Capítulo 7

Melbourne despertou em Brocket Hall, onde tinha passado o fim-de-semana e esperava poder regressar a Londres onde tinha reunião marcada com a Rainha. Todavia, acordou sentindo-se tomado por um resfriado. No dia anterior fora observar as gralhas no mesmo local onde Victoria lhe aparecera uma vez e lhe declarara o amor que sentia por ele. Às vezes não lhe fazia nada bem voltar ali, outras vezes sentia necessidade de ir para lá e de ficar ali um bocado. No mais secreto de si mesmo imaginava que ela podia voltar ali… mas, obviamente, isso não ia acontecer…O certo é que, por causa das gralhas, deixara anoitecer, apanhara frio no regresso a casa e agora estava à vista o resultado…Era impossível conseguir viajar até Buckingham! Tinha de enviar uma mensagem à Rainha. Não só informando porque não iria à sua presença, mas também tranquilizando-a, não fosse ela lembrar-se de aparecer.

Victoria esperava que ele viesse nesse dia a meio da manhã, como era costume quando reuniam. Mas em vez dele chegou um bilhete que um lacaio lhe entregou numa salva de prata. O coração disparou dentro do peito quando viu a caligrafia tão familiar. Quebrou o selo de lacre e abriu-o rapidamente. Tudo o que se relacionava com ele tinha uma importância fulcral para ela.

Leu:

Brocket Hall, 21 de Setembro de 1840

Lord Melbourne apresenta o seu humilde dever para com Sua Majestade, e lamenta informá-la que não vai poder comparecer hoje na vossa presença.

Lord Melbourne está em Brocket Hall onde ficou ligeiramente doente. Apenas um resfriado na sequência de ter apanhado frio. Estará restabelecido em breve.

Victoria escreveu imediatamente uma resposta que mandou entregar em Brocket Hall:

Buckingham Palace, 21 de Setembro de 1840

A Rainha lamenta saber que Lord Melbourne não se sente bem e que, por isso, não poderá vê-lo hoje.

A Rainha espera, ansiosamente, que Lord Melbourne recupere rapidamente e que possa regressar em breve à sua presença.

Victória ficou triste, porque não o ia ver nesse dia, e ligeiramente preocupada porque ele estava doente. No entanto, isso não a afetou demasiado. Em breve ele estaria ali restabelecido.

Mas a semana foi passando e ele não aparecia nem lhe dizia mais nada.

Perguntou a Emma se sabia de alguma coisa. Contudo, ela não sabia, se soubesse já lhe teria dito. No entanto, comprometeu-se a saber. O marido, o barão Edward Portman, subsecretário para as colónias, iria a Brocket Hall fazer uma visita e traria notícias.

As notícias vieram. Melbourne estava melhor, não havia com o que se preocupar. Devia regressar na semana seguinte.

Victoria agradeceu a informação e tentou afastar do pensamento a ideia dele lá sozinho no campo, num local muito mais reservado do que Buckingham… Mas quanto mais tentava afastar essa ideia mais pensava no assunto. Tinham passado cerca de três meses desde que o afastamento em termos pessoais fora acordado entre eles! Uma eternidade! Havia uma dor dentro dela para tê-lo, uma dor que só se apaziguaria se ele retribuísse o que ela sentia por ele. A ausência dele era palpável. Na falta dele ela não conseguia respirar. A angústia impedia-a de se concentrar no que fazia e forçava-a a respirar fundo constantemente, como se procurasse bolsas de ar que a impedissem de sufocar.

Emma notava a ansiedade dela, mas não dizia nada.

Quinta-feira Melbourne já estava restabelecido, mas não lhe apeteceu ir para Londres na Sexta. Já agora passaria o fim-de-semana ali e iria na Segunda. Sentia-se também numa fase em que lhe apetecia estar ali refugiado, longe do bulício da cidade, ficar sossegado em silêncio, não precisar de se vestir, poder passar muito tempo na biblioteca ou no quarto a ler ou a escrever. Organizando, até, alguns assuntos que trataria depois com a Rainha.

No Sábado após o almoço Victoria não resistiu ao impulso que sentiu:

- Emma!

- Sim, Senhora!

- Preciso da sua ajuda e da sua descrição num assunto.

- Claro, Senhora, o que precisar.

