O LADO BRILHANTE DO INFERNO.
- Você não pode me concertar, pai. - ela dissera, exausta. Suas costas estavam queimando, sua garganta coçava... Estava tão faminta, tão faminta.
Seu pai piscou aqueles gigantescos olhos azuis, cheios de bondade e ternura.
- Eu posso, Caroline, eu posso... Confie em mim.
- Eu não sou um brinquedo quebrado, papai.
As lágrimas que Klaus presenciara tornaram-se gritos. A casa que dividiam era preenchida por gritos durante as madrugadas.
Caroline chorava e gritava no quarto, seu rosto enfiado nos travesseiros e seu subconsciente tomado por fantasmas que Klaus só podia tentar adivinhar.
Ele, por sua vez, acordava trêmulo, com o rosto úmido e salgado de lágrimas que fingiar não chorar e com a voz rouca de gritos que também nunca dera.
Mas o assunto era velado e eles fingiam não ouvir um ao outro sofrer com os pesadelos que a humanidade trouxera.
Para ocupar a mente e tirá-la dos sofrimentos noturnos, Caroline tornara sua missão de vida organizar o quarto do bebê. Durante as horas livres, Klaus sempre sabia onde encontrá-la. As caixas de papelão foram sumindo, uma à uma, assim com as olheiras surgiram sob os olhos azuis dela. As cartas que haviam lido na semana anterior foram parar na suíte do casal e peças de madeira apareceram, repentinamente, em seu lugar. Fotografias saíram das caixas e foram levadas à sala.
Para tornar aquela situação ainda mais desconfortável, Elizabeth agora ligava todos os dias, assim como Bonnie e Elena. Então Klaus apoiava-se no portal da cozinha e assistia sua noiva dar sorrisos pálidos, contar mentiras ordinárias e torcer os dedos trêmulos e finos. Ela narrava seus dias e dizia ter se lembrado de momentos que nunca presenciara.
Caroline passara a mentir como uma profissional. Talvez a exaustão houvesse levado seus princípios, mas parecia à Niklaus que, quanto mais cansada ela ficava, mais fácil se tornava mentir. Ele não se atrevia a consolá-la, não se atrevia a pedir que desligasse o telefone e tentasse dormir sem ter pesadelos. Então, dia após dia, Klaus apenas observava enquanto ela estilhaçava como uma bonequinha quebrada.
- Amanhã de manhã... - murmurou ao telefone. - A secretária disse que não será nada muito... Sim, vou ouvir o coração...
Niklaus parou o que estava fazendo para ouvir sua conversa. Aparentemente, ela falava com Elena, já que a conversa parecia fluir entre mães e, com certeza, não era Liz, pois a deixava mais trêmula do que o normal.
- Não Elena, eu... Não é isso... Ele... Deus, Elena, só me deixe... Olive, eu acho... Damon conhece?
Ele fechou a geladeira e cruzou os braços, esperando que desligasse o telefone. - Certo... Olha, eu... Elena, Nik está me chamando. - a voz dela não tremeu, suas bochechas não coraram. - Eu tenho que desligar... Eu... Eu aviso. Ok... Boa noite.
Desligou e enterrou o rosto entre as mãos, respirando fundo.
- Você vai ao médico amanhã? - questionou Klaus, dando uma mordida em seu sanduíche. Ela apenas balançou a cabeça concordando.
- Pré-natal.
- Que horas? - deu um gole em seu chá. Caroline ergueu os olhos fundos.
- Às nove e meia. - bocejou. - Vou ouvir o coração.
- Sei... - deu outra mordida. - Quer que eu vá junto? - sugeriu. Sua boca se encheu com um gosto estranho. Queria mesmo ir?
Ela deu de ombros, mostrando que não se importava. - Tanto faz... - piscou pesadamente. - Você não se importa, Klaus, então... Não precisa ir.
- Amanhã, às nove e meia? - sentiu-se ofendido, quase como se ela houvesse desafiado-lhe. - Vou estar aqui. - sua voz um pouco elevada com a ofensa. Forbes revirou os olhos, cansada.
- Se você diz, Klaus... Mas sabe que não precisa ir, não é? Não estou pedindo.
- Eu sei. - cortou. - Mas eu vou.
Caroline concordou, apertando sua mão de volta. - Às nove e meia da manhã, não se atrase. - murmurou, bocejando, antes de sair da cozinha.
Niklaus não dormiu. Encarou o teto, ouvindo os barulhos no andar de cima.
Ouviu os passos dela até as onze e meia da noite. Imaginou se estaria mexendo nas coisas deles e imaginou se estaria tentando montar as peças de madeira no quarto de bebê.
Deixou que seus pensamentos vagassem para aquela utopia na qual estava preso. Estavam. Ouviriam o coração do feto e então tudo se tornaria mais real do que deveria ser. Estariam definitivamente sozinhos naquele mundo estranho, sem nenhuma perspectiva de volta. Perguntou-se, pela primeira vez, se queria voltar. Rebekah era sorridente ali, Elijah tinha a mulher de seus sonhos... Kol não era um completo lunático e Finn estava vivo.
O Niklaus desse mundo podia ser tolo, podia ser um ex-viciado ou um monstro humano, mas ele não era Klaus. Niklaus nunca seria o monstro vampiro, que se rendera a mil anos de abandono e que relacionava amor à dor.
Suspirou quando, às quatro e meia da madrugada, os gritos começaram. Ela não gritava nomes, nunca gritava, apenas pedia para que, fosse quem fosse, parasse. Klaus imaginou quem era a pessoa que assombrava seus sonhos, que torturava-lhe noite após noite.
Quando seu relógio bateu cinco da manhã, desistiu de dormir.
