N/A: O capítulo demorou para sair, mas ficou do jeitinho que eu queria que ficasse. Espero que a demora valha a pena e aqueça essa noite fria de domingo ;) Agradeço pelos reviews do último capítulo e torço para que gostem deste.
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Havia legítimo orgulho paternal nos olhos do Professor Xavier enquanto assistia através da janela de seu escritório aos seus pupilos se divertindo ao ar livre. Eles usavam seus poderes sem inibições, longe dos olhos do mundo que os julgavam, longe dos perigos que este mesmo mundo oferecia.
O sonho do Professor, que o impulsionou a fundar o Instituto Xavier para Jovens Superdotados, nunca teve como objetivo formar um grupo de jovens soldados mutantes para lutar contra outros mutantes que escolheram o lado oposto, como tempos difíceis por vezes o forçavam a fazer. Seu sonho consistia em oferecer um porto seguro a mutantes de todo o mundo, onde pudessem aprender a controlar as suas habilidades mutantes e usá-las em prol da humanidade. Em momentos pacíficos como aquele, Xavier acreditava do fundo do coração que o seu sonho não seria inalcançável.
"Mutatis Mutandis" ele murmurou para si mesmo. Latim para Uma vez efetuadas as necessárias mudanças, lema do Instituto.
Sentada no sofá cor de creme ao lado de Hank, Tempestade notou o ar contemplativo do Professor. Assim, depositou sua xícara de chá sobre a mesa de centro e se pôs de pé. Sua saia, comprida e colorida com motivos que faziam lembrar sua terra natal, esvoaçou entre as pernas longas enquanto ela caminhava em direção ao Professor.
"Obrigado, Ororo" disse o Professor, emotivo. "Eles precisavam de um dia agradável com este" e ergueu os olhos para ela com um sorriso gentil nos lábios.
A Bruxa do Tempo retribuiu o sorriso e chacoalhou a cabeça em concordância. Fazer o sol brilhar naquela tarde elevava também o seu espírito. Poderia ser um dia perfeitamente memorável e modelo para o futuro não fosse a perversidade inominável e intangível que ainda pairava no ar. Este fardo, entretanto, recaía predominantemente sobre os mentores reunidos no escritório.
Xavier sentiu os olhos marejarem, indagando-se se a ignorância seria de fato uma bênção. Questionamentos faziam parte de sua natureza e a responsabilidade do processo de tomada de decisão pesava nos seus ombros. Havia uma ameaça no horizonte, e decidir como lidar com ela era seu papel como mentor. Ele sentiu a mão consoladora de Tempestade repousar sobre o ombro, como se seus poderes estivessem trocados e fosse ela quem pudesse ler os seus pensamentos. Talvez o silêncio dos quatro mentores indicava pensamentos semelhantes.
Se a falta de progresso em encontrar o homem (eufemismo questionável) que os ameaçava a distância não fosse o bastante para fazê-los perder o sono, ainda havia as palavras de Gambit, que conseguiram penetrar em suas mentes e agora martelavam incessantemente.
Naquela manhã, os mentores tomaram parte em mais uma reunião, que não incluía nem um integrante do grupo veterano, para discutir o progresso alcançado até o momento e decidir quais seriam os próximos cursos de ação. Para o desgosto dos presentes, o andamento das investigações havia estagnado enquanto os próximos passos eram obscuros e cada vez mais inextricáveis.
"Vocês não podem continuar a exclui-los dessa forma" dissera Gambit durante a reunião, o que consequentemente botara um fim nela. "Eles deveriam fazer parte das próximas reuniões. Mantê-los no escuro é o mesmo que condená-los."
O fato de Gambit ter atipicamente baixado os olhos ao terminar de falar não passara despercebido por Xavier. Era como se o rapaz se sentisse culpado daquele mesmo crime.
"Não mudei de opinião em relação aos recrutas" Xavier anunciou ao pequeno grupo após um longo e contemplativo suspiro. "Entretanto, me pergunto se devemos voltar atrás sobre incluir o grupo mais velho em reuniões futuras. Se eles não souberem contra quem estão lutando, não saberão como se proteger."
Wolverine, que se encontrava mais afastado do grupo, recostado em uma parede com os braços cruzados sobre o peito, virou o rosto na direção do Professor. "Então eles farão parte da próxima reunião."
Tempestade anuiu. "Acredito que eles tenham maturidade o suficiente para lidar com o que quer que esteja a nossa frente" apanhou a sua xícara de chá e voltou a se sentar no sofá ao lado de Fera, que havia aquiescido às suas palavras. Xavier deslizou sua cadeira para mais perto do sofá enquanto Wolverine tomava o seu lugar em frente à janela.
