5º Mês

(Londres, 17 de dezembro de 2008, quarta-feira)

Talvez fosse o clima de Natal que parecia estar contagiando a todos, mas nos últimos dias Harry se pegara bastante contemplativo. Às vezes se deitava e ficava pensando até o sono fugir. Então até o sono voltar novamente... Ou se pegava devaneando em frente ao computador no trabalho, sem conseguir se concentrar no que precisava fazer, como naquele momento.

Uma coisa era Harry aceitar que era gay - ou bissexual, o que quer que fosse - e ele achava que já tinha superado aquilo. Já não tentava mais negar para si mesmo ou se sentir estranho quando pensava no assunto. Conseguia se ver no futuro lidando com mais aquela que descobrira ser uma característica sua, algo que fazia parte dele e o tornava quem ele era.

Outra coisa totalmente diferente era ter sentimentos por Malfoy. Não ousava dizer que estava apaixonado, mas sentia que algo havia mudado na concepção que tinha de Malfoy, na maneira como o olhava, como o percebia, como o entendia.

Harry tentava comparar o que sentia com o que já havia vivido, mas sua vida amorosa era pobre demais para servir de bagagem. Um único amor adolescente desgastado pelo tempo, seguido de um par de relacionamentos breves e pouco profundos.

Talvez fosse a convivência forçada mexendo com sua cabeça, como uma variação da Síndrome de Estocolmo. Algo que se perderia facilmente, tão logo eles não fossem mais obrigados a se relacionarem diariamente. Afinal, sua vida seria muito mais fácil sem Malfoy por perto, sem ter que ficar passando por cima de suas vontades e gostos para evitar conflitos. Mas não eram todos os relacionamentos assim? Complicados? Exigentes? E não valiam a pena na contagem final de ganhos e perdas?

Sem contar no fato que, de alguma forma, Harry havia percebido... algo em relação a Malfoy em uma única noite em Las Vegas. Algo que o motivara a pedi-lo em casamento e que se perdera na manhã seguinte.

Mas e Malfoy? O que diria se soubesse que algo estava mudando? Zombaria dele, como provavelmente fora sua intenção desde o início? Desde o dia em que acordara em Las Vegas com uma aliança no dedo até a noite da garrafa de uísque, Harry acreditara piamente que tudo não se passara de uma estupidez de dois bêbados. Mas, então, Malfoy não estava bêbado a ponto de fazer uma besteira daquela por falta de capacidade de julgamento. Ele não era afetado pelo álcool como Harry. Então o que poderia ter motivado Malfoy além da perspectiva de envergonhá-lo?

Mas, se fosse aquele o caso, Malfoy teria aproveitado a primeira oportunidade para humilhá-lo ao invés de afirmar que também estivera fora de seu juízo perfeito. Teria se arrependido? Teria se envergonhado? Seria possível que algo tivesse mudado em sua concepção de Harry também?

Seriam todos os relacionamento tão frustrantes? Talvez fosse mais fácil com pessoas normais, que demonstravam seus sentimentos com mais clareza. Como o próprio Harry, que às vezes se sentia traído pelas próprias expressões corporais, que insistiam em colocá-lo como um livro aberto. Mas Malfoy tinha que ser mais complicado do que a a maioria das pessoas, como se o comum fosse algo aquém de suas qualidades.

E, mesmo se Malfoy correspondesse aos seus sentimentos, em qualquer grau que fosse, provavelmente o faria do seu jeito mesquinho, esperando que Harry suportasse seus humores, aceitasse todas as culpas, tomasse todas as iniciativas, todas as decisões difíceis e ainda o convencesse a segui-las. Até quando Harry sobreviveria àquilo ganhando tão pouco em troca?

Harry foi interrompido de seus pensamentos quando algo voou em sua direção.

"Ei!" Harry reclamou, abaixando-se para pegar a borracha que lhe haviam atirado.

"Estou chamando você já horas!" Dean resmungou do outro lado da sala. "Você ficou sabendo sobre o Wood?"

"O que é que tem ele?"

"Está deixando a empresa!" Parvati se adiantou, incapaz de perder uma oportunidade de fofocar em primeira mão.

"Ei, sua intrometida" Dean reclamou, mas Harry não prestou atenção.

"Ele pediu demissão? Como? Por quê?"

"Ouvi dizer que recebeu uma proposta de uma concorrente americana. Está cumprindo aviso prévio e tudo" Colin falou e foi a vez de Parvati lhe lançar um olhar assassino.

"É claro que você ouviu. Fui eu quem contou, seu pivete."

"Bem, eu ouvi dizer que ele vai ser treinador de um time de futebol" Dean cruzou os braços.

"O quê? Isso é ridículo! Ele nem é jogador!" Parvati cruzou os braços, contrariada por alguém contestar sua versão dos fatos.

"Na verdade ele é" Neville se pronunciou. "Ele joga desde o colégio e é muito bom mesmo."

"Ei, chefe, já pensou se você fosse promovido a gerente no lugar dele?" Seamus entrou na conversa.

"Ah, não! Seria horrível" Parvati gemeu e todos a encararam. "Quero dizer, não para Harry, é claro, mas para nós! Já imaginaram quem poderia ocupar o lugar dele?"

"A Bulstrode!" Dean falou e os outros tremeram. "Ou Montague" outro arrepio generalizado.

"Ei, pessoal, eu ainda estou aqui" Harry lembrou-os. "E provavelmente vou continuar por um bom tempo, desde que vocês não acabem fazendo com que eu seja descomissionado por não finalizarem esses anúncios no prazo. Então, melhor voltarem ao trabalho."

"Ei, Harry" Seamus chamou suavemente depois de poucos segundos de um silêncio compenetrado. "Você sabe se a loja do Ron já está abrindo até tarde? Preciso comprar os presentes dos meus sobrinhos, mas fica muito corrido durante o almoço..."

"Não sei... Mas posso descobrir" Harry sacou o celular do bolso e ligou para Ron. A ligação caiu direto na caixa postal, portanto Harry resolveu ligar para Hermione.

"Harry! Que ótima surpresa! Eu gostaria muito de falar com você, mas agora está meio... complicado..."

"Ah, tudo bem... Só queria saber se a loja já está abrindo até tarde."

"Está sim. Ron tem voltado todos os dias tarde da noite e completamente esgotado, coitado..."

"Que bom" Harry falou, distraído, então se corrigiu. "Quero dizer, não é nada bom que ele esteja tão esgotado, mas pelo menos isso significa que os negócios estão indo bem. O que é bom" ele se interrompeu, se estapeando mentalmente pela sua costumeira eloquência.

"Harry, está tudo bem?" Hermione perguntou, curiosa.

"Claro. Tudo ótimo. Maravilha" Harry tentou soar despreocupado, mas tudo o que conseguiu foi chamar ainda mais a atenção da amiga, se a pausa que se seguiu fosse algum indicativo.

"Hey, Harry, o que você me diz de me encontrar no O'Nells mais tarde? Você sabe, Ron tem passado tanto tempo fora de casa que estou sentindo falta de companhia..."

"Hmm... claro" Harry falou, com falsa tranquilidade, já desconfiado das intenções da amiga. "A gente se vê lá pelas seis."

"Combinado."

Harry deu a notícia a Seamus, mandou uma mensagem para Malfoy para avisá-lo que se atrasaria e tentou, ainda que sem sucesso, se concentrar pelo resto do dia. Ao final da tarde, Hermione o encontrou no pub conforme combinado.

"Como você está?" Harry perguntou enquanto puxava uma cadeira para que ela se sentasse.

"Ah, um pouco enjoada, para dizer a verdade. Às vezes só o cheiro da comida já me embrulha o estômago" em seguida seu rosto se abriu. "Mas a sensação é ótima! Estou tão feliz que não consigo nem explicar!"

"Uau! Nunca achei que viveria para ouvir você dizer que não consegue explicar alguma coisa" Harry brincou e levou um tapa brincalhão. "E o Ron?"

Hermione suspirou.

"Ele está passando por fases. A fase da preocupação financeira já passou, agora ele está comprando tudo o que acha que pode ser útil para o bebê. Já comprou pratinho de papinha, tapa olho infantil e até jogos educativos" ela rolou os olhos. "Se continuar assim, vou ter que confiscar o cartão de crédito dele."

Eles foram interrompidos pelo garçom. Harry pediu um suco para a amiga e um chope para si.

"Então?" Hermione perguntou assim que as bebidas chegaram. "Como você se sente depois de quatro meses?"

"Ah, você sabe..." Harry deu de ombros. "Até que não está tão ruim."

Hermione estreitou os olhos enquanto o encarava, como se buscasse a verdade em seu rosto.

"O que foi?" Harry perguntou, incomodado.

"Eu é que pergunto, Harry. O que está acontecendo? Você está com aquela cara."

"Que cara?"