Victoria hesitou um pouco, mas acabou por dizer:

- Preciso que me empreste a sua carruagem para ir a Brocket Hall e preciso que disfarce o facto de eu não me encontrar no palácio. Hoje não tenho compromissos oficiais, mas há sempre alguém que pode perguntar por mim, querer ver-me. Preciso que você e Harriet arranjem desculpas credíveis para que essas pessoas não me vejam. Digam que estou a dormir, doente, que pedi para não ser incomodada, qualquer coisa…

Emma ficou apreensiva. Supostamente a Rainha não devia viajar sozinha! Pelo perigo de que alguma coisa pudesse acontecer e para não dar azo a comentários. Mas na maneira como falava mostrava claramente que queria ir sozinha, não pretendia que Emma a acompanhasse. Pensou que podia chamá-la à razão e dizer-lhe para não ir, mas não foi capaz. E também não seria capaz de não a ajudar, o que aliás já tinha feito noutras circunstâncias…E confiava em William…por isso…

Victoria foi. Numa carruagem sem escolta! Uma imprudência!

Vestira o seu vestido azul claro com punhos de renda, simples e sóbrio como gostava dos vestidos, mas muito bonito! Não era um vestido para viajar, nem um vestido para ir para o campo, mas queria estar muito bonita para ele. O cabelo fora penteado de forma simples com uma trança enrolada em troço, à volta do qual foi colocada apenas uma fita também azul. O decote largo do vestido, que expunha os ombros, foi coberto com uma capa para se proteger do frio e um véu escuro e comprido, por cima do chapéu, cobria-lhe o rosto para que nem o cocheiro conhecesse a identidade da dama que transportava. Talvez ele soubesse, mas era uma precaução…

A viagem até Brocket Hall demorava duas horas. Chegou lá por volta das 15h.

O mordomo arregalou os olhos quando a viu. A Rainha! Não era a primeira vez que ela vinha a Brocket Hall, mas não eram todos os dias que se recebia a Rainha!

Desta vez ela não ia entrar de rompante nos aposentos de Lord M. Queria poupá-lo ao constrangimento da outra vez em Dover House. Ainda que isso tivesse acabado por ser muito divertido e que tivesse potenciado a intimidade entre eles. Pediu que a anunciassem. Enquanto isso esperou na saleta que lhe indicaram.

Melbourne estava no quarto, metido na cama, em camisa de dormir, pois não lhe apetecera ir para outro sítio depois do almoço. Estava sentado na cama a ler.

Hedges, o mordomo, bateu e entrou quando autorizado dizendo:

- Sua Majestade, a Rainha, está lá em baixo e deseja ver Vossa Senhoria.

Teve a sensação que qualquer coisa caía dentro de si. Se estivesse levantado o coração teria caído até aos pés! Assim, caiu apenas até ao estômago!

Não pode ser! O que está ela aqui a fazer? – Pensou.

- Traga Sua Majestade para a sala de visitas do primeiro andar e diga que eu vou já. Ah, e não quero nenhum criado neste piso até eu autorizar. – Ordenou.

O mordomo saiu para cumprir as ordens recebidas. Enquanto caminhava ao encontro da Rainha, e depois acompanhando-a até à sala de visitas, pensava como já tinha assistido a tanta coisa naquela casa, tantos eram os anos em que já estava ao serviço da família Lamb. Lembrou-se de como Sua Senhoria vivia triste e arrastado antes de a Rainha ter subido ao trono e como depois lhe começou a ver um brilho diferente nos olhos, ainda que lhe parecesse que continuava a carregar sobre si algum peso invisível. Lembrou-se também da primeira vez que a Rainha ali estivera e ele informara onde podia encontrar Lord Melbourne. Pelo que tinha podido perceber a conversa não teria sido agradável. A Rainha parecia muito desiludida quando partiu e Sua Senhoria tinha entrado em casa fora de si, mas também com um ar digno de compaixão, pedindo brandy e, de seguida, para não ser mais incomodado. Depois as coisas pareciam ter melhorado um pouco. E agora a Rainha estava ali outra vez. Lord Melbourne não tinha tido a felicidade que merecia, mas talvez esta não fosse a via mais fácil... Bem, nos seus longos anos de serviço a experiência dizia-lhe que, por mais que soubesse, a melhor atitude era sempre fingir que não via nem ouvia nada do que se passava à sua volta.