Levantou-se e começou a preparar o café da manhã, assistindo o sol surgir entre os pinheiros úmidos de Mistic Falls, o céu ser manchado pela luz rosada e os raios dourados invadir a cozinha. Não se lembrava a última vez que assistira o sol nascer. Estava sempre preocupado com algo, sempre enfiado em alguma sala escura, lambendo feridas e fazendo planos para destruir seus inimigos.
Quando era humano costumava acordar ao nascer do sol e, lembrava-se vagamente, detestava isso. Assim como um menino detesta ir à escola, ele não queria ter que acordar para aquela luz esplêndida. Porém, nem por um momento, odiou sua vida humana. Era tão... Tão puro para odiar. Fora um sentimento que nunca sentira.
Ouviu os passos dela. Portas se abrindo e fechando. Ele soube o exato momento em que ela desceu as escadas. - Eu fiz o café. - apontou para os pães e para o leite, que se repreendeu por não ter esquentado. Caroline fez uma careta.
- Não estou com fome. Só vim avisar que você já pode ir se vestir. - passou uma mão pelos olhos, circundados por olheiras escuras.
- Você está grávida, deveria comer. - Klaus franziu as sobrancelhas. Como se fosse o sonho de um sonho, lembrava-se das gravidezes de seus irmãos. Sua mãe estivera sempre faminta, porque Caroline se negava a comer?
- Estou bem. - ela puxou uma cadeira e afundou o rosto pálido entre as mãos, bocejando. - Por favor, vá depressa. - fez um gesto indicando as escadas. Nik franziu o cenho mais um pouco.
- Você vai ficar doente se continuar desse jeito. Está exausta: Não dorme, não come... Se essa é sua versão de ser uma boa mãe... - ele deixou as palavras pesarem no ar. Caroline rangeu os dentes.
- Por favor, Klaus, por favor... Me deixe em paz. - suplicou, afastando a comida com uma mão e fechando os olhos com força. - Vamos chegar atrasados.
Ele suspirou, afastando-se. Estava contando nos dedos para ela ficar doente. A loira vinha abusando demais: trabalhava até tarde, mal dormia e quando o fazia, tinha pesadelos. Ele nunca a via comendo. Nunca comia no café, não almoçava em casa e não tinha fome no jantar. Ela parecia mais vampira agora do que nunca.
Tomou banho e vestiu-se rapidamente, sorrindo para seu reflexo. Ele não estava pálido e cansado como ela. Pelo contrário, parecia até corado e talvez houvesse engordado um pouco.
Desceu a escada aos pulos, agarrando uma jaqueta e colocando-a ao redor dos ombros de sua noiva, que tinha saído da cozinha e estava sentada no sofá, olhando para a mesinha de centro como se fosse muito interessante. Caroline ergueu os olhos azuis surpresa e corou, dando-lhe um sorriso trêmulo e fantasmagórico.
Ele puxou-lhe para o carro. Ela apoiou a cabeça no vidro, deixando os olhos se fecharem enquanto "Every Breath You Take" invadia o automóvel. Niklaus agradeceu que houvesse pensado em usar o carro dela, que já tinha o endereço da clínica no GPS.
Foi fácil chegar ao local, Mistic Falls não era muito maior do que uma mini-cidade. Ele podia jurar que Caroline tinha adormecido, mas assim que estacionou, ela abriu os olhos azuis e cambaleou para fora do carro.
A brancura da sala fez com que Mikaelson se encolhesse em uma cadeira enquanto Forbes estava se escondendo atrás de uma revista, esperando que a secretária chamasse-os. Cinco minutos se passaram e suas mãos começaram a suar, passou, então, a fitar o teto e a lembrar-se de Henrik.
Tentou fugir desses pensamentos. Desviou os olhos para Caroline e agarrou uma revista. Leu-a inteira, mas a imagem de seu falecido irmão caçula assombrava seu subconsciente. Não podia pensar nisso naquele momento, a culpa o devoraria.
- Forbes-Mikaelson? - chamou uma voz feminina. Klaus levantou-se de um pulo, fazendo com que a loira erguesse as sobrancelhas para ele e revirasse os olhos.
A obstetra se apresentou como Dra. Olivia e indicou as cadeiras diante de sua mesa.
Começou fazendo perguntas rotineiras: Quando haviam descoberto sobre a gravidez, se sabia de quantas semanas estava e se vinha sentindo-se diferente desde que engravidara.
Klaus suprimiu um sorriso ao imaginar as respostas. "Sim, sabe... Eu sentia uma grande sede de sangue, antigamente, mas desde que descobri a gravidez, só quero comer esquilos..." " Ah, descobrimos a gravidez assim que aparecemos magicamente nesse universo alternativo, saindo de um mundo onde éramos vampiros e, portanto, inférteis."
- Bom, vamos pesar-lhe e então você pode ir para aquela sala, onde minha enfermeira já vai te preparar para a ultra, tudo bem? - questionou Olivia, indicando uma porta branca. Caroline concordou silenciosamente e subiu na balança. A médica começou a fazer anotações.
- Ela está magra demais, não é? Caroline não come mais. Nem dorme. - Niklaus acusou.
A mulher pareceu surpresa ao ouvir sua voz, mas sorriu. - Você está um pouco magra, Caroline, mas não é nada digno de preocupação. Isso é até normal, considerando que no primeiro trimestre o ganho de massa é mais lento. Não se preocupe, papai, ela está perfeitamente saudável.
Ele perdeu a fala. Ficou vermelho. Aquela mulher tinha chamado-lhe de papai?! A loira soltou uma risadinha, descendo da balança, apertando seu ombro de leve.
Retirou-se para a outra sala e Nik encarou aturdido o espaço, antes de olhar para a médica. - Ela está bem, então?
- Está ótima. - garantiu Olivia, sorrindo largamente e fazendo um gesto para que a seguisse para a outra sala.
- Eu acho que ela está depressiva. - sugeriu. Tinha que haver algo errado com ela. Caroline não era assim, ela era cheia de luz...
- Só estressada.
- Você tem certeza?
