Volstag ajustou as botas e estendeu a mão a fim de pegar o machado, porém encontrou apenas o vazio.
- Pela escuridão de Hel! Podia jurar que o havia deixado aqui!
Ele levantou-se e olhou ao redor. A arma ainda estava no suporte junto as outras.
- Preciso beber menos hidromel de agora em diante - disse a si mesmo, pegando o machado.
- Chegou cedo, Volstag – Hogun comentou a se aproximar.
- Parece que todos chegamos – Fandral acercou-se.
- Que tal começarmos? - Volstag propôs. - Pegue uma espada Fandral, enquanto Hogun escolhe a arma dele.
- Por Odin, onde estão as espadas? - Fandral buscou em vão.
- Como assim, 'onde estão'? Eu as vi quando cheguei – Volstag aproximou-se.
- Só há lanças, escudos, machados, adagas… nenhuma espada – Fandral disse, apontando para o suporte de armas.
- Também não acho nenhuma esfera… - Hogun completou.
- Tem alguma coisa estranha acontecendo aqui… - Volstag recordou-se do machado que havia sumido de onde ele havia colocado.
Hogun mirou o chão e balançou a cabeça.
- Loki! Tyr vai chegar a qualquer momento. Não é sábio brincar durante suas lições.
Volstag e Fandral se entreolharam.
- Estou começando a sentir falta da época em que ele havia se exilado… - Volstag comentou.
- Loki! Saia, ou Tyr vai ficar sabendo disso! - Fandral ameaçou.
- Calma, meu amigo – o caçula de Odin saiu de trás da coluna.
- Onde estão as armas, Loki? - Hogun inquiriu.
- Exatamente onde deveriam estar.
Loki moveu a mão e elas apareceram.
- Aceite o meu conselho, filho de Odin - Hogun aproximou-se, pondo a mão no ombro de Loki e a ilusão se desfez como fumaça.
Hogun abriu os braços.
- Eu desisto. Brinque conosco o quanto quiser. Só quero ver se não estará aqui quando Tyr chegar!
Uma movimentação na entrada do campo de treinos atraiu a atenção dos rapazes.
Loki vinha na frente. Thor, logo atrás.
O mais novo tinha no rosto o sorriso de quem havia sido descoberto, mas sem demonstrar o mínimo remorso pelo que havia feito.
- Peça desculpas, Loki! - Thor solicitou, tentando em vão disfarçar o sorriso.
- Eu estava apenas me divertindo!
- Peça desculpas!
- Nem que o Ragnarok fosse iminente!
- Não se incomode com isso, Thor – Fandral aproximou-se do mais novo e colocou o braço sobre o ombro dele. - Loki sempre foi assim. É melhor nos habituarmos com o retorno de suas travessuras. Estávamos mesmo sentindo falta delas...
Loki mirou o chão. Sabia o que Fandral queria dizer. O rapaz ergueu os olhos, ainda sorrindo, contudo, havia mais alguma coisa naquele olhar travesso.
- Também senti falta disso, Fandral…
- De nos fazer de bobos? - Volstag interveio.
- Não, seu filhote de abre-rombo!
- De que, então, você sentiu falta, Loki? - Hogun cruzou os braços, desafiando o caçula de Odin a verbalizar o que sentia.
- De vocês, seus tolos! - disse, rendendo-se.
Volstag balançou a cabeça de um lado para o outro.
- Loki sendo sincero? Definitivamente tem que estar apaixonado! Qual é o nome dela, Loki?
- Ou então – Fandral entrou no jogo – ele finalmente resolveu trocar o vinho sem graça pelo magnífico hidromel!
Os rapazes riram descontraidamente. Sempre haviam sido muito unidos. A princípio a presença de Loki naquele grupo impusera-se pelo fato de Thor ser seu irmão. Contudo, quanto mais o tempo passava, menos importância tinham os poucos anos que os separavam. A infância cheia de aventuras havia dado lugar a uma adolescência vivida de acordo com o temperamento de cada um. Para Loki, havia sido mais difícil, pelo menos aparentemente. Todavia, as coisas pareciam estar se encaixando e o caçula de Odin reencontrava seu lugar. Graças ao olho atento de Frigga e a disposição de Odin.
- Pelas bênçãos de Vahalla! Que bom que estão animados hoje! Só espero que nenhuma de minhas armas tenha desaparecido ou que não tenha nascido chifres em ninguém - disse, mirando Loki.
- Que história é essa de chifres, Tyr? - Volstag interveio.
- Ontem a tarde Uller não pode comparecer ao treino porque, aparentemente, haviam surgido dois pequenos chifres em sua testa. Foi vítima de todo tipo de escárnio por parte de seus colegas.
Loki baixou a cabeça, mas não conseguiu conter o sorriso.
- Por que fez isso, Loki? - Thor indagou, abrindo os braços.
- Ele fez pouco de mim. Disse que eu só estava aqui por causa de minhas trapaças e que minha magia não passava de ilusão. Então mostrei a ele o quão real ela pode ser.
Ao contrário do que Tyr estava esperando, Loki parecia não haver se dado conta da gravidade do que fizera.
O deus dos Combates deu alguns passos em direção a seu pupilo mais novo.
- Você está aqui por causa de trapaças, Loki?
A voz de Tyr soou tão solene que o rapaz deu um passo atrás, sem conseguir dizer nada.
- Responda a minha pergunta, garoto!
- Não, Tyr.
- Por que você está aqui, Loki?
- Porque o senhor...
- Não! Não se trata de mim, Loki. Por que você está aqui?
- Por que tenho capacidade para estar.
- Não sei até que ponto acredita nestas palavras, rapaz. Pois, se acreditasse realmente nelas, se tivesse convicção de suas habilidades, teria ignorado o comentário de Uller em vez de agir como um menino mimado!
Loki mirava o chão, assim como os outros. As lições de caráter de Tyr costumavam ser mais duras do que seus treinos.
- Vai desculpar-se com Uller agora mesmo.
Loki ergueu os olhos sem acreditar no ouvia.
- E se ele me chamar de mentiroso novamente?
- Prove a ele que você não é, mas de forma digna!
- Como?
- Problema seu!
- Mas Tyr...
- Nem mas, nem porém, Loki. Acha que sua atitude foi digna de um guerreiro de elite de Asgard?
A respiração de Loki estava acelerada.
- Responda!
- Não, Tyr.
- Acha que foi digna de um príncipe?
- Não.
- Então consiga o perdão de Uller, caso contrário não precisa mais voltar.
Loki não conseguiu sair do lugar.
- Vá agora!
O rapaz saiu sem erguer os olhos.
Tyr mirou seus alunos e leu nos olhos deles o que não ousavam externar.
- Sei que acham que estou exagerando - disse compassadamente. - Mas precisam compreender que estão sendo colocados nas mãos de Loki poderes que ele precisa aprender como e quando usar. A lição é dura? Com certeza. Mas confiem no amigo de vocês. Ele pode ser muito mais do que um pregador de peças.