"Aquela cara de alguém que está se esforçando para parecer tranquilo e falhando terrivelmente" Hermione levantou a sobrancelha. Quando Harry fechou a cara, ela mudou para uma tática mais persuasiva. "Vamos lá, você sabe que pode conversar sobre qualquer coisa comigo, Harry. O que quer que seja que o está incomodando, vai parecer menos assustador depois que você falar em voz alta. Eu prometo."

Harry rolou os olhos.

"Está bem. Que seja" ele nem sabia por onde começar, mas depois que o fez, Hermione não permitiu que parasse até que tivesse colocado tudo para fora.

"Tem certeza que não é o seu complexo de herói falando, Harry?" ela ponderou, por fim. "Quero dizer, de repente você descobriu que ele é uma pessoa cheia de problemas e você acha que pode ajudá-lo de alguma maneira... Eu o conheço bem demais para saber como você gosta de concertar as coisas, Harry."

"Eu..." Harry estava a ponto de negar, mas passou as mãos pelos cabelos de um jeito desesperado. "Não sei, Mione. Talvez você tenha razão. Mas o que eu faço? Não é como se eu pudesse me afastar dele para pensar melhor sobre as coisas. E ficar perto dele não está exatamente ajudando nesse sentido."

Hermione pensou por um instante, seus olhos se movendo de um lado para o outro como se a resposta pudesse estar escondida em algum canto do pub. Ela suspirou, frustrada.

"Ah, Harry... Também não sei como você poderia sair dessa situação sem acabar se machucando de um jeito ou de outro... Mas talvez a situação não seja tão ruim quanto parece... Talvez ele também tenha mudado de lá para cá..."

Harry meneou a cabeça.

"Mesmo que tenha mudado, não consigo enxergar um futuro para nós dois. Talvez se nós tivéssemos começado de outra maneira..." mas Harry sabia que não havia outro jeito deles terem começado algo que não fosse uma briga. Harry não teria escolhido passar algum tempo com Malfoy se outros fatores não o tivessem forçado a isso. E como teria descoberto tanto a respeito dele se não fosse daquela maneira?

"Talvez vocês fiquem amigos no final" Hermione falou, ainda que não parecesse acreditar nas próprias palavras.

"Nós nunca seríamos amigos. Quero dizer, a única coisa que parece realmente funcionar entre nós dois é o sexo! Se tirar isso da equação, aí não sobra muita coisa..."

"Então talvez você deva evitar o sexo, para poder pensar de maneira mais clara" Hermione sugeriu, mas Harry não achava que seria capaz de se segurar. Ainda mais faltando tão pouco tempo para perder até mesmo isso...

"Sei que parece masoquismo da minha parte" Harry admitiu. "Mas eu não queria que isso acabasse... Nunca tive nada parecido, nada tão intenso. Com ninguém, nem mesmo com a Ginny!"

"Harry" Hermione segurou sua mão, forçando-o a encará-lo. "Não é tão tarde quanto você pensa. Você ainda vai encontrar alguém. Alguém que faça você feliz de verdade, sem exigir tanto de você. Mas você precisa se permitir! Você passou tanto tempo com medo de se machucar de novo, que nem tentou mais! Agora que sabe o que estava perdendo, não deixe de tentar de novo quando tiver a chance. Você merece ser feliz também, Harry... Mais do que ninguém."

-oOo-

Ao final do dia, Harry passou por tantas decorações natalinas antes de chegar em casa que achou tudo muito triste do lado de dentro do apartamento, como se faltasse algo.

"Você tem alguma árvore de Natal, Malfoy?" perguntou enquanto se preparava para tomar banho.

"Não" Malfoy franziu a testa. "Não me preocupo muito com essas coisas, para dizer a verdade."

"Mas você se importaria se eu comprasse uma?"

"Claro que não."

Algo ocorreu a Harry e ele dispensou os pijamas, optando por uma roupa de sair.

"Malfoy, o que acha de darmos um passeio? Tem algo que eu gostaria que você visse."

"O quê?" Malfoy perguntou e Harry sorriu, misterioso.

"Eu digo quando chegarmos lá."

Quando Harry saiu do banheiro já meio vestido, Malfoy estava com cara de poucos amigos, mas pronto para sair. Harry chamou um táxi e disse o endereço em voz alta, percebendo quando Malfoy tirou o smartphone do bolso.

"Corta essa, Malfoy" ele tomou o celular da mão de Malfoy, que protestou, tentando alcançá-lo. "Já disse que você vai saber o que é assim que chegarmos. Nada de trapacear."

"Eu não ia trapacear. Só estava checando meu e-mail."

"Claro, claro" Harry falou, condescendente.

"Posso pelo menos ter meu telefone de volta?" Malfoy resmungou. "Não vou tentar espiar."

Harry devolveu o aparelho e eles ficaram em silêncio por algum tempo, olhando o movimento do lado de fora do veículo. A noite estava cheia de luzes coloridas piscantes, jingles e risos. Harry tentou contar quantos Papai Noéis avistou, mas perdeu a conta próximo dos vinte. O táxi parou em uma esquina comercial bastante movimentada e Harry pagou o motorista, agradecendo.

Parou ao lado de Malfoy para olhar ao redor. Havia um cibercafé numa das esquinas, uma farmácia, uma loja de roupas de marca e na esquina oposta, uma grande loja de brinquedos, de longe a mais barulhenta e movimentada de todas. Era para lá que Malfoy estava olhando, com o cenho franzido.

"É... barulhenta" Malfoy falou, depois de uma muda contemplação.

"E grande também" Harry sorriu.

"Tem certeza que eu preciso entrar? Quero dizer, eu já vi, não é suficiente?"

"Não. Quero que você me ajude a escolher uma árvore. Além do mais, faz tempo que não passo por aqui. Está bem diferente do que no ano passado. Vamos" Harry tocou no braço de Malfoy para atravessarem a rua, mas largou em seguida, enfiando as mãos nos bolsos. A temperatura tinha caído muito e a chuva que caíra mais cedo formara alguns pedaços de gelo na grama do jardim em frente à loja. Algumas crianças brincavam de jogar gelo umas nas outras, provavelmente enquanto seus pais compravam seus presentes.

O lado de dentro estava abafado e bastante movimentado, mas nada perto do que estaria nas vésperas do Natal. Havia um grande aglomerado de crianças e pais rodeando réplicas minimalistas de Wall-e e Eve em tamanho real. Assim que eles os contornaram, Malfoy levantou os olhos e Harry seguiu seu olhar, sorrindo para as várias miniaturas aviões e helicópteros dos modelos mais variados pendurados numa grande claraboia, enquanto algumas crianças se debruçavam no parapeito dos três andares para admirá-las mais de perto.

"Tudo bem, estou impressionado" Malfoy admitiu e Harry deu um tapinha em suas costas.

"Ótimo. Missão cumprida."

"Podemos ir agora?"

"Ainda não... Ah, lá está Ron!" Harry viu o amigo acenando para ele do caixa antes de atravessar a loja até eles.

"Ei, Harry!" Ron o abraçou. "Eu não sabia que você viria, senão teria mandado montarem logo a réplica do Bumblebee!"

"Não acredito que você conseguiu!" Harry se admirou e Ron sorriu de orelha a orelha.

"Eu não consegui nada. Nós conseguimos, cara!" ele deu tapinhas no ombro de Harry. "Sei que você tem coisas mais importantes para fazer do que cuidar de uma lojinha, mas não deixa de ser sua também!" só então Ron pareceu ter se lembrado de Malfoy e cumprimentou com breve um aceno de cabeça. "Ei, Malfoy."

Malfoy devolveu o aceno de cabeça.

"Venha, vamos lá no estoque que eu mostro para você. Ainda não está totalmente montado, até porque não caberia lá dentro. Tem mais de três metros de altura e..."

Harry estava louco para seguir o amigo, mas olhou para Malfoy pelo canto do olho.

"Hmm, Ron, tudo bem se eu vier ver depois? Quando já estiver montado, pra não estragar a surpresa? É que Malfoy e eu viemos apenas para ver uma árvore de Natal..."

"Ah..." Ron pareceu levemente aturdido. Mas, para surpresa de ambos, Malfoy limpou a garganta.

"Você disse Bumblebee, o Transformer?"

"Sim" Ron virou-se para ele levemente desconfiado. "Quer ver?"

Malfoy deu de ombros e Ron levantou as sobrancelhas para Harry antes de chamá-los.

"Por aqui."

Harry gesticulou para que Malfoy fosse primeiro e eles atravessaram a loja rumo à uma porta meio escondida em meio a algumas mascaras de Halloween.

"De alguma forma a notícia já se espalhou" Ron comentou enquanto procurava pela chave. "Várias pessoas já apareceram perguntando por ele. Achei que as vendas dos Transformers cairiam esse ano, mas quase não deu para sentir. E já anunciaram que vão lançar o segundo filme ano que vem, então a criançada já está ficando doida! Aqui está..." ele abriu a porta e indicou que entrassem primeiro.

"Ah, uau!" Harry exclamou, se aproximando para passar a mão no amarelo lustroso do robô-Camaro, como se somente ver não fosse o bastante. "Cara, vai ficar incrível!"