Melbourne despachou-se à pressa. Pensou que tinha sido uma boa opção ter resolvido tomar banho nessa manhã! Vestiu umas calças beges e uma camisa branca. Interrogou-se se havia de vestir o colete e um casaco…Não havia tempo para lenços…Se ele estava em casa e ela apareceu sem avisar não era preciso tanta formalidade…Também já não era a primeira vez que ela o via mais descomposto…Aliás, parecia que isso se estava a tornar uma tradição…Manteve apenas as calças e a camisa e calçou-se. Pronto, estava bom assim. Era só ajeitar o cabelo…

Caminhou pelo corredor até à sala.

Abriu a porta, entrou, deu de caras com ela de pé – visivelmente ansiosa à espera dele – e fechou a porta atrás de si.

Enquanto esperava ela tirara a capa, o chapéu e as luvas e pousara tudo numa cadeira, juntamente com a bolsa que levava consigo. Queria que ele visse o vestido e o efeito que fazia nela.

- Lord M… - Disse sorrindo para ele assim que o viu entrar.

Ele caminhou até ela.

- Senhora… seja bem-vinda a Brocket Hall. - Retribuiu sorrindo também.

Ela sorriu novamente de forma terna.

Observou a maneira como ele estava vestido. Gostava de o ver assim, com o colarinho da camisa aberto que deixava ver o pescoço e uma parte do peito. Sorveu com o olhar a pele nua. E, como de outras vezes, gostou daquela forma mais íntima dele se apresentar perante ela.

- Com quem veio até aqui? – Ele perguntou.

- Vim sozinha!

- Mas isso é muito imprudente. A Rainha não viaja sozinha…

- Eu precisava de estar sozinha. – Ela respondeu com determinação, colocando um ponto final sobre aquele assunto.

- E também veio disfarçada desta vez, suponho…- Ele brincou com um ar divertido.

- Oh, sim, claro, melhor do que da outra vez… - Ela retribuiu também com sentido de humor e continuou:

- E você está melhor? Vejo que sim!

- Completamente curado, Senhora. Como pedi que lhe dissessem. Já vou voltar na segunda-feira. Não precisava de se ter dado ao trabalho de ter vindo até aqui. – Continuou sorrindo.

Aqueles olhos verdes eram a perdição dela. O que fazer para que ele permitisse que ela se afundasse neles?

- Até parece que não lhe agrada a minha visita! – Observou ela fazendo um ar ligeiramente afetado pela última frase dele.

- Oh, não, de todo! Fico muito feliz e honrado com a sua presença. Só acho que a minha condição de saúde não justifica que se preocupe.

- Claro que eu me preocupo, preocupo-me sempre, com tudo o que o afete.

- Não se quer sentar? – Disse ele, apontando-lhe um canapé.

Ela sentou-se e ele sentou-se à esquerda dela, um pouco afastado e com o corpo ligeiramente torcido para poder olhar para ela de frente.

Melbourne achou que não podiam ficar ali naquela situação meio constrangedora onde não havia assunto fútil sobre o qual conversar. Iam falar de quê? Do tempo? Da doença dele, que já tinha passado? De política, que estava lá tão longe em Londres, no palácio, no parlamento? Que se lixasse a política! De São Crisóstomo? Das gralhas?

Era evidente que ela não viera ali pela doença dele…

Havia que enfrentar a situação de frente. Algum resultado iria dar…

- Porque veio até aqui, Senhora? – Perguntou direto.

- Para saber da sua saúde, não é óbvio?

- Não, não é…

Desarmada, ela baixou os olhos sobre o colo e apertou as mãos. Depois levantou os olhos para ele e disse:

- Tinha saudade suas…

Os olhos encheram-se de lágrimas, os lábios começaram a tremer e foi já a custo que pronunciou a última parte da frase:

- Lord M!

As lágrimas correram-lhe pela cara abaixo e ela soluçou:

- Tantas, tantas saudades suas, Lord M!

Ele percebeu que as saudades que ela expressava não eram pelos poucos dias que tinham passado sem o ver, mas pelos meses todos que se tinham passado sem que a relação deles pudesse ser tão próxima como era antes. Eram, até, saudades do que nunca tinha acontecido…

Ele não aguentou! Aquilo era mais do que ele podia aguentar! Num impulso aproximou-se dela e abraçou-a com força!

