Chapter VII – Changing

O mundo estava escuro e frio. Nevasca. Seu corpo era inerte. Seu tato não existia. Os cheiros não eram sentidos. Os sons não eram decifrados. Vazio. Seria essa a morte? Não, não deveria ser. Ainda podia se lembrar do rosto dele. O que estava havendo, então? Era isso que temia. O que menos podia ter desejado. Como podia? A voz dele pedindo para que se acalmasse. Tudo daria certo. Por quê? O que diabos sua cabeça estava aprontando? Sim, queria morrer. Pararia aquele sofrimento, a dor em seu corpo e a confusão em sua mente. Mas monstros – ou cria deles – realmente podiam ir para o céu? Ela sabia que não. Onde estavam seus sentidos? Usaria das últimas forças para arrancar-lhe daquele pesadelo. Apaixonada. Como? Ridículo. Vampiro. Lobisomem. Nunca. Sentiu algo quente. Seu tato voltara. Cheiro. Urgh! Como maldito aquele cheiro era bom. Corpo fora do chão. Haviam-na içado? A dor queimou ainda mais forte em seu coração. Dor. Inconsciência voltando. Não, percebeu que implorava. Não queria perder aquela sensação. O vento agora chocava com as partes nuas de sua pele. Por favor, agüente, a voz dele implorou em seu ouvido. Então era um sonho. Ou havia mesmo morrido? Deus seria tão bom assim consigo? Mandar aquele anjo louro apenas para si? Era bom demais. Estava viva. A dor queimava seu peito. Espalhando. O que? Seu corpo agora estava todo quente. Tremia como se estivesse com frio. Reconheceu aquela sensação. Não podia! Coração falhando. Voltando ao normal. Frenético. Pele fria. Morna. Quente. Dor. Exaustão. Normalização. Vento se extinguiu. Mais vozes. Telefonema. Cama macia. Ele e seu cheiro se vão. Não! Uma mão fria. Barulho de aparelhos. Cheiro insuportável. Vampiros. Minutos se passam. Alguém está tomando conta de si. A porta se abre. Seu anjo louro? Sim! Ele está preocupado. Quer gritar para que não fique. Estou bem! Outro vampiro. Filha da Lua. Como ele sabia? Como ele sabia que era essa... Briga. Olhos abrindo-se. Um quarto infantil. Três olhares encarando-a.

"Ela está bem," o vampiro louro e de roupas brancas – que reconheceu como o médico da cidade – lhe sorri. Mas não ele está cem por cento com certeza. Ela sorri em resposta. Estava bem. O pai de seu salvador está nervoso. Pôde ver seu rosto de mármore esculpido com as piores feições. Medo. Ele poderia matá-la. Porém, não o faria. Louis a salvaria. Louis. "Deixem-na descansar, vamos ligar para os responsáveis..."

"Não!" intervém inconscientemente. Joel nunca deixaria que eles saíssem vivos se soubesse que haviam tocado na irmãzinha doente dele. Os vampiros olham-na com confusão. Louis está mais perto. Parece aliviado. "E-eu estou bem."

Marcus Agate está ainda mais desconfortável. Uma mulher – a mais linda que já havia visto – adentra ao quarto. Seu cabelo é do mesmo tom de Louis. A mãe dele? Ela parece ser outro anjo. Perfeita. Sorri-lhe. Aproxima e estende um conjunto de roupas. Desaparece em uma velocidade incrível e volta com uma bandeja cheia de comida. Odor maravilhoso. Carne. Quer carne. Crua. Lembrança. É um lobisomem agora? Não, não pode. Estaria naquela forma nessas horas. Mas ela sente novamente a vontade de sangue. Sangue humano? Não. Carne humana. Quer carne humana.

"Carne... Crua," ela sussurra com vontade. Os vampiros trocam olhares estranhos entre si e saem porta a fora, deixando-a sozinha com Louis. Ele está bem. Não está assustado. "Como sabia?"

Ele sorri também.

"A lua me chamou," responde com um tom gozado. Estaria zoando de sua cara? "Não consegui dormir. Saí de casa sem que me vissem e quando vi... Estava na sua casa."

"Oh." É o que consegue dizer. Está feliz. Muito feliz. O cheiro dele brinca por suas narinas. Seus olhos queimam. Não!

"Mas o que-"

Dor novamente. Seria...? Não. Aperta-se com os braços. Seu tórax não permite a entrada de ar. Sufocando. Fecha os olhos, morde a língua para não gritar. Fogo. Fogo. Queimação. Ardência. Passou. Olha de volta ao meio-vampiro. Assustado, ele está assustado. Olha para a mesa-de-cabeceira ao seu lado. Um espelho. Seus olhos estão cinza. Prata líquida. Lupinos. Dentes em sua boca começam a ficar pontiagudos. Morde o lábio inferior. Sangue. Unhas começam a perfurar a pele de seus braços. Aperta-se mais ainda. Mudando. Pelos não crescem. Dentes diminuem. Olhos voltam ao normal. Dor volta. Tudo recomeça.

"Saia... daqui," finalmente consegue rosnar. Falta de ar. Dentes grandes. Caninos ultrapassam a boca. Unhas cravam em sua pele. Mais sangue. Vampiros estão de volta.

"Ela está se transformando!" Marcus Agate grita, puxando Louis para perto de si. Ela quer puxá-lo de volta, mas a dor recomeça.

