Saint Seiya pertence à Masami Kurumada. Todos os direitos reservados.

Boa leitura!

"Comovente ver dois amigos se reencontrarem"- desdenhou o Grande Mestre de forma irônica - "Milo, por mais bem graduado que seja não está acima de minhas ordens e eu não dei permissão para que qualquer cavaleiro de ouro invada o salão quando eu estiver em reunião".

"Lamento muito a intromissão, senhor dos senhores" - retribuiu respeitosamente com falsa submissão, ajoelhando-se ao lado de Camus - "Mas, os dias foram passando e eu aguardava ansioso uma audiência... por fim, hoje não pude resistir mais e tive que procurá-lo. Coincidentemente, meu assunto não é tão diferente quanto o do cavaleiro de Áquário".

"Ouviu o que eu disse, não tenho meios para descobrir o paradeiro de seus pais, não temos um cadastro ou algo do tipo, se é o que querem saber...".

"Se me permite, senhor..." - pediu Camus - "Poderíamos investigar por conta própria o paradeiro de nossas famílias se recebessemos autorização para sair do Santuário".

"Imagine se eu concedesse esse tipo de favor a cada órfão" - retrucou - "Tem obrigações aqui, então acho melhor esquecer essa idéia. Os dois".

"Senhor..." - pediu Milo - "Minha gratidão será duradoura se me deixar realizar essa missão, isso talvez fosse bastante útil ao senhor um dia... não acha Camus?".

O jovem estrangeiro de pouco mais de 14 anos não poderia compreender em tão pouco tempo os tipos de reviravolta que ocorriam naquele Santuário. Contudo, o ardiloso Milo soube colocar-se de modo a reiterar que o apoio incondicional dos cavaleiros de ouro seria importante diante das turbulências políticas da região.

O Mestre levantou-se a começou a andar ao redor de sua tapeçaria. Não queria deixá-los xeretando por ai em assuntos que estavam melhores guardados do jeito que deveriam, contudo, afastá-los talvez fosse bom para fortalecer os laços com seus interesses.

"Talvez não seja de todo o ruim" - refletiu.

"O que nos diz, senhor?" - ponderou Camus.

"Certo, eu não posso impedir de que procurem seus parentes, façam como quiser, mas não quero que espalhem essa história por ai".

"Agradecemos sua generosidade, Grande Mestre". - bajulou Milo no tom mais teatral que conseguiu.

"Podem ir agora. E tomem cuidado" - alertou.

"Com licença" - despediram-se em uníssono.

Milo e Camus saíram do Salão do Mestre com solenidade e ficaram sem dizer nada até alcançarem a escadaria que levava à mansão de peixes. Então, Milo tomou a iniciativa pelos dois.

"AHÁ" - pulou em seu pescoço e começou a desajeitar seu cabelo - "VOCÊ ESTÁ ÓTIMO! QUANTO TEMPO, CARA. ME CONTA DO TREINAMENTO, DA SUA TÉCNICA, PRA ONDE FOI PARAR, DA MULHERADA, DA COMIDA, ME CONTA DE UMA VEZ...".

Camus assustou-se com o ato, quase indo ao chão ao se desequilibrar. De fato, só mesmo outro cavaleiro de ouro para abalar a sua postura.

"Me... largue-me" - ordenou afastando-se de Milo e arrumando seu cabelo - "Vai me amassar todo".

"VOCÊ ESTÁ DE ARMADURA, ARMADURA NÃO AMASSA".

"E VOCÊ... poderia falar mais baixo, por favor? Está chamando muita atenção".

"E desde quando isso é um problema?" - perguntou zombeteiro feliz por ver que as servas do salão do mestre ficaram espiando os dois descerem as escadas - "Elas me adoram".

"Arrogante" -destilou Camus vendo o cavaleiro mandar beijinhos voadores as mulheres que desataram a rir com sua ousadia, fazendo charminho.

"Xii... o que foi? Ficou bravo só por causa disso?".

"Não gosto das pessoas me tocando".

"Certo, então, responda minhas perguntas".

"Hum, temo que não haja mais nada para conversarmos. Com sua licença".

Milo ficou vendo o cavaleiro descer mais alguns degraus até interceptá-lo.

"O que? Temos uma missão, lembra? Temos que achar nossos pais...".

"Farei isso sozinho, mas obrigado pela ajuda que me deu com o Grande Mestre. Se bem que era assunto de seu interesse também, portanto...".

"Duas cabeças pensam melhor do que uma não é? Poderíamos trabalhar juntos".

"Não sei não".

Milo logo percebeu claramente que aquele menino dócil e chorão de outrora não só se transformou em um homem forte como frio e amargo.

"Você tem razão, eu não mudei muito..." - disse passando perto de Camus e dando um esbarro nele - "Já você não é a pessoa que eu achei que continuaria sendo. O treinamento realmente muda as pessoas...".

Camus realmente tinha mudado. A separação de seu pai forçosamente e o rígido treinamento em um lugar tão frio que quase não recebia sol não poderia permitir que o rapaz se transformasse em uma pessoa alegre e sem cicatrizes. Se afastar das pessoas talvez fosse o suficiente para viver uma vida segura e sem fortes emoções. Contudo...