O nariz dela tocou ao de leve a pele do peito dele, exposta na abertura da camisa, no momento em que os corpos de ambos se reuniram. O rosto dela contra o peito dele. As lágrimas dela que lhe molhavam a camisa. O queixo dele apoiado na cabeça dela. As palmas das mãos dela no peito dele e os braços dele à volta das costas dela, comprimindo-a contra si, envolvendo-a suavemente, mas ao mesmo tempo com um vigor que a confortava.

- Shhh… Eu estou aqui…- Disse tranquilizando-a.

Fechou os olhos e deixou que as lágrimas lhe caíssem também sem imitir um som para que ela não percebesse que ele chorava.

Ela acalmou-se.

Ficaram ali, assim, por um tempo em silêncio.

Tocar a Rainha era equivalente a traição. Ele estava abraçado a ela! Mas como é que algo assim podia significar traição?

Ela sentia o cheiro dele e isso transmitia-lhe uma paz absoluta. Tirou as mãos do peito dele e colocou os braços à volta das suas costas comprimindo-o também contra si e favorecendo um abraço mútuo. Queria fundir-se nele, transpor a sua alma, tudo o que sentia dentro de si, para dentro do corpo dele.

As sensações que ambos viveram naquele momento, num gesto tão simples, foram indescritíveis. Se o Paraíso existia devia ser aquilo!

Naquele momento poderia acontecer qualquer coisa que ela morreria feliz! A largura e a solidez do peito e das costas ele…O calor, o calor do corpo dele…era uma sensação tão boa, tão reconfortante! A firmeza dos braços à volta dela, a sensação de proteção absoluta que isso lhe dava! O cheiro…do corpo, da roupa…O movimento do peito dele provocado pela respiração… O bater do coração… Nunca ninguém a abraçava. A mãe fazia isso excecionalmente, mas não era muito agradável. O que sentia neste momento era completamente diferente, belo e indescritível!

Melbourne estava encantado por aquela menina/mulher. Nunca tivera uma relação assim com ninguém. Uma relação que permitia que ele estivesse sozinho, na sua própria casa, com uma mulher nos braços sem que isso tivesse que resultar de imediato em sexo. E isso ainda era mais excitante. Emocionalmente excitante. Tudo nela era encantador: a beleza, a delicadeza, a nobreza de carácter, a força imensa e, ao mesmo tempo, a necessidade de ser protegida. Alguém de uma juventude enternecedora, mas uma mulher suficientemente adulta que sabia o que sentia e o que queria. A Rainha de Inglaterra, a mais elevada figura da nação, a quem ele devia fidelidade e respeito, e, ao mesmo tempo, a mulher comum que só precisava que ele lhe desse colo.

Os seios dela, pressionados contra o peito dele…

Depois, sem o largar completamente, ela subiu para o canapé e ajoelhou-se, do lado direito do corpo dele, de modo a conseguir elevar-se para colocar a cabeça sobre o seu ombro direito.

Invadia-o integralmente!

O corpo dela colado ao longo do lado direito do corpo dele, os braços dela à volta dos ombros dele, o rosto dela sobre o ombro direito dele, o cabelo dela encostado à orelha direita dele. Os braços dele à volta das costas dela, o queixo dele quase roçando o ombro nu dela, mas evitando o toque da pele de ambos…

Ele pressionou a cabeça ligeiramente contra a cabeça dela. Sentia o calor que ela emanava e o cheiro do cabelo: jovem, puro e doce…Tão confortante! E excitante, ao mesmo tempo. Os seus dedos sentiam a estrutura do espartilho por baixo do tecido do vestido…

Podia sentá-la no seu colo se quisesse.

Podia beijá-la se quisesse.

Podia…

A emoção fez-lhe reagir o corpo, mas o cérebro voltou a impor-se.

Continuaram ali, em silêncio, enlaçados durante mais algum tempo.

A Rainha e o Primeiro-Ministro.

Um homem e uma mulher.

Em Brocket Hall era tudo tão mais fácil entre eles! Tão mais informal, tão mais íntimo! Em Brocket Hall era fácil esquecer que ela era a Rainha e ele o Primeiro-Ministro. Brocket Hall permitia aquilo!

Há quanto tempo uma mulher não o abraçava assim? Aliás, alguma vez alguma mulher o tinha abraçado assim, desta forma? Não! Ele sabia que ela estava profundamente apaixonada por ele, mas havia uma candura na forma como ela expressava isso que nunca nenhuma outra mulher tinha usado para com ele antes.

Quando achou que já era apropriado pronunciar algumas palavras Melbourne perguntou:

- Já matou as suas saudades… Senhora?