- Sim, papai, não preci...
- Pare de me chamar assim. - Klaus rosnou, irritado. Não era papai de nada.
- O quê?
- ... - ele ficou vermelho, pigarreou. Não podia mais usar compulsão para que ela esquecesse. - Pode, por favor, parar de me chamar assim? Eu fico nervoso... - queimou de constrangimento. Olivia concordou, ficando corada.
- Ah, claro, claro... Força do hábito. - abriu a porta da outra sala, onde Caroline já estava deitada em uma maca, vestindo uma camisola branca. Ela estava pálida, mas ostentava um sorriso satisfeito.
- Vocês já pensaram se querem que seja cesariana ou normal? - questionou Olivia, enquanto ajustava um monitor.
- Cesariana.
- Normal!
Eles se entreolharam. Os olhos azuis da loira queimaram nos dele. - Por favor, Klaus. Uma cesariana tira a intimidade do momento, reduz um parto há uma cirurgia e já é comprovado que crianças que nascem de parto normal são bebês menos estressados! - exclamou, irritada.
Ele bufou. Vivera mil anos, vira milhares de mulheres darem à luz naturalmente... Era assustador, perturbador e poucas sobreviviam. Não haviam chegado até ali, para que Caroline morresse dando à luz!
- Ah, por favor, uma cesariana demora no máximo uma hora, enquanto um parto normal pode durar dias! Sem falar, que essas mínimas horas podem ser vitais para você e o bebê!
- Deus, Klaus! Um parto normal tem menos risco de infecção e o pós-parto dura muito menos do que no caso da cesariana! Por favor!
- O que você acha, Olivia? - Klaus virou-se para a médica que assistia a discussão com as sobrancelhas erguidas.
- Eu acho que... Vocês estão ouvindo? - ela se interrompeu, sorrindo. Nik franziu as sobrancelhas.
- Ouvindo o que...? - Caroline agarrou sua mão, mandando que ficasse calado com um apertão nada gentil. - Ah meu Deus, isso é o coração do bebê...? - seus olhos azuis se encheram de lágrimas. Klaus rangeu os dentes por não ter mais sua superaudição e se esforçou para ouvir. Sorriu. Como um beija-flor, delicado como um passarinho, ele podia ouvir uma batida rápida e frágil, como se fosse desfazer-se no ar tenso.
Sentiu as lágrimas picarem seus olhos e sua garganta se fechar com um nó. Piscou profusamente e apertou os dedos de Caroline ainda mais. Ela estava chorando, abertamente, lágrimas cristalinas escorrendo por suas bochechas pálidas e seus ombros tremendo em soluços convulsos.
Lembrou-se de Rebekah, daquele bebê louro e rosado que um dia segurara. Lembrou-se de Kol e de Henrik. Frágeis... Bonecos de porcelana em suas mãos. E imaginou-se nessa situação tão avessa novamente, imaginou-se segurando seu fruto, sangue de seu sangue... Olhos azuis como os de Caroline e feições delicadas de seres místicos...
Apertou os olhos fechados e beijou o topo da cabeça de Caroline, sussurrando um rouco e tímido "Obrigado", antes de perder qualquer raciocínio e ter suas palavras sufocadas por lágrimas que não podiam existir e um batimento constante.
Caroline não falou mais com ele. Ele não falou com ela. Não sabia nem mesmo o que falar.
Ela ainda tremia e seus olhos azuis estavam cheios de lágrimas. Klaus estava rouco com emoção engolida.
Forbes murmurou algo sobre ter que sair com Elena e ele apenas concordou, feliz por sair de seu olhar inquisitivo. Afundou o rosto entre as mãos, respirando fundo.
Após um momento contemplando o vazio, sendo afogado com o silêncio da casa, decidiu-se ir atrás de companhia. Era um sábado de manhã. Kol só iria tirar sarro, sem falar da presença constante de Jeremy, com suas lições de moral e seu sorriso otimista demais para que Niklaus não o considerasse um pouco autista.
Havia Elena... Não.
Elijah estava em outra cidade e a ideia de falar com seu irmão mais velho, que carregava a mesma tendência moralista de Jeremy, só que sem o bom-humor, irritava-lhe. E Elijah estava sempre acompanhado por Katerina, aquela maldita duplicata.
Encontrou-se na rua de Stefan e Rebekah. Sorriu para o carro vermelho, assim como a porta. Era uma casinha vintage, saída de um filme e marcada com o bom gosto de Bekah.
Tocou a campainha e sorriu quando sua irmã caçula abriu a porta, sorrindo, com uma colher de sorvete na boca. - Nik?
- Posso entrar? - não era exatamente gentileza, mas um hábito que, como vampiro, ele carregara. Ela se afastou, franzindo as sobrancelhas.
- Claro. Aconteceu alguma coisa?
- Não, eu... Ouvimos o coração do bebê... - as palavras caíram de sua boca. - Eu... Bekah...
- Ah, Deus, Nik, isso é incrível! - ela exclamou com a voz aguda, abraçando-o com força, pendurando-se em seu pescoço. Niklaus lançou-lhe um sorriso entorpecido.
- É... - seus olhos se encheram de lágrimas. - Era uma coisinha... Um som tão baixinho... Tão... Tão... - engoliu o nó em sua garganta. Rebekah cobriu a boca com a mão, os olhos azuis brilhando de felicidade.
- Ai meu Deus, Nik, você está se apaixonando por esse bebê... Eu sabia que ia acontecer! Stefan! Stefan! - gritou.
Niklaus limpou as lágrimas as pressas. - Eu não... Era só tão...
Passou-se como um borrão. Stefan abraçou-lhe, ele foi empurrado para um sofá, sua irmã e seu melhor amigo diante dele enquanto balbuciava palavras desconexas sobre a cena que presenciara.