"E eu não sei?" Ron se balançou nos próprios pés. Ele parecia cansado, mas muito satisfeito. "E teria custado uma fortuna se não fosse pelos contatos do Fred. Ele vai ficar chateado quando souber que você passou bem no dia que ele teve que sair mais cedo..."

"Diga que eu deixei um abraço para ele e Angelina. Aliás, encontrei a Mione hoje" Harry comentou, ainda admirado, mas percebendo pelo canto do olho que Malfoy também estava passando os olhos curiosos por todos os detalhes do robô.

"Sim, ela comentou. Ela está ótima, não está?"

"Sem dúvida" Harry sorriu para o amigo. "Você também, aliás. Tenho certeza que serão ótimos pais" então se lembrou. "Malfoy, acho que não comentei com você. Ron e Mione vão ter um bebê!"

"Meus parabéns" Malfoy falou, polidamente, apesar de manter as mãos seguramente dentro dos bolsos.

"Hmm... Obrigado, eu acho" Ron coçou as sardas do nariz. "Você disse que estavam procurando uma árvore de Natal? Se quiserem, posso ajudá-los a escolher."

"Seria ótimo" Harry aceitou e eles subiram dois andares até o setor de decorações, onde havia uma grande variedade de árvores iluminadas. Algumas se mexiam e outras se mexiam e cantavam. Harry apontou para uma das mais simples, pequena, calada, de pouco mais de um metro de altura, e Malfoy aprovou.

Ron insistiu em não cobrar e Harry acabou cedendo quando viu que não adiantava insistir.

"Harry, você vai passar o Natal conosco, não vai?" Ron perguntou quando Malfoy se distanciou um pouco para observar as prateleiras.

"Não sei, Ron" Harry olhou por trás do ombro para Malfoy.

"Tudo bem se você tiver que levar ele" Ron falou, dando de ombros. "Quero dizer, não acho que ele aceitaria, de qualquer forma... Mamãe não se importaria com uma pessoa a mais para o almoço, mas ela com certeza ficaria chateada se você não parecesse..."

"Depois nós conversamos sobre isso, está bem?" Harry falou e se despediu, carregando a sacola. "Você já jantou?" perguntou a Malfoy assim que saíram da loja.

"Ainda não."

"Então venha. Conheço um lugar muito bom aqui perto..." Harry guiou-o até a quadra de baixo, onde havia um pequeno restaurante de comida chinesa. Malfoy torceu o nariz para a fachada, mas seguiu-o porta adentro. Ele não elogiou a comida, mas também não reclamou, o que bastava para que Harry soubesse que tinha aprovado.

"Você pode passar o Natal com seus amigos, se quiser" Malfoy falou de repente e Harry levantou os olhos de seu yaksoba para encará-lo. Malfoy colocou um grande pedaço de legume na boca com o hashi, deixando claro que já havia dito tudo o que pretendia.

"Você iria comigo?" Harry perguntou, despretensiosamente.

Malfoy o encarou com uma sobrancelha erguida, como se avaliasse se a pergunta era séria.

"Não" ele falou, simplesmente, colocando mais um bocado de comida na boca.

Harry suspirou. Já esperava por aquela resposta, mas a ideia de deixar Malfoy sozinho, sabendo que ele não tinha com quem comemorar, o incomodava.

"Estive pensando..." começou. "E se nós fizéssemos um jantar para os nossos amigos na véspera? Assim eu não perderia o almoço de Natal dos Weasley."

"Nossos amigos?" Malfoy ironizou. "De quantas pessoas estamos falando?"

"Estou pensando apenas em Ron e Mione. E você?"

"Deixe-me ver" ele fingiu que contava nos dedos. "Não estou pensando em ninguém, Potter."

"E quanto a Parkinson? Bem, ela é a única amiga sua que conheço, mas deve haver mais...?"

Malfoy balançou a cabeça negativamente.

"E aquele seu amigo que ajudou com a investigação de Umbridge?" Harry perguntou, lembrando-se de repente.

"Nott? Nós estudamos juntos e ele me devia um favor. Eu dificilmente chamaria isso de amizade, Potter."

"Tudo bem, então. Parkinson tem namorado?" Harry tentou.

"Provavelmente vários" Malfoy falou e abandonou seu hashi, limpando a boca com um guardanapo. "Potter, não acho que seja uma boa ideia."

"Você ainda não contou a verdade a ela, contou?"

"Bem, eu contei que tinha me casado. Se isso não é contar a verdade, não sei o que é" ele ironizou e Harry suspirou novamente.

"Tudo bem, eu peço para Ron e Mione não dizerem nada comprometedor."

"E eles vão simplesmente obedecer você?"

"Eles vão respeitar o que eu pedir" Harry encarou o desdém no rosto de Malfoy e desistiu. "Tudo bem, esquece que eu sugeri alguma coisa... Você tem alguma outra sugestão de como podemos passar o Natal?"

Malfoy encolheu os ombros.

"Sempre há a possibilidade de chamarmos uma prostituta."

"Ou um psiquiatra" Harry devolveu prontamente.

Malfoy rolou os olhos, mas acabou cedendo.

"Faça seu jantar, Potter. Vou ligar para Pansy, mas ela costuma viajar com a família no feriado. E, mesmo se ela não for viajar, não garanto que vá aceitar confraternizar com seus amigos."

"Ok... Obrigado" Harry soou irritado, mas a verdade era que estava satisfeito.

-oOo-

(20 de dezembro, sábado)

Harry acordou de um sonho frustrante, onde precisava desesperadamente encontrar Malfoy mas não conseguia, e quando finalmente o achou, não conseguia falar com ele. Sua voz parecia carregada pelo vento e Malfoy não parecia ouvi-lo gritar.

Era quase oficialmente inverno, e a meteorologia já havia previsto neve havia dois dias, apesar de ela ainda não ter dado o ar de sua graça. Harry estava na cama, com as costas de Malfoy voltadas para si, as cobertas subindo e descendo tranquilamente conforme ele respirava. Ver sua respiração o acalmou e fez com que a sensação de impotência do sonho desaparecesse, sendo substituída pelas lembranças da noite anterior.

Eles tinham alugado um filme e assistido debaixo das cobertas, com direito a chá e pipoca de micro-ondas. Ao final, com os créditos e a música de encerramento ainda tocando, eles haviam se engajado numa sessão de amassos ainda melhor que o filme.

Involuntariamente, Harry fez as contas e um sentido de urgência se apoderou dele ao descobrir que faltava menos de dois meses para aquilo acabar. Hesitou antes de se aproximar de Malfoy, encostando-se nele e moldando-se ao seu corpo nu, quente e adormecido. Malfoy se mexeu levemente e Harry beijou-lhe suavemente a nuca exposta, deixando a mão deslizar pela lateral do corpo do outro, das costelas até o osso do quadril.

Malfoy se mexeu novamente e resmungou alguma coisa, mas ao invés de se esquivar, deixou o corpo pender levemente para trás e para Harry. Sorrindo por ter conseguido a permissão que desejava, Harry começou a distribuir beijos na curva do pescoço de Malfoy, ombros, no ponto sensível atrás da orelha, fazendo com que Malfoy expusesse ainda mais a área de modo a facilitar seu trabalho. Enquanto isso, a mão livre explorava o peito de Malfoy, acariciando seus mamilos até que eles enrijecessem, descendo até seu abdome e seguindo a trilha suave de pelos até sua virilha.

Encontrou seu corpo já meio desperto, apesar de Malfoy ainda se recusar a abrir os olhos, e estimulou-o até despertá-lo por inteiro, fazendo com que os lábios dele se abrissem levemente conforme sua respiração se acelerava. Malfoy projetou-se ainda mais contra o corpo de Harry, que por sua vez foi ao seu encontro, esfregando-se contra ele com uma necessidade crescente de contato.

Os olhos de Malfoy se abriram, ainda que apenas uma pequena fresta suficiente apenas para encará-lo por um momento antes que um sorriso torto abrisse caminho em seu rosto.

"Acordei você?" Harry sussurrou, todo inocente, e o sorriso de Malfoy tornou-se ainda mais malandro.

"Melhor que seja por um ótimo motivo" ele levantou o tronco num movimento rápido, descartando as cobertas, e alcançou o gel lubrificante e uma camisinha em seu criado, passando-os para Harry.

Harry largou a camisinha na cama às suas costas, mas a adição do gel tornou seu trabalho ainda mais prazeroso e ele deslizou para cima e para baixo, para frente e para trás, apreciando o contato de pele com pele.

"Harry... Por favor" Malfoy implorou, entre sua respiração ofegante.

"Não precisa..." Harry falou, beijando-lhe a nuca.

"Mas eu quero" Malfoy encarou-o por cima do ombro, umedecendo os lábios enquanto sua mão tateava entre seus corpos.

"Espera" Harry pegou a camisinha, vestindo-a rapidamente. Observou atentamente a expressão enlevada de Malfoy enquanto o invadia e sentiu a tensão em suas entranhas aumentar perigosamente enquanto se movia.