Ela soltou-se lentamente do abraço. As mãos passando pelo peito dele, aparentemente de forma inconsciente, mas provocando nele um misto de sensações difíceis de descrever.

Desceu de novo para o canapé sentando-se ao seu lado.

- Desculpe tudo isto, Lord M! Não gostava que Albert me tratasse como uma miúda, mas acabo de me comportar como uma…

Melbourne abanou a cabeça em sentido negativo e disse:

- Ele não a conhece! O que acabou de fazer não tem nada a ver com imaturidade…

- Eu sinto-me tão sozinha…o trono é o local mais solitário que existe à face da terra. Não tenho ninguém ao mesmo nível que eu, que me compreenda, exceto você… Todos estão abaixo de mim e olham para mim de baixo para cima. E têm sempre uma expectativa à qual eu tenho de corresponder, estão sempre à espera que eu faça algo, eu é que sou a Rainha…a Rainha deve saber…Pergunto-me de que serve ser o partido mais desejado da Europa, a Rainha da nação mais rica do mundo, se não sou totalmente feliz…Acha que alguém imagina que eu, em toda a minha riqueza, não seja a mulher mais feliz do mundo, Lord M?

- Não, ninguém imaginará…

- Quem me dera ser uma mulher comum!

Quem me dera que fosse uma mulher comum. – Pensou Melbourne.

- Você, além de Lehzen, foi a primeira pessoa que me ouviu, que me deu atenção, que acreditou em mim, que me elogiou…Lord M, como eu sou grata por isso! À medida que o tempo passou eu fui-me tornando cada vez mais astuta. Eu já era forte, tinha de ser…e determinada, sabia o que queria…Mas você guiou-me, abriu-me caminhos, ensinou-me o que eu ainda não sabia…Preencheu a minha vida de uma felicidade imensa, ela tornou-se muito mais colorida, quente e doce!

Colorida, quente e doce! Ela tinha dito… Melbourne fixou aquelas palavras e sentiu uma satisfação dentro do peito.

- Fico feliz por saber ter tido esse efeito em si, Senhora!

- Mas agora, sem vós comigo, como antes, a minha vida é um vazio tão grande!

E a minha, e a minha…- Pensou Melbourne.

- Sabe, Senhora, com o tempo, habitua-se à solidão. Eu também me habituei. Só que é preciso tempo e ele custa muito a passar. Mas se é essa a sua vontade, há-de habituar-se.

Ela queria ter respondido que não tinha de ser assim, que ele não tinha de viver na solidão, que já que ambos estavam sós podiam fundir as suas solidões e encontrar-se numa relação perfeita para ambas as partes…Mas foi interpelada por Melbourne que, para sair daquela situação e para fazer com que ela se animasse sugeriu:

- Bem, já que aqui está, quer conhecer a casa de Brocket Hall? Temos imensas obras de arte e muitas coisas bonitas que sei que gostaria de ver.

Ela sorriu, embora sentindo-se um pouco entrecortada:

- Parece-me uma ótima sugestão!

Percorreu com ela os vários andares da casa, mostrando-lhe as divisões que achou convenientes e as peças que achou que lhe interessariam. Brocket Hall era praticamente um palácio, ainda que em menor escala. Forrada exteriormente a pedra de Portland, a qualidade e a beleza da arquitetura e da decoração da casa eram de uma nobreza avassaladora!

Voltaram depois à mesma sala onde tinham estado algum tempo antes. Agora ela já estava muito mais animada.

Victoria agarrou na bolsa, no chapéu, na capa e nas luvas e disse:

- Bom, Lord M, acho que já posso voltar a Londres. Obrigada por tudo! Estou a sentir-me lindamente, o que aconteceu nesta sala há pouco encheu-me o coração! Vou levar este momento comigo e recordá-lo muitas vezes.

Melbourne sentiu um lamento profundo dentro do peito pelo facto de ela se ir embora.

- Não tem de agradecer, Senhora. Sabe que eu faço tudo por si. Só não faço aquilo que a possa prejudicar de alguma forma… - Calculou que ela entenderia o significado desta última frase.

- Também estou muito feliz pelo que aconteceu aqui hoje e pode estar certa que também eu irei recordar este momento. – Rematou ele.

