Título: Founding Fathers
Autora: Rebeca Maria
Categoria: pós season finale 4ª temporada
Advertências: Futuro smut, Angst.
Classificação: M/MA - Nc17
Capítulos: Este é o sétimo
Completa: Não
Sinopse: "As pessoas esquecem e tem a chance de recomeçar, mas fazem tudo igual, as mesmas escolhas, se apaixonam pelas mesmas pessoas."


PARTE UM: SLEEPLESS

Founding Fathers

Capítulo 07

Caffeine
T. Brennan & S. Booth
Angst / Romance

Smut

CAFFEINE


"They give you a garbage bag to carry all of your stuff like they're telling you everything you own is garbage and then you have to go to a new school in clothes that smell like garbage bags. All the regular kids know you're a foster kid. They bounce you from place to place and it's never home."


Seus olhos ardiam por conta da falta de sono durante a noite. Insônia. Mas isso era pouco para ela desistir do que estava fazendo. Afinal de contas, ficar ali, no limbo, mostrava-se até eficaz em fazê-la não pensar.

Os ossos, quando limpos, costumavam não ter cheiro. O limbo não tinha cheiro. Não costumava ter. Mas aquele maldito cheiro que a seguia, e a impedia de esquecer o que havia visto, estava lá no meio do limbo dessa vez. No meio dos ossos. Impregnado nela. Impregnado no café que ela tomava. Aquele era o que? O quinto copo de expresso que ela tomava desde as cinco da manhã? E ainda não eram nem sete. Talvez fosse o sexto.

Ela olhou para as mesas de ferro à sua frente. Todas estavam cheias de ossos espalhados e, numa delas, uma pilha de caixas empilhadas. Há muito tempo ela não trabalhava no limbo, e mesmo quando trabalhava, ela não se lembrava de ter feito tantas verificações de restos mortais e dado tantos nomes a soldados e pessoas mortas há tantos anos. De certo forma isso a deixava menos transtornada, saber que ainda podia fazer seu trabalho era importante.

O celular tocou em seu bolso. Ela olhou. Era a primeira chamada de Booth pela manhã, quando ele oferecia carona para ela até o Jeffersonian.

"Eu vou chegar mais tarde hoje, Booth. Preciso passar em um lugar antes." – ela falou, sem esforço algum em mentir, e percebeu que quando ela realmente queria, ela podia mentir divinamente bem.

Ele não insistiu no assunto e ela desligou o telefone. Continuou inclinada sobre a mesa, fazendo a identificação do que seria o sétimo soldado de guerra apenas naquele começo de manhã. Cerca de duas horas depois Booth apareceu nas escadas que davam no Limbo. Ele trazia dois copos de café na mão, e ela imediatamente jogou fora os copos acumulados sobre a mesa de análises.

"Obrigada." – foi o que ela disse, aceitando o copo com um sorriso quase forçado.

Booth observou-a enquanto tomava o café e examinava os ossos. Ela parecia elétrica demais aquela manhã.

"Não me olhe assim, Booth." – ele sorriu e aproximou-se, até seus lábios estarem bem próximos ao ouvido dela.

"Eu não vou forçar, Brenn."

Ela virou a cabeça para olhá-lo e percebeu que seus lábios estavam apenas a milímetros dos dele, e Booth ainda a olhava fixamente. Brennan poderia inclinar-se e beijá-lo. Ela podia deixar-se perder um pouquinho só, e quem sabe o cheiro fosse embora. Quem sabe as lembranças também iriam. Ela poderia esperar que ele se inclinasse e a beijasse. Mas ela optou pelo mais fácil, pelo mais lógico, pelo mais cômodo. E apenas virou a cabeça e se afastou.

"Eu..."

"...precisa trabalhar e identificar soldados. Entendi." – ele acenou e subiu as escadas sem falar mais nada.

Intimamente ela sabia que ele estava preocupado e que queria que ela conversasse com ele e falasse coisas. E, da mesma forma, ela também queria conversar e falar coisas para ele. Apenas não agora. Não nesse momento. Ela piscou, voltando a olhar para os ossos à sua frente.

Edward Johnson.

23 anos.

2ª Guerra Mundial.