Wolverine era evidentemente o membro mais frustrado do grupo, pois as investigações que conduzira ao longo daqueles últimos quinze dias não levaram a lugar algum. O mais próximo que chegara de desvendar o paradeiro de Essex foi descobrir que este esteve em Nova Orleans meses antes, até desaparecer novamente. Esse fato, contudo, deixava Wolverine irrequieto.
"O Cajun não nos contou sobre Essex ter estado em Nova Orleans" ele disse em voz alta e repentina, sem tirar os olhos para através da janela.
"O argumento do rapaz" respondeu Xavier "sobre ter sido mais um beco sem saída não soou infundado, Logan."
"Saber onde Essex esteve poderia nos ajudar a saber onde ele está agora" contra-argumentou Wolverine.
"E, contudo, essa informação não foi o bastante para ele ser localizado" respondeu Xavier à guisa de quem se desculpa.
Wolverine apenas grunhiu, contrafeito. Todos os presentes sabiam que Logan era sua melhor chance de encontrar o vilão, e se ele encontrava dificuldades, então o futuro não parecia otimista.
"O que me incomoda" Wolverine voltou a falar após um longo silêncio "é imaginar o que mais o Gambit pode estar escondendo de nós."
Xavier ponderou, e quando voltou a falar sua voz mantinha a natureza gentil e sábia. "Se ele tem segredos, é porque é humano. Enquanto esses supostos segredos não confrontarem os nossos interesses, não há motivos para pressionar o garoto."
"Ele não nos deu motivos para desconfiar dele" afirmou Hank, juntando-se à conversa após apenas ouvir. "Um voto de confiança é tudo o que podemos oferecer."
Wolverine segurou a língua para não rebater, o que fez o seu rosto se contorcer em uma carranca. O fato de não saberem praticamente nada a respeito de Gambit era uma quebra de confiança aos seus olhos. Porém, como sabia que os demais descordavam, esforçou-se para guardar essa opinião para si. Detestaria ter o argumento voltado contra si, pois ele próprio não era um livro aberto.
Os próximos minutos silenciosos foram responsáveis por amainar o ar denso que pairava sobre suas cabeças como nuvens negras. Assim que suas vozes se fizeram ouvir novamente, o assunto se voltou para o bem-estar dos jovens lá fora e a calmaria do dia.
Em contrapartida, Wolverine permaneceu completamente imóvel neste meio tempo. Espreitava para através da janela como se procurasse por algo que sabia que iria encontrar. Segurou um grunhido à medida em que via seu mau-humor aumentar, assim que os seus olhos se depararam com uma cena que desagradava e temia: ao longe, Vampira caminhava ao lado de Gambit.
"Vi no noticiário" Vampira comentou casualmente à medida em que caminhava a passos lentos, com o rosto voltado para cima, observando o céu azul límpido. Sentiu os olhos arderem e os voltou na direção de Gambit, que tinha no rosto uma expressão fingida de desentendimento.
"Viu o quê?" ele perguntou, apenas por provocação. Os cantos dos seus lábios se contorciam, lutando para não formar um sorriso. Quando desceu os olhos na direção dela, fios de cabelo castanho caíram sobre os olhos negros. Retirou a mão direita do bolso dianteiro da bermuda para jogar a franja para trás.
"O laboratório que você investigou fechou as portas após uma denúncia sigilosa sobre quebra de direitos humanos" ela disse, olhando-o de esguelha, com uma curiosidade que não conseguia disfarçar.
"Descobri que eles coletavam sangue e material genético de mutantes para experimentos sem o seu consentimento. Tiveram o que mereceram."
"Você fez bem" ela anuiu, sorrindo de leve sem perceber. "Talvez isso chame a atenção de Essex e o faça pisar na bola quanto ao seu paradeiro."
"Peut-être" ele disse em voz baixa, tentando genuinamente compartilhar do otimismo dela. "Está com muito calor?" perguntou após uma breve pausa. Notara que Vampira era a única a vestir calças compridas, manga longa e suas indispensáveis luvas.
Ela deu de ombros, sem entender como se sentir em relação à demonstração de preocupação na voz dele. "Estou acostumada" foi a sua resposta. Era melhor que correr o risco de ser a causa de algum incidente desagradável. Fazer contato físico àquela altura seria um passo para trás.
Gambit abriu a boca para falar, mas sua voz foi cortada por um berro.
"CUIDADO!" eles ouviram tarde demais. A bola de futebol já vinha na direção deles em alta velocidade. Velocidade que só poderia ter sido proporcionada por habilidades mutantes.