- Mas não seja tão exigente comigo, apareça mais vezes no palácio e dê-me o prazer da sua companhia também nos meus momentos de lazer. Como amigo… – Pediu ela, dando-lhe a entender que ele não precisava de se preocupar em se afastar dela porque ela se daria por satisfeita em tê-lo apenas como amigo.

- Quanto a aparecer mais no palácio vamos ver se consigo…Sabe que eu também quero muito ser seu amigo…

Ele deu-lhe esperança de vir a estar mais próximo dela, mas não se comprometeu totalmente para que ela não se dececionasse se ele não aparecesse e porque não sabia ainda se seria sensato voltar a fazer isso, tinha de pensar. Quanto a frisar que queria ser seu amigo, essa afirmação tinha um duplo significado que desejava que ela entendesse: pretendia uma relação pessoal em que não fosse pressionado por ela a algo mais; e ele próprio não se deixaria levar para mais do que isso.

Abriu-lhe a porta e esperou que ela saísse da sala para sair atrás.

Deram alguns passos, lado a lado, no corredor iluminado pela enorme claraboia do teto que projetava luz para o corredor e para o corpo da escadaria principal da casa.

Ele tinha a intenção de ir lá abaixo e de a levar até à porta. Mas ela pediu-lhe que ficasse, disse que desceria sozinha, também tinha vindo até ali sozinha… e agora, também, já conhecia a casa. O mordomo abriria a porta e alguém chamaria o cocheiro. Ele assentiu. Nunca adiantava contrariá-la…

Enquanto caminhavam, de repente ela parou no corredor e ele, apanhado desprevenido, deu-se conta que se tinha adiantado, o que não devia acontecer.

Virou-se para ela para perceber porque tinha parado.

Victoria sorriu para ele com ar terno e disse:

- Uma vez você disse-me que quando eu desse o meu coração eu o daria sem reserva…

Ele lembrou-se do episódio junto das gralhas e o peito apertou-se temendo pelo que ela iria dizer a seguir.

- Sim, eu lembro-me. – Disse, tentando manter o ar mais neutro possível.

- E você estava certo!

- Estava, Senhora?

- Eu entreguei-o a si e ele nunca será de mais ninguém!

Aquelas palavras ecoaram dentro da cabeça dele. Ela dizia-lhe que ainda que, por dever, tivesse de casar com outra pessoa só o amaria a ele! Como é que ela podia amá-lo daquela maneira?

Então a Rainha pegou carinhosamente nas mãos dele.

Ele olhou para as mãos e depois para ela.

E então ela rematou:

- Adeus, Lord M!

- Adeus, Senhora!

Ela largou as mãos dele, lentamente, passou rente ao seu ombro esquerdo e foi embora.

Ele esfregou as mãos uma na outra tentando conservar o toque e o calor das mãos dela de instantes antes. E, então, virou-se para a ver de costas a caminhar ao longo do corredor.

Ele já tinha visto aquela cena antes! Aquela cena que se repetia! Ele a não agarrar a oportunidade que ela lhe dava e a deixá-la ir! Como no dia em que observava as gralhas e ela aparecera a declarar o seu amor por ele pela primeira vez. Melbourne sentiu-se um homem encurralado. Entre o sentido do dever e a necessidade da autossatisfação do que sentia por Victoria. Uma satisfação física, também, mas, acima de tudo, uma satisfação emocional. Uma concretização como homem que ele nunca tivera antes. Se a deixasse começar a descer as escadas seria tarde demais. Ela estava a chegar ao topo das escadas! Iria descer…

De repente, alguma coisa estalou dentro dele!

William Lamb foi impulsionado por uma qualquer força maior que o fez correr ao longo do corredor! Apressou-se para ela como nunca o fizera antes! Como já devia ter feito havia muito tempo! Naquele dia em que observava as gralhas quando ela lhe virou as costas…

Ela ouviu os passos dele na passadeira do corredor, mas não se assustou. E foi tudo tão rápido que nem teria como.

Ele agarrou-a pela cintura e envolveu os braços à volta dela! Prendeu-a contra si! Aquela cintura delicada que ele desejara agarrar tantas vezes!

Oh, as mãos dele no corpo dela! Finalmente! Como ela desejara aquilo durante tanto tempo!

Ao sentir que ele a agarrara Victoria deixou cair a bolsa, a capa, o chapéu e as luvas, colocou os antebraços dela em cima dos dele e as mãos de ambos entrelaçaram-se. A mão direita dela na mão esquerda dele e a mão direita dele na mão esquerda dela.

