Capítulo Sete – Adolescência
Algum lugar da Escócia, 1971
- Bom dia! – Alice cumprimentou Lily assim que se sentou à mesa da Gryffindor.
- Oi, Liz!
- Por que está tão desanimada? – a loira quis saber, servindo-se de suco de abóbora enquanto observava o rosto em forma de coração da ruiva.
- Não sei – deu de ombros, pegando um pouco de suco para si também.
- Ora, Lily, acabamos de voltar para Hogwarts depois das férias de verão! O que pode ter acontecido para você ter ficado tão triste?
- Meu pai, Liz... – ela murmurou, a voz quase sumindo dentro do copo de suco que segurava inerte em frente à boca. – Ele não estava muito bem quando voltei para passar o verão. Pálido, abatido...
- Vai ver ele pegou uma gripe – Alice respondeu, espantando os maus agouros com um gesto de mão. – Não se preocupe, amiga. Eu te ajudo a escrever uma carta para a sua mãe mais tarde, ok?
Lily sorriu. Ela e Alice eram realmente muito ligadas. Foram assim quando crianças e, mesmo depois de se separaram quando ela se mudou de St. Giles, quando se encontraram no Expresso de Hogwarts três anos atrás foi como se nenhum tempo houvesse passado. Ela e Alice eram quase tão gêmeas de gênio quanto Alice e Thea eram biologicamente.
Vendo a outra amiga entrar pelas portas do Salão Principal e acenando para ela, a ruiva sorriu. Thea também era uma grande amiga. Quando ela precisava de um ouvido paciente ou de um conselho ponderado, a outra gêmea era perfeita para solucionar os problemas. Thea tinha um raciocínio rápido e brilhante que muitas vezes salvara Lily de passar noites angustiada por causa de alguma besteira.
- Bom dia – a garota cumprimentou timidamente, e não foi respondida apenas por Lily e Alice.
Na verdade, boa parte dos alunos do terceiro ano e séries abaixo responderam ao cumprimento dela. Lily e Alice trocaram um olhar sugestivo enquanto observavam a amiga se servir de um pedaço de bolo de morango.
- Tudo bem com você, Lily? – a hufflepuff perguntou.
Lily ergueu uma sobrancelha. Thea era sempre a primeira a notar quando ela estava triste ou angustiada. Sempre se perguntara se a amiga tinha algum dom especial, mas nem ela nem Alice comentavam nada a respeito.
- Sim, meu pai estava meio doente quando fui pra casa no verão – ela explicou, olhando ansiosa para a amiga à espera de um comentário.
Thea ponderou por um momento antes de replicar:
- Se ele estivesse realmente doente, estaria num hospital, não?
- É... – ela não tinha pensado nisso antes. A ruiva queria socar a própria cabeça. – Ele tem uma saúde frágil desde menino.
- Por isso mesmo. Sua mãe não arriscaria perder o marido por teimosia – Thea sorriu. – Ele deve estar bem.
E porque a amiga era muito mais ponderada que sua irmã, as mesmas palavras ditas por uma boca diferente conseguiram acalmá-la.
- Ah, vocês não vão acreditar – exclamou Lily, lembrando-se da novidade que tinha para contar. - Petúnia está noiva!
- Quê? – Alice quase deixou o copo cair das mãos. – Me desculpe, Lily, mas quem ia querer a égua da sua irmã?
- Um touro – foi a resposta da ruiva, pegando as gêmeas de surpresa e fazendo todas rirem. – O nome dele é Dursley. Vernon Dursley. Ele começou a trabalhar numa firma de brocas no ano passado e comprou um carro. E vocês sabem como minha irmã é materialista.
- Ela está vendo o potencial do futuro noivo – Alice completou, e Thea concordou com um gesto de cabeça. – Ele é bonito?
Lily riu quase que escandalosamente, chamando inclusive a atenção de um quarteto que, até um ano e meio atrás, não conseguia ficar junto no mesmo lugar. James, Sirius, Peter e Remus olharam as três garotas e depois voltaram aos seus assuntos.