Os reflexos de Gambit, que eram exponencialmente aumentados por treinamentos que vinham de encontro às suas habilidades mutantes, entraram em ação. Gambit girou o corpo, colocando-se na frente de Vampira e a empurrando para fora da linha de impacto. O movimento brusco fez Vampira perde o equilíbrio e cair de costas na grama. Gambit tentou apanhar a bola com as mãos, mas não conseguiu, e foi atingido no estômago, em uma pancada que o fez perder o fôlego. A força do impacto o desestabilizou e o fez tropeçar nas pernas de Vampira e cair para trás ao ser atingido.
"Você tá legal?" os dois perguntaram em uníssono, estatelados no chão. Ao constatarem que nenhum deles havia se machucado, caíram em uma gargalhada de alívio.
Enquanto Vampira permaneceu deitada, sem forças para se mover, Gambit levantou a cabeça e viu um borrão negro a distância olhando na direção deles, com as mãos nos quadris esperando o retorno da bola. Mancha Solar, Gambit murmurou entredentes. Olhou ao redor à procura da bola.
"O que você vai fazer?" Vampira perguntou ao se sentar, mesmo sabendo a resposta.
Gambit apanhou a bola e a energizou até estar completamente carregada, a segundos de uma explosão. Com um esgar maldoso sobre o rosto, ele arremessou. A bola de futebol, que brilhava com energia roseada, voou em direção ao Mancha Solar, que nesse meio tempo havia se posicionado. A bola, porém, veio alta demais e o garoto deu um salto para segurá-la com as duas mãos. Não conseguindo pará-la, Beto voou uns bons três metros para trás antes de a bola explodir na sua cara. Sua invulnerabilidade enquanto usava os poderes fez com que o impacto fosse sentido como um murro. Ele retornou à sua forma humana e permaneceu deitado enquanto as gargalhadas dos colegas enchiam o ambiente.
"Você tá bem, chère?" Gambit perguntou ao oferecer a mão para ajudar Vampira a se pôr em pé.
"Você salvou a minha vida" ela disse afetadamente ao segurar a mão dele. "Meu herói" debochou com a voz rouca e sotaque delicioso e inebriante.
"Pode apostar que sou" ele afirmou, prepotente e convencido.
Vampira achou que tinha controlado a convulsão de risadas, mas as palavras de Gambit a fizeram voltar com tudo. Ela dobrou o corpo para a frente, apoiando as mãos nos joelhos, tentando fazer a dor aguda na barriga ir embora. Então jogou a cabeça para trás e puxou o ar bem fundo pelo nariz e o soltou lentamente pela boca. Quando ergueu os olhos para Gambit, encontrou um sorriso largo no seu rosto enquanto os seus olhos a observavam intrigados. Sem pensar, ela espelhou o sorriso dele.
Lince-Negra veio correndo na direção deles. "Estão a fim de jogar basebol?"
A expressão de Gambit se transformou imediatamente, como se tivesse sido arrancado à força de um lugar confortável e seguro e trazido para uma realidade franca e dolorosa. Lembrou-se do propósito de sua missão, do porquê de estar ali. Havia garantido para si mesmo que não se entrosaria e muito menos criaria qualquer vínculo. Seu lugar não era com os X-Men.
Com um enorme sorriso fingido, Gambit respondeu: "Agradeço pelo convite, mas vou ter que dizer não, chérie. Tem coisas que preciso fazer. Vejo vocês depois" e se retirou, com as mãos nos bolsos e os ombros levemente caídos.
"O que deu nele?" Kitty perguntou, com uma expressão curiosa.
"Eu que vou saber" Vampira respondeu, levemente na defensiva. Notara que Gambit fugiu dos olhos dela. Por mais que tentasse ignorar, essa noção era como uma inescrutável comichão mental.
Naquela mesma noite, a pedido do Professor Xavier, todos se engajaram em um hábito que havia se perdido nas últimas semanas: sentaram-se todos à mesa para o jantar. A rotina na mansão consistia da seguinte forma: sextas e finais de semana, todos eram livres para comer o que quisessem; de segunda à quinta, os jovens se sentavam à mesa e comiam comida caseira e saudável, preparada por eles mesmo, em grupos alternados. A tradição quase se perdera com a ansiedade presente recentemente e esta seria a tentativa de Xavier de trazer normalidade ao clima denso. Assim, após o retorno dos recrutas e o início do ano letivo terem se estabilizado, o Professor achou por bem voltar a este hábito após duas semanas de negligência e um acúmulo colossal de caixas de pizza e deliveries de fast food. Mesmo sendo sexta-feira, um jantar em família seria o final perfeito para um dia tão sereno.
