Sakata Gintoki... O "faz-tudo"?

Fiquei pensativo por várias horas antes de me ferrar no sono. Além de ficar intrigado por não saber de onde havia aparecido a espada de madeira, resolvi fazer as contas de quanto dinheiro precisaria para montar um lugar decente para morar.

Não iria passar a minha vida toda num quarto vazio só com um futon e duas mudas de roupa. E não iria passar minha vida trabalhando só no bar daquela velha.

- Droga... O que eu faço? – resmunguei. – Ou melhor, o que um ex-samurai como eu poderia fazer, sem ter que trabalhar num bar e aturar beberrões chatos?

Bocejei. Aquela luta com o velhote bebum e chato havia me deixado mais cansado, o que me levava a tirar outra conclusão: eu estava fora de forma. Nisso, eu acabei dormindo.

Não por muito tempo, porque logo apareceu meu pesadelo de todo dia:

- O QUE VOCÊ AINDA ESTÁ FAZENDO AINDA DEITADO, SEU FOLGADO? ACORDA, SEU PREGUIÇOSO DE CABELO RUIM!

Com muito esforço, consegui me levantar ainda sonolento e respondê-la:

- Olha lá como fala, bruxa velha... Cabelo ruim, não... É permanente natural.

- Não me interessam suas explicações sobre seu cabelo, Gintoki. Apenas faça o que mando. Toma aqui a lista de compras. O bar está precisando de suprimentos, e ainda preciso de alguém pra fazer reparos nas cadeiras que aquele velho maluco danificou.

Não respondi nada e ela jogou para mim a lista de compras. Cocei a cabeça e conferi a "dita-cuja".

- Não sabia que era tão longa...

E lá fui eu enfrentar aquele frio. Sorte que já começava a diminuir, à medida que se aproximava da primavera. Bastava só um quimono para me esquentar. Por precaução, resolvi levar a espada de madeira comigo.

Saí pelas ruas do Distrito Kabuki e, quando eu estava a alguns metros do supermercado, o Shinsengumi resolveu me abordar...

Voltei ao presente, ouvindo alguém bater à porta.

- Quem será a essa hora? – Shinpachi perguntou.

- Vou conferir. – respondi e fui atender.

Puxei a porta corrediça e logo fui atropelado. Literalmente.

- MAS QUE DIABOS VOCÊS ESTÃO FAZENDO AQUI A ESTA HORA? – esbravejei, após ser pisoteado. – SERÁ QUE NÃO TÊM EDUCAÇÃO AO ENTRAR NA CASA DE CIDADÃOS TRABALHADORES COMO EU?

- O Yamazaki disse que Katsura esteve aqui. – era o Hijikata dando sua "carteirada" e querendo arrancar alguma informação de mim... Como se eu tivesse alguma informação.

- Escuta aqui, Mayora chato de galocha! Eu não sei de nada sobre o Zura, nem onde ele se meteu dessa vez... E ABAIXA ESSA MALDITA BAZUCA, OKITA-KUN! VAI EXPLODIR SEU SUPERIOR EM OUTRO LUGAR!

Hijikata olhou para trás e deu de cara com a bazuca apontada para ele.

- Sougo, abaixa essa bazuca. IMEDIATAMENTE!

- Ei, Toushi! – era o gorila Kondo. – Pra que se estressar? Já que não encontramos o Katsura aqui, vamos procurá-lo em outro lugar!

O Mayora suspirou e cedeu. Parecia bem aborrecido por não ter encontrado o Zura. Mas ele se aborrece por tão pouco...

Eu é que estava louco pra chutar o traseiro daquele viciado em maionese. Mas tive que me conter, ou acabaria algemado... Já passei por isso e não foi uma experiência nada agradável ficar algemado ao Hijikata.

- Vamos embora, então... – ele disse.

Aquele grupo de malucos saiu e eu fechei a porta. Mas só fiquei sossegado quando me certifiquei que eles haviam mesmo ido embora.

- Gin-san, você se encontrou com esse pessoal nessa época?

Voltei à minha cadeira e me refestelei nela, tornando a jogar meus pés por cima da escrivaninha. Assim, me senti mais à vontade para continuar:

- Não. Não com esses quatro malucos que afundaram aqui. Nem o "Gorila", o "Mayora", o "Sádico", ou o "Rei da Raquete". Mas a maioria dos integrantes do Shinsengumi sempre foi inconveniente...

- Parado aí, ô do cabelo prateado!

- Qual é o problema? – perguntei.

- Me mostre essa espada. – o cara do Shinsengumi ordenou.

- Qual é o problema com a espada?

