- Você não vai acreditar no que eu vi na sala do papai...
- Quem se importa? – respondeu Penny com grosseria. Ela e Ben estavam junto à pia da cozinha do chalé dos Clearwater e a garota tinha acabado de acenar com a varinha por cima do ombro: um pão e uma faca voaram com violência por cima da mesa e se espatifaram contra a parede, e Ben teve que se abaixar rapidamente a tempo de não ser atingido.
- Ei, também não precisa...
- Viu só o que você fez? – a garota exclamou irritada, guardando a varinha com raiva. – Olha, eu não quero saber, está legal? Seja lá o que for, não me interessa.
Ela deu as costas e saiu. A neve passava voando pela janela da cozinha; Penny parecia mais velha, muito séria e aborrecida. Gustavo tinha ido passar o Natal na casa da mãe dele, o que claramente demonstrava que ele estava evitando qualquer tipo de encontro com o sr. Clearwater. O rapaz só regressou ao chalé poucos dias depois do Ano-Novo, quando Ben agradeceu por se livrar dessa Penny rabugenta e aparatou juntamente com o seu pai rumo a Hogsmeade para voltar a Hogwarts.
Eles caminharam pesadamente pela estrada coberta de neve até avistarem os dois altos pilares que ladeavam os portões da escola, encimados por javalis alados. Passaram pela revista habitual do zelador Filch e entraram; o sr. Clearwater seguiu para a sua sala, enquanto Ben se dirigiu à Torre da Corvinal, subiu a escada em espiral e bateu na porta uma vez.
- O que veio primeiro, a fênix ou a chama? – falou a aldraba em forma de águia.
- Essa é fácil – disse Ben, confiante. – Foi a fênix.
- Não – respondeu ela.
- Está de brincadeira! Tudo bem, então foi a chama.
- Pense um pouco mais.
O garoto olhou bem para a águia, apertou os olhos e disse com raiva:
- Eu te odeio.
A porta se abriu. Kevin espiou para o lado de fora, mas, em vez de deixar o colega passar, foi ele quem saiu, fechando a porta por trás dele.
- Kevin, por que você fez isso? – Ben levou as mãos à cabeça, perplexo.
- Imaginei que você estivesse aqui – o garoto respondeu com simplicidade. – Quero te mostrar uma coisa que eu descobri na Sala Precisa.
- Tem que ser agora?
- A não ser que você tenha mais algo para fazer...
O garoto olhou pelas janelas do corredor; o sol já estava se pondo nos terrenos da escola cobertos por um alto tapete de neve.
- Está bem – ele disse, e os dois seguiram caminhando.
- Teve um bom Natal? – perguntou Kevin, parecendo preocupado. Embora tivesse permissão para circular nos corredores até às nove horas, o garoto não parava de olhar para os lados, nervoso, ao se dirigir ao sétimo andar.
- Nada mau. Acho que preferia ter ficado em Hogwarts, mas em todo caso... Bom, chegamos.
Tinham parado em frente a um trecho de parede lisa defronte à enorme tapeçaria que retratava a insensata tentativa de Barnabás, o Amalucado, ensinar balé aos trasgos. Kevin fechou os olhos e se concentrou; ele murmurou alguma coisa, os punhos fechados contra os lábios quando fixou o olhar em frente.
A porta da sala surgiu e eles entraram. A Sala Precisa estava iluminada com archotes bruxuleantes; as paredes estavam cobertas com cortinas e, em lugar de cadeiras, havia grandes almofadas de seda no chão.
- Nossos instrumentos não estão aqui hoje – observou Kevin.
- Sim, a sala muda conforme a necessidade. Era isso que você queria me mostrar?
Kevin suspirou; parecia apreensivo.
- Na verdade, eu... Por que raios eu não consegui ganhar a Felix Felicis? – resmungou, antes de tomar coragem para dizer: – Eu queria te perguntar se você pensou sobre aquilo que eu te falei...
Ben fez uma cara de desentendido.
- Me desculpe Kevin, não lembro...
- Sobre você voltar para Hogwarts no próximo ano letivo.
- Ah... achei que você estivesse brincando. Eu não poderia fazer isso; o meu pai me mataria se isso acontecesse, eu disse a ele que larguei o quadribol por causa dos N.I.E. M'S. A verdade é que foi por causa dos ensaios, mas o meu pai leva quadribol a sério. Então, se eu não quiser aturar ele aqui de novo no ano que vem, preciso ao menos ir bem nos exames.
- O Edu é oito meses mais velho do que você – contrapôs Kevin. – Eu sou oito meses mais novo do que você; oito meses e alguns dias. Por que você e o Edu podem ficar na mesma turma e nós dois não?
- Você fez as contas? – surpreendeu-se Ben. – Olha Kevin, eu sei que você está preocupado em ficar fora da banda no ano que vem. Mas não se preocupe, porque isso não vai acontecer. Pode terminar os seus estudos com tranquilidade; a sua vaga estará garantida quando você voltar.
O garoto inspirou pesaroso e virou a cabeça.
- Mas você precisava me trazer aqui para dizer isso? – indagou Ben. – Não podia ter falado lá no salão comunal?