Vampira fez parte do primeiro grupo de cozinheiros, juntamente com Amara, Kurt e Hank. Prepararam massas, carne assada e três (obrigatórias) entradas de saladas. Os moradores da mansão se sentaram em torno da mesa, com surpreendente pontualidade, vestidos casualmente. O Professor se sentava no lugar do anfitrião com os demais mentores à sua esquerda e direita. Para os mais jovens não havia demarcação de lugar, portanto, sentavam-se por afinidade. Havia alguns poucos lugares vagos, incluindo um à direita do Professor, lugar que pertencia a Wolverine. Gambit também estava ausente.
"O Logan não vem?" Vampira perguntou a Ororo, discretamente, com a cadeira de Logan vazia entre elas.
A mulher fez que não com a cabeça. "Saiu em investigação novamente."
Vampira chacoalhou a cabeça, tentando ignorar a decepção. Sentia falta de conversar e de simplesmente estar na companhia de Logan. Estar ciente de que ele não a estava negligenciando intencionalmente não tornava mais fácil não se ressentir dele.
Kitty chegou e se sentou entre Vampira e Colossus. "O Gambit já está descendo" anunciou e então voltou a atenção para o grandalhão russo ao lado.
"Achei que ele não viria" comentou Jean, do outro lado da mesa. "Afinal, ele nunca se juntou a nós em nenhuma atividade."
"Mesmo os dias que ele ficaria aqui se tornando semanas" Scott ralhou, e Jean o repreendeu mentalmente. Aquele tipo de ironia não combinava com ele. Scott fez uma careta de contragosto, mas cessou a implicância. A presença de Gambit já não o incomodava tanto quanto antes, mas ainda não se sentia totalmente confortável sabendo que o Cajun andava à solta nos arredores da mansão, com acesso irrestrito. Achava esse excesso de confiança perigoso.
"Como o Gambit era?" Kitty perguntou a Colossus. "Quer dizer, enquanto vocês foram colegas de trabalho" ela completou, flexionando as duas últimas palavras de uma maneira incerta.
"Nós quase não conversávamos" ele respondeu, dizendo cada palavra com cuidado, com o sotaque russo pronunciado. Mesmo com o grupo de recrutas absorto nas próprias conversas, Piotr, que contrariando o seu tamanho era muito tímido, se sentiu acuado pelo pequeno grupo que prestava atenção à conversa. "Gambit sempre foi muito misterioso, cauteloso. Na verdade, não sei nada sobre ele ou sobre o passado dele."
"Ele foi coagido a trabalhar para o Magneto como você?" Kitty perguntou, com genuína curiosidade. Em silêncio, Scott chacoalhou a cabeça em desaprovação pela ingenuidade da garota. Desde o início, Kitty acreditava que Colossus e Gambit não eram maus para estar do lado dos vilões. Estava certa a respeito de Piotr que, como mais tarde se descobriu, havia sido forçado a se juntar a Magneto, que ameaçara sua família e garantira que ela pagaria o preço da sua desobediência.
Piotr levou alguns segundos para responder, tentando se lembrar se de fato havia algo a ser lembrado. Não havia nada. "Honestamente não sei. Mas é possível."
Kitty estava prestes a emendar mais uma pergunta quando Gambit chegou. "Falavam de mim?" ele perguntou em tom de deboche, que pareceu passar despercebido por Scott.
"Nem tudo gira em torno de você, Gambit" este provocou, porém seu tom era mais tendencioso que ofensivo.
"Sente-se aqui, Gambit" ofereceu Tempestade, cordialmente, puxando a cadeira vazia para ele, entre ela e Vampira.
Com todos presentes, puderam se servir. Assim, o foco da conversa dos adultos rapidamente se voltou para os recrutas.
"Os jantares são sempre essa agitação?" Gambit perguntou à Vampira em um cochicho.
"Não" ela respondeu ao se inclinar de leve na direção dele. Deixou sua resposta pairar no ar à guisa de suspense, até complementar. "Os recrutas estão comportados hoje. Você ainda é relativamente novo aqui. Quando se acostumarem totalmente com a sua presença, se prepare para todo tipo de pergunta inconveniente e exibicionismo."
Após o jantar, panelinhas se formaram e se espalharam por toda a mansão. Alguns jovens foram para a sala de estar para ver filme, outros para a sala de jogos, algumas das garotas subiram para os quartos e o grupo responsável por lavar e secar a louça arrastou os pés em direção à cozinha aos resmungos (juntaram-se aos demais quase uma hora mais tarde.)