As mãos dele: grandes, seguras e macias! Agarrando as dela, pequenas e delicadas, como nunca fizera antes.

Victoria, não teve tempo de pensar no que estava a acontecer, mas sentiu que era algo maravilhoso e que seria transformador.

Ele beijou-lhe o ombro esquerdo delicadamente. Tocou com os lábios a pele dela, casta e acetinada, pela primeira vez!

Ela fechou os olhos e dobrou o pescoço ligeiramente para aquele lado tocando com a cabeça a cabeça dele.

Então ele percorreu, lentamente, o ombro esquerdo dela com beijos até chegar ao pescoço que continuou a beijar em sentido ascendente até atingir a nuca.

Victória sentiu um arrepio percorrer-lhe a coluna.

Depois, com as mãos na cintura dela, virou-a devagar para si, olhou nos olhos dela por uns instantes, aqueles olhos azuis grandes e lindos, totalmente concentrados nos dele, como sempre fazia. À espera…sempre à espera…

Victoria agarrava os braços dele acima dos cotovelos com ambas as mãos. Ela abriu ligeiramente a boca, respirou mais fundo fazendo os seios subirem na linha do decote e projetando o ar que expirava sobre o rosto dele…

William beijou-a!

Victória fechou os olhos.

Um beijo nos lábios, relativamente curto, mas determinado.

Abraçou-a com paixão e ela retribuiu da mesma forma.

Ele parou por segundos e voltou a beijá-la novamente.

Victoria nunca tinha sido beijada antes, mas achou que era tão estimulante! Instintivamente, abriu a boca, movimentou os lábios e ele aproveitou essa disponibilidade para a beijar de forma mais profunda, intensa e demorada!

Ela sentia uma língua estranha encostando na sua, mas tudo aquilo era muito excitante. Entregou a boca à língua voraz dele num desejo alucinado pelo seu contacto! O coração acelerou, sentiu o corpo fraquejar, como se fosse desfalecer, mas enquanto ele a agarrasse assim, como um náufrago agarrado a uma tábua de salvação, ela estaria segura. Depois a sensação era maravilhosa, como se flutuasse, algo estonteante. O mais semelhante com aquela sensação de enfraquecimento dos membros, que tinha sentido na vida, fora o efeito provocado pelo champanhe que bebera na noite do baile da coroação…

Melbourne experimentou uma emoção enorme no peito! Os lábios dela...cheios e macios… Como tinha desejado, tanta vez, beijar aquela boca perfeita, densa e rosada! Agora os lábios dela não eram mais uma imagem de desejo, mas algo real. Mantendo a mão esquerda na cintura dela, com a mão direita envolveu-lhe o troço do cabelo e segurou-lhe a cabeça para aprofundar o beijo. Por fim podia saboreá-la! A língua dela tocava na sua hesitante, a explorar. Mas essa inexperiência era ainda mais incitadora. Ele estava ávido dela e agora era possível saciar-se!

Ela constatou como o seu corpo podia responder àqueles beijos e àquele outro corpo pressionado contra o seu. Isto não estava a acontecer! Sentia o efeito quente e molhado da boca dele na sua. Uma energia eletrizante que a percorria. O sabor, a respiração… E, através do tecido do vestido, a queima do toque das mãos dele que a pressionavam, na cintura, nas costas... Gemeu na boca dele.

Aquele som fê-lo arrepiar-se de desejo.

- Eu aceito-o! – Disse Melbourne ofegante, com a testa encostada à testa de Victoria e com as mãos segurando o corpo dela de ambos os lados.

- O quê? – Perguntou Victoria, também com a respiração acelerada.

- O vosso coração! – Respondeu ele sorrindo.

O rosto dela floresceu num sorriso aberto e o peito arfou ainda mais rapidamente. Colocou ambas as mãos de cada lado do rosto dele, os dedos nas têmporas, as palmas nas bochechas. Esticou o pescoço para que ele a beijasse novamente.

Ele fê-lo, respondendo ao apetite daquela carnação agora ao dispor da sua ânsia. Ela era tão doce! E era recetiva. Mais do que isso, tomava iniciativa.

- Eu amo-vos, Senhora! Mais do que qualquer outra coisa na minha vida!

Ele dissera-lhe que a amava! Pela primeira vez com todas as letras! Finalmente!

- E eu amo-vos, Lord M!

Ele era intoxicante!

