Disclaimer: Harry Potter não me pertence, se pertencesse eu estaria milionária. :v
Sua até o Amanhecer
Capítulo 7
Inglaterra, 1806
Querida Hermione,
Agora que me atrevi a me dirigir a você por seu primeiro nome, posso imaginar meu nome formado por seus deliciosos lábios?
Durante um instante Penélope nem sequer se atreveu a respirar. O hipnótico repico da chuva, a suave penumbra e o quente fôlego de Sirius sobre seu cabelo a deixaram suspensa em um estado no qual o tempo não tinha nenhum sentido. Sirius também parecia estar hipnotizado. Essa manhã ela tinha insistido que ficasse com uma camisa, mas não tinha insistido em que a fechasse. O largo peito apoiado sobre suas costas que parecia mover-se. Seguia com as mãos contra a gaveta do escritório, com seus musculosos braços tensos.
Embora sua embaraçosa postura não fosse precisamente um abraço, Penélope não pôde evitar pensar como seria fácil pôr seus braços ao seu redor e lhe atrair para o calor de seu corpo até que não tivesse outra saída, além de fundir-se com ele. Ficou rígida. Não era uma jovenzinha sonhadora sem caráter que se deixava seduzir pelo primeiro cavalheiro que a elogia.
— Me perdoe, senhor — disse rompendo o perigoso feitiço — Não pretendia ser indiscreta. Só estava procurando tinta e papel de escrever.
Sirius baixou os braços, mas foi Penélope quem se apartou rapidamente para pôr certa distância entre eles. Sem seu calor rodeando-a, a umidade que tinha notado antes, lhe esfriou até os ossos, que de repente pareciam velhos e quebradiços. Sentando-se de novo na cadeira junto à janela, sentiu um calafrio.
Sirius ficou um comprido momento em silêncio, como se estivesse abstraído. Logo, em vez de lhe reprovar por entremeter-se como esperava, abriu a gaveta. Suas mãos não vacilaram para encontrar o que havia dentro. Quando se voltou e atirou o grosso pacote para ela, Penélope ficou tão surpreendida que esteve a ponto de escapar das mãos. — Se quer ler algo divertido, comece com estas cartas.
Embora o desprezo obscurecesse o semblante de Sirius, Penélope se deu conta de que não era por ela.
— Como poderá comprovar, contêm todos os elementos que normalmente se desfruta uma farsa: uma brincadeira engenhosa, um romance secreto, um idiota patético tão ébrio de amor que está disposto a arriscar tudo para conquistar o coração de sua amada, inclusive sua vida. Ela olhou o pacote de cartas pacote com um laço. O papel de linho estava desgastado, mas perfeitamente conservado, como se as cartas tivessem passados por muitas mãos antes de chegar ao destinatário, mas com grande cuidado. Enquanto Penélope lhes dava a volta chegou ao nariz um perfume de mulher tão doce e evocativo como as primeiras gardênias da temporada. Sirius tirou a cadeira do escritório, deu-lhe a volta e se sentou nela escarranchado.
— Adiante — ordenou fazendo um gesto para ela — Se as ler em voz alta poderemos rir os dois.
Penélope acariciou os extremos do laço de seda que fazia tempo tinha rodeado o brilhante cabelo de uma mulher.
— Não acredito que seja correto que leia sua correspondência privada.
Ele se encolheu de ombros.
— Como quero. De todos os modos algumas obras é melhor representá-las que as lê-las. Por que não começo com o primeiro ato? — Dobrou os braços sobre o respaldo da cadeira com uma expressão grave em seu rosto.
— O pano de fundo se definiu faz uns três anos, quando nos conhecemos em uma festa na casa de campo de lorde Weasley. Era muito diferente às demais moças que tinha conhecido. A maioria não tinha nenhuma ideia em suas bonitas cabeças, além de caçar um marido rico antes que acabasse a temporada. Mas ela era inteligente, divertida e culta. Podia falar de poesia e política com a mesma facilidade. Compartilhamos um só baile, e sem trocar nem um beijo me roubou o coração.
— E você roubou o dela?
Seus lábios se curvaram em um triste sorriso.
