- 13.464, 12.465, 12.466... - "Se eu conseguir fazer 12.500 flexões apoiados sobre um único polegar, vou percorrer a vila inteira pulando sobre uma única perna.!
O jovem de estilo próprio parecia bem próximo de seu objetivo até que...
- Leeeeeeeeeeeeeeeeeeee! Você está aí Leeeeeeeeeeee?
A chegada abrupta de TenTen interrompeu a concentração de Lee...
- 12.478... 12... – Não pôde completar, Tentes já tinha esbarrado nele ao passar pela porta e o desequilíbrio foi inevitável – Isso! Não vou desistir, estou no frescor da juventude!
TenTen ainda não estava acostumada com aquilo, embora fossem 7 os anos que convivia com Rock Lee no mesmo time, ou como Gai-sensei o chama "A fera verde de Konoha".
- Veio para treinar comigo, TenTen? – Os de Lee brilhavam, poucos shinobis davam-lhe o prazer de um combate, seu estilo de luta era agressivo e Lee nunca diferenciava "treino" de um "combate real".
- Não Lee, fica prá depois... hoje eu já ajudei o Neji e estou bastante cansada – Percebendo o desapontamento de Lee, resolveu falar logo o motivo da visita – Lee, acho que tenho uma boa notícia prá você!
Os olhos de Lee brilharam novamente:
- Já chegaram os novos uniformes que eu encomendei? Que bom! Esses aqui já estavam perdendo a elasticidade e o Gai-sensei tinha me chamado a atenção... vou lá buscar agora, bom que eu já começo a fazer meu novo treino pelo caminho... tem certeza que não quer vir, TenTen?
- Lee, me deixe falar, sim? Não chegou coisa alguma prá você... o que eu vim te dizer é uma coisa que acredito ser muito importante prá você!
Rock Lee sentou-se apoiado sobre as pernas, TenTen imitou-o.
- Então por favor, estou ouvindo!
Tenten sorriu. Não estava ali para dar falsas esperanças ao amigo, mas sentiu no fundo de seu coração que aquilo poderia dar certo.
- Bem, como você sabe, sou a nova encarregada da Biblioteca de Konoha. É meio chato, mas enquanto o Neji não sair dessa licença indefinida para cuidas dos assuntos dos Hyuuga, nosso time estará desfalcado em dois integrantes.
- Isso porque o Gai-sensei está com uma nova turma de genins... TenTen... será que ele vai encontrar um aluno tão bom que... – lágrimas descendo pelo rosto – vai gostar mais dele que de mim? – uma determinação ardeu como fogo nos olhos de Lee – Não, eu não vou deixar isso acontecer! Farei o Gai-sensei ter muito orgulho de mim e... – o soco de TenTen interrompeu o raciocínio de Lee – "Ainda bem que ela não tem a força da Sakura-chan..."
- Me deixa falar, caramba! Se me interromper novamente, não vou te contar mais nada.
- Não precisava bater, né?
- Bem... há alguns meses que a Quinta tem ido lá com mais frequência. Geralmente ela pede que os livros sejam levados até ela, mas do nada ela passou a aparecer todos os dias, sempre no final do expediente... então eu vou embora e ela continua lá... no outro dia quando eu chego prá trabalhar, ela ainda está lá! Entende?
- Ah, provavelmente está estudando alguma situação da Vila... a biblioteca é um lugar bem calmo...
- Não foi uma pergunta que precisava de resposta Lee. Da próxima vez, não falo mais – Ele calou-se – quando ela vai embora, deixa a maior bagunça na mesa e vem me pedir para arrumar. Então eu pude ver o que tem deixado a Hokage noites e noites sem dormir direito... ela está pesquisando uma cura.
- Mas o que... – Diante do olhar ameaçador da amiga, Lee achou seguro não concluir o pensamento.
- Muito bem. Agora eu vou te fazer uma pergunta... e essa sim você vai responder. Qual a sua maior frustração?
Lee pensou durante um bom tempo sobre o que responder e depois calculando o tempo de reação para escapar da fúria de TenTen, caso estivesse errado.
- Ahn... acho que é nunca ter me declarado de verdade para a Sakura-chan...
Mas ele calculou errado, o soco veio bem mais forte dessa vez.
- Idiota! Não estou falando disso... tô falando da sua vida como shinobi!
- TenTen... eu sou muito grato ao que tenho e por poder ser um shinobi... e ser reconhecido como um por todos.
TenTen deu uma risada de deboche:
- Mesmo condenado a ser um Chuunin pro resto da vida?
Aquilo doía em Lee, mas ele nunca deixava transparecer.
