Quando Rachel recebeu o recado de Santana que as aulas de defesa pessoal teriam início, a primeira coisa que veio a mente quando soube do endereço é que a líder havia perdido a cabeça. Esperava ir a uma sede dos botões ou à casa de alguém. Talvez até na escola. Mas em uma das academias mais exclusivas de Lima? Aquela que atendia só a nata política e aos ricos? Como aprendera a confiar a vida em Santana, decidiu cumprir o compromisso apesar daquela academia ser um local assustador para uma garota pobre como ela que vivia de favor na casa de outra família. Pegou um ônibus. Havia poucas linhas que circulavam pela cidade por causa do tamanho da população e elas, no máximo, se aproximavam da área nobre da cidade. O caminho em si não era desconhecido. Rachel já havia o feito várias vezes para trabalhar nas festas de famílias como os Fabray, os Karofsky, os Lewis, e nas inúmeras vezes que foi à casa dos Pierces.

Olhou a fachada usual da academia. Paredes externas brancas, grandes vidros, a visão do amplo espaço da sala de aparelhos que fica nítida para quem está do lado de fora. As pessoas que entravam e saiam com roupas apropriadas e toalhinhas. Rachel olhou para si. Estava com as roupas usuais da escola: saia, blusa, a meia 3/4, e a sacola de treino padrão dos atletas de Mckinley High.

"Gostaria de falar com Santana Lopez, por favor. Nós marcamos um horário..." – disse tímida a recepcionista.

"Você deve ser Rachel. San deixou o recado de que você viria. Pode entrar" – a moça disse com um sorriso, mostrando simplicidade de quem não pertencia àquele mundo. Só trabalhava nele. Era um sentimento que Rachel conhecia muito bem – "Meu nome é Bianca" – a moça sorriu enquanto pediu para que Rachel a acompanhasse no interior do estabelecimento – "Pode gritar se San for má contigo. Ela é má com muita gente que não merece".

Rachel conhecia a peça bem demais para saber que era a mais pura verdade. Subiram as escadas onde a academia se dividia em algumas salas. Havia uma sessão de pilates em andamento em uma delas. Noutra, um pequeno grupo de quatro alunas mais o professor faziam alguma dessas atividades aeróbicas da moda. Santana estava na sala que tinha um tatame, vestida numa camisa de malha preta e calça branca de artes marciais. Bianca deu dois toques na porta antes de abrir sem cerimônia acompanhada de uma assustada e impressionada Rachel.

"Sua encomenda, San. Ela parece ser uma boa garota... não a maltrate."

"Eu sou uma lady!" – Santana respondeu com falsa surpresa pela insinuação – "A bitch deste lugar é você."

"Vai nessa!" – Bianca sorriu antes de virar as costas e sair.

Rachel encarou Santana como se ela fosse uma alienígena, ainda com os pés grudados no espaço ao lado da porta, impressionada demais para conseguir se mexer.

"Eu sei que o que você faz na parte do tempo em que não está na escola ou conosco é um mistério para nós... ou para mim em particular... mas eu nunca imaginei que você pudesse freqüentar um lugar desses considerando que a sua residência fica exatamente no lado oposto da cidade onde mora pessoas que só sonham em ter um pouco do poder aquisitivo dos freqüentadores desta mesmíssima academia."

"Quer respirar, Frodo?" – Santana levou as mãos à cintura.

"Aqui eu serei Frodo?" – a outra disse com indignação. Apelidos eram para a escola.

"Você está surtada, Rachel" – Santana se aproximou. Cumprimentou o tatame antes de ir até a pequena diva – "Nada disso aqui tem a ver com conversa de botões. Ok? Isso precisa ficar bem claro aqui e agora" – Rachel acenou positivo – "Certo... eu fiz parte de um projeto de integração do mestre Marcus quando era ainda criança. Ele dava aulas de taekwondo para a molecada de Lima Heights Adjacent. O projeto ficava numa sala de comércio vazia perto lá de casa. Quando acabou, o mestre deu a opção dos alunos continuarem a receber aulas de graça, desde que fossem até a nova academia dele. Aqui! Passagens de ônibus não era exatamente um sacrifício para os meus pais, ao contrário dos outros garotos do bairro. Por isso sou a única daquele projeto social que está com o mestre até hoje. Costumo ajudar nas aulas com a molecada pelo menos uma vez por semana e tenho cartão de circulação livre."