— Tentei, mas desgraçadamente minha reputação de libertino me precedia. Como eu era um conde e ela a filha de um humilde barão, pensou que só queria brincar com seus sentimentos.
Penélope não sabia se podia culpar a jovem. O homem do retrato do corredor provavelmente tinha conquistado — e quebrado — muitos corações.
— Eu teria pensado que tanto ela como sua família estariam encantados de atrair a atenção de um nobre tão estimado e rico.
— Isso é o que pensei eu — reconheceu Sirius — Mas parece que sua irmã mais velha envolvida em um desafortunado escândalo com um visconde, um encontro à luz da lua, e a furiosa mulher do visconde. O maior desejo de seu pai era que sua filha mais nova se casasse com um latifundiário ou com um clérigo.
Uma fugaz imagem de Sirius com colar esteve a ponto de fazer que Penélope risse em voz alta.
— Sendo assim, você foi uma decepção.
— Exatamente. Como não podia persuadi-la com meu título, minha riqueza ou meus encantos, tentei conquistá-la com minhas palavras. Durante vários meses intercambiamos largas cartas.
— Secretamente, é obvio.
Ele assentiu.
— Se soubesse que mantinha correspondência com um cavalheiro, sobre tudo com um de minha reputação, seu bom nome seria destruído.
— Entretanto estava disposta a correr esse risco — assinalou Penélope.
— Eu acredito que nós dois desfrutávamos da emoção do jogo. Quando nos encontrávamos cara a cara em um baile ou em um jantar, murmurávamos palavras amáveis e logo fingíamos indiferença. Ninguém sabia que no fundo, eu desejava levá-la para algum canto do jardim ou um quarto deserto e beijá-la até perder o sentido.
Sua voz rouca fez que Penélope se estremecesse. Embora tentasse resistir a tentação, viu Sirius passando uma mão por seu cabelo escuro enquanto passeava por um quarto escuro. Viu o desejo que iluminava seus olhos ao cheirar o perfume de gardênias de sua dama. Sentiu a força de seus braços ao fazê-la passar pela cortina. Ouviu-lhe gemer enquanto se uniam seus lábios e seus corpos, consumido pela sede irresistível do proibido.
— Qualquer um teria pensado que me aborreceria com um flerte tão inocente, mas eu adorava suas cartas. — Moveu a cabeça com uma expressão abstraída
— Nunca tinha imaginado que a mente de uma mulher pudesse ser tão fascinante. Para minha mãe e minhas primas não havia nada mais interessante que a última fofoca dos Almack's* ou os pratos da moda e roupas de Paris.
Penélope reprimiu um sorriso.
— Deve ser uma grande surpresa para você descobrir que uma mulher podia ter uma mente tão aguda e perspicaz como a sua.
— Assim é — confessou lhe informando com seu suave tom que tinha captado seu sarcasmo — Após vários meses dessa deliciosa tortura, escrevi-lhe e tentei convencê-la para que fugisse comigo para Gretna Green. Negou-se, mas não foi tão cruel para me deixar sem nenhuma esperança. Disse que se fosse capas de provar que meus interesses iam além uma partida de cartas no Brook's, cavalos, os cães de caça e as bailarinas da ópera, estaria disposta a se casar comigo, embora isso significasse desafiar os desejos de seu pai.
— Que magnânima — murmurou Penélope.
Sirius franziu o cenho.
— Entretanto não confiava completamente em meu afeto. Embora lhe jurasse meu amor fervorosamente, no fundo pensava que seguia sendo um irresponsável que tinha herdado o mais importante: meu título, minha riqueza, minha posição social. — Arqueou uma sobrancelha em um gesto zombador, esticando sua cicatriz — Incluso minha beleza.
Penélope lhe estava começando a revolver o estômago.
— Assim decidiu lhe demonstrar que estava equivocada.
Ele assentiu.
— Alistei-me na Marinha Real.
— Por que a Marinha? Seu pai poderia ter conseguido uma prestigiosa posição no exército.
— E o que teria demonstrado com isso? Que tinha razão? Que era incapaz de conseguir nada por meus próprios méritos? Se essa tivesse sido minha intenção, poderia me haver unido à tropa para representar o papel de herói. Não há nada como um uniforme e uns galões brilhantes nos ombros de um homem para que uma dama gire a cabeça.