Nem mesmo tinha certeza se chegara a presenciar aquilo. Parecia alguma experiência extracorpórea, como se não estivesse realmente presente e a única coisa da qual realmente se lembrava era aquele barulho que ainda ecoava em seus ouvidos.
Rebekah estava falando sem parar, apertando sua mão e fantasiando sobre ser tia. Percebeu que Stefan assistia-lhe com veneração. Não era uma simples paixonite, Klaus percebeu. Stefan amava Rebekah: aquilo era claro nos olhos dele, na gentileza com que seus dedos seguravam-lhe pelo cotovelo, no sorriso tímido que espreitava seus lábios a todo instante...
Niklaus sorriu. Perguntou-se, mais uma vez, se queria voltar. E dessa vez a resposta foi não... Por favor, não.
A loira fechou os olhos, sentindo a palpitação por trás desses diminuir ligeiramente. Respirou fundo, esperando que a repentina taquicardia cedesse.
- Vamos fechar, Caroline. - avisou-lhe a recepcionista, como sempre. Era sempre a última a sair do trabalho.
Concordou com um muxoxo, levantando-se e pegando as chaves do carro e sua bolsa. Dirigiu sem percalços, sem música. Sua cabeça estourava de dor e estava exausta, só queria adormecer e nunca mais acordar. Dormir um milênio.
Parou diante de sua casa que, pouco à pouco, ela vinha transformando num lar. Estavam quase lá.
Klaus era uma entidade na casa, ele vinha perseguindo-lhe desde o sábado anterior, quando foram ao ultrassom: os olhos verdes analisando seu rosto à procura de respostas, as mãos finas agarrando as suas quando precisava de ajuda... Estava grata por tê-lo, mas a verdade era que não estava grata por nada. Estava apenas cansada. As torturas revividas em seus pesadelos vinham assombrando-lhe, roubando o pouco descanso que podia almejar ter. A presença exaustiva de Klaus vinha exaurindo-lhe, suas perguntas constantes dissecando cada gota de autocontrole que possuía. Sua mãe não parava de ligar e ela nem mesmo sabia lidar com uma mãe tão presente. A criança em seu ventre deixava-lhe mais e mais doente...
Estava no limite.
- Você chegou. - Ele ostentava um sorriso que ela não gostava. Aquele sorrisinho malicioso que era recheado de segundas e terceiras intenções.
- Eu cheguei. - murmurou, despindo o casaco e bocejando. Era noite de sexta e queria rastejar para sua cama mais do que tudo.
- Vá tomar banho e se vestir. - instruiu Klaus, segurando-lhe pelo antebraço e puxando-lhe escada acima. Caroline franziu as sobrancelhas.
- E por quê?
- Oras, porquê! É seu aniversário, Caroline, por favor! Vamos sair para comemorar... - O sorriso expandiu-se. Ela sentiu-se nauseada.
- Comemorar? - ecoou. Klaus concordou, indicando a cama, onde suas roupas já haviam sido escolhidas. - Eu não quero comemorar, Klaus...
- Você mal quer viver recentemente, amor. Suas desculpas não vão fazer-me mudar de ideia. Tome um banho e se vista ou vai ter que sair assim mesmo. - cruzou os braços em desafio e ela cedeu, cansada demais para discutir.
- Me dê quinze minutos. - pediu, fechando a porta do banheiro diante dele.
Seus dedos engalfinharam-se em seus cabelos molhados, sentindo a água quente correr por seu corpo e tentar, sem sucesso, relaxar os músculos exaustos. Estendeu as mãos diante do corpo quando uma onda de tontura atingiu-lhe, apoiando-se com força na parede gelada e úmida. Pensou em sua morte.
Repentinamente o ar quente do banheiro pareceu sufocar-lhe, assim como aquele travesseiro o fizera. Sua cabeça girou e doeu ainda mais. Quis gritar de pânico por estar revivendo aquilo de novo e de novo. Com uma mão trêmula agarrou a torneira e fechou o registro. Espalmou as costas contra a parede e escorregou até cair sentada, sua testa encontrando os joelhos que abraçava. Era pequena naquele banheiro, uma menina vulnerável a qualquer predador.
Sentiu saudades de quando estava no controle, de quando era a caçadora, não a caça.
Vestiu-se mecanicamente. Fechou o jeans e arrumou sua blusa, escovando os cabelos sem olhar-se no espelho que odiava. Seu reflexo acenava para ela, um cadáver quase bonito, doente...
- Você está pronta? - questionou Klaus, batendo à porta.
- Estou. - não reconhecia sua própria voz. Ele abriu a porta do quarto e sorriu para ela, embora uma ruga de preocupação tenha surgido entre suas sobrancelhas. Estendeu-lhe uma mão.
- Espero que esteja com fome. - murmurou.
Negou com um aceno. Niklaus puxou-lhe para o carro, trancando a porta de casa e ignorando suas reclamações.
- Klaus... Não podemos só... Ficar em casa? - sugeriu, apoiando sua cabeça no vidro e fechando os olhos. Ouvi-o bufar.
- Não Caroline! Quando foi a última vez que você comeu, hein? Você está se enterrando naquela casa!
Ela se encolheu com os gritos dele que só pioraram sua dor de cabeça. - Estou bem...
- Não está! - houve um momento de silêncio. Klaus pesando as palavras e ela respirando pesadamente sob a dor. - Estou preocupado com você, Caroline...
Ela gemeu baixinho, sentindo as lágrimas de dor queimarem seus olhos. - Estou bem, não preciso de sua preocupação. - resmungou. Não falaram mais. Mikaelson estacionou diante de um restaurante vermelho e iluminado.
Ele estendeu-lhe uma mão e Caroline a tomou, certa de que não conseguiria aguentar mais um segundo daquilo que fosse. - Klaus, por favor... - sua voz sumiu, ele puxou-lhe para dentro do local. - Por favor, vamos para casa...
- Caroline, você precisa se divertir! Acha que eu não...