- E por que isso agora?
- Ah Lee... você é um excelente shinobi... mas por não poder usar genjutsu ou ninjutsu sofreu e sofre muitos preconceitos.
- Você sabe que nunca me importei com isso – Lee abaixou a cabeça, como se estivesse lembrando a época do exame de graduação na academia, onde foi necessária uma intervenção do Hokage para alterar o teste especialmente prara ele. Lee não suportava esse tipo de coisa, tornava-o inferior. Jurou a si mesmo que jamais deixaria outras pessoas, mesmo que com boa intenção, burlar qualquer tipo de regra para que ele fosse beneficiado.
- Tá bom Lee... mas você nunca vai virar jounin. Você não tem como desenvolver qualquer elemento... não controla chakra, não faz nenhum tipo de ninjutsu ou genjutsu. Mas o que eu vi na mesa da Hokage na biblioteca, pode mudar isso!
As sombrancelhas grossas de Lee apontaram duvidosas em seu rosto. Do que TenTen estaria falando?
- Eu gostaria que você fosse mais direta, por favor.
- Lee... a Quinta desde que te conheceu tem pesquisado sobre uma cura.
- Uma cura... para que?
TenTen sorria, porque sabia que ele ficaria empolgado!
- Você tem as linhas de chakra... mas
seus tenketsus são bloqueados. Isso sempre foi um mistério,
o normal é a pessoa não nascer com a manifestação
do chakra. Mas você tem e não consegue usá-lo.
Isso porque seus tenketsus estão fechados. O Byakugan permite
ver os tenketsus que estão com chakra ativo, circuulando entre
as linhas de chakra.
- Se houvesse uma possibilidade de
identificar onde eles estão, você teria seu chakra
fluindo por todo seu corpo... e poderia... poderia... Bem... o que
aconteceu com a Hinata... foi o inverso do que aconteceu com você.
Ela tem os tenketsus ativos, mas perdeu as linhas de chakra em alguns
lugares.
- Isso só quer dizer que os nossos problemas se completam, não?
- Sim e não... se os problemas se completam... as respostas também! E é nisso que a Quinta está debruçada há quase dois meses.. e ela está muito perto de conseguir a resposta, Lee! Ela me pediu prá te chamar aqui... ela quer fazer alguns exames em você!
TenTen esperava um surto de euforia de Lee, mas não foi o que aconteceu.
- Desculpe TenTen... você vai ter que dizer à Quinta que eu não poderei ir.
Sem entender a atitude dele, TenTen já demonstrava sinais de raiva.
- Mas ora, por que não? Não é o que você sempre quis?
Lee voltou a ficar na mesma posição que estava quando TenTen chegou, apoiado sobre os polegares.
- 1...2...3...4...
- Lee, estou falando com você!
- TenTen, eu já aprendi a viver com o que tenho... 5... 6... 7... 8...
- Chegamos.
O lugar estava abandonado há anos. Os Uchiha não tinham qualquer tipo de atividade ou reunião ali há um grande e indeterminado tempo. Descobrir a localização daquela sala rendeu à Neji dias afastado de qualquer atividade no clã ou na Vila. Mas aquilo tornou-se sua prioridade desde que seu tio Hiashi informou-lhe da decisão que colocou a vida de Hinata nas mãos de Uchiha Sasuke.
Neji não se importava com a união de Sasuke e Hinata, mas não porque Hinata desgostava de Sasuke, ou porque Sasuke também não nutria qualquer tipo de sentimento por ela. O que incomodava Neji era o fato do desespero de seu tio ter colocado os segredos da família, até então tão bem guardados, nas mãos um desconhecido. E um traidor da pior espécie. Sasuke não possuía qualquer laço que fosse relevante na Folha. As únicas pessoas mais próximas foram afetadas pelo seu ato de egoísmo, o que fazia Sasuke ser temido. Um homem sem ligações não merece ser levado à sério, ou seria exatamente o contrário? Afinal de contas, sem nada a ganhar, não teria nada a perder, da mesma maneira.
E era isso
que vinha desviando os pensamentos sempre
concentrados de
Neji.
Os Hyuuga naquele momento representavam o clã mais influente de Konoha. E eram temidos em todas as vilas. O segredo do Byakugan era mantido dentro de Konoha. Se alguém se ligava por união a qualquer um que não fosse um Hyuuga, este era automaticamente incorporado à família, se fosse aprovado. O dojutsu misterioso jamais saiu de Konoha, muito menos da família... e a fragilidade de Hiashi-sama estava fazendo uma tradição bem sucedida ser interrompida. Hinata deixaria de ser uma Hyuuga, pior: os filhos dessa união poderiam representar um perigo imediato ao clã. Com que habilidades nasceriam? Seriam mais fortes? Certamente teriam tantos mistérios... mas todos ocultos para os Hyuuga.