"Isso..." Malfoy gemeu, movendo o quadril e retomando a tarefa de se estimular, que Harry distraidamente havia abandonado. "Assim... Mais rápido... Mais forte..."

Harry obedeceu a todos os comandos avidamente, sem nunca tirar os olhos do rosto de Malfoy que se contraiu por um momento em uma expressão que tanto poderia ser de dor quanto de prazer antes que ele atingisse o clímax, levando-o junto apenas um momento depois.

Ambos se esparramaram na cama, as respirações ofegantes, os músculos relaxados e as expressões satisfeitas.

"Isso não dói?" Harry perguntou, incapaz de conter a curiosidade que o vinha remoendo havia algum tempo. Malfoy virou a cabeça para encará-lo, arqueando uma sobrancelha. "Você sabe... hmmm..."

"Sexo anal?" Malfoy perguntou, como se as palavras fossem as mais banais possíveis.

Harry assentiu e viu quando Malfoy abriu a boca, provavelmente para zombar de sua pergunta, porém tornou a fechá-la, reconsiderando. Quando tornou a falar, sua voz estava desprovida de malícia.

"Não exatamente" ele franziu o cenho antes de fechar os olhos. "É difícil de explicar."

Harry desejou que ele falasse mais, mas Malfoy não parecia disposto a prolongar o assunto. Sua cabeça fervilhava de ideias contrastantes. Sentia-se curioso e receoso ao mesmo tempo, mas o receio apenas atiçava sua curiosidade. Queria saber exatamente o que Malfoy sentia, mas ao mesmo tempo pensava que não se contentaria com palavras.

"Posso mudar os termos da nossa aposta?" Malfoy falou, depois de algum tempo em silêncio, arrancando-o de seus pensamentos.

"O quê...? Por quê?"

"Porque sinto como se tivesse desperdiçado uma ótima oportunidade, já que você não tem me obrigado a dormir no sofá ultimamente. Eu poderia ter pedido algo mais proveitoso. Como massagem nos pés. Ou sexo todos os dias."

Harry riu.

"Sinto muito, você não pode mudar o seu pedido. Mas, se serve de consolo, você vai perder de qualquer jeito."

"Ah, claro. Muito consolador."

Num movimento despretensioso, Malfoy se aconchegou a Harry, encostando a cabeça em seu peito sem se dar ao trabalho de abrir os olhos. Harry puxou a coberta cuidadosamente com um dos pés, temendo desalojá-lo com algum movimento brusco, e deixou seus pensamentos seguirem um curso mais tranquilo até cochilar novamente.

-oOo-

Harry estava sentado no chão da sala quando Malfoy apareceu, vestindo roupas quentes. Ele levantou a sobrancelha ao ver Harry debruçado sobre seu suporte de CDs.

"Não tire da ordem" Malfoy falou em tom de aviso e Harry rolou os olhos. Ele mantinha seus CDs ordenados alfabeticamente por artista, assim como todo o resto de seus pertences, e Harry não pôde deixar de se lembrar de sua confissão algum tempo atrás sobre seu tratamento psiquiátrico.

"Sim, senhor."

"Ei, você tem uma bela coleção aqui" Harry falou, admirado. A maioria dos CDs parecia intocada de tão conservados. Levantou os olhos para Malfoy, que tomava sua sagrada xícara de chá matinal. "Vai sair?"

"Sim. Tenho alguns assuntos para resolver" Malfoy resumiu. "Não me espere para o almoço."

Os ombros de Harry caíram.

"Ah... eu esperava que você pudesse me acompanhar ao supermercado hoje. Preciso de um vinho para o jantar de quarta-feira. Mas tudo bem, eu me viro..." Harry abaixou a cabeça.

Parkinson havia aceitado o convite, apesar de todas as as previsões pessimistas de Malfoy, e Harry já tinha um cardápio planejado.

"Está bem, vou tentar voltar cedo" Malfoy cedeu, a contragosto. "Até porque você é um desastre quando se trata de vinhos."

"Bem, eu tento compensar em outras coisas" Harry falou, provocante, e Malfoy teve que disfarçar um sorriso antes de vestir seu gorro. Ele estava preparado para enfrentar o frio, mas sem perder a elegância. Harry sempre achava que ficava enorme dentro de todas aquelas roupas, os movimentos limitados pelas camadas de tecido, mas Malfoy parecia ter vestido uma segunda camada de pele. Harry teve que desviar os olhos novamente para não ser pego em flagrante enquanto o admirava.

Malfoy se despediu e Harry voltou a se concentrar nos CDs. Colocou um álbum do Radiohead para tocar e deitou-se no tapete persa ao lado da pequena árvore de Natal com suas luzes piscando, coloridas. Ficou encarando a coleção de livros de Malfoy na estante logo acima. Tinha ligado a lareira elétrica, e o ambiente estava bastante aconchegante. Desconfiava que Malfoy tinha saído para fazer suas compras de Natal, mas Harry já tinha feito as suas durante aquela semana.

Em meio à musica, Harry ouviu um som conhecido e abaixou o volume do aparelho de som pelo controle remoto. Reconheceu o toque do celular de Malfoy e pensou se ainda havia tempo de interfonar para o porteiro avisar Malfoy na saída. Mas, enquanto Sir Nicholas informava que Malfoy já havia saído, o telefone começou a tocar novamente. Harry agradeceu ao porteiro e encontrou o aparelho em cima da bancada da cozinha, onde Malfoy provavelmente o deixara enquanto tomava seu chá.

O número identificado não era um contato e tinha muitos dígitos para ser uma chamada local. Imediatamente, um pensamento cruzou a cabeça de Harry. Seria a sra. Malfoy? Ou mesmo o sr. Malfoy, tendo ficado sabendo da notícia? Enquanto se fazia essas perguntas, a ligação caiu na caixa postal e Harry respirou aliviado. Porém, logo em seguida, tocou novamente. Harry lembrou-se de como Malfoy explicou que era difícil para sua mãe ligar sem que o pai soubesse. Atendeu antes que se arrependesse.

"Alô."

Houve um momento de hesitação antes que uma voz de mulher extremamente culta e bem articulada, respondesse.

"Quem está falando?"

"É o Harry. Draco esqueceu o celular em casa. Quem é?" Harry perguntou, apesar de já saber a resposta.

"Em casa?" ela repetiu, pensativa. "Você tem um sobrenome, Harry?"

"Harry Potter. Senhora" Harry fechou os olhos com força, praguejando em pensamento.

"Harry Potter... Muito prazer, sr. Potter. Gostaria de dizer que ouvi muito a seu respeito, mas infelizmente não seria muito honesto de minha parte. Entretanto, pelo que vejo, você já ouviu falar de mim."

"Sim, senhora. Quer que eu diga a Draco que você ligou? Ou você pode retornar mais tarde? Ele acabou de sair..."

A mulher suspirou.

"Receio que não possa voltar a ligar tão cedo, sr. Potter. Meu esposo ficou bastante desconfiado, depois que soube que alguém de Londres nos contatou. É verdade então o que a srta. Umbridge me contou? Meu filho se casou?"

"Hmm... talvez você devesse conversar com ele, sra. Malfoy. A situação é... complicada."

"Não entendo" a sra. Malfoy soou levemente irritada. "Vocês se casaram ou não?"

"Sim, mas..." Harry suspirou, frustrado. "Olha, sinto muito, eu realmente acho que devia ser ele a dizer. Quer que eu peça para ele retornar...?" ele sabia que não havia aquela possibilidade, porém queria deixar claro que não diria nada a respeito.

"Potter..." a mulher falou, pensativamente. "O nome não me é estranho... Ah, agora me lembro. Vocês estudaram juntos, não é verdade? Lembro que Draco não parava de falar de um tal de Potter em casa, quando adolescente. Bem, imagino que isso explique muita coisa. Você é o filho daquele casal morto num atentado há mais de vinte anos, estou certa?"

"Sim, senhora" Harry falou com seriedade, temendo que ela de alguma forma tivesse trazido o assunto para debochar dele, porém não foi o que aconteceu.

"Sinto muito pela sua perda. Foi uma verdadeira tragédia."

"Obrigado" Harry falou, surpreso.

"Bem... se você puder fazer o favor de dizer ao meu filho que liguei para desejar-lhe um Bom Natal, eu ficaria imensamente grata."

"Sim, senhora."

"Ah, como eu o invejo, sr. Potter. Daria tudo para poder estar aí com meu filho, para poder abraçá-lo e beijá-lo como já não faço há anos... Mas fico feliz em saber que pelo menos ele terá alguém com quem passar o feriado, alguém que realmente se importe, ao invés daquele garoto negro egoísta por quem meu filho um dia trocou sua família" ela deixou transparecer seu desprezo, e a simpatia que Harry estava começando a sentir por ela se despedaçou rapidamente. "Estou certa ao dizer que você se importa, sr. Potter?"