Kevin respirou fundo, correu os olhos pela sala pensativo e sentou-se na almofada mais próxima.
- Gosto de conversar com você – ele disse. – Às vezes acho que as pessoas me tratam como se eu fosse um zero à esquerda; ninguém nunca se lembra de mim, para nada. Mas você não. Você se importa comigo, nunca ridiculariza as coisas que eu falo.
Ben se sentou numa das almofadas à sua frente, pegou outra almofada e a colocou sobre o colo.
- Somos uma equipe agora, não é? – disse ele. – É o mínimo que podemos fazer uns pelos outros.
- E o que você está pensando em fazer no verão? – prosseguiu Kevin. – Você disse que não pretende voltar para a casa do seu pai.
- Ainda não sei. Preciso saber o que vai acontecer com a banda primeiro. Talvez eu encontre algum lugar para morar; talvez eu vá dividir um quarto, sei lá, com a Alexia...
- Espera aí, o quê? – surtou Kevin. – Você está mesmo saindo com a Alexia? Com a Alexia?
- Estamos só nos conhecendo...
Kevin apertou os olhos, sacudiu a cabeça e olhou para o colega, parecendo totalmente aborrecido.
- Essa foi a coisa mais idiota que eu já ouvi. Vocês se conhecem desde os onze anos!
- Eu sabia que não devia ter contado – resmungou Ben. – Foi só uma ideia que me passou pela cabeça... qual o problema? Todo o mundo namora em Hogwarts.
- Você não enxerga nada com esses seus olhos! Não viu que ela estava se insinuando para o McLaggen lá na festa do Slughorn?
- Ela só estava dançando – disse Ben com displicência. – Interagir com convidados era parte da apresentação.
- Mas você e a Alexia não estavam só fingindo que estavam a fim um do outro? – contestou Kevin, parecendo contrariado. – Não era para ser só na frente do Rogério, e depois da Lilá? O que foi que deu em você?
- Não foi você quem disse que não queria perder o contato com o pessoal da banda?
- Mas eu não quis dizer que era para você namorar a minha irmã! Você sabe que ela não presta!
- Desculpa aí, não sabia que você era do tipo irmão ciumento – disse Ben, recolhendo mais uma almofada no chão e colocando-a sobre o colo. – Eu te entendo; já fui desses. E olha, não vale a pena. Por que a gente não marca de sair todos juntos? De repente você podia levar alguém, sei lá, tipo um encontro duplo...
Kevin corou um pouco, mas não parecia envergonhado quando tornou a falar com o colega:
- Eu não acredito que você está me dizendo isso.
- Por quê?
- Você sabe por quê.
- Não, não sei – defendeu-se Ben. – Aliás, eu sei – ele lembrou subitamente; Kevin o olhou, esperançoso. – Você me disse. Lá no trem, quando estávamos vindo para cá em setembro. Você podia chamar essa garota de quem está a fim! Seria uma ótima chance para...
- Não! – exclamou Kevin, revoltado. – Não posso!
- Por quê?
Os dois garotos tinham se levantado. Kevin fez uma pausa e, quando falou, a sua voz saiu levemente sufocada:
- Porque eu gosto de você! Eu sou apaixonado por você, já tentei dizer isso um milhão de vezes, mas você é tão burro! Você é igual a mim...
Ben precisou remoer a informação alguns segundos antes de responder.
- Kevin, somos garotos...
- Eu sei! – Kevin bateu o pé no chão; seus olhos estavam ligeiramente marejados agora. – Por causa disso tenho lutado contra os meus sentimentos todos os dias... Você acha que eu não estou com medo? Eu estou morrendo de medo! Medo de como vão me julgar, medo de como a minha família vai reagir... Mas tenho mais medo ainda de não poder ficar com a pessoa mais incrível que eu já conheci na vida só porque nenhum de nós dois é uma garota...
Ele olhou Ben diretamente nos olhos.
- Eu não escolhi isso, Ben. Aconteceu. Foi isso o que eu descobri aqui na Sala Precisa, quando começamos a ensaiar para tocar no Baile de Inverno. Eu me lembro como se fosse ontem de nós dois estarmos aqui juntos, e a sua mão encostou na minha de leve...
- Kevin, foi sem querer, eu nem me lembrava disso!
- Mas eu senti um toque diferente... Senti uma coisa dentro de mim que eu jamais tinha sentido com qualquer outra pessoa – ele tornou a tomar fôlego. – Ben, eu amo você. Você é a pessoa mais especial para mim e eu não quero te perder, estou aqui abrindo o meu coração. Estou revelando o meu segredo mais profundo, você não imagina o quanto está sendo difícil para mim.
- Kevin – disse Ben num tom que ele desejava que fosse educado e calmo –, isso o que você está me pedindo é uma coisa muito grande...
- Eu precisava dizer isso – uma lágrima escorreu dos olhos de Kevin sem ele querer e ele a enxugou com a mão. – Desculpe, mas é exatamente como eu me sinto.
Por um momento fez-se silêncio. Em seguida, Ben olhou para o colega e falou:
- Sinto muito. É mais do que eu posso oferecer.
Ele abaixou a cabeça e deu as costas, o coração partido ao ouvir os soluços de Kevin ao deixar a Sala Precisa.