- Não! - soltou-lhe, erguendo as mãos e apertando os olhos fechados. - Você não entende! Você não liga! Não! Não! - abriu os olhos e empurrou-o pelo peito. - Pare de fingir que se importa, você está me deixando louca!
- Amor, você está fazendo uma cena... - ele murmurou, olhando ao redor. A loira rangeu os dentes. O que os outros pensavam não era importante!
- Eu não quero comemorar e eu não vou! - Caroline exclamou. - Estou exausta, no meu limite! Não aguento mais isso!
- É porque não está nem tentando viver! Você não vai aguentar se não parar de... De se culpar! Diabo, Caroline, eu me importo sim! - Klaus exclamou, desistindo completamente da discrição. Forbes empurrou-lhe pelo peito.
- Pare com isso! Pare! Você não se importa, nem mesmo pode se importar! - as lágrimas passaram a transbordar. - Eu não sei lidar com um Klaus que se...
Ele a interrompeu, andando para trás e gesticulando com os braços: - A verdade é que você... - Caroline soltou um grito quando a água espirrou em seus sapatos e seu jeans. A loira cobriu a boca com uma mão, os olhos azuis arregalados.
- Ai Meu Deus... - murmurou, antes de explodir em uma gargalhada.
- Pare de rir! - exclamou Niklaus emergindo, tossindo. Ele olhou ao redor para perceber que havia caído em um lago ornamental, cheio de carpas coloridas. Bufou e franziu as sobrancelhas. - Pare de rir de mim Caroline!
A loira apoiou uma mão nos joelhos e outra nas omoplatas, gargalhando. - Oh, meu deus... Klaus! - os peixes estavam cercando-lhe: Um ser estranho dentro de um mundo que não fora convidado.
Ele rosnou e saiu do lago ornamental, enquanto um garçom corria até eles, uma toalha em mãos e um olhar absolutamente chocado.
- Você... - Caroline arfou, apontando para ele, que despia a jaqueta destruída e tentava, sem sucesso, secar-se com a toalha branca. - Você está ridículo! - murmurou, estendendo a mão e tirando um pedaço de alga do cabelo dele.
Nik agarrou-lhe pelo pulso e franziu as sobrancelhas. Caroline encarou-lhe por um momento, ambos sérios. E então a carranca dele se desfez em um sorriso. Ela permitiu que ele segurasse-lhe pela mão, seus dedos gelados e úmidos se fechando ao redor dos dela.
- Isso foi a coisa mais hilária que eu já vi. - murmurou a loira, enquanto Klaus desculpava-se profusamente com o gerente e devolvia-lhe a toalha, tentando voltar discretamente para o estacionamento.
Caroline tomou o volante, dirigindo de volta para casa e rindo baixinho enquanto ele, encolhido no banco do passageiro, tremia e ria por entre os dentes tiritando e os lábios arroxeados.
- Estou molhado e faminto. - murmurou Niklaus assim que entraram na casa.
- Eu acho que tem massa de pizza na geladeira. - Forbes murmurou. - Você deveria ir tomar um banho, está fedendo à peixe.
Ele sorriu. - Vamos fazer pizza então.
Forbes apoiou-se na bancada da cozinha, tentando apagar a imagem de Klaus encharcado e trêmulo de sua retina. Era impossível, fora a coisa mais engraçada que vira em anos.
Abriu a geladeira e pegou a massa congelada, tirando as latas de molho em conserva e tomates, queijo... Todos os ingredientes dos quais se lembrava. Percebeu que, pela primeira vez no dia, não estava mais exausta.
- Você está fazendo isso errado! - exclamou Caroline, arrancando a colher das mãos dele e mexendo o molho antes que ele começasse a escorrer da panela.
- Awn, desculpe-me, amor. Nem todos nós sobrevivemos de pizza e comida chinesa durante nossas adolescências. - zombou Klaus, ofendido. Ela riu e jogou uma azeitona nele, acertando-lhe bem entre os olhos.
- Porque diabos você deduziu que eu sobrevivi a base disso? - questionou, confusa. Niklaus jogou uma azeitona em vingança, que caiu dentro da panela com um suave "plop" e fez com que molho espirrasse na camiseta dela.
- Oras... É só o que adolescentes parecem comer hoje em dia... Como viver de fast-foods e afins... E você disse que sua mãe não passava muito tempo em casa...
- Meu pai sabia cozinhar. - ela interrompeu. - Ele me ensinou a cozinhar uma coisa ou outra... Eu não morri de fome, então...
- É. Eu me sinto muito mais seguro em comer sua comida agora, Miss Mistic Falls. - Klaus zombou. Caroline bufou e estendeu-lhe a colher.
- Como se você cozinhasse melhor: sempre o híbrido mimado, aposto como utilizava a compulsão para que seus servos cozinhassem.
Klaus riu e arrancou a colher de suas mãos, empurrando-lhe gentilmente para o lado. - Você pensa assim tão mal de mim? - brincou, encostando com a colher suja de molho na ponta do nariz dela e lambuzando seu rosto. A loira abriu a boca para abocanhar a colher e enfiou os dedos dentro do pote de queijo, espalhando-o pela camiseta dele.
- Ah, então é guerra, amor..? - ronronou Nik enfiando os dedos na manteiga e espalhando-a nos cabelos dela.
- Ah, o cabelo não! - Caroline exclamou, rindo e virando o pote de queijo na cabeça dele. Klaus balançou a cabeça, fazendo com que os farelos de queijo espalhassem-se por seus ombros. Agarrou a ducha, que geralmente utilizavam para enxaguar a louça, sobre a pia e segurou-a como uma arma.
- Você não ousaria! - ela exclamou, usando um prato como escudo e tentando fugir para o outro lado da cozinha.
- Quer apostar? - Klaus ergueu a arma bem a frente do corpo. Teve que se abaixar quando um punhado de farinha veio em sua direção.
- Caroline!