A mulher sanguessuga se aproxima. Desvencilha-se dos braços do marido. Debruça contra a maca. Abraço. Frieza. Calma. Dor diminui. Transformação pára. Normalização. Respiração retorna ao normal. Dor ainda está lá. Incomoda. Louis faz o mesmo que a mãe, mas não a abraça. Está assustado. Queimação. Por favor, não, implora em sua mente. Morde os lábios machucados. A mulher iça-a da cama. Pulam pela janela. Estão do lado de fora. Mulher a coloca de pé. Consegue se estabilizar. Dor a faz cair de joelhos. A grama está molhada. Levanta a cabeça. Olha diretamente para a lua-cheia. Todo o processo recomeça. O corpo curva-se. Estalos em todos os seus ossos. Pêlos. Pele, não existe mais pele humana. Caí de quatro. Mãos viram patas. Pés, patas. Unhas grandes, lupinas. Ardência diminuindo. Incômodo se esvaindo. Tudo se estabiliza. Sua audição capta desde o batimento cardíaco de alguém na casa até o barulho de um riacho ao longe. Consegue sentir aquele cheiro estranho de vampiros. Chuva começa a cair. Olha para os lados, confusa. A mulher está com o rosto lívido, mas ainda consegue ser gentil. Não está com medo. Aproxima-se. Ela recua, tem medo de machucar aquela criatura bondosa. Ao final, sente as mãos da mulher afagando seu pêlo. Sensação boa. Olha assustada. Está com fome. Os outros três vampiros pulam pela janela, caindo com fluidez no gramado. Aproximam-se também. O vampiro médico tem um pacote com carne, muita carne. Boca enche d'água. Come sem pudor, esquecendo-se de que Louis está lá. Lembra-se. Odeia-se por deixar que ele a veja assim. Ela é um monstro. Ele lhe sorri como se lesse sua mente. Toma o lugar da mãe e ajoelha-se ao seu lado, ficando na mesma altura dos seus olhos. Uma voz sussurra em sua mente, calma como o rosto do meio-vampiro a sua frente: Não tenha medo, estou aqui. Está calma. Deita-se no chão. Debruça o focinho no colo dele. Chuva lambendo seu pelo. Calma. Escuta os vampiros voltarem para casa. Louis não demonstra vontade de ir. Está feliz. Mas ainda não entende o que está havendo. Como se tornou lobisomem? Voz volta a soar em sua cabeça. Talvez seu corpo tenha agora encontrado maturidade, está preparado para receber a transformação. Está com medo? Ela sorri, ou algo assim. Está bem. Ele está com ela. A expressão dele se fecha. Seu irmão Joel não ficará feliz, não é? Tristeza. Não, ele não ficará feliz. Mas quem se importa? Sim, quem se importa? Felicidade novamente. Mas o que diabos está acontecendo? Como pode gostar de alguém que conhece há tão pouco tempo? A vida nos prega peças, não é? Uns dizem que é karma, mas eu digo que é destino. Pelo menos você não é humana. Iguala as coisas entre nós. Entre nós. Ela gosta disso. Soa certo. Olha para a lua com seu corpo de lobo crescido. Ela é também meio-humana. Será...? Seus irmãos nunca haviam tentado. Gostavam dessa forma como gostavam de respirar. Podia tentar. A sensação de humanidade veio como se fosse à coisa mais normal do mundo. Um minuto era lobo, noutro, voltara a ser humana. Ou algo perto disso. Estranhamente sua mente continuou conectada a de Louis. Por essa ligação, viu como estava. Seus olhos ainda eram daquela prata líquida, os cabelos estavam maiores e as unhas ainda eram grandes. Mas de qualquer outra jeito, era o mais normal que podia ser. Sua audição e olfato continuavam mutantes.

"Aterrorizante," ela sussurrou. Ele não achava o mesmo. "Não é algo que eu soubesse, mas veja eu, consigo dominar. Parece..."

"Magia, eu sei." A voz dele está calma. Ele segura sua mão e vira-a para que contorne a palma com seus dedos grandes. Segue seus riscos, recomeçando quando acabava em uma linha com um fim. "O que pretende fazer?"

"Quero entender o que está havendo," admitiu. Precisava ligar para ele. "Do contrario, pode ser perigoso. Tenho medo."

"Medo de me ferir, é isso?"

"Sim, é isso."

Ele sorri. Fica ainda mais belo em sua face de Adônis.

"Te vejo na escola amanhã," ele diz, se levantando. Vira-se antes de entrar pela porta de sua casa. Uma dor estranha passa por seus olhos, mas ele some pelo monte de madeira. Agora estava sozinha. Levanta-se e some por entre as árvores. Velocidade nunca foi tão emocionante.

O que estava havendo?


Ufa! Trouxe. Desculpem pela demora, mas pelo menos veio. Estou doente, e por isso está sendo difícil eu escrever. Tenho que admitir que escrevi esse capítulo escutando "Lo Que Soy" da Demi Lovato. Eu sei, é um fato vergonhoso para quem sempre falou mal dos cantores e atorezinhos da Disney. Peço eprdão se gosta deles. BTW, essa música me fez pensar muito nessa história, e não consegui resistir. Tive de escrever. Bom, eu tinha pensado em continuar com a doença da Mel, mas ai teria de fazer melodrama, e não sou boa com isso. Próximo capítulo? Conall aparece (OBS.: para os observadores, o irmão mais velho da Mel chama-se Junior...).