- Minha querida, minha querida… - Ele ia pronunciando enquanto a beijava na boca, no maxilar, no pescoço…Apertando-a sempre contra si.

Ela sentiu que isto era a essência dele, o que ele lhe dava através destes beijos que ela nunca experimentara antes. Ela recebia o mais íntimo dele e queria que ele recebesse o mesmo dela. Neste momento ele podia tomar dela tudo o que ele quisesse! Podia disfrutar dela como lhe aprouvesse!

Havia uma mistura de sensações entre eles! Anos de desejo proibido e de ansiedade contida colocados naqueles beijos. A língua dele possuindo a dela, ligando-se a ela.

Agora ela não podia perder o contacto físico com ele, não agora que isso lhe tinha sido dado! Não podia largá-lo, não podia conceber afastar-se do contacto com a pele dele, queria que permanecessem assim, suspensos no tempo. Uma Rainha, ela sabia, não agia por impulso, mas neste momento ceder ao impulso era a única coisa de que ela precisava!

Então, quando ele voltou a suspender os beijos, olhando para ele, de forma lânguida, mas determinada, ela sussurrou:

- Eu quero ser vossa…

Ele estremeceu. Perscrutou os olhos dela com os seus tentando compreender o significado exato do que ela dizia. Verde sobre azul.

- Agora! – Ela rematou.

Melbourne perguntou-se se ela sabia, de facto, o significado do que acabava de dizer.

Ela colocara agora as palmas das mãos no peito dele. Ele agarrou as duas mãos dela com as suas e perguntou:

- Senhora, você tem a certeza que…?

- Sim! – Ela respondeu determinada antes que ele acabasse a pergunta.

Ele teria continuado a interrogação com "quer mesmo fazer isso?"

Os olhos dela brilhando num desassossego que Melbourne interpretou como um misto de curiosidade, de desejo e de nervosismo.

- Mas você sabe…?

Ela não foi capaz de falar novamente… Baixou a cabeça e, mais uma vez, agora com a cabeça debaixo do queixo dele, fez um movimento afirmativo antes que ele acabasse a pergunta.

Ele teria continuado a interrogação com "quais são as consequências?". Pensava no facto dela deixar de ser virgem para qualquer eventual consorte, no perigo de uma gravidez e, no limite, no risco extremo de uma abdicação forçada...

Ela sabia…O que é que ela sabia? Sabia que o amava, que confiava nele mais do que nela própria, que queria muito entregar-se a ele, embora não soubesse exatamente o que isso implicava, mas, instintivamente, ela sabia que queria fazer isso, havia uma energia magnética nele que a impeliam a fazer isso. E sabia o que Skerrett tinha dito: se fosse feito com amor não doía. E era a coisa mais bela que podia acontecer entre um homem e uma mulher… Se eles se amavam, então, não havia dificuldade. E ela queria muito saber como era o que de mais belo podia acontecer entre ambos. Se tudo o que acontecera entre os dois, até hoje, sempre fora tão maravilhoso, então ela queria que, se ainda havia mais degraus para subir, essa realização fosse atingida. E a julgar pelo que acontecera até aqui, quando ele a abraçara e a beijara, ela só podia desejar que fosse possível mais.

Ele pensou que ela era atordoante! E estava sempre enveredando por caminhos inesperados, desarmando-o. Se ele a rejeitasse neste momento, a seguir ela iria implorar. E ele nunca permitiria que ela passasse por essa humilhação! Suplicar para que ele lhe desse o que ele mais lhe queria dar! E ele não era um santo, nunca fora! Ela é que o via como um homem de virtudes. Mas ela era especial para ele e a relação deles era especial. No entanto, de tão especial até consentia isto: ela ali com ele onde não devia estar, as palavras que ela pronunciara antes que nunca devia ter dito e o que aconteceria a seguir se ele permitisse. E ele não lhe podia negar isto, nem a ela, nem a ele. Não a podia mandar embora outra vez… Já não tinha condições para isso… Se já tinham chegado até ali então não ia agora voltar atrás. Porque é que aquele presente lhe era dado a ele? Ela era uma dádiva e ele não tinha como a negar. Ele, que não era um santo, naquele momento era um homem. Ele só queria ser um homem naquele momento! Então, a partir de agora a vida dela estaria nas suas mãos!

Brocket Hall permitia tudo…

Pegou-lhe ao colo e levou-a para o quarto.