- Eu não disse que ele era um touro? – a ruiva continuou, fazendo as amigas rirem também. – É gordo como uma baleia, na verdade. Eu mal consegui ver o pescoço dele. Tem um bigode horroroso e parece que vai ter um ataque cardíaco a qualquer momento.
- Usa aquelas roupas apertadas pensando que vai parecer que é forte em vez de gordo? – Alice perguntou.
- Isso – Lily concordou. – Precisavam ver no dia que ele chegou lá em casa com o cabelo cheio de gel.
A conversa animada foi interrompida minutos depois por McGonagall, que entregava os novos horários aos seus alunos.
- Aqui, Srta. Evans. – Procurou entre os pergaminhos em sua mão e rapidamente estendeu um para ela. – Como as senhoritas estão sentadas à mesa de minha Casa, seus respectivos diretores me pediram para entregar seus horários – ela completou, dando a cada uma das gêmeas um pergaminho igual ao da amiga.
- Obrigada, professora – as duas agradeceram em conjunto, e logo as três conjeturavam sobre suas novas grades horárias.
- Pra quê vocês duas colocaram Estudo dos Trouxas na grade? – Alice perguntou por fim, sentindo-se excluída por não ter aquela aula com elas.
- Pode servir para ganhar pontos na hora dos NOMs – Lily respondeu, pacífica. – Eu estou pensando em me candidatar a auror, se Você-Sabe-Quem continuar a ganhar poder.
- Sério? – Alice sorriu, seus olhos brilhando. – Eu também!
- Vocês não são as únicas – um menino se intrometeu na conversa. Lily sorriu e apresentou Frank Longbottom às amigas. – O Ministério da Magia anda mesmo precisando de mais aurores, e tem muita gente aqui que já teve alguém da família assassinado por Você-Sabe-Quem. Essas pessoas falam em montar um grupo mais ativo contra ele.
- Eu ia adorar – Alice respondeu, empolgada com a idéia. – Uma sociedade secreta protegendo a humanidade das forças das trevas.
Frank riu. Ele estava um ano à frente delas e, portanto, considerava-as crianças demais.
- Não seja tão sonhadora, McFusty. A realidade é bem mais crua do que parece – ele respondeu, ficando sério. – Meu pai é auror. Nós já quase o perdemos umas três vezes desde o ano passado. O Lorde das Trevas está ganhando cada vez mais poder.
- Não sou sonhadora, Longbottom – Alice retrucou, amuada, e Lily e Thea seguraram uma risada. – Sou corajosa. Não tenho medo de entrar numa batalha.
Ele apenas meneou a cabeça, sorrindo.
- Você está no Clube de Duelos, não é? – ele perguntou, fitando-a com um olhar superior.
- Sim – ela respondeu, cruzando os braços na altura do peito.
- Se eu pudesse fazer dupla com você, talvez pudesse te mostrar um pouco do que vai encontrar numa batalha real.
- Ué, se não podemos fazer isso no Clube de Duelos, faremos em outra hora.
A resposta dela pegou os outros três totalmente de surpresa.
- Liz... Você está falando em burlar regras e sair pra duelar depois do horário de recolher, não é? – Thea perguntou, sabendo qual era a resposta.
- Exatamente – a irmã respondeu, convencida de que estava certa. – E não venha me dizer que vai dar errado. Eu quero aprender a lutar, duelar de verdade. Quero mostrar para esses bastardos que matam pessoas como nós com quem eles estão lidados. A vida é um dom precioso, e nós não podemos decidir quem vive e quem morre.
Tal declaração vinda de Alice era ainda mais chocante. Qualquer um deles teria feito um comentário acerca do assunto se os professores não tivessem começado a se levantar naquele momento e, como eles, os alunos que teriam aula logo após o café da manhã.