Sasuke jamais deixaria
Hinata trazer aquelas respostas. E Hinata... incomodava também
a perda da visão e o quanto ela estaria sem proteção
a partir do momento em que fosse esposa de Uchiha Sasuke. Sua missão
de protegê-la era maior que seu amor pela Vila. Desde que soube
a verdade sobre a morte de seu pai, Neji jurou que usaria todas as
suas forças para manter as demonstrações de
coragem de seu pai.
E sua missão era sua vida. Em poucos
dias, perderia um pedaço dela.
- Neji, é melhor nos apressarmos.
Chamar ajuda não estava nos planos dele. Mas foi necessário. Quando encontrou o esconderijo Uchiha um obstáculo colocou-se entre ele e algumas verdades que precisava descobrir. E esse obstáculo somente poderia ser ultrapassado por três pessoas, duas delas de acesso praticamente impossível, ao menos voluntariamente. Coube a Kakashi o privilégio de ser a chave de entrada para o esconderijo mais bem protegido que Neji pôde encontrar em sua vida.
Mas grandes fechaduras guardam grandes tesouros. E Neji apostava sua vida que as explicações que precisava, encontravam-se atrás daquela porta.
A estátua de Uchiha Madara, assim como no Vale do Fim, guardava a entrada. Neji tinha dúvidas quanto a necessidade de dois sharingans, já que o sensei de Sasuke possuía apenas o esquerdo. Kakashi levantou a bandana, ativando o sharingan em seguida. A intensidade do vermelho sempre fez Neji lembra-se de uma mancha de sangue, como se aqueles olhos fossem destinados a matar. Kakashi posicionou os olhos frente à estátua, mas nada aconteceu. Ele permaneceu naquela posição por alguns instantes, mas desistiu.
- Sabíamos que não era garantia alguma.
"Não agora que eu cheguei tão perto" – pensou Neji.
- Kakashi-san, por favor, posicione seu olho esquerdo frente ao olho esquerdo da estátua. Tenho a impressão de que os Uchiha consideram sua segurança infalível, mas não o é. Repare as imagens das estátuas de Madara espalhadas aqui.
Kakashi então deu maior atenção: o local estava espalhado com vários enfeites, o culto a Madara era intenso dentro do clã, ficou óbvio. Então ele pôde ver: nenhuma delas estava alinhada, frente à frente... havia algum espaço, mas como a distância era considerável, a olho nu parecia que estavam ollhos nos olhos. Sob as estátuas, o símbolo do Yin e Yang.
- Kakashi-san. Tudo tem um lado bom e um lado ruim (será?). Mas para o forte existir, é necessário que o fraco também exista. A força só vale se existe utilidade. O poder é necessário para agrupar os fracos ao redor de um. Então uma pessoa tem um lado fraco e um lado forte, repare que as estátuas encaram-se, mas apenas em um dos lados. Chame de coisncidência, mas todas olhando diretamente para o olho esquedo oposto ao seu. É uma suspeita, mas creio ser verdadeira.
Observando respeitosamente a rapidez de raciocínio do rapaz, Kakashi ponderou alguns instantes e fez como indicado. Ao encarar o olho vermelho da estátua, Kakashi sentiu o Sharingan manifestar-se, sozinho. Era como se a concentração estivesse toda voltada para aquele olhar gelado à sua frente. Segundos depois, a estátua moveu-se, abrindo uma passagem escura atrás de si. Neji nada disse, avançou pelo escuro, com seu Byakugan ativado, mas nada o alertou sobre qualquer perigo. Como disse para Kakashi, os Uchiha consideravam seu Sharingan tão poderoso, que jamais seria possível burlar aquela "senha". Kakashi abaixou o haitate e passou pelo mesmo local que Neji, sentindo o vento que entrava ser bloqueado pela estátua, que retornava ao seu lugar. Ao final de um corredor escuro, uma luz indicava uma sala. Neji e Kakashi estavam em alerta, mesmo o Byakugan não indicando qualquer perigo. Ao se aproximarem, puderam ver o leque símbolo dos Uchiha e uma pequena chama que ardia intermitente sobre ele.
- Pedras de Katon. Não sabia que ainda existiam. – Disse Kakashi – Ardem intermitentemente. Dizem que foram embebidas em chakra de um ser muito poderoso do elemento fogo e... mais que isso eu desconheço.