Wolverine voltou apenas alguns minutos após o grupo da louça ter terminado a tarefa. Entrou furtivamente e se dirigiu para a cozinha onde fez um prato com as sobras do jantar e esquentou no micro-ondas. Comeu sozinho à mesa da cozinha, seu jantar acompanhado de duas garrafas de cerveja, que ele mantinha às escondidas, longe da curiosidade dos mais jovens. Deixando a cozinha, Wolverine seguiu pelo corredor que levava à sala de jogos quando ouviu o som agudo e estridente de risadinhas feminis.
"Faz o truque de novo" pediu Dinamite, que cercava Gambit juntamente com Amara e a tímida Rahne.
Gambit estava prestes a fazer mais uma carta desaparecer de suas mãos quando Wolverine interferiu impetuosamente.
"Ei, Gumbo" Wolverine chamou, alto demais, furioso demais. As garotas voltaram os rostos na direção do canadense, com os olhos arregalados de susto. Conheciam aquele tom e sabiam que significava encrenca. "Precisamos conversar. Só nós dois."
Dinamite abriu a boca para protestar, mas as outras duas garotas, sendo mais prudentes, a puxaram pelo braço para fora dali, por mais que parecessem igualmente decepcionadas.
Três passos largos mais tarde, Wolverine estava cara a cara com o Cajun, encarando-o ameaçadoramente. "O que pensa que está fazendo?" Logan compensava sua baixa estatura com todo o resto. Veias saltadas pulsavam nos seus músculos protuberantes, sua postura era de quem buscava briga, a expressão no seu rosto era bestial e descontrolada, e seus olhos emitiam raiva bestial. Estava claramente frustrado e doido para descontar essa frustração em Gambit. Wolverine estava claramente tão disposto a brigar que Gambit optou por parecer desinteressado, pois sabia que essa atitude deixaria o velhote ainda mais irado, mesmo que não quisesse de fato sair no braço com ele.
A fim de provocar e ao mesmo tempo se defender, um maço de cartas surgiu nas mãos de Gambit, que começou a embaralhá-las com movimentos rápidos e robóticos. Deu de ombros, sem dar atenção a Wolverine. "Elas gostam da minha companhia."
"É claro que gostam" Wolverine retrucou entredentes, derramando sua raiva em cada palavra proferida. "São ingênuas e inexperientes" ele pareceu crescer quando fez um movimento ofensivo na direção de Gambit, parando a poucos centímetros dele. "Conheço bem o seu tipo, Gambit. Sei o efeito que você causa em garotas como elas."
Gambit parou de embaralhar e as cartas sumiram. Seu rosto endureceu e escureceu. Trincou os dentes a ponto de sua mandíbula doer. Normalmente era capaz de se manter calmo em situações como aquela, mas Wolverine tinha um jeito de tirá-lo do sério. Ser acusado de algo de que era inocente o aborrecia mais do que gostaria de admitir.
Wolverine não havia terminado com suas ameaças. "Se eu descobrir que você tocou um fio de cabelo de qualquer uma dessas garotas, vou cortar você em pedacinhos, começando por uma parte que acredito que vai te fazer muita falta" havia sadismo prazeroso nas palavras dele, como se realmente estivesse ansioso para cumprir a promessa.
O corpo de Gambit se retesou quase imperceptivelmente à medida que fazia um esforço tremendo para se manter frio e não empurrar Wolverine para longe com um soco bem-servido. "Se você tocar em mim, Wolvie, vai acabar muito pior do que com um membro decepado" ele advertiu, falando tão a sério quanto o outro mutante. Não havia blefes em nenhum dos lados.
A discussão, contudo, foi interrompida por Vampira bem a tempo de impedir Wolverine de extrair suas garras. "A Ororo tá te procurando, Logan."
Wolverine pareceu, a contragosto, voltar à realidade ao ouvir a voz de Vampira. Seu corpo perdeu um pouco da tensão enquanto seu rosto aos poucos voltava do vermelho à cor natural. Lançou um último olhar de ameaça para Gambit, que significava que o rapaz estava avisado e que o que acontecesse depois seria por sua conta.
"Onde a 'Ro está?" Logan perguntou. Vampira deu de ombros, pois era mentira. Ele chacoalhou a cabeça. "Vamos, Stripes" acrescentou em tom autoritário, obviamente tentando levá-la para longe de Gambit.
"Já vou" ela respondeu e, mesmo contrariado, Wolverine se retirou após alguns longos segundos de hesitação. Vampira se perguntou se deveria ficar aliviada por ele ter ido tão facilmente ou se sentir magoada por ele não se esforçar mais para levá-la para longe da ameaça que ele via em Gambit.
