Capítulo 7 – Porta


Nota de Autora (1): Capítulo dedicado a Vivi Andromeda, num dia especial, o dia em que ela completa primaveras. Feliz Aniversário querida. Lê a segunda nota de autora.


Um homem estava sentado numa poltrona de estofos castanhos ligeiramente puídos. As suas pernas estavam estendidas e os tornozelos cruzados um sobre o outro. Os seus braços estavam pousados sobre os apoios da poltrona e com o dedo médio da mão direita ele fazia movimentos circulares no tecido puído, onde começava a formar-se um pequeno buraco. A sua cabeça estava apoiada, ligeiramente inclinada para trás, no encosto da poltrona, os seus cabelos negros roçando o tecido preto da peça de roupa que revestia o seu pescoço e ombros. Os seus olhos estavam fechados e a sua expressão mais soturna do que a habitual, marcando as rugas que a idade e a vida não deixavam passar incógnitas.

O cómodo tinha um cheiro abafado e opressivo, mesmo para alguém a quem aquela casa não significasse mais que uma mera habitação, era impossível não sentir o peso do ambiente, da história, das pessoas, das lágrimas, dos gritos, das discussões que aquelas paredes assistiram vezes e vezes sucessivas ao longo de várias gerações.

E aquele peso tornava-se ainda mais forte para aquele que já tinha um dos fardos mais pesados que um ser humano pode suportar, era o peso que esmigalha cada um dos nossos músculos, ossos, veias, sem que fiquem marcas da sua acção, mas que causa mais sofrimento que qualquer dor física. Era a destruição na pacificidade e silêncio mórbido do local.

Severus Snape pensava nos acontecimentos do dia anterior, ou melhor, na falta de acontecimentos. Voldemort fora excepcionalmente benevolente para com ele, e achando que Severus merecia um descanso deixou-o fora das actividades por dois dias. Ele sabia que seria chamado em breve para compartilhar de alguns dos projectos do Lord, mas tentou não pensar nisso.

Naqueles raros momentos em que Severus podia largar um pouco a sua máscara, ele permitia-se pensar em tudo o que fez, fazia e tinha a fazer.

Abrindo os olhos e deparando-se com uma jovem de cabelos loiros e olhos esverdeados no quadro à sua frente, os seus pensamentos dirigiram-se para Narcisa, Draco e especialmente Ariana. Três loiros, de olhos azuis, uns mais acinzentados que outros.

Recordava-se do brilho nos olhos de Ariana, uma criança adulta. Ela tinha a maturidade, força, determinação e certeza do que quer de um adulto, mas os sonhos, o sorriso e o brilho inocente de uma criança. Como alguém podia ter tantos opostos, como alguém conseguia sempre transmitir aquilo que mais precisas?

Ela era tão diferente dos outros dois loiros.

Diferentemente de Narcisa, se ela realmente quisesse tornar-se uma Devoradora da Morte, Ariana abraçaria a causa com tanta determinação ou até mais que a própria Belatrix, com menos loucura que a última, mas com igual sagacidade.

Severus também tinha a certeza que se Ariana tivesse uma missão como a de Draco, e ela realmente a quisesse realizar, a teria levado a cabo com mais sucesso, agilidade e perfeição que ele.

Draco era um idiota. Ele não era totalmente estúpido, isso Severus tinha de admitir, afinal ele havia descoberto um método de fazer com que os Devoradores da Morte entrassem em Hogwarts, e apesar de ter sido vigiado por si, ainda assim, conseguiu esconder tudo o que fazia, até daqueles brutamontes dos seus amigos, mas ainda continuava a ser um idiota. Faltou-lhe determinação. Draco estava habituado a ter tudo o que queria sem ter que fazer esforço algum para o conquistar. Além disso era muito medroso, medroso demais para se revoltar, para trair, para se entregar de corpo e alma a algo.

Essa era a grande diferença entre ele e Ariana. Ela entrega-se de corpo e alma àquilo em que acredita e acima de tudo é extremamente audaz. Talvez um pouco mais calculista que a generalidade dos Gryffindor. Sabe fingir, mentir, camuflar aquilo que quer, embora seja simultaneamente muito fácil de ler.