Pelas poucas palavras que aquela mulher dissera, Harry começava a achar que ela não havia sido totalmente forçada a abandonar o filho. Afinal, se assim fosse, ela provavelmente já teria dado um jeito de voltar. Porém, isso não fazia com que ela deixasse de ser mãe de Malfoy e de desejar que ele fosse feliz. Harry pensou então em tudo que não havia dito para ela: que o casamento não era sério, que eles estavam juntos por uma decisão legal e que tudo acabaria dentro de pouco tempo. Mas então se concentrou no fato de que o que estava prestes a dizer não era uma mentira. Era a verdade mais estranha e inexplicável, mas ainda assim, uma verdade.

"Sim, senhora" Harry disse, por fim. "Eu me importo com ele."

"Ótimo. Então não deixe de dizer isso a ele, sr. Potter. Sei que Draco não é muito bom em expressar seus sentimentos. E, se há um culpado por isso, esse alguém é o pai dele. Mas não se engane. Ele não é nem de longe frio como o pai, embora por muitos anos tivesse tentado convencer a si mesmo. Tem um coração muito grande para o próprio bem. Lembre-se disso."

Ela explicou que não sabia quando poderia ligar novamente, mas que esperava que fosse em breve. Depois de uma despedida extremamente educada, ela desligou e Harry franziu a testa em confusão. Bem, aquilo fora estranho. Mas poderia ter sido muito pior. Então Harry pensou em como Malfoy se lamentaria por ter perdido a oportunidade de falar com a mãe e sentiu um aperto no peito.

-oOo-

(24 de dezembro, quarta-feira)

Harry havia feito algum planejamento com antecedência, mas as coisas simplesmente conspiraram para que aquele fosse o melhor jantar que se lembrava de ter feito na vida. Havia comprado um e-book de receitas francesas, assistiu a vídeos de chefes de cozinha na internet e até mesmo testara algumas ao longo das últimas semanas, para ver se arrancava algum elogio de Malfoy. E de fato conseguiu, não apenas uma como várias vezes.

Preparou o cardápio baseado numa verdadeira ceia de Natal francesa e encarou o desafio com bravura. Quando percebeu que não conseguiria dar conta da sobremesa - até porque não eram o seu forte -, pediu ajuda a Hermione, que aceitou prontamente. Também adiantou uma ou outra informação a Malfoy, mas apenas o necessário para a escolha do vinho.

Na quarta-feira, passou o dia na cozinha, graças a uma folga que vinha guardando para uma ocasião especial, e preparou tudo com cuidado, fazendo testes e mais testes para garantir que tudo sairia nos conformes. Felizmente, Malfoy não teve a mesma sorte e passou o dia no trabalho, dando a privacidade que Harry precisava para sua criação.

Quando Malfoy chegou, inspirando o cheiro do assado, já estava quase tudo pronto. O convite de Malfoy, portanto, não poderia ter vindo em melhor hora.

"Vou tomar um banho" disse Malfoy, desabotoando os punhos da camisa. "Quer se juntar a mim?"

"Ah..." Harry olhou para o pernil dentro do forno. "Claro, por que não?" ele ajustou o tempo do forno para não correr o risco de ressecar o peru e retirou o avental.

Para sua surpresa, ao chegar ao banheiro, deparou-se com a banheira cheia e fumegante.

"Sério?"

"Bem" Malfoy ergueu uma sobrancelha enquanto se despia. "Eu teria convidado antes mas, você sabe, ultimamente tenho usado tão pouco..."

Harry ignorou a provocação e despiu-se também. Entrou na hidromassagem pela primeira vez na vida, sentando-se de frente para Malfoy.

"Ai meu Deus... acho que não vou conseguir sair daqui tão cedo..." Harry falou, jogando o corpo para trás até estar quase deitado na banheira, os jatos de água massageando suas costas por inteiro. Seus óculos embaçaram com o vapor, e só então ele se lembrou de tirá-los. "Eu devia ter desconfiado que tudo não passava de um plano maligno seu para acabar com o meu jantar."

"Na verdade, minha intenção não era deixá-lo relaxado demais. Muito pelo contrário" Malfoy provocou, mas não tomou nenhuma iniciativa no sentido de despertá-lo fisicamente.

Longe de ficar desapontado, Harry se sentiu grato, já que não estava com cabeça para sexo no momento. Fechou os olho e deixou a água relaxar seus músculos tensos pela ansiedade e pela expectativa.

"Então, Harry" Malfoy falou, depois de um silêncio confortável. "Pronto para reavaliar a aposta?"

Harry riu e jogou água em Malfoy.

"Boa tentativa, Draco."

-oOo-

Quando seus convidados começaram a chegar, já estava tudo preparado. A primeira a chegar foi Parkinson, que trazia uma garrafa em uma das mãos e uma travessa trabalhada na outra.

"Um passarinho me contou que você estava preparando uma ceia à francesa" ela encolheu os ombros. "Acredito que isso cairá muito bem junto com a sobremesa."

"E eu achando que iria pegar todo mundo de surpresa..." Harry brincou, aceitando os presentes.

"Bem, ainda dá tempo de me surpreender, querido" ela piscou rapidamente. "Tudo bem que eu já fui à França algumas vezes e poderia ser o seu pior pesadelo como crítica, mas estou de bom humor hoje."

Ron e Hermione chegaram logo em seguida, com a sobremesa e um embrulho para Harry.

"Abra só amanhã" Mione avisou, antes de abraçar o amigo.

"Não precisava" Harry a encarou depois de se afastarem. "Humm... tem alguma coisa diferente em você... Espera, não fala... Deixa que eu adivinhe..." ele fez que pensava e Hermione projetou ainda mais a barriga levemente proeminente. "É o cabelo?"

"Seu bobo" Hermione sorriu radiante, acariciando a própria barriga.

"Não que o cabelo não esteja mais bonito também" Ron falou, abraçando a esposa por trás e sobrepondo sua mão com a própria. "E a pele. Tudo está mil vezes melhor. Até mesmo... você sabe..."

"Ronald!" Hermione o afastou, enrubescendo.

"A disposição, eu ia dizer. O humor..." Ron falou, e piscou para o amigo.

"Vamos, entrem" Harry chamou. "Ah, e não se esqueçam que..."

"Parkinson não sabe sobre a farsa" Ron completou. "Eu sei. Prometo me comportar. Isto é, se ele colaborar... Mas, Harry, diga que você fez aquele frango com batata frita, por favor?"

"Sinto muito, Ron. Nada de frango nem batata frita hoje..."

A sobremesa foi para a cozinha, e o presente para debaixo da árvore, onde já se encontravam outros dois embrulhos.

Felizmente, a conversa não foi um problema. Parkinson falava sem parar e sempre tinha um comentário, qualquer que fosse o assunto. Harry serviu canapés de salmão e castanhas para a entrada, enquanto conversavam na sala. Sentado ao lado de Malfoy, que passara o braço displicentemente por trás de seus ombros, Harry não percebeu a proximidade de ambos até que notou o olhar esquisito de Ron.

"Nada mal até agora, Harry" Parkinson cedeu, tomando um gole de seu Chablis branco doce, a escolha perfeita de vinho, segundo Malfoy. "Mas estou curiosa pelo que vem pela frente."

"Melhor não exagerar na entrada, então" Malfoy avisou, quando Ron se serviu do que parecia ser o décimo canapé. "Se Harry fez o dever de casa corretamente, acredito que ainda teremos muitas etapas pela frente..."

"Você não sabe o que ele fez?" Pakinson perguntou, deliciada. "Hmmm... que romântico, sr. Potter. Fazendo surpresa para o marido! E ainda com comida francesa! Você fez mesmo o dever de casa direitinho."

"Bem..." Harry se levantou, um pouco desconcertado. "Se vocês puderem me acompanhar, por favor" ele liderou-os para a sala de jantar, onde a mesa estava posta. "Mione, se o cheiro de comida estiver incomodando você, fique a vontade para..."

"Não, não. Essa fase já passou, graças a Deus..."

"Pois é... Agora ela quer comer de tudo, cara" Ron falou enquanto se sentava ao lado da esposa. "Outro dia, ela quase comeu o creme de mão."

"Cheirava à mamão papaia... hmmm" Hermione lambeu os lábios.

"Infelizmente não tem mamão hoje. Mas tem figos e damascos" Harry falou ao trazer o próximo prato.

"Puta que pariu" Parkinson surtou e Malfoy levantou uma sobrancelha. "Isso é que é ousadia!"

"Foie Gras poêlé¹" Malfoy pronunciou as palavras com naturalidade.

"O quê?" Ron perguntou. "O que ele disse?"

"Foie Gras" Parkinson explicou. "Não é nada mais que..."

"Ah, me desculpe" Hermione a interrompeu, e Harry achou que ela iria pedir licença para se retirar. "Melhor não entrar em detalhes com ele. Deixe que experimente primeiro."

"Ah, claro" Parkinson lançou um olhar superior a Ron, que continuou perguntando do que se tratava, ainda que em vão.

"Harry" Hermione falou, encarando seu prato com sofreguidão. "Normalmente eu não comeria em respeito aos pobres bichinhos². Mas esse cheiro está me matando!" ela atacou seu prato com vontade.