A verdade era que Vampira havia saído à procura de Logan assim que soubera de sua chegada, a fim de conversar. Ao invés, encontrou-o ameaçando Gambit. Desconhecia o motivo, portanto não queria tomar lados. Contudo, mesmo sabendo que Gambit conseguia ser enervante, não duvidava que Logan poderia estar sendo injusto.
"O que aconteceu?" ela perguntou ao se aproximar de Gambit. Novamente ele relutou em olhar nos olhos dela. Mesmo durante o jantar, por estarem sentados lado a lado, foi fácil para ele puxar conversa casual sem ter de encará-la.
"Nada, não" ele respondeu. Ergueu os olhos para ela e tentou sorrir. "Acho que ele gosta de implicar comigo" perguntou-se se valia a pena continuar a aturar desaforos de Wolverine. A culpa era toda sua, ele pensou, pois estava novamente descumprindo a sua promessa e se esquecendo de seu propósito. Encarou Vampira, sabendo que ela sozinha era um motivo para perder o foco. As paredes se fecharam ao seu redor e ele percebeu que precisava sair dali o mais rápido possível, antes que perdesse a cabeça. Precisava se afastar de Vampira, mas cansou de mentir para si mesmo e admitiu que seria impossível. Havia compreensão silenciosa entre eles, como um laço forjado nas horas juntos em Nova Orleans, quando compartilharam trechos de seus passados e descobriram o quão semelhante eles eram. A atração sorrateira e invisível que os impulsionava em direção um do outro ficava cada vez mais difícil de ser ignorada. "Você quer dar o fora daqui?" ele perguntou, jogando seus questionamentos para o alto.
Vampira pareceu surpresa. "Pra onde?"
"Pra qualquer lugar" ele respondeu; a perspectiva de sair o animando.
Vampira balançou a cabeça afirmativamente; também precisava dar um tempo daquela mansão. Faltava menos de uma hora para o toque de recolher, contudo os dois tentariam sair à francesa – o que talvez não fosse tão difícil dada a comoção dos jovens. "Preciso trocar de roupa."
"Espero você na garagem."
Vampira voltou minutos mais tarde usando skinny jeans, botas e jaqueta. E luvas. Sempre luvas. Gambit também havia vestido uma jaqueta por cima da camiseta preta de antes. A garota afanou o capacete de Wolverine mais uma vez e pulou na moto de Gambit. Os dois saíram aparentemente despercebidos. Não tardaram a chegar a um bar quase fora da cidade. Vampira reconheceu o lugar, apesar de nunca ter estado ali, ouvira falar.
Perto da entrada já era possível ouvir a música alta e o burburinho característico de lugares como aquele. Vampira então notou um segurança parado perto da entrada e se repreendeu mentalmente por não ter trazido algum documento falso. Ainda assim, caminhou ao lado de Gambit em direção à entrada. Teve uma sensação de déjà-vu e não perdeu a chance de provocá-lo. Espichou-se e aproximou o rosto do ouvido dele. "Por acaso não vamos encontrar membros do Clã rival aqui, né?"
Gambit sorriu amarelo e retrucou: "Estamos um pouco longe de casa para isso" então passou o braço em torno da cintura dela e os dois passaram pelo segurança sem nem um impedimento. Ele a soltou uma vez lá dentro, mas a sensação fria e prazerosa que se formou na barriga dela não a deixaria pelos próximos minutos. Gambit se dirigiu ao balcão com Vampira ao seu lado.
"Gambit!" Vampira ouviu uma voz feminina animada e se voltou para a bartender atrás do balcão. "Há quanto tempo. Você desapareceu" a moça disse ao se inclinar sobre o balcão. Vampira tentou não olhar na direção dela, mas acabou a examinando de esguelha. Era uma garota magra e bonita, com cabelos castanhos longos e olhos grandes e escuros. Olhava interessada para Gambit e ignorava a sua presença. Era evidente que os dois haviam tido algum lance quando ele estava com os Acólitos.
Gambit lançou na direção da moça um sorriso de quem pedia desculpas. "Tive que dar uma passadinha em casa por um tempo."
"Voltou pra ficar?"
"Infelizmente não."
Os olhos escuros da garota caíram sobre Vampira com indiferença por apenas um instante. "Quando estiver sem companhia" disse a garota se voltando novamente para Gambit "podemos conversar. Para relembrar os velhos tempos."
"Quem sabe" ele respondeu evasivo e Vampira se perguntou se era por consideração a ela ou se não estava mais interessado na moça. Talvez só estivesse sendo educado. "Quer beber o quê?" ele perguntou para Vampira.
"Só uma cerveja" ela respondeu. Embebedar-se não seria uma boa ideia; tinha de pensar em quando retornasse à mansão.