Havia muitas coisas sobre ela que ele gostaria de conhecer, mas que infelizmente não tivera a oportunidade.

Era uma pena ela não ser bruxa, tinha tudo para ser uma grande feiticeira. Aliás havia algumas coisas sobre ela que Severus não entendia.

Como ela sendo uma mera muggle podia usar Oclumancia. Ela detém um poder sobre a sua própria mente incrível, faz questão de mostrar que sabe que estás a ler a mente dela e só deixa ver aquilo que quer, ela consegue induzir recordações, repetindo-as vezes e vezes sem conta para te bloquear de encontrar aquilo que realmente queres ou então deixa-te em branco como se ela conseguisse colocar-te numa sala isolada e vazia da sua própria mente, uma sala que nada mostra dela, nem um mero vislumbre.

Severus usava de uma técnica semelhante com Voldemort, era o que lhe assegurara a vida até àquele momento.

Mas isso implicara vários anos de prática, técnica e estudo, a Oclumancia era para Severus um modo de se proteger contra si próprio e fugir às suas próprias recordações, mas Ariana não tivera esse treino, ou pelo menos não deveria ter tido, sendo ela filha de muggles quem lhe teria ensinado Oclumancia?

Seria natural?

Sim, havia bruxos e bruxas, especialmente mulheres ao longo da história, que tinham uma habilidade natural para a Legilimância, mas a Oclumancia era uma arte mais difícil e complexa.

Teria Ariana capacidade de Legilimância?

Pelo menos ela não tentara ler a sua mente, certamente ele sentiria se ela o fizesse. Sim, ele confiava na sua própria capacidade de isolar a mente das intrusões e influências mágicas; e reconheceria qualquer tentativa de invasão, certamente ela não era mais poderosa que Voldemort ou Dumbledore para conseguir romper uma barreira que mais ninguém conseguiu antes derrubar.

"Existem pessoas que não se tornam especiais pela maneira de ser, ou de agir, mas pela profundidade com que atingem nossos sentimentos.", a frase que Dumbledore lhe dissera um dia surgira como uma resposta do seu subconsciente.

Seria ela capaz de quebrar essas barreiras? Só uma pessoa as havia quebrado antes e…

Não. Isso era impossível.

Agarrando o copo de Ponyssint que estava na mesa de apoio do seu lado esquerdo Severus tentou pensar em outra coisa, concentrando-se apenas na essência da bebida.


Pof!!

E pela segunda vez consecutiva o rabo de Draco Malfoy aterrava no tapete castanho-esverdeado da entrada da casa, as suas costas embatendo com alguma força na porta de madeira preta atrás de si.

Os olhos de Draco Malfoy faiscavam e alguém muito atento podia ver a sua cor cada vez mais clara, mais felina. A raiva que ele sentia podia notar-se pelo modo como se ergueu do chão, sem a lendária compostura Malfoy. Os punhos da sua mão estavam cerrados e coitada da mosca que teve o azar de passar por perto dele no instante em que este fechou a mão, pois morreu esmigalhada pela fúria do loiro, que nem sequer se apercebera do feito.

Todos os sentidos de Draco concentravam-se na sua inimiga. A porta que o separava do seu objectivo. O quarto de Ariana.

Draco tentara abrir a porta como faria em qualquer outra existente na casa, nenhuma delas se recusara a abrir para ele anteriormente, mas esta parecia diferente, havia um feitiço qualquer que não permitia que ele o fizesse. A primeira queda foi uma surpresa gigantesca na segunda tentativa foi mais cauteloso e tentou tocar primeiro na porta em vez de na maçaneta, ao não ter acontecido nada arriscou-se a tocar na maçaneta e mais uma vez nada aconteceu, mas no instante em que a forçara para baixo foi lançado pelo corredor, parcialmente na penumbra, caindo no hall de entrada. Decidido a abrir a porta nem que fosse com um Alohomora agarrou a varinha que trazia no bolso traseiro das calças, avançou exactos 11 passos em frente e apontou-a à porta, mas antes que começasse o feitiço a voz de Ariana ecoou-lhe na mente "Talvez o ministério não tenha como saber onde fazes ou não magia, mas não te esqueças do que tens no teu braço. Nesta casa não podem localizar-te, mas as dores podem voltar, e bem, eu não tenho como assegurar que eles não podem conseguir descobrir em que país estás, embora não possam descobrir onde exactamente."