E com este já eram oito soldados. Ela amassou o copo de café vazio nas mãos e jogou fora. E era o sétimo copo de café.

x.x.x

"Você realmente não lembrou de nada, Booth?" – Angela perguntou para um Booth visivelmente distraído em sua sala – "Booth?"

"Uhm... oi Angela. Desculpe, eu não estava prestando atenção. O que você perguntou mesmo?"

"Se você não tinha lembrado de nada."

"Especificamente, não. Mas alguns momentos são como... como se eu já tivesse vivido antes, mas não na realidade alternativa que eu criei, de outra forma, como um..."

"Deja vu."

"É como chamam isso, não é?"

"Quando você sente que já passou por aquela situação, sim. Não é muito comum um verdadeiro deja vu, mas eles existem de formas mais brandas."

"Você sabe quem é Patrick Goyle, Angela?" – Angela pareceu pensar por um minuto, antes de olhar assustada para Booth.

"Como você sabe esse nome, Booth?"

Booth pareceu ponderar um pouco. Desde que Brennan tinha lhe dito quem era o assassino que estavam procurando, ele falara para Harry Hanson e procurara pelo homem no banco de dados do FBI. A busca retornara com poucos resultados, nenhum relevante para o caso.

Patrick Goyle tinha 33 anos, solteiro, sem filhos, sem ficha criminal e mesmo sem qualquer antecedente que o tornasse ao menos suspeito dos crimes. Para qualquer efeito, e para os olhos do FBI, Patrick Goyle era um cidadão normal e honesto dos EUA.

O instinto de Booth dizia que Patrick Goyle merecia uma investigação mais profunda e apurada, e que talvez ele não fosse quem dizia ser. O Agente Hanson, que estava no comando da operação, dizia que ele não merecia qualquer preocupação e que eles deviam se focar em algo que realmente significasse alguma coisa para a investigação.

"Brenn passou três dias no hospital, Angela. Durante a noite ela repetia esse nome. Depois que ela acordou, apenas me falou que quem o FBI procurava para culpar dos assassinatos seriais e do seqüestro dela era Patrick Goyle." – Booth suspirou e olhou para o lado de fora da sala, na esperança de ver Brennan trabalhando na plataforma, mas ela continuava no limbo – "O FBI diz que o cara não é importante e está perfeitamente dentro da lei. Ele não é perigoso, eles disseram. E eu acho isso besteira. Meu instinto diz que eles estão errados, mas não há nenhuma conexão, nada que o torne perigoso. E a Brenn não fala comigo. Ela... eu não sei o que aconteceu com ela durante os três dias que ela esteve sabe-se lá Deus onde, vendo e passando por sabe-se lá o que. Ela não conversa comigo, Angela. E eu não a culpo. No final das contas ela está certa, eu não sei quem ela é." – ele terminou com um profundo suspiro.

Angela largou a prancheta que tinha na mão e andou até ele. Ficou em silêncio por vários minutos, observando as reações dele, antes de começar a falar o que ela tinha que falar. Não era fácil para ela falar, e certamente não seria fácil para ele ouvir. E para ser bem sincera, ela nem sabia se tinha o direito de falar aquilo para ele, porque a história não era dela, era de Brennan, e quem deveria contar para ele, era ela.

"Eu acho que você está errado, e ela também está errada." – Booth olhou-a curioso e expectante – "Você conhece a Brenn, Booth, melhor do que qualquer pessoa em todo esse mundo. Você só precisa se esforçar um pouquinho mais para se lembrar disso." – ele sorriu ligeiramente – "Quanto a Patrick Goyle, é uma história antiga que Brennan vem tentando esquecer há muito tempo. Mas você deve saber como essas coisas acontecem, o passado te persegue, não importa para onde você vá, a parte do seu passado que te marcou e te deu cicatrizes e medos sempre vai te perseguir."

"Ange..." – ela ergueu a mão, impedindo-o de continuar falando.

"Patrick Goyle é o irmão adotivo da Brenn, Booth." – ele franziu o cenho – "O primeiro casal que adotou a Brenn, na época em que, bom, você sabe, quer dizer, você deve ter lido novamente os papéis dela."

"Eu sei, Angela, apenas... prossiga."