Gambit pediu duas cervejas, que foram prontamente colocadas sobre o balcão, entregou uma a Vampira e se dirigiu para uma mesa de sinuca. "Que tal uma partida?"
"Tô dentro" ela aceitou, com empolgação, deitando a cerveja sobre a borda da mesa. Retirou a jaqueta – já havia ficado quente demais – e jogou para trás o cabelo ondulado. Mediu o peso dos tacos suspensos na parede e escolheu o mais apropriado.
Gambit levantou uma sobrancelha de interesse ao assisti-la. Deu um gole longo na bebida e também se despiu da jaqueta após retirar um maço de cigarro de um dos bolsos. Usou os dedos para acender a ponta do cigarro e sugou prazerosamente. "Faça as honras" ele disse, expelindo a fumaça, e a assistindo com curiosidade.
Vampira organizou a mesa, se posicionou e bateu com força e precisão, fazendo as bolas de espalharem rapidamente.
"Nada mal, chère" ele disse, segurando o cigarro entre os dedos da mão esquerda, enquanto a direita apanhava o taco. Posicionou-se com cuidado e bateu forte na bola branca, que atingiu certeira a bola um e a encaçapou. Ergueu os olhos para Vampira, com um sorriso cafajeste sobre os lábios dos quais pendia o cigarro. Acertou a segunda tacada, porém errou a terceira. Afastou-se da mesa para abrir espaço, recostou-se contra a parede, uma mão segurando o cigarro e a outra apoiada no taco.
Vampira deu um gole na cerveja e depositou a garrafa pela metade novamente sobre a mesa, que ela rondou até encontrar a melhor posição para bater. Inclinou o corpo sobre a mesa para alcançar a bola e se concentrou. Não notou como Gambit inclinou a cabeça com interesse, apreciando a visão da calça jeans justa dela. Vampira bateu com menos força desta vez. A bola branca ricocheteou no outro lado da mesa e voltou para acertar a bola três e encaçapá-la facilmente. A bola quatro bateu repetidas vezes na próxima jogada, mas também caiu, assim como as duas próximas. Vampira errou apenas na bola sete.
Àquela altura a surpresa de Gambit havia se tornado total interesse. "Onde você aprendeu a jogar assim?" havia acendido o segundo cigarro e pedido outra cerveja.
"O Wolverine me ensinou a jogar" ela respondeu, divertindo-se. Não tinha muitas oportunidades de jogar. Seu rosto estava levemente corado devido ao esforço e ao lugar fechado.
"Talento assim não é ensinado, é nato" Gambit disse ao dar um passo para mais perto dela; havia deixado o taco de lado e feito o segundo cigarro virar poeira na mão. Sua atenção estava voltada totalmente para ela.
Vampira deitou o taco sobre a mesa e ficou imóvel assim que Gambit invadiu o seu espaço de conforto ao se inclinar na direção dela. Ele havia trazido o rosto para tão perto do dela que qualquer movimento brusco faria seus lábios se tocarem.
Ela sentiu o cheiro – quase podia sentir o gosto na ponta da língua – do seu hálito, misturados à bebida e ao cigarro. Contudo, não a repelia; pelo contrário, era estranhamente convidativo. Parecia que tudo à sua volta, as sensações, os odores, o calor abafado, impulsionavam-na em direção ao desconhecido. Sentiu a cócega que o cabelo dele causou ao cair e roçar no seu rosto macio e intocado. Respirou fundo na colônia dele, que sobrepujava qualquer outro odor. A atração física que ela negava sentir por ele a envolveu e comprometeu o seu bom-senso, como se quisesse forçá-la a parar de refutar. Naquele momento, com os pensamentos turvos, ela não conseguia racionalizar, mal conseguia respirar.
Apenas mais tarde se questionaria sobre o porquê de ter se deixado levar de forma tão arrebatadora. Não estava sendo manipulada pelo charme dele, ela sabia, pois o havia sentido antes, e o que sentia agora era completamente diferente. Talvez fossem apenas os hormônios à flor da pele, ela pensou. Pois era como as coisas deveriam ser; ela deveria estar tendo experiências, desvelando a vida adulta e não sendo forçada a continuar casta e intocada. Não era justo, mas era a vida à qual ela havia por ora se resignado. Até ele aparecer e tornar tudo mais difícil para ela. E, contudo, não havia nada de errado naquela situação, apenas a impossibilidade de passar do limite que eles já haviam extrapolado.