- Vou cobrar a idéia, McFusty – Longbottom disse pegando sua mochila.
- Vou ficar feliz em pagá-la, Longbottom – foi a resposta dela.
O novo ano na escola estava cheio de novidades. Eles poderiam assistir aulas de matérias como Adivinhação, Aritmancia, Estudo dos Trouxas e Runas Antigas. Também estavam autorizados a participar dos diversos clubes espalhados pela escola (grupos de estudo, clubes de xadrez de bruxo, snap explosivo, duelos...).
Muitos deles, como o Chapéu Seletor previra, mostravam grandes habilidades que os haviam colocado em clubes antes do tempo necessário. Alice havia entrado no Clube de Duelos já no primeiro ano, junto com Remus Lupin. Lily e Severus tinham aulas com o Slughorn sobre poções de níveis avançados desde o ano anterior. Thea e Kevin tinham as aulas de controle da empatia com Dumbledore, secretamente.
Quando Thea dirigiu-se para a aula de Estudo dos Trouxas, Lily e Remus a acompanharam depois da ruiva se despedir de Alice.
- Você vai ter várias aulas comigo esse ano – Lily murmurou para a amiga ao comparar seus horários. – Posso ver o seu também, Remus?
O rapaz entregou o pergaminho sem questionar. Lily arranjou os três juntos e observou as grades.
- Na verdade, nós três vamos ter um monte de aulas juntos. Herbologia, como sempre, Estudo dos Trouxas, Aritmancia e Runas, além de História da Magia – sorriu e entregou os horários de volta aos seus donos. – Você vai ter Feitiços com a Slytherin, Thea.
A garota ergueu uma sobrancelha e observou o pergaminho. Não tivera tempo de olhar toda a grade ainda, mas Lily estava certa.
- Astronomia também – murmurou, sentindo-se um tanto nervosa ao pensar na situação.
Tudo que ela mais quisera nos dois primeiros anos em Hogwarts era uma aula que compartilhasse com Severus, mas os deuses não a haviam escutado. E então, de repente, duas aulas com a Slytherin... Ela já não sabia se ficava feliz ou não.
Tanta coisa havia acontecido nos últimos seis anos que ela tinha medo de falar com ele e descobrir que já não seriam os mesmo amigos de antes. Ela tinha uma preciosa imagem dele como o amigo que a acompanhara durante um dos piores anos da sua vida, e ainda lembrava a devastação que ele deixara quando fora morar com os avós. Ela não sabia se estava pronta para enfrentar o que ele se tornara.
Apesar de ter olhado para ela no dia da seleção, ele não fizera mais nenhum movimento para aproximar-se dela de novo. Thea ressentia-se daquela distância, mas sabia que era necessária. Alice e Lily ficaram loucas quando perceberem que ele as ignorava totalmente, a não ser que estivessem na mesma aula, e fora ela quem acalmara as garotas até que elas desistissem do plano de raptá-lo, trancá-lo numa sala com elas e jogar a chave fora.
Ela tinha esperanças de que ele descobriria um jeito de falar com elas, mas à medida que os anos passavam, ela já não estava certa se ele queria voltar a ser amigo delas. Foi, então, com grande nervosismo que ela o viu parado à porta da sala de Estudo dos Trouxas, esperando com os demais alunos que se afastavam dele tanto quanto podiam.
Ele continuava anti-social e assustador, isso era certo. Ela quase sorriu ao ver o modo como ele rodava os olhos de impaciência ao fitar os outros. Mas nenhum deles era mais um estranho que fazia coisas esquisitas acontecerem. Agora estavam cercados de magia por todos os lados e sabiam que não chegavam nem aos pés de outros bruxos.
Mas ele certamente sabia como machucar alguém. Ela ouvira os rumores de que até mesmo os alunos do sétimo ano tinham um certo receio de ficarem perto dele. Para ela, ele sempre seria um garotinho que fora muito magoado por outras crianças e fechara-se para o mundo antes que mais alguém pudesse feri-lo.