Neji não estava interessando em pequenas curiosidades. A sala que se apresentava à sua frente era uma típica sala de reuniões, tal como a dos Hyuuga, mas não estava organizada, uma reviravolta de papéis e objetos podia testemunhar sinais de luta num passado não muito distante.
- Eu não posso afirmar com certeza, mas isso aqui está com a aparência de ter alguns... – antes de completar a frase, Kakashi calou-se. O que via levava por terra qualquer argumento que poderia ter para proteger Sasuke: o local aparentava ter sido a moradia dele por algum tempo. Roupas e pergaminhos que Kakashi reconheceu como tendo sido escritos por ele espalhavam-se sobre um local de repouso improvisado, sem conforto.
Mas Neji não estava preocupado com aquilo. Sabia que Sasuke frequentava o lugar, mesmo sem aparentar. Afinal, fora assim que conseguiu localizar o esconderijo, uma das novas técnicas de Neji permitia que ele conseguisse anular quase 80 de seu chakra, para não ser notado durante uma perseguição. Foi um trabalho difícil e que exigiu vários dias, Sasuke parecia não confiar nem mesmo na própria sombra. Mas enfim ele conseguiu. E agora estava diante do grande segredo. Sentiu um aperto diferente em seu interior, pela primeira vez em muito tempo deixou a fúria invadir seu interior: aquilo era mais que uma monstruosidade, tratava-se de loucura, pura e simples.
Num grande paredão atrás da mesa onde os Uchiha provavelmente reuniam-se, estava escrito a mesma frase que estava entalhada à frente do lugar do cabeça, mas escrito com sangue, em letras enormes:
"Da
semente do fraco surgirá o primeiro sacrifício. Assim
como a cobra come os próprios filhotes, o pai beberá do
sangue de seu primogênito antes que esse viva seu primeiro
solstício. Fazendo isso, seus olhos enxergarão aquele
que procura."
- Vamos Kakashi-san. Já descobri tudo que precisava – Ao virar-se, Neji pôde observar que Kakashi estava atrapalhado com alguns papéis, como se estivesse procurando algo – Não mexa em nada, ele não pode saber que estivemos aqui.
- Está certo – disse Kakashi colocando os pergaminhos na ordem que estavam, mas sorrateiramente escondendo um dentro de seu uniforme, sem que Neji percebesse, estava preocupado demais em voltar para a Vila.
Ao saírem, Kakashi virou-se para Neji:
- Você irá procurar Hiashi-sama?
Os olhos perolados e frios de Neji encontraram os de Kakashi, mas ele pôde perceber uma perturbação que não estava ali antes.
- Não será necessário. O casamento irá transcorrer normalmente.
- Não compreendo.
- Vou contar-lhe em agradecimento ao que fez pelo clã hoje. Mas assim como essa nova informação, espero sigilo total de sua parte. Esse é um assunto dos Hyuuga e será tratado como tal. Uchiha Sasuke irá desposar a herdeira ofical do clã dia 28 de dezembro. No dia 29 de dezembro, ela será a mais nova viúva de Konoha.
- Mas Neji, isso é assassinato arquitetado previamente. Terá sérias consequencias para você.
- Kakashi-san. Sei que Sasuke foi seu aluno e que você batalhou muito por ele, mas chegou a hora de desistir disso. Você viu as mesmas coisas que eu ali, a Vila não irá punir Sasuke por tentar encontrar seu irmão, mas se ele o fizesse sozinho. Se levarmos isso à Quinta, ela vai mandar prendê-lo e essas coisas... só trarão vergonha ao clã. Hinata-sama sentirá muita vergonha, por ser humilhada dessa maneira.
- Não permitirei que mais situações tragam dor à sua vida. Realmente esperava que Sasuke estivesse disposto a reerguer seu clã. E meus temores eram que ele o fizesse para nos atacar, aos Hyuuga, por vingaça. Afinal, com o extermínio dos Uchiha, os Hyuuga consolidaram sua posição, sem maiores adversários. Uchiha Sasuke pretende assassinar o próprio filho, que também será filho de Hinata-sama. Jamais permitirei que um Hyuuga morra pelas mãos dele.
Kakashi balançou a cabeça, negativamente.
- Você está sendo petulante, ao achar que Sasuke será derrotado tão facilmente.
- É verdade que posso morrer, assim como ele. Mas o resultado só será conhecido após o final da batalha. Mas uma coisa é certa: todos os Hyuuga lutarão comigo, ainda que eu caia. Esta criança que ainda nem veio ao mundo será a herdeira de nosso clã, depois de Hinata-sama e é dever de todos no clã protegê-la com a própria vida. Ainda que ela nem mesmo exista.