A falta de controle que Vampira tinha em relação aos seus poderes a fazia compensar com uma concentração e autocontrole atípicos para a sua idade. Estar consciente de que um mero toque de sua pele poderia machucar era o incentivo derradeiro para imposto autocontrole. Ela precisava saber que pelo menos não tocar era escolha sua. Escolha da qual Gambit a extirpava ao chegar tão perto de se machucar. Ela não poderia deixar acontecer, mas parecia cada vez mais impossível resistir.
Os olhos interessados dele agora mostravam algo mais. Eram obscenos, lascivos. Foi preciso toda a sua força de vontade para não envolver o braço ao redor da cintura delgada dela para trazê-la para perto e lhe roubar um beijo. Seus olhos escuros percorreram todo o rosto dela até desceram para o pescoço de marfim, para o sutil decote na sua blusa, e para a projeção dos seus seios; subiram novamente para os lábios, vermelhos e entreabertos, e então para os olhos semicerrados e embriagados.
Gambit se surpreendeu por ter conseguido penetrar as barreiras dela tão facilmente, e deduziu, com uma satisfação inesperada, que a atração física era recíproca. Então hesitou ao notar que ela deixaria ser tocada justamente por ele, que já fora o inimigo, que inspirava desconfiança, que já a traíra no passado. Para abafar esses pensamentos, ele mentiu para si mesmo, tentou se convencer de que era um jogo e que a tinha na palma da mão. Recusava-se a admitir que, assim como ela, jazia despido à sua frente enquanto tudo fugia do controle.
Vampira sentiu que não teria forças para lutar. Era mentira. Ela não queria lutar. Viu-o umedecer os lábios e engolir em seco. Ela arfou com nervosismo e antecipação. Sabia que não poderia ser e ainda assim imaginava o que aconteceria se permitisse que os lábios dele tocassem os seus.
"Remy..." ela murmurou, como em uma súplica, a voz rouca e fraca. Era a primeira vez que o chamava pelo nome, e isso não passou despercebido por ele. Um gemido subiu pela garganta dela, fazendo uma onda de prazer percorrer o corpo dele, como se era tudo e apenas o que ele queria ouvir. Ela não objetou ao toque da mão dele, que havia escorregado da cintura para o início de sua coxa. Sentiu o calor da palma da mão dele e suas bochechas queimaram. A outra mão dele subiu para afastar fios de cabelo branco dos olhos dela. "Vai se machucar" ela conseguiu dizer, porém não havia convicção em sua voz, apenas a exposição fraca de um fato.
"Ã-hã" ele murmurou do fundo da garganta, a centímetros da boca dela. Estava ciente do que aconteceria, mas não conseguia lutar contra a atração que o impulsionava na direção dela. O cheiro adocicado do seu perfume o fazia desejar sentir o gosto da sua pele de porcelana.
Ela deitou a mão espalmada sobre o peito dele, que subia e descia lentamente. Nem mesmo ela sabia se o gesto seria para afastá-lo ou para sentir o seu calor. Mesmo com a barreira de sua camiseta, o toque proporcionou um choque prazeroso que reverberou pelo corpo dela, gelou sua barriga e desceu quente.
Em um momento elusivo de sobriedade, Gambit conseguiu sair do transe e afastar o rosto; contudo não deu nem um passo para trás tampouco retirou as mãos do corpo dela. Vampira levou vários instantes para perceber que nada acontecera, piscou várias vezes, parecendo não saber onde estava. Não conseguia decidir se o que sentia era alívio ou decepção.
Mesmo se sentindo anestesiado, Gambit percebeu que não poria tudo a perder por algo que não poderia ser. Indagou-se o que aconteceria se a tocasse e ela descobrisse os seus segredos. Talvez o odiasse. Não valeria a pena correr o risco. Em breve estaria longe e a imagem dela se dissiparia até se tornar uma lembrança frágil e embaçada pelo tempo de um desejo que não pôde ser consumado. Não havia nada além disso, ele tentou se convencer com veemência excessiva.
"De quem é a vez?" ela perguntou, após recobrar os sentidos e se desvencilhar dele. Seu rosto ardendo assim como o resto da sua pele.
"Minha, eu acho" ele respondeu, mas sua voz vacilou de uma forma que ela nunca tinha ouvido. Gambit apanhou o taco novamente, bateu sem cuidado e errou. Errou feio. "Acho que hoje não é o meu dia" disse, casualmente.
Perderam a concentração a tal ponto que abandonaram a partida inacabada. Voltaram para a mansão e deixaram a moto para fora do portão. Graças a Gambit ser silencioso como um felino, conseguiram entrar despercebidos.
"Boa noite, chère" ele disse antes de deixá-la sozinha na sacada do seu quarto.
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Glossário:
Peut-être – Talvez