- Não estou entendendo... – Remus murmurou ao ver que não só o slytherin estava ali, mas alguns ravenclaws também. – Vão reunir todas as casas num único dia?
- Parece que sim. O grupo é pequeno mesmo. A maioria dos estudantes não se importa com trouxas ou tem verdadeiro asco por eles para estudá-los – Lily comentou. – Me surpreende que tenha um slytherin no grupo.
- Snape... – Remus murmurou, pensativo. – Ele é realmente uma figura ímpar no meio do resto de nós.
- Deixem-no em paz – admoestou Thea, emburrada. – Ele tem o direito de fazer essa aula tanto quanto nós.
- Não me importa que ele esteja na turma, Theodora – Remus retorquiu, chateado pelo modo como ela o defendera. – Meu problema é com a motivação dele. Isso não está me cheirando bem.
Normalmente ela apenas deixava passar os comentários rudes que ouvia sobre o amigo, mas fazer isso com ele presente era outra situação. Lily viu as bochechas da amiga corarem de raiva e fez com que Remus ficasse para trás enquanto Thea andava quase marchando até o grupo que esperava do lado de fora da sala.
- Não fale mal do Snape perto da Thea, Remus – Lily pediu. Diante do olhar confuso do amigo completou com uma meia-verdade: – Eles se conheceram antes de entrarem em Hogwarts. Eram amigos. Ela ficou muito triste quando ele se mudou e os dois nunca mais se falaram desde então.
Remus lançou um olhar arregalado para a dupla mais adiante. Theodora e Snape apenas encaravam um ao outro, achando que ninguém os observava.
- Ela e Snape? – perguntou, atônito.
Lily assentiu. Ele bufou e sorriu amarelo.
- Isso é surpreendente. Um slytherin e uma hufflepuff é quase tão improvável quanto um slytherin e uma gryffindor.
Lily resolveu convenientemente esquecer de mencionar que ela também era amiga do garoto.
- Não a chateie com isso, está bem? – a ruiva pediu, e o colega de casa assentiu em concordância involuntária. – E veja se cuida pra que a dupla de idiotas que anda com você também não faça isso.
Remus sorriu ao ouvi-la chamar James e Sirius de idiotas. Se ambos soubessem daquilo, a ruiva estaria em sérios problemas.
- Vou fazer o melhor que puder – ele prometeu, e recebeu um sorriso e um beijo na bochecha que o deixou terrivelmente embaraçado.
Ela parou propositadamente ao lado dele. Os ravenclaws que os circundavam simplesmente lançaram olhares que diziam claramente "você é louca" e voltaram a conversar entre si. Thea podia não ser a mais ativa das criaturas, mas sabia que às vezes era melhor enfrentar os medos o mais rápido possível.
Ele lançou-lhe um breve olhar de desdém – necessário devido à "platéia", ela disse a si mesma – e continuou analisando um pergaminho no qual estivera escrevendo recentemente. Ela olhou em volta e esperou que os ravenclaws olhassem em outra direção antes de voltar-se para ele.
- Bom dia – murmurou somente para ele ouvir.
Haviam passado seis anos separados, e as primeiras palavras que ele ouvia dela eram "bom dia". Bastante irônico - ele pensou, deixando um sorriso frio tomar conta do seu rosto.
- Bom dia – retornou o cumprimento.
Ela sentiu o coração falhar uma batida ao receber as palavras. Sabia que estava agindo como uma boba, mas sentira mesmo muita falta dele. Resistiu ao impulso de pular em cima do garoto e abraça-lo até que ele sufocasse, respirou fundo e, corando, baixou a cabeça.
Severus observou a transição de sentimentos através dos olhos cinzentos e depois o rubor subindo à face dela. Thea estava com os longos cabelos platinados presos num rabo de cavalo que deixava o rosto redondo adoravelmente visível. Ele sorriu quando a viu baixar a cabeça. Thea continuava a mesma garotinha quieta e um pouco tímida que ele tivera como amiga por apenas um ano.