Todos se desmancharam em elogios, até mesmo Ron, que sequer sabia do que se tratava o prato. Apenas Malfoy foi comedido em sua apreciação, limitando-se a fazer um comentário breve e polido. Porém Harry percebeu que quase não sobrou caldo de figos e damascos no fundo do prato quando ele terminou o seu pedaço.

Parkinson começou a contar sobre suas viagens a Paris e pela Rota dos Vinhos. Hermione demonstrou seu conhecimento a partir de algumas viagens que fizera com os pais. Além dos livros que já lera sobre o país, obviamente.

Os pratos principais eram Peru Recheado à Francesa - com castanhas, linguiça e lombo de porco - e Salmão assado ao Beurre Blanc - um molho cremoso de manteira branca - acompanhados de batatas gratinadas e outros vegetais.

"Draco, como é que você consegue continuar magro vivendo com esse aí?"

"Não se engane, Pansy. Ele é um lobo em pele de cordeiro" Malfoy explicou. "Depois de me mimar com Crepe au Fromage, Croque Monsieur e Coc au Vin, ele praticamente me arrasta para a academia todas as terças e quintas."

Mais do que as palavras - que Harry não estava tão familiarizado com a pronúncia para associar com as receitas que preparara -, foi o modo como Malfoy o olhou que fez com que Harry desviasse os olhos, desconcertado. Quando levantou o olhar do seu pedaço de peru, Hermione estava encarando Malfoy de um jeito estranho enquanto a conversa já havia enveredado para outro assunto qualquer.

Quanto todos terminaram de comer, Harry deu a deixa para que eles voltassem para a sala enquanto preparava o próximo prato, ao que Ron gemeu.

"Tem mais? Ah, cara... não sei se cabe."

"Até parece" Hermione rolou os olhos. "Daqui a pouco ele está comendo de novo."

Enquanto pegava as travessas de queijo, Harry sorriu ao ouvir Malfoy puxar assunto com Ron na sala sobre a loja e assustou quando Hermione falou, logo às suas costas.

"Quer ajuda?"

"Ah, claro. Se você puder pegar o vinho..." ele gesticulou para a garrafa começada sobre a mesa.

"Harry..." Hermione começou, hesitante. "Por que Malfoy não contou a verdade a Parkinson?"

Harry parou, franzindo as sobrancelhas, incomodado com a pergunta.

"Sabe... acho que é para que Zabini pense que ele seguiu em frente, ou coisa do tipo."

"Mas... não faz muito sentido. O que ele pensa em dizer quando sair o divórcio, no final da sentença?"

"Sei lá" Harry encolheu os ombros. "Que não deu certo, eu acho. Afinal, não é como se fosse incomum os casamentos acabarem em tão pouco tempo..."

"Mas então ele não esqueceu Blaise?" ela perguntou cuidadosamente.

"Não sei, Mione" Harry suspirou.

Ela pensou por um instante, mas quando abriu a boca para fazer outro comentário, ouviu-se um gemido de Ron e as risadas escandalosas de Pansy na sala. Quando Harry e Hermione espiaram, assustados, Malfoy também estava rindo e Ron tinha uma expressão de desgosto.

"O que foi?" Harry perguntou, temendo a resposta.

"Eles me contaram sobre o fígado do pato" Ron explicou, desgostoso, mas logo seu semblante se abriu ao ver a travessa na mão de Harry. "Queijo!"

-oOo-

A travessa com uma variedade de queijos - Brie, Camembert, Gruyere, Ementhal, etc. - na mesinha de centro já estava meio vazia quando Harry suspirou satisfeito e observou ao redor por um momento. Hermione tinha se aproximado da estante de livros e Malfoy se juntara a ela para exibir suas coleções de temas jurídicos. Pansy aproveitava a ignorância de Ron sobre as diversas culturas ao redor do mundo para contar curiosidades estranhas. Harry tivera as melhores expectativas para a noite, mas, se alguém tivesse lhe dito que a noite seria tão divertida, teria duvidado terminantemente.

"Não é mesmo, Harry?"

"Heim? Desculpa, o que você disse?" Harry despertou de sua contemplação e olhou para Malfoy. O som de seu primeiro nome na boca dele ainda lhe era estranho, mesmo que de uma maneira boa.

"Estava dizendo à Weasley que você também andou se aventurando com Stephen King."

"Ah, sim" Harry se levantou para juntar-se a eles. "É bem... interessante."

"Que convincente" Malfoy debochou e Hermione riu.

"É que não é bem o meu estilo preferido de leitura. Quero dizer, gosto de suspense, mas o terror não me convence."

"Ah, claro. Você é corajoso demais para se impressionar, não é?" ele zombou, porém sem o seu habitual desdém. E, para sua surpresa, Malfoy o puxou para mais perto, passando um braço pela sua cintura.

"Ah, bem... É você quem está dizendo" Harry o encarou, divertido. "Afinal, deve ser conveniente ter alguém corajoso em casa quando você não consegue dormir sozinho à noite..."

"Ora, não tenho problemas para dormir sozinho, Potter" Malfoy explicou. "Tenho problemas para dormir sozinho na sala..."

"Eu entendo... as sombras dos móveis ficam mesmo esquisitas com a luz apagada..." Harry provocou.

"Ora, seu..."

Eles continuaram com as provocações até Parkinson demandar a sobremesa. Só então Harry reparou que Hermione havia se afastado silenciosamente e o encarava do sofá com um pequeno sorriso.

Parkinson se dispôs a ajudá-lo, mas quando chegaram à cozinha ela enfiou um pequeno envelope embaixo do seu nariz.

"Harry, este é o meu presente para Draco" ela sacudiu o cartão impacientemente até que Harry o aceitou. "Dentro, tem um cartão de uma editora e um nome para contato. O dono é conhecido dos meus pais, blá-blá-blá, e toda essa merda. Enfim, eles estão procurando um ilustrador. O salário não é grande coisa, mas ele pode trabalhar em casa e fazer seus próprios horários, desde que cumpra os prazos. Mas sei como Draco é teimoso. Talvez ele dê ouvidos a você" ela tomou o envelope de sua mão e enfiou-o bolso camisa de Harry. "Bem, onde estão as minhas coisas?"

Assim que se recuperou da abordagem de Parkinson, Harry levou o Bûche Nöel de Hermione para a sala, um rocambole recheado com creme de castanhas que imitava uma tora de madeira, como nas receitas tradicionais francesas. Havia ainda o vinho de Parkinson, Banyus grand cru. Era um vinho francês envelhecido, doce e consistente como um licor, para companhar o que ela dizia ser As Treze Sobremesas da Provença, que incluíam torrones, nozes, amêndoas, uvas passa, figos secos, entre outros.

Estavam distraídos com as conversas quando ouviram os fogos.

"Meu Deus! Já é Natal!" Hermione falou, após checar o próprio relógio. "Não acredito que já é tão tarde!"

Eles correram até a janela para observar o jogo de luzes e cores contra o céu e descobriram que tinha nevado enquanto estavam ocupados se divertindo. Havia pessoas nas ruas brincando na neve, fazendo anjinhos e bonecos de neve. Pelo reflexo do vidro, Harry viu Ron puxando Hermione para um abraço e sorriu. Em seguida, olhou para baixo, para a mão de Malfoy entrelaçada na sua e sentiu o coração parar por um momento. Levantou os olhos para encarar as íris cinzentas de Malfoy, em seguida sua boca.

"Ora, o que estão esperando?" Parkinson se impacientou, empurrando Harry de encontro a Malfoy.

Este o recebeu de imediato, envolvendo sua cintura e beijando-lhe os lábios com suavidade.

"Feliz Natal, Harry" Malfoy sussurrou, deixando-o sem palavras.

"Porra, como isso é sexy" Parkinson exclamou, entusiasmada, e Ron teve um acesso de tosse.

-oOo-

"Até mais" Harry despediu-se dos amigos uma última vez antes de fechar a porta.

Procurou Malfoy com o olhar e encontrou-o olhando pela janela para a noite estrelada, seu reflexo no vidro parecendo relaxado e tranquilo. Aproximou-se suavemente às suas costas, passando os braços por sua cintura e apoiando o queixo em seu ombro. Olhou pela janela, mas tudo o que conseguia ver era o rosto de Malfoy refletido.

"Foi bom, não foi?" a voz de Harry saiu um tanto rouca.

Ao invés de responder, Malfoy virou o rosto para encará-lo por um momento. Os olhos cinzentos passearam por seu rosto até sua boca e Harry acabou com a distância entre seus lábios num beijo lento e doce. Malfoy se virou em seu abraço, colocando ambas as mãos ao redor de seu rosto e aprofundando o beijo. Harry não saberia dizer se o que escapou de seus lábios foi um suspiro ou um ofegar. As mãos de Malfoy desceram por seu pescoço, ombros e braços até segurar suas mãos e puxá-lo em direção ao corredor com um pequeno sorriso.