- Antes você do que eu! - ela riu. Mikaelson bufou e apertou o gatilho, fazendo com que a água pressurizada atingisse-lhe bem na barriga, encharcando sua roupa. Ela soltou um gritinho e correu até ele, para tomar a ducha de suas mãos, mas acabou esbarrando sem querer na panela no fogo. Ela soltou um grito e se afastou quando o molho vermelho banhou o chão da cozinha e a frente do fogão, caindo na calça jeans dela e nos sapatos dele.
- Deus, olhe só o que você fez...
- Ah, Klaus... - Caroline escondeu o rosto corado entre as mãos, rindo. - Agora nós fizemos uma bagunça, hein?
- Nós?! - ele apontou para ela, avançando para agarrar-lhe pelo braço. A loira deu um passo para trás ansiosamente e escorregou no molho. Soltou um gritinho e agarrou Klaus pela mão, puxando-lhe para o chão junto com ela. Acabaram esparramados no molho que esfriava no chão frio, roupas manchadas.
Forbes riu alto, sentando-se e apoiando a cabeça no armário da cozinha.
- Certo, certo... Destruímos a cozinha. - murmurou, fechando os olhos e arfando. Klaus bufou e sentou-se ao seu lado, segurando sua mão.
- Sua insistência em agir como se nós houvéssemos feito essa bagunça é irritante.
Ela sorriu e brincou com os dedos dele. - Melhor aniversário em muito tempo... - suspirou para si mesma. - Mas nós nunca chegamos a comer. - bocejou.
Klaus riu e passou um braço ao redor do corpo dela, que deixou a cabeça cair no ombro dele. O homem sorriu, fechando os olhos e ignorando o caos que haviam criado. Inconscientemente começou a enrolar e desenrolar uma mecha loura ao redor de seus dedos.
- Você está errada, sabe?
- Eu geralmente estou. Sobre o que, dessa vez?
- Eu me importo. - respirou fundo. - Eu me importo com você e agora eu acho... Que talvez eu até me importe com essa criança. Eu me importo, Caroline.
Ela aconchegou-se mais junto a ele e suspirou. - Estou exausta demais para lidar com um Klaus que se importa. Porque você não pode simplesmente não ligar? Seria tão mais simples se eu... Não acreditasse em você.
- Você nem sabe mais o que quer, hein? - Niklaus sorriu. - Da última vez que conversamos queria que eu encontrasse o mocinho em mim. Agora me pede para ser o vilão...
- Eu nem mesmo sei qual é minha vida, Klaus, sem o jogo de vilões e mocinhos. Isso me resume, eu sempre vou ser a mocinha...
- E eu sempre o vilão? Isso é um jogo infantil para quem está tentando se reconstruir em outro mundo, amor. - ele beijou o topo de sua cabeça. - Não temos mais tempo para brincar de odiar.
Ela franziu as sobrancelhas, sem qualquer argumento. Suspirou, afundando o rosto ainda mais no ombro dele. - Estou tão exausta...
- Porque não vem dormindo. Eu ouço os pesadelos, Caroline...
- E eu ouço os seus.
- Quem te machucou? Para quem você suplica?
- Todos eles... - bocejou. - E você? Eu te ouço gritando o nome de Henrik durante as madrugas, Klaus... Você sabe que um dia vai ter que encarar isso, não sabe? Não foi sua culpa.
- É claro que foi. Ele era meu irmão caçula, Caroline. Um pirralho. E eu deixei que ficasse ao meu lado enquanto observávamos os lobisomens. Henrik morreu porque eu era curioso.
- Foi uma tragédia, Klaus.
Houve um momento de silêncio. Mikaelson perdido nos próprios pensamentos, revivendo a morte de seu irmão caçula, enquanto Caroline lentamente afundava na sonolência.
- Damon. - murmurou ela, tirando Klaus de seus devaneios. - Meu pai... Jules e Brady... Jonas... Alaric... Katherine... - bocejou. - Mais fantasmas do que eu consigo lembrar. - resumiu.
- Damon e Alaric? - Nik franziu as sobrancelhas. - Vocês são amigos... E seu pai é... seu pai. Você ficou arrasada com a morte dele... No outro mundo...
- Bom... Isso se chama perdoar, Klaus.
Ele não perguntou o que seus fantasmas haviam feito. Não era preciso reabrir essa ferida. Ela falaria se quisesse e, se não falasse, ele sempre podia perguntar a Katherine. Poderia não receber a verdade, mas os mundos pareciam próximos o suficiente para que encontrasse uma versão aceitável.
Fechou os olhos e apertou os braços ao seu redor.
Os fantasmas de seu passado não o assombraram durante aquela noite.
Jeremy sorriu, cruzando os braços e assistindo enquanto Kol abria caixa após caixa. Os portfólios estavam abertos sobre a mesa da sala.
- O que você está fazendo? - questionou, fazendo o Mikaelson erguer os olhos rapidamente.
- Só... Olhando. Eu não me lembro de nada disso. - resmungou Kol, franzindo o cenho. Sabia que a constante desculpa de amnésia vinha deixando Jeremy preocupado, mas não podia mudar que queria saber dessas coisas.
- Você está me assustando, Kol. - Gilbert murmurou, sentando-se à mesa e folheando os trabalhos. - Não se lembra de nada?
- Não. - Kol franziu as sobrancelhas para a inocência do rapaz. Jer nunca suspeitava de nada que ele dizia, mesmo que, como já estava claro, soubesse das tendências sociopatas dele. - Onde tiramos essa foto? - apontou uma das fotos presas com um clipe de papel nas páginas velhas do portfólio.
- Denver... Fazia um mês que nos conhecíamos. - Jeremy sorriu. - Lembra-se dessa?
Kol piscou e apertou os olhos quando um sentimento de déjà vu lhe atingiu. Já vira aquela foto. Já vira...
- Não.