"A gente se vê" - disse Milo indo embora para a casa de escorpião.

Pela primeira vez em muito tempo, Camus temeu estar cometendo alguma injustiça, pois Milo era o único com quem conseguiu se relacionar em tão pouco tempo dentro do santuário.

Pelo jeito ia trabalhar sozinho.


Mais tarde Camus foi procurar Aiolia para conversar sobre Aiolos, quem sabe teria alguma idéia de como ajudá-lo. Entrou no templo de leão e esperou até ser recebido pelo cavaleiro. Não demorou muito para sentir um cosmo poderoso se aproximar e um par de olhos verdes encará-lo de forma penetrante.

"Quem é você? O que faz na Mansão de Leão?".

Camus esboçou um sorriso ao ver que o cavaleiro, apesar de poderoso e, ao contrário de Milo, não ostentava sua armadura dourada, mas sim uma simplória roupa de metal barato e couraça de boi rústica.

"Não está me reconhecendo, Aiolia?".

Aiolia olhou com atenção e logo esboçou um sorriso de canto de boca:

"AH! Você mudou bastante, Camus. Espero que tenha ficado menos chorão... hahaha".

Assim como Milo, Aiolia era caloroso com as pessoas e, para infelicidade do cavaleiro de Aquário, sabia demais.

"Hu-hum. Já ouvi isso hoje. Fico feliz que tenha conseguido se sagrar cavaleiro de leão, onde treinou?".

"Treinei aqui mesmo no Santuário, já se esqueceu?".

"Mesmo depois do falecimento de seu irmão? Não precisou procurar outro mestre?".

Aiolia cerrou seu sorriso e logo Camus percebeu que escolheu a maneira errada de começar sua conversa.

"Sim. Apesar disso sim" - destilou - "Veio bater um papo?" - perguntou desconfiado.

"Mais ou menos".

"De qualquer modo, vamos comer alguma coisa e nos sentar, odeio longos papos a seco".

Eles se dirigiram para o interior da casa que era bem diferente da de Aquário, mais ampla, quente e com mais claridade. Foram a cozinha, serviram-se de bolo de frutas e uma taça de vinho, depois se dirigiram para uma sala onde poderiam conversar em paz com os cálices ainda em mãos.

Para sua sorte, Aiolia gostava de falar sobre si mesmo, então pouco coagia sobre seu passado ou treinamento e quando não teve escolha e Camus teve que falar sobre isso, não se deteve em detalhes.

"Então, tem sido assim desde que o novo Mestre assumiu. Ele não gosta de estrangeiros e repudia qualquer um que vá contra suas ordens. Não estou questionando sua autoridade, mas me pergunto se seria necessário tudo isso".

"Compreendo, também não acho que esse tipo de atitude melhore em alguma coisa sua imagem, mas como dizia Maquiavel : "é melhor ser temido do que amado".

"Você teve bastante tempo para se instruir também. A Sibéria não devia ter muitas livrarias".

"Realmente, mas a minha sorte era que podia encomendar livros duas vezes por ano com um andarilho que comprava produtos de luxo e levava para o interior. Meu Mestre me deixava realizar algumas regalias".

"Sorte sua" - disse um pouco amargamente lembrando-se do seu próprio mestre.

"Aiolia, tenho um favor para pedir".

"Estava pensando quanto tempo mais demoraria em me contar o motivo real de sua visita" - disse cruzando os braços diante do peito e sorrindo - "Se eu puder ajudar".

"Eu quero encontrar meu pai que não vejo há muito tempo, mas o Grande Mestre diz que não pode me ajudar".

"Se ele não pode, não imagino como eu...".

"O caso, Aiolia, é que quando cheguei à Grécia seu irmão nos recebeu então queria saber se ele não comentou nada com você, sei lá, qualquer coisa".

"Ele não comentava sobre suas missões comigo, era muito ético e não misturava as coisas" - respondeu a contragosto.

"Qualquer coisa ajuda, será que ele não teria guardado algum endereço, número, sei lá...".

"O que você acha? Que eu tenho uma caixa cheia das coisas do Aiolos?" - perguntou incomodado - "Lamento, Camus. Mas, depois de tudo o que aconteceu eles queimaram minha casa inteira, não sobrou nada".

Camus sentiu-se incomodado com aquele relato, sentindo que havia transposto a tênue linha da intromissão e da curiosidade.

"Desculpe".

"Bom, agora, se me dar licença eu tenho que ir treinar na arena e ajudar alguns aprendizes" - disse levantando-se da cadeira.

"Foi bom te ver, Aiolia" - disse Camus também se levantando

O cavaleiro de Aquário saiu um pouco cabisbaixo, pensando em uma outra possibilidade para conseguir alguma informação que levasse a seu pai. E o pior é que não tinha tanta familiaridade nem com a Grécia, com as pessoas e certa desenvoltura para ficar se expondo. Talvez, devesse ter aceitado a ajuda do Milo. Era cedo demais para se arrepender, concluiu, daria mais um tempo para que não tivesse que apelar para aquele escorpiano arrogante e sociável demais.