O jounin experiente pôde ver que aquela era uma decisão já sacramentada para Neji.
- Faça como quiser. Apenas peço que não conte nada ao conselho dos Hyuuga, ou para Hiashi-sama, por enquanto.
- Não tenciono fazê-lo até o momento certo. Estou agradecido pela ajuda. – Neji desapareceu rapidamente da visão de Kakashi, que não o seguiu. Precisava saber se seu pequeno contrabando estava à salvo. Ao constatar que sim, um momento de alívio passou rapidamente.
"Às
vezes por deixarmos o ódio falar mais alto, perdemos peças
importantes. Preciso falar com Naruto, Sasuke está se metendo
numa grande confusão... e definitivamente esse não se
parece com ele."
(essa parte da fic é narrada pelo Sai ??? De onde você tirou que era relevante, sua doida?
Estava observando o riacho sob a ponte e queria ser capaz de captar aquela corrente calma que seguia despreocupadamente. Meus desenhos sempre representaram meus conhecimentos sobre sentimentos, por isso sempre pareceram sombrios, nada sabia e não me importava em não saber. Mas desde que abandonei a ANBU Raiz e me juntei definitivamente ao time Shikamaru, tenho reconhecido algumas manifestações que fomentam dentro de mim... isso me fez captar mais que algumas imagens e acho que nos últimos anos, captá-los tem tornado minha arte mais agradável.
A Vila estava movimentada, todos sabiam o motivo. Aquilo nunca me disse respeito, mas minhas definições de alguns sentimentos que eu já dava como definitivas, caíram por terra. Aquela amizade, que tanto me fazia lembrar o sentimento que sentia por aquele que foi criado comigo, a quem denominei de irmão e... mas que coisa... ela não me deixa em paz nem um momento...
- Saaaaaaaaaaaaaai... queridinho, você chegou cedo! – Sempre fazia entradas espalhafatosas, Ino precisava desesperadamente de alguém que lhe desse atenção. Tive a sorte, ou azar de ser devidamente escolhido para isso. A presença dela tornava tudo sempre urgente e às vezes a paz que eu precisava para me concentrar era terrivelmente roubada de mim. Mas ainda assim, muitas das minhas novas perspectivas sobre os sentimentos vieram com ela. Ino, como poderia dizer... é uma pessoa "intensa", pode parecer difícil compreendê-la, mas na verdade é uma questão de aplicar o filtro certo ao que fala. Ela estava bem nas roupas dela comuns. Sempre achei o uniforme que ela usa por demais exagerado, eu entendo o uniforme como uma arma de defesa também, mas no caso dela, pouca coisa é protegida.
Ainda assim, ela ficaria bem com qualquer coisa. Já fiz alguns desenhos dela e é bem certo que ela jamais vai ficar sabendo sobre, seria minha condenação final. Desde que o Sasuke voltou para a Vila, ela deixou qualquer sentimento por ele de lado, pois a Sakura já estava sofrendo demais por ele, para ainda ter que se preocupar com ela.
- Ei você... desenhando novamente? Ai ai ai ai... já disse que se você treinasse mais seria...
Ninpuu Chouujo Giga - A correnteza do riacho que estava despertando em meu desenho passou a ter vida e envolveu Ino antes que ela pudesse recuar. Seu tempo de resposta nunca foi dos melhores. Ordenei que minha arte encontrasse seu espelho, e assim ela fez: mergulhou juntamente com Ino nas plácidas águas do riacho. Foi um espetáculo tão lindo ver minha criação unir-se à natureza... mas acho que a garota das flores não gostou tanto quanto eu, pois a cara dela saindo da água não me diz uma coisa boa.
- Seu... seu... quem te disse prá fazer isso?
A saia de tecido azul e a blusa fina branca estavam encharcadas e uma das sandálias estava perdida ainda no riacho, ela apoiava o próprio corpo sobre a água, com o chakra concentrado nos pés e mãos.
-
Você quem disse que eu deveria treinar mais, não? –
Ofereci-lhe um dos meus melhores sorrisos, mas não
funcionou. Ela veio em minha direção, punhos em
riste:
- Você arruinou duas horas em frente ao espelho! Vou matar você por isso!
Era engraçado observá-la vindo ao meu encontro tão... furiosa, mas de uma maneira divertida. Por que ela estava tão preocupada com aquilo?