Harry seguiu-o sem protestar, os olhos fixos nas mãos que mantinham entrelaçadas enquanto caminhavam até o quarto. Eles começaram a despir um ao outro entre beijos cada vez mais intensos até que não sobrasse mais nenhuma peça de roupa. Quando Malfoy começou a puxá-lo para a cama, Harry não pôde mais se conter.

"Espera..." ele falou, sem saber exatamente como expressar o que queria. "Eu... Quero tentar algo diferente."

"Diferente?" Malfoy repetiu lentamente, e de repente sua postura tornou-se desconfiada.

"É... Diferente" Harry engoliu em seco, desejando poder falar tão livremente quanto Malfoy exatamente o que queria. "Eu quero... Quero inverter os papéis hoje."

"Como?" Malfoy o encarou, questionadoramente e Harry alcançou a primeira gaveta do criado de Malfoy, passando-lhe o lubrificante.

"Assim."

Os olhos de Malfoy encararam o tubo de gel por um momento e Harry experimentou completa insegurança por um momento. Teria sido uma boa ideia? E se acabasse se arrependendo? Ou descobrindo que não gostava nada daquilo e arruinasse o momento? De repente ocorreu-lhe algo ainda pior. E se Malfoy não estivesse interessado na troca?

No instante seguinte, porém, Malfoy levantou os olhos e sua expressão varreu qualquer dúvida da mente de Harry. Seus lábios estavam partidos, a respiração irregular e os olhos escuros.

"Tem certeza?" ele perguntou, e Harry assentiu seguramente.

"Absoluta."

De repente Malfoy pareceu se recompor, endireitando os ombros e adquirindo uma postura quase profissional.

"Deite-se" ele gesticulou para a cama e Harry obedeceu rapidamente.

Malfoy se deitou sobre ele e beijou-o quase impetuosamente, fazendo com que se esquecesse de qualquer coisa que não fosse a sensação quente de suas peles se tocando, seus corpos se friccionando e suas línguas se enroscando. Malfoy levou a mão entre seus corpos, envolvendo-o, e passou a distribuir beijos em seu maxilar, pescoço e clavícula, descendo por seu peito e cada vez mais até que seu hálito quente atingisse o ponto mais sensível. Harry permitiu que ele se acomodasse entre suas pernas e assistiu hipnotizado enquanto ele se abaixava até lambê-lo provocantemente.

Harry arfou enquanto Malfoy alternava lambidas e assopros. Prendeu a respiração quando sua boca finalmente o envolveu, fechando os olhos para aproveitar a vibração provocada pelos sons que escapavam da garganta dele. Já havia se esquecido do propósito de tudo aquilo quando sentiu os dedos de Malfoy umedecidos pelo lubrificante explorando-o. Seus músculos se contraíram involuntariamente.

"Relaxe, Harry" Malfoy largou-o por tempo suficiente para tranquilizá-lo antes de retomar sua tarefa, sustentando seu olhar.

'Ele só está me tocando' Harry disse a si mesmo e deixou-se relaxar lentamente em meio às carícias de Malfoy. As sensações se tornaram cada vez mais intensas conforme Harry se permitia aproveitá-las, tanto que ofegou de surpresa quando Malfoy deslizar o primeiro dedo com facilidade dentro de seu corpo ao mesmo tempo em que a língua dele trabalhava em sua pele sensível. Ambas as sensações combinadas fizeram com que o suor brotasse de sua têmpora e seu quadril se movesse involuntariamente, não para longe do contato, mas para mais perto.

Percebendo a falta de resistência de sua parte, Malfoy inseriu outro dedo um pouco mais devagar. Harry sentiu uma pontada de dor que logo se perdeu em meio ao ir e vir, chupar e lamber. Quando percebeu que estava próximo do ponto sem retorno, Harry limpou a garganta.

"Draco... Draco, eu vou..."

Malfoy pareceu entender o recado, pois sua boca abandonou-o por um momento, apesar de sua respiração ainda pairar sobre sua pele tentadoramente. Malfoy inseriu o terceiro dedo e Harry se sentiu retesar novamente, agarrando os lençóis com força enquanto um chiado escapava de seus lábios.

"Harry..." Malfoy repreendeu e afastou a mão por um momento, erguendo o corpo até seus olhos ficarem no mesmo nível. "Relaxe, Harry. Temos todo o tempo do mundo, está bem?"

"Ok" Harry balançou a cabeça afirmativamente como que para reforçar sua resposta e Malfoy beijou-o longa e profundamente, acariciando-o sem pressa nenhuma. Quando voltou a tocá-lo, seus dedos estavam ainda mais úmidos que antes e deslizaram facilmente.

"Viu só? Assim está melhor, não está?" Malfoy sussurrou próximo ao seu ouvido ao mesmo tempo em que movia os dedos e Harry assentiu rapidamente.

"Está... Muito melhor" Harry falou, ofegante.

"Ótimo" Malfoy sorriu, um sorriso um tanto nervoso e afastou-se.

Harry estava prestes a protestar quando percebeu o que ele faria e engoliu em seco enquanto o observava vestir uma camisinha, espalhando uma quantia generosa do gel sobre ela. Quando seus olhos se encontraram novamente, havia uma pergunta nos olhos de Malfoy, que Harry respondeu com um aceno curto, afastando ainda mais os joelhos para permitir que Malfoy se acomodasse entre eles.

Seus lábios se encontraram novamente num beijo voraz. Quando Malfoy se posicionou para penetrá-lo, os músculos de Harry tornaram a se contrair por conta própria, mas Malfoy não parecia ter pressa nenhuma e deixou que ele se acostumasse com a perspectiva, distribuindo beijos e carícias sempre que possível. Harry acolheu a sensação conforme Malfoy se empurrava lentamente e só então percebeu, pela respiração irregular de Malfoy e pela maneira como ele fechou os olhos que ele não estava tão sob controle quanto parecia. Aquilo de alguma forma fez com que relaxasse ainda mais.

"Tudo bem?" Malfoy perguntou, encarando-o através das íris escurecidas pelo desejo.

"Perfeitamente" Harry assentiu e arquejou quando Malfoy começou a se mover com cuidado, apoiando o peso do tórax em um dos braços enquanto o outro alcançava o ventre de Harry.

Seus pensamentos ficaram nublados, as sensações tão misturadas que era impossível separá-las. De repente Malfoy fez um movimento inesperado com o quadril e Harry quase gritou de surpresa quando uma onda ainda maior de prazer o inundou. Malfoy sorriu enviesado.

"Mais uma vez?" ele perguntou, provocante.

"Simporfavorsim" Harry falou num só fôlego e Malfoy repetiu o movimento de novo e de novo. Harry praguejou e implorou, movendo o quadril sem que sequer percebesse o que fazia. Se tivesse conseguido se distanciar o suficiente de suas próprias sensações para prestar atenção em algo além de si mesmo, teria encontrado um olhar de pura adoração nas feições de Malfoy enquanto o observava atentamente.

Quando atingiu o clímax, foi quase como um alívio depois de uma longa tortura. O zumbido em seus ouvidos deu lugar ao som da respiração de ambos tão logo recuperou totalmente suas faculdades mentais. Harry focalizou-o pelo que parecia ser a primeira vez em horas.

"Você já... gozou?" perguntou, tentando recobrar o fôlego.

"Algum tempo atrás" o canto da boca de Malfoy se repuxou num sorriso e Harry fechou os olhos, também sorrindo.

-oOo-

A manhã já estava pela metade quando Harry acordou sozinho na cama. A realização de que era Natal fez com que despertasse de uma só vez e as lembranças da noite anterior trouxeram-lhe um friozinho na barriga. Apesar de seus temores, o encanto da noite não havia se quebrado com a partida dos convidados, mas se estendido ainda por boa parte da madrugada. No entanto, nada garantia que o humor de Malfoy não tivesse azedado da noite para o dia...

Harry encontrou-o sentado com as pernas cruzadas no tapete, em frente à pequena árvore de Natal, como um garotinho. Sorriu e juntou-se a ele. Estava bastante confortável em frente à lareira.

"Isso foi..." Malfoy se interrompeu, ainda contemplando seus presentes. "Obrigado."

Eram três livros recentes, lançados naquele mesmo ano, que completavam as coleções de Malfoy: O Livro do Cemitério, de Neil Gaiman; Duma Key e Ao Cair da Noite, ambos de Stephen King.

"Não vai abrir os seus?" Malfoy perguntou, após algum tempo folheando e cheirando os livros novos.

Hermione lhe deu mais um livro de receitas e Malfoy, uma jaqueta de couro sintético da Zara, que Harry vestiu imediatamente por cima do pijama.

"Uau" Harry admirou o caimento perfeitamente ajustado e Malfoy sorriu, satisfeito. "Obrigado... Ah, Pansy pediu que eu entregasse isso" ele pegou o envelope, que estivera caído entre os presentes, e entregou-o a Malfoy.

"Típico" Malfoy falou, descartando o envelope e jogando-se para trás até deitar no chão, depois de checar do que se tratava.

