CAPÍTULO SETE ANDREAS
O tempo continua correndo, indiferente se as pessoas são felizes ou não. E não foi diferente naquele pedaço de terra. O inverno chega rigoroso e imponente, mas como tudo tem um fim, ele vai embora e dá lugar para a mais florida das primaveras, enchendo de vida as matas e as almas dos humanos.
Naquele casarão, a Dama Triste e agora curiosa, passa a trabalhar numa tarefa agradável e ricamente frutífera: transformar o belo camponês em um homem refinado, pronto para lidar com o lado mais abastado e esnobe daquele reino.
A primavera vai embora e deixa o palco para que o Verão assuma a performance principal. Ele atua soberano e cumpre sua função na natureza, deixando o resultado benéfico de sua atuação, para a entrada triunfante do outono.
Noite após noite, durante o mesmo período, a Dama Triste visita os aposentos de Andreas e traz a mesma pergunta: "Você irá se entregar a mim, esta noite?" e sempre obtém a mesma resposta: "Não posso." E lá ia ela desaparecendo na escuridão dos corredores da grande casa, carregando a mesma expressão de derrota das outras noites.
Naquela manhã, depois de cumprir seu ritual quase religioso de olhar pela sacada do mais alto quarto do casarão, na esperança de ver ao longe a chegada de seu amigo, ou criar alguma rota de fuga, Andreas retorna para a sala que abrigava o atelier de Agnese. Encontra a mulher entretida num bordado em uma tela rendada.
- A senhora já pensou como seria sua vida fora destas paredes?
- Já lhe disse que minha irmã bloqueou as saídas para mim. Nem por portas ou pelas janelas. O mais longe que vou é a sacada do quarto superior. – ela encara seu prisioneiro. – Aqui, o tempo parou para mim, e se eu sair virarei as cinzas de um cadáver já decomposto.
- Mas e se saísse por algum lugar que não fossem as portas ou janelas?
Agnese estreita as sobrancelhas finas.
- Do que está falando, belo homem?
Andreas sorri e vai ajoelhar-se diante dela. Apoia suas mãos sobre os panos da saia do vestido dela, em seus joelhos.
- Eu estava à procura de um feijão mágico para a abertura de um portal. Depois, meu amigo e eu iríamos até o reino onde meu pai está!
Agnese sorri e nega com a cabeça.
- Não me atreveria a fazer tal travessura. Não saberia como meu corpo reagiria.
- A sua irmã bloqueou as portas e janelas desta casa. Mas um portal não é aberto em janelas. Abre-se onde o feijão for atirado!
- Não tenho este feijão...
- Mas tem os meios de conseguir a informação. Ofereça algumas moedas de ouro a quem trouxer informações sobre onde encontrar alguma vagem com estes feijões. Os aldeões não ousarão mentir para a grande Dama Triste. – Andreas segura as mãos de Agnese. – Eu lhe imploro!
- E depois que estivermos de posse da vagem com os feijões, o que faremos? – o tom de voz da mulher é cínico.
Andreas sorri de forma alegre.
- Abriremos o portal e estaremos junto do Capitão Gancho!
Pouco mais de uma semana depois, Agnese presenteia seu belo prisioneiro com um pergaminho amarelado, contendo as coordenadas do local onde um velho eremita cultivava uma plantação remanescente de feijões. Um pequeno rancho protegido por homens contratados para impedirem a entrada de ladrões.
- Como irá me pagar pelo presente?
Os olhos cristalinos de Andreas permanecem fixos na caixinha. Admirava a possibilidade de encontrar seu pai e trazer as informações para a nova empreitada de sua mãe. Sequer escuta a pergunta.
- Andreas Verbenas, quero saber como me pagará esta presente?
Levantando apenas os olhos e mantendo a cabeça abaixada, o rapaz rouba para si todos os traços do belo rosto do capitão pirata.
- Você receberá a sua liberdade!
Era tarde da noite, quando Andreas apresenta-se para Agnese, já preparado para a viagem. Com roupas apropriadas para protegê-lo contra o frio da noite e do vento forte, ele estava pronto para derrubar os obstáculos que pudessem impedí-lo de encontrar o seu pai.
- Eu lhe agradeço por permitir que as portas se abrissem para mim.
- Você deverá retornar até a segunda semana da próxima estação ou mandarei alguns mercadores de escravos atrás de você. E tenha certeza de que enviarei os piores da casta dos farejadores.
Um olhar carregado de fúria exibe-se para a Dama Triste. Um olhar perigoso e ameaçador. Um olhar visto inúmeras vezes em tempos passados, mas no rosto do capitão pirata.
- Estarei de volta. E viajaremos para o reino onde está meu pai. Dou-lhe minha palavra de que voltarei e marcarei sua vida!
E ele parte no meio da noite.