"Livre circulação de poder fazer qualquer coisa?" – Rachel estava boquiaberta.

"Basicamente."

"Isso quer dizer que se você pratica taekwondo desde pequena..."

"Se sou faixa-preta?" – Rachel acenou ainda impressionada – "Sim, sou e em duas artes: taekwondo e hapkido."

"Por que nunca disse nada?" – Rachel sabia que Santana tinha treinamento em artes marciais, mas jurava que era algo relacionado aos botões.

"Fazer artes marciais não é uma informação de impacto popular ou sexy numa high school."

"Por que nunca disse isso para nós?" – Rachel gesticulou para o botão da própria blusa.

"Vocês nunca perguntaram."

"Simples assim?" – perguntou perplexa.

"Simples assim!" – Santana pegou a sacola de Rachel e a jogou contra o peito da colega sem muita gentileza – "Vou te mostrar onde é o vestiário. Não temos muito tempo de sobra."

"E você pode ensinar outras pessoas aqui? Não é ilegal?"

"Posso, desde que seja no máximo dois, o lugar esteja vazio, e eu não cobre."

"Quer dizer que você além de tudo ainda será a minha mestre?"

"Tecnicamente só posso ser chamada de instrutora. É o que meu grau Dan significa."

"Você é cheia de surpresas, San."

"Estamos perdendo tempo com tantas perguntas. Daqui a 45 minutos a turma de garotos vai chegar."

"Que garotos? Alunos matriculados?"

"Oh não... embora eu ajude o mestre com esses também quando posso. Falo dos meninos de Lima Heights Adjacent."

"Como?"

"Mestre Marcus paga uma van para transportar as crianças para cá uma vez por semana. Custo zero para as famílias. Ou eu ou ele damos aula para os garotos. Geralmente eu."

"É por isso que você costuma sumir às segundas-feiras depois da escola?" – Rachel estava sinceramente admirada.

"Não é algo que eu saio espalhando por aí, Rachel..."

"Entendo. Você terá toda a discrição da minha parte."

Rachel trocou-se rapidamente. A hora já avançada não permitiu que Santana se dedicasse à comandada. Ensinou alguns exercícios de queda. A diva tentou reclamar, achando que aquilo era menos do que ela poderia assimilar. Ainda não entendia certos preceitos das artes, que antes de aprender a dar um soco que fosse, era preciso saber cair. A garotada chegou. Quatro meninas e cinco garotos entre sete e dez anos. Todos com muita energia para gastar. Dois já tinham faixa amarela e um na verde, o que indicava que o projeto acontecia há algum tempo. Enquanto Rachel ficou num canto do tatame treinando quedas e ficou vermelha quando o garoto da faixa verde, o mais velho da turminha, começou a corrigi-la com paciência e polidez. Não era uma desonra. Nas artes marciais o que conta é o grau e não a idade. Rachel não tinha sequer um dobok, o uniforme do taekwondo, o que significava que ela estava abaixo de um faixa-branca.

No final da aula, os meninos tinham uma pequena recreação. De 15 minutos a meia hora que era o tempo da turma dos garotos que pagavam a mensalidade começarem a aparecer, assim como o professor responsável. Rachel ficou admirada em ver Santana brincando com os garotos com um sorriso largo e fácil no rosto. Um que era raro de se ver. Achava que só Brittany fosse capaz de arrancar um daquele da líder. O coração quase derreteu ao ver a cena daquela pessoa estóica e até cruel na maior parte do tempo virar criança por algum tempo. Sacudiu a cabeça quando se pegou admirando demais. Ter uma queda por Santana seria estranho e complicado em vários sentidos. Era melhor sequer pensar nisso.

"Vamos?" – Santana disse após trocar de roupa no vestiário. Estava de volta ao normal figurino de adolescente sexy e chique que ela vestia sempre quando não estava de uniforme de cheerio. Colocou a jaqueta de couro e ofereceu um capacete a Rachel.

"Você vai me dar carona? Na sua moto?"

"Qual o problema?"

"Como eu vou explicar isso em casa? Puck pensa que estou traindo Kurt com Sam por causa de outro dia."

"Quem disse que eu ia te deixar em frente aos Puckerman?" – sorriu faceira – "E isso faz sentido."

"O que faz sentido?"

"Você e Samuel. Aliás, seria um casal de nome bem judaico."

"Eu... não sei do que está falando" – na verdade, Rachel sabia muito bem. Desde que foi apresentado oficialmente, Sam se aproximou muito mais de Rachel.