Não foi difícil bloquear o primeiro ataque, muito menos o segundo, terceiro, ou a sequência que seguiu-se. Assim como Sakura, Ino dedicou-se a treinar ninjutsus médicos, mas agora foi incorporada à Equipe de Ibiki, sempre que necessário suas habilidades eram usadas em interrogatórios, mas a frieza que demonstrava durante seu trabalho não se observada no dia-a-dia. Sua participação no time era utilizada dentro daquela formação, Ino-Chika-Chou... na grande maioria das vezes, o sucesso era garantido e quando ocorria a falha, minhas criações tratavam de capturar o oponente, mas tudo dentro da estratégia de Shikamaru. Devo reconhecer, ele seria um excelente chefe da ANBU, mas a falta de compromisso com os treinos era uma coisa que eu não conseguia compreender.
Então eu me cansei daquela situação, precisava continuar meu trabalho e teria que captar novamente aquela correnteza, mas ela não existia mais. Bloqueei um último chute alto de Ino segurando-lhe a perna direita e quando ela se desvencilhou, segurei-a pela cintura e meus pés enroscaram-se ntre suas pernas, fazendo-a perder o equilíbrio. Era uma coisa bem básica, mas ela não estava raciocinando direito, seria o suficiente. Caímos sobre a grama e aquele cheiro de terra molhada não conseguia sufocar o perfume de flores que emanava dela, era um aroma bastante agradável. O rosto dela estava corado, ela já se cansou só com aqueles golpes?
- Acho que é você quem precisa treinar mais, Ino-chan – Acho que o perfume me tirou o foco, eu ainda estava por cima dela caído no chão, mas não podia deixar de apreciar alguns detalhes que me chamaram a atenção – Também deveria andar mais naturalmente, sem perder tanto tempo com enfeites. A beleza que tem já é suficiente para enfeitar qualquer tela.
Seria aquilo inapropriado? Porque pela primeira vez, desde que a conheci, vi Ino ficar sem falar coisa alguma.
- Falei algo que não devia, Ino-chan?
Já estava sentado novamente e ela me olhava fixamente, então eu percebi que aquela visão eu nunca tinha captado, não aquele rosto que era afetado por alguns respingos d'agua e que sorria disfarçadamente para mim. Aquele era um sorriso... verdadeiro? Ainda tinha muita dificuldade em decifrar as reações das outras pessoas, principalmente das mulheres. Mas elas eram um mistério agradável de se observar, assim como Ino, naquele momento.
- Sai... posso pedir uma coisa?
- Sim, pode pedir – Era o mínimo que poderia fazer depois de colocar-lhe molhada daquela maneira.
- Eu tento tanta inveja das suas pinturas...
- Inveja por que?
- Porque você se dedica à elas... seus olhos brilham intensamente e você sente orgulho de vê-las terminadas. Eu... te observo... quando estamos em combate... você parece um pai orgulhoso quando vê seus desenho tomando vida... e isso... essa dedicação... é algo que eu invejo... queria que você passasse alguns momentos... ah... eu queria que você se dedicasse a mim... mesmo que num desenho... poderia?
Que engraçado, ao menos eu acho que é, pois não tinha percebido... eu tinha orgulho? Então é assim que se denomina a satisfação que eu sinto quando vejo o resultado daquilo que faço? Ino sempre me ensina alguma coisa, mesmo sem intenção... por isso aprecio sua companhia... e observá-la daquela maneira... sem barreiras ou enfeites... aquilo era o que faltava em meus desenhos antigos... seria eu capaz de captar a essência dela?
- Posso, será uma honra. Será que você pode ficar a favor da luz? Quero ver essa luz fraca do pôr-do-sol iluminar o seu rosto, fica muito bom... alguma coisa errada Ino-chan? Por que você está vermelha?
- Na-nada... assim está bom?
Ela stava sentada À minha frente, realmente com a luz do sol favorecendo seu rosto... mas aquela não era ela... e bem... eu queria chegar o mais próximo de sua essência, seria um desafio.
- Me permite? – Indiquei que ela me acompanhasse. Ela levantou-se e foi, sem reclamar. Fiquei de pé na água e pedi que ela sentasse na beirada do riacho e colocasse apenas as pernas dentro da água. Afastei um pouco suas pernas, estavam bem rígidas, que engraçado. Sua saia escondia a parte que não estava submersa e bem, aquilo não era aceitável. Aprendi com Ino que satisfação e orgulho são sentimentos próximos e sempre observei nela uma grande satisfação em ver seu corpo à mostra, mas não seria de uma maneira vulgar, aquilo era beleza e era meu dever captá-la da maneira adequada. Ao suspender um pouco a saia sob as pernas, pude perceber que todo o corpo dela parecia rígido... ela estaria numa posição desconfortável? – Ino-chan... você prefere ficar numa outra posição? Não quero que se sinta incomodada...
