sofrendo muito. Eu sinto que ela precisa conversar sobre o que passou, talvez apenas desafogar isso do seu peito, mas, ao mesmo tempo, eu sinto que ela tem medo de nos contar o que houve.

Nick apertou a xícara entre as patas e sentiu um nó apertado se formar em sua garganta.

— Eu queria poder fazer mais por ela, você me entende? — Continuou Bonnie após um longo suspiro. — Mas não posso fazer nada além de ter paciência e esperar que ela encontre a coragem para se abrir conosco... ou com alguém em que confie.

Houve silêncio depois, que foi quebrado apenas pelo apito insistente da chaleira, indicando que a água já estava fervendo. Bonnie se levantou e foi até fogão, colocou algumas folhas de hortelã dentro da chaleira e, após tampá-la, levou-a até a mesa.

— Senhora Hopps — Chamou ele, e a coelha o fitou bem nos olhos. — Poderia me dizer uma coisa? E eu preciso que diga mesmo a verdade.

— Claro. O que foi?

— A Judy... ela... — Ele inspirou e expirou o ar com força e esforçou-se para vencer o medo.

Medo não de fazer a pergunta, mas sim de ouvir a resposta.

— Você acha que teria algum problema se ela me visse?

Bonnie franziu a testa em incompreensão.

— Não entendi bem o que quis dizer...

— É que parece que uma das coelhas estava tendo problemas em se aproximar de... de… — Ele hesitou e se calou de vez, as palavras amontoando-se em sua garganta e não ganhando mais vazão. Sentiu a respiração se acelerar, tornando-se mais rápida, mais laboriosa e mais sofrida. Sentiu o coração doer. Sentiu o sangue gelar.

E sentiu, por fim, a pata macia da senhora Hopps apertar bem devagarzinho a sua própria pata.

— De predadores? — Ela completou por ele, e Nick, não conseguindo vocalizar nem mais uma palavras, apenas assentiu, sua cabeça balançando vigorosamente para cima e para baixo. — Nicholas, eu entendo a sua preocupação e não sei direito que resposta te oferecer. Mas acho que seria melhor você perguntar isso diretamente para Judy. Você não acha?

Bonnie, então, fez um gesto rápido com a cabeça, como se apontando para alguma coisa, e Nick virou o rosto para o lado, olhando na direção em que ela apontava. E foi impossível não arregalar os olhos e prender a respiração ao ver que era Judy quem estava ali, parada ao lado do batente da porta da cozinha, o corpo pequeno escondido sob um largo macacão jeans e as patinhas sujas de terra segurando com firmeza uma caixa de madeira cheia de tomates, rabanetes e cenouras.

— Judy — O nome escapou na forma de um suspiro fraco e quase inaudível.

E a resposta dela não demorou a vir.

— Ei, Nick. Há quanto tempo.