- As espadas foram proibidas aos civis, sabia? A classe dos samurais já acabou há alguns anos.

Não queria entrar numa fria com o Shinsengumi tão cedo, então resolvi tirar a espada da minha cintura. Eles checaram a espada por longos segundos, periciando-a minuciosamente. Eles estavam em dois e se entreolharam.

Enquanto isso, eu cutucava meu nariz, como de costume.

E eles resolveram consultar um livrinho. Provavelmente uma espécie de manual para novatos. Folhearam esse suposto manual do começo ao fim.

E eu, para passar o tempo, resolvi tirar a cera do meu ouvido com o dedo mindinho.

- E então – perguntei. Algum problema com a espada?

- Pelo o que pude verificar aqui no manual – ele respondeu. – Não há nenhuma norma restringindo o uso de espadas de madeira. Somente espadas com lâminas de metal.

- E?

- Pode andar com ela sem problemas. – o sujeito disse, devolvendo-me a espada de madeira. – Desculpe-me o transtorno.

Ele se despediu e prosseguiu sua ronda com o companheiro. Só me faltava essa, o Shinsengumi na minha cola... Por que eles não correm atrás dos bandidos de verdade?

Vai entender...

Cheguei ao supermercado e fiz as compras conforme a lista que a velha me havia passado. Voltei sem maiores inconvenientes, exceto a própria velha, que já era inconveniente por natureza.

- Gintoki, deixe as compras no balcão e venha aqui.

- Pra quê?

A velha me deu algumas ferramentas de carpinteiro.

- É pra você arrumar as cadeiras que aquele bando de bagunceiros danificou.

- O quê? Eu nem sou carpinteiro!

- Se vira! Ex-samurais têm que se virar pra ganhar o pão de cada dia!

Ela ia saindo quando protestei:

- Eu não sou carpinteiro, bruxa velha! Não vai me ajudar, não? Vou ter que fazer tudo sozinho?

Nenhuma resposta vinda dela, o que significou que tive que fazer tudo sozinho. A sorte é que os consertos não eram complicados, tirando algumas marteladas nos dedos e o fato de eu quase ter serrado meu polegar fora.

Por fim, enxuguei o suor da testa, crente de que havia acabado meu serviço. Que nada. Com toda a bagunça que eu havia feito, tive que fazer uma faxina completa ali pra tirar toda a serragem que eu havia deixado com o conserto das cadeiras.

O que eu não contava era com o fato de que aquela espelunca estivesse com meses de poeira acumulada.

- Depois dizem que as mulheres são organizadas... – resmunguei. – A velha parece bem relaxada.

Foi só falar no diabo que ela apareceu.

- Nada mau... Até que você sabe se virar. – disse.

- Ótimo. Então vou dar o fora daqui e...

Senti algo segurar o meu quimono. Era alguém, e logo a bruxa velha!

- Ainda não terminou o serviço! Vai botar o lixo pra fora! Depois que fizer isso, lave os copos, conserte a fiação do bar, coloque as vasilhas no escorredor e varra lá fora. Logo os fregueses vão começar a chegar!

- Quê? – protestei. – Assim você tá me explorando, velha!

- Fecha essa matraca e faça o que mando! Ainda vai me agradecer por isso!

- Agradecer pelo o quê? Pela mixaria que recebo?

- Pare de reclamar! Você deveria ficar feliz por eu ainda não te cobrar o aluguel!

- Quê? Eu ganho uma merreca e você ainda tem pretensões de arrancar o meu couro?

- Essa "merreca" te rendeu roupas, sabia?

- Também foram apenas as roupas! Não tenho nem mesmo um jornal pra ler, oras!

E nisso, ela foi embora de novo, praticamente desaparecendo como se fosse bruxaria. E, claro, sobrou pra mim mais uma vez. Tive que fazer tudo. E ainda quando o bar abriu, eu tive que atacar de garçom, de anfitrião, de segurança, de faxineiro...

No fim das contas, fui dormir feito um caco. Do jeito que cheguei ao quarto, aterrissei de cara no futon. Estava cansado demais para tirar até mesmo o quimono e as botas.

- O que a velha pensa que eu sou? – resmunguei para mim mesmo. – Algum tipo de "faz-tudo"?

Eu lembro que, de repente, algo iluminou minha mente.

- Espera aí! "Faz-tudo"? Claro, quem faz tudo tem maiores chances de conseguir serviço! É isso!

Eu me levantei do futon e achei um cartão velho por ali. Estava escrito "Yorozuya do Okada-san".

"Yorozuya?", pensei, coçando o queixo. "Hum... Pode ser que me tornar um 'yorozuya' não seja uma ideia tão ruim..."