"Eles tinham esse filho, Patrick, da idade da Brenn. E eles não eram o melhor casal de pais adotivos do mundo. E como qualquer casal com um filho biológico e um adotivo, a tendência é sempre privilegiar o filho biológico. Não era diferente com a Brenn e o Patrick. Mas as diferenças iam mais além disso, porque eles humilhavam a Brenn para mostrar que estavam fazendo um favor para ela por darem casa e comida, entende? A mãe era mais submissa, o pai era autoritário e certa vez tentou abusar da Brenn de outra maneira." – Angela viu Booth fechar o punho e colocou a mão sobre a mão dele, numa tentativa de acalmá-lo – "Até onde eu sei, o pai não fez nada, mas Patrick sim. Eu não sei de que maneira, isso você vai ter que perguntar para ela." – Booth ameaçou se levantar – "Booth, não vai adiantar você sair daqui desse jeito e explodir. Eu posso terminar? Tudo isso começou depois da Brenn quebrar um prato enquanto lavava a louça." – Booth piscou algumas vezes.

"Eles a prenderam no porta-malas de um carro por dois dias." – ele sussurrou, quase sem perceber.

"Viu como você sabe quem ela é? Isso é um detalhe da vida dela que ela deve ter te contado. O fato é que a Brenn não suportou a situação por muito tempo e denunciou a família para a polícia. O pai assumiu a culpa toda, para não deixar o filho ir para a cadeia, e Patrick falou para a Brenn, antes de ela voltar para o sistema, que se vingaria por ela ter mandado o pai dele para a cadeia. Você percebe como esse coisa todo afeta ela, Booth? Como tudo isso explica o fato de ela estar do jeito que está agora? E ela não está assim por causa dela, ela está assim por causa das outras, das mulheres e crianças que foram envolvidas nesse pesadelo. E ela se sente culpada por conta disso, e ela não sabe lidar com todo esse fardo. E é por isso que você precisa forçar a barra com ela algumas vezes, porque as vezes ela não entende o que precisa fazer, ou não entende a situação em si. Em algumas situações, Booth, a Brenn é só uma criança, e você precisa apanhá-la pelo braço e fazê-la sentar na sua frente para que você explique o mundo para ela."

Quando Angela parou de falar e Booth se deu conta, havia uma lágrima escorrendo pelo rosto dele, e várias pelo rosto dela. É claro que não seria fácil. Nada era fácil. Booth sabia disso e Angela também. E saber desse fato da vida de Brennan só tornava tudo ainda mais difícil.

"Eles dão um saco de lixo para botarem as coisas dentro, como se dissessem que tudo o que eles têm é lixo." – Booth começou, sussurrando mais para si mesmo do que para Angela ouvir – "Vão para uma nova escola e todo mundo sabe que eles são adotivos. O sistema joga as crianças de casa em casa sem se preocupar, e a casa nunca é um lar." – ele suspirou profundamente, como se entendesse algo ainda mais profundo do que o que Angela acabara de compartilhar com ele, e então olhou para ela, que o olhava atenciosamente.

"Neste momento, Booth, você não é o Booth que ama a Brennan e quer conquistá-la e fazê-la ver que você é o homem da vida dela e que vocês podem transformar a sua realidade alternativa na vida de vocês. Neste momento você precisa ser o adulto que vai confrontá-la e explicar as coisas do mundo para ela. Você entende isso?"

Ele entendia.

x.x.x

Do alto da escada ele podia vê-la curvada sobre uma mesa de metal, encarando um monte de ossos com tanta atenção e admiração que ele se lembrava dela olhando daquela forma para ele. Em sua realidade alternativa. E apenas o pensamento o fazia tremer.

"Seja o adulto, Booth." – ele repetiu para si mesmo.

Antes de descer até ela, ele reparou em como ela estava inquieta. Em como a mão dela tremia e ela andava de um lado para o outro com um osso na mão, e voltava logo em seguida para pegar um osso diferente, e como constantemente ela apanhava o copo de café da mesa e tomava um gole.

Sem fazer muito barulho ele desceu até ela e, antes de falar com ela, foi até a mesa onde estava o copo de café, apanhou-o e tomou-o de uma vez só, descartando o copo no lixo logo em seguida. Ela parou o que estava fazendo e olhou-o com um brilho estranho no olhar. Ela estava eufórica e cheia de cafeína no corpo.