Harry imitou-o e eles ficaram encarando o lustre por um momento, antes que Harry quebrasse o silêncio.

"Você já pensou no que vai fazer com o dinheiro? Quero dizer, se nós conseguirmos convencer o juiz a liberá-lo?"

Malfoy demorou para responder.

"Vou devolver o dinheiro da minha mãe, largar a porcaria do meu emprego e viajar pelo mundo..." ele ficou em silêncio por um instante antes de completar. "Inferno, vou até essa editora ver se estão interessados em me contratar."

Bem, aquilo tinha sido fácil.

"Pansy disse que já falou de você para o dono da editora e que eles estão esperando você entrar em contato. Ela achou que você não aceitaria tão facilmente."

"Bem, ela não sabia que estamos prestes a nos tornarmos milionários, sabia?" Malfoy ironizou, mas então suspirou profundamente. "Meu pai dizia que todos os artistas são vagabundos, e que não havia vagabundos na família. Mas, ei, acho que não sou mais da família, afinal."

"Sua mãe não ligou novamente?" Harry tentou desviar o assunto, percebendo a amargura no tom de voz do outro, mas aquilo só fez Malfoy ficar ainda mais melancólico.

"Não. Imagino que meu pai esteja ainda mais neurótico agora que ficou desconfiado."

"E se ele ficar sabendo?"

Eles estavam muito próximos, e Harry sentiu quando Malfoy encolheu os ombros.

"Não é como se eu ainda fosse problema dele. Ele deixou bastante claro que não poderia estar mais desapontado, quando foi embora."

Harry hesitou antes de fazer a próxima pergunta.

"É verdade o que Umbridge disse? Sobre seus pais não gostarem de Zabini por causa... por ele ser..."

"Por ele ser negro?" Malfoy virou-se para encará-lo, e seus olhos faiscaram. "Pode apostar que sim. Meu pai sempre gostou de fazer discursos bonitos em público sobre igualdade e acessibilidade, mas era tudo preparação para uma possível candidatura política, que nunca chegou a decolar. Eventualmente, ele deixou escapar o que realmente pensava sobre esses assuntos para um falso aliado e foi chantageado. O fato de eu ter decidido morar com Blaise foi a desculpa que ele precisava para jogar a culpa toda em mim e deixar o país, fugindo de um provável escândalo."

"Ah..." Harry se espantou. "E ele não pensa em voltar?"

"Com certeza" Malfoy soltou um riso debochado. "Só está esperando a poeira baixar. Ou o vencimento do mandato de alguns opositores. Ou o alinhamento dos planetas. Com um pouco de sorte, nenhuma das hipóteses vai acontecer tão cedo."

Eles ficaram em silêncio por mais algum tempo, ambos perdidos em seus próprios pensamentos. Novamente, foi Harry quem falou primeiro.

"Você já pensou na possibilidade de termos estragado tudo ameaçando a Umbridge?"

"Sim" Malfoy falou, prontamente. "Mas prefiro acreditar que ainda há esperanças. Afinal, já teríamos ficado sabendo se alguma coisa tivesse dado errado."

"Faz sentido" Harry concordou,

Seguiu-se outro longo silêncio, porém daquela vez foi Malfoy quem o quebrou com um longo suspiro.

"Aqui" ele remexeu em seu bolso e retirou alguns papéis. "Seu outro presente de Natal."

Harry vasculhou os papéis e seu semblante logo foi se abrindo conforme via o detalhamento do consumo de água e luz do período anterior.

"Bem, este não foi exatamente uma surpresa" ele falou, por fim, sorrindo da expressão contrariada de Malfoy. "Ora, vamos, não seja um mau perdedor, Draco."

"É fácil para você falar" Malfoy retorquiu e Harry rolou até ficar por cima dele, seus lábios a poucos centímetros. Talvez fosse a vulnerabilidade naqueles olhos tempestuosos que fizessem com que as entranhas de Harry quase doessem de necessidade de algo que ele não entendia muito bem.

"Há algo que eu possa fazer para que você se sinta melhor?"

"Talvez..." Malfoy levantou a cabeça para alcançar seus lábios e eles se beijaram lenta e longamente. Ele quebrou o beijo para encara-lo com uma sobrancelha arqueada. "Ei, você não tem um almoço de Natal para comparecer?"

"Ah, aposto como a casa dos pais de Ron está tão cheia que ninguém vai reparar se eu me atrasar um pouquinho."

De fato, ninguém pareceu estranhar quando Harry chegou na casa dos Weasley mais tarde, vestindo sua jaqueta nova. Foi muito bom rever a todos. Mesmo Ginny, cuja carreira esportiva estava no auge e que acabara de ficar noiva. Harry jamais conseguiria explicar como se sentia tão à vontade em meio àquelas pessoas barulhentas e acolhedoras. Quando chegou a hora do pudim³, Harry acabou encontrando uma moeda de chocolate em seu pedaço.

"Não é justo, vovó!" exclamou Fred, um dos sobrinhos de Ron. "O tio Harry nem participou da preparação!"

"Ora, mas ele é da família, Fred!" exclamou a Sra. Weasley, com um sorriso maternal. "Tem tanto direito de ter seu desejo satisfeito quanto você, querido."

"E o que foi que você pediu, Harry?" perguntou Ron, com a boca cheia de pudim.

"Não seja enxerido, Ron" Hermione o repreendeu. "Ele não precisa anunciar para todo mundo."

"Aposto como foi dinheiro" disse George, então dirigiu-se para o filho. "O que significa que a loja vai vender ainda mais no ano que vem. O que, por sua vez vai fazer com que seu pai ganhe ainda mais dinheiro e..."

"Realize o meu desenho" Fred esfregou as mãos.

"Ora, isso é coisa que se diga ao menino?" Angelina, a mãe do garoto e esposa de George, ao que iniciou-se outra discussão acalorada entre todos os presentes.

A verdade era que Harry não sabia exatamente o que pedir. Se pudesse, pararia o tempo, para que o final da sentença nunca chegasse e Malfoy permanecesse naquele estado de espírito dos últimos dias, suave e fascinante. Era como se uma barreira tivesse ruído entre eles e aquilo quase fazia com que Harry tivesse esperanças de que talvez houvesse um futuro para ambos.

Mas, ao mesmo tempo, era bom demais para ser verdade e tudo que Harry sonhava em desejar no momento era aproveitar o melhor que pudesse. Enquanto pudesse.

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Notas: ¹ Fígado salteado de pato ou ganso super-alimentado. Literalmente, foie gras significa "fígado gordo", e tem sabor mais suave em relação ao fígado normal de pato ou ganso.

² Na verdade, o método de produção do Foie Gras é algo cruel: o fígado dos gansos fica hipertrofiado por um processo chamado "gavage", que é basicamente enfiar um tubo de milho na goela abaixo das pobres aves e obrigá-las a comer até passar mal, várias vezes por dia. Por isso a resistência de Mione para comer.

³ Conforme a tradição inglesa, a preparação do pudim de Natal é bastante demorada e trabalhosa, envolvendo os membros mais próximos da família. Todos, um de cada vez, trabalham a massa e fazem um pedido a ser realizado. Dentro da iguaria, é colocada uma moeda de chocolate e aquele que encontrar a moeda na sua porção terá seu pedido realizado.

Estou viva! Sinto muito pela demora... A boa notícia é que pelo menos isso serviu para ter um lemon a mais neste capítulo. E a culpa é toda do Matthew, que ficou colocando ideias na minha cabeça xD

Espero que vocês tenham aproveitado bem a dose de romance, porque... Bem, vocês já devem imaginar o porquê... :X

Obrigada a todos que comentaram! Milla (Pois é, só nnos resta torcer para que o Harry se lembre de tudo o que aconteceu na noite do casamento xD Interessante essa sua mistura de alegria e tristeza. Acho que o Harry se sente da mesma maneira!) Lazinha (Obrigada! Espero que goste deste também!) Lis Martin (Realmente, Harry merece um troféu por conseguir lidar com o Draco até agora. Mas ele bem que teve uma folga merecida neste capítulo rsss. Adorei seu top 3! Muito obrigada!) Thayne (Olá! Fico feliz que esteja gostando. Obrigada por deixar um comentário. Errr 50 capítulos não dá, sinto muito xD E viva a limonada!) Renan (Ownn... é um prazer para mim ter a sua companhia nesta fic, eu é que agradeço!) Isis Coelho (Olá, querida! Que bom revê-la! Espero que continue gostado ;D) Caio Muniz (Infelizmente não tenho nenhuma música em mente para esta fic... mas a sua trilha sonora parece ótima! Perfeita, aliás xD Se tiver alguma ideia para música tema, eu adoraria saber!) Luma (Pois é, ao que tudo indica, Draco sabia muito bem o que estava fazendo naquela noite... Interessante a sua teoria. Pena que não posso comentá-la agora xD) Ly (Birrento e fofo é uma combinação... incomum. Mas é a cara do Draco kkkk. Tá difícil do Harry ser observador, né? Rss).