Seus dedos formigaram, querendo passear entre as madeixas douradas. Ele sempre achara o cabelo das gêmeas bonito, o total oposto do seu. Alice havia cortado os cabelos muito curtos, enquanto Thea deixara os seus crescerem bastante. Estavam quase à altura da cintura e pediam para serem tocados de tão brilhantes.
A porta da sala abriu e o professor de Estudo dos Trouxas chamou os alunos para a aula. Bufando sob a respiração, Severus ajeitou a mochila nos ombros e entrou com os ravenclaws, deixando Thea para trás. A garota, entretanto, não demorou a segui-lo. Sentou-se na carteira ao lado da dele, Lily e Remus logo atrás dos dois.
Andrew Frost, como o professor se apresentou (e aquele nome não lhe era de todo estranho, pensou Severus), era um auror aposentado por deficiência física, uma perna que sofrera danos durante uma batalha. Fez a chamada dos alunos, que eram sete ao todo.
- Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado anda se intrometendo até mesmo nos interesses dos alunos – ele começou, escorado na mesa e encarando os sete rostinhos jovens que o analisavam. – Vocês foram os únicos corajosos o suficiente para afirmarem sem rodeios que se interessam pela vida das pessoas que não têm magia. Ganharão cinco pontos cada um por tal bravura.
Os garotos estavam começando a gostar mais do estranho professor.
- Agora, gostaria que se apresentassem aos outros membros da turma e falassem por que se interessam pelos trouxas. Você primeiro, Cornett.
Os alunos da Ravenclaw foram os primeiros a se apresentar. Os três eram nascidos-trouxas, assim como Lily. Remus Lupin, Severus logo descobriu, era filho de um aborto com uma bruxa, e a falta de magia do pai dele o deixara curioso sobre o estilo de vida dos não-mágicos.
- Meu nome é Theodora McFusty e eu sou da Hufflepuff – Thea começou sua apresentação. – Vivo na Londres trouxa quase desde que nasci.
Andrew assentiu com a cabeça e seguiu para o último: Severus.
- E você, Sr. Snape?
Severus sabia muito bem que não precisava ser apresentado.
- Sou mestiço – foi sua única resposta.
Aquilo não era exatamente um segredo de estado, mas mesmo assim, Lupin e os ravenclaws pareciam surpresos ao ouvir sua afirmação.
- Muito bem. Creio que todos aqui serão capazes de me dizer o que é isso – o professor abriu uma gaveta e tirou de lá um telefone.
- Isso é o motivo dos meus pais discutirem no fim do mês – um dos ravenclaws zombou, e os outros riram.
- É verdade, Sr. Matthews, um telefone na mão de uma dama pode ser muito perigoso – o professor concordou, sorrindo. – Para que isso serve?
- Para fazer ligações, falar com pessoas – Lily respondeu.
- Muito bem, senhorita Evans. Agora, quem quer ganhar cinco pontos me contando como o telefone funciona?
Sete mãos ergueram-se no ar.
Quando a aula terminou, o professor era um dos mais queridos da pequena turma. Frost abriu a porta para os alunos da Ravenclaw e da Gryffindor, que saíram apressados para a próxima aula, e trancou-a por dentro. Severus e Thea, que ainda estavam lá, se entreolharam ao ouvir o barulho da porta fechando.
- Algum problema, professor? – Severus perguntou, deixando a mão entrar casualmente no bolso onde sua varinha ilegal estava escondida.
Se o homem havia fechado a porta, deveria estar planejando fazer algo que não queria que ninguém mais soubesse. E Severus já tivera encontros demais com garotos que escondiam fatos e o machucavam para acreditar que o homem não tinha nenhuma má intenção.
- Nenhum, garoto. Eu apenas queria falar com você a sós – Frost respondeu, sentando-se à mesa do professor. – Se quiser ir, Srta. McFusty, está livre.