- Nosso primeiro encontro... Mais ou menos. Eu e Meghan, você e... Eu não lembro o nome dela. Abandonamos as garotas quando elas passaram a encher o saco e fugimos do encontro duplo... Fomos jogar flipe no seu apartamento.
Kol lembrava-se disso. Não sabia como, mas tinha certeza que já vivera aquilo. Era uma sensação horrível, como se algo estivesse arranhando seu subconsciente. - Você está bem, cara? - Jeremy questionou, vendo sua palidez.
- ... Dor de cabeça. - explicou Mikaelson, sem mentir. Apontou um desenho. - Você que fez? - perguntou, olhando o dragão que era estrangulado por uma mão feminina e delicada. Como se o pescoço escamoso da fera, não fosse mais do que parte de um bichinho de pelúcia.
- Sim. Um homem pediu, foi a capa de um livro...
- Muito bom. - Kol sorriu, embora a dor atrás de seus olhos estivesse aumentando. - Esses ingressos...?
- Um jogo de baseball em Denver.
- Nós saíamos muito no Colorado, hein? - Kol lembrava-se de sair com Jeremy, afinal, Nik pedira que ele vigiasse o garoto Gilbert dia e noite. Só não se lembrava de ter se divertido tanto quanto a voz de Jer sugeria.
- Nem tanto. Nós gostávamos mais de ficar no meu apartamento...
- Jogando Devil May Cry 3, é... Eu me lembro disso. - viu um sorriso surgir nos lábios de Gilbert. Massageou as têmporas e apontou para as entradas de um filme.
- Você gosta de filmes de terror? - viu o sorriso de Jeremy vacilar, mágoa surgir em seus olhos castanhos por Kol não se lembrar disso.
- Você também gosta. - levantou-se e indicou a sala, andando até o cômodo. Agachou-se diante do raque onde se encontrava a televisão e os videogames.
- Nossa coleção. - indicou uma coleção inesgotável de DVD's e até, incrivelmente, alguns VHS's. Kol sorriu quando percebeu que os filmes iam desde Nosferatu, em sua versão preto e branco e muda, até chegar em Massacre da Serra Elétrica 3D.
- Você colecionava muito antes de eu sequer gostar desses filmes... Seu favorito... É esse. Quer assistir? - Jeremy acenou com um DVD antigo, com a cara de um homem pálido e louro estampada, perto de um galã moreno. Ambos com uma estranha careta. Assim como qualquer filme antigo, o título encontrava-se na parte superior da caixa e em letras garrafais.
- Entrevista com o Vampiro... - ele lera o livro. Anne Rice e seu fetiche eterno por vampiros. - É meu favorito? - o livro fora muito bem descrito, Lestat de Lioncourt era um gênio do prazer e da fome imortal...
- Sim. Acho que já assisti tantas vezes com você que sei as frases de cor. - Jeremy levantou-se e sorriu, abrindo a caixa e colocando o CD brilhante dentro do aparelho. - Vamos assistir. - decidiu-se.
Kol sorriu, piscando com a dor de cabeça latente e sentou-se ao lado de Gilbert. Assistiu seu suposto namorado arrancar os sapatos e deitar-se preguiçosamente no sofá, os olhos escuros brilhando com o filme familiar e a situação doméstica, o controle remoto descansado em suas mãos como se pertencesse somente a ele. Mikaelson franziu o nariz ao perceber que Gilbert se acostumara a mandar no relacionamento fácil demais.
- Então é você quem fica com o controle? - provocou, esparramando-se do outro lado do sofá e apoiando os pés na mesa de centro.
- Não crie caso, cara. Eu sempre fico com o controle.
- Espero que lave a roupa também. - zombou Kol, enquanto Jeremy mastigava a parte interna da bochecha e iniciava o filme. - Esse é seu filme favorito? - questionou, quando percebeu Gilbert o ignorara.
- Não, claro que não. - revirou os olhos. - Jogos Mortais 4, sabe... Glória e tripas.
- Falta de classe, portanto. Filmes assim não têm a sutileza necessária para serem considerados...
- Deus, você é tão gay. Só cale a boca e assista. - Jeremy interrompeu, chutando a coxa de Kol de leve. Mikaelson bufou ao perceber o sorrisinho divertido nos lábios do outro.
Tornou a atenção para o filme que passava.
Viu Louis ser mordido e narrar seu acordar para o novo mundo. Aquele mundo de cores e luzes brilhantes, onde anjos acenavam e ele via tudo de um novo ângulo. Embora Kol achasse que as telas fizessem tal descrição parecer uma viagem de LSD, ele não podia negar a familiaridade com a sensação.
Lembrava-se de ter acordado ao lado de Elijah, dos dedos de seu irmão mais velho estarem em seu rosto e pescoço, procurando por sua pulsação. Seu rosto estava pálido, contorcido com a preocupação. Lembrava-se de sorrir para ele e ver o alívio invadir-lhe a face. E do sol parecer queimar suas retinas, assim como a grama causar uma sensação completamente diferente em contato com sua pele.
Lembrava-se do gosto de sangue em sua boca e dos gritos de Niklaus e Elijah, do nojo que lhe tomara quando percebera que bebera de Tatia... Que bebera o sangue da mulher que seus irmãos amavam.
O estômago de Kol revirou e ele piscou contra a dor de cabeça. O vidro moído atrás de seus olhos fez com que esse simples ato causasse uma dor excruciante.
- Você está bem? - Jeremy questionou, desviando os olhos da tela, as sobrancelhas franzidas tanto que Kol teve certeza que nunca voltariam a posição normal.
- Minha cabeça está me matando.
- Enxaqueca? - Gilbert endireitou-se, pausando o filme (Louis alimentava-se pela primeira vez) e apertando a palma da mão contra a testa de Kol.
- Pare de me sentir, cara. - reclamou o jovem Mikaelson, afastando-lhe. - Estou bem, é só...