A garota menor emudeceu e colocou o capacete. Precisou carregar nas costas a mochila da líder e ainda segurar as próprias coisas com um braço enquanto com o outro ela agarrava a cintura de Santana como se a vida dela dependesse disso. O que não estava longe da realidade. Como o prometido, Santana deixou Rachel no comércio mais próximo a casa dos Puckerman. Entregou a mochila e devolveu o capacete, que Santana logo prendeu no lugar apropriado. Não eram muitas pessoas diferente de Brittany que vestiam o acessório de segurança. Informação que não havia a menor necessidade de ser dada. Acenou e arrancou com a moto.

Rachel estava ainda atônita por ter uma parte da vida da líder. Ainda assim, ela tinha tantas dúvidas e curiosidades. Queria saber por que só então Santana decidiu treiná-la e mesmo se algum outro integrante conhece este outro lado. Tinha desejo de saber tantas outras coisas a respeito dos botões, do grupo, da líder. Santana era um mistério. Entendia, por outro lado, que tinha de ter paciência ou ficaria com nada. Caminhou dois quarteirões antes de alcançar a porta de entrada da casa. Natalie correu para abraçá-la animada por ter sido escolhida a atriz principal de uma peça infantil que faria na escola. Ficou feliz pela menina, do qual era simpática.

"Senhora Spencer deixou um recado para você" – Anna informou – "Parece que ela quer te pagar por aulas de reforço."

"Ótimo!" – Rachel agradeceu – "Aulas particulares dão os melhores trocados."

"Faz umas três semanas que você arruma nada" – Anna disse áspera.

"Quase isso" – Rachel disse quieta – "Nem sempre a gente consegue trabalho."

"Ainda assim, você vive chegando tarde em casa, ou nem dorme aqui."

"É que fiquei um pouco mais tempo com Kurt e meus amigos..."

"Você sabe que eu não me importo de você passar as noites com esse seu namoradinho, Rachel. Mas tudo tem um limite."

"Eu não deixo de fazer as coisas aqui, e sempre contribuo quando posso" – Rachel disse firme, ainda que num tom baixo e respeitoso.

"Não gosto disso... algo me diz que você está se metendo em encrenca."

"Eu nunca trouxe um problema que fosse para cá, Anna. Nem reclamações de escola, nada!" – Rachel ensaiou uma reação mais forte.

"É só um aviso, Rachel. Sei que é responsável o suficiente e te dou toda liberdade que precisa. Só não traga confusão para dentro desta casa..." – ao ver o rosto da menina, Anna ponderou – "Desculpe... as coisas estão ficando cada vez mais difíceis, o dinheiro está cada vez mais curto e para piorar, Noah está com algumas idéias estranhas. Disse que você está se envolvendo com outro garoto de quem ele disse gostar de mexer com as namoradas de outras pessoas."

Rachel entendeu o que estava por trás do súbito ataque de preocupação da matriarca e relaxou o corpo. Lutou contra a vontade de virar os olhos porque aquele era o típico caso do sujo falando do mal lavado. Puck falar de Sam sobre mexer com a namorada alheia? Os dois tiveram com Quinn pelas costas de Finn. Puck fazia coisas muito piores do que ficar com namoradas alheias. Ele transava com esposas alheias também. E o caso dela era outra história, apesar de que aos olhos das outras pessoas que não os botões, até que fazia sentido.

"Sam é um grande amigo" – Rachel explicou a guardiã mesmo sem precisar – "Eu o estou... tutelando em algumas matérias e é por isso que somos vistos mais unidos na escola. Kurt sabe de tudo e confia em mim. E depois, eu jamais teria nada com Sam nas costas do meu namorado. Não é certo e eu não sou dessas."

"Claro que não!" – Anna sorriu também mais aliviada – "Você é uma boa garota, Rachel... uma boa judia também. Noah é que começou a ter idéias estranhas desde começou a acompanhar política..."

"Entendo."

Rachel se ofereceu para ajudar, mas não antes de retornar a ligação e marcar a aula particular que lhe renderia um bom trocado. Não leu a habitual página de "O Apanhador No Campo de Centeio", de J. D. Salinger: um livro com o selo de "restrito" disfarçado com a capa e informações de biblioteca de "Histórias Extraordinárias", de Edgar Allan Poe. Era uma questão de segurança e conveniência. Não que alguém daquela casa lesse alguma coisa com mais de dez páginas, apesar de Natalie ser uma criança inteligente e promissora. Rachel achava o livro triste, perturbador, mas, de alguma forma, se identificava as angústias de Holden Caulfield, o protagonista da história. Só não tinha o espírito apropriado para ler. O saldo do dia foi positivo, até inspirador, mas o cansaço tomou conta do corpo. Ela só precisava de um banho e cama.