Penélope lhe viu entrando em um concorrido salão de baile com o chapéu de três picos debaixo do braço e seu escuro cabelo reluzente sob as luzes dos abajures. Sua impressionante figura teria feito com que todas as jovens solteiras se ruborizassem e sorrissem afetadamente detrás de seus leques.
— Mas sabia que sua dama não giraria a cabeça com tanta facilidade — se arriscou a dizer ela.
— E que não seria tão fácil conquistar seu coração. Assim que me alistei sob o mando de Moody, convencido de que a minha volta estaria preparada para converter-se em minha esposa.
Sabendo que íamos estar separados vários meses, enviei-lhe uma última carta lhe rogando que me esperasse. Prometendo-lhe que ia me converter no homem e o herói que ela merecia. — Tentou esboçar um sorriso — Assim termina o primeiro ato. Não é necessário continuar, verdade? Já conhece o final.
— Voltou a vê-la?
— Não — respondeu sem rastro de ironia em sua voz — Mas ela me viu.
Quando retornei a Londres veio ao hospital. Não sei quanto tempo estava ali. Os dias e as noites eram intermináveis e indistinguíveis. — tocou a cicatriz com um dedo — Devia parecer um monstro com os olhos cegos e a cara destroçada. Duvido que soubesse que estava consciente. Ainda não tinha forças para falar, mas pude cheirar seu perfume como um sopro de ar celestial entre o fedor infernal da cânfora e da carne podre.
— O que ela fez? — sussurrou Penélope.
Sirius pôs uma mão sobre seu coração.
— Se o autor da obra tivesse sido mais sentimental, sem dúvida alguma ela teria se jogado sobre meu peito, me jurando amor eterno. Mas simplesmente partiu. Não era necessário. Dadas as circunstâncias, não esperava que cumprisse com sua obrigação.
— Obrigação? — repetiu Penélope tentando ocultar sua ira — Eu pensava que uma promessa de matrimônio era um compromisso entre duas pessoas que se queriam bem.
Ele riu sem vontades.
— Então é mais ingênua do que era eu. Como nosso compromisso era secreto, ao menos se economizou a humilhação de um escândalo público.
— Uma grande sorte para ela.
Os olhos de Sirius tinham uma expressão estranha, como se o passado fora para ele mais visível que o presente.
— Às vezes me pergunto se a conhecia realmente. Pode ser que só fora um produto de minha imaginação. Alguém que inventei a partir de uma frase inteligente e a fantasia de um beijo roubado: meu sonho da mulher perfeita.
— Era formosa? — Perguntou Penélope.
Embora Sirius esticasse a mandíbula, sua voz se suavizou.
— Deliciosa. Tinha o cabelo da cor do chocolate, os olhos como o mel que me lembravam uma tarde de verão, a pele mais suave que…
Olhando suas mãos fechadas, Penélope esclareceu garganta. Não estava de humor para escutar uma descrição poética de encantos que ela não possuía.
— E para onde foi esse modelo de perfeição?
— Suponho que voltou para seio de sua família em Middlesex, onde provavelmente se casará com um latifundiário e se retirará para uma casa de campo para criar um montão de filhos a base de pudim.
Mas nenhum deles teria uma cara angélica, nem uns olhos cinzas como mercúrio bordeados por umas pestanas negras. Penélope quase se compadecia dela por isso.
— Era uma idiota.
— Desculpe? — Sirius arqueou uma sobrancelha, visivelmente surpreso por sua contundente declaração.
— Essa garota era uma idiota — repetiu Penélope com mais convicção ainda — E você é mais idiota ainda por perder tempo pensando em uma criatura frívola que provavelmente se preocupava mais por seus bonitos vestidos de baile e seus passeios pelo parque que por você. Levantando-se, aproximou-se dele e lhe pôs as cartas na mão. — Se não quiser que ninguém mais tropece com seus tesouros sentimentais, sugiro que durma com elas debaixo do travesseiro.