Thea olhou de um para outro e respirou fundo.
- Eu fico – pôs uma mão, companheira, sobre o braço do amigo.
- É melhor você ir, McFusty – Severus disse, e ficou surpreso ao ver o professor concordar.
- É um assunto pessoal do Sr. Snape, Srta. McFusty. Creio que ele preferiria tratar disso em particular – explicou, gentilmente.
Certamente aquele dia estava sendo estranho para ela, principalmente por conta de suas próprias reações.
- Eu gostaria de ficar – sussurrou para o garoto, os olhos pedindo para que ele a deixasse permanecer na sala.
Severus rodou os olhos e apertou mais a varinha no bolso.
- Ela é de confiança – disse ao professor, que ergueu uma sobrancelha em surpresa. Thea apenas sorriu.
- Está bem. – Frost levantou-se e se aproximou dos garotos, parando a poucos passos dele quando percebeu a mão de Snape escondida no bolso. – Alguns dias atrás, minha irmã, que também é auror, foi atender a um chamado em Sheffield.
Severus semicerrou os olhos, tentando raciocinar com aquele pedaço de informação. Seu pai era operário em Sheffield quando ainda estava vivo. Os pais dele, seus avós paternos, viviam por lá há mais de duas décadas, atraídos pelo breve boom industrial do local.
- Você reconhece esta casa? – Andrew mostrou a ele uma foto que tirou do bolso.
Os garotos observaram a construção carbonizada e quase totalmente destruída.
- Essa não é a casa dos seus avós? – Thea perguntou ao amigo, preocupada.
- Sim – ele confirmou, assentindo com a cabeça.
- Um chamado foi feito ao corpo de bombeiros da cidade na última terça-feira às cinco para a meia-noite. Houve uma explosão num dos bairros periféricos e um dos vizinhos, quando foi averiguar a situação, viu o fogo. Os corpos dos seus avós foram encontrados carbonizados no quarto onde dormiam.
- Oh, Severus... – Thea sussurrou, pesarosa, agarrando uma das mãos do amigo.
Ele não sentia nada em relação àquilo. Seu pai não gostava de levar a família para visitar os pais. Seu avô era anglicano e considerava qualquer menção à bruxaria como uma passagem sem volta para o Inferno. O resultado era que o neto – frequentemente acusado de estar possuído por algum demônio – passou a ficar em Londres com a mãe enquanto Tobias viajava para visitar os pais.
Mesmo assim, aproveitou o contato gentil das mãos de Thea sobre a sua para manter o equilíbrio.
- Não se preocupe – murmurou para ela e devolveu a foto ao professor. – Tem dedo do Lorde das Trevas nisso?
- Não, foi puramente um incidente – ele esclareceu, vendo o slytherin respirar fundo, aliviado. – Mas uma preocupação chegou ao Departamento de Aurores.
Severus voltou a endireitar a coluna, alerta.
- O quê?
Frost engoliu seco antes de continuar.
- Sua mãe foi morar com eles há alguns anos.
- Quê?
Os olhos do garoto se arregalaram em choque. Aquela era uma situação que, para ele, era impossível de existir. Virou-se para Thea.
- Mamãe deixou o bairro?
Ela tinha os olhos cheios de pena dele quando assentiu com a cabeça.
- Ela se mudou há alguns anos. A casa está fechada desde então. Ninguém soube para onde ela foi. Mamãe supôs que ela tivesse voltado a morar com você e seus avós.
- Não, ela nunca apareceu na casa deles – Severus negou, nervoso. Virou-se para Frost. – Ela foi pega pela explosão também?
- Não.
A resposta o deixou confuso e, de alguma forma, feliz.
- Mas também não sabemos onde ela está.
- Como assim?
- O corpo não foi encontrado, nem algum indício de que ela tenha estado lá nos últimos três dias antes da explosão. Os vizinhos não sabem o paradeiro dela, nem nenhuma das pessoas que os aurores já contataram.