Na escola, a primeira coisa que Sam fez ao ver Rachel foi dar um abraço de bom dia. Ela reagiu friamente e percebeu que sim, os outros garotos da escola observavam a cena com alguma atenção. Viu, em especial, a testa franzida de Puck em desaprovação. Indiferença: ok. Interesse: sinal vermelho.

"O que foi?" – ele ficou confuso.

"Converso contigo mais tarde..." – foi em direção a Kurt e o beijou com um pouco mais de entusiasmo do que eles costumavam encenar na escola.

"Isso tem a ver com os rumores?" – Kurt sorriu e Rachel franziu a testa – "Mercedes me ligou duas vezes ontem. Numa ela queria me dizer algo e ficou sem coragem de desembuchar. Na segunda vez veio com a enigmática mensagem de que eu deveria abrir os olhos contigo."

"Desculpe por essa..." – Rachel disse baixinho enquanto os dois andavam de mãos dadas pelos corredores.

"O que é um namoro sem algum drama? E depois..." – sussurrou no ouvido da amiga – "acredito que Sam esteja mesmo de olho."

Neste meio tempo, as cheerios passam pelo casal. A última delas, Santana, dá um esbarrão proposital. Rachel deixou o corpo cair conforme havia aprendido no dia anterior e logo fez o movimento para ficar de pé com rapidez. Santana observou com satisfação.

"Devia olhar para onde anda, Olívia Palito."

A líder sabia que Rachel odiava os desenhos de Popeye, apesar de toda a propaganda pró-vegetarianismo. Afinal, o herói ficava forte com espinafre. Não que Rachel fosse vegetariana. Ela não podia se dar ao luxo na casa dos Puckerman. Evitava comer carne, no entanto.

"O que foi isso?" – Kurt a ajudou a se recompor.

"Coisas de botão."

Percebeu a presença de outra pessoa pelo corredor: Quinn Fabray. Desde o encontro no vestiário que as duas evitavam dividir o mesmo espaço. Um esforço que era mais de Quinn do que da pequena diva.

"Ficou sabendo de algo sobre ela?" – Rachel perguntou discretamente a Kurt.

"Nossa capitã não soltou uma vírgula a respeito, mas eu aposto que ela sabe o que se passa. Tenho outras fontes. Tina disse, que Mercedes disse, que Brittany disse, que uma cheerio disse, que Quinn está de caso com um homem mais velho de mão muito pesada."

"Será?"

"Duvido de nada neste mundo."

"E Finn?" – Rachel tinha um olhar no rosto de quem queria armar o mais maquiavélico dos planos.

"Rach... não!" – Kurt advertiu – "Eu sei que o nosso namoro acaba no momento que você conseguir colocar as mãos nele... e que você não pensa direito quando falamos de Finn, mas neste caso em específico... não!"

"Eu nem estou tão assim na dele mais..." – Rachel desconversou. Era fato que outras pessoas povoavam a mente dela. Finn não era mais exclusividade, embora ainda ocupasse o maior espaço da gaveta cerebral identificada como 'interesses românticos'.

"Se eu fosse você, olharia para Sam com mais carinho. Ele é um cara legal e você não precisaria esconder certas coisas dele."

Kurt deu um beijo de leve no rosto da pseudo-namorada e entrou para assistir a primeira classe. A sala de Rachel ficava duas portas adiante. Mas ela parou no corredor por um instante. Finn conversava alguma coisa com Puck na porta de uma sala de aula, Mercedes passou pela diva e a chamou para entrar logo em classe, que elas teriam juntas, mais Artie, Mike e Tina. Os alunos já se acomodavam e por último veio Sam que passou por ela cabisbaixo, mas não se furtou em olhar em direção a ela rápido antes de entrar na classe junto com os outros jogadores do time de futebol. Será? Rachel ainda não havia pensado a respeito e, para a própria surpresa, não ficou ofendida ou se sentiu estranha com a possibilidade. Talvez ela também tivesse direito a um pouco de romance, mesmo um complicado.