-Raios! – ele deixou escapar.

Mas…teria ela dito a verdade ou desconfiaria que ele ia tentar entrar no seu quarto e dissera isso para que não conseguisse lá entrar.

A voz de Severus também entrou na discussão interna que o atormentava dizendo-lhe "Não faças Magia e não Aparareças caso contrário podem seguir o teu rasto e eu nada poderei fazer por ti nesse caso."

O que fazer?

Draco queria descobrir quem realmente Ariana é, e depois de confirmar que nada do que estava nos restantes aposentos da casa lhe podia responder a essa resposta, e estando fora de cogitação perguntar-lhe o que quer que fosse, o quarto tornou-se na sua última esperança.

Ele tinha que descobrir algo.

Mas para fazer um feitiço como aquele, que o impedia de entrar no quarto, era necessário uma varinha e ele nunca vira nenhuma pela casa e muito menos com a própria Ariana.

O que raios aquela mulher escondia com tanta determinação?

Draco analisara todos os nomes de que se recordava e Curen não estava em nenhum dos grupos em que ele o tentara colocar. Não era nome de nenhuma família de Devoradores da Morte dos círculos internos, e do que sabia, também não pertencia aos círculos mais afastados, assim como não se lembrava daquele nome como um dos que renegaram ao Lord, aquele pensamento fizera-o ter um arrepio. Também não era nome de nenhum Sangue-Puro conhecido em Inglaterra e na França, de onde a sua própria família era oriunda, o que só o deixava com duas opções, ou era uma mestiça, ou uma sangue de lama. Muggle estava fora de questão com aquele feitiço na porta.

Mas sendo uma mestiça ou mesmo uma sangue de lama, porque ela estava ali escondida, sim pela maneira como falara na noite em que a conhecera ela só podia estar escondida de Voldemort e dos Devoradores da Morte. Mas porquê?

Por que uma mulher jovem como ela, que não aparentava ter mais de um ano ou dois que ele próprio, vivia sozinha fugindo do Lord, numa casa na Irlanda com protecção de Dumbledore?

Aliás de onde ela conhecia Dumbledore e especialmente Severus, que a tratou com mais educação do que ele se lembrara ao tratar qualquer outra pessoa.

Valeria a pena correr o risco de ser descoberto por Voldemort por causa dela? De descobrir quem ela era?

Seria verdade o que ela dissera?

Seria verdade o sonho que ela lhe mostrara?

Aliás de todas as coisas esquisitas que lhe tinham acontecido desde que ali chegara, certamente aquela fora a maior de todas. Na altura Draco tivera a certeza de que Ariana lhe dissera a verdade, estava nos olhos dela, estava na aura que ela transmitia, mas seria isso verdade, ou fingimento? Poderia ser um feitiço? Aliás, como ela lhe conseguira mostrar uma recordação? Poucas pessoas têm essa habilidade e normalmente isso é feito com o auxílio de um feitiço, mas no momento Ariana não fizera nenhum, ela apenas conectara olhos comigo.

Seria ela uma daquelas bruxas com poderes de Legilimância especiais? Não…ela não fizera Legilimância, ela cedera as suas recordações…

Não conseguia encontrar resposta para aquelas perguntas e estava agora mais decidido a entrar definitivamente naquele quarto e descobrir o que quer que houvesse para descobrir sobre aquela loira, especialmente uma coisa que não largara a sua mente um instante, o caderno e a faca que ela usara no dia em que o aliviara das dores da convocação.

De qualquer modo ela não estava ali para ver se ele lançava um feitiço ou não, certo?

Voldemort não ia aparecer ao seu lado só por fazer um feitiço, e a curiosidade era tanta…

- Alohomora! – a sua voz baixa e de timbre forte ressoou no corredor.