"Este era o meu café." – ela disse

Ele não falou nada, apenas andou e parou bem na frente dela, com os corpos separados apenas por poucos milímetros. Ele olhou-a atentamente.

"Você deve ter tomado o que? Seis copos de café hoje?" – ela abriu a boca – "Não responda. Você está tremendo, Brenn. Você está hiperativa, suas pupilas estão enormes. Você está desatenta, e mal consegue permanecer no mesmo lugar, olhando para o mesmo osso, por muito tempo. E eu quase posso ouvir seu coração acelerado daqui."

"Eu também não consigo parar de sentir um maldito cheiro que me persegue aonde eu vá, Booth. Então, me desculpe se eu estou tentando me focar em outra coisa que não..."

"Que não nos últimos dias?" – ele interrompeu-a – "Os dias em que você estava presa com um assassino e que você se recusa a falar sobre? E você tenta abafar isso com hora extra de trabalho e um monte de café? Você ao menos se lembrou de comer hoje, Brenn?" – agora que ele tinha falado dessa forma, ela tinha esquecido de comer – "Você está tentando se matar, é isso? Porque se for, é vergonhoso da sua parte."

"Eu quero esquecer, ok? Eu quero seguir com a minha vida, fazer o meu trabalho. Eu já disse quem é o assassino. Vão lá, peguem-no. Prendam-no. É o trabalho de vocês, não o meu."

"Você está desistindo?"

"É como você quer chamar?"

"É o que parece."

"Que seja, então."

Ela jogou o osso que segurava em cima da mesa de metal, fazendo um barulho agudo e alto, e então foi para uma mesa mais longe de Booth. Ele apressou-se em alcançá-la e, quando conseguiu, apanhou-a pelo braço e começou a puxá-la para fora do Limbo. Quando percebeu a intenção dele, ela puxou na direção contrária, tentando soltar-se da mão dele.

"O que diabos você está fazendo, Booth?" – ela puxou para um lado e ele puxou para o outro, com certa força, conseguindo que ela desse alguns passos na direção que ele queria que ela fosse – "Me solta."

"Não." – ele puxou novamente e quando ela puxou de volta, ele virou-se e bateu contra ela, no mesmo instante envolvendo-a com os braços.

Booth segurou-a com força em seus braços, enquanto ela ainda tentava se soltar. Por alguns segundos ela tentou se livrar dele, e ele apertou-a ainda mais em seus braços, e aos poucos foi desistindo, até ficar imóvel no abraço dele.

"Me solta, Booth." – ela pediu mais uma vez, sem se mexer.

"Não." – ele falou convicto e apertou-a mais contra si – "Você está tremendo, Brenn. E você não vai conseguir parar de tremer até se acalmar e se livrar de toda essa cafeína. Isso não vai te ajudar. Desistir não vai te ajudar."

Ela não falou nada, apenas permaneceu imóvel nos braços dele e suspirou profundamente. E foi nesse momento que ela percebeu que, pela primeira vez desde que saíra do hospital, que não sentia aquele maldito cheiro. O que ela sentia era o cheiro de... ela respirou profundamente de novo. Cheiro de Seeley Booth. Com um movimento calmo e lento, ela deixou que sua cabeça caísse no ombro de Booth e seu nariz se afundasse no pescoço dele.

Booth sentiu a respiração pesada de Brennan em seu pescoço e todo o seu corpo reagiu a isso. A reação mais evidente, e provavelmente a que buscava ainda manter um certo controle sobre o seu próprio corpo, foi o aperto dos braços dele em volta do corpo dela.

"O que você está fazendo, Booth?" – ela perguntou, numa voz quieta, embora meio trêmula.

"Tentando te explicar o mundo."

"Ok."

Eles ficaram naquela posição por alguns minutos. Em silêncio e quietos, enquanto Brennan ainda respirava profundamente próximo ao pescoço de Booth e ele passara a deixar seus dedos passearem gentilmente nas costas e do cabelo dela. Quando ele tentou desapertá-la do abraço e se mover, ela segurou-o pela lapela, mantendo-o no lugar.

"Nós podemos ficar assim um pouco?" – ela pediu e ele deixou que seus lábios dessem um beijo no alto da cabeça dela antes de responder.

"O quanto você quiser, meu bem."

Fim do Sétimo Capítulo