A mão dela tocou a minha e senti que estava quente. Ela não me olhava nos olhos, mas sua voz saía rouca – Não, está tudo bem – Até sua voz estava diferente, não exprimia urgência ou qualquer tipo de alarde... estaria ela me ajudando? Senti que precisava sorrir-lhe e sua mão me encorajou a fazê-lo da maneira mais honesta que pude. Seus contornos estavam visíveis debaixo da roupa molhada e os salpicos de algumas gotas escorriam sob o colo dela e era tão bonito observá-la assim... afastei uma das alças e deixei que caísse sobre os ombros. Seu cabelo estava engraçado, o modo como ela o prendia estava desgrenhado, soltei-os e deixei que caissem pelas costas, sem que escondessem seu rosto, muito menos seus olhos. Mas o rosto dela continuava tenso, olhando para o chão.
- Ino-chan, preciso que você olhe para mim, por favor. – Eu não teria pedido novamente se ela recusasse, mas grande parte daquilo que eu entendia como "Ino" dizia respeito ao modo como ela passava vitalidade através do seu rosto. Eu já aprendi a admirá-la, embora algumas vezes ela ocupe espaço demais onde está. Mas ali ela parecia tão limitada... a tudo... mas tão... seria tão mais fácil se eu conseguisse definí-la.
Mas ela olhou-me nos olhos e eu senti que aquele calor das mãos dela estavam presentes em seus olhos e queriam se impor aos meus, ou já se tinham imposto, não sei dizer...
- Assim está muito bom, agora eu vou me sentar aqui – fiquei sentado bem no meio do rio, onde meus olhos podiam contemplar o fundo e sua figura por completo – e tentarei ser o mais breve possível.
Os esboços foram saindo desordenados... os contornos dela são tão... intensos e minhas linhas severas... não, preciso trocar de método. Um lápis mais delicado foi minha escolha, mostrou-se correta. Procurei fazer o fundo e qualquer coisa que não fosse ela... isso seria meu momento final... desenhar o que rodeava era bem... natural... e aqueles sentimentos que a natureza me mostrava já era capaz de captar e representar... e ela permanecia imóvel, mesmo o vento começando a esfriar aquele calor que eu senti ao tocá-la e a luz ir diminuindo lentamente mas não o suficiente para apagar-lhe da minha visaõ. Quando terminei, fiquei, como ela disse, orgulhoso. Seu corpo foi difícil de fazer, expressar um frescor e respiração... mas ao contemplá-la, reconheci um pedaço dela ali. Levantei e fui em sua direção, e fiz com que ela ficasse em pé. Tirei da minha bolsa um cobertor pequeno e coloquei sobre os ombros dela e... como sua pele estava fria!
- Ino-chan... deveria ter me dito que estava com frio... poderíamos terminar outro dia.
- Não... você estava se dedicando a mim naquele momento. Eu não deixaria qualquer coisa atrapalhar...
- Mas agora você vai adoecer por causa disso.
-Valeu à pena... posso ver meu desenho?
Entreguei à ela e na verdade não me importo com a opinião das pessoas... eu mesmo me satisfaço, mas algo se remexia em mim, inquietamente.
- Está lindo Sai. Posso ficar com ele?
Ficar... com o desenho?
- Mas não acho que você queira guardá-lo...
- E por que não? Está tão... bem, digamos que eu mesma não me reconheceria...
- Você quer dizer que não ficou parecido?
- Não é que... está tão... ah Sai... você me viu tão direto... não sei se alguém me reconheceria assim... e se me visse, poderia não gostar de mim... porque eu não sou interessante, não assim, desleixada e sem atrativos.
Que absurdo... aquela falta de... ahn... como é mesmo... de confiança. Isso, confiança era um ponto alto nela... e como assim, era tudo mentira então?
- Ino-chan... você está querendo me dizer que você se modifica para os outros? Por que faria essa estupidez? – É certo que falei algo errado, seu rosto ficou abalado. – Me perdoe, mas não vejo motivos para você ser diferente. O que eu vi hoje me agradou, de uma maneira instigante. Você deveria seguir sua natureza... fazer e agir como seus sentimentos mandam...
- Sai... não diga isso, você é uma pessoa que não compreende bem o que são os sentimentos, como seguí-los?
- Mas eu não tenho medo de enfrentá-los.
- Sai... você já fez alguma coisa sem pensar?
Ponderei sobre aquilo... então entendi que ela fazia uma pergunta justa. Até mesmo para respondê-la eu precisei criar um raciocínio, ainda que rápido. Aquilo precisava ser válido em minha mente e condizente com uma imagem pré-estabelecida... então aquilo era hipocrisia... já li em algum livro sobre como as pessoas se sentem quando falam sobre determinada coisa, sem na verdade agirem de acordo com elas. Então eu não tinha direito de falar daquela maneira com Ino...