Nota de Autora (2):

Olá a todos (será que alguém ainda lê isto?) verão beleza aqui em Portugal, pois é finalmente chegaram as férias e numa tarde de alguma inspiração decidi começar a escrever este capítulo. Como puderam notar o capítulo é muito mais pequeno que o habitual (cerca de 1/3 do capítulo anterior) e apesar de eu ADORAR capítulos grandes, quer para ler quer para escrever, eu sinto-me mal a cada vez que penso que há pessoas a ler a minha fic e que eu demoro meses a actualizar. Sinto um peso enorme na consciência por isso e numa tentativa de actualizar com mais frequência decidi escrever capítulos um pouco mais pequenos, espero que não fiquem chateados, mas se acham capítulos assim maçadores digam.

Ah…como viram eu parei numa parte crítica do capítulo, sim eu pretendia escrever um capítulo um pouco maior, mas depois pensei…este é o momento certo para parar…eu adoro fazer suspense... (Mariana divertindo-se a imaginar a cara dos leitores no final do capítulo) de qualquer modo vou tentar ter mais um capítulo em breve.

Como disse acima este capítulo é dedicado à minha beta – Vivi Andromeda – é o meu presente de aniversário para ela.

Vivi, sabes que te adoro e que uma das melhores coisas que podia ter feito foi ler Contratempos e chatear-te para actualizares. Ganhei uma grande amiga, uma comparsa, uma leitora, uma beta e vários momentos muito divertidos, assim como alguns conselhos. Obrigada por teres entrado na minha vida. Espero que te divirtas aí pelas terras dos Zabinis, como diz a Vivis. Beijos.

Notaram algumas palavrinhas sublinhadas ao longo do texto, bem, algumas coisas vão ser agora explicadas, na coluna Dicionário:

Oclumancia - Oclumência

Legilimância - Legilimência

Muggle - Trouxa

Ponyssint – bebida inventada por mim (sim eu gosto de inventar, e inventei uma bebida favorita para o meu querido Severus, é uma bebida forte, que ele bebe para se afastar de pensamentos tristes e traumáticos, assim como para fugir a algumas das respostas que o seu subconsciente lhe podia dar). É uma bebida do tipo absinto, mas cuja planta que o origina tem de ser criada com estrume de ponies. (sim ponies, uma versão meio abruxada de póneis). E é uma bebida bem limpinha, mas a planta que dá as sementes que fazem o Ponyssint, precisa em certas fases da sua cultura de ser estrumada com fezes de ponies. Ok…eu sei que é estranho, louco, mas a minha mente criou esta bebida e vai ser uma das bebidas preferidas de Severus em Brizomancy. (foi só para esclarecer)

Rabo – tomei conhecimento que no Brasil esta palavra tem um sentido bem pejorativo, mas aqui ela não é usada desse modo, por isso considerem-na a não muito pejorativa.

Alohomora – feitiço para abrir portas (Hermione usa no 1º ano quando eles vão parar ao corredor do 3º andar)

Apareças - Aparates (Aparecer Aparatar)

Devoradores da Morte - Comensais da Morte

Sangue de Lama - Sangue-ruim

A frase: "Existem pessoas que não se tornam especiais pela maneira de ser, ou de agir, mas pela profundidade com que atingem nossos sentimentos." Não é da minha autoria, li-a algures e achei que tinha a ver com o momento e seria uma frase dita por Dumbledore, sem a menor dúvida.

Quanto à expressão: "Todos os sentidos de Draco concentravam-se na sua inimiga." Foi inspirada na fic Relatos Marotos da Lisa Black (uma das minhas autoras favoritas, aliás aquela que indirectamente me introduziu neste meio), embora a inimiga do Thiago e do Sirius seja outra. Aconselho vivamente a ler esta fic dos marotos, pois é MARAVILHOSA, basta ver no meu profile nos meus autores favoritos a hiperligação para a autora.

Agora tenho um pedido a fazer: COMENTEM (fiquei muito triste por não ter recebido nenhum comentário no capítulo passado aqui no , espero que isso não volte a acontecer. Não me abandonem).

Espero que tenham gostado do capítulo e resta-me dizer

Até ao Próximo

Mariana (hhgranger)


Nota de beta:

"Só posso agradecer o carinho da minha fic-writer preferida, lembrando que este é o segundo capítulo de Brizomancy dedicado a mim. Muito obrigada Mariana, por este presente lindo, pela companhia, pelas conversas e por tudo o mais, Além de permitir que eu faça parte dessa história, como sua beta-reader.

Beijos.

Vivi Andrômeda.