Jeremy fez uma careta, interrompendo-lhe. - Seu nariz está sangrando, Kol. - levantou-se, preocupado, e enxotou o namorado de forma que ficasse deitado no sofá. - Que diabo há com você? - perguntou, andando para o banheiro e voltando com o rolo de papel higiênico. Arrancou um tanto e pressionou contra o nariz de Kol, que afastou suas mãos e continuou a pressão.
- E eu que sei? - não sou humano há um milênio. - Não deve ser nada.
- Você está morrendo de dor de cabeça e seu nariz está sangrando. Não é nada. - Mikaelson deixou que os olhos de fechassem, protegendo-os da luz, e ouvindo os passos de Jeremy.
- Talvez eu deva ligar para o Damon? - um copo de água foi empurrado na mão livre de Kol, junto com um par de comprimidos.
- Porque ligar para o Salvatore vai ajudar? - engoliu o medicamento e pressionou o papel com mais força contra a hemorragia nasal. - Quer que ele segure minha mão?
- Ele é médico, Kol. - Jeremy bufou, irritado. - Só fique quieto, ok? - sentiu seus cabelos serem afastados e uma compressa gelada ser pressionada contra sua testa. Ah, como era bom...
- Esqueci que você era um péssimo paciente. - Gilbert reclamou, o sofá afundou quando ele sentou-se ao seu lado.
- Ah, nos brincamos muito de médico, Jerbear? - zombou Kol. Mesmo sem abrir os olhos ele sabia que arrancara um sorriso. Tentou lembrar-se de onde tirara aquele apelido, mas isso só fez com que seu estômago se apertasse e uma coleção de luzes coloridas explodisse por trás de suas pálpebras.
- Eu sabia que você estava tentando me seduzir. - brincou Jeremy, fazendo o outro corar furiosamente e se esconder atrás da compressa gelada.
- Talvez em outra vida, Jerbear.
O ex-original se encolheu quando outra pontada atingiu-lhe. Sua cabeça estava rachando, seu cérebro sendo fervido nos pensamentos incoerentes e no sentimento constante de déjà vú.
Adormeceu com Jeremy falando e sonhou. Sonhou com Denver, sonhou com algo que era tão familiar que quase parecia real. Sonho que era humano.
Caroline sorriu e afastou os cabelos louros dos olhos. - Está ficando lindo. - murmurou sob a respiração arfante, enquanto segurava as peças de madeira em uma posição nada confortável e esperava que Klaus as parafusasse.
- É claro que está, sou eu quem está fazendo.
- Ah, é? É assim agora? Eu monto o quarto todinho, você parafusa duas peças e já sai com todo o crédito? - Bufou, revirando os olhos e sentindo uma câimbra tomar sua perna esquerda. - Já está acabando?
- Quase lá... - Klaus mordeu a língua, estreitando os olhos em concentração. - Que horas temos que aparecer na casa deles?
- Não vamos mais. Jeremy ligou desmarcando o almoço. - o qual ela esquecera e apenas Klaus se lembrara, enquanto limpavam a cozinha às nove e meia da manhã. - Aparentemente, Kol estava com enxaqueca ontem e Jeremy quer deixá-lo dormindo hoje.
- Gilbert se preocupa demais com meu irmãozinho psicopata.
- Você fala como se não fizesse a mesma coisa.
- Ah, tem uma diferença, amor. Eu sou um psicopata. - Klaus brincou, afastando-se e respirando fundo. - Pode soltar. Acho que acabei. - limpou o suor da testa e sorriu.
- Ficou perfeito. - falaram em uníssono.
Caroline sorriu para o berço montado no centro do quarto de bebê. - Está tão lindo. - murmurou, alisando a madeira e olhando ao redor. As paredes ainda eram brancas e nuas, mas as caixas de papelão haviam desaparecido, assim como um tapete branco e uma cortina amarelo-claro havia surgido. Janelas estavam abertas, permitindo que a luz incandescente do meio-dia invadisse o quarto.
- Agora só falta o bebê.
- Como assim só falta o bebê? Vamos pintar essas paredes! - ela sorriu, apontando-as. - Serão cor de pêssego, já escolhi! E podemos encher estantes de ursinhos de pelúcia...
- É um quarto, Caroline, não uma exposição... E como assim pêssego? Decidiu-se que vai ser uma menina?
- Só nascem meninas em Mistic Falls. É a regra.
- E só nascem meninos na família Mikaelson. - Klaus revirou os olhos. - É a regra.
- Aah, por favor! Vai ser uma menina loirinha... - foi interrompida quando o telefone começou a tocar. - E com olhos verdes. Vamos chamá-la de Audrey.
- Hepburn? Porque alguém chamaria uma menina loira de Audrey Hepburn? - ele seguiu-lhe pelo corredor, descendo as escadas. - Grace Kelly eu até entendo, mas Audrey? É nome de morena, Caroline.
- É nome de diva, Klaus. - ela mostrou-lhe a língua. - E Grace Kelly? Ela era linda, eu concordo, mas... Não. - fez um gesto para que ficasse em silêncio, tirando o telefone do gancho.
Ele bufou, cruzando os braços e mastigando a bochecha. Se ela achava que daria o nome de qualquer ser que fosse de Audrey, estava muito enganada! Ergueu os olhos para fazer uma piada, mas então percebeu que as cores haviam escorrido do rosto dela.
- Caroline? - chamou, franzindo o cenho. Ela nem pareceu se dar conta que ele estava ali. Murmurou para a pessoa na linha:
- ... Pai?
N/A: AhhHH! Finalmente! Após uma eternidade tentando achar tempo para escrever, eu consegui! Vou agradecer, novamente, a minha amada beta. (Sra. Letyr) Que faz com que essa fic não pareça ter sido feita na caixa de areia! E saibam que reviews são sempre bem vindos e que são eles que me fazem escrever! Bons ou maus, que venham!