- Me desculpe, estou sendo hipócrita com você.
- Mas você se incomoda com isso? Em estar sempre analizando as coisas?
Meu interior dizia que aquilo não deveria ser respondido, mas ali, quando os dois estávamos sendo sinceros um com o outro, quando ela se mostrava na sua forma mais frágil... me sentia impedido de enganar ou disfarçar.
- Eu não posso dizer que sou totalmente satisfeito com isso.
- Você quer mudar?
Por que tantas perguntas? Já não era suficiente aquele desconforto?
- Não é tão fácil.
Então ela segurou minhas mãos novamente. Mas ela ainda estavam quentes, não geladas como o restante do seu corpo.
- Sai, você tem o controle de suas atitudes, mas quem controla você? Ao menos em alguma oportunidade, experimente simplesmente "fazer". Você precisa conhecer alguma coisa, para então sim, poder dizer algo sobre ela. Se não tentar mudar, não vai saber o quanto é difícil.
Foram as palavras mais... sinceras e... justas... que eu já vi saírem da boa de alguém para mim. Ino estava me abrindo uma opção que eu sempre ignorei, mesmo não estando ciente de sua existência. Eu...
- Eu queria não ser o único a aprender coisas novas... os outros sempre me indicam os caminhos para as emoções, sempre tenho que enxergá-las nos outros... ou tê-las apontadas em mim.
- É mentira! Hoje você me ensinou que... muitas das minhas atitudes são erradas... porque eu penso em agradar os outros e não à mim mesma... Sai... diga alguma coisa, faça alguma coisa que você não conheça, mas que você não esteja sozinho nessa descoberta... assim como nós fizemos hoje e então...
Sentir aquele calor irradiado dos lábios dela... essa sensação eu não quero, nem vou explicar... é um mistério que não faço questão de desvendar, porque não tenho como abrir mão de tentar e tentar e tentar... eu não queria que ela se afastasse de mim, mas ela não queria também, porque se aproximou mais de mim e as roupas que ainda estavam um pouco úmidas e geladas não me afetavam em nada, nem à ela.
Eu... sinto como se algo despertasse em mim... e nela também, eu a sinto... entregue e tenho vontade que ela me veja assim também. Mas eu estava fazendo corretamente?
Fiquei com receio, ela se afastou de mim e um frio inquietante me fez desejá-la mais e mais...
- Ah Sai, você fez isso por quê?
- Ino eu... agi sem pensar... me desculpe – Mas eu não sentia que tinha feito algo errado e agora que aquela vontade me incapacitava de pensar racionalmente... como poderia desculpar-me por algo que tinha me feito tão bem? Estava sendo egoísta?
Ela cobriu o corpo com o lençol, será que o mesmo frio que me abateu, tocou aquela pele da mesma maneira severa?
- Ino-chan eu...
- Sai... se você tivesse que fazer alguma coisa agora, o que seria? – Ela estava de costas, se afastando de mim.
- Ino... volte...você está com medo de mim?
Ela parou, mas não me encarou. Eu tinha magoado algum sentimento dela?
- Estou feliz por ter ajudado você.
- Me ajudou...? O que você quer dizer?
- Se você fez aquilo sem pensar... se quando me beijou fez por impulso e nunca tinha experimentado aquela sensação... então você fez com alguém que também não conhecia, como você. E eu também segui meus instintos e me permiti estar próxima de você. Mas Sai, infelizmente não podemos viver sempre daquilo que nossos sentimentos nos indicam. Me perdoe, eu também fui hipócrita com você.
- Ino, o que quer dizer?
- Da próxima vez que você desejar se aproximar assim de uma garota, certifique-se de que você deseja isso de verdade e que... você não pode medir o quanto e como, mas que a sua mente ordene que aquilo não pare... e você queira fazer a garota sentir-se da mesma maneira e que isso seja... especial para os dois.
E então eu deixei o conselho inicial dela me influenciar, postei-me rapidamente frente à ela:
- Te insultaria se essa pessoa fosse você?
- E-eu?
- Ino eu... eu quero aprender coisas novas... junto com você... e sentir... sentir essas emoções que eu não compreendo... eu não quero recusar aquilo que não conheço... não quero recusar você.
- Sai... nada me faria mais feliz.
Dessa vez a iniciativa partiu dela e eu senti aquele alvoroço em mim se intensificar, mas ciente de que eu não queria que ele fosse embora.