Sirius não fez nenhum movimento para pegar as cartas. Simplesmente olhou para diante com a mandíbula tensa. Abriu as narinas, mas Penélope não sabia se era porque estava furioso ou para aspirar o intenso aroma floral que emanava do papel perfumado. Quando estava começando a perguntar-se se tinha chegado muito longe ele apartou as cartas bruscamente.
— Pode ser que tenha razão, senhorita Clearwater. Depois de tudo, cartas não servem de nada a um homem cego. Por que não as guarda com você?
Penélope retrocedeu.
— Eu? Que diabos se supõe que devo fazer com elas?
Sirius ficou em pé ultrapassando-a.
— Por que me importaria? Atire-as ao lixo ou as queime se quiser. — Um triste sorriso curvou uma esquina de sua boca antes de acrescentar brandamente. — Mas aparte as de minha vista.
Penélope estava sentada na beira da cama com sua descolorida camisola de algodão olhando o pacote de cartas que tinha na mão. Lá fora, fazia uma noite muito escura. A chuva açoitava os cristais, como se o vento a empurrasse para castigar a quem desafiasse seu poder. Apesar do agradável fogo que crepitava na lareira, seguia sentindo frio até os ossos. Seus dedos brincaram com os desfiados extremos do laço que atava o pacote.
Srius tinha ordenado a ela para que se desfizesse das cartas. Não faria bem trair essa confiança. Ao dar um puxão no laço, as cartas se desdobraram sobre seu colo.
Desdobrou a de acima com mãos trementes. Uma cuidadosa letra de mulher fluía pelo papel de linho. A carta estava datada em 20 de setembro de 1804, quase um ano antes de Trafalgar. Apesar de sua floreada elegância, suas palavras tinham um tom bastante superficial.
"Querido Lorde Grimmauld, Em sua última missiva, bastante impertinente, afirmava me querer por meus "deliciosos lábios" e meus "luminosos olhos cor de avelã". Mas devo lhe perguntar: Seguirá me querendo quando esses lábios estiverem franzidos não pela paixão, mas sim pela idade? Ainda me desejará quando meus olhos estiverem apagados, mas meu afeto por você não tenha diminuído? Quase posso lhe ouvir rindo, enquanto anda a pernadas por sua casa, dando ordens a seus serventes com essa arrogância que encontro tão insofrível e irresistível. Sem dúvida alguma passará a noite maquinando uma resposta engenhosa desenhada para me encantar e me desarmar. Mantenha esta carta perto de seu coração como eu levo sempre a você perto do meu."
Sua, Senhorita Hermione Granger
Hermione não pôde resistir a tentação de assinar com um floreio que delatava sua juventude. Penélope amassou a carta em seu punho. Não sentia pena dela, só desprezo. Suas falsas promessas tinham tido um preço muito alto. Não era melhor que uma rapariga medieval que atava seus sedosos favores ao braço de um cavalheiro antes de lhe enviar a uma morte segura.
Recolhendo as cartas, Penélope se levantou e foi à lareira. Queria queimá-las para reduzi-las a cinzas como mereciam, fingir que essa moça arrogante e imatura não tinha existido nunca. Mas enquanto se preparava para jogá-la às chamas algo deteve sua mão. Pensou nos largos meses que Sirius as tinha guardado com tanto cuidado, como tinha protegido seu pequeno tesouro de sua curiosidade, na avidez de sua expressão ao inalar sua fragrância. Era como se as destruindo, rebaixasse o sacrifício que tinha feito para conquistar o coração de sua autora.
Deu a volta para examinar a pequena habitação. Não tinha desfeito toda sua bagagem depois do acidente de Sirius, porque acabava sendo mais fácil pegar o que necessitava, do que voltar a guardá-lo tudo no imenso armário do canto. Ajoelhando-se junto ao baú forrado de couro, atou de novo as cartas com o laço e as assegurou com um nó., depois as meteu no fundo do baú para que ninguém voltasse a encontrar elas.
*Almack's Assembly Rooms foi um dos primeiros clubes mistos de Londres. Apenas um número limitado de integrantes da alta classe britânica era aceita nesse clube exclusivo. Durante o período da regência os mais importantes espaços para os encontros da sociedade eram as grandes casas aristocráticas e os clubes privados e o Almak's era requisito para que um nobre fizesse parte da Ton.