- Ela está sumida há mais de uma semana? – Severus repetiu, incrédulo. – E porque ninguém nos avisou? Os Prince, eu quero dizer.
Frost passou as mãos pelo cabelo, evidentemente nervoso.
- Eu fui até a mansão, mas o elfo doméstico disse que ninguém estava em casa. Voltei lá no dia seguinte e a resposta foi a mesma. Enviei um amigo do departamento no outro dia, e ele voltou com o mesmo resultado.
- Mas nós estávamos em casa! Eles não estavam viajando...
- Então simplesmente não quiseram me atender.
- Mas... por quê?
- Sua mãe não falava com os pais dela há anos, Sr. Snape.
- Mesmo assim... – Thea interveio, com sua lógica quase infalível. – Como eles saberiam que você era um auror e que estava procurando a filha deles?
- Essa é uma boa pergunta, Srta. McFusty. – Frost sorriu para ela. – Cinco pontos para Hufflepuff por um brilhante raciocínio para alguém da sua idade.
Ela corou e agradeceu baixinho. A mão de Severus continuava dentro do bolso.
- Por que está me contando isso, professor? – ele perguntou, por fim.
Frost encarou-o nos olhos ao responder:
- Seu avô não pode saber que você está ciente do paradeiro (ou melhor, da falta dele) da sua mãe. Ele está sendo investigado.
- Pelo amor de Deus! – Thea exclamou, horrorizada. – Ele é o pai dela! Ele não poderia seqüestrá-la ou... – ela engoliu seco e não terminou a frase.
O professor lançou-lhe um olhar compreensivo.
- Snape, você acha que seu avô é capaz de tomar alguma atitude contra sua mãe para conseguir alguma coisa?
Ele foi pego de surpresa pela pergunta. Ainda estava tentando digerir o fato de que os avós seriam investigados por um possível seqüestro, ou talvez assassinato, da filha deles.
- Eu não sei... Talvez.
Frost bufou, nervoso, então se sentou em uma das carteiras vagas.
- Escute, Snape... Eu fui amigo da sua mãe enquanto ainda estávamos em Hogwarts. Não muito próximos, mas ambos éramos do time de bexigas de Hogwarts. Ela não era muito falante, mas eu também não era, então acho que a amizade funcionava daquele jeito.
- O senhor era amigo da minha mãe?
- Estranho, não acha? – o professor riu. – Do mesmo jeito que eu estranhei sua amizade com a Srta. McFusty logo de cara.
À sua menção, Thea corou e baixou a cabeça.
- Você não tem nada a ver com isso.
- Nem você com o meu passado – retrucou Frost, seco. – Estou apenas querendo dizer que, mesmo aposentado, darei o melhor de mim para ajudar minha irmã e os outros aurores a encontrarem sua mãe, de preferência viva.
- Eu aprecio muito sua ajuda, professor – foi a resposta igualmente dura de Severus. – Vamos andando, Thea. Já estamos atrasados.
- Ela pode tentar entrar em contato com você.
A voz do professor o alcançou quando já estava próximo à porta.
- Eu precisarei saber se ela falar com você, Snape, caso contrário não poderei protegê-la. E ela não tem mais ninguém.
Ele teve vontade de azarar o professor e dizer que ela tinha, sim, mais alguém: ele. Severus poderia cuidar da mãe... se não estivesse em Hogwarts. Como aquele era o caso, simplesmente engoliu os desaforos que tentavam escapar de sua boca e pegou o papel que o professor estendeu para ele e Thea.
- São explicações para seus professores, dizendo que foram retidos na minha sala. Assim não serão punidos – o homem explicou, paciente, e concluiu: – Se precisar de mim para qualquer coisa, Snape, é só falar.
Desta vez, Severus apenas segurou a mão de Thea e puxou-a para fora da sala, sem falar